terça-feira, 7 de novembro de 2017

ATÉ QUE A MORTE OS UNA

 
 
O Inverno já se fora, assim como o caminho e, o que agora percorre, está bem longe das montanhas e vales que o pariram, criaram na juventude e o consumiram. A calosidade das feridas mantêm-no alerta para as suas origens, e Manuel caminha agora, distraidamente pela rua, mas calçado, de ténis confortáveis, roupa desportiva, e disposto a viver e a saborear novos odores, bem diferentes daqueles que, no passado, inalou.

Não tem aqui o cheiro a rosmaninho ou alfazema, nem dos pinheiros, ou dos eucaliptos; apenas um vazio salpicado de pontos verdes que parecem destoar da paisagem urbana que agora desfruta. As pequenas árvores salpicadas por traços no seu novo caminho até parecem que se escondem nas esquinas do amontoado de casas, e mais casas, que se perfilam lado a lado, a seu lado, sem nenhum critério estético definido. 

A Primavera, em toda a sua plenitude, sobrevoa-lhe o horizonte, embora esteja no outono da sua História e que lhe pesa na essência do que é hoje. “Os anos, meus Deus, os anos” – grita ele com a sua voz interior, rasgada pelas memórias que se alojam nos pensamentos e lhe vão destruindo os passos que ainda quer ser capaz de dar. 

Olhando para o céu, como que implorando a todas as Estrelas da sua vida, conseguiu sentir no ar o clima diferente, urbano puro e duro, ou melhor, macio, porque de repente, uma estranha energia transparente e volátil cravou-se na espinha, como se o enrolasse para uma dança e o abraçasse num calafrio.  

Uma amena lufada de ar fresco vinda do rio – que se fez levemente sentir – soprou-lhe aos ouvidos, como que segredos. Acariciou-lhe, ao mesmo tempo, o rosto ainda ressequido e, de uma forma doce, meiga e reconfortante experienciou um beijo vindo do infinito. Conseguiu por momentos sair dali e projectou-se, involuntariamente, entre os montes e vales da sua vida passada como se a Sua Estrela estivesse também ali a olhar para ele: e estava. 
Ele caminha agora, sentindo também o pulsar da vida da pequena cidade que o acolheu. Há crianças que brincam alegremente à sua volta, de cá para lá e de lá para cá, ora gritando, ora rindo umas das outras, correndo numa e noutra direcção. O rio calmo, ali ao lado, muito sereno e sem qualquer movimento, parece um espelho cintilante reflectindo a acalmia vinda do céu sem nuvens, enquanto um ciclista passa por ele pedalando, compassadamente, sentado ao selim, usufruindo, com a velocidade, a possibilidade de chegar mais depressa e primeiro. 

Sem pressa, Manuel caminha por entre as flores, o jardim, as pessoas, os automóveis que passam ao lado e as casas de pequeno porte que ladeiam o seu percurso. As dores nas costas, pela idade que tem, são agora maiores. Observa, sente, inspira e expira com a força intensa que lhe é permitida pela lei da natureza humana, como se fosse o seu último suspiro. Num momento, quase instantaneamente e de forma inconsciente, sorri para dentro de si mesmo, quando, olhando para uma janela, acima dos seus olhos, repara num pequeno estendal com meia dúzia de pares de peúgas presas na corda. Sacudidas pela aragem, como que bandeiras hasteadas ao vento, estas acenam-lhe como que um adeus – pelo menos é assim que ele interpreta – enquanto mais à frente ainda vê um homem que, olhando para o relógio, acelera o passo apercebendo-se de que estará atrasado para algo. “O tempo, meu Deus, sempre o tempo”, pensa ele com os seus imaginários botões. O tempo que faz falta às pessoas, o tempo que mete medo, o tempo que se nos esgota e, ali, Manuel rumo a esse inexaurível tempo, sem margem para se esquivar, declara para si mesmo:
 
“Maldito tempo, sem tempo para nada.

Se eu pudesse comprar o tempo, eu comprava.

E cortava o mal pela raiz.

Ia-me já embora, pensava,

devolvia o troco que me restava

e, na alma, seria mais feliz”.

Parou por momentos como se absorvesse mais um pouco do ar que respirava e quisesse, de alguma forma, interiorizar, reter ou gravar na sua memória aquela inusitada imagem fora de contexto das peúgas estendidas, que vira lá atrás. Sorriu de novo, mas na sua cabeça misturavam-se e dançavam eufóricas as sensações e as imagens e, por momentos, sentiu-se redopiar com elas. “Ganharei tempo se parar? Ou perco tempo?”.  

Recuperou para os seus pensamentos e, de forma instintiva, Manuel dirigiu-se com as mãos para os botões que não tinha na sua vestimenta. Baixou a cabeça e abriu o fecho éclair do casaco do fato de treino. Estava acalorado. Coçou o pescoço da comichão que sentira pelo aperto da gola, afagou os grisalhos cabelos com os dedos como se fosse um pente e sentiu-se mais liberto para respirar melhor, acreditando que tem o tempo todo do mundo, bem diferente do que sente. 

“Tenho todo o tempo do mundo!” – Insistiu ralhando consigo mesmo, como que zangado com o universo, colocando o dedo na sua própria ferida. De facto, ninguém estará à sua espera quando decidir voltar para casa. Magoa-lhe isso. Mas agora neste sufrágio, enquanto o tempo o engana, também só quer apenas usufruir dos sons e dos cheiros da maresia dos bivalves que lhe chegam do rio. É isso que lhe importa. Quer agora somente sentir o pulsar da vida que passa por aquele seu momento de profunda e, simultaneamente, descontraída emoção. Sentir a liberdade de poder olhar o céu muito diferente de outros céus, mas poder absorver, ainda que noutra linguagem, a mesma quietude desses tempos felizes de outrora. 

Um avião muito pequenino deixa um rasto branco no céu. Por instantes, assalta-lhe a ideia de que gostaria muito de ir nele rumo à Sua Estrela. A idade pesa-lhe e já não são só as costas doridas e curvadas, pela força das agruras, que lhe doem. São também as pernas que já fraquejam, as mãos que tremem um pouco e a sua cabeça que tem a consistência de um ovo, mas assemelha-se por dentro a um balão, cheio de ar, sim, mas vazio de interesses, pela solidão que a vida hoje lhe proporciona.
 
