domingo, 13 de abril de 2014

25 DE ABRIL DE 1974


Onde é que estavas no 25 de Abril?

Ele naquele tempo era apenas um imberbe mancebo lançado para a vida – fora das saias da mãe – e que nada sabia sobre o que tinha pela frente. Ali chegado, cabelo rapado, diante do quartel, surgia-lhe assim abruptamente um enorme desafio, completamente novo e diferente e que tinha agora de ser capaz de transpor e superar. Era a nova vida do serviço militar obrigatório.
Entregaram-lhe uma arma que veio a reconhecer ser uma espingarda de guerra G3 e, com receio, guardou-a religiosamente no cacifo não fosse aquilo disparar inadvertidamente contra alguém. Aprendeu a manuseá-la e, mais tarde, foi até obrigado a desmontá-la e montá-la, peça por peça, de olhos vendados, com o objectivo de, em cenário nocturno de guerra, ser capaz de ultrapassar, sem ver, um encravamento ou anomalia.
 
Em exercício, perante as exigências, lembrava-se de sua mãe, chegando a pensar que se elas soubessem o que aqueles tipos faziam aos seus filhos, iam lá e batiam-lhes com certeza, tão cruéis, determinadas e difíceis eram as simulações de guerra a que tinham de se sujeitar.
Ali administravam-se duas especialidades principais: a de Policia Militar e de Atiradores da arma de Cavalaria. Os Polícias iriam ter uma vida mais facilitada: patrulhariam as cidades das colónias, sem conhecer os verdadeiros cenários de guerra, enquanto, por outro lado, os outros, os Atiradores, (caso dele), eram a classe menor que iria para as frentes de batalha, para o interior, e que seriam aquilo a que na altura se designava como “carne para canhão”. Face ao que viria a acontecer, acabaram por se inverter os papéis e os Atiradores acabaram por não ter actividade nenhuma (acabaria a guerra de milícias) e foram os PM que avançaram para “os campos de batalha”, nas cidades.
 
Três meses depois daquele primeiro dia, naquela madrugada de Abril, soou o grito de alarme em Santarém.
– Tudo a levantar e a reunir na parada, completamente equipados – gritou-lhes uma voz de comando irrompendo pela camarata adentro, acendendo as luzes e acordando toda a gente. Mais uma praxe – pensou-se – e, sem pestanejar, todos se vestiram rapidamente e se dirigiram para o centro da parada, preparados para algo que nunca imaginariam passar e que iria mudar radicalmente as suas vidas e os seus respectivos futuros.
 
Depois, estranhamente, foram conduzidos para um pequeno anfiteatro e logo de seguida entrou Salgueiro Maia que naquela sua voz forte, mas num tom calmo e muito expressivo, explicou clara e objectivamente o que se estava a passar e o que se pretendia, nomeadamente, acabar com a guerra no Ultramar. Por fim acrescentou que quem o quisesse acompanhar rumo a Lisboa que fosse completar o seu arsenal, municiando-se, e quem não quisesse poderia ficar no quartel, que ninguém seria penalizado por isso. Estavam lançados os dados.
Quando o instruendo C. Pereira ouviu falar na sua terra Natal, nem olhou para trás. Dali a pouco estava em cima de uma camioneta tipo Berliet do exército, sentado no lastro, com uma dezena de outros companheiros, abraçado à sua G3. Sem nenhuma experiência de guerra, carregado de balas e sem medo, numa viatura com uma arma metralhadora tipo Browning 12,7 no centro da caixa aberta da camioneta, partiu, madrugada adentro, rumo a Lisboa, sem perceber, minimamente, o que o esperava.


