quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

MEMÓRIAS 2012


Páginas  do Meu Diário ( 2º Semestre)


Desta vez deixo aqui os meus melhores resumos do 2º semestre de 2012, de acordo, obviamente, com o critério que defini.


Quinta-feira, 5 de Julho de 2012 (Miratejo, 23:40h)
“Um amor à sombra”

Encontrei-me numa esplanada da praia. Um livro sobre a mesa e uma bebida que incluía gelo e limão. À minha frente gente que circulava em fato de banho, ora num ora noutro sentido, pelo paredão que me separava dos areais brancos até à água do Oceano, lá ao fundo. Na linha do horizonte há um navio de carga, um petroleiro, daqueles que transportam toneladas de combustível. Há muito sol, mas eu estou à sombra de um enorme chapéu colectivo preto que cobre uma grande parte daquele local aprazível. Não está ali mais ninguém sentado; só eu e o meu livro por desfolhar, poisado sobre a mesa, com o Ginger Ale vertido no copo alto. É apenas um momento de observação. Dali a pouco dou um trago na bebida adocicada e abro uma página marcada, já quase a meio do grande volume que me acompanha. Está um pouco de vento. Na praia adiante há gente espalhada pelo areal, mas não aquela multidão dos grandes dias de calor. Para trás havia deixado já um almoço também consumido à beira da praia com o mar em fundo. Só que aqui não estava sozinho. À minha frente um homem que me chama pai. É boa a sensação. Trocamos pratos que dividimos para saborearmos o que ambos comemos. Aqui é com água que empurramos a comida para o esófago. São ainda dois dedos de conversa sobre assuntos judiciais pendentes. Dou-lhe o meu apoio, atiro-lhe conselhos, ajudo-o como posso. Recebo em troca a refeição que aquele rapaz faz questão de pagar-me. Não quero, mas ele insiste. Tenho pena do meu filho. É um puto que se nota que não está seguro na vida e que não tem certezas de nada. Sinto que lhe faço falta, apesar de ele já ser um homem de 26 anos. Mas os pais fazem sempre falta aos filhos. E os filhos farão sempre falta aos pais. Amo-os a todos e também sinto que gostam de mim. Mas se os filhos não gostarem dos pais quem é que vai gostar?
Carlos Alberto

 
Domingo, 29 de Julho de 2012 (Miratejo, 30/07 08:30h)
“Faça você mesmo”

Domingo, fim-de-semana, tempo de descanso, praia, passeio, convívio, amizades, saídas, oportunidades. Tudo isto e muito mais a preço de saldo. Basta um telefonema com valor não acrescentado e toda a família tem direito ao seu pecúlio. Tão simples. Mas se está sozinho, não esteja! Temos para si a solução com imensas alternativas. Pegue no seu automóvel e dirija-se a uma qualquer avenida marginal. Estacione o carro em zona visível, abra os vidros, ligue o rádio com o som bem alto - não se esqueça dos óculos de sol - coloque o braço esquerdo sobre a janela aberta da porta do veículo e desfrute de quem passa, olhe o mar ou o rio, e goze o momento de pulmões abertos em perfeita harmonia com a natureza humana. Se por outro lado é dos que aprecia mais a calma do campo, vá então até uma qualquer mata próxima de si e estenda uma toalha debaixo de um pinheiro que não tenha ainda ardido e aproveite o sossego e a tranquilidade desse espaço ouvindo o chilrear dos passarinhos que de galho em galho o vão divertindo, esvoaçando e cantando com toda a sua liberdade. Como vê, a baixo custo pode ter tudo, toda a natureza ao seu alcance. Se mesmo assim é dos que prefere ficar em casa a ver a televisão, sempre haverá um bom filme de desenhos animados tipo “Madagáscar”, ou um qualquer jogo de futebol da Ásia entre clubes de que ninguém ouviu falar, ou então imagens dos Jogos Olímpicos. Pois, aproveite a vida, não fique deprimido porque há sempre quem esteja pior: na maca de um hospital, em lista de espera, na sala de observações traumáticas o que é muito mau. Mexa-se.
Carlos Alberto  

 
Quinta-feira, 2 de Agosto de 2012 (Miratejo, 22:10h)
“Tarde de Lisboa”

