quarta-feira, 28 de novembro de 2012

PÍNCAROS DA EUROPA - CAP III

“PICOS DE ESPANHA”

CAPÍTULO III

Bilbao, 6 de Agosto de 2012

São 07:45h. Para trás uma noite que devia ter sido de sonho. Mesmo assim, dormi menos mal sobre umas manchas de vermelho que ficaram para lavar. Sete horas, tocou o telefone para o despertar. Desci. O pequeno-almoço foi de reis, mas comi apenas como um príncipe. Croissants e doce, um bocado do inevitável e irresistível presunto e ainda um triângulo de queijo. Ainda estou nervoso. Estou a tentar dissociar-me, mas o problema, apesar de não subsistir, preocupa-me.

Está um dia claro. Está fresco, mas creio que a chuva ficou para trás. Espera-nos mais um dia bom, divertido, interessante e para conhecer novas paragens. É muita boa a sensação de irmos visitar locais onde nunca estivemos. É uma descoberta que nos faz sentir como crianças perante um novo brinquedo.

Sinto-me fisicamente bem. Vesti hoje umas calças compridas de ganga para me sentir mais confortável e uma t-shirt Lacoste rosa. Calcei uns ténis com meias. Ontem senti-me um pouco à fresca na visita ao museu. Mas não estava muito diferente dos outros, mesmo de calções e mais desportivo. Ainda guardo na memória aquele local onde se cruzam tantas culturas. Fiquei sem perceber é se o que se fala no país basco é um idioma se um dialecto. Sabê-lo-ei na internet.

(espanhol é um idioma, mas o basco, não, e o português é uma língua e um idioma. Ou seja, o idioma sempre está vinculado à língua oficial de um país. Já dialeto é a designação para variedades linguísticas, que podem ser regionais). Conforme em http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/fundamentos/qual-diferenca-lingua-idioma-dialeto-427786.shtml.

Aqui e agora as minhas dúvidas são outras. Neste momento já estamos atrasados para a hora prevista de saída.

São 8:00h e faltam pessoas. Quero libertar-me. Olho para as pessoas e vejo outras e comparo-as. Na minha cabeça há outra gente; quero ser feliz.

Ao microfone, brinca-se com o Euscádio, Euskadi, o tal dialecto aqui do País Basco. Estamos quase de partida, julgo que para Santander. O autocarro já pegou. Falta alguém? Parece que não. O Luís já fez a sua habitual contagem. Estamos ainda dentro do parque de autocarros deste magnífico Hotel Gran Bilbao que dizem só ter três anos. Autocarros são quatro aqui estacionados.

São 08:05h, estão 17ºC e vamos embora. Vamos na direcção Oeste. O nosso destino é Oviedo, nas Astúrias. Já estamos numa via rápida, dentro de um túnel enorme, por onde de resto já passámos quando fomos para Bilbao. Saímos e está sol, com nuvens dispersas. Há algum trânsito, sobretudo de pesados. Mais um túnel. Tem dois quilómetros de comprimento. Estava a escrever às escuras…. E outro túnel e outro. Velocidade 100 indica-nos a sinalização exterior.

Eu estou sentado na traseira do autocarro, quase sem ninguém. Os passageiros estão todos sentados à minha frente. Somos 31 e só 9 vêm aqui atrás depois da porta do meio do autocarro. Portagem em Portugalete. Estamos a pagar. A portagem é para custear a manutenção dos túneis que acabámos de passar.

São 08:22h As indicações ainda estão em Euskadi na E70 até Santander, numa zona industrial. Nesta zona prevalecem a indústria metalomecânica, a construção naval e a indústria da pesca. O porto de Bilbao é o mais importante.

Vamos entrar na Costa Verde e o Atlântico já apareceu lá ao longe recortado na paisagem.

São 08:25h e continuamos com os 17ºC nesta manhã em que o trânsito de camiões é muito intenso. Aqui a atmosfera também cheira um pouco a gás, mas não admira: há por aqui várias centrais com grandes depósitos circulares. É nitidamente uma zona muito industrializada, pouco apelativa para quem quer desfrutar de paisagens verdejantes.

