quinta-feira, 13 de novembro de 2014

LIBERDADE

 
 
 
 
 
 
LIVRE?
 

 A liberdade já passou por aqui:
Pela liberdade acordei,
pela liberdade me vesti e lutei,
pela liberdade, liberdade senti.
 
Imberbe, trajado a rigor
arma na mão desafiei sem temor:
porque a liberdade crescia ali
em sonhos verdes que como homem pari.
 
Noite, viagem, carros de combate,
vento e alento nas mensagens trocadas;
deslizando madrugada adentro
em pequenas vitórias alcançadas:
Confrontos, negociações, desfazer o empate
enfrentar as ilusões na liberdade, com arte.
 
A liberdade já passou por aqui:
Heróis a vilões, cravos e canhões,
soldados fomos e tememos,
o que a História ditará: repercussões
do que realmente somos e seremos.
 
A liberdade já passou por aqui,
sim. Um dia saberei se sobrevivi.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

MEMÓRIAS DE 2013

Páginas  do Meu Diário ( 1º Semestre)

Terça-feira, 8 de Janeiro de 2013 (Miratejo, 09/01 02:25h)

“À espera do milagre”

As sombras da noite, as insónias que me invadem o espírito, o silêncio que me percorre o sangue. Deito-me, apago a luz, mas falta-me fazer algo. A meu lado não tenho ninguém. Comigo só mesmo este livro. Escrevo, escrevo sobre ele as memórias do que sou. A morte aguarda-me no escuro e, por isso, fico acordado, à espreita. A mágoa, o amor perdido. Choro, mas porquê? Por quem? Rasgo-me por dentro. Estou farto de ser vítima. Acorda homem! No entanto, não durmo. Olho em volta e apenas sombras, espíritos que me envolvem e me acusam de ser inerte, sem vida, sem paixão. Sonhos e mais sonhos de vida, sem vida. Projectos de amor, de paz, de família; e uma ponte ruiu mesmo por debaixo dos meus pés. Iludi-me no caminho. Errei na estrada. Sofro então por meus filhos, mas levanto-me para lhes dizer que estou bem, que estou feliz, que continuo a ser um homem de sorte, com o mundo todo à minha volta para viver. Não se preocupem. “À espera do milagre” é um filme estranho, de formas estranhas: os crimes que não cometemos, as penas por que passamos e pagamos. A luz, a vida, a paixão, o amor. Quero dormir, mesmo sobre a cama, apenas com um cobertor por cima, como uma mortalha. Quero viver em paz para morrer em paz com todos. Sim, o amor traiu-me e deu-me uma lição. Choro com ela, sofro muito com ela, mas não há mais nada a fazer. Estou no corredor verde e parece que nunca mais chega ao fim. Deus, estás a ouvir-me?
 
Carlos Alberto

Terça, 15 de Janeiro de 2013 (Miratejo, 23:00h)
“A raiz ao pensamento”

Parece que nada acontece e a vida se aborrece. Acordamos com alegria para que o dia nos sorria. Cantamos uma canção mesmo que só cantarolando para animar as hostes dançando e sambando. E na cozinha com tachos e panelas, à farinha, ovos e açúcar nos atiramos, um bolo tentamos fazer e nem que seja experiência ganhamos. E no ar ficou um cheiro a algo que no fogão se queimou, mas mesmo assim saboroso o bolo se foi e acabou. Portanto, meus amigos, há mais para além da vida e do facto de não ficar nada, experiencia-se a feitura de algo (um bolo) e no fim recebemos obrigada. Porque a felicidade nos transcende, tudo nos pode passar ao lado, portanto, mesmo que a mão emende, amanhã será outro fado. Tenho também o gosto de escrever, da escrita; no entanto, não consigo bem viver, mas com a força bendita invicta tudo pode acontecer. Sei que valho pouco, tenho pouca capacidade, mas o gosto de estar aqui ninguém me tira e por esta vontade e felicidade irei até ao fim da minha vida. É certo que é importante termos o eco do que escrevemos, mas mesmo com o pouco que sabemos temos a satisfação de nós mesmos. E aqui fica um resumo diferente, longe do que imaginei, mas significa o que se sente, mesmo que não seja nada do que pensei. As palavras são ditas com a alma e coração e ficam aqui para sempre gravadas com a força da minha paixão. E porque quero ser feliz é como se fossem a raiz.

Carlos Alberto  
 
Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2013 (Miratejo, 23:10h)

“Nos caminhos do sucesso”
Acreditamos que é possível. Pode não ser fácil, mas estamos no caminho certo. A força unida jamais perderá a esperança. E caminhamos, assim, juntos nessa batalha contra o mal. Somos uma equipa à procura de uma identidade e sabemos estar, como já estivemos em repastos de reis, sentados em mesas de nobreza. No entanto, o clima é agreste. Quase que apetece não sair de casa. Desafiar a intempérie é outra afronta. Mas saímos e ali chegados somos quase vinte mil. Vinte mil vozes em uníssono. Há um momento que quase caímos por terra. Como foi possível chegar-se tão baixo? E sofremos. Quando devíamos estar a glorificar-nos, eis que o diabo nos bate à porta. Atónitos, nem acreditamos. Não tivéssemos nós do nosso lado um santo Patrício e estaríamos a carpir mágoas e a desejarmos não sermos de quem somos, desta estirpe sofredora que parece que gosta de ser chicoteada, masoquista, que gosta de sofrer. A chuva cai impiedosa. Parece que o mundo vai desabar. Mas o milagre acontece. Sorrimos à sorte e vaiamos o diabo que se tinha posto à espreita. Um Cosme de camisola amarela que entortava aquilo, como que manietado, que nós queríamos direito. Não, não nos molhámos No aconchego das bancadas varridas a vento e salpicos de chuva pudemos sorrir do milagre e saborear uma vitória arrancada a ferros. E demos graças a Jesualdos e a Patrícios por termos saído mesmo que só com o pecúlio mínimo no bornal. Mas foi o quanto baste, depois de um sofrimento quase atroz. Saímos felizes da contenda e regressámos a casa, mesmo que não seja à beira-mar. Obrigado, rapazes, apesar de pequenos. E viva o Sporting.

Carlos Alberto

Quarta-feira, 06 de Fevereiro de 2013 (Miratejo, 20:25h)
“Tantas, tantas voltas”

As férias já lá vão, mas continuamos a sentir a nostalgia desses dias que ainda perduram no nosso imaginário, a despeito da distância. E seguem-se os reflexos desses tempos, as emoções, os sentimentos, as palavras que se exprimem, os desejos subjacentes que se incorporam, as mensagens que se transcrevem. E estamos no meio de um desabar de sentidos, com emoções ao rubro. Escrevemos poesia e dizemos o que sentimos: agradecemos o amor, enaltecemos a solidariedade, louvamos a amizade levada ao extremo. E ficámos lá. Agora é a vida real, aquela que nos paga, aquela que nos faz viver todos os dias do ano. Esquecemos o passado, acordamos e saímos para a rua. Há trabalho à nossa espera. Aprendemos. Criamos espaço para aceitarmos o conhecimento que se atravessa no nosso horizonte. Passam os dias, as semanas, os meses e nós já nem nos apercebemos da velocidade com tudo passa. Foi no outro dia e já lá vai um ano. O tempo, esse tempo infinito que se esgota para todos. E não vale a pena esperar porque ele nos rouba tudo, a começar pela juventude. Temos tantas ilusões e, num instante, já não estamos aqui. E já estou até a ver alguém a ler esta página e eu já no outro lado do mundo, na zona dos espíritos e a rir-me da ilusão que tinha quando escrevi estas linhas. Construímos tanta coisa e afinal tudo se resume a um leve sopro que tudo sacode a atira abaixo. Mas é bom ter ilusões. Acreditarmos no amor, que nada é fruto do acaso e para estarmos aqui o mundo deu tantas, tantas voltas. E aqui estamos a sorrir...
Carlos Alberto


Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2013 (Miratejo, 14/02 01:40h)
“A escrever”

Escrevo à noite, escrevo ao tempo, escrevo à solidão. Só sei que escrevo, não a quem ao certo, se a todos, não sei, não. Escrevo nem sequer sei o quê, para quê, que. Que raio de conjunção. Eu quero, mas não sei. Só sei que escrevo. Sim, à noite, noite adentro, com a noite como companhia. Triste, sim, muito triste de estar só e cada vez mais só, que até mete dó. Prometi, no entanto, a mim mesmo escrever só alegrias, falar de sorrisos, de pombas brancas a esvoaçar, sem me lamentar. Escrever como coisas boas, mesmo as que sejam más para que pareçam lindas e que a todos satisfaz. A noite é escura, mas posso sempre acender a luz. Lá fora os homens do lixo recolhem os caixotes, mas agora é tudo feito à base de automatismos, sem archotes. E eu estou aqui a ouvi-los, deitado, de luz acesa para ver o que escrevo. Sim já com óculos novos. Estou feliz por ter óculos novos. Mesmo que tenha passado o dia a “gritar” com toda a gente porque os queria muito. Não consegui controlar-me. Peço desculpa agora, nesta hora. Parei para fazer sopa. Comi três tigelas logo de seguida, de vento em popa. Até estou mal disposto, com um nó no estômago. Mas se calhar não foi da sopa, mas do bolo de iogurte que estive a fazer e que comecei a comer sem o deixar arrefecer... Pois, aí esqueci a raiva. Sozinho, sozinho em tudo para tudo, coitadinho. Um feliz infeliz que escreve à noite para o tempo, o sonho, a ilusão que espreita e o sono que se esquece e nem arrefece. Quero sorrir à noite, ao vento, às sombras que aqui estão. Não queria estar sozinho, não. Mas estou. Estou no lugar que mereço, enfiado entre cobertores. Mas não estou a recolher o lixo, lá fora, nem sob a intempérie. Estou aqui a escrever sem tremer.
Carlos Alberto


Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2013 (Miratejo, 19/02 00:40h)

“Na hora dos aflitos”
Nada para fazer, nada para dizer, tudo para acrescentar. A vida, a hora, o sentido, a luz. Palavras que se escrevem apenas para se honrarem compromissos. Como uma espécie de interlúdio antes que cheguem as grandes decisões. A escrita, esse mundo estranho de letras que se juntam e que formam palavras. E estas até podem ser de ódio ou de amor. E a propósito: neste momento estou numa fase em que não sinto amor especial por alguém, além, claro, dos meus filhos e irmãos. Os tios estão longe, nunca me ligaram nenhuma. Os primos estão todos bem na vida e também se afastaram, cada um na sua. Mas quem ao certo se afastou de quem? Pois, restam as palavras. Sonhos que tornamos realidade nua e crua, como na vida. Há montanhas, ratos, Natais, meninos e meninas e há palavras por dizer: ovos, sopa, bolos para comer. Há a cozinha, o tempo que sobra das palavras e nos dispõe. Que bom que é ter na mesa a sopa que confeccionámos: as batatas, as ovas, ovos e cenoura, tudo cozido e regado com um bom azeite e que preparámos. No fim, como sobremesa, ainda há um bolo de iogurte, cada vez mais perfeito. Fome? Já não passaria fome. As conversas com as palavras estão assim a ficar para trás. Só os traumas não. Tenho ainda raiva e acho que vou tê-la até ao último suspiro da minha vida: alguém me roubou a felicidade que tinha e deitou-me para o lixo. Alguém me abandonou achando que tinha muito melhor ali mesmo ao lado, à mão de semear. Deixou-me na lama, a apodrecer. E da lama estou ainda a tentar sair, mas às vezes atolo-me e sofro angustiado pelas palavras que gostava de escrever e que não sou capaz. Sinto-me frustrado pelo que sou e pelo que me tornei. Até quando?
 
