terça-feira, 25 de abril de 2017

COM OU SEM MAR


Quero ouvir os pardais, as gaivotas,

observar o oceano a beijar as margens;

quero sentir as aragens,

e apenas ouvir tua voz.

Sentir o teu cheiro, tua essência

perdida nesta concha de noz.

 
Navego à tua procura,

mas não estás.

Rejeitas-me, ignoras-me,

ou não sou capaz.

 
Quero fazer poesia,

cantar, dançar com mestria,

como uma flor a abrir,

erguer-me para o teu abraço

e nem me deixas sorrir;

Sobra-me o cansaço.

 
Fecho-me, triste, derreado

na minha concha embrulhado.

Cubro-me com um lençol

de vergonha amarrotado.

 
Choro uma mágoa

da qual me quero libertar,

triste por te amar, sem me cansar.

 
Mas dói-me e tenho medo:

dos trovões e das farpas -lerdo,

dos zumbidos do vento

que ecoam pelo espaço,

do dilúvio das vagas

que me enrolam no cansaço.

e contra as rochas me tragas.

segunda-feira, 20 de março de 2017

MMEMÓRIAS 2015 (2º SEMESTRE)

Terça-feira, 14 de Julho de 2015 (Torre da Marinha, 21:56h)

“Obrigado, meu Deus”
E vai tudo correr bem. Não há nada que nos impeça de sermos felizes. Porque é isso que eu quero, é isso que eu desejo, é isso que eu mereço, é isso que eu procuro transmitir aos outros. E a vida acontece. Acordamos, sentimo-nos gratos e vamos em busca, não dos silêncios, mas dos sons que brotam à nossa volta e nos despertam. E são muitos, vindos de todas as direcções, que captamos e gerimos como quem usa colheres que manuseamos e transportamos até à alma. São imensas as sensações e todas boas. Vamos trilhando o caminho e descobrindo cada local, cada momento, como o lugar certo para se estar. E até conseguimos controlar tudo, como se fossemos um super-homem, mas sem capa. Há sorrisos, despertamos prazer. Há luz, sol, calor e até somos um forno a aquecer tudo o que está frio. Somos a paz dentro de uma guerra, somos a flor num jardim palaciano, o anjo da guarda de alguém que protegemos, a tranquilidade ou a fonte de harmonia entre o conhecimento e a sabedoria que nos envolve. Espanto-me, no entanto, é com a importância que me é dada e deslumbro-me na essência em que me transformam. Serei eu assim o homem tão especial, o líder, o ídolo que as pessoas tanto procuram? Eu só quero mesmo é ser uma boa pessoa e alguém reconhecido apenas como “boa pessoa” e mais nada.  Porque, como ser humano, considero-me uma pessoa como as outras, com imensos defeitos, nomeadamente, um pervertido, um louco, um tarado, alguém capaz de tudo e disposto a tudo. Quem me conhece a fundo sabe do que estou a falar. Se sou feliz assim sendo assim? Sou e muito. Inteiramente amado por muitas pessoas, amando como amo a vida e as pessoas, isso faz de mim o homem que sou e dá-me um conforto enorme. Resta dizer, aquilo que pronuncio diariamente: obrigado, meu Deus.

Carlos Alberto                             


Sexta-feira, 02 de Outubro de 2015 (Torre da Marinha, 22:31h)
“Amor para toda a vida”

O mais importante está aqui. Tenho tudo o que preciso: o sangue, o ar que respiro, a luz, o espaço, o sentido da vida. Ouço o seu respirar, o sorriso, a voz, sinto a presença, a vibração, a alegria, e basta-me. Ela fala, fala, está perfeita, completa, harmonizada. Fala da sua terra, das suas origens, e brilha, pois claro, porque domina o lugar onde viveu dez anos e de onde é natural. E é este prazer insubstituível que não dispenso. A cor dos seus olhos, a expressão corporal, a elegância da sua presença e o que manifesta, está tudo nela. Está tudo aqui. Sei, no entanto, que esta é uma felicidade que me é emprestada por umas horas. Uma felicidade que partilhamos apenas por um espaço de tempo único, mas que, por agora, ambos desfrutamos. E vale a pena. É a aproximação possível, a certeza da identidade, o desfrutar das raízes que assim não secam, como que um regar, para não se perderem, num entrelaçar para o resto da vida. É o meu bebé, a minha criança, o meu amor perdido, que agora cresce na distância, que perdi para uma vivência diária, mas que continua presente no meu tempo e a evoluir: uma menina hoje feita mulher. E, nesta condição de pai, usufruo, não interessa em que normas estabelecidas, o gosto de a ter aqui. Ela está aqui e saboreio-a apenas. Não importa se é necessidade ou interesse. O que é bom é que podemos viver juntos o momento, mesmo que ela continue a falar, a falar e a falar, vivendo de forma activa e alegremente o diálogo que, efusivamente, vai manifestando ao telefone com alguém que não comigo. Em qualquer circunstância, o que destaco é que esta criança é fruto de um grande amor e será assim de um amor para toda a vida.