Tirei a primeira foto ao Atlântico que estranhamente está à minha direita. Vejo uma placa a indicar à direita Cobaron e vamos em frente pela E70/A8. Já saímos do País Basco e entrámos na Cantábria, outra região autónoma desta dividida Espanha. As encostas têm muita vegetação. Já não há dois nomes nas placas de sinalização das estradas. Agora estão apenas em castelhano.

A capital é Santander, nome que deriva do nome do Santo André (Sanct Ander) - diz-nos o guia. A vegetação é densa e bastante alta e o Golfo da Biscaia está ao meu lado direito. Castro-Urdiales é uma conhecida e reputada zona balneária nesta costa Cantábrica. Aqui parámos.

Luís Filipe de Abreu. Artista Plástico. Um diálogo curto com esta figura pública que à mesa de uma esplanada se escondia na simplicidade e humildade de quem é grande em todos os sentidos. Descobri então quem era com a cumplicidade da sua esposa que me revelou com quem eu estava a conversar, sem saber. Um privilégio. Ele não queria que ela revelasse detalhes, sentiu-se até incomodado, como se não fosse revelante o seu trabalho. Ela insistiu, orgulhosa do homem que a acompanhava.

Fiquei a saber que eram de sua autoria os azulejos da estação do metro no Saldanha, em Lisboa, e que algumas das notas do Banco de Portugal tinham o seu cunho. Admirável e inesquecível encontro este.

Em Castro-Urdiales, à beira-mar, como saído de um sonho, conheci assim pessoas tão simples quanto ilustres. Paragem curta, mas que se revelou muito significativa por este pequeno diálogo de aproximação em que me senti deslumbrado e com uma profunda admiração e respeito por estar na presença de uma figura tão respeitosa quanto emblemática da nossa cultura.

São 09:20h, estão 20ºC, o tempo magnífico, e Santander aqui vamos nós…

Mudou a paisagem de ontem para hoje. O cenário de inverno passou para o edílico verão. É o mar aqui e ali que sarapinta agora a paisagem. Uma ribeira que vem desaguar no mar; as encostas muito verdes de vegetação vária e muito densa; subimos e há casario espalhado lá em baixo, ainda do meu lado direito, com o sol atrás de mim a bater-me na nuca. Afastámo-nos da costa, mas estamos na mesma estrada E70/A8 rumo a Santander.

Estamos na região de Laredo, localizada noutra baía da costa Cantábrica. Estamos também nos Caminhos de Santiago, um dos caminhos que levam até Compostela. Laredo é uma lagoa muito bonita. Passámos ao lado, mas parece que vamos para lá, pelo menos assim parece pela sinalização que vou encontrando. Ainda não são dez da manhã e, por isso, o comércio ainda está fechado. Vamos sair por dez minutos para ver a praia e tirar umas fotos. Já está. Missão cumprida. Mais uma pequena troca de palavras com o casal Abreu. Gente, de facto, muito simples e com quem dá gosto conversar.

São 10:00h, o tempo está aberto de um sol pleno, mas a praia deserta, apenas com gente ao fundo, na maré baixa, a apanhar marisco, bivalves, talvez.

Laredo é um local pacato, mas muito turístico, de vivendas e prédios altos de apartamentos de muito bom aspecto que se abeiram da praia. Têm aspecto de mais de vinte anos, mas estão muito bem conservados. E o pessoal vai chegando à praia…

A areia não é fina. É branca, sim, mas granulada. Agachei-me, peguei nela para sentir a sua textura e fechando a mão senti as pedrinhas arredondadas a escorrerem-me por entre os dedos.

Agora quero fazer tudo ao mesmo tempo: tirar fotos e escrever ao mesmo tempo, o que me parece difícil. Enquanto as coisas me vão caindo para o chão: ora os óculos, ora a caneta, ora eu próprio embalado pelo serpenteado do percurso do autocarro.

Estamos a caminho de Santander, já faltam poucos quilómetros. A paisagem agora é igual à que vimos antes. Verde nas encostas com casas ao fundo recortadas no verde dos campos. São vivendas isoladas. Agora há serra e a paisagem ainda totalmente verde, o que justifica porque se dá o nome de Costa Verde a estas paragens.

Na estrada de via rápida, muito trânsito nos dois sentidos, mas tudo a rolar, sem problemas ou conflitos que gerem impaciência. Não é uma estrada em linha recta, estamos inclusive a subir, numa zona alta e de gelo. Mas agora está sol, estamos com os mesmos 20ºC do princípio da manhã e o relógio digital marca 10:20h.