Carlos Alberto

Segunda-feira, 11 de Março de 2013 (Miratejo, 19:00h)
“No silêncio das palavras”

Acordo para um novo dia, mas sem esperança de que ele me possa trazer algo de novo. Não tenho nada para fazer e o meu espírito esvazia-se nesse mesmo momento. Todavia, levanto-me, visto-me e saio de casa. Levo uma revista debaixo do braço para ler. Na rua, o clima está péssimo. Chove a potes e empunho na mão um guarda-chuva. No entanto, a manhã já quase passou. Aliás, o tempo esgota-se a um ritmo impressionante. Não damos conta e até ao que nos rodeia ficamos absortos. Chega assim depressa a hora do almoço e na mesa “redon”, além da célebre sopinha que já foi a melhor do mundo. Depois, computador e porcarias. Porcarias e computador. Enquanto isso, a tarde avança, intrépida, fria e chuvosa também. Um pouco de leitura para encher o tempo cinzento. Meia dúzia de minutos com a minha filha mais velha, de manhã e depois do almoço. Ela ainda trabalha. É das poucas pessoas que ainda tem trabalho neste país cada vez mais miserável. Foge-me a tarde. Passo pela padaria e trago pão quase quente para o lanche/jantar. Há mais sopa para comer onde incluo um naco de chouriço de cebolada que a minha irmã me vai oferecendo. (a razão porque gosto cada vez mais dela). Delicio-me. Sabe-me muito bem. E cai a noite, impiedosa. O meu sossego quebra-se com a porta da rua a abrir-se. Já não estou só aqui em casa, mas preferia. A companhia não me trás alegria. Há momentos em que estar só vale mais que mil pessoas juntas. O ruido instala-se e eu preferia o silêncio dos meus ecos, a cor da minha sombra, as luzes do meu torpe pensamento. Sobram-me as fotos de viagens de ontem e de sempre: o meu tempo, o meu espaço. Estar comigo mesmo.
Carlos Alberto

 
Quinta-feira, 25 de Abril de 2013 (Miratejo, 26/4 01:10h)
“Pelo meu país”

Os foguetes ecoaram noite dentro, meia-noite, madrugada da libertação. As vozes do povo ergueram-se e cantaram a liberdade numa canção. As pessoas saíram à rua e os cravos espigaram na ponta das espingardas. Foi uma festa, a alegria, a vitória dos oprimidos sobre os opressores, contra os horrores. Acabaram os presos políticos. Os contestatários foram todos libertados, uma nova canção nasceu, seja em Grândola, seja em Lisboa, nada aconteceu à toa. A minha pátria voltou a sorrir, a minha voz voltou a ouvir-se e já não fui para a guerra e vi-a sumir-se. Aqui e na minha terra, Santarém ou no Terreiro do Paço, a fera sucumbiu ao cansaço. Estive no Camões que se encheu de poetas e esvaziou de ladrões. Lembro-me das fardas da GNR, militares perfilados, em parada, armados até aos dentes, e eu imberbe, de arma na mão, mal sabia o que fazia, não. Não sabia. Acabar com a guerra colonial, salvar o meu país, Portugal, e na fúria de vencer, vi o povo a meu lado erguer, e o medo, o terror de morrer se perdeu, o povo saiu à rua e venceu. Pela noite dentro e durante o dia fui soldado, numa História que nunca se viveria, não fossem homens como Salgueiro Maia, idolatrado. Ainda me lembro naquela noite, acordado, da parada para o anfiteatro em que nos disse ”amigos, vamos salvar Portugal, acabar com a guerra colonial”. Uma noite fantástica e memorável aquela, em cima de uma camioneta, rumo a Lisboa pela madrugada fora soando aquela canção de vitória, ouvida no silêncio, com paixão e alegria contida no medo do que estaria por vir. E de manhã, na aurora de uma novo dia, nascia um país novo que pela pátria morreria. Foi há trinta e nove anos, parece que foi ontem.

Carlos Alberto

Sexta-feira, 21 de Junho de 2013 (Torre da Marinha, 22/6 01:45h)
“E deixa-nos a noite”

Escrevo à noite, ao que resta dela, ao silêncio deste quarto, na penumbra da luz que me inspira. São os sentidos da alma, a nostalgia da escrita, o momento imediatamente antes de me deitar para baixo, de deixar cair a cabeça sobre a almofada, deixar-me ir na onda dos sonhos e descansar. É a hora de dizer até amanhã. Hora, no entanto, de deixar primeiro o testemunho, a mensagem de que houve vida, há vida e também paz. Sim, há tudo isso, mas falta algo: falta o amor; e esse só existe aqui nas palavras que transcrevo. Na minha alma há, no entanto, essa frustração. Não fui capaz de cativar, de guardar para mim algo que eu merecesse, esse carinho essencial à vida dos seres. Mas não foi só aí que falhei. Não fui capaz de muita coisa, não fui suficientemente competente. Por outro lado, achei sempre que o tinha sido, que procurava ser melhor em tudo o que fazia, mas afinal estive enganado o tempo todo e errei nos meus critérios de avaliação. Todavia, “o bem não está perdido”. Encontro então, na esquina, a gratidão de outra gente que me apoia e ajuda e me dá um pouco do ânimo de que preciso. Pode até ser um encontro de trabalho, mas até isso é bom e reconfortante nos tempos que correm, tão difíceis estão os dias de hoje para a maioria das pessoas. E afinal não somos o centro de nada, como pensávamos, a não ser de nós mesmos.  Sim, é bom ter trabalho. É bom sair de casa e cinco minutos depois estarmos sentados num escritório à secretária, diante de um computador. Como seria bom para mim que o trabalho fosse permanente, que tivesse a ajuda que preciso. Mas infelizmente, não é assim, tudo é temporário. E resta-me aqui nesta noite silenciosa escrever e o sentir da minha respiração que agora se acalma e preparar-me, enfim, para mais uma deliciosa noite de sonhos...

Carlos Alberto

 PS: Fiz, como habitualmente, ligeiríssimas alterações muito pontuais nalguns textos. Por outro lado dizer que estes resumos são páginas manuscritas que estão lá para trás no tempo e valem o que valem. “Não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe”.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

QUERIDO PAI

A paixão pode surgir-nos e manifestar-se das mais diversas formas. E o amor, sempre o amor está presente, mesmo que as circunstâncias sejam díspares.
 
E hoje que foi um dia muito especial para mim, já era, no entanto, desde há muitos anos atrás e por razões bem mais dolorosas e diferentes.
 
Fatalmente, nesta data, há trinta anos atrás, meu Pai descia à terra.
 
E ainda me lembro dele, do seu rosto de sofrimento, daqueles seus olhos verdes lindos a olhar para dentro, enquanto se agarrava às grades da cama, no hospital, nos seus últimos dias aqui connosco.
 
Depois recordo-me que brinquei com ele, deitado na sua carruagem de pinho, enquanto a noite nos preparava para a sua  última viagem, dizendo-lhe que me parecia o Pai Natal, tal era o seu aspecto castiço com aquele algodão em volta do pescoço para esconder a sua doença. 
 
Além de um poema, deixamos-lhe também um baralho de cartas para ele jogar com os amigos, como ele tanto gostava. Vi-o então a sorrir, com aquele olhar doce que tinha e disse-nos adeus.
 
Partiu, enfim, "desta para melhor", mas apenas fisicamente. Hoje ainda o sinto a olhar para mim, e a proteger-me. Pai galinha mesmo. Se juntarmos a isto o amor que a minha mãe também me dava, sinto-me cada vez mais vigiado por eles e não posso pôr o pé em ramo verde.
 
"Não vás por aí, vai por ali", estão sempre a dizer-me e a corrigir-me, ora um, ora outro, ainda hoje; grandes carraças, não me largam. "Já sou grande" tento dizer-lhes, mas eles é que mandam. "Eu sou uma autoridade" diz-me sempre ela, como frequentemente nos dizia quando nos repreendia das asneiras que fazíamos.
 
Aqui chegado, trinta anos depois, outros sorrisos, outro amor, outra paixão.
 
Subimos as escadas e o rio abraçou-nos, beijou-nos o rosto, acariciou-nos até à alma. Os barquitos lá em baixo, baloiçava-nos como um sonho e fomos rio acima, ofegantes, até nos perdermos na paixão da paisagem. O Cristo Rei olhava para nós, abençoando-nos, primeiro, mas depois, com vergonha, acabámos, no cimo das escadas, escondidos por detrás do arvoredo, longe do seu olhar para consumarmos aquilo que era o nosso desejo, apenas com o Universo como testemunha, mas sem nada que o escandalizasse. Será apenas um beijo um pecado?
 
De mãos dadas, selámos esse desejo e que, daqui a trinta anos, apoiados em bengalas, voz trémula e meio desengonçados voltaríamos ali juntos, não para subirmos, mas para descermos, aqueles que foram e serão para todo o sempre os nossos degraus de paixão.
 
O amor é lindo, não é? Agora só falta ser verdade tudo.
 
CA
 
 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

MUSA

Peço desculpa por te incomodar,
E invadir tua privacidade
Dizer-te o que sinto e falar
Do que é a nossa realidade.
Conheço os teus medos,
Mas não sei teus segredos
Embora do que sinto, gosto
E será que no que aposto
Vou ter o que merecer?
És, sim, minha musa,
Meu desejo, mulher confusa:
Um sonho, talvez, em maré vazia,
Mas quem sabe, um dia...
Embarcarei em teus navios
Mar afora para sentir
O doce sabor e os arrepios
De um amor para parir.
CA

POETA FINGIDOR

Queres a poesia que sinto?
Queres a paixão de um poeta?
Queres a loucura de que não minto?
Queres a verdade concreta?
Queres viver um sonho
De palavras gastas, já escritas?
Ou acreditar nas encriptas
Formas de amar?
Nos sentidos diversos
De quem gosta do que diz?
Que te olha com a ternura
Que sente por uma criança
Numa incondicional aliança
Por quem olhamos, petiz,
Gostamos, protegemos
E que nos leva ao amor?
Queres a poesia que sinto?
Queres a ilusão da minha dor?
CA
Nota:(com alterações ao original)

ESCADAS

Subo as escadas contigo
É a primeira vez e não decido:
Deixo-me levar por ti
No teu sonho e dormi
Embalado nos teus barcos
Como embalo nos teus braços
E cheguei ao cimo e sorri
Do cansaço em vez do abraço
Que me apeteceu e não aconteceu.
Pretexto, talvez
Para lá voltarmos
Outra vez
Provavelmente com mais paixão,
levando-te pela mão.
CA

segunda-feira, 7 de julho de 2014

AMARRAS

amarras
As palavras perdem todo o sentido
quando te vejo:
e fico feliz só por estares
mesmo na distância de um meio metro
já não há palavras que valham
o ensejo
do momento de te sentir perto,
olhar-te e os meus sentimentos se calam
no desejo
do que é certo.