Manuel regressa a si no mesmo instante, como que atingido por um raio, quando se vê estatelado no chão depois de, inadvertidamente, ter chocado com um poste de luz... Como que atirado para um lugar distante, completamente desorientado, perdeu os sentidos e tenta levantar-se. Mas está fraco, combalido, meio perdido e até acredita que vai já naquele pequenino avião que, supostamente, vira momentos antes. “Teria sido momentos antes?” – Tenta reflectir. Mas naqueles instantes só consegue ouvir os motores potentes do avião que o transporta, a grande velocidade, através dos céus. Pelo menos vê uma luz para a qual se dirige e da qual se sente cada vez mais perto. Mesmo assim, derreado e num esgar de sofrimento numa boca desprovida da maioria dos dentes, quer tomar conta da ocorrência, dominar a situação, perceber onde está, fazer um relatório, responsabilizar os autores e levantar-se daquele lugar. Mas sente-se amarrado, preso, lançado no tempo, sem tempo, com os pensamentos em turbilhão, já naquele pequeno avião que lhe toldou os sentidos.

Chamem uma ambulância! – Ouve alguém a gritar. – O senhor está ferido. – Acrescenta ainda a mesma voz.

Já chamaram. – Responde outro.

Bateu contra o poste de luz. Explicou uma voz preocupada de mulher.

Devia estar bêbado, com certeza, para o não ter visto. – Apareceu logo alguém a opinar.

Coitado do velhote, não viu o poste. – Ouviu-se ainda a alguém constrangido com o sucedido.

 Na cabeça perturbada e ferida de Manuel naquele espaço do cérebro não atingido das emoções, a sua atenção virou-se, não para as vozes – que ignorou – mas para um lugar de insondáveis contornos, que já vira antes, onde já estivera, como se um filme, em flaches de memória, se começasse a desenrolar na sua frente.

Manuel começa a delirar, como se fosse o protagonista: “Minha querida Estrela, como tenho saudades tuas, meu amor” ouve-se a balbuciar. O seu corpo aqueceu e o ritmo cardíaco baixou drasticamente. Ele está distante. 

Olhos fechados penetra nos caminhos até onde suas lembranças chegam, por entre os seus montes e vales, lagos e lagoas, árvores e verde, corre e projecta-se depois na loucura daqueles tempos e, sem obstáculos ou com eles, consegue chegar até aonde, com a Sua amada Estrela, fora eternamente feliz. 

Veio-lhe então à memória, dos recônditos da sua alma, aqueles momentos que com ela partilhara e, como uma legenda, também as palavras que enfatizava, repetidas vezes, e que lhe pronunciava apaixonadamente: “se houvesse uma eleição para os dez homens mais felizes do mundo eu seria um dos eleitos”.  

A ambulância chegou e Manuel parecia consciente de tudo, apesar de ter preferido manter-se inerte e impávido, face às circunstâncias. Sempre era uma forma de se alhear e afastar desta vida por momentos. Não sabia ao certo quanto tempo estivera ali a dialogar com seus pensamentos, mas tudo parecia passar muito depressa. “Vá, preocupem-se comigo, dêem-me toda a atenção do mundo” – delirava para si mesmo. Colocaram-no numa maca, meteram-no na ambulância e transportaram-no para o hospital da cidade.  

Manuel ali ia, estendido, sacudido agora pela velocidade do que o transportava, sem ser capaz de sentir qualquer dor. Deixara-se envolver, inexplicavelmente, por aquelas estranhas sensações e pensamentos, incompreensíveis dadas as circunstâncias; mas era o que sentia. Não percepcionava o seu corpo, só mesmo a alma, e à sua cabeça apenas chegavam informações de total tranquilidade, paz e harmonia. Seus pensamentos continuavam a divagar e a envolvê-lo, como se a Sua Estrela fosse ali a reconfortá-lo e a puxá-lo para si. “Estaria a morrer? Iria a caminho do túnel de luz? – Pensava ele. 

Percebia-se bem o que Manuel sentia face ao que vivera com sua mulher e a paixão que usufruíra com ela em todos aqueles anos. Não raras vezes, entre lágrimas de amor e ternura, com o fervor de quem atinge o êxtase, entre sublimes e loucas vagas de paixão, Manuel e Estrela transpareciam a imagem de dois rios tempestuosos que se unem num só e que veloz e rapidamente transborda nas suas margens. Um rio que na sua passagem alaga tudo com a força transcendental e imparável de um tsunami; sem contemplações, sejam as vidas de quem as suporta, sejam as orações de quem implora misericórdia. Ele, o rio, indiferente, conquista e abalroa numa dolorosa fatalidade tudo o que lhe aparece à frente. E era nessa inesquecível e ambígua loucura de felicidade e destruição que eles se entregavam perdidamente. Alheios aos gritos, às margens, à paisagem ou ao tempo, entre horas das quais até se esqueciam, ainda são estes sons, em cascata, que perduram até hoje, na sua lembrança.
 
Acordou naquela manhã de sol com a mesma alegria de sempre. Já não eram só as dores na cabeça, nas costas, nas mãos, nas pernas ou no peito. Era todo um corpo dorido, flagelado pelas agruras que atravessara na vida. Tinha cicatrizes, sim, das pancadas que tinha sofrido e que haviam vertido sangue, mas que o tempo também se empenhara em lhe as sarar, embora aquelas continuassem visivelmente dolorosas. Restavam agora não só as dores físicas mas também e, sobretudo, as psicológicas. As dores verdadeiras e as dores que já não sabia se eram dores ou algo intrínseco já faziam parte da sua essência. Perdera essa consciência e, agora ali, naquele sossego forçado, apenas rodeado por pessoas que mal conhecia, limitava-se a resistir ao tempo com todo o tempo do mundo, sem preocupações que não fossem da alma. 

Encontrava-se não sabia bem onde, mas isso era irrelevante. Era bem tratado, tinha várias pessoas que cuidavam dele e aquele lugar era acolhedor. Sentia-se bem e julgava-se consciente sobre tudo. Aquele retiro da terceira idade constituía-se para ele como uma casa grande, simpática, acolhedora, bem equipada e muito agradável para aonde fora viver. Apesar das crescentes dificuldades motoras, quando lhe permitiam sair, ele não desperdiçava a oportunidade e lá ia até ao fundo do jardim que adorava. Era um espaço amplo, rodeado de árvores altas com três caminhos ladeados por canteiros bem tratados. Uma cerca verde tapetada de arbustos a uns largos metros da casa disfarçava-se no horizonte e delimitava aquele seu espaço do universo.  