Estamos a chegar, diz o Rui, embora faltem onze quilómetros. Aqui vêem-se de novo indústrias dos dois lados da estrada. Em Fevereiro 1941 houve um grande incêndio que destruiu o centro histórico da cidade de Santander pelo que hoje a cidade é mais moderna. É uma cidade também portuária e fica numa península de onde se apanha um ferryboat que vai para Inglaterra. Vi esse barco e não percebi que se tratava do mesmo. É um barco enorme, majestoso, tipo navio de Cruzeiro, o que também não admira visto que é um Atlântico que tem de enfrentar pelo Golfo da Biscaia até ao Sul das Ilhas Britânicas.

São 10:45h, está um sol imenso, 22ºC e ainda não chegámos ao centro da cidade do Santo André. Andámos ali um pouco às voltas para estacionar e não foi possível. Apercebemo-nos, entretanto, do intenso movimento, sobretudo por se tratar de uma zona extremamente turística e da importância estratégica desta cidade.

São 11:25h, acabámos por atravessar toda a cidade capital das Astúrias e viemos parar junto à praia do Sardinero, onde estamos. Aqui o autocarro deixou-nos em frente ao edifício do Gran Casino para uma visita rápida e para absorvermos um pouco do ambiente. Parece que estamos em Cascais, numa zona balnear rica e muito bem organizada, muito limpa e onde até há um jardim de flores, canteiros e palmeiras virados, tipo esplanada, para o mar.

A praia está cheia de gente. A areia é fina e branca. Piso-a só para a sentir e repito o ritual de Laredo. Na avenida, um tipo de dentro de um carro grita para outro que vai a passar: “vai trabalhar”, em castelhano, claro, - e ri-se. Onde é que eu já ouvi isto? -pensei e ri-me também do meu pensamento.

A paragem é curta, vinte minutos. Aqui cheira a férias e a turismo. Apetece ficar mais tempo, mas agora já vamos para o centro, que é aqui já o lado. Santander também é uma cidade pequena, e vamos ser de novo despejados, agora para almoçar. Falta alguém, esperam-se mais uns momentos e já está.

11:50h e vamos sair então para desfrutarmos, cada um por si, a cidade. Parámos em frente à Catedral que visitei, e percorri depois grande parte da cidade a pé até um largo com umas esplanadas onde comi uns saborosos “pinchos”. Foi o meu almoço, acompanhado, claro, por umas “canas” fresquinhas e, protegido por uma sombra de um chapéu-de-sol, desfrutei do ambiente e aproveitei para descansar um pouco num clima de puro devaneio.

À minha volta outras mesas com gente de cá, clientes “habitués” e outras com alguns estrangeiros a apreciarem o mesmo que eu. Soube-me muito bem este momento e foi reconfortante.

14:30h, regresso ao autocarro. Esta hora e meia passou-se num instante. Apetece estar na praia. Estão 23ºC e um sol radioso num contraste gritante com o dia de ontem.

No porto está o Ferry que nos levaria até Inglaterra. É um grande paquete que até daria gosto usufruir. Há pessoas na coberta onde há uma piscina. Deve estar-se bem ali.

Mas o nosso destino é outro e vamos sair de Santander. Olhando para trás, esta cidade deixou-me muito boa impressão: com muitas lojas, muito comércio, e não sei se por ser agosto, com muita gente, além de que me pareceu um sítio ideal e muito apetecível para férias de verão, sendo de facto uma zona muito turística. Mas para nós não dá e aqui vamos nós. Adeus, até à próxima.

Voltámos à auto pista del Cantábrico. Vamos passar em Santillana Del Mar que, por sinal fica a dez quilómetros da costa. Estamos em plena A67 e a sinalização indica, além de Oviedo, Burgos, onde já estivemos.

Muitas estradas, muitas entradas e saídas, imenso trânsito, mas tudo em andamento calmo, sem problemas ou constrangimentos. O motorista tem feito uma condução passiva, parece saber o que está a fazer e ser bastante responsável. Não há manobras abruptas, guinadas ou travagens bruscas e transmite-nos confiança, além de que o Luís, nosso guia, também é um veterano destas coisas de viagens e para ele, nestes percursos, não há segredos.