Errado: reclamas distância em tua defesa
e sobre minha dor acumulada
de mágoa e em surpresa
minha angústia recrudesce desesperada.

Baixo o olhar para o chão,
procuro não vacilar,
tento segurar-me da morte
com minha própria mão
e repetir bem alto e forte
que não te posso nem devo amar.
CA

quarta-feira, 25 de junho de 2014

AMAR


Alguém escreveu que basta tirar algumas letras para mudar o sabor AMARGO

Então se é assim:


Eu quero que a vida AMARGA seja doce

e que o AMARGO que sinto AMARE de vez

num cais de esperança que é o AMOR

e do qual me afasto em estertor.


Quero AMAR, sem a amargura AMARGA...

deste viver sem doçura, 


quero viver no sorriso que transmite uma criança,


quero AMAR a aliança que perdi 


no dia AMARGO em que te foste e morri.


CA


O CHORO DE UMA CRIANÇA

O choro da criança: é o princípio de tudo:
logo à nascença, para respirarmos,
uma palmada no miúdo.

Precisamos de chorar
e choramos sempre,
na juventude, mais tarde e
até agora, nesta hora:
do passado até ao presente,
pela vida afora.

O pior é o choro que não se ouve.
Aquele silêncio da dor interior
que nos rasga por dentro.
E sofremos sem amor:

Um choro invisível, indescritível.
Na psicologia algo risível:
Causa, efeito, vamos analisar
Que mestre para responder
a tão subtil forma de estar?

E chega a hora do adeus,
para todos e até ateus:
choramos na despedida
dos amigos que já sem vida
nos deixam a alma sentida.

Mas para que tudo acabe bem,
deixo um sorriso de esperança
que na psicologia valerá um vintém
depois do choro de uma criança.

Na psicologia aprendemos
que nada é absolutamente garantido;
muitos mestres, muitas vidas lemos
para um teorema ficar concluído.

E se a criança chora,
Será que não é apenas fome?
- diz este velho agora.
Temendo que por louco me tome
o professor, o melhor é ir-me embora.


Texto elaborado para ser dito na festa do final deste ano da Turma de Psicologia do  Desenvolvimento, sob o tema "O choro da Criança".

domingo, 13 de abril de 2014

25 DE ABRIL DE 1974


Onde é que estavas no 25 de Abril?

Ele naquele tempo era apenas um imberbe mancebo lançado para a vida – fora das saias da mãe – e que nada sabia sobre o que tinha pela frente. Ali chegado, cabelo rapado, diante do quartel, surgia-lhe assim abruptamente um enorme desafio, completamente novo e diferente e que tinha agora de ser capaz de transpor e superar. Era a nova vida do serviço militar obrigatório.
Entregaram-lhe uma arma que veio a reconhecer ser uma espingarda de guerra G3 e, com receio, guardou-a religiosamente no cacifo não fosse aquilo disparar inadvertidamente contra alguém. Aprendeu a manuseá-la e, mais tarde, foi até obrigado a desmontá-la e montá-la, peça por peça, de olhos vendados, com o objectivo de, em cenário nocturno de guerra, ser capaz de ultrapassar, sem ver, um encravamento ou anomalia.
 
Em exercício, perante as exigências, lembrava-se de sua mãe, chegando a pensar que se elas soubessem o que aqueles tipos faziam aos seus filhos, iam lá e batiam-lhes com certeza, tão cruéis, determinadas e difíceis eram as simulações de guerra a que tinham de se sujeitar.
Ali administravam-se duas especialidades principais: a de Policia Militar e de Atiradores da arma de Cavalaria. Os Polícias iriam ter uma vida mais facilitada: patrulhariam as cidades das colónias, sem conhecer os verdadeiros cenários de guerra, enquanto, por outro lado, os outros, os Atiradores, (caso dele), eram a classe menor que iria para as frentes de batalha, para o interior, e que seriam aquilo a que na altura se designava como “carne para canhão”. Face ao que viria a acontecer, acabaram por se inverter os papéis e os Atiradores acabaram por não ter actividade nenhuma (acabaria a guerra de milícias) e foram os PM que avançaram para “os campos de batalha”, nas cidades.
 
Três meses depois daquele primeiro dia, naquela madrugada de Abril, soou o grito de alarme em Santarém.
– Tudo a levantar e a reunir na parada, completamente equipados – gritou-lhes uma voz de comando irrompendo pela camarata adentro, acendendo as luzes e acordando toda a gente. Mais uma praxe – pensou-se – e, sem pestanejar, todos se vestiram rapidamente e se dirigiram para o centro da parada, preparados para algo que nunca imaginariam passar e que iria mudar radicalmente as suas vidas e os seus respectivos futuros.
 
Depois, estranhamente, foram conduzidos para um pequeno anfiteatro e logo de seguida entrou Salgueiro Maia que naquela sua voz forte, mas num tom calmo e muito expressivo, explicou clara e objectivamente o que se estava a passar e o que se pretendia, nomeadamente, acabar com a guerra no Ultramar. Por fim acrescentou que quem o quisesse acompanhar rumo a Lisboa que fosse completar o seu arsenal, municiando-se, e quem não quisesse poderia ficar no quartel, que ninguém seria penalizado por isso. Estavam lançados os dados.
Quando o instruendo C. Pereira ouviu falar na sua terra Natal, nem olhou para trás. Dali a pouco estava em cima de uma camioneta tipo Berliet do exército, sentado no lastro, com uma dezena de outros companheiros, abraçado à sua G3. Sem nenhuma experiência de guerra, carregado de balas e sem medo, numa viatura com uma arma metralhadora tipo Browning 12,7 no centro da caixa aberta da camioneta, partiu, madrugada adentro, rumo a Lisboa, sem perceber, minimamente, o que o esperava.


Página do Diário 25 de Abril de 1974               (Santarém, 27-04-1974, 18:00h)
Só agora tive possibilidades para esta página preencher. Uma página tão semelhante às outras, mas que se destaca porque hoje (25 de Abril de 1974) é um dia importante. E que serei eu capaz de dizer?... Poderei descrever tudo o que hoje vivi, mas em outra oportunidade o farei.
HOJE HOUVE GUERRA PELA PAZ.
Eu andei na guerra!
Houve um “golpe de Estado” e foi todo o exército que o desencadeou. Muita coisa se passou, mas agora estou incapaz de desenvolver. Posso é dizer que até este momento dormi ou não dormi como normalmente faria. Portugal é livre! Mas eu de política pouco percebo. Os jornais são bem expressivos e, basta dizer que “acabou-se a Censura”. Fala-se livremente e eu poderei falar livremente. Mas como disse, não sou político e posso apenas transcrever que Marcelo Caetano e Américo Tomaz estão exilados algures na Madeira. Entretanto, quer-se a Paz Colonial. Quer-se Spínola e tê-lo-emos no Comando do Poder. Eu hoje estive pelo exército e andei armado até aos cabelos por Lisboa. Entretanto, em outro livro “especial” direi integralmente tudo o que se passou e tudo o que eu vivi.
Carlos Alberto
Página do Diário 26 de Abril de 1974               (Santarém, 27-04-1974, 20:00h)
Hoje (26 de Abril de 1974) foi ainda um dia de sacrifício para mim e para todos aqueles que pelo MFA lutaram. Efectivamente, foi um dia mais descansado pois não fizemos mais do que ficar incomodamente instalados nas camionetas prontos para qualquer intervenção, sofrendo as inconstâncias do tempo que foi fustigador e da incerteza de cada momento. E em cada instante esperámos por uma ordem positiva, uma hora (ordem) de regresso e ela só surgiu no final do dia, quando esperávamos no RE1 na Pontinha voltar a Lisboa. Mas Santarém era afinal o nosso destino e quando soubemos respirámos profundamente (de alívio). E assim, 25 de Abril de 1974 ficará “histórico” (na história) pois houve e foi concretizada uma mudança no Regime Político que se mantinha há 50 anos. Portugal é, assim, livre! Agora esperamos é que este Portugal fique mais pequenino, mas mais seguro, acabando assim com a guerra colonial. Já muitos milhares de homens como eu morreram por aquela causa tão fútil como criminosa. Acabe-se então com “o opressionismo” (a opressão) e fiquemos libertos para uma vida mais sã e objectiva. Contudo, não abusemos da liberdade, pois a mim parece-me que já se está a exigir demais. E se assim continuar isto ainda vai dar mau resultado e quem acabará por rir são aqueles que algures na Madeira estão exilados.
Carlos Alberto
Página do Diário 27 de Abril de 1974              (Santarém, 27-04-1974, 20:15h)
Esta noite de 26 para 27 já a dormi no quartel. Deitámo-nos cerca das 3 horas, mas só acordámos pelas 10 horas ao som de alguém que nos anunciava que iriamos de fim-de-semana. Toda a gente se vestiu, toda a gente se preparou com sacos e toda a bagagem, mas tudo foi em vão porque afinal não haviam ordens (autorizações) para sairmos.
O dia de ontem, como já disse, passei-o em Lisboa dormitando ao frio e à chuva, incomodamente instalado numa camioneta do exército. Quando a noite chegou, contudo, houve o regresso à Unidade e, aqui em Santarém, fomos acolhidos com todas as honras. Houve palmas, (aplausos), buzinadelas, gritos de Paz, slogans como “O povo unido jamais será vencido” e gestos manuais formando o V de Vitória. E ganhou-se qualquer coisa, de facto, mas que eu ainda não apercebi. Aliás, até aqui eu e os outros só perdemos porque acabámos por perder a regalia que mais ansiávamos que era ir de fim-de-semana. Mas pode ser que para o futuro isto melhore. Para bem de todos, esperamos que sim!
Entretanto, o dia 25 em Lisboa foi deveras memorável. Foi um dia que, se puder, descreverei até ao mais pequeno pormenor, pois foi um dia em que se lutou pela liberdade e eu andei na guerra pela Liberdade. Lutei pela PAZ.
Carlos Alberto

Aqui chegado valerá a pena descrever o que reportei no tal “livro especial” que referi anteriormente:
Santarém, 28 de Abril de 1974 20:00 horas

25 de Abril de 1974 será por todos os tempos adiante uma data imperdoavelmente esquecível, aliás, impossível de esquecer, pois marca um tópico fundamental na vida de todos nós. A partir de hoje Portugal é um país LIVRE e, como livre, todos temos os mesmos direitos de seres humanos. Somos uma DEMOCRACIA. Somos GENTE, finalmente. E Portugal que precisa de evoluir poderá agora evoluir realmente. (...) Somos um país Comunista e, como tal, somos todos “filhos de Deus”. Mas será que isto de direitos está realmente definido? (...) Hoje é domingo e deveria estar em casa e estou aqui em Santarém, obrigado. Será que perdemos direitos, ou será que ainda não foram distribuídos? (...) Tive de estar nas formaturas das refeições, embora o resto do dia tivesse estado por minha conta. Acordei às oito da manhã e às nove saí a Porta d’Armas. Às doze voltei para almoçar e depois, de tarde, o destaque vai para o facto de ter ido à Tourada. (...) Eu e muitos militares estivemos na Praça de Touros de Santarém e foi através de um pedido que se fez para que os militares do MFA (Movimento das Forças Armadas) entrassem gratuitamente. Depois da animada corrida o regresso ao quartel para jantar. Agora já estou no café do costume a “Bijou” onde escrevo esta página. A favor do progresso.
E passo agora à descrição, (à minha descrição), dos acontecimentos que vivi nos dias 25 e 26 de Abril de 1974. Dias que serão para mim, em particular, inesquecíveis, porque vivi-os por dentro, na luta que levou este país à LIBERDADE e que esperamos que seja total. Confiemos nos homens e no futuro!
 
