segunda-feira, 24 de março de 2014

SENTIDOS


Saímos para a rua dispostos a viver um dia diferente. A Primavera sobrevoa-nos o horizonte em toda a sua plenitude. Sentimos no ar um clima autêntico, puro e duro, ou melhor, macio, já que uma amena lufada de ar que se faz levemente sentir sopra-nos como que segredos aos ouvidos, acariciando-nos ao mesmo tempo o rosto e de uma forma doce, meiga e reconfortante.

Caminhamos sentindo o pulsar da vida: são as crianças que brincam alegremente à nossa volta; ora gritando, ora rindo umas das outras, correndo numa e noutra direcção. O rio calmo, muito sereno e sem qualquer movimento, parece um espelho cintilante reflectindo a acalmia vinda do céu sem nuvens, enquanto um ciclista pedala compassadamente sentado ao selim usufruindo, com a velocidade, a possibilidade de chegar mais depressa.

Eu caminho sem pressa por entre as flores, o jardim, as pessoas, os automóveis que passam ao lado e as casas. Observo, sinto, inspiro e expiro com a força intensa que me é permitido pela lei da natureza humana. Sorrio para mim mesmo olhando para uma janela com meia dúzia de pares de peúgas estendidas na corda, enquanto mais à frente um homem olha o relógio e percebe que está atrasado para algo.

Eu tenho o tempo todo do mundo. Ninguém estará à minha espera quando decidir voltar para casa. E agora quero apenas usufruir dos sons, dos cheiros da maresia e dos bivalves que me chegam do rio. Quero sentir o pulsar da vida que passa por aquele meu momento de profunda e, ao mesmo tempo, descontraída emoção.

Um avião muito pequenino deixa um rasto branco no céu e por instantes assalta-me a ideia de que se valeria a pena ir nele? Regresso a mim no mesmo instante, como que atingido por um raio, quando me vejo estatelado no chão depois de, inadvertidamente, ter chocado com um poste de luz...

Não, não acabará mal a história de um passeio num lindo dia de Primavera. A cicatriz com que fiquei serve-me apenas para me lembrar todos os dias que mesmo quando tudo parece perfeito pode acontecer algo que nos fará acordar para a realidade do que somos e onde estamos. E pensar que teremos sempre de nos reerguer quando cairmos, continuarmos o nosso caminho acreditando que, apesar de não termos ninguém em casa à nossa espera, regressaremos para lá, com certeza, mais cedo ou mais tarde, com ou sem mazelas doridas.

6 comentários:

  1. Que maravilha de conclusões após um passeio em um lindo dia de primavera ! Adorei! abraços, tudo de bom,chica

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    1. As conclusões são sempre o mais importante, não são? rsrsrs
      Obrigado chica.

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  2. é isso meu velho, e que venham mais primaveras! PVP

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    1. Grande PVP. Espero bem que sim e já agora, verões porque gosto muito de praia. Pode ser?

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  3. Há muito que quase deixei de sonhar. Quase. Nunca espero muito para poder aguentar-me firme, venha o que vier.
    Abraço

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  4. Sonhar vale sempre a pena. É uma forma de nos mantermos "acordados" para a vida. Acreditar é meio caminho andado para chegarmos incólumes ao fim dele.

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