Reconfortava-se ali a sentir o cheiro das flores que pontilhavam os canteiros e, por momentos, regressava aos seus montes e vales de outrora com profundo sentimento de saudade. Depois gostava de contemplar o céu, as estrelas, as nuvens e seguia com o olhar os pássaros que saltitavam por ali, distinguindo, aqui e ali, aquilo que lhe pareciam ser pombas, pardais e melros.  

Mas havia naquele jardim algo de muito especial e de que Manuel não abdicava naquele seu passeio matinal. Num espaço reservado recortado no caminho, esquivava-se então, como que deslizando para as profundezas e, junto a um canto, perto do arvoredo que sombreava um pequeno banco de madeira ali existente, ali estava ela, como que à sua espera, em segredo, em pose suspeita e proibida, exposta pela nudez, a Sua Estrela da manhã.  

Plantada sobre um sopé de mármore muito branco, ali estava ela, linda, como sempre a vira: a sua musa inspiradora. Aquele momento era como se fosse um acto derradeiro, mas ao mesmo tempo transmitia-lhe um prazer enorme – mais do que comer ou dormir – dava-lhe um hiato de continuidade pela vida, vida que, aos poucos, se escoava em cada dia. Estar ali junto com ela era como vivenciar o caminho para o Céu. Ao lado daquela que ele considerava ser a Sua Estrela, era como estar mais perto do sonho de voltar ao seu abraço, ao seu amor, ao seu sorriso, hoje distante. E falava com ela... 

Bom dia! Disse-lhe, então Manuel naquele tom e olhar feliz que procura colocar no seu rosto rugado. De sorriso rasgado e com a ênfase de quem está de bem com a vida, vai escondendo-lhe o vazio que ele vai, no entanto, sentindo.

Está tão bom aqui fora, não está?! Acrescentou ele a afirmar-se de forma positiva pela satisfação que sentia. – Nem sempre me deixam sair – justificou-se.

Estou tão contente por estar aqui a falar contigo! Disse-lhe ainda, apesar do continuado silêncio.

Um ligeiro cheiro a perfume e a flores fez-se, de repente, sentir em seu redor. Manuel sentiu-o chegar-lhe trazido por uma breve e amena aragem que até levantou do chão e varreu algumas folhas mortas pelo tempo. Inalou-o com o prazer de quem está no cimo de uma montanha e contempla extasiado a paisagem, mas, mais uma vez, ali estava ele, agora escondido na penumbra, na presença do Seu Amor, este, esculpido em lembranças de boas memórias que interiorizou.

És linda, sabias?! Já te tinha dito? Perguntou-lhe ele pela milionésima vez, ainda à espera que ela lhe retribuísse com o sorriso de outros tempos.

Gosto muito de ti! Insistiu ele, na esperança de que ela, pelo menos, desviasse o olhar para ele.

Mas ela continuava hirta e indiferente aos elogios, na sua eloquente postura, de quem é adorada por muita gente. Seu rosto não transparecia um único reflexo; ela, alta, imponente no seu pedestal de admiração, ia contemplando o mundo a seus pés.

Mas ele não desistiu, não se foi abaixo com a indiferença dela, e continuou, como sempre fazia, no seu inflamado discurso, ainda que de sentido unilateral, não correspondido.

Bom, sei que não serei o teu melhor admirador, aquele que trata melhor de ti, com o carinho que necessitas, que te oferece as mais bonitas flores, mas dou-te o que tenho de mais puro, o amor das minhas palavras que brotam do meu coração…

Ela, inexpugnável, fria como a manhã, à espera que o sol a aquecesse, deixou-se, no entanto, pousar no cabelo, solto ao vento, por uma pomba que veio ao seu encontro. Pareceu-me sorrir-lhe, satisfeita pela manifestação de confiança que recebia daquela ave vinda do céu. Pelo menos foi a sensação que Manuel teve e sentiu-se, de repente, insignificantemente desprezível e só.

Naquela manhã, como em todas as manhãs possíveis, o sol despontava a oriente. Vermelho, redondo e deslumbrante na sua força de Verão já esquecido, reflectia-se-lhe no rosto belo, branco e ousado daquela figura fria de contemplação etérea. Ela, apesar de inerte, espelhava então a altivez de uma rainha, a coragem de um guerreiro a serenidade e a beleza de uma princesa. Manuel admirava-a por isso.

Olhou então, pela última vez, para aquela figura erguida diante de si, numa postura altiva e confiante de olhar infinito, indiferente, beijou-lhe os pés (que era o ponto onde ele conseguia chegar-lhe) e, com a ternura de quem beija uma criança acabada de nascer, o seu olhar turvou-se do cansaço dos anos, dos sonhos que tivera e do silêncio das palavras perdidas.

Manuel afastou-se e chorou. Deu dois passos e caiu. Fechou os olhos. O pesadelo tornara-se num verdadeiro sonho e, no momento em que a mortalha o envolveu, pareceu sorrir.