Carlos Alberto  

Quarta-feira, 7 de Outubro de 2015 (Torre da Marinha, 22:02h)
“Paixão perdida”

Tenho que ganhar asas, voar, sair deste colete-de-forças em que me encontro, partir para outros e novos mundos. Chega. Sinto-me preso a este barco deteriorado, amarrado ao cais, e não quero. Quero partir, sobrevoar, navegar, viver, crescer, gritar bem alto a alegria que me vai na alma e que não consigo exprimir. É o céu que está cinzento, a chuva que cai, ou uma espécie de nevoeiro ou neblina que me tolda a visão, quando o tempo, afinal, está óptimo lá fora. Vou andar. Obrigo-me a isso. Quero ouvir os pardais, as gaivotas, observar o rio a beijar as margens. Sim, também há muito lixo, resíduos da cultura de um povo, mas ignoro-o neste contexto. Quero sentir que estou bem, apenas ouvir tua voz, sentir teu cheiro que me está a faltar muitas vezes. E nem sei de quem estou a falar... Vou à tua procura, mas tu não estás para mim. Ofendes-me, rejeitas-me, ignoras os meus sentimentos. Quero fazer poesia, cantar, dançar para ti, erguer-me para o teu abraço, e, afinal, nem me deixas sorrir. Fecho-me então nessa altura, triste, na minha concha, cubro-me com um lençol da vergonha que me fazes sentir e choro uma mágoa da qual me quero libertar. É como se tivesse medo: medo dos trovões, das farpas, dos zumbidos de vento que ecoam pelo espaço, das vagas que me enrolam e atiram contra as rochas. Estou sozinho e castigas-me como se castiga uma criança. Prometeste-me que me deixavas ver televisão, se eu me portasse bem, e depois não me deixaste ver. Ofereceste-me um rebuçado, mas não o descascaste e eu não sei fazê-lo sozinho. Gostava de te sentir e tu não queres. Queria tocar-te, abraçar-te, desejar-te, mas és para mim como a lua, em fase de “nova”: apenas estás lá. A paixão foi-se, a tua, já não existe e eu estou perdido nesta estrada de curvas e contra curvas de regresso a casa sem nada dentro. É com um vazio imenso, sem esperança que encontro. Sobram os frutos que colho no caminho e que absorvo sofregamente, mas queria mais. Desejava mais, mesmo sabendo que não posso, nem está ao meu alcance. Só me resta chorar, mas como sou forte, vou mesmo tornar a sair em busca desse momento sublime de voar por cima da montanha e voltar a sorrir.
Carlos Alberto

 
Sexta-feira, 09 de Outubro de 2015 (Torre da Marinha, 10/10, 00:59h)

