terça-feira, 16 de julho de 2013

MEMÓRIAS DE 2012

Páginas  do Meu Diário ( 1º Semestre)


Desta vez deixo aqui os meus melhores resumos do 1º semestre de 2012, de acordo, obviamente, com o critério que defini.
Reitero que é uma transcrição integral do que senti no momento em que escrevi os resumos e que não vou aqui fazer qualquer alteração no sentido de subverter o que disse. Mais uma vez reforço que o que escrevi é apenas o meu ponto de vista e é da minha total responsabilidade.

Carlos Alberto

 
Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012 (Miratejo, 4/1 00:55h)
“Um sonho na viagem”

O amor, sempre o amor, esse cruel sentimento que ou nos faz feliz ou nos mata por estrangulamento. E basta um filme, uma história e as lágrimas enchem-nos estupidamente a vista. Sim, porque chorar só mesmo por alguém que nos faça feliz. Mas aí não achamos que valha a pena. Contudo, quero viver.  O amor é demasiado frio, mas servir-se-á à mesa. O tempo acusa-nos de sermos brandos. A fome come-se com garfo ou com as mãos se não houver guardanapos de pano. Somos seres demasiados espertos para estarmos acordados e adormecemos acreditando que a lua nos transmite em canal aberto. Sim, é verdade, sempre há um oceano para atravessar, mas desta vez rumo ao sul. Já não há nada a oeste. Vibra a noite para os lados do equador, onde as sombras se apagam em fumos de dança. Somos carne, sensação, alegria quando choramos. Poetas à noite fingindo de dia que a escrita é o ocaso da vida. Vamos a correr para os braços da outra, ilha dos sonhos de todos, com a luz da noite a salpicar-nos a vista. Rimos às estrelas que cintilam e pulam, cantamos ao rio que se esvai em alegres rumores de que São Tomé é Príncipe. É a viagem do sonho descoberta de um sopro, como se os mares nunca antes navegados nos sacudissem da letargia de sermos velhos. Não queremos morrer, mas saborear a vida, sorrir para as crianças, dançar ao som de “vai, vai” dentro de mim, ao som brasileiro ou de outra língua qualquer. Quero lá saber; a vida pode acabar depois de amanhã, quero viver intensamente o amanhã com quem quer estar comigo.

Carlos Alberto


Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012 (Miratejo, 6/01 00:30h)

“Livres como os passarinhos”
Escondidos pela sombra da noite inventamos a vida que nos afoga. Somos o que não somos, gememos no silêncio dos murmúrios e explodimos em raiva pela razão que nos acorda. Homens e mulheres num grito de prazer escondidos enquanto um manto de fantasia nos cobre o rosto de vergonha. Humanos, apenas humanos, mas como animais com cio desbravamos caminhos que nos conduzem à luz. Que mal há naquilo a que se convencionou chamar pecado? Sim, não fiz amor à luz das velas, nem acordado nem de forma nenhuma. Essa é outra vertente da paixão que se aguarda, que se vai adiando de hoje para amanhã, como de ontem para hoje. Não há sinais de glória, nem de loucura que valha a pena. Apenas homens, um pau enquanto uma mulher se masturba. Delicia de sonho que nos faz esconder a cara da vergonha de estarmos ali prostrados a sentir o quanto quente o pau duro de um esgoto qualquer. Não, a rua não é o nosso lugar. A cama abre-se em lençóis de flanela. Os joelhos estão no chão que nos sacodem em movimentos repetitivos e cadenciados... Que mulher, meu Deus, que nos abre o apetite mesmo que por detrás as entranhas nos rasguem por dentro. Loucos, loucos até que o cansaço nos atire ao chão e clarividentes possamos voltar a respirar normalmente, sem estarmos ofegantes. É assim a noite da solidão desmedida, do pássaro que quer fugir da gaiola, mas as grades impedem-no. Ainda bem que as grades existem para sermos homens, mas como pássaros, livres de vento.  