Era duas horas da madrugada escura do dia 25 de Abril de 1974 quando alguns furriéis irrompendo pela camarata nos acordaram dizendo ruidosamente para nos vestirmos rapidamente trajando o fato de combate. E, estranhando todo aquele alarido, resignámo-nos a vestirmo-nos enquanto nos debatíamos com a justificação plausível para aquele inusitado acordar àquela hora da manhã. E a que mais se ajustava, para a maioria, era de que iriamos ter uma das “praxes” da EPC.
Mas não, não era exactamente de uma praxe que se tratava. Havia era que salvar Portugal de se afundar no Atlântico. Havia era que nos integrarmos no Movimento de Libertação Nacional. E todos anuímos a tão alta iniciativa que, naquele instante, era ainda como que um sonho por despertar. E a seguir ao momento em que nos puseram ao corrente da situação, começámos logo a formar pelotões de combate. Depois, devidamente municiados, iniciámos de seguida a nossa partida rumo a Lisboa.
 
Assim, a partida para a capital processou-se depois das três. Na viagem pela noite, não me lembro sequer se fazia frio ou não. Lembro-me apenas que éramos nove e que me instalei no canto posterior direito do lastro da camioneta, de G3 em punho, com uma metralhadora Browning 12,7 Mod. 951 no meio de nós. A certa altura o alferes que nos comandava ofereceu-nos tabaco e aguardente e estranhando o meu silêncio perguntou-me porque é que eu ia tão calado. Respondi-lhe apenas que estava bem ali e me sentia bem instalado naquele canto traseiro da camioneta.
Lisboa era o nosso objectivo. Não sei quantos homens se viraram para ela, mas da EPC deviam ser talvez uns trezentos. Os carros de combate e viaturas blindadas deviam ocupar ao longo da estrada cerca de um quilómetro de extensão. E aquelas viaturas deslizavam, silenciosamente, sobre o rodar daquele que viria a ser o caminho que nos conduziria à decisão de usufruir aquilo que agora usufruímos.
 
A noite decorria e, enquanto uns descansavam na paz de uma noite tranquila, já milhares de homens se deslocavam e organizavam para uma surpresa que seria fatal para alguns daqueles. E quando acordassem já o mundo não seria o mesmo.
Quando chegámos a Lisboa (vínhamos a descer a Fontes Pereira de Melo o nosso comandante do Movimento, o capitão Maia, disse-nos que a Emissora Nacional e a Rádio Clube nos estavam a apoiar. Mais tarde foi a Rádio Renascença e a RTP. Não me recordo em que momento, mas lembro-me de ouvir no silêncio da noite, enquanto atravessávamos a cidade, numa rádio, a canção do Paulo de Carvalho “e depois do adeus” que soou como um sinal da Revolução. Os órgãos de imprensa passaram também a apoiar-nos e o mesmo se passou com a população quando tomou consciência do que se passava. No aeroporto da Portela já se haviam instalado tropas e, ao que à primeira vista nos pareceu, era que tudo estava a correr bem e tinha sido bem planeado. Tudo se conjugava. Chegados ao Terreiro do Paço instalámo-nos e distribuímo-nos estrategicamente pelo Largo. Eu fiquei junto ao cais dos barcos e tinha como função impedir a passagem das pessoas. Perante o aparato militar todos queriam saber o que se passava. Enquanto decorria a rendição e as conversações da luta pela Paz ouviram-se tiros. E o povo ali aglomerado junto ao Cais das Colunas, vindo da outra margem, ficou em alvoroço. Com estes disparos temeram o pior e todos se refugiavam de possíveis e graves consequências escondendo-se como que a fugirem de uma zona de iminente guerra de fogo cruzado.
 
Viviam-se ali momentos históricos, simultaneamente dramáticos, mas nem por sombras se supunha dos efeitos que estes haviam de produzir. Consumada a rendição dos Oficiais e a expulsão com êxito dos membros do Governo dos Ministérios, deixámos o Terreiro do Paço e, nas viaturas, dirigimo-nos nos para o Largo do Carmo.
Entretanto, por todo o país se faziam manifestações com este fito comum (o fim do regime) e, a pouco e pouco, Portugal ia-se transformando num país livre.
 
Ali no Largo do Carmo onde permaneci de arma em punho, houve mais debates (ultimatos/declarações de rendição) para dentro do quartel da GNR, mas que não surtiram efeito. Vários tiros de rajada foram então disparados na direcção do edifício. Entretanto já reparara que um pelotão de guardas da GNR no Largo da Trindade, armados até aos dentes, se preparavam para nos atacar. Mas não o fizeram. Ao mesmo tempo metralhadoras foram apontadas na direcção deles e acabaram por não resistir à inevitável rendição. Também me apercebi que alguns elementos da PIDE armados se escondiam nos edifícios de ruas contíguas e tentavam ocupar pontos de destaque para retaliarem. O mesmo terá acontecido com os elementos instalados dentro do quartel para defender Marcelo Caetano que se encontrava no seu interior. Mas após vários ultimatos e tiroteios de intimidação, sem resposta, lá consideraram a derrota suprema e consumou-se a tão esperada rendição (demissão do Governo).
 
Mas a tensão era grande e generalizada. População e militares, apesar de sermos milhares e a uma só voz, permaneciam ali angustiados sob um clima que era de pressão enorme. E de todo este Movimento de solidariedade quero destacar a simpatia e a unidade de toda a população ali reunida e que se dispôs a oferecer-nos alimentação e palavras de conforto e apoio que foram um importante estímulo, bastante positivo (diria determinante para não termos medo) para a nossa posição de defender a causa nobre e justa da libertação. Lembro-me ainda de ter pensado, quando vi os soldados da GNR perfilados e armados que, com certeza, eles não nos iriam atacar porque, do nosso lado, rodeados de milhares de civis, poderia haver ali também filhos deles, familiares e ninguém atiraria a matar sobre tanta gente, ou então seria uma tragédia. Isso aliviou-me um pouco o medo que a certa altura senti.
 
Mas todos estes épicos acontecimentos se situaram num tempo. Primeiro o acordar às duas da madrugada de 25 de Abril. (Só voltaria a deitar-me para descansar quarenta e oito horas depois).
Depois das três horas estava a caminho da capital e às seis e trinta da manhã estava a posicionar-me junto ao Cais das Colunas do Terreiro do Paço. Daqui, depois de consumada a rendição das forças da Ajuda (forças de apoio ao Governo), vitoriosos seguimos para o Largo do Carmo. Seria cerca de meio-dia e pouco quando iniciámos a marcha.

No Carmo estive em várias posições, mas aquela que mais me marcou foi quando estive na esquina da Rua da Trindade: primeiro com o receio que tive devido à presença dos militares da GNR no cimo da rua, depois porque era também ali que eu estava na hora em que houve os vários disparos contra o edifício do quartel.
 
No episódio da rendição propriamente dita, que terá durado cerca de uma hora, no fim a população ali reunida, apercebendo-se da situação, delirou eufórica com o desfecho e começou a cantar o Hino Nacional. Houve uma alegria indescritível naquele momento, muito entusiasmo e a consciência generalizada de que se vivera ali um momento histórico. E foi neste clima de euforia sincera, com muita disponibilidade por parte das pessoas, mas também de muita incerteza e tensão que se desejou que tudo acabasse depressa. E tudo acabou quando um carro blindado do exército entrou pelo portão principal, como que a confirmar o êxito da vitória. Soube posteriormente que foi nessa viatura que se transportou para fora do edifício, aquele que passou a ser o ex-Primeiro Ministro Marcelo Caetano.
 
Dali do Largo do Carmo regressámos às camionetas e partimos sem nos dizerem para aonde, tratando-se de informação secreta. Descemos então pela Calçada do Carmo até à Baixa, depois seguimos até ao Marquês de Pombal, depois Avenida da República até ao Campo Grande e em todo este percurso milhares de pessoas ao longo da estrada manifestavam-se acenando-nos efusivamente. Outros buzinavam dos seus automóveis e avisavam da nossa vitoriosa passagem. Pena foi a chuva miudinha que, entretanto, começou a cair. Porque nós, sobre as camionetas descobertas, fomos aí alvos fáceis da intempérie que acabou por nos fustigar cruelmente depois de tanto sacrifício e da nossa vitoriosa acção pela Liberdade. 
 
E Portugal era LIVRE e o “V” da Vitória surgia agora nos dedos das pessoas, surgia espontaneamente das mãos frias daquela gente que, inertes, nada podiam ter feito até aquele momento em que as cordas da opressão tinham finalmente cedido.
Afinal o nosso destino foi o quartel da RE1 da Pontinha e por ali andámos em contantes andanças para finalmente jantarmos e, depois, passarmos a noite. Mas a noite passámo-la ao relento a dormitar em cima das camionetas que nos transportavam. Com apenas um pano de tenda sobre nós tentámos assim proteger-nos do frio, do vento e da chuva que foi, a espaços, permanecendo até de manhã.
O dia 26 chegara e, sem fazermos nada, acabámos por ficar ali o dia inteiro, de prevenção. Almoçámos terrivelmente mal, as incertezas eram muitas, e tivemos de permanecer ali no quartel todo o tempo sem nunca abandonarmos as viaturas, prontos para qualquer intervenção. E foi deveras dolorosa a nossa permanência ali, exaustos. Todos desejávamos e implorávamos pelo regresso a Santarém, mas só quando a noite chegou se processou essa famigerada viagem. Todavia, só acreditei mesmo quando me vi na auto-estrada do Norte, mas mesmo assim, como o nosso andamento era lento, ainda duvidei do nosso destino. Mas graças a Deus a volta à EPC confirmou-se. Deixámos então Lisboa por volta das nove da noite e chegámos finalmente a Santarém cerca da meia-noite e meia hora.
 