“Sem medo”
Subi e desci escadas. Galguei, corri, esfolei-me todo para atingir o topo. Estou lá. Exausto, sim, mas cheguei. Sorri-te, penetrei-te nesses olhos brilhantes que me fulminaram, abracei-te, quis-te, mas só te deste numa medida que é a tua e que me quiseste dar. E foi pouco, para a minha vontade. Fiquei apenas com um gosto amargo na boca, como se nem o teu cheiro tivesse sentido. Afastaste-te, fugiste e escondeste-te de ti própria. Eu falho na escrita, falho na respiração, falho em tudo porque não estamos na mesma sintonia. Mas já sirvo de amigo, de pai, e até já sou avô e, que remédio, tenho que me resignar a essa condição privilegiada de estatuto ancião. “E já gozas, meu caro”. É o rebuçado que chupo sem ter o direito de o trincar. “Chupa, querido, chupa”. Vai atrás dos interesses dos outros, enterra-te nesse desejo de quereres, mas apenas cheiras e ao longe. E é assim que vivo, partilho, consulto, sou útil e gozo nesta cadeira. Mas é apenas um gozo de quem vê um filme na tela, onde se passa tudo ao nível da ficção, porque da realidade nada. Resta, no entanto, a boa sensação de que vale a pena explorar o momento, a amizade, o filme. Entretanto, para trás ficara uma hora e picos de ginásio, em regime gratuito de experimentação que aproveitámos. Um almoço em óptima companhia de mulheres e depois imiscuído entre muitas mulheres em conversas de mulheres para mulheres. Também cartas e mais números com tarot à mistura e mais mulheres fáceis e difíceis, amorosas ou para fugir delas. Enfim, um dia em que houve de tudo um pouco, até jantar: churrasco, como se eu fosse da família, pertencesse ao meio, com o mar ali tão perto. Abdiquei da família verdadeira, abdico de tudo por ti e, afinal, nem sequer para poder sentir o teu abraço apertado que queria. Recebo-te num tímido encontro, sem paixão e com medo enorme de qualquer envolvimento. Que pena as pessoas fugirem do medo... de se entregarem ou serem elas próprias, sem medo.

Carlos Alberto

Domingo, 29 de Novembro de 2015 (Torre da Marinha, 21:53h)
“Fotografando”

Aproveitamos o bom tempo, empunhamos a máquina fotográfica e vamos numa viagem em busca de imagens que ilustrem a nossa vida. O sol, fugidio e temperado do final da tarde, de cores amenas de um outono fresco, salpica-nos delicadamente o rosto pelo rio. Aqui a margem afagada pela ondulação na maré cheia. Do outro lado, as casas. No rio há gente em embarcações de recreio, em caiaques coloridos,­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­ ­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­— remando na desportiva brincadeira de quem aproveita o tempo — dispostos na corrente das calmas águas ainda pouco cristalinas. Nesta margem um pescador, de mãos nos bolsos, olha distraidamente para as suas duas canas apontadas ao céu. E eu vou, passo a passo, descobrindo e absorvendo cada momento: as luzes, as sombras, os perfis, os contrastes, as esquinas. Pelo caminho, “encadeio-me” na lanterna apagada provinda de um barco que cruza o horizonte, esbarro na simetria cónica do coreto que se eleva para as nuvens e tropeço na apinhada fila de cadeiras arrumadas. É assim esta tarde, despida de ruídos ou aglomerações supérfluas. Há apenas gente que se passeia, de cá para lá, com cães pela trela, pessoas de idade, que a juventude, provavelmente, preferirá outros cenários. Todavia, a tarde, assim, está encantadora. Um casal, sentado num banco, em trejeitos de cumplicidade, troca carícias como se estivesse a escrever em si mesmo um tratado de amor. Alguém surge de repente e se atravessa no meu olhar, pedalando em ritmo lânguido de quem tem todo o tempo do mundo, tal como eu, que respiro e observo cada imagem, cada traço, como se fosse a última vez, numa hora de despedidas. Fotografo as casas, cada uma, como se fossem para ser demolidas. Gravo imagens dispersas como “frames” de uma história, a minha história, o meu olhar que o tempo se encarregará de preservar para sempre, se estas palavras forem capazes de sobreviver à intempérie crítica do olhar dos críticos.

Carlos Alberto

PS: Estes resumos fazem parte de transcrições das páginas manuscritas do meu Diário.
Fiz várias alterações nos textos originais.
A minha opção é, com estas modificações, “enaltecer esses escritos” e, com umas pinceladas, pretender dar-lhes algum carácter literário, tonando-os mais apelativo à literacia.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

MEMÓRIAS 2015 (1º SEMESTRE)


Segunda-feira, 16 de Março de 2015 (Torre da Marinha, 21:40h)