(Versão adaptada)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

SILÊNCIO ENSURDECEDOR


A manhã estava soalheira, mas fresca. O verão ficara lá atrás e o outono ia agora ao lado, tal como rio. Espelhado de céu salpicado de nuvens brancas dispersas e que voavam comigo, mergulhei meu olhar taciturno nesse indefinido horizonte aguado. A determinação arrancara-me da cama e a necessidade do desafio físico presente, fazia-me todo o sentido. Acompanhado, estava só.
Pela frente um caminho pedonal tapetado, ora de calçada, ora de cimento colorido para percorrer. Normalmente o diálogo projecta-nos para outros caminhos e os passos perdem-se em aventuras por desbravar. Ou os assuntos da actualidade preenchem-nos os minutos e estes passam em passos largos. É bom, salutar e agradável.
Mas nesta estranha manhã tudo pareceu diferente entre ele e ela. E o ruído do silêncio foi ensurdecedor. Foram quatro quilómetros de deserto em palavras engolidas em seco. Como se tivessem tudo para dizer e nada.
Percorridos os primeiros cinquenta metros, procuro fazer o que sempre faço: despoletar um assunto:
– Finalmente a chuva, agora que tudo ardeu por aí...
Apenas ouvi o silêncio.
Dez minutos depois ouço:
– Gostaste da açorda de camarão ou deitaste fora?
Aludia a um tupperware que me dera na véspera com aquele petisco.
A minha resposta, na linha do que me é habitual foi:
– Deitei fora.  
Na verdade não havia sequer comido. Mas perante tanto silêncio, não me apeteceu responder de outra forma. Ainda admiti que a conversa podia ter sido alimentada por “deitaste fora porque não gostaste ou porque foi? ...
Não, nada. O assunto morreu ali prostrado no vómito, no grito para dentro, no desespero de quem quer parar e tem que andar.
Os passos prosseguiram, as pernas agiram, a cabeça olhou em volta tentando perceber o vento, as folhas, o chão, a manhã, a razão, se o tempo era bom ou mau...
Não se comentou o atarefado trânsito de automóveis na estrada, ou o pato que vive no rio no seu palanque de madeira – à espera de quem o alimenta a pão – ou dos barcos que servem as duas margens ou sequer do tapete de relva nas novas zonas verdes que por aqui cresceram e que alegram este espaço lúdico que usufruímos.
Mas a sua boca não se abriu mais e a minha também não.
Ficou a caminhada de um tempo aparentemente perdido, consumido em pensamentos que ecoam agora por aqui, mas que servem para aferirmos o que somos, cada um de nós, com nossas legítimas razões e que amanhã entenderemos.
Não falei porque não me apeteceu. Escrevi aqui porque quero e me apeteceu.
Cada um tem aquilo que merece. E eu mereço o que tenho e estou grato.
 
Carlos Alberto

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

CARTAS DE AMOR

 
Querida Maria

Bom dia, meu amor. Espero que esta carta te vá encontrar de boa saúde e que estejas de bem contigo mesma. Quanto a mim, cá estou na minha pacata vida, longe de ti, mas sempre contigo no meu coração. A distância que nos separa hoje deixa—me marcas todos os dias, porque me deito e acordo contigo na cabeça, sempre a pensar em ti; e como isso me magoa o coração... Não é fácil saber—te aí e eu aqui, com uma necessidade enorme de te sentir, abraçar e beijar. ...
Mas o destino assim quis e vou aceitar este momento como uma prova de resistência ao nosso amor, à nossa paixão, à nossa loucura.

Lembras—te como foi linda a forma como nos conhecemos? Tu à janela e eu disse—te que eras linda. Sorriste—me, envergonhada, e baixaste os olhos em sinal de de confirmação. Desde esse dia passei a ir ver—te todos os dias, nem que fosse apenas para descortinar a tua sombra e sentia—me feliz, só por isso. Disse—te que te amava, que era um dos dez homens mais felizes do mundo e as sensações que passei a sentir contigo na minha vida, fizeram renascer em mim um amor imenso e adormecido. 

Depois disto, deixaste—me entrar no teu coração e, à janela, namorávamos como dois amantes adolescentes, brincando um com o outro. Era tão bom, amor, não era?

Tenho pena que ainda não tivéssemos podido brincar os dois no Jardim, no mesmo baloiço, mas a distância e o tempo que tem estado sempre mau e tudo muito nublado, molhado e escorregadio, não ajuda, não é? 

E aqui estou eu, desterrado, numa rua vazia de ti, mesmo que o rio me abrace, mas sem o teu cheiro e com apenas a tua alma como companhia.

Bom, amor, despeço—me por hoje, na esperança de que esta carta nos faça sentir mais perto um do outro e que o nosso amor possa assim sair reforçado.
Já te disse hoje que te amo? E que és linda? Não? Amo—te, amo—te muito, Maria.

Eternamente teu, recebe os meus beijos de amor que te envio do mais profundo da minha alma. Grato.

 Carlos Alberto.

domingo, 20 de agosto de 2017

PALAVRA


 
Palavra dita em clamor
Tantas vezes mal tratada
Há uma que elejo: AMOR
Palavra abençoada.
 

 

terça-feira, 25 de abril de 2017

COM OU SEM MAR


Quero ouvir os pardais, as gaivotas,
observar o oceano a beijar as margens;
quero sentir as aragens,
e também ouvir tua voz.
Sentir o teu cheiro, tua essência
perdida nesta concha de noz.

Navego à tua procura:
Escondes-te e não estás.
Rejeitas-me, ignoras-me,
ou não sou capaz.
 
Quero fazer poesia,
cantar, dançar com mestria;
como uma flor a abrir,
erguer-me para o teu abraço;
mas nem me deixas sorrir;
Sobra-me o cansaço.
 
Fecho-me, triste, derreado
na minha concha embrulhado.
Cubro-me com um lençol
de vergonha amarrotado.
Choro uma mágoa
da qual me quero libertar,
triste por te amar, sem me cansar.

Mas dói-me e tenho medo:
dos trovões e das farpas — credo!
Dos zumbidos do vento
que ecoam pelo espaço.
E no dilúvio das vagas
que me enrolam no cansaço
contra as rochas me tragas.

segunda-feira, 20 de março de 2017

MMEMÓRIAS 2015 (2º SEMESTRE)

Terça-feira, 14 de Julho de 2015 (Torre da Marinha, 21:56h)

“Obrigado, meu Deus”
E vai tudo correr bem. Não há nada que nos impeça de sermos felizes. Porque é isso que eu quero, é isso que eu desejo, é isso que eu mereço, é isso que eu procuro transmitir aos outros. E a vida acontece. Acordamos, sentimo-nos gratos e vamos em busca, não dos silêncios, mas dos sons que brotam à nossa volta e nos despertam. E são muitos, vindos de todas as direcções, que captamos e gerimos como quem usa colheres que manuseamos e transportamos até à alma. São imensas as sensações e todas boas. Vamos trilhando o caminho e descobrindo cada local, cada momento, como o lugar certo para se estar. E até conseguimos controlar tudo, como se fossemos um super-homem, mas sem capa. Há sorrisos, despertamos prazer. Há luz, sol, calor e até somos um forno a aquecer tudo o que está frio. Somos a paz dentro de uma guerra, somos a flor num jardim palaciano, o anjo da guarda de alguém que protegemos, a tranquilidade ou a fonte de harmonia entre o conhecimento e a sabedoria que nos envolve. Espanto-me, no entanto, é com a importância que me é dada e deslumbro-me na essência em que me transformam. Serei eu assim o homem tão especial, o líder, o ídolo que as pessoas tanto procuram? Eu só quero mesmo é ser uma boa pessoa e alguém reconhecido apenas como “boa pessoa” e mais nada.  Porque, como ser humano, considero-me uma pessoa como as outras, com imensos defeitos, nomeadamente, um pervertido, um louco, um tarado, alguém capaz de tudo e disposto a tudo. Quem me conhece a fundo sabe do que estou a falar. Se sou feliz assim sendo assim? Sou e muito. Inteiramente amado por muitas pessoas, amando como amo a vida e as pessoas, isso faz de mim o homem que sou e dá-me um conforto enorme. Resta dizer, aquilo que pronuncio diariamente: obrigado, meu Deus.