Atiramos um olhar para fora das grandes vidraças e na paisagem vemos mais construções industriais ao longo da estrada, tipo parques de zonas industriais. A sinalização indica-nos também que estamos a 170 km de Oviedo. Aqui dentro vamos todos ainda a saborear nas nossas memórias o rebuliço que trouxemos de Santander, confortavelmente acomodados, com o termómetro digital do autopullman a marcar 23ºC e o relógio nas 14:45h, enquanto numa bela tarde de verão, algures na A-67, o autocarro nos dirige para Santillana.

Santillana del Mar é uma localidade medieval, muito turística, e cujo nome deriva de Santa Juliana de Nicomedia, uma mártir perseguida e morta na Ásia no século III e cujos restos mortais foram para ali trazidos e depositados numa ermida que foi declarada monumento nacional no final do século XIX.

Estamos a afastar-nos da costa e a paisagem voltou ao verde do campo com pequenas elevações. É por aqui que se encontram também as célebres grutas de Altamira com pinturas rupestres, supostamente do paleolítico superior, com doze a quinze mil anos de existência, diz-nos o guia. Todavia, há ainda hoje dúvidas sobre a sua autenticidade. Deste conjunto pictórico, estas pinturas rupestres são as mais significativas que se conhecem. Curiosamente, devido ao grande número de visitas, acrescenta, decidiram fechá-las para assim serem melhor preservadas. Pela net, em http://pt.wikipedia.org/wiki/Caverna_de_Altamira encontra-se bastante informação sobre esta famosa caverna.

A N-611 é a estrada que circulamos, fizemos um pequeno largo e estamos entre casas dispersas de uma pequena povoação a caminho de Torrelavega que está a quatro quilómetros. Uma cimenteira à nossa direita fere-nos o olhar despreocupado que uma central eléctrica e mais indústrias acentuam na paisagem descaracterizada.

Voltas e mais voltas e descortinamos que há por aqui inúmeras pousadas para peregrinos. É um roteiro com muitas ermidas, o que não é estranho, dado estarmos também sobre um dos percursos dos Caminhos de Santiago. Mais rotundas e rotundas num emaranhado de vias e estradas, entradas e saídas num labirinto de destinos que se cruzam e descruzam entre paisagens que se perdem no olhar verde que nos fazem lembrar o norte de Portugal, agora com as vistas mais abertas com as montanhas lá ao longe.

São 15:05h e estamos a chegar a Santillana del Mar. Estão 22ºC e há imensos carros estacionados por aqui. Vamos parar para darmos o nosso passeio apeado. São duas ruas… mas há imensa gente a passear ou sentados nas pequenas e recatadas esplanadas. Temos quase uma hora para desfrutarmos aqui. Vamos então lá explorar.

E é uma vilazita interessante, muito disputada por umas lojinhas características das pequenas localidades como esta, dispersas por ruazinhas estreitas com casas de pedra, tão tradicionais quanto artesanais, espaços exíguos de comércio onde se explora o que aqui se produz. Artesanato e chocolate são elementos dominantes.

Na arquitectura medieval, as varandas destacam-se por serem construídas em barrotes de madeira escura com umas plantas aéreas que se desprendem dependuradas e que fazem lembrar ouriços verdes e gigantes. Outras, apenas ostentam vasos com flores muito garridas de um vermelho vivo que nos atrai, salpicadas de cor que sobressai da madeira com pilaretes helicoidais. Outras ainda enchem-se de artefactos diversos, desde baldes a bicicletas, de bandeiras espanholas a roupa escura de trabalho, esta estendida ao sol aproveitando esta bela tarde de um dia verão.

Há lojas de artesanato, mas também restaurantes, estalagens e muita gente em busca de raízes dos seus antepassados. Revivem-se aqui histórias de infância e eu aproveito apenas para um olhar despretensioso para uma antiguidade de séculos sem sequer sentir o que vejo. São para mim apenas lugares de circunstância vividos sem a paixão de um artista ou de quem tem alguém a seu lado para partilhar.