A nossa recepção foi muito calorosa e eufórica por parte da população que nos aguardava. Mas estas manifestações espontâneas de solidariedade começaram logo no Cartaxo, pois desde aí até Santarém fomos “escoltados” por imensos automóveis que buzinavam ininterruptamente ao longo do percurso, sinalizando e alertando a nossa passagem. Já em Santarém surgiram mais palmas, mais flores (cravos vermelhos) e bandeiras nacionais. E foi aqui que eu ouvi pela primeira vez as palavras que se tornariam um ícone e de força para a população: “O povo unido jamais será vencido” E entre aplausos, gritos de alegria e buzinadelas ensurdecedoras foi-se ouvindo, repetidamente, a palavra Liberdade, Liberdade, Liberdade. 
Chegava então ao fim o nosso pungente sacrifício que, no entanto, obviamente, jamais esquecerei. E depois de tudo o que passei, tenho a certeza que cada vez mais me lembrarei deste fantástico, memorável e insólito dia 25 de Abril de 1974.
 
Entrámos as Portas de Armas da EPC e depois disso não sei o que se passou lá fora, mas parece-me que se juntou imensa gente que ali esteve até altas horas da madrugada apoiando o nosso Movimento e elevando o feito do nosso Capitão Salgueiro Maia. Eu deitei-me na minha cama do quartel, já passavam das três horas da madrugada.

Finalmente a minha cama, o contacto com os lençóis, o conforto de um colchão de espuma delineando os contornos do corpo; um contraste gritante com a dureza do chão de madeira, bem dura, do lastro da viatura do exército, que me tinha servido de encosto nestas últimas, difíceis e dramáticas quarenta e oito horas. Nunca o descanso me soubera tão bem.
 
Na manhã de sábado 27 de Abril acordei cerca das nove horas. Mas foi uma desilusão porque acabavam de recusar-nos a saída de fim-de-semana para irmos a casa, como esperávamos. Afinal, a recompensa de tanto sacrifício desmoronara-se e, desmoralizados, sentimo-nos todos muito frustrados com a decisão.
E é esta a minha descrição, em traços largos e sem qualquer intenção épica da minha participação, nos acontecimentos do 25 de Abril. Esta é a descrição de alguém que esteve no lado de dentro (hoje como herói, amanhã como traidor?) da Revolução dos Cravos, pelo MFA ao serviço da Escola Prática de Cavalaria de Santarém.
 
Entretanto, lembrei-me de um episódio que recordo com emoção e que foi ter encontrado na multidão, quando nos dirigíamos do Terreiro do Paço para o Carmo, um ex-colega de trabalho. Quando o vi, dei um pulo, gritei por ele e desatei a chorar quando ele se aproximou da camioneta. Circulávamos em marcha lenta e foi possível cumprimentarmo-nos e trocarmos breves palavras de circunstância e de Liberdade. E foi nesse sentido único de efémeras lágrimas de alegria que percebi que o ter encontrado, na minha cidade, alguém conhecido no meio da multidão, me garantia, na minha aparente apatia, a veracidade, perante os meus amigos, da minha presença ali.
Acabei assim a minha descrição aos meus dias da Revolução de Abril. Não está exactamente como o original porque achei a descrição um pouco “insipiente”. Mas estão aqui os pressupostos, o essencial para aquilo que pretendo mostrar sobre o que foi a minha modestíssima participação.
 
Há ainda uma carta que escrevi à minha família narrando os acontecimentos em que refiro que passei frio e fome além de ter ficado encharcado até aos ossos na noite seguinte. Escrevo que passámos a noite de quartel em quartel, entre a Pontinha e o Colégio Militar, sem pregar olho.
 
Para nos situarmos melhor, talvez valha a pena ainda acrescentar – porque pode ser importante dizer – que eu era um puto com vinte anos acabados de fazer. Não sabia nada da vida. Estava na tropa há três meses e frequentava, como Instruendo, o curso de sargentos com a especialidade de Atirador. Tinham-me posto uma arma na mão que mal sabia ainda manusear e que, talvez por isso, se explica porque na hora dos disparos contra o quartel do Carmo nenhum dos tiros foi meu.

Não gastei uma única bala. Assisti impávido e sereno ao rebuliço do soar das balas a esburacarem a fachada, enquanto um aterrador silêncio de incerteza e medo tomava conta de mim. Incapaz de perceber a assimilar todos aqueles incrédulos e inimagináveis instantes, mergulhei meu olhar apenas nas janelas envidraçadas à espera de ver agitar numa delas uma bandeira branca a acenar a rendição.
 
Outro facto interessante de que me lembro é do momento em que deixámos o Largo do Carmo e descemos pela calçada do Carmo. Eu instalei-me no mesmo lugar de sempre no lastro da viatura e, como que indiferente à história, permaneci sentado enquanto os meus camaradas se manifestavam em pé e retribuíam os aplausos das pessoas. Nesse instante pensei que eu, naquela posição, nunca iria figurar nas centenas de fotos que ilustrariam um momento tão relevante da nossa História. Decidi então levantar-me (para aparecer) e, incrivelmente e por acaso, descobri, uns anos mais tarde, num CD da DICIOPÉDIA, que o momento em que me levanto e permaneço de pé (em primeiro plano no fim da camioneta) está retratado no final do filme sobre o 25 de Abril (no minuto 6:00) com a saída das tropas descendo a Calçada do Carmo (http://youtu.be/ti8AsJZdbDU). Não é que sou eu mesmo! Incrível!
Carlos Alberto

segunda-feira, 31 de março de 2014

ESPREITANDO MAIS ALÉM


Caminhava indiferente, tarde fora, pelo passeio, quando te vi.
Olhei-te, insignificante, mas chamaste-me a atenção porque era como se tentasses espreitar mais à frente, o rio ali ao lado.
Uma simples planta silvestre, sozinha no meio da relva e, no entanto, destacada, espreitando mais além.
Guardei-te na minha alma, com o meu olhar que não te esquece.

Aqui serás sempre minha, mesmo que a intempérie te tenha já levado.

segunda-feira, 24 de março de 2014

SENTIDOS


Saímos para a rua dispostos a viver um dia diferente. A Primavera sobrevoa-nos o horizonte em toda a sua plenitude. Sentimos no ar um clima autêntico, puro e duro, ou melhor, macio, já que uma amena lufada de ar que se faz levemente sentir sopra-nos como que segredos aos ouvidos, acariciando-nos ao mesmo tempo o rosto e de uma forma doce, meiga e reconfortante.

Caminhamos sentindo o pulsar da vida: são as crianças que brincam alegremente à nossa volta; ora gritando, ora rindo umas das outras, correndo numa e noutra direcção. O rio calmo, muito sereno e sem qualquer movimento, parece um espelho cintilante reflectindo a acalmia vinda do céu sem nuvens, enquanto um ciclista pedala compassadamente sentado ao selim usufruindo, com a velocidade, a possibilidade de chegar mais depressa.

Eu caminho sem pressa por entre as flores, o jardim, as pessoas, os automóveis que passam ao lado e as casas. Observo, sinto, inspiro e expiro com a força intensa que me é permitido pela lei da natureza humana. Sorrio para mim mesmo olhando para uma janela com meia dúzia de pares de peúgas estendidas na corda, enquanto mais à frente um homem olha o relógio e percebe que está atrasado para algo.

Eu tenho o tempo todo do mundo. Ninguém estará à minha espera quando decidir voltar para casa. E agora quero apenas usufruir dos sons, dos cheiros da maresia e dos bivalves que me chegam do rio. Quero sentir o pulsar da vida que passa por aquele meu momento de profunda e, ao mesmo tempo, descontraída emoção.

Um avião muito pequenino deixa um rasto branco no céu e por instantes assalta-me a ideia de que se valeria a pena ir nele? Regresso a mim no mesmo instante, como que atingido por um raio, quando me vejo estatelado no chão depois de, inadvertidamente, ter chocado com um poste de luz...

Não, não acabará mal a história de um passeio num lindo dia de Primavera. A cicatriz com que fiquei serve-me apenas para me lembrar todos os dias que mesmo quando tudo parece perfeito pode acontecer algo que nos fará acordar para a realidade do que somos e onde estamos. E pensar que teremos sempre de nos reerguer quando cairmos, continuarmos o nosso caminho acreditando que, apesar de não termos ninguém em casa à nossa espera, regressaremos para lá, com certeza, mais cedo ou mais tarde, com ou sem mazelas doridas.

terça-feira, 18 de março de 2014

ENERGIAS

Esta podia se a página do Meu Diário de hoje.


"As palavras cruzam-se no infinito do seu paralelismo e colidem numa luz que as desperta na razão da energia que transportam. É o inexplicável no presente físico explicável. Dirão uns: acaso, destino; outros, obrigação, sentido da vida. E cada um parte seguindo o seu caminho sem perceber bem o porquê. Atraídos ou não, escolhidos ou não. Razões indefinidas pelo tempo que as descobre e envolve numa manta de retalhos que somos cada um de nós.
 
Não há cansaços, não há angústia, apenas uma direcção para seguir e partilhar na esperança de que chegaremos ao fim incólumes. Uma jornada de virtudes, com medos e receios que se vão ultrapassando em cada dia da viagem. E que nos espera lá à frente?
Paramos, observamos, avaliamos: absorvemos o que nos rodeia e inalamos os odores que se espalham. Serão verdades? Serão mentiras? Que futuro? Perguntas com respostas já dadas ontem, no passado. Mas não as conhecemos intrinsecamente. Experimentamos ouvi-las nos ecos que nos chegam e desafiamo-las, ou não. Valerá a pena?
É a busca da felicidade que está em causa, afinal. É isso e só isso que nos move, que procuramos nas palavras, nas sensações. Mas o que haverá para além da força que exala de mim? Que energias me puxam para seguir este caminho e não aqueloutro? Sei, não sei.
Mas eu vou. Vou sempre atrás daquilo que me apaixona. Mesmo o desconhecido e quanto mais desconhecido melhor. É o fascínio da descoberta do que é novo.
E caio. E caio outra vez. Levanto-me, tento erguer-me da catacumba, mas já só consigo cambalear. Tropeço em tudo. A vida terá sentido, mas mal distingo os sorrisos. É isso que busco, o caminho da felicidade que talvez só exista nesse infinito longínquo onde o paralelismo das palavras se encontra. Nesse instante, provavelmente, talvez a energia que carrego faça acender uma luz que iluminará minhas trevas. Sim, hei-de chegar lá, a esse interruptor."   
 Carlos Alberto

PS: O texto seguinte foi o resultado de um documento que li e que uma colega me deu sobre "REIKI" e cuja palavra significa:
 Rei: Universal. Representa a sabedoria que vem de Deus, ou do Cosmos, a essência Divina, Sabedoria Universal.
Ki: Representa a força vital cuja energia está presente em todos os seres vivos, ou seja é a força da vida.
 

 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

MEMÓRIAS 2012


Páginas  do Meu Diário ( 2º Semestre)


Desta vez deixo aqui os meus melhores resumos do 2º semestre de 2012, de acordo, obviamente, com o critério que defini.