Carlos Alberto                             


Sexta-feira, 02 de Outubro de 2015 (Torre da Marinha, 22:31h)
“Amor para toda a vida”

O mais importante está aqui. Tenho tudo o que preciso: o sangue, o ar que respiro, a luz, o espaço, o sentido da vida. Ouço o seu respirar, o sorriso, a voz, sinto a presença, a vibração, a alegria, e basta-me. Ela fala, fala, está perfeita, completa, harmonizada. Fala da sua terra, das suas origens, e brilha, pois claro, porque domina o lugar onde viveu dez anos e de onde é natural. E é este prazer insubstituível que não dispenso. A cor dos seus olhos, a expressão corporal, a elegância da sua presença e o que manifesta, está tudo nela. Está tudo aqui. Sei, no entanto, que esta é uma felicidade que me é emprestada por umas horas. Uma felicidade que partilhamos apenas por um espaço de tempo único, mas que, por agora, ambos desfrutamos. E vale a pena. É a aproximação possível, a certeza da identidade, o desfrutar das raízes que assim não secam, como que um regar, para não se perderem, num entrelaçar para o resto da vida. É o meu bebé, a minha criança, o meu amor perdido, que agora cresce na distância, que perdi para uma vivência diária, mas que continua presente no meu tempo e a evoluir: uma menina hoje feita mulher. E, nesta condição de pai, usufruo, não interessa em que normas estabelecidas, o gosto de a ter aqui. Ela está aqui e saboreio-a apenas. Não importa se é necessidade ou interesse. O que é bom é que podemos viver juntos o momento, mesmo que ela continue a falar, a falar e a falar, vivendo de forma activa e alegremente o diálogo que, efusivamente, vai manifestando ao telefone com alguém que não comigo. Em qualquer circunstância, o que destaco é que esta criança é fruto de um grande amor e será assim de um amor para toda a vida.

Carlos Alberto  

Quarta-feira, 7 de Outubro de 2015 (Torre da Marinha, 22:02h)
“Paixão perdida”

Tenho que ganhar asas, voar, sair deste colete-de-forças em que me encontro, partir para outros e novos mundos. Chega. Sinto-me preso a este barco deteriorado, amarrado ao cais, e não quero. Quero partir, sobrevoar, navegar, viver, crescer, gritar bem alto a alegria que me vai na alma e que não consigo exprimir. É o céu que está cinzento,a chuva que cai, ou uma espécie de nevoeiro ou neblina que me tolda a visão, quando o tempo, afinal, está óptimo lá fora. Vou andar. Obrigo-me a isso. Quero ouvir os pardais, as gaivotas, observar o rio a beijar as margens. Sim, também há muito lixo, resíduos da cultura de um povo, mas ignoro-o neste contexto. Quero sentir que estou bem, apenas ouvir tua voz, sentir teu cheiro que me está a faltar muitas vezes. E nem sei de quem estou a falar... Vou à tua procura, mas tu não estás para mim. Ofendes-me, rejeitas-me, ignoras os meus sentimentos. Quero fazer poesia, cantar, dançar para ti, erguer-me para o teu abraço, e, afinal, nem me deixas sorrir. Fecho-me então nessa altura, triste, na minha concha, cubro-me com um lençol da vergonha que me fazes sentir e choro uma mágoa da qual me quero libertar. É como se tivesse medo: medo dos trovões, das farpas, dos zumbidos de vento que ecoam pelo espaço, das vagas que me enrolam e atiram contra as rochas. Estou sozinho e castigas-me como se castiga uma criança. Prometeste-me que me deixavas ver televisão, se eu me portasse bem, e depois não me deixaste ver. Ofereceste-me um rebuçado, mas não o descascaste e eu não sei fazê-lo sozinho. Gostava de te sentir e tu não queres. Queria tocar-te, abraçar-te, desejar-te, mas és para mim como a lua, em fase de “nova”: apenas estás lá. A paixão foi-se, a tua, já não existe e eu estou perdido nesta estrada de curvas e contra curvas de regresso a casa sem nada dentro. É com um vazio imenso, sem esperança que encontro. Sobram os frutos que colho no caminho e que absorvo sofregamente, mas queria mais. Desejava mais, mesmo sabendo que não posso, nem está ao meu alcance. Só me resta chorar, mas como sou forte, vou mesmo tornar a sair em busca desse momento sublime de voar por cima da montanha e voltar a sorrir.
Carlos Alberto

 
Sexta-feira, 09 de Outubro de 2015 (Torre da Marinha, 10/10, 00:59h)

“Sem medo”
Subi e desci escadas. Galguei, corri, esfolei-me todo para atingir o topo. Estou lá. Exausto, sim, mas cheguei. Sorri-te, penetrei-te nesses olhos brilhantes que me fulminaram, abracei-te, quis-te, mas só te deste numa medida que é a tua e que me quiseste dar. E foi pouco, para a minha vontade. Fiquei apenas com um gosto amargo na boca, como se nem o teu cheiro tivesse sentido. Afastaste-te, fugiste e escondeste-te de ti própria. Eu falho na escrita, falho na respiração, falho em tudo porque não estamos na mesma sintonia. Mas já sirvo de amigo, de pai, e até já sou avô e, que remédio, tenho que me resignar a essa condição privilegiada de estatuto ancião. “E já gozas, meu caro”. É o rebuçado que chupo sem ter o direito de o trincar. “Chupa, querido, chupa”. Vai atrás dos interesses dos outros, enterra-te nesse desejo de quereres, mas apenas cheiras e ao longe. E é assim que vivo, partilho, consulto, sou útil e gozo nesta cadeira. Mas é apenas um gozo de quem vê um filme na tela, onde se passa tudo ao nível da ficção, porque da realidade nada. Resta, no entanto, a boa sensação de que vale a pena explorar o momento, a amizade, o filme. Entretanto, para trás ficara uma hora e picos de ginásio, em regime gratuito de experimentação que aproveitámos. Um almoço em óptima companhia de mulheres e depois imiscuído entre muitas mulheres em conversas de mulheres para mulheres. Também cartas e mais números com tarot à mistura e mais mulheres fáceis e difíceis, amorosas ou para fugir delas. Enfim, um dia em que houve de tudo um pouco, até jantar: churrasco, como se eu fosse da família, pertencesse ao meio, com o mar ali tão perto. Abdiquei da família verdadeira, abdico de tudo por ti e, afinal, nem sequer para poder sentir o teu abraço apertado que queria. Recebes-me num tímido encontro, sem paixão e com medo enorme de qualquer envolvimento. Que pena as pessoas fugirem do medo... de se entregarem ou serem elas próprias, sem medo.