Percorro estes caminhos olhando cada centímetro quadrado de paisagem, mas para mim este um lugar é como tantos outros que conheço e que temos no nosso país, ainda que este tenha a particularidade de estar muito bem cuidado e preservado e que nos transporta, em momentos pontuais, às gentes e às tradições ancestrais de um povo que aqui viveu e que soube ao longo dos anos guardar-nos este bocado de terra com as casas de dois/três pisos como um local de culto para aqueles que apreciam o passado e as tradições das suas gentes.

16:06h saída de Santillana rumo a Oviedo. Está um tempo magnífico e eu estou de calças compridas em vez de calções. Mas foi estratégico, devido ao meu percalço, aparentemente ultrapassado.

Estão 25ºC e para Oviedo não vamos pela autopista, mas pela estrada nacional porque temos mais paisagem para desfrutar, diz-nos o Rui. Por aqui temos também acesso visual aos prados de Cantábria com as bobines de fardos empilhados a um canto, nas propriedades, envoltas em plástico negro. Há por aqui ainda várias ermidas que fazem parte do roteiro dos Caminhos de Santiago e que foram fundadas por monges beneditinos. E encontramos também pequenos povoados com casas de dois pisos em tons avermelhados como suas cores características sóbrias e predominantes.

Os cavalinhos também são por aqui tradição. Estes animaizinhos têm características que ficam entre o poldro e o cavalo. Vacas é outra das espécies animais que por aqui se podem ver; e fazem-me lembrar os Açores. São de cor castanha, mas também já as vi pretas e brancas, como as que conhecemos melhor, nomeadamente, das Ilhas do meio do Atlântico. E a salpicar também os campos de prados verdes, vamos encontrando diversos pastos de dezenas de ovelhas que, pachorrentamente vão degustando a erva, alheias ao nosso olhar efémero de uma passagem que também é meramente fugaz.

E, claro, com tanta quantidade e qualidade desta pastorícia não podiam faltar as indústrias com as fábricas de queijo, assim como deve haver de chocolates, já que estes tanto predominam e são apreciados aqui no norte de Espanha. Do queijo não tenho opinião formada. Já quanto aos chocolates posso dizer que têm um aspecto delicioso, embalados com vários enfeites tipo “confiserie”. Vi isso em Gernika e Bilbao e fiquei… a olhar para eles e com pena de não os poder comprar, para evitar as calorias…

16:30h CA-131, Estamos a passar por Comillas que é outra zona balnear muito característica e disputada por aqui. Tem em anexo à praia dois parques de campismo e, pelo que nos apercebemos, estão lotados de gente. Parece a aldeia da roupa branca, tal a mistura de tendas que se estendem como lençóis lançados ao vento numa caótica cobertura de geometrias variadas.

Atravessámos a “aldeia”, seguimos viagem e ficámos com a mesma sensação de quem chega a São Martinho do Porto, pela similitude e pela confusão instalada. Não me parece ser um centro turístico de eleição, nobre por excelência, como vimos em Santander. Para Comillas vem o pobrezito.

Agora seguimos para San Vicente de la Barquera e vejo uma serra lá ao longe do meu lado esquerdo e o mar à minha direita, ou o seu reflexo. Oviedo está a 148 km e continuamos a serpentear pela estrada de curvas e contracurvas por entre pastos, vacas e bois a pastarem e por aquilo que me pareceram ser plantações de milho.

Parámos em San Vicente depois de percorrermos uma ponte antiga, provavelmente romana, pela arquitectura, que atravessa um rio com o mesmo nome.

São 17:05h e estão 25ºC na rua. Está um final de tarde ameno e muito agradável aqui à beira rio. No céu, nuvens muito altas e dispersas elevam-nos o ego e inspiramo-nos no clima abafado de um verão apetecível para sentir a leveza deste momento sublime, longe de outro qualquer lugar da nossa memória ou vil existência.

Estamos numa zona tipicamente marítima, de ria, mas sem praia. Parece-me um local tranquilo, acolhedor, turístico, e muito mais apelativo, embora bem diferente de Comillas. Digamos que é um local que se visita e onde se está de passagem, para comer ou beber, (diz-se que se pratica por aqui a pesca da lagosta), se conversa, ou se vem para dar um giro. Há muita organização e limpeza, está tudo muito equilibrado, e é sítio muito aprazível para passar uma tarde depois de um prolongado e bem degustado almoço de marisco.