Carlos Alberto  
 

Sábado, 7 de Janeiro de 2012 (Lisboa, 23:50h)
“Sporting-Porto”

É uma febre que nos ataca e nos enerva um dia inteiro. Pensamos nisso o tempo todo e a hora derradeira finalmente chega. Os nervos estão à flor da pele. Tentamos abstrair-nos, mas o nosso coração palpita mais depressa. Somos alma e coração, alegria e angústia. Esperamos o momento de saltarmos do maple e gritarmos a pulmões abertos aquilo que a alma nos reprime. Os minutos passam e tentamos perceber de que lado está a força. Sentimos que há alguma diferença, que ela está do outro lado e que a todo o momento o mundo pode desabar. Mas não será o fim. Haverá sobreviventes e não estaremos sozinhos. É a hora de gritar, está na hora de explodirmos. Trememos, trememos, sentimos que vamos desfalecer a qualquer momento. Batemos com os pés no chão, as mãos magoam-se entre si em estalos de falhanços de bolas no poste e gritamos contra nós próprios enquanto alguém se ri atrás de nós. É uma sorte que não chega, um prazer que não temos. Sofremos, sofremos, mas acreditamos que ainda somos capazes. Há ali homens a correr com toda a força e com fé e, portanto, ainda é possível saltarmos de alegria. A lua está cheia, linda lá no alto, a observar-nos. O estádio está a abarrotar, quase todo ele verde da esperança que não conseguimos senão alimentar. Mas o grito, o salto, a expressão máxima do golo, esse não acontece. Vamo-nos contorcendo tentando daqui dar um chuto certeiro na bola e enfiá-la na baliza do nosso adversário. E não há meio de desempatarmos aquilo. E o tempo passa, passa, e quando o minuto noventa chega todos têm razões de queixa e ninguém foi capaz de dar um chuto de jeito. Tudo igual, tudo pior, digo eu, sem ter podido gritar: golo do Sporting!

Carlos Alberto

 
Domingo, 22 de Janeiro de 2012 (Lisboa, 23:30h)
“Sofrimento oculto”

Acordar na Costa, deitar em Lisboa, adormecer no sonho, despertar de um pesadelo. É a vida confusa e difusa de um tempo amargo doce onde tentamos buscar a paz num inferno de emoções. Não sei que fazer, não sei que me espera o dia de amanhã, não sei o que é bom ou mau para mim. É uma mistura de sentimentos entre o querer e o não querer, o ser capaz e o de não ter capacidade, o de sorrir e ser infeliz. Quero que a minha vida seja um projecto real de vida, mas sinto-me amordaçado por um jogo de interesses. Gostava de não me sentir um intruso, mas é o que sinto e às vezes pressinto que não pertenço ao clã, que há reservas. Por outro lado insurjo-me com facilidade contra aquilo que eu acho que é “a miséria de espírito”. Vejo um roto com um saco de dinheiro debaixo do colchão. Sinto-me mal por ver tanta estupidez, ganância, instabilidade emocional. Não sou capaz de diluir o azeite em água nem tornar a água em álcool. Cresço e esmoreço. Tento e não me sinto com capacidade. Dizem para eu ter força, mas há forças ocultas que me empurram para fora. Eu serei apenas uma peça que não pertence à engrenagem e que se vai tentando ajustar: como uma roldana que devia ser de chumbo e é de pau. Vai-se encaixando, sim, até roda, mas um dia vai-se desgastar e vai acabar por partir. Mas por agora serve, gira, acredita-se até que resiste ao tempo, mas eu sinto a minha fraqueza, a minha impotência e sei que não. Porque é que as pessoas não vêem aquilo que é óbvio e que está diante dos seus olhos?