Carlos Alberto

Domingo, 29 de Novembro de 2015 (Torre da Marinha, 21:53h)
“Fotografando”

Aproveitamos o bom tempo, empunhamos a máquina fotográfica e vamos numa viagem em busca de imagens que ilustrem a nossa vida. O sol, fugidio e temperado do final da tarde, de cores amenas de um outono fresco, salpica-nos delicadamente o rosto pelo rio. Aqui a margem afagada pela ondulação na maré cheia. Do outro lado, as casas. No rio há gente em embarcações de recreio, em caiaques coloridos,­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­ ­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­— remando na desportiva brincadeira de quem aproveita o tempo — dispostos na corrente das calmas águas ainda pouco cristalinas. Nesta margem um pescador, de mãos nos bolsos, olha distraidamente para as suas duas canas apontadas ao céu. E eu vou, passo a passo, descobrindo e absorvendo cada momento: as luzes, as sombras, os perfis, os contrastes, as esquinas. Pelo caminho, “encadeio-me” na lanterna apagada provinda de um barco que cruza o horizonte, esbarro na simetria cónica do coreto que se eleva para as nuvens e tropeço na apinhada fila de cadeiras arrumadas. É assim esta tarde, despida de ruídos ou aglomerações supérfluas. Há apenas gente que se passeia, de cá para lá, com cães pela trela, pessoas de idade, que a juventude, provavelmente, preferirá outros cenários. Todavia, a tarde, assim, está encantadora. Um casal, sentado num banco, em trejeitos de cumplicidade, troca carícias como se estivesse a escrever em si mesmo um tratado de amor. Alguém surge de repente e se atravessa no meu olhar, pedalando em ritmo lânguido de quem tem todo o tempo do mundo, tal como eu, que respiro e observo cada imagem, cada traço, como se fosse a última vez, numa hora de despedidas. Fotografo as casas, cada uma, como se fossem para ser demolidas. Gravo imagens dispersas como “frames” de uma história, a minha história, o meu olhar que o tempo se encarregará de preservar para sempre, se estas palavras forem capazes de sobreviver à intempérie crítica do olhar dos críticos.

Carlos Alberto

PS: Estes resumos fazem parte de transcrições das páginas manuscritas do meu Diário.
Fiz várias alterações nos textos originais.
A minha opção é, com estas modificações, “enaltecer esses escritos” e, com umas pinceladas, pretender dar-lhes algum carácter literário, tonando-os mais apelativo à literacia.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

MEMÓRIAS 2015 (1º SEMESTRE)


Segunda-feira, 16 de Março de 2015 (Torre da Marinha, 21:40h)

“Partilhando com ratos”
É impressionante andarmos aqui nós tão preocupados com a nossa “vidinha” e com as condições que temos nela e, afinal, há gente a viver debaixo da ponte. Gente, como nós, que sem nada que lhes permita viver condignamente, são os caixotes do lixo o seu supermercado e simultaneamente o seu sustento. E é confrangedor ver de tão perto como certas pessoas sobrevivem à vida. São imagens como estas que nos tocam e fazem reflectir sobre o que somos e o que temos. Por isso não me queixo, e digo, sentindo, que sou um homem privilegiado. Nem se percebe como as pessoas se lamentam tanto e acham que as suas vidas são difíceis. Havendo pessoas, mesmo ao nosso lado, a partilharem o seu espaço com ratos à volta e que com eles vivem “portas meias”, vamos queixar-nos do quê? Há um rio que desagua no mar, comboios que os trucidam a todos os momentos, carros que velozmente lhes atropelam, ruidosamente, os ouvidos em zumbidos que já fazem parte da sua existência. Dói só de ver, quanto mais sentir. Passar ali uma só noite já seria um pesadelo; imagine-se uma vida. Uma noite que fosse, seria uma tragédia, uma experiência alucinante que nos mataria de uma só vez. Entretanto, nós vamo-nos perdendo na nossa “vidinha”, em sonhos que gostaríamos de ver realizados, no aconchego do nosso canto.. “Debaixo da ponte”, frase tantas vezes repetida para dizer quanta miséria ela encerra é, na verdade, para alguém tão humano quanto nós, literalmente uma realidade social para quem a vida foi madrasta e que a vivencia todos os dias. Por isso, quando ouvirmos alguém se queixar de que a sua vida é má e difícil é dizermos que vá até à Cruz Quebrada e espreite para debaixo da ponte e imagine-se a viver ali.
 
Carlos Alberto                             
 

Terça-feira, 31 de Março de 2015 (Torre da Marinha, 20:12h)

“Com as mãos no fogo”
Não sei o que vai acontecer a partir daqui, mas como eu acredito no destino, será o que tiver que acontecer. A vida está cheia de surpresas, surgem-nos em cada esquina, e a questão está em sabermos como lidar com elas. Podemos não lhes dar a melhor solução, mas haverá, com certeza, uma, e ela será a resposta certa ao desafio a que nos propusemos. E, na verdade, eu nem sei do que estou à procura. Aliás, como tenho sempre dito “não sei o que quero; só sei o que não quero”. Mas a solução é eu deixar fazer com que o “destino” me leve para aonde eu tiver que ir. Não estou muito seguro de mim, nem sequer sei se estou a agir bem ou mal, de forma correcta, ou não. Portanto, vou apenas seguir o meu instinto, acreditar nas minhas intuições. Também não sei sequer porque o faço e porque procuro o desafio. Mas sei que vou entender tudo quando lá chegar. Talvez comece por levar uma tareia e acabe estendido na lama, mas é o meu propósito, sou eu que só sei ser assim. Abrem-se as portas e eu entro. E neste caso nem peço para entrar, eu entro sem sequer pedir licença. E é isso que me preocupa e aflige. Porque me considero um homem honesto. E vou ter que continuar a sê-lo. E assim se abre a minha vida para um novo desafio. É apenas um dia alegre e muito bonito de sol resplandecente. Um dia de juventude, de partilha de sensações e bem-estar. E pergunta-se: eu atrapalho? Não sei nem quero saber. Eu entro e nem é pela porta. Eu forço até a janela, de forma brusca, abrupta, intempestiva. Sem olhar a meios ou fechaduras, trancas ou o que quer que se intrometa pelo meio, não há entraves ou obstáculos que, no momento da minha decisão de derrubá-los deixam logo de o ser, sem medos, sem contemplações, sem olhar para as consequências. Dentro ou fora, quero lá saber. Este sou eu, em toda a minha irreverência, quando te cubro com o meu amor.

