terça-feira, 5 de agosto de 2014

QUERIDO PAI

A paixão pode surgir-nos e manifestar-se das mais diversas formas. E o amor, sempre o amor está presente, mesmo que as circunstâncias sejam díspares.
 
E hoje que foi um dia muito especial para mim, já era, no entanto, desde há muitos anos atrás e por razões bem mais dolorosas e diferentes.
 
Fatalmente, nesta data, há trinta anos atrás, meu Pai descia à terra.
 
E ainda me lembro dele, do seu rosto de sofrimento, daqueles seus olhos verdes lindos a olhar para dentro, enquanto se agarrava às grades da cama, no hospital, nos seus últimos dias aqui connosco.
 
Depois recordo-me que brinquei com ele, deitado na sua carruagem de pinho, enquanto a noite nos preparava para a sua  última viagem, dizendo-lhe que me parecia o Pai Natal, tal era o seu aspecto castiço com aquele algodão em volta do pescoço para esconder a sua doença. 
 
Além de um poema, deixamos-lhe também um baralho de cartas para ele jogar com os amigos, como ele tanto gostava. Vi-o então a sorrir, com aquele olhar doce que tinha e disse-nos adeus.
 
Partiu, enfim, "desta para melhor", mas apenas fisicamente. Hoje ainda o sinto a olhar para mim, e a proteger-me. Pai galinha mesmo. Se juntarmos a isto o amor que a minha mãe também me dava, sinto-me cada vez mais vigiado por eles e não posso pôr o pé em ramo verde.
 
"Não vás por aí, vai por ali", estão sempre a dizer-me e a corrigir-me, ora um, ora outro, ainda hoje; grandes carraças, não me largam. "Já sou grande" tento dizer-lhes, mas eles é que mandam. "Eu sou uma autoridade" diz-me sempre ela, como frequentemente nos dizia quando nos repreendia das asneiras que fazíamos.
 
Aqui chegado, trinta anos depois, outros sorrisos, outro amor, outra paixão.
 
Subimos as escadas e o rio abraçou-nos, beijou-nos o rosto, acariciou-nos até à alma. Os barquitos lá em baixo, baloiçava-nos como um sonho e fomos rio acima, ofegantes, até nos perdermos na paixão da paisagem. O Cristo Rei olhava para nós, abençoando-nos, primeiro, mas depois, com vergonha, acabámos, no cimo das escadas, escondidos por detrás do arvoredo, longe do seu olhar para consumarmos aquilo que era o nosso desejo, apenas com o Universo como testemunha, mas sem nada que o escandalizasse. Será apenas um beijo um pecado?
 
De mãos dadas, selámos esse desejo e que, daqui a trinta anos, apoiados em bengalas, voz trémula e meio desengonçados voltaríamos ali juntos, não para subirmos, mas para descermos, aqueles que foram e serão para todo o sempre os nossos degraus de paixão.
 
O amor é lindo, não é? Agora só falta ser verdade tudo.
 
CA