“Partilhando com ratos”
É impressionante andarmos aqui nós tão preocupados com a nossa “vidinha” e com as condições que temos nela e, afinal, há gente a viver debaixo da ponte. Gente, como nós, que sem nada que lhes permita viver condignamente, são os caixotes do lixo o seu supermercado e simultaneamente o seu sustento. E é confrangedor ver de tão perto como certas pessoas sobrevivem à vida. São imagens como estas que nos tocam e fazem reflectir sobre o que somos e o que temos. Por isso não me queixo, e digo, sentindo, que sou um homem privilegiado. Nem se percebe como as pessoas se lamentam tanto e acham que as suas vidas são difíceis. Havendo pessoas, mesmo ao nosso lado, a partilharem o seu espaço com ratos à volta e que com eles vivem “portas meias”, vamos queixar-nos do quê? Há um rio que desagua no mar, comboios que os trucidam a todos os momentos, carros que velozmente lhes atropelam, ruidosamente, os ouvidos em zumbidos que já fazem parte da sua existência. Dói só de ver, quanto mais sentir. Passar ali uma só noite já seria um pesadelo; imagine-se uma vida. Uma noite que fosse, seria uma tragédia, uma experiência alucinante que nos mataria de uma só vez. Entretanto, nós vamo-nos perdendo na nossa “vidinha”, em sonhos que gostaríamos de ver realizados, no aconchego do nosso canto.. “Debaixo da ponte”, frase tantas vezes repetida para dizer quanta miséria ela encerra é, na verdade, para alguém tão humano quanto nós, literalmente uma realidade social para quem a vida foi madrasta e que a vivencia todos os dias. Por isso, quando ouvirmos alguém se queixar de que a sua vida é má e difícil é dizermos que vá até à Cruz Quebrada e espreite para debaixo da ponte e imagine-se a viver ali.
 
Carlos Alberto                             
 

Terça-feira, 31 de Março de 2015 (Torre da Marinha, 20:12h)

“Com as mãos no fogo”
Não sei o que vai acontecer a partir daqui, mas como eu acredito no destino, será o que tiver que acontecer. A vida está cheia de surpresas, surgem-nos em cada esquina, e a questão está em sabermos como lidar com elas. Podemos não lhes dar a melhor solução, mas haverá, com certeza, uma, e ela será a resposta certa ao desafio a que nos propusemos. E, na verdade, eu nem sei do que estou à procura. Aliás, como tenho sempre dito “não sei o que quero; só sei o que não quero”. Mas a solução é eu deixar fazer com que o “destino” me leve para aonde eu tiver que ir. Não estou muito seguro de mim, nem sequer sei se estou a agir bem ou mal, de forma correcta, ou não. Portanto, vou apenas seguir o meu instinto, acreditar nas minhas intuições. Também não sei sequer porque o faço e porque procuro o desafio. Mas sei que vou entender tudo quando lá chegar. Talvez comece por levar uma tareia e acabe estendido na lama, mas é o meu propósito, sou eu que só sei ser assim. Abrem-se as portas e eu entro. E neste caso nem peço para entrar, eu entro sem sequer pedir licença. E é isso que me preocupa e aflige. Porque me considero um homem honesto. E vou ter que continuar a sê-lo. E assim se abre a minha vida para um novo desafio. É apenas um dia alegre e muito bonito de sol resplandecente. Um dia de juventude, de partilha de sensações e bem-estar. E pergunta-se: eu atrapalho? Não sei nem quero saber. Eu entro e nem é pela porta. Eu forço até a janela, de forma brusca, abrupta, intempestiva. Sem olhar a meios ou fechaduras, trancas ou o que quer que se intrometa pelo meio, não há entraves ou obstáculos que, no momento da minha decisão de derrubá-los deixam logo de o ser, sem medos, sem contemplações, sem olhar para as consequências. Dentro ou fora, quero lá saber. Este sou eu, em toda a minha irreverência, quando te cubro com o meu amor.

Carlos Alberto  

Quarta-feira, 1 de Abril de 2015 (Torre da Marinha, 02/04 03:19h)

“Bora lá...”
Uma noite longa até que o sono nos separasse. E a noite chegou, de mansinho, como quem chama para a cama e, prego a fundo que se faz tarde, estrada fora com quem foge do destino e, pronto, já era. A luz finou-se. Num repente as velas acesas apagaram-se, num sinal de vento que não houve, num sol que se inundou e a luz, esfumando-se, desapareceu. Era um sonho?. Alguém estendeu um tapete para subirmos as escadas que nos levariam ao céu, mas, meu Deus, que caminhos queres que eu percorra? Fui então, a correr, atrás do teu chamamento e encontrei-me na rua do meu desespero. A loucura, de repente, apoderou-se de mim. Envolveste-me num suspiro e perdi-me na escalada ofegante da conquista de um castelo de ameias recortadas, numa torre que não tinha uma princesa, mas apenas uma mulher. Sonhámos com castelos, entrámos incógnitos por janelas, mas até havia portas abertas para entrarmos. Lisboa, fui atrás de ti, montado, a galope, em meu cavalo de vento e esbarrei nos meus próprios preconceitos que me afectam. Há palavras que deixam de fazer sentido e sentidos que percorrem as palavras certas para expressar sentimentos. E acordamos. Estás lá na ilusão do que sentimos, na paixão do que fomos e somos. Perdidos em insondáveis labirintos, conseguimos encontrar-nos, com paixão, no sorriso que nos coloca no caminho certo. A noite avança, assim irreverente, na loucura de abraços e beijos que nos enchem o corpo. Tentamos descobrir o nosso espaço por trilhos de atalhos em que queremos saber se é o fim do caminho ou o princípio de outro, o certo, que procuramos encontrar. Mas vamos saber no momento em que o vento nos soprar ao ouvido canções de embalar. Fico, no entanto, triste por ter tantos defeitos, achar que é na beleza que está a perfeição e sinto-me tão estúpido que até me magoo na escalada.