Carlos Alberto  

Quarta-feira, 1 de Abril de 2015 (Torre da Marinha, 02/04 03:19h)

“Bora lá...”
Uma noite longa até que o sono nos separasse. E a noite chegou, de mansinho, como quem chama para a cama e, prego a fundo que se faz tarde, estrada fora com quem foge do destino e, pronto, já era. A luz finou-se. Num repente as velas acesas apagaram-se, num sinal de vento que não houve, num sol que se inundou e a luz, esfumando-se, desapareceu. Era um sonho?. Alguém estendeu um tapete para subirmos as escadas que nos levariam ao céu, mas, meu Deus, que caminhos queres que eu percorra? Fui então, a correr, atrás do teu chamamento e encontrei-me na rua do meu desespero. A loucura, de repente, apoderou-se de mim. Envolveste-me num suspiro e perdi-me na escalada ofegante da conquista de um castelo de ameias recortadas, numa torre que não tinha uma princesa, mas apenas uma mulher. Sonhámos com castelos, entrámos incógnitos por janelas, mas até havia portas abertas para entrarmos. Lisboa, fui atrás de ti, montado, a galope, em meu cavalo de vento e esbarrei nos meus próprios preconceitos que me afectam. Há palavras que deixam de fazer sentido e sentidos que percorrem as palavras certas para expressar sentimentos. E acordamos. Estás lá na ilusão do que sentimos, na paixão do que fomos e somos. Perdidos em insondáveis labirintos, conseguimos encontrar-nos, com paixão, no sorriso que nos coloca no caminho certo. A noite avança, assim irreverente, na loucura de abraços e beijos que nos enchem o corpo. Tentamos descobrir o nosso espaço por trilhos de atalhos em que queremos saber se é o fim do caminho ou o princípio de outro, o certo, que procuramos encontrar. Mas vamos saber no momento em que o vento nos soprar ao ouvido canções de embalar. Fico, no entanto, triste por ter tantos defeitos, achar que é na beleza que está a perfeição e sinto-me tão estúpido que até me magoo na escalada.

Carlos Alberto

Quinta-feira, 14 de Maio de 2015 (Torre da Marinha, 20:25h)

“Noite ou dia de sonho”
As palavras não podem ser ditas de ânimo leve porque, carregadas de amor, podem ferir os sentimentos de quem as perscruta. Neste contexto, os dias também não acabam nem começam porque eles são um prolongamento de si em si mesmos. E neles se desenrolam descritivamente, raptos, torturas, gritos e estertores. Contudo, aqui as palavras são outras e falam do prazer escondido, proferidas em castelos inexpugnáveis que invadimos sem termos ganho uma consciência absoluta do que conquistámos. Aparentemente cegos, somos guiados por instintos, presos e arrastados por cordas invisíveis que nos amarram e nos rebocam até ao mais alto dos confins do mundo. Lisboa está a meus pés. O Tejo é também pano de fundo, enquanto as luzes da cidade, piscando-nos na vista, vão ofuscando-nos os sentidos. Partimos então à procura não sabemos exactamente do quê, mas também queremos muito perceber todos os contornos das linhas do horizonte colocadas diante de nós. Por fim descobrimos. Há foguetes no ar, explosões de cores em todas as direcções, depois a noite ou o dia ­­­­– já não sabemos – avança. E o reboliço é intenso pelo chão, em alternativa ao conforto do maple ali mesmo ao lado. Mas é o duro chão que nos acolhe no abraço, no grito – na noite ou no dia que não acaba e começa – a nudez, o gosto, o gozo, o desejo, os gritos abafados, o outro, a vontade... que se contém. Hirto na determinação, a envolvência não se encaixa e esbarra no pretexto da falta de protecção e segurança das alturas. Assim, restam mãos ciosas tacteando entranhas que percorrem colinas. Bocas que desfolham florestas húmidas e as carregam de beijos. Gestos e armas que aguilhoando muralhas fazem desprender sinos que estridentemente ecoam e se fazem ouvir. Acordamos então para adormecer no cansaço. A manhã já era. É o sol agora na paisagem. Há automóveis na estrada enquanto saboreamos um prazer que ainda nos envolve. A descoberta de todas as curvas, o quarto de paredes forrados de mensagens carregadas de energia que nos engole. Os segredos contados e revelados ao ouvido. Os corpos nus em sonhos feitos em pedaços reais. Ainda o cheiro, o gosto saboroso da fruta que deglutimos. É assim a paixão de uma noite – ou dia – de sonho.

Carlos Alberto
 

Sexta-feira, 19 de Junho de 2015 (Torre da Marinha, 20/06 01:05h)