Nada é ao acaso. A vida faz todo o sentido. E não é em vão que agimos, que realizamos as nossas tarefas, que sentimos frio ou o calor. Lisboa. Uma tarde quente. Gente e mais gente. E eu com tempo. Passeei-me pela baixa. A máquina fotográfica ficara propositadamente em casa. O objectivo era outro. O carro ficou estacionado quase ao pé do Castelo de São Jorge. Que belas imagens se conseguem do Miradouro de Santa Luzia com o Tejo em fundo! Contudo, um rio quase deserto. Para um estrangeiro que contemplasse aquele espelho de água deve ter achado algo de estranho: um braço de rio despojado de barcos, movimento, qualquer faina; estariam de greve? Um cais imenso vazio, sem ninguém, como se o tempo tivesse parado. Restam os telhados vermelhos do casario recortado na paisagem mais próxima, a Igreja de Santa Clara e um olhar transversal por uma cidade de mil encantos. Os eléctricos são também atracção turística, e uma rapariga vê um a aproximar-se, aponta a sua máquina fotográfica e acontece algo inesperado: o eléctrico pára, o guarda-freio levanta o braço, sorri e acena um adeus com a mão enquanto a moça, surpreendida, dispara e fica a rir-se pelo inusitado. É assim a cidade de Lisboa a vibrar e com tempo para tudo. Há uma paz e acalmia nas pessoas que desfrutam da paisagem, e com tempo ainda para ver as inúmeras lojas espalhadas pelos edifícios, muito velhos, daquela encosta do Castelo e que vendem de tudo. O Martim Moniz ficara para trás com um sabor azedo de quem se frustra pelas expectativas goradas de quem espera ser feliz e acaba afinal por se encontrar só com um copo vazio na mão. Salva-se o passeio, o sentir a cidade neste Agosto pleno de Verão, o beijo da minha irmã que me adverte de que devo ter muito mau feitio por ainda estar sozinho, ou então algum defeito tenho. E ela tem razão das duas maneiras. Tenho não só mau feitio como defeito de ser pouco homem.
Carlos Alberto
 

Domingo, 12 de Agosto de 2012 (Miratejo, 13/8 01:10h)
“Parabéns Fernando”

A nossa história é a nossa história. Coisas boas e coisas más, tempos de alegria e glória, tempos de lágrimas e derrotas. Mas estamos vivos. Não somos super heróis, vedetas no mundo, mas temos alma, paixão, sentimos o sol, amamos aquilo que temos. Aquilo que não temos não é nosso. O meu irmão dizia que nós não temos nada, apenas usufruímos as coisas. Pois, é verdade, mas melhor que usufruir é partilhar e é aí que as pessoas pecam: não partilham nada do que têm, nem a sua felicidade. Quando estava nos Açores e via algo maravilhoso, uma paisagem sublime, lembrava-me logo da minha irmã e telefonava-lhe para partilhar com ela aquele momento.  De facto, de pouco nos vale sermos felizes sozinhos e se não partilharmos com alguém a felicidade que sentimos. Eu gosto muito de partilhar aquilo que sinto e sempre partilhei, mesmo aquilo que é difícil. Mas ninguém aprecia o acto de sofrer e vivemos todos na esperança de que teremos amanhã uma vida boa, cheia, barriguinha bem aviada e o resto, à volta, não interessará muito. Se ao nosso lado alguém chora, isso não é connosco. Partilho assim hoje aqui a felicidade de ter um irmão mais velho que virou uma página importante. Chegarmos aos 65 anos é uma meta notável, pode ser o princípio de uma nova etapa, a derradeira, mas não deixa de ser um marco que todos desejamos atingir, com paz, felicidade e saúde. Se tivermos estas possibilidades concretizáveis seremos as pessoas mais felizes e realizadas ao cimo da terra. Se somos capazes de cumprir esse nosso papel, logo se verá se somos.   
Carlos Alberto
 

Domingo, 19 de Agosto de 2012 (Miratejo, 20/8 00:25h)
“Vinte anos é tanto tempo”