Um local onde também se pode saborear a paisagem bucólica dos barcos que se agarram nas âncoras, enquanto se desfaz o cansaço no olhar perdido da paisagem marítima; ou o descansamos nas barcaças que salpicam a foz, e se consome, enfim, em harmonia com a natureza, o bem-estar e o ruido de uma pacata e pitoresca vila piscatória.

Um porto pesqueiro, sim, de pequenas embarcações atracadas às margens, numa paisagem edílica e extasiante para quem chega e para quem sai. Mergulhando-se o olhar na ribeira, esta ramifica-se de braços abertos e no seu regaço embalam-se e descansam frágeis barquitos de pesca artesanal.

Com uma ou duas ruas principais, com muitos cafés e restaurantes marisqueiros a animar quem aqui chega, San Vicente surge-nos como um lugar limpo, arrumado, onde há também jardins e parques infantis, um lugar onde se vem e se está com gosto, uma porção de terra também de canteiros e flores, mas onde não se foge à característica inexaurível de sons, cheiros e aromas de uma terra banhada pelo mar e com um rio a entrar-lhe pelas entranhas.

São 17:30h e estamos já a aprontar-nos para sairmos, rumo a Oviedo. Subimos agora uma serra onde tudo é verde e a paisagem a perder de vista. É o prolongamento de uma sensação aqui diferente de preenchimento da alma e de paz de espírito, como uma tranquilidade divina. Estamos na estrada nacional, há muitas curvas, mas apenas nos servem de embalo e suportam-se muito bem. À minha direita está agora o Parque Nacional dos Picos da Europa, uma grande e verdejante serra que iremos visitar amanhã.

A 140 km de Oviedo deixámos a Cantábria e entrámos no Principado das Astúrias. Saímos da Estrada principal E-70 A-8, e esta só tem duas faixas, uma para cada lado, quando vejo Noriega numa placa, que fica à esquerda.

17:45h e 21ºC, e La Franca acaba de ficar para trás enquanto eu aqui atrás no autocarro tenho muita dificuldade em perceber por onde passamos. Agora é o mar mesmo aqui ao meu lado direito e é como se percorrêssemos uma marginal com uma linha de comboio entre nós. Mas estamos num ponto alto, vejo arribas e desnível até ao mar. Há trânsito na estrada e obras que provocam alguns constrangimentos. Há viadutos em construção e uma placa diz-nos que estamos a 114 km do nosso destino. N-634. Vidiago, Riego, logo a seguir. Aqui as localidades estão bem identificadas, e seguimos para um troço da A-8 acabadinho de fazer.

À minha esquerda uma extensa cordilheira a lembrar a Serra da Estrela. Umas nuvens cinzentas cobrem alguns dos picos. Estamos a passar Llanes, contornámos uma rotunda e saímos por uma estrada nacional de duas faixas AS-263, enquanto a cordilheira se afastou de nós e ficou mais longe, embora continuemos a segui-la. Depois de voltas e mais voltas, estamos de novo ao lado do Atlântico, a cerca de 100 km de Oviedo. E voltámos à via rápida E70-A8. Ribadesella será a próxima localidade. Julgo que esta constante mudança de estradas e desvios é por causa das diversas obras de melhoramento e construção de novas vias que se estão a fazer por esta região.

Entretanto, enquanto o sol se vai escondendo por detrás das dispersas nuvens altas, os picos desta grande serra continuam aqui a fazer-nos sombra. Ribadesella está a quatro quilómetros e estas montanhas são umas autênticas esculturas naturais, verdadeiramente imponentes, parecendo que escorreriam para cima de nós se a chuva as fustigasse. Estão cobertas por um verde rasteiro e são bastante íngremes e rochosas morfologicamente.

Mas não o suficientemente duras para que a tecnologia humana não as atravesse: um túnel, outro túnel, mais outro. Gijon 58, Oviedo 74, indica a sinalização. E mais um túnel. O homem é imparável na sua obstinação de chegar mais depressa. E fura, perfura, inventa caminhos por entre a serra que nos engole por largas centenas de metros. Estamos nos Picos da Europa, é verdade, e escrevo (originalmente) às escuras. Este túnel era enorme. Saímos e de novo a serra à esquerda e pastorícia à direita, ou o mar, como acontece agora que levantei os olhos para contemplar esse plano de azul anil. Mais um túnel, este pequenino e o mar de novo. É uma paisagem muito bonita esta, recortada no nosso olhar que se distrai, ora desfrutando a serra num lado, ora mergulhando no mar, do outro.