“Gosto muito de vocês”
Sentei-me. Fechei os olhos olhando para trás e pensei: “tenho de ser diferente e dizer algo de diferente”. Eu não posso continuar a cair na tentação do facilitismo e de ir sempre pelo caminho mais fácil. Sim, quero crescer e estou a crescer, mas tenho que eliminar as ervas daninhas à minha volta. É verdade, também já não sou o mesmo homem de ontem, do meu passado. Sim, ainda choro, mas não pelas mesmas razões. Agradeço a Deus ou ao Universo tudo o que vivi e sofri, mas sem angústia. Sou hoje uma melhor pessoa e, curioso, muito mais feliz do que seria suposto. A vida hoje para mim acaba por ser aquilo que eu sempre desejei que fosse. Era exactamente assim que eu me imaginava viver e nem sabia. Acabei de aperceber-me que, afinal, sou hoje aquilo que sempre desejei ser. Um homem livre, que faz as suas escolhas (aparentes) e que segue o caminho ou caminhos que quer. Não preciso de ser prepotente, não preciso de impôr nada, nem de me insinuar a ninguém. Tudo o que é bom vem ter comigo, e eu só penso naquilo que me dá felicidade. E uma das conclusões a que chego é que não ser de ninguém é hoje um dos meus maiores bens e não me aflijo nada com aquilo que não tenho ou não é meu. Considero-me também um homem abençoado e muito feliz com o que me rodeia. A solidão não é meu lema e estar só hoje – quando sozinho – é apenas minha opção. Porque quero ser eu a decidir se saio, e quando saio de casa, daqui ou dali. Porque sou eu que decido se como carne ou peixe, se me apetece ou não; porque sou eu que decido se é bom ou mau para mim e sou eu que escolho quem quero para ser meu amigo e isto basta-me. E, de facto, tenho hoje vários amigos e amigas graças a essa minha liberdade de escolha. Por isso posso dizer e quero dizer que gosto muito de ti Victória, gosto muito de ti Cristina, gosto muito de ti Sónia e gosto muito da gente que gosta de mim, nomeadamente, de ti que acabaste de ler esta página agora.     

Carlos Alberto

PS: Estes resumos fazem parte de transcrições das páginas manuscritas do meu Diário que embora estejam já lá para trás no tempo, valem hoje o que valem.

Entretanto, e porque fiz várias alterações pontuais neles, a minha opção actualmente é “enaltecer esses textos escritos” e assim, com essas pinceladas, pretender apenas dar algum carácter literário e mais apelativo.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A terminar o ano, aqui fica uma poesia...

Folha

De pele enrugada,
Rasgada pelo tempo,
Pela intempérie vergada,
Ao sabor do vento:
Surge da minha alma
Uma folha
Que brota, como sangue,
Uma bolha:
Lágrima de vida, alada.
Escoa-se para a terra—
Pó, cinza e nada.

CA

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

"A GALINHA PINTAS"

 

A terra onde o Artur vive é um lugar muito tranquilo, lá muito longe num mundo onde todas as pessoas se dão muito bem, são muito amigas e gostam todas umas das outras. É um lugar calmo, fora da cidade, sem confusão, onde se respira paz e tranquilidade, se ouvem os passarinhos a cantar e até o vento sopra sempre muito baixinho para não assustar as pessoas. As árvores agitam-se e balançam como se dançassem ao som de canções de amor e a harmonia é tão perfeita que parecem bailarinas num espectáculo esverdeado cheio de alegria.
 
No céu, as nuvens estão sempre a criar desenhos e, quando lá vou, o Artur e eu, deitamo-nos no chão e pomo-nos a adivinhar o que são: umas vezes parecem-nos aves, outras parecem-nos golfinhos, outras patos e, algumas nuvens até nos parecem rostos a sorrirem para nós a brincar com a nossa imaginação.

Eu não vivo na terra do Artur, mas gosto muito de lá ir por causa disto; assim como gosto das sensações que, tanto ele como aquele lugar, me transmitem. Na verdade sinto-me como se estivesse no Céu, tão lindo e calmo é tudo aquilo: inspira-me muito bem-estar e confiança e quando estou lá sinto-me privilegiado por ter um amigo a viver ali naquela terra de sonho e poder ir visitá-lo de vez em quando.

Como naquela terra distante as pessoas são muito amigas e simpáticas, certo dia, a mãe do Artur recebeu de uns vizinhos uma oferta muito especial: uma galinha para eles matarem e fazerem com ela uma deliciosa refeição de arroz de cabidela. Este arroz é cozinhado com o sangue da galinha e dizem que é muito bom. Mas o meu amigo Artur que não gostou muito da ideia de matarem a galinha teve uma ideia genial e disse à mãe que a galinha parecia triste e magra e que queria ficar com ela. Disse-lhe que achava que a galinha precisava primeiro de engordar para ficar mais suculenta e que ele mesmo iria alimentá-la para ficar mais gorda e depois já poderia ir para a panela. A mãe do Artur gostou da ideia e concordou com a sugestão dele. O Artur agarrou então na galinha e levou-a para o pombal da sua casa onde tinha também uns pombos de estimação. Pelo caminho sussurrou à galinha que ia tratar dela, não para ir para a panela, mas que iam ser amigos e, para provar isso, começou a fazer-lhe festinhas e deu-lhe beijinhos. A pequena galinha que ainda estava meio assustada, agora no colo do Artur, aceitou os carinhos, aquelas palavras de amizade, confiou nele e ficou então um pouco mais tranquila. A sua hora, afinal, ainda não tinha chegado.

A galinha era de facto magrita e enfezada. Tinha um pescoço comprido e despido de penas com umas pintas pretas sarapintadas e as suas penas acastanhadas nem brilhavam muito. Era realmente uma galinha de aspecto muito esgazeado e que fazia pena. Por causa das pintas do pescoço o Artur começou a chamá-la por galinha Pintas.

No início ela nem punha ovos e, quando raramente os punha, estes eram brancos e pequenitos. Depois o Artur falava com ela, fazia-lhe festinhas no bico e nas penas; ela agachava-se sossegadinha para recebê-las e ficava a ouvi-lo com atenção. Aos poucos, com o passar do tempo, a galinha Pintas ia melhorando de aspecto e agora, quando via o Artur e este se aproximava, ela até batia as asas de contente, já ia ter com ele para ele lhe fazer festinhas no peito e pareciam, de facto, entender-se muito bem. E foi assim que o Artur e a galinha Pintas se tornaram grandes amigos e também foi a partir dali que ela começou a pôr ovos todos os dias, ovos cada vez mais amarelos, grandes e gostosos e tornou-se numa galinha muito feliz e contente, porque era uma galinha que punha ovos para o Artur ficar mais forte.

O Artur para continuar a alimentar a ideia à mãe de que estava a engordar a galinha Pintas, ia dizendo-lhe que um dia tinha tido um sonho de que aquela galinha era a verdadeira galinha dos ovos de ouro de que se falava muito, e que a galinha Pintas, um dia, iria pôr um ovo de ouro... e todos ficariam mais felizes.

Obviamente que a mãe do Artur percebendo da amizade criada entre eles e das justificações que ele ia inventando, desistiu da ideia de matar a galinha Pintas e, assim, o nosso herói Artur salvou a galinha da panela de arroz de cabidela e ficaram todos amigos para sempre.