Carlos Alberto
 

Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012 (Miratejo, 24:00h)
“Aquilo que mereço”

E continua o mesmo desabafo, a mesma conversa, a mesma insatisfação. E apetece-me dizer que estou a atravessar um dos piores períodos da minha vida, mas certamente não o pior. E tudo porque não me considero um homem feliz e realizado. Todavia, já o disse, a culpa é só minha. Eu sou o homem que sou porque não fiz mais por mim, não investi em mim, fui passando sempre ao lado daquilo que me desse mais trabalho. Diria que procurei sempre o caminho mais fácil e, por isso, estou onde estou. Podia e devia ter tirado o curso de engenharia, mas também tenho a consciência de que não seria um grande engenheiro. As obras, por muito estranho que isso possa parecer, não são o meu forte. Se gosto do que faço e se faço o que gostava de fazer digo, redondamente, não!!! Mas não sou capaz de dizer que me daria bem nesta ou naquela área. Direi que sou um falhado geral, um projecto adiado, sem uma competência numa qualquer área que seja. Sou assim um homem que falha em toda a linha e que apesar de ter trabalhado sempre e até ter ganho muito bem, não me especializei em nada, não tenho nada, não construí nada, não sou ninguém. E este é o meu drama. O que é preciso fazer para termos estatuto? Eu olho para o meu irmão e ele tem onde se agarrar; e eu? Sim, tenho três filhos, que serão eles “a minha riqueza”, o fruto dos meus amores. Há quem colecione bens, terrenos, casas, poder; eu tenho o amor, filhos, carinho e muita compreensão de todos face ao homem limitado que me tornei e sou. Enfim, termino como sempre com o que costumo dizer: tenho aquilo que mereço.

Carlos Alberto

 
Domingo, 12 de Fevereiro de 2012 (Lisboa, 23:45h)
“Sair ou ficar”

E o tempo passa, vai-nos consumindo, sem sermos capazes de fazer melhor, sermos outro, sentirmos o quanto vale a vida para além do que somos. E é bom quando acordamos e sentimos o calor e o aconchego de um abraço e um beijo que chega na vontade. Sentimos por instantes o ofegar do outro e gozamos o que é possível num esgar de circunstância. É a manhã que nos acorda assim. Lá fora um frio de rachar. Os gatos espreitam pela janela através dos baços vidros. Levantamo-nos e acabamos por sair de casa desafiando ainda o sol tímido que, no entanto, com a sua pujança vai aquecendo talvez as folhas amarelecidas pelo tempo. Não há mais nada além da luz. O amor já se foi, a paixão, a loucura. Apenas um abraço do sol com a lua que ainda se atreve do outro lado do céu. É uma canção, talvez, o riso pelas palavras, o gesto e a forma. Sinto-me bem no momento em que me cobres as pernas arregaçadas do curto pijama que se me encolhe. Ouço-te dizer que gostas de mim, enquanto desaparece uma fatia de pizza. É a encomenda para o jantar que se pediu ainda a noite mal chegou. Gelado o entardecer. Um filme na televisão que vejo e de que gosto sem apreciar. Durmo pelo meio e acordo com a história quase no fim onde se descobrem os criminosos. É mais um dia, ou menos; com a sensação de que há tanto para viver, para fazer, para amar e nós nos perdemos ali em séries e mais séries e também nas histórias de “era uma vez” a que se juntam a crimes imperfeitos. Perfeitas perdas de tempo que só servem para estarmos juntos em frente da TV.
Carlos Alberto

 
Sábado, 25 de Fevereiro de 2012 (Miratejo, 23:30h)
“Solidão”