Tempo para tudo, tempo para nada. Acordar de manhã depois de uma noite de pesadelos onde fantasmas me sobressaltaram o descanso. Acordei a gritar para dentro, com medo desses ventos frios e estranhos que espreitavam pelas frestas e percorriam deambulantes o quarto e depois se escondiam na noite negra em recantos de fumos cinzentos. Até sinto arrepios agora só de pensar nesses medos gélidos que me envolveram na negritude da noite. Mas não foi apenas uma noite mal dormida; foi uma noite pouco dormida. Vivo hoje muito preocupado com o nada que faço. Não há horas, não há tempo, não há dias nem ninguém à espera. E vivo sem tempo onde o tempo não conta, apesar de nos ultrapassar a todo o instante. Tento, no entanto, acordar, sair, sorrir, sentir. Parece-me que assim algo me espera, embora saiba também que sou eu que tenho algo para fazer. E, no entanto, nada acontece. Não me sinto surdo, nem cego. Não me sinto à espera do nada. Sei, todavia, que tenho algo para cumprir, mas pelo qual não vou atrás. Não me sinto doente, mas medo de que amanhã seja tarde demais. Tenho raiva também, sim, recalcada. Perdi todo o amor que me enchia por dentro. Já não luto pelo amor. Deixei de acreditar nele. Já não quero sequer envolver-me, ir à procura. Sinto-me completamente desiludido e acho que na vida o amor é uma estupidez, porque nos magoa. Tenho também pena, muita pena mesmo, de não ter ido mais longe na minha formação. E hoje não me sinto sequer, por via disso, com capacidade, coragem e ou ousadia de tentar o que quer que seja para ir por aí. Infelizmente, sem amor e sem vontade de lutar, vivo hoje muito mais virado para morrer, mesmo acreditando que posso ter ainda vinte anos de vida à minha frente.
Carlos Alberto


Quarta-feira, 22 de Agosto de 2012 (Miratejo, 24:00h)
“Cheio de nada”

Mais um dia “em branco”. Um dia onde nada acontece e em que somos meros protagonistas da inércia. Não, não estou a dizer que me limitei a respirar ou que para sair da cama, de manhã, tive que pedir licença ao outro pé. Não, nada disso. Na verdade o espaço estava aberto a todo o tipo de encenação. Só tive mesmo de abrir os olhos, reparar que o tempo estava delicioso, tragar um pouco do aroma da manhã e perscrutar o som das gaivotas que me chegava do Sapal. Nesse momento decidi pôr em prática o sentido da oportunidade e saltando da cama, vesti-me a rigor e saí como quem parte para uma batalha. Não, não era apenas uma batalha, mas uma guerra, uma guerra de areia e muito, muito mato que tinha pela frente. Mas sobrevivi: ao calor, à distância, ao lixo que pejava a costa pela beira do rio. Lixo de todo o tipo: natural e de plástico. Cansado, resolvi então sentar-me. Sentar-me diante de mim e reescrever aquilo que é a minha história. A história de um passeio de autocarro onde vou “só”, mas à procura do “lá”, “si” houver. Nada encontro. Não esmoreço, nem me perco. Limito-me então a inventar, pesquisar, sentir como se ainda estivesse lá, embora agora esteja sentado diante de uma página, e mais outra, e já são muitas. É afinal apenas mais uma história, a história de uma viagem, entre outras que certamente surgirão. E assim, o dia que era de nada, encheu-se. Encheu-se também de amigos, de amor, com o amor de filhos e afins, até este momento. Já só me resta agradecer o nada que foi muito e o sentir, o poder ouvir, o poder estar aqui, agora que também não estou só, mas ainda na melhor companhia do mundo, neste mundo.
Carlos Alberto
 

Segunda-feira, 3 de Setembro de 2012 (Miratejo, 20:40h)
“E tudo acaba”