Quinta-feira, 5 de Julho de 2012 (Miratejo, 23:40h)
“Um amor à sombra”

Encontrei-me numa esplanada da praia. Um livro sobre a mesa e uma bebida que incluía gelo e limão. À minha frente gente que circulava em fato de banho, ora num ora noutro sentido, pelo paredão que me separava dos areais brancos até à água do Oceano, lá ao fundo. Na linha do horizonte há um navio de carga, um petroleiro, daqueles que transportam toneladas de combustível. Há muito sol, mas eu estou à sombra de um enorme chapéu colectivo preto que cobre uma grande parte daquele local aprazível. Não está ali mais ninguém sentado; só eu e o meu livro por desfolhar, poisado sobre a mesa, com o Ginger Ale vertido no copo alto. É apenas um momento de observação. Dali a pouco dou um trago na bebida adocicada e abro uma página marcada, já quase a meio do grande volume que me acompanha. Está um pouco de vento. Na praia adiante há gente espalhada pelo areal, mas não aquela multidão dos grandes dias de calor. Para trás havia deixado já um almoço também consumido à beira da praia com o mar em fundo. Só que aqui não estava sozinho. À minha frente um homem que me chama pai. É boa a sensação. Trocamos pratos que dividimos para saborearmos o que ambos comemos. Aqui é com água que empurramos a comida para o esófago. São ainda dois dedos de conversa sobre assuntos judiciais pendentes. Dou-lhe o meu apoio, atiro-lhe conselhos, ajudo-o como posso. Recebo em troca a refeição que aquele rapaz faz questão de pagar-me. Não quero, mas ele insiste. Tenho pena do meu filho. É um puto que se nota que não está seguro na vida e que não tem certezas de nada. Sinto que lhe faço falta, apesar de ele já ser um homem de 26 anos. Mas os pais fazem sempre falta aos filhos. E os filhos farão sempre falta aos pais. Amo-os a todos e também sinto que gostam de mim. Mas se os filhos não gostarem dos pais quem é que vai gostar?
Carlos Alberto

 
Domingo, 29 de Julho de 2012 (Miratejo, 30/07 08:30h)
“Faça você mesmo”

Domingo, fim-de-semana, tempo de descanso, praia, passeio, convívio, amizades, saídas, oportunidades. Tudo isto e muito mais a preço de saldo. Basta um telefonema com valor não acrescentado e toda a família tem direito ao seu pecúlio. Tão simples. Mas se está sozinho, não esteja! Temos para si a solução com imensas alternativas. Pegue no seu automóvel e dirija-se a uma qualquer avenida marginal. Estacione o carro em zona visível, abra os vidros, ligue o rádio com o som bem alto - não se esqueça dos óculos de sol - coloque o braço esquerdo sobre a janela aberta da porta do veículo e desfrute de quem passa, olhe o mar ou o rio, e goze o momento de pulmões abertos em perfeita harmonia com a natureza humana. Se por outro lado é dos que aprecia mais a calma do campo, vá então até uma qualquer mata próxima de si e estenda uma toalha debaixo de um pinheiro que não tenha ainda ardido e aproveite o sossego e a tranquilidade desse espaço ouvindo o chilrear dos passarinhos que de galho em galho o vão divertindo, esvoaçando e cantando com toda a sua liberdade. Como vê, a baixo custo pode ter tudo, toda a natureza ao seu alcance. Se mesmo assim é dos que prefere ficar em casa a ver a televisão, sempre haverá um bom filme de desenhos animados tipo “Madagáscar”, ou um qualquer jogo de futebol da Ásia entre clubes de que ninguém ouviu falar, ou então imagens dos Jogos Olímpicos. Pois, aproveite a vida, não fique deprimido porque há sempre quem esteja pior: na maca de um hospital, em lista de espera, na sala de observações traumáticas o que é muito mau. Mexa-se.
Carlos Alberto  

 
Quinta-feira, 2 de Agosto de 2012 (Miratejo, 22:10h)
“Tarde de Lisboa”

Nada é ao acaso. A vida faz todo o sentido. E não é em vão que agimos, que realizamos as nossas tarefas, que sentimos frio ou o calor. Lisboa. Uma tarde quente. Gente e mais gente. E eu com tempo. Passeei-me pela baixa. A máquina fotográfica ficara propositadamente em casa. O objectivo era outro. O carro ficou estacionado quase ao pé do Castelo de São Jorge. Que belas imagens se conseguem do Miradouro de Santa Luzia com o Tejo em fundo! Contudo, um rio quase deserto. Para um estrangeiro que contemplasse aquele espelho de água deve ter achado algo de estranho: um braço de rio despojado de barcos, movimento, qualquer faina; estariam de greve? Um cais imenso vazio, sem ninguém, como se o tempo tivesse parado. Restam os telhados vermelhos do casario recortado na paisagem mais próxima, a Igreja de Santa Clara e um olhar transversal por uma cidade de mil encantos. Os eléctricos são também atracção turística, e uma rapariga vê um a aproximar-se, aponta a sua máquina fotográfica e acontece algo inesperado: o eléctrico pára, o guarda-freio levanta o braço, sorri e acena um adeus com a mão enquanto a moça, surpreendida, dispara e fica a rir-se pelo inusitado. É assim a cidade de Lisboa a vibrar e com tempo para tudo. Há uma paz e acalmia nas pessoas que desfrutam da paisagem, e com tempo ainda para ver as inúmeras lojas espalhadas pelos edifícios, muito velhos, daquela encosta do Castelo e que vendem de tudo. O Martim Moniz ficara para trás com um sabor azedo de quem se frustra pelas expectativas goradas de quem espera ser feliz e acaba afinal por se encontrar só com um copo vazio na mão. Salva-se o passeio, o sentir a cidade neste Agosto pleno de Verão, o beijo da minha irmã que me adverte de que devo ter muito mau feitio por ainda estar sozinho, ou então algum defeito tenho. E ela tem razão das duas maneiras. Tenho não só mau feitio como defeito de ser pouco homem.
Carlos Alberto
 

Domingo, 12 de Agosto de 2012 (Miratejo, 13/8 01:10h)
“Parabéns Fernando”

A nossa história é a nossa história. Coisas boas e coisas más, tempos de alegria e glória, tempos de lágrimas e derrotas. Mas estamos vivos. Não somos super heróis, vedetas no mundo, mas temos alma, paixão, sentimos o sol, amamos aquilo que temos. Aquilo que não temos não é nosso. O meu irmão dizia que nós não temos nada, apenas usufruímos as coisas. Pois, é verdade, mas melhor que usufruir é partilhar e é aí que as pessoas pecam: não partilham nada do que têm, nem a sua felicidade. Quando estava nos Açores e via algo maravilhoso, uma paisagem sublime, lembrava-me logo da minha irmã e telefonava-lhe para partilhar com ela aquele momento.  De facto, de pouco nos vale sermos felizes sozinhos e se não partilharmos com alguém a felicidade que sentimos. Eu gosto muito de partilhar aquilo que sinto e sempre partilhei, mesmo aquilo que é difícil. Mas ninguém aprecia o acto de sofrer e vivemos todos na esperança de que teremos amanhã uma vida boa, cheia, barriguinha bem aviada e o resto, à volta, não interessará muito. Se ao nosso lado alguém chora, isso não é connosco. Partilho assim hoje aqui a felicidade de ter um irmão mais velho que virou uma página importante. Chegarmos aos 65 anos é uma meta notável, pode ser o princípio de uma nova etapa, a derradeira, mas não deixa de ser um marco que todos desejamos atingir, com paz, felicidade e saúde. Se tivermos estas possibilidades concretizáveis seremos as pessoas mais felizes e realizadas ao cimo da terra. Se somos capazes de cumprir esse nosso papel, logo se verá se somos.   
Carlos Alberto
 

Domingo, 19 de Agosto de 2012 (Miratejo, 20/8 00:25h)
“Vinte anos é tanto tempo”

Tempo para tudo, tempo para nada. Acordar de manhã depois de uma noite de pesadelos onde fantasmas me sobressaltaram o descanso. Acordei a gritar para dentro, com medo desses ventos frios e estranhos que espreitavam pelas frestas e percorriam deambulantes o quarto e depois se escondiam na noite negra em recantos de fumos cinzentos. Até sinto arrepios agora só de pensar nesses medos gélidos que me envolveram na negritude da noite. Mas não foi apenas uma noite mal dormida; foi uma noite pouco dormida. Vivo hoje muito preocupado com o nada que faço. Não há horas, não há tempo, não há dias nem ninguém à espera. E vivo sem tempo onde o tempo não conta, apesar de nos ultrapassar a todo o instante. Tento, no entanto, acordar, sair, sorrir, sentir. Parece-me que assim algo me espera, embora saiba também que sou eu que tenho algo para fazer. E, no entanto, nada acontece. Não me sinto surdo, nem cego. Não me sinto à espera do nada. Sei, todavia, que tenho algo para cumprir, mas pelo qual não vou atrás. Não me sinto doente, mas medo de que amanhã seja tarde demais. Tenho raiva também, sim, recalcada. Perdi todo o amor que me enchia por dentro. Já não luto pelo amor. Deixei de acreditar nele. Já não quero sequer envolver-me, ir à procura. Sinto-me completamente desiludido e acho que na vida o amor é uma estupidez, porque nos magoa. Tenho também pena, muita pena mesmo, de não ter ido mais longe na minha formação. E hoje não me sinto sequer, por via disso, com capacidade, coragem e ou ousadia de tentar o que quer que seja para ir por aí. Infelizmente, sem amor e sem vontade de lutar, vivo hoje muito mais virado para morrer, mesmo acreditando que posso ter ainda vinte anos de vida à minha frente.
Carlos Alberto


Quarta-feira, 22 de Agosto de 2012 (Miratejo, 24:00h)
“Cheio de nada”

Mais um dia “em branco”. Um dia onde nada acontece e em que somos meros protagonistas da inércia. Não, não estou a dizer que me limitei a respirar ou que para sair da cama, de manhã, tive que pedir licença ao outro pé. Não, nada disso. Na verdade o espaço estava aberto a todo o tipo de encenação. Só tive mesmo de abrir os olhos, reparar que o tempo estava delicioso, tragar um pouco do aroma da manhã e perscrutar o som das gaivotas que me chegava do Sapal. Nesse momento decidi pôr em prática o sentido da oportunidade e saltando da cama, vesti-me a rigor e saí como quem parte para uma batalha. Não, não era apenas uma batalha, mas uma guerra, uma guerra de areia e muito, muito mato que tinha pela frente. Mas sobrevivi: ao calor, à distância, ao lixo que pejava a costa pela beira do rio. Lixo de todo o tipo: natural e de plástico. Cansado, resolvi então sentar-me. Sentar-me diante de mim e reescrever aquilo que é a minha história. A história de um passeio de autocarro onde vou “só”, mas à procura do “lá”, “si” houver. Nada encontro. Não esmoreço, nem me perco. Limito-me então a inventar, pesquisar, sentir como se ainda estivesse lá, embora agora esteja sentado diante de uma página, e mais outra, e já são muitas. É afinal apenas mais uma história, a história de uma viagem, entre outras que certamente surgirão. E assim, o dia que era de nada, encheu-se. Encheu-se também de amigos, de amor, com o amor de filhos e afins, até este momento. Já só me resta agradecer o nada que foi muito e o sentir, o poder ouvir, o poder estar aqui, agora que também não estou só, mas ainda na melhor companhia do mundo, neste mundo.
Carlos Alberto
 