Carlos Alberto

Quinta-feira, 14 de Maio de 2015 (Torre da Marinha, 20:25h)

“Noite ou dia de sonho”
As palavras não podem ser ditas de ânimo leve porque, carregadas de amor, podem ferir os sentimentos de quem as perscruta. Neste contexto, os dias também não acabam nem começam porque eles são um prolongamento de si em si mesmos. E neles se desenrolam descritivamente, raptos, torturas, gritos e estertores. Contudo, aqui as palavras são outras e falam do prazer escondido, proferidas em castelos inexpugnáveis que invadimos sem termos ganho uma consciência absoluta do que conquistámos. Aparentemente cegos, somos guiados por instintos, presos e arrastados por cordas invisíveis que nos amarram e nos rebocam até ao mais alto dos confins do mundo. Lisboa está a meus pés. O Tejo é também pano de fundo, enquanto as luzes da cidade, piscando-nos na vista, vão ofuscando-nos os sentidos. Partimos então à procura não sabemos exactamente do quê, mas também queremos muito perceber todos os contornos das linhas do horizonte colocadas diante de nós. Por fim descobrimos. Há foguetes no ar, explosões de cores em todas as direcções, depois a noite ou o dia ­­­­– já não sabemos – avança. E o reboliço é intenso pelo chão, em alternativa ao conforto do maple ali mesmo ao lado. Mas é o duro chão que nos acolhe no abraço, no grito – na noite ou no dia que não acaba e começa – a nudez, o gosto, o gozo, o desejo, os gritos abafados, o outro, a vontade... que se contém. Hirto na determinação, a envolvência não se encaixa e esbarra no pretexto da falta de protecção e segurança das alturas. Assim, restam mãos ciosas tacteando entranhas que percorrem colinas. Bocas que desfolham florestas húmidas e as carregam de beijos. Gestos e armas que aguilhoando muralhas fazem desprender sinos que estridentemente ecoam e se fazem ouvir. Acordamos então para adormecer no cansaço. A manhã já era. É o sol agora na paisagem. Há automóveis na estrada enquanto saboreamos um prazer que ainda nos envolve. A descoberta de todas as curvas, o quarto de paredes forrados de mensagens carregadas de energia que nos engole. Os segredos contados e revelados ao ouvido. Os corpos nus em sonhos feitos em pedaços reais. Ainda o cheiro, o gosto saboroso da fruta que deglutimos. É assim a paixão de uma noite – ou dia – de sonho.

Carlos Alberto
 

Sexta-feira, 19 de Junho de 2015 (Torre da Marinha, 20/06 01:05h)