Acabaram-se as férias no Montado. Acordámos, abrimos aquelas enormes cortinas para os primeiros raios da manhã e uma luz brilhante entrou-nos pelo quarto adentro. Uma paisagem maravilhosa de verdes e azul a perder de vista percorreu-nos o olhar matinal. A manhã já acordara há bastante tempo. As cores já não eram tão frescas, mas mesmo assim absorvemos com prazer aquelas imagens e sensações que percorriam em êxtase o nosso corpo, até à alma. Prontos e arranjados, à nossa espera um farto e apelativo pequeno-almoço comido na tranquilidade que o tempo nos permitia. Deliciámo-nos pela última vez deglutindo a gostosa combinação entre o sumo de laranja natural e os croissants com doce. Depois é o passeio habitual entre os greens, tentando sempre fugir às bolas que por ali esvoaçam, como pombas errantes, vindas, não sabemos, de onde. Entre muita conversa que parecia que nunca mais acabava, soltámos algumas gargalhadas de histórias antigas passadas e vividas noutros tempos difíceis, mas não forçosamente infelizes. E a manhã esgotava-se. Passámos, mais uma vez, o olhar pelo lago espelhado recortado pelos patos que em fila indiana por ali se banhavam e sentimos a nostalgia de quem sabia que tudo aquilo ia ficar para trás. Despedimo-nos do Montado e regressámos fazendo um desvio por Setúbal onde pensávamos fazer uma ligeira paragem para uma bebida à beira rio. No entanto, a paisagem da praia improvisada era magnífica e a água límpida atirava-nos, sem nos molharmos, para dentro dela. Conversas e mais conversas que pareciam não ter fim: inesgotável e infindável diálogo que não acabava nunca: histórias e mais histórias percorridas num corrupio de sensações que nos percorrem ainda as veias. Vidas que o passado nos infligiu e nos marcou, mas que não se apagaram com o presente. Finalmente Alfarim. Aqui deixei a minha companheira desta aventura e também o enredo de um filme que ambos jamais vamos esquecer. Obrigado mana Fátima.
Carlos Alberto
 

Segunda-feira, 10 de Setembro de 2012 (Miratejo, 11/9 01:10h)
“Na penumbra de um tempo”

Eis-me no regresso às origens, inventando um pouco da história possível, recriando aquilo que no inconsciente ainda é consciente, acreditando que nada é por acaso e que este tempo é necessário vivê-lo. E assim se nasce e acorda para mais um dia admitindo que somos poetas, fingidores e que tudo nos é permitido dizer ou sentir, criar ou fingir, como um artista que atira a sua tinta para a tela e, conforme o seu nome, assim o quadro valerá muito ou nada. Erguemo-nos então da cama sobre o édredon, tapados apenas por um cobertor com uma alma cheia de esperança – sendo que as manhãs ainda são frescas – e partimos para um futuro certo e tão incerto quanto a nossa vontade de sorrir. Pois é, não consigo pôr no rosto outra expressão que não seja esta de espoliado, enganado, traído, traumatizado. Mas também não é de agora, fui sempre assim, mesmo nas horas felizes. Eu bem tento escrever outra história, como me pede uma amiga que, ao telefone, se despede com “meu querido”, como se eu fosse um seu bem, alguém que ela amasse sem eu saber. Mas a minha história é esta, enquanto vou sentindo a saudade de ser eu mesmo, com a capacidade de ser homem, ter vontade de vencer e convencer, ter a energia e a força que têm os vencedores e destemidos. Mas fico-me por aqui, em casa, com medo de sair, de ser preso por estar a invadir propriedade privada. Sonho, sim, mas não acredito. Perdi a fé, a coragem, a virtude de achar que era capaz. Destruíram-me e sinto que já não valho nada, mesmo quando alguém ao fundo me diz coisas que um homem gosta de ouvir de uma mulher. Mas já estou longe de tudo, perdido, sem alma para renascer de novo.
Carlos Alberto
 

Terça-feira, 25 de Setembro de 2012 (Miratejo, 26/9 01:45h)
“Pela noite dentro”

A noite avança intrépida e silenciosa. Lá fora está a chover. Chegou o inverno impiedoso e triste que nos arranca da mordomia que nos é dada pelo bom tempo. Já não há espaço para sonhos de sol e céu azul ou até cor-de-rosa quando a vida nos sorri. Agora só nos resta a noite fria e ventosa – que leva os sonhos da gente que não dorme – com a chuva a salpicar-nos as vidraças das janelas que temos agora de fechar. É um sentimento de tristeza, aquele que sinto, como se carregasse o peso da infelicidade do mundo. Não quero pensar no prazer que alguns podem estar a sentir e no que eu perdi com o passar deste tempo recente. Porque apenas sinto dor e sofrimento que não se apagam, bem pelo contrário, e que até me despertam e me atormentam quando me deito para adormecer. É uma mágoa latente, que não se explica por palavras, um pesadelo real e constante, embora aqui construído por mim. Sim, têm-se passado pela minha cabeça pensamentos irreais. Posso querer estar no centro do mundo, mas não estou. Estarei apenas na franja de um naperon algures colocado numa mesa de um pobre, sob uma terrina de vida, frágil, também sem brilho e sem futuro. Vivo como que numa barraca com telhado de zinco e paredes de madeira carcomida pelo tempo. Sinto-me talvez comparável a uma pobre formiga, perdida nessa margem descaída à espera de um qualquer abanão, encontrão ou até de ser esmagada antes de descobrir o caminho de casa. Vivo ou sobrevivo, não sei bem, na esperança de ser feliz. Mas nada acontece. Tenho que fazer algo por mim, mas desorientado não sou capaz de fazer. Queria que o mundo olhasse para mim, mas sinto que nem mesmo que me imolasse à porta da igreja, ou da Assembleia ou me atirasse da janela do meu terceiro andar, isso seria relevante para quem quer que fosse. Estou só, dramaticamente só e abandonado nesta intempérie por alguém que eu amei mais do que a mim mesmo. E esse foi o meu maior erro. E quanto sofro, meu Deus, por tudo isso.
Carlos Alberto