À minha frente, há duas mulheres que vão sentadas sozinhas. Não me dizem nada, isto é, não me inspiram a vontade de comunicar com elas, distribuir-lhes um comentário, atirar uma piada, o que quer que seja. Não se encaixam no meu perfil. Há também vários casais, incluindo o casal Abreu, que vai um pouco mais à minha frente. O que estranho é que os casais vão todos sempre muitos calados, não há comunicação verbal, um diálogo visível entre eles, e isso aflige-me. Ou será que sou eu, em companhia de alguém, que sou “uma melga”?

Eu não me tenho imposto, nas nossas paragens, ao casal Abreu. Não me quero intrometer no passeio deles, nem sequer ser um intruso nas suas cogitações familiares ou deambulações nos locais onde paramos. Não quero também ser inoportuno, apesar de notar que se mostram sempre bastante disponíveis e simpáticos, além de me parecerem ser pessoas muito simples e acessíveis.

Assim, quando saímos do autocarro não me colo a eles para não ser - nem me sentir- indesejado, além de não querer perturbar a sua privacidade. Mas dá para perceber que não se escondem da minha aproximação.

Ele, como artista está uns furos muito acima do comum dos mortais, sem comparação, e noto também tratar-se de uma pessoa muito inteligente e culta. Eu não me sinto à sua altura, nem de perto nem de longe, e estou muito aquém, em todos os níveis de quaisquer paralelos. Tratando-se Luís Filipe de Abreu de uma figura de grande relevo e mérito da nossa sociedade cultural, individuo com um nível intelectual muito elevado e de estirpe notável, como a que demonstra mesmo na sua simplicidade, apenas me limito a ter o privilégio da sua admiração, ao empreendimento a que me propus, nesta viagem. E aqui vai ele, incógnito, como um passageiro comum, no seio de um restrito grupo de viajantes, trinta e um turistas ocasionais, numa viagem que esperamos todos que seja inesquecível.

Estamos agora com 22ºC, são 18:47h, o céu tem umas gretas azuis, mas as nuvens são daquelas que só fazem sombra. Deixámos de ter serra e chegámos a… um túnel dentro de uma localidade que é Villaviciosa, pela qual passámos por baixo. Aqui é assim: não se incomoda ninguém.

Estamos na A-64, mas há já algum tempo. Agora o guia diz-nos que amanhã vamos andar de novo por estes caminhos para irmos aos Picos da Europa. Percorremos um vale. É tudo verde de um lado e de outro da estrada, com muitas árvores de pequeno porte e de característica halófitas. Um enorme talude em rede de protecção protege a outra faixa de estrada. Acenderam as luzes aqui do autocarro o que significa que vamos ter pela frente um túnel enorme. Assim era. Saímos com cerca de uns dois quilómetros percorridos debaixo do chão. São 19:00h e estaremos a 20km de Oviedo.

Oviedo é a capital do Principado das Astúrias. Este território que se constitui simultaneamente como uma província e uma comunidade autónoma de Espanha teve o seu reconhecimento durante o século VIII.

Como sempre acontece, com o aproximar das cidades surgem na paisagem as zonas industriais. Típico, de um lado e de outro.

19:10h e entrámos em Oviedo. IKEA à esquerda e a Porcelanosa. Temos a segunda circular e o viaduto do Espírito Santo. Oviedo está à direita. Parece uma cidade velha, baixa, avermelhada, como se se tratasse de uma zona industrializada, não muito apelativa para ficar. Ainda mais um túnel e agora uns prédios castanhos. E as minhas suspeitas confirmam-se: Oviedo é uma cidade velha, suja e usada. Estamos a chegar ao hotel quando são 19:30h e o jantar será às 08:30h da noite.

Também este hotel não é nada de especial. É até o pior daqueles em que já fiquei nas minhas diversas viagens por Espanha. Julgo que este quarto onde estou, de tão pequeno, é um daqueles que fazem pandã com outros, do tipo familiar. Há pelo menos uma porta aqui ao lado que dará para esse outro quarto. Eu estarei no quarto dos filhos… ou consideraram-me um hóspede de segunda, ou um excursionista subalterno nesta comitiva...