Segunda-feira, 3 de Setembro de 2012 (Miratejo, 20:40h)
“E tudo acaba”

Acabaram-se as férias no Montado. Acordámos, abrimos aquelas enormes cortinas para os primeiros raios da manhã e uma luz brilhante entrou-nos pelo quarto adentro. Uma paisagem maravilhosa de verdes e azul a perder de vista percorreu-nos o olhar matinal. A manhã já acordara há bastante tempo. As cores já não eram tão frescas, mas mesmo assim absorvemos com prazer aquelas imagens e sensações que percorriam em êxtase o nosso corpo, até à alma. Prontos e arranjados, à nossa espera um farto e apelativo pequeno-almoço comido na tranquilidade que o tempo nos permitia. Deliciámo-nos pela última vez deglutindo a gostosa combinação entre o sumo de laranja natural e os croissants com doce. Depois é o passeio habitual entre os greens, tentando sempre fugir às bolas que por ali esvoaçam, como pombas errantes, vindas, não sabemos, de onde. Entre muita conversa que parecia que nunca mais acabava, soltámos algumas gargalhadas de histórias antigas passadas e vividas noutros tempos difíceis, mas não forçosamente infelizes. E a manhã esgotava-se. Passámos, mais uma vez, o olhar pelo lago espelhado recortado pelos patos que em fila indiana por ali se banhavam e sentimos a nostalgia de quem sabia que tudo aquilo ia ficar para trás. Despedimo-nos do Montado e regressámos fazendo um desvio por Setúbal onde pensávamos fazer uma ligeira paragem para uma bebida à beira rio. No entanto, a paisagem da praia improvisada era magnífica e a água límpida atirava-nos, sem nos molharmos, para dentro dela. Conversas e mais conversas que pareciam não ter fim: inesgotável e infindável diálogo que não acabava nunca: histórias e mais histórias percorridas num corrupio de sensações que nos percorrem ainda as veias. Vidas que o passado nos infligiu e nos marcou, mas que não se apagaram com o presente. Finalmente Alfarim. Aqui deixei a minha companheira desta aventura e também o enredo de um filme que ambos jamais vamos esquecer. Obrigado mana Fátima.
Carlos Alberto
 

Segunda-feira, 10 de Setembro de 2012 (Miratejo, 11/9 01:10h)
“Na penumbra de um tempo”

Eis-me no regresso às origens, inventando um pouco da história possível, recriando aquilo que no inconsciente ainda é consciente, acreditando que nada é por acaso e que este tempo é necessário vivê-lo. E assim se nasce e acorda para mais um dia admitindo que somos poetas, fingidores e que tudo nos é permitido dizer ou sentir, criar ou fingir, como um artista que atira a sua tinta para a tela e, conforme o seu nome, assim o quadro valerá muito ou nada. Erguemo-nos então da cama sobre o édredon, tapados apenas por um cobertor com uma alma cheia de esperança – sendo que as manhãs ainda são frescas – e partimos para um futuro certo e tão incerto quanto a nossa vontade de sorrir. Pois é, não consigo pôr no rosto outra expressão que não seja esta de espoliado, enganado, traído, traumatizado. Mas também não é de agora, fui sempre assim, mesmo nas horas felizes. Eu bem tento escrever outra história, como me pede uma amiga que, ao telefone, se despede com “meu querido”, como se eu fosse um seu bem, alguém que ela amasse sem eu saber. Mas a minha história é esta, enquanto vou sentindo a saudade de ser eu mesmo, com a capacidade de ser homem, ter vontade de vencer e convencer, ter a energia e a força que têm os vencedores e destemidos. Mas fico-me por aqui, em casa, com medo de sair, de ser preso por estar a invadir propriedade privada. Sonho, sim, mas não acredito. Perdi a fé, a coragem, a virtude de achar que era capaz. Destruíram-me e sinto que já não valho nada, mesmo quando alguém ao fundo me diz coisas que um homem gosta de ouvir de uma mulher. Mas já estou longe de tudo, perdido, sem alma para renascer de novo.
Carlos Alberto
 

Terça-feira, 25 de Setembro de 2012 (Miratejo, 26/9 01:45h)
“Pela noite dentro”

A noite avança intrépida e silenciosa. Lá fora está a chover. Chegou o inverno impiedoso e triste que nos arranca da mordomia que nos é dada pelo bom tempo. Já não há espaço para sonhos de sol e céu azul ou até cor-de-rosa quando a vida nos sorri. Agora só nos resta a noite fria e ventosa – que leva os sonhos da gente que não dorme – com a chuva a salpicar-nos as vidraças das janelas que temos agora de fechar. É um sentimento de tristeza, aquele que sinto, como se carregasse o peso da infelicidade do mundo. Não quero pensar no prazer que alguns podem estar a sentir e no que eu perdi com o passar deste tempo recente. Porque apenas sinto dor e sofrimento que não se apagam, bem pelo contrário, e que até me despertam e me atormentam quando me deito para adormecer. É uma mágoa latente, que não se explica por palavras, um pesadelo real e constante, embora aqui construído por mim. Sim, têm-se passado pela minha cabeça pensamentos irreais. Posso querer estar no centro do mundo, mas não estou. Estarei apenas na franja de um naperon algures colocado numa mesa de um pobre, sob uma terrina de vida, frágil, também sem brilho e sem futuro. Vivo como que numa barraca com telhado de zinco e paredes de madeira carcomida pelo tempo. Sinto-me talvez comparável a uma pobre formiga, perdida nessa margem descaída à espera de um qualquer abanão, encontrão ou até de ser esmagada antes de descobrir o caminho de casa. Vivo ou sobrevivo, não sei bem, na esperança de ser feliz. Mas nada acontece. Tenho que fazer algo por mim, mas desorientado não sou capaz de fazer. Queria que o mundo olhasse para mim, mas sinto que nem mesmo que me imolasse à porta da igreja, ou da Assembleia ou me atirasse da janela do meu terceiro andar, isso seria relevante para quem quer que fosse. Estou só, dramaticamente só e abandonado nesta intempérie por alguém que eu amei mais do que a mim mesmo. E esse foi o meu maior erro. E quanto sofro, meu Deus, por tudo isso.
Carlos Alberto

 
Segunda-feira, 8 de Outubro de 2012 (Miratejo, 23:10h)
“O meu hiato”

Quero sorrir na contemplação do teu rosto, beijar tua face no desejo de te sentir, conhecer-te aos poucos no gesto da minha mão, calcorreando tuas distâncias. És sombra, és pecado, és música, és passado. És tudo o que não tenho na vida: meu suor que não transpiro, minha camisa rasgada de trabalho árduo e que afinal apenas me conduz à melancolia do silêncio. És meu sopro que expiro no ar que respiro, minha alma infinita que palpita num cansaço que não tenho. Caminho então apressado na pressa de te ver; tropeço na magia de um grito que não ouço, distraio-me depois na ilusão de que te tenho sem te ter e adormeço sobre o sonho ou o desejo de que o sol volte a nascer, amanhã. E o amanhã chega, com um outro nascer-do-sol lindo e radioso, com os pássaros a chilrearem nos jardins, e galos, lá ao longe, anunciando, cada um, a gloriosa manhã que surge. E eu continuo deitado numa cama de palha, ouvindo na solidão de meus lençóis imaginários a canção que me faz de novo chorar. E são estas mágoas que me rasgam por dentro, me cravam de cicatrizes que não fecham – onde o sangue ainda brota – e que transformam, na raiva do que não sou, um passado brilhante num futuro obscuro que me mata aos poucos. Mas acordo, mais uma vez. Mais um dia para viver sem saber o que fazer, que caminho seguir. Dói deitar assim, acordar assim, olhar em volta e não descortinarmos nada além das tábuas verticais que nos fazem de parede e nos protegem do frio, do vento, da noite agreste que nos corrói o espírito. Não, não estou a morrer ainda; é só o tempo de adormecer e acreditar que amanhã será de novo um novo dia e feliz.
Carlos Alberto

 
Terça-feira, 9 de Outubro de 2012 (Miratejo, 22:25h)

“Palavras muitas”

Chego a sonhar com as palavras que me voam na ilusão de que chegam ao destino. E ouço o eco do estrondo que elas produzem no fim de um poço onde se precipitaram em catadupa. Sinto o tempo que passa sobre mim e me vai avisando que devo ter outra atitude: devo cobrir-me com um capuz, agasalhar-me sob um capote, calçar umas botas cardadas porque se avizinham tempos difíceis. Será tempestade? Será fogo? Será vento? Mas deve ser gente. Gente que se ri de mim, da minha fraqueza que é mais do que pobreza. Não, não ando apenas a ler, mas estou tão-só a sofrer com as palavras que tento dizer e que chocam comigo como devolvidas pelo amigo. Falta-me tudo, falta-me amor, sinto apenas dor e daí estas linhas que falam apenas do estertor que sinto em absinto. Mas ainda, tolo, acredito. Tenho que acreditar que um dia ainda vou amar. Os meus sonhos não podem ser em vão. Acredito que tenho de fazer algo pela arte, pela sorte, agarrar pela minha mão, à parte, a vontade, o querer, a força de um poder, nem que seja sobrenatural, de outro mundo, mesmo que não se transcreva num jornal e não me deixe moribundo. Quero viver mais, sorrir e ser feliz, embora não saiba como, nem onde, nem com quem, mesmo que sem vintém. A vida não se pode esgotar assim, neste vazio e sofrimento em fim. Tenho que ganhar alento, voltar à vida, crescer e florir de novo com um sorriso rasgado, amor desfolhado, cantando canções de alegrias, fantasias e paixões. Sim, a vida é muito mais que meras palavras cheias de boas intenções, palavras que serão somente palavrões, ditas com carinho para não chorar.
Carlos Alberto
 

Quinta-feira, 11 de Outubro de 2012 (Miratejo, 23:00h)
“Resumo de palavras”