A solidão, as lágrimas, o rio, a brisa da tarde, as gaivotas, os veleiros, os pássaros sobre o sapal, a nostalgia do tempo, a areia, as conchas, os barcos, o céu azul, os namorados, as árvores, as palmeiras, o caminho de terra batida, o sonho, a luz, a vida, as fotografias, o tempo, o passado, o presente, a música, o outro lado da margem, a cidade primeiro, a vila do outro lado do sapal. Os pardais, as árvores caducas sem folhas, outra vez aqui as palmeiras, o pneu pendurado atado numa corda grosa de sisal - com que se amarram as grandes embarcações - a um ramo de um velho pinheiro. Os armazéns velhos e meio destruídos recortados na paisagem maravilhosa do entardecer na baía, o tempo... A maré a encher, as gaivotas a perderem os bancos de areia nas suas temporárias ilhotas que emergem das águas do rio. Os velhos cacilheiros, os catamarãs, o meu tempo num livro, numa revista que se desfolha sem ler, o meu automóvel. Apenas eu e o meu mundo iluminado pela literatura. Turvam-se os olhos por instantes na areia enquanto as ondas vão trazendo o rio margem acima. Sobra o lixo, os paus, as canas, garrafas de plástico e os milhares e milhares de conchas de todos os tamanhos e feitios. Sonhamos, acordamos, temos pesadelos. É a tarde na solidão da vida, o que nos sobra quando não temos ninguém. E esperamos. Espero pela minha filha Celina que vai chegar: é tudo quanto me resta, para a ouvir falar, falar, falar dos seus amores, salvadores, do gostar e amar na versão mais poética e sincera de que um ser humano consegue, sem hipocrisia. Resta-me agora este tempo com ela, enquanto o sono já me embala, a noite que já nos abraça e, mesmo que a cama seja pequena, para o amor há sempre espaço.
Carlos Alberto

 
Terça-feira, 24 de Abril de 2012 (Miratejo, 25/4  12:50h)
“A frustração de uma vida”

A sensação que tenho é que há um país perdido para aquilo que são os direitos fundamentais de um povo. Eu não sou ninguém, nunca fui ninguém, mas sinto-me sobretudo “injustiçado” por aquilo que é a minha actual situação neste país. E sou um homem frustrado. Um homem que apesar da sorte que sempre tive em sair incólume das pequenas lutas que travei, sinto-me agora, quase no fim da minha vida, como aquele homem que teve nas suas mãos a possibilidade de ganhar a taça e ser o verdadeiro campeão e, no momento decisivo, falhou o penalti que lhe daria não só a consagração da sua vida, mas da vida de todos aqueles que o rodeiam. Sou por isso hoje um homem fragilizado pelas consequências, quer das minhas atitudes quer dos actos daqueles que nos governam. E talvez por isso e de uma forma inexplicável, chego à noite e não consigo dormir. Passam a uma, as duas, três e quatro da manhã e de televisão acesa debato-me contra o sono que me desperta. Provavelmente não estou bem e a minha instabilidade reflete-se neste estado de espírito estranho que não me beneficia. Primeiro tento ou durmo na sala deitado no maple e, por fim ou depois, numa pequena cama de corpo e meio, sem a abrir, num pequeno quarto, por cima da roupa e apenas tapado com um cobertor que improviso. Olho à minha volta e vejo-me então no quarto que foi da minha filha mais velha. Mas a sensação não é boa, e sinto-me num espaço com o qual não me identifico porque não tem a ver nem com os meus ideais e padrões de vida, nem com aquilo que eu sonhei para mim e que até já tive no passado. Sou, por isso, um homem desgastado e frustrado para quem a vida se perde nestes labirintos de sentimentos e também de alguma inglória. Irei, no entanto, sobreviver, não sei é até quando.
Carlos Alberto



Terça-feira, 8 de Maio de 2012 (Miratejo, 9/5 00:45h)
“Vales zero”