 
Segunda-feira, 8 de Outubro de 2012 (Miratejo, 23:10h)
“O meu hiato”

Quero sorrir na contemplação do teu rosto, beijar tua face no desejo de te sentir, conhecer-te aos poucos no gesto da minha mão, calcorreando tuas distâncias. És sombra, és pecado, és música, és passado. És tudo o que não tenho na vida: meu suor que não transpiro, minha camisa rasgada de trabalho árduo e que afinal apenas me conduz à melancolia do silêncio. És meu sopro que expiro no ar que respiro, minha alma infinita que palpita num cansaço que não tenho. Caminho então apressado na pressa de te ver; tropeço na magia de um grito que não ouço, distraio-me depois na ilusão de que te tenho sem te ter e adormeço sobre o sonho ou o desejo de que o sol volte a nascer, amanhã. E o amanhã chega, com um outro nascer-do-sol lindo e radioso, com os pássaros a chilrearem nos jardins, e galos, lá ao longe, anunciando, cada um, a gloriosa manhã que surge. E eu continuo deitado numa cama de palha, ouvindo na solidão de meus lençóis imaginários a canção que me faz de novo chorar. E são estas mágoas que me rasgam por dentro, me cravam de cicatrizes que não fecham – onde o sangue ainda brota – e que transformam, na raiva do que não sou, um passado brilhante num futuro obscuro que me mata aos poucos. Mas acordo, mais uma vez. Mais um dia para viver sem saber o que fazer, que caminho seguir. Dói deitar assim, acordar assim, olhar em volta e não descortinarmos nada além das tábuas verticais que nos fazem de parede e nos protegem do frio, do vento, da noite agreste que nos corrói o espírito. Não, não estou a morrer ainda; é só o tempo de adormecer e acreditar que amanhã será de novo um novo dia e feliz.
Carlos Alberto

 
Terça-feira, 9 de Outubro de 2012 (Miratejo, 22:25h)

“Palavras muitas”

Chego a sonhar com as palavras que me voam na ilusão de que chegam ao destino. E ouço o eco do estrondo que elas produzem no fim de um poço onde se precipitaram em catadupa. Sinto o tempo que passa sobre mim e me vai avisando que devo ter outra atitude: devo cobrir-me com um capuz, agasalhar-me sob um capote, calçar umas botas cardadas porque se avizinham tempos difíceis. Será tempestade? Será fogo? Será vento? Mas deve ser gente. Gente que se ri de mim, da minha fraqueza que é mais do que pobreza. Não, não ando apenas a ler, mas estou tão-só a sofrer com as palavras que tento dizer e que chocam comigo como devolvidas pelo amigo. Falta-me tudo, falta-me amor, sinto apenas dor e daí estas linhas que falam apenas do estertor que sinto em absinto. Mas ainda, tolo, acredito. Tenho que acreditar que um dia ainda vou amar. Os meus sonhos não podem ser em vão. Acredito que tenho de fazer algo pela arte, pela sorte, agarrar pela minha mão, à parte, a vontade, o querer, a força de um poder, nem que seja sobrenatural, de outro mundo, mesmo que não se transcreva num jornal e não me deixe moribundo. Quero viver mais, sorrir e ser feliz, embora não saiba como, nem onde, nem com quem, mesmo que sem vintém. A vida não se pode esgotar assim, neste vazio e sofrimento em fim. Tenho que ganhar alento, voltar à vida, crescer e florir de novo com um sorriso rasgado, amor desfolhado, cantando canções de alegrias, fantasias e paixões. Sim, a vida é muito mais que meras palavras cheias de boas intenções, palavras que serão somente palavrões, ditas com carinho para não chorar.
Carlos Alberto
 