Gosto das palavras, mas sei pouco sobre elas. Conheço algumas com as quais me dou muito bem, mas há outras que, como têm a mania, nem me chego a elas. Tenho umas que me são mais próximas e que até as trato por tu; por outro lado também há por aí outras que são umas esquisitas e que nem se dão bem comigo. Mas eu também não as procuro. Sinto-me confortável com aquelas com as quais me cruzo no dia-a-dia e sou feliz com elas, e adoro-as. Evidentemente que os meus horizontes com as palavras também são curtos e eu não as conheço todas nem domino as suas áreas de influência. Por isso há palavras que escolho, porque gosto muito delas e que prefiro tê-las do meu lado. Palavras que uso todos os dias, sem constrangimentos, que me preenchem a alma, me trespassam os tecidos e se me alojam tranquilamente no coração. Gosto daquelas simples, que se juntam a outras simples, que toda a gente entende; que falam – mesmo com uma pronúncia qualquer – mas que nos pertencem, com as quais nos identificamos. E é bom adormecermos com elas, mesmo ao nosso lado, em cima ou debaixo de nós, mesmo que encadernadas num amontoado de livros. E admiro-as, conversando com elas todos os dias, vendo-as juntinhas, todas certinhas e alinhadas, apelando ao amor, à ternura, ao carinho. Sim, também há palavras más, feias, que nos agridem, mas essas eu tento contorná-las; finjo que não as conheço, embora às vezes me atropelem os pensamentos e me atormentem a cabeça. E há muitas por aí. As melhores são mesmo as mais doces. Também gosto das que falam de justiça, de paz, de amor. Obviamente que também há umas que são mais atrevidas e que nos falam de sexo. Essas são, provavelmente, as melhores, as mais apelativas; mas coro só de pensar nelas e evito-as porque me excitam e esqueço-me de quem sou e transformo-me nelas e passo a ser as próprias palavras que engulo ou regurgito no prazer delas.
Carlos Alberto


Terça-feira, 23 de Outubro de 2012 (Miratejo, 22:05h)
“Fuga para a frente”

Colocamos a mesa para comermos o prato. Lavamos as mãos, penteamo-nos e vestimo-nos a rigor, de acordo com a solenidade do momento. Está tudo a postos para recebermos os convidados. Não há velas acesas nem odores honoríficos no ar, mas é como se houvessem. O vinho está na mesa a respirar pronto a ser absorvido e o ambiente propício para gozarmos o prazer daquilo que seria uma boa refeição. Só que à última da hora, perante a relação prato confeccionado/convidados, perco a vontade de comer e finjo que não estou e desisto da refeição. Gostamos de um bom prato, de uma boa febra na brasa e o que se nos depara é um “redon” ou “redondon” que não nos apetece partilhar. E tudo acaba como (não) começou. Desfazem-se os cenários, fecham-se as cortinas, apagam-se as luzes e deixamos cair a parede que nos segura enquanto se instala a desilusão. O sonho, a fantasia, a loucura termina ali naquele olhar que nem chega a ser trocado. Não vale a pena, basta-me de velharias. Gosto muito da carne fresca da juventude e de um espaço claro e aberto onde podemos sorrir num ambiente de pleno e garantido prazer; e não ter na frente um cabelo grisalho, dos anos quarenta, quando o vinho era tão caro, colheita topo de gama, das melhores castas que se produzem e que certamente não seria bem degustado. E assim tudo acabou caindo no silêncio absoluto. Estávamos numa manhã cedo, no princípio e no fim de um dia em que tive de ir à procura de um outro produtor, este também antigo, mas que já conhecia e que prometera uma festa particular por estes dias. E temos que aproveitar enquanto há adrenalina a subir e a descer. A felicidade pode não estar aí, mas é uma forma de me sentir vivo. Se é esta felicidade que procuro? Não. Mas é a forma como me escapo, a minha fuga.
Carlos Alberto
 

Quinta-feira, 15 de Novembro de 2012 (Miratejo, 16/11 01:35h)
“Dia da véspera”

Cá vou eu noite adentro usurpando a madrugada do meu dia, fugindo também às vésperas do tempo que já vivi. E cá estou eu iludindo as palavras ou o sentimento que elas produzem, tentando inventar memórias de um tempo que já não tenho. Dia de véspera, interessante princípio para uma conversa aqui entre linhas, monólogo sem regras na esperança de que as palavras façam sentido. E não entendo nada, não há racionalidade nos actos. Penso uma coisa, faço outra. Apregoo o amor, a paz e depois digo que não há perdão para o mal que umas pessoas fazem às outras. Grito, blasfemo, digo uns impropérios e zumba, sou apanhado. Crescer custa e paga-se caro. Eu mostro uma cara de pau, olhar hirto e sisudo, expressão íntima de crueldade atroz e, depois, choro pelos cantos, encolhido e desesperado como uma criança cheia de medo, embrulhado num invólucro que me esconde da vergonha do que sou. Sim, ainda estou em dia de véspera, no tempo em que aguardo apenas pelo tempo, onde as horas se consomem e se evaporam como álcool à intempérie. Sim, ainda vou sonhando com a ilusão de que tenho a felicidade à minha espera, sentada; enquanto eu, sentado, espero que a felicidade chegue. É este o sentimento, a esperança que me move o espírito, a ilusão que alimenta o meu ego, mas que aos poucos vai sentindo que a véspera se esgotou. E chega pois o grande dia, aquele em que acordamos para a realidade e reparamos que estamos sozinhos. Cresce então uma mágoa que nos rasga por dentro e gritamos no vazio de um tempo por preencher: ai, dói-me aqui! E ninguém me escuta, na véspera.
Carlos Alberto
 

Quarta-feira, 21 de Novembro de 2012 (Miratejo, 22/11 01:00h)
“Palavras ao deitar”

Vou escrever ao amor, aos anjos, ao meu amigo, à saudade, à canção, à paz, ao cansaço, à cama, ao abrigo, aos sem-abrigo, à luz, à amizade, a todos aqueles que não me ouvem, ao vazio, à ternura, à solidão, à brancura, aos leões, às águias, aos amigos do norte e do sul, ao sol, às nuvens, aos poetas e artistas, aos músicos e trapezistas. Vou escrever ao mundo, a Deus, às minhas mulheres e ateus. Vou escrever para todas as coisas, ou gente, porque lhes quero dizer muitas loisas, sempre a correr. Vou dizer-lhes que os amo a todos e até aos inimigos – de quem não me esqueci – e quero fazer as pazes com os bandidos. Vou escrever também à lua, coitadinha, que merece uma palavra lindinha. Vou escrever também ao Papa, ao Presidente, à mãe do Presidente e a toda a sua gente. Vou escrever, claro, se eu lhes puder chegar, mas não acredito que esta mensagem chegue sequer a ecoar... Vou escrever apenas, apenas palavras escritas, sem gritar. Vou falar baixinho porque não é a ralhar que nós fazemos amor. E por isso quero também que me ouçam, que me escrevam, que saibam que existo, aqui neste cantinho do mundo, neste vazio imenso onde a solidão tem uma voz tão profunda que inunda apenas o meu sono e me enche só a mim: de lágrimas, de sorrisos que não tenho, palhaços que não vejo, e de crianças a brincar que não me deixam ver. Vou escrever que gostava muito que me deixassem ser feliz. Vou escrever ainda que gostava muito de ser alguém importante, nem que fosse apenas para uma criança. Sim, sei que sou pai de três belas crianças que eu amo e para quem vou escrever estas palavras: vocês são os melhores filhos do mundo, Cláudia, Pedro e Celina; amo-vos muito; eu é que não serei o melhor Pai que vocês poderiam sonhar ter.
Carlos Alberto
 

Sexta-feira, 23 de Novembro de 2012 (Miratejo, 22:05h)
“Pai e filha”

Estou no centro do mundo. Tenho tudo o que preciso à minha volta e nas proporções necessárias e adequadas à minha homeostasia. Não há chuva nem frio. Está quentinho o suficiente para me sentir confortável. Há luz em quantidade quanto basta para conseguir ler e escrever o que sinto na maior paz que me é possível ter. Há música, vozes de crianças que dizem já não ser, palavras que me aquecem e protegem os sentimentos. Há amor. Pode ser até distante, à distância de um metro, mas é o suficiente para aquecer minha alma e nos sentirmos nos braços e no regaço de alguém a quem queremos muito. E rimo-nos, brincamos, sentimos o pulsar do coração. Nossas mãos estão limpas e acariciam aquela que nós fizemos num leito de amor, algures. Está tudo aqui. Este é o melhor lugar do mundo para estar neste momento. Não me falta nada. As palavras sobrepõem-se. A voz aquece. Não interessa se estamos sentados no chão e se há apenas uma almofada a apoiar-nos. É o amor que aqui prevalece e se enaltece. Pode ser apenas um quarto, um quarto pequeno onde até há algum desalinho, mas é o espaço suficiente onde se constroem carinhos, ternuras, e se substituem os choros ou as lágrimas por sonhos e desilusões assumidas. E há palavras que se escrevem que têm um sentido tão profundo que até os erros nelas contidos têm um sabor de autenticidade pura que as valoriza ainda mais. Uma carta ao Pai Natal aos oito anos afigura-se-me como a melhor dádiva que Deus me deu por ter concebido uma filha que pensa e escreve assim. E nesta simbiose de pai e filha, atrevo-me então a escrever que, com certeza, o Amor terá sempre que vencer e prevalecer.
Carlos Alberto
 

Sábado, 24 de Novembro de 2012 (Miratejo, 25/11 00:55h)
“Um drama antes da comédia”

Os anos passam e, quer queiramos, quer não, vamos ser velhos. E vamos ser chatos, vamos ser casmurros, vamos ter todos os problemas que os velhos têm. E agora que penso nisso, apesar de ser um bom “princípio”, sinto um certo constrangimento. É que nós achamos que temos sempre saúde, que somos sempre jovens e que temos energia para dar e vender, ou que seremos sempre autónomos. O que acontece, no entanto, é que os anos passam e, quando damos por isso, estamos surdos, mal vemos, somos insuportáveis e até cheiramos a velho. Pois é, esta é a crua realidade do que somos e para quem se atreve a desafiar os anos. É este o nosso “inexorável” fim. E foi com estes pensamentos que me confrontei dentro desta noite fria e bastante chuvosa. Atravessámos a estrada e, com o vento, as folhas das árvores entornavam engrossando os pingos de chuva que caíam e nos regelavam a calvície. Junto aos modernos e luxuosos edifícios da larga avenida, lojas de marcas internacionais, de protuberantes fachadas, reluziam para a noite a luz deslumbrante das suas montras. Nas sombras, contudo, vultos informes, de alguns sem abrigo, disfarçavam-se, aconchegando-se debaixo de uns reles cobertores e sobre umas placas de cartão, estendidas sobre o gélido chão de mármore. Uma mulher arrumava no seu canto as almofadas, as garrafas de água e uns pertences muito dobradinhos. Congelei. A minha peça de Teatro era mais à frente e tratava-se de uma comédia, mas estava ali já diante do primeiro contacto com o drama. O drama da vida real. Gente nova, gente velha, descalços, a garrafa de vinho ao lado, os pés enegrecidos, os gorros enfiados nas cabeças. E nós ainda nos queixamos do exíguo e caótico espaço que temos neste quarto, que a cama range e faz barulho, que é curta e os pés ficam de fora. Quase velhos, esquecidos, chatos e para rir, assim foi a comédia, depois de chorar pela realidade que nos colhe e apanha desprevenidos. Avenida da Liberdade, barriga cheia de jantar no bucho, uma comédia e um drama em dois actos. O drama foi verdadeiro. A noite acabou aqui.  
Carlos Alberto

PS: Voltei a fazer ligeiras alterações nos originais, muito pontuais nalguns textos, para lhes fazer alguma correcção gramatical ou dar mais ênfase ao assunto em questão.