Sempre me achei um homem especial e diferente dos outros homens, é verdade. Essa diferença comecei a senti-la na tropa quando reparei que os meus gostos e interesses eram diferentes dos outros rapazes da minha idade. Todavia, integrei-me e daí a pouco acabei por tornar-me pior que eles. Até lá, no entanto, eu era mesmo um tipo demasiado certinho e organizado. Eles jogavam à batota e bebiam; eu lia os jornais e escrevia. Eles gritavam, berravam, digladiavam-se; eu no meu canto, não chateava ninguém. Cresci, então assim com este sentimento de alguma distância e diferença da maioria. Também achava que era um tipo muito honesto, trabalhador, amigo do seu amigo e de toda a gente. Extremamente tímido, houve um momento que achei que nunca seria capaz de ter uma namorada. Apareceu então aquela que seria a mãe dos meus primeiros dois filhos e casei-me com ela, não fosse ainda ficar para tio. Já tarde, a chegar quase à terceira idade, eis que me apaixono verdadeiramente por uma mulher que eu achava que era a minha cara-metade. Era, mas foi o meu lado podre dela. Mas, mesmo assim, valorizei-me como homem. Com ela tornei-me muito mais poderoso e seguro de mim. Achava-me o homem mais feliz do mundo. Até ao momento em que me empurrou do comboio em andamento em cima da ponte. Caí ao rio, vim parar à água e lá se foram as peneiras e a mania das grandezas. Qual melhor, qual diferente dos outros, qual carapuça: um parvo, um estúpido foi como me senti. Mais tarde tentei uma segunda hipótese, que seria a terceira, pois achava que seria bom fazer uma reciclagem. Consegui ser feliz por instantes: entendia até que voltava a ser especial para alguém, diferente dos anteriores, insubstituível, mas, catrapumba, lá vou eu de novo ao charco. Qual especial, qual quê: um banana, alguém que não vale um caco. E, de facto, não fiz nada para evoluir. Acordo e deito-me sem construir nada de relevante. Ou será que este pouco justifica algum mérito e valeu a pena?
Carlos Alberto

 
 
Segunda-feira, 18 de Junho de 2012 (Miratejo, 21:40h)
“À procura da ilusão”

Começa uma semana, mas nada muda. Os dias como que se repetem. A diferença pode estar na nossa atitude, na diferença de sermos diferentes, onde os limites se tocam e se projectam num infindável eco de emoções que nos farão vibrar. Mas estamos ainda no campo das hipóteses. A nossa vida enche-se e esvazia-se quase no mesmo ritmo. Se procuramos uma identidade ela aí está. Não sei o que é que vai na alma daqueles que buscam um outro sentido para as coisas que os rodeiam. Eu quero viver, gozar a vida, mas sem fazer mal a ninguém. Eu nem sou vítima nem caçador. Nós escolhemos o nosso caminho em função das encruzilhadas que encontramos. E basta apenas um momento, um descargo de consciência e tudo muda com um gesto nosso. Mas não há nada de novo que se inclua aqui, para já, senão um projecto novo de vida. Uma hipotética relação que nasce ou morrerá na ilusão do acontecer. E hoje é até dia de festa, mas não para mim. E fico-me por aqui entregue à ilusão do que pode mudar amanhã na minha vida. E lá vamos nós para mais uma semana na esperança que nos dê algo de novo e diferente, mesmo que o novo não seja na verdadeira acepção da palavra. Mas o que quero é apenas gozar a vida, mesmo que seja em sentido contrário, dando em vez de receber, num jogo maléfico de que o proibido é o fruto apetecido e o sonho é apenas o período de um momento que se usufrui gostando. Mas nada é garantido e a ilusão pode dar lugar à frustração e à desilusão. Quando as expectativas são muito grandes, normalmente o cesto sai furado...
Carlos Alberto

 
 
Terça-feira, 26 de Junho de 2012 (Miratejo, 27/6 09:40h)
“Qual lenda da mitologia”