“Gosto muito de vocês”
Sentei-me. Fechei os olhos olhando para trás e pensei: “tenho de ser diferente e dizer algo de diferente”. Eu não posso continuar a cair na tentação do facilitismo e de ir sempre pelo caminho mais fácil. Sim, quero crescer e estou a crescer, mas tenho que eliminar as ervas daninhas à minha volta. É verdade, também já não sou o mesmo homem de ontem, do meu passado. Sim, ainda choro, mas não pelas mesmas razões. Agradeço a Deus ou ao Universo tudo o que vivi e sofri, mas sem angústia. Sou hoje uma melhor pessoa e, curioso, muito mais feliz do que seria suposto. A vida hoje para mim acaba por ser aquilo que eu sempre desejei que fosse. Era exactamente assim que eu me imaginava viver e nem sabia. Acabei de aperceber-me que, afinal, sou hoje aquilo que sempre desejei ser. Um homem livre, que faz as suas escolhas (aparentes) e que segue o caminho ou caminhos que quer. Não preciso de ser prepotente, não preciso de impôr nada, nem de me insinuar a ninguém. Tudo o que é bom vem ter comigo, e eu só penso naquilo que me dá felicidade. E uma das conclusões a que chego é que não ser de ninguém é hoje um dos meus maiores bens e não me aflijo nada com aquilo que não tenho ou não é meu. Considero-me também um homem abençoado e muito feliz com o que me rodeia. A solidão não é meu lema e estar só hoje – quando sozinho – é apenas minha opção. Porque quero ser eu a decidir se saio, e quando saio de casa, daqui ou dali. Porque sou eu que decido se como carne ou peixe, se me apetece ou não; porque sou eu que decido se é bom ou mau para mim e sou eu que escolho quem quero para ser meu amigo e isto basta-me. E, de facto, tenho hoje vários amigos e amigas graças a essa minha liberdade de escolha. Por isso posso dizer e quero dizer que gosto muito de ti Victória, gosto muito de ti Cristina, gosto muito de ti Sónia e gosto muito da gente que gosta de mim, nomeadamente, de ti que acabaste de ler esta página agora.     

Carlos Alberto

PS: Estes resumos fazem parte de transcrições das páginas manuscritas do meu Diário que embora estejam já lá para trás no tempo, valem hoje o que valem.

Entretanto, e porque fiz várias alterações pontuais neles, a minha opção actualmente é “enaltecer esses textos escritos” e assim, com essas pinceladas, pretender apenas dar algum carácter literário e mais apelativo.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A terminar o ano, aqui fica uma poesia...

Folha

De pele enrugada,
Rasgada pelo tempo,
Pela intempérie vergada,
Ao sabor do vento:
Surge da minha alma
Uma folha
Que brota, como sangue,
Uma bolha:
Lágrima de vida, alada.
Escoa-se para a terra—
Pó, cinza e nada.

CA

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

"A GALINHA PINTAS"

 

A terra onde o Artur vive é um lugar muito tranquilo, lá muito longe num mundo onde todas as pessoas se dão muito bem, são muito amigas e gostam todas umas das outras. É um lugar calmo, fora da cidade, sem confusão, onde se respira paz e tranquilidade, se ouvem os passarinhos a cantar e até o vento sopra sempre muito baixinho para não assustar as pessoas. As árvores agitam-se e balançam como se dançassem ao som de canções de amor e a harmonia é tão perfeita que parecem bailarinas num espectáculo esverdeado cheio de alegria.
 
No céu, as nuvens estão sempre a criar desenhos e, quando lá vou, o Artur e eu, deitamo-nos no chão e pomo-nos a adivinhar o que são: umas vezes parecem-nos aves, outras parecem-nos golfinhos, outras patos e, algumas nuvens até nos parecem rostos a sorrirem para nós a brincar com a nossa imaginação.

Eu não vivo na terra do Artur, mas gosto muito de lá ir por causa disto; assim como gosto das sensações que, tanto ele como aquele lugar, me transmitem. Na verdade sinto-me como se estivesse no Céu, tão lindo e calmo é tudo aquilo: inspira-me muito bem-estar e confiança e quando estou lá sinto-me privilegiado por ter um amigo a viver ali naquela terra de sonho e poder ir visitá-lo de vez em quando.

Como naquela terra distante as pessoas são muito amigas e simpáticas, certo dia, a mãe do Artur recebeu de uns vizinhos uma oferta muito especial: uma galinha para eles matarem e fazerem com ela uma deliciosa refeição de arroz de cabidela. Este arroz é cozinhado com o sangue da galinha e dizem que é muito bom. Mas o meu amigo Artur que não gostou muito da ideia de matarem a galinha teve uma ideia genial e disse à mãe que a galinha parecia triste e magra e que queria ficar com ela. Disse-lhe que achava que a galinha precisava primeiro de engordar para ficar mais suculenta e que ele mesmo iria alimentá-la para ficar mais gorda e depois já poderia ir para a panela. A mãe do Artur gostou da ideia e concordou com a sugestão dele. O Artur agarrou então na galinha e levou-a para o pombal da sua casa onde tinha também uns pombos de estimação. Pelo caminho sussurrou à galinha que ia tratar dela, não para ir para a panela, mas que iam ser amigos e, para provar isso, começou a fazer-lhe festinhas e deu-lhe beijinhos. A pequena galinha que ainda estava meio assustada, agora no colo do Artur, aceitou os carinhos, aquelas palavras de amizade, confiou nele e ficou então um pouco mais tranquila. A sua hora, afinal, ainda não tinha chegado.