De facto, este é um quarto extremamente pequeno, muito pequeno mesmo, com a cabeceira da cama, imagine-se, encostada à parede da porta da entrada. Se uma pessoa ressonar, quem for a passar no corredor, ouve-a. O quarto é, no entanto, acolhedor, está limpo e tem bom aspecto. Tem um quadro da Roma antiga com um militar sobre uma quadriga de dois cavalos. As paredes são rugosas, tipo antigo Karapas, pintadas de branco sujo. A mobília em mogno favorece o estilo antigo, século XIX, com linhas direitas numa cabeceira com os cantos recortados. A janela dá para umas traseiras fechadas por uns prédios altos que se erguem em frente, mesmo diante do nariz.

Não sei quanto se paga neste hotel comparativamente ao Gran Bilbao, mas o Ayre Hotel Ramiro I fica a léguas, diria mesmo que não tem categoria para as quatro estrelas que ostenta. Definitivamente, o Ayre Hotel Ramiro I foi mesmo um “ar” viciado que me deram. O mais grave é que vão ser, não uma, mas duas noites as que aqui vou passar.

Todavia, a única vantagem que tenho é que, mesmo assim, com todas estas pouco abonatórias considerações, se comparar este quarto com aquele onde eu durmo todos os dias, todo o ano, o melhor é ficar calado. Esta cama é de casal, é bastante grande, desproporcional até ao tamanho do quarto, e parece-me também muito confortável; no meu quarto, em casa, as condições que tenho não são melhores.

Para o jantar foi preparada uma sala particular para o nosso grupo. Entrei e fui escolher um lugar na ponta mais longínqua de uma das duas mesas que, perpendicularmente à entrada e paralelas entre si, estavam preparadas para o efeito. Quando entrei reparei que já estavam pessoas sentadas às mesas, mas algumas, confesso, era como se as estivesse a ver pela primeira vez. Em outro grupo – talvez constituído por pessoas que estão no autocarro mais próximas do meu lugar – reconheci-as melhor. Sentei-me. Logo a seguir chegaram as restantes pessoas do grupo que se foram sentando nos lugares disponíveis, tendo o casal Abreu privilegiado os dois lugares vagos à minha frente na mesa. Foi muito amável da parte deles e agradável a presença. A refeição acompanhou o clima descontraído ali estabelecido. Para mim nem tudo era mau.

Se este quarto que me atribuíram é pouco mais que um cubículo de 14 ou 15m² e tem uma casa de banho que faz um “ele” com uma área de uns 3m², tudo em pequeno, em contraste com a suite de ontem, o jantar foi em grande, simplesmente excelente e divinal.

A refeição começou com uns enchidos que chegaram à mesa e para os quais ficámos todos a olhar sem perceber se eram apenas entradas ou parte da refeição propriamente dita. E o meu olhar de destaque foi logo para um chouriço de cebolada – de que sou fã incondicional – de muito boa qualidade. Atirámo-nos a eles (aos enchidos) com o pãozinho que tínhamos à mão. Depois veio sopa de cozido – cinco estrelas –, e o segundo prato é que já não valeu nada. Eram uns croquetes de batata com salada de alface e tomate, mas como já estávamos empanturrados de sopa e enchidos, já ninguém se importou. Ficámos a saber depois que os enchidos eram para juntar na sopa. Misturámos tudo no estômago.

Para remoer um jantar daqueles nada melhor que um salto ao centro da cidade. Mas foi mais uma decepcão. Nenhum movimento e tudo apagado. Oviedo é uma cidade às escuras, a meio gás, triste e sem vida.

Resta-me este quartito. Em contraste gritante com a sumptuosidade do quarto de ontem, em que me senti o Xá da Pérsia ou a celebridade mais importante da nossa caravana, hoje chego apenas à exiguidade do meu próprio pensamento, em que, encaixotado aqui neste pedaço de mundo, serei, tão-somente, um hóspede solitário do Terceiro Mundo. E é interessante verificar como pode mudar a forma de sentirmos as coisas: num dia, grandes, no seguinte, pequenos e, num instante, passamos de bestial a bestas…

Boa noite, espero.