O cansaço invadiu-me o corpo, e a alma, repleta de sensações partiu para um descanso prometido e desejado. De facto, ainda me sinto anestesiado. Escrevo, mas a mão treme-me como se eu tivesse acabado de cometer um homicídio. Estou nervoso e inseguro. Se esta página servisse para me incriminar de um acto ilícito, seria absolutamente possível encontrar nela indícios de que algo de muito anormal se passou. Estou ainda transtornado depois do longo sono que fiz. Mas estou seguro de mim. Os meus alibis são perfeitos. Não há nada que me impeça de ser quem sou, aja como ajo e seja aquilo que sou e penso. Eu parto em busca de mim, como um guerreiro em busca da vitória, ao encontro daquilo que pode ser apenas mais uma batalha que se trava com prazer. Não o prazer do sangue, mas do físico das entranhas que se penetram em esgares de gozo assumido. No deleite de um sofá ou no chão sobre um tapete e ao fundo imagens do Oriente, África, mesmo que o mar esteja longe, pode ouvir-se na nossa imaginação o turbilhão que se enrola e nos degola até mais não. Percorremos quilómetros na esperança de irmos ao encontro daquilo que não as nossas convicções sobre os homens e as suas paixões. Sem medos, traumas ou tabus, sem danos colaterais, partimos, para chegarmos exaustos de uma contenda, como num diálogo de titãs, aqui retratado e que neste momento já nada é mais do que pura história. Recordo-me das lendas, dos mitos, qual Rei Artur do século VI de conquista em conquista em que não se sabe onde começa a verdade e acaba a lenda. Até lá vamos tentando ser felizes, acreditando, e encontrar nos momentos as razões do que somos e porque lutamos sendo assim. Amanhã será futuro, o passado já foi.  
Carlos Alberto

 
 
Sexta-feira, 29 de Julho de 2012 (Miratejo, 21:55h)

“Lágrimas efémeras”
Não sei que dizer, a não ser que as lágrimas voltaram por instantes. Efémeras também como aquele momento em que pensei e agi de acordo com o passado. E não vou acrescentar detalhes. Sei que quando voltar até esta página até já não perceberei, à primeira, do que estou a falar. Mas ficará assim mesmo. O passado, mesmo o recente, magoa-me e não quero chafurdar nele. Quero ser feliz, preciso ser feliz, não sou, mas hei-de tentar sê-lo. Continuo a dizer que não sei como, nem quando, nem onde, nem com quem, mas hei-de ser, mesmo que a minha fé esteja hoje muito abalada. Acredito, mas, infelizmente, não piamente. Todavia, acho que tudo tem uma razão de ser e que nada acontece por acaso. Acho que tenho o que mereço e se mais não tenho é porque não fiz o suficiente por isso. Sou, é verdade, o resultado dos meus actos e da sorte que tive. Fui muito feliz, um dos homens mais felizes do mundo; considerava-me até abençoado, mas, de repente, perdi tudo o que tinha e de que gostava muito. Estamos todos sujeitos a isso e ninguém pense que tudo o que é adquirido pode considerar-se como um facto consumado. Aprendi isto, da pior maneira, com o que a vida me deu e tirou. Eu achava que dominava, que tinha tudo sob o meu controle, que Deus me abençoara para ter o que tinha. Enganei-me. Deus mostrou-me também o outro lado da medalha: castigou-me severamente e ainda me castiga. Mesmo assim ainda me considero um privilegiado dentro da minha “desgraça”. Estou num quarto que é o espelho daquilo que tenho: um cubículo que apesar de ser o ex-quarto da minha filha mais velha é o retrato exacto do caos que é a minha vida hoje sob diversos aspectos. Sem amigos, afastado de todos, sinto-me muito infeliz.

Carlos Alberto

 PS: Para dizer que fiz ligeiríssimas alterações muito pontuais nalguns textos, ou para lhes fazer alguma correcção gramatical ou dar mais ênfase ao assunto.
Por outro lado dizer que são páginas de sentimentos que estão lá muito para trás no tempo, que valem o que valem, e que hoje seriam escritas com contornos mais positivos. “Não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe”... não é?

"Façam o favor de ser felizes" (Raúl Solnado).