Quinta-feira, 11 de Outubro de 2012 (Miratejo, 23:00h)
“Resumo de palavras”

Gosto das palavras, mas sei pouco sobre elas. Conheço algumas com as quais me dou muito bem, mas há outras que, como têm a mania, nem me chego a elas. Tenho umas que me são mais próximas e que até as trato por tu; por outro lado também há por aí outras que são umas esquisitas e que nem se dão bem comigo. Mas eu também não as procuro. Sinto-me confortável com aquelas com as quais me cruzo no dia-a-dia e sou feliz com elas, e adoro-as. Evidentemente que os meus horizontes com as palavras também são curtos e eu não as conheço todas nem domino as suas áreas de influência. Por isso há palavras que escolho, porque gosto muito delas e que prefiro tê-las do meu lado. Palavras que uso todos os dias, sem constrangimentos, que me preenchem a alma, me trespassam os tecidos e se me alojam tranquilamente no coração. Gosto daquelas simples, que se juntam a outras simples, que toda a gente entende; que falam – mesmo com uma pronúncia qualquer – mas que nos pertencem, com as quais nos identificamos. E é bom adormecermos com elas, mesmo ao nosso lado, em cima ou debaixo de nós, mesmo que encadernadas num amontoado de livros. E admiro-as, conversando com elas todos os dias, vendo-as juntinhas, todas certinhas e alinhadas, apelando ao amor, à ternura, ao carinho. Sim, também há palavras más, feias, que nos agridem, mas essas eu tento contorná-las; finjo que não as conheço, embora às vezes me atropelem os pensamentos e me atormentem a cabeça. E há muitas por aí. As melhores são mesmo as mais doces. Também gosto das que falam de justiça, de paz, de amor. Obviamente que também há umas que são mais atrevidas e que nos falam de sexo. Essas são, provavelmente, as melhores, as mais apelativas; mas coro só de pensar nelas e evito-as porque me excitam e esqueço-me de quem sou e transformo-me nelas e passo a ser as próprias palavras que engulo ou regurgito no prazer delas.
Carlos Alberto


Terça-feira, 23 de Outubro de 2012 (Miratejo, 22:05h)
“Fuga para a frente”

Colocamos a mesa para comermos o prato. Lavamos as mãos, penteamo-nos e vestimo-nos a rigor, de acordo com a solenidade do momento. Está tudo a postos para recebermos os convidados. Não há velas acesas nem odores honoríficos no ar, mas é como se houvessem. O vinho está na mesa a respirar pronto a ser absorvido e o ambiente propício para gozarmos o prazer daquilo que seria uma boa refeição. Só que à última da hora, perante a relação prato confeccionado/convidados, perco a vontade de comer e finjo que não estou e desisto da refeição. Gostamos de um bom prato, de uma boa febra na brasa e o que se nos depara é um “redon” ou “redondon” que não nos apetece partilhar. E tudo acaba como (não) começou. Desfazem-se os cenários, fecham-se as cortinas, apagam-se as luzes e deixamos cair a parede que nos segura enquanto se instala a desilusão. O sonho, a fantasia, a loucura termina ali naquele olhar que nem chega a ser trocado. Não vale a pena, basta-me de velharias. Gosto muito da carne fresca da juventude e de um espaço claro e aberto onde podemos sorrir num ambiente de pleno e garantido prazer; e não ter na frente um cabelo grisalho, dos anos quarenta, quando o vinho era tão caro, colheita topo de gama, das melhores castas que se produzem e que certamente não seria bem degustado. E assim tudo acabou caindo no silêncio absoluto. Estávamos numa manhã cedo, no princípio e no fim de um dia em que tive de ir à procura de um outro produtor, este também antigo, mas que já conhecia e que prometera uma festa particular por estes dias. E temos que aproveitar enquanto há adrenalina a subir e a descer. A felicidade pode não estar aí, mas é uma forma de me sentir vivo. Se é esta felicidade que procuro? Não. Mas é a forma como me escapo, a minha fuga.
Carlos Alberto
 