A galinha era de facto magrita e enfezada. Tinha um pescoço comprido e despido de penas com umas pintas pretas sarapintadas e as suas penas acastanhadas nem brilhavam muito. Era realmente uma galinha de aspecto muito esgazeado e que fazia pena. Por causa das pintas do pescoço o Artur começou a chamá-la por galinha Pintas.

No início ela nem punha ovos e, quando raramente os punha, estes eram brancos e pequenitos. Depois o Artur falava com ela, fazia-lhe festinhas no bico e nas penas; ela agachava-se sossegadinha para recebê-las e ficava a ouvi-lo com atenção. Aos poucos, com o passar do tempo, a galinha Pintas ia melhorando de aspecto e agora, quando via o Artur e este se aproximava, ela até batia as asas de contente, já ia ter com ele para ele lhe fazer festinhas no peito e pareciam, de facto, entender-se muito bem. E foi assim que o Artur e a galinha Pintas se tornaram grandes amigos e também foi a partir dali que ela começou a pôr ovos todos os dias, ovos cada vez mais amarelos, grandes e gostosos e tornou-se numa galinha muito feliz e contente, porque era uma galinha que punha ovos para o Artur ficar mais forte.

O Artur para continuar a alimentar a ideia à mãe de que estava a engordar a galinha Pintas, ia dizendo-lhe que um dia tinha tido um sonho de que aquela galinha era a verdadeira galinha dos ovos de ouro de que se falava muito, e que a galinha Pintas, um dia, iria pôr um ovo de ouro... e todos ficariam mais felizes.

Obviamente que a mãe do Artur percebendo da amizade criada entre eles e das justificações que ele ia inventando, desistiu da ideia de matar a galinha Pintas e, assim, o nosso herói Artur salvou a galinha da panela de arroz de cabidela e ficaram todos amigos para sempre.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

QUEM SOMOS

Na verdade somos tudo e nada. Nascemos e morremos. Passamos por aqui, vivenciamos e deixamos uma marca, ou não. Mas regra geral, deixamos, que pode ser boa ou má.
 
Acredito no destino, não em acasos. Temos um papel a desempenhar. Procuro fazê-lo bem, mas falho muitas vezes e muitas vezes recorro ao "ponto" para continuar. Mas prossigo.
 
Muitos me conhecem e sabem quem sou. Mas saberão, mesmo? Eu acho que não. Sou como um icebergue e esses que acham que me conhecem só conseguem ver a parte flutuante e visível; a outra parte é privilégio de uns poucos.
 
Lidar comigo não é fácil, mas cá bem no fundo até nem a uma formiga faço mal (como o meu pai que nos piqueniques as alimentava). 
 
Cuidem-se amigos e sejam felizes. Se precisarem de mim, digam, mas não abusem que já atingi o limite de tolerância para alguns. E aqui fica a minha máxima: "eternamente grato, não é ser eternamente parvo".
 

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

MÃE

Farias hoje 100 anos. Partiste há quase dezoito, mas continuas viva na nossa memória, sempre dentro do nosso coração, sendo o meu amor por ti, como esta escrita, eterno.
 
Recordamos-te com saudade, mas em alegria e com o vislumbre do teu sorriso que temos sempre presente. 
 
Ainda hoje os teus exemplos são sempre aflorados nas minhas convicções e tenho-te não apenas como uma mulher, mãe, esposa e amiga, mas como alguém cujo comportamento, acima de qualquer interesse pessoal se pautava pelo AMOR aos outros e que tantas vezes o demonstraste nas tuas atitudes.  
 
Foste mãe de três filhos e qualquer um de nós, tenho a certeza, se orgulha da mulher e da mãe que foste, apesar da vida difícil por que passámos, das adversidades da vida, da pobreza, mas sobretudo da alegria, da paz e da harmonia que permanentemente irradiavas. 
 
Finalmente dizer-te OBRIGADO minha mãe por tudo e pela inspiração e protecção que continuas a dar-me hoje - onde quer que estejas no Universo - e que me motiva para este testemunho que aqui deixo, com a mesma alegria, amor e felicidade que tu sempre me transmitiste.