Quinta-feira, 15 de Novembro de 2012 (Miratejo, 16/11 01:35h)
“Dia da véspera”

Cá vou eu noite adentro usurpando a madrugada do meu dia, fugindo também às vésperas do tempo que já vivi. E cá estou eu iludindo as palavras ou o sentimento que elas produzem, tentando inventar memórias de um tempo que já não tenho. Dia de véspera, interessante princípio para uma conversa aqui entre linhas, monólogo sem regras na esperança de que as palavras façam sentido. E não entendo nada, não há racionalidade nos actos. Penso uma coisa, faço outra. Apregoo o amor, a paz e depois digo que não há perdão para o mal que umas pessoas fazem às outras. Grito, blasfemo, digo uns impropérios e zumba, sou apanhado. Crescer custa e paga-se caro. Eu mostro uma cara de pau, olhar hirto e sisudo, expressão íntima de crueldade atroz e, depois, choro pelos cantos, encolhido e desesperado como uma criança cheia de medo, embrulhado num invólucro que me esconde da vergonha do que sou. Sim, ainda estou em dia de véspera, no tempo em que aguardo apenas pelo tempo, onde as horas se consomem e se evaporam como álcool à intempérie. Sim, ainda vou sonhando com a ilusão de que tenho a felicidade à minha espera, sentada; enquanto eu, sentado, espero que a felicidade chegue. É este o sentimento, a esperança que me move o espírito, a ilusão que alimenta o meu ego, mas que aos poucos vai sentindo que a véspera se esgotou. E chega pois o grande dia, aquele em que acordamos para a realidade e reparamos que estamos sozinhos. Cresce então uma mágoa que nos rasga por dentro e gritamos no vazio de um tempo por preencher: ai, dói-me aqui! E ninguém me escuta, na véspera.
Carlos Alberto
 

Quarta-feira, 21 de Novembro de 2012 (Miratejo, 22/11 01:00h)
“Palavras ao deitar”

Vou escrever ao amor, aos anjos, ao meu amigo, à saudade, à canção, à paz, ao cansaço, à cama, ao abrigo, aos sem-abrigo, à luz, à amizade, a todos aqueles que não me ouvem, ao vazio, à ternura, à solidão, à brancura, aos leões, às águias, aos amigos do norte e do sul, ao sol, às nuvens, aos poetas e artistas, aos músicos e trapezistas. Vou escrever ao mundo, a Deus, às minhas mulheres e ateus. Vou escrever para todas as coisas, ou gente, porque lhes quero dizer muitas loisas, sempre a correr. Vou dizer-lhes que os amo a todos e até aos inimigos – de quem não me esqueci – e quero fazer as pazes com os bandidos. Vou escrever também à lua, coitadinha, que merece uma palavra lindinha. Vou escrever também ao Papa, ao Presidente, à mãe do Presidente e a toda a sua gente. Vou escrever, claro, se eu lhes puder chegar, mas não acredito que esta mensagem chegue sequer a ecoar... Vou escrever apenas, apenas palavras escritas, sem gritar. Vou falar baixinho porque não é a ralhar que nós fazemos amor. E por isso quero também que me ouçam, que me escrevam, que saibam que existo, aqui neste cantinho do mundo, neste vazio imenso onde a solidão tem uma voz tão profunda que inunda apenas o meu sono e me enche só a mim: de lágrimas, de sorrisos que não tenho, palhaços que não vejo, e de crianças a brincar que não me deixam ver. Vou escrever que gostava muito que me deixassem ser feliz. Vou escrever ainda que gostava muito de ser alguém importante, nem que fosse apenas para uma criança. Sim, sei que sou pai de três belas crianças que eu amo e para quem vou escrever estas palavras: vocês são os melhores filhos do mundo, Cláudia, Pedro e Celina; amo-vos muito; eu é que não serei o melhor Pai que vocês poderiam sonhar ter.
Carlos Alberto
 

Sexta-feira, 23 de Novembro de 2012 (Miratejo, 22:05h)
“Pai e filha”

Estou no centro do mundo. Tenho tudo o que preciso à minha volta e nas proporções necessárias e adequadas à minha homeostasia. Não há chuva nem frio. Está quentinho o suficiente para me sentir confortável. Há luz em quantidade quanto basta para conseguir ler e escrever o que sinto na maior paz que me é possível ter. Há música, vozes de crianças que dizem já não ser, palavras que me aquecem e protegem os sentimentos. Há amor. Pode ser até distante, à distância de um metro, mas é o suficiente para aquecer minha alma e nos sentirmos nos braços e no regaço de alguém a quem queremos muito. E rimo-nos, brincamos, sentimos o pulsar do coração. Nossas mãos estão limpas e acariciam aquela que nós fizemos num leito de amor, algures. Está tudo aqui. Este é o melhor lugar do mundo para estar neste momento. Não me falta nada. As palavras sobrepõem-se. A voz aquece. Não interessa se estamos sentados no chão e se há apenas uma almofada a apoiar-nos. É o amor que aqui prevalece e se enaltece. Pode ser apenas um quarto, um quarto pequeno onde até há algum desalinho, mas é o espaço suficiente onde se constroem carinhos, ternuras, e se substituem os choros ou as lágrimas por sonhos e desilusões assumidas. E há palavras que se escrevem que têm um sentido tão profundo que até os erros nelas contidos têm um sabor de autenticidade pura que as valoriza ainda mais. Uma carta ao Pai Natal aos oito anos afigura-se-me como a melhor dádiva que Deus me deu por ter concebido uma filha que pensa e escreve assim. E nesta simbiose de pai e filha, atrevo-me então a escrever que, com certeza, o Amor terá sempre que vencer e prevalecer.
Carlos Alberto
 

Sábado, 24 de Novembro de 2012 (Miratejo, 25/11 00:55h)
“Um drama antes da comédia”

Os anos passam e, quer queiramos, quer não, vamos ser velhos. E vamos ser chatos, vamos ser casmurros, vamos ter todos os problemas que os velhos têm. E agora que penso nisso, apesar de ser um bom “princípio”, sinto um certo constrangimento. É que nós achamos que temos sempre saúde, que somos sempre jovens e que temos energia para dar e vender, ou que seremos sempre autónomos. O que acontece, no entanto, é que os anos passam e, quando damos por isso, estamos surdos, mal vemos, somos insuportáveis e até cheiramos a velho. Pois é, esta é a crua realidade do que somos e para quem se atreve a desafiar os anos. É este o nosso “inexorável” fim. E foi com estes pensamentos que me confrontei dentro desta noite fria e bastante chuvosa. Atravessámos a estrada e, com o vento, as folhas das árvores entornavam engrossando os pingos de chuva que caíam e nos regelavam a calvície. Junto aos modernos e luxuosos edifícios da larga avenida, lojas de marcas internacionais, de protuberantes fachadas, reluziam para a noite a luz deslumbrante das suas montras. Nas sombras, contudo, vultos informes, de alguns sem abrigo, disfarçavam-se, aconchegando-se debaixo de uns reles cobertores e sobre umas placas de cartão, estendidas sobre o gélido chão de mármore. Uma mulher arrumava no seu canto as almofadas, as garrafas de água e uns pertences muito dobradinhos. Congelei. A minha peça de Teatro era mais à frente e tratava-se de uma comédia, mas estava ali já diante do primeiro contacto com o drama. O drama da vida real. Gente nova, gente velha, descalços, a garrafa de vinho ao lado, os pés enegrecidos, os gorros enfiados nas cabeças. E nós ainda nos queixamos do exíguo e caótico espaço que temos neste quarto, que a cama range e faz barulho, que é curta e os pés ficam de fora. Quase velhos, esquecidos, chatos e para rir, assim foi a comédia, depois de chorar pela realidade que nos colhe e apanha desprevenidos. Avenida da Liberdade, barriga cheia de jantar no bucho, uma comédia e um drama em dois actos. O drama foi verdadeiro. A noite acabou aqui.  
Carlos Alberto

PS: Voltei a fazer ligeiras alterações nos originais, muito pontuais nalguns textos, para lhes fazer alguma correcção gramatical ou dar mais ênfase ao assunto em questão.

2 comentários:

  1. Cada texto reflete um distinto estado de espírito.Que prevaleça a esperança, sempre e em qualquer espaço de tempo.

    Abraço

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  2. Pois, é verdade: a esperança é a última coisa a morrer. E eu acredito que tudo na vida tem uma razão de ser. Nada acontece por acaso...

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