Página do Diário 25 de Abril de 1974               (Santarém, 27-04-1974, 18:00h)
Só agora tive possibilidades para esta página preencher. Uma página tão semelhante às outras, mas que se destaca porque hoje (25 de Abril de 1974) é um dia importante. E que serei eu capaz de dizer?... Poderei descrever tudo o que hoje vivi, mas em outra oportunidade o farei.
HOJE HOUVE GUERRA PELA PAZ.
Eu andei na guerra!
Houve um “golpe de Estado” e foi todo o exército que o desencadeou. Muita coisa se passou, mas agora estou incapaz de desenvolver. Posso é dizer que até este momento dormi ou não dormi como normalmente faria. Portugal é livre! Mas eu de política pouco percebo. Os jornais são bem expressivos e, basta dizer que “acabou-se a Censura”. Fala-se livremente e eu poderei falar livremente. Mas como disse, não sou político e posso apenas transcrever que Marcelo Caetano e Américo Tomaz estão exilados algures na Madeira. Entretanto, quer-se a Paz Colonial. Quer-se Spínola e tê-lo-emos no Comando do Poder. Eu hoje estive pelo exército e andei armado até aos cabelos por Lisboa. Entretanto, em outro livro “especial” direi integralmente tudo o que se passou e tudo o que eu vivi.
Carlos Alberto
Página do Diário 26 de Abril de 1974               (Santarém, 27-04-1974, 20:00h)
Hoje (26 de Abril de 1974) foi ainda um dia de sacrifício para mim e para todos aqueles que pelo MFA lutaram. Efectivamente, foi um dia mais descansado pois não fizemos mais do que ficar incomodamente instalados nas camionetas prontos para qualquer intervenção, sofrendo as inconstâncias do tempo que foi fustigador e da incerteza de cada momento. E em cada instante esperámos por uma ordem positiva, uma hora (ordem) de regresso e ela só surgiu no final do dia, quando esperávamos no RE1 na Pontinha voltar a Lisboa. Mas Santarém era afinal o nosso destino e quando soubemos respirámos profundamente (de alívio). E assim, 25 de Abril de 1974 ficará “histórico” (na história) pois houve e foi concretizada uma mudança no Regime Político que se mantinha há 50 anos. Portugal é, assim, livre! Agora esperamos é que este Portugal fique mais pequenino, mas mais seguro, acabando assim com a guerra colonial. Já muitos milhares de homens como eu morreram por aquela causa tão fútil como criminosa. Acabe-se então com “o opressionismo” (a opressão) e fiquemos libertos para uma vida mais sã e objectiva. Contudo, não abusemos da liberdade, pois a mim parece-me que já se está a exigir demais. E se assim continuar isto ainda vai dar mau resultado e quem acabará por rir são aqueles que algures na Madeira estão exilados.
Carlos Alberto
Página do Diário 27 de Abril de 1974              (Santarém, 27-04-1974, 20:15h)
Esta noite de 26 para 27 já a dormi no quartel. Deitámo-nos cerca das 3 horas, mas só acordámos pelas 10 horas ao som de alguém que nos anunciava que iriamos de fim-de-semana. Toda a gente se vestiu, toda a gente se preparou com sacos e toda a bagagem, mas tudo foi em vão porque afinal não haviam ordens (autorizações) para sairmos.
O dia de ontem, como já disse, passei-o em Lisboa dormitando ao frio e à chuva, incomodamente instalado numa camioneta do exército. Quando a noite chegou, contudo, houve o regresso à Unidade e, aqui em Santarém, fomos acolhidos com todas as honras. Houve palmas, (aplausos), buzinadelas, gritos de Paz, slogans como “O povo unido jamais será vencido” e gestos manuais formando o V de Vitória. E ganhou-se qualquer coisa, de facto, mas que eu ainda não apercebi. Aliás, até aqui eu e os outros só perdemos porque acabámos por perder a regalia que mais ansiávamos que era ir de fim-de-semana. Mas pode ser que para o futuro isto melhore. Para bem de todos, esperamos que sim!
Entretanto, o dia 25 em Lisboa foi deveras memorável. Foi um dia que, se puder, descreverei até ao mais pequeno pormenor, pois foi um dia em que se lutou pela liberdade e eu andei na guerra pela Liberdade. Lutei pela PAZ.
Carlos Alberto

Aqui chegado valerá a pena descrever o que reportei no tal “livro especial” que referi anteriormente:
Santarém, 28 de Abril de 1974 20:00 horas

25 de Abril de 1974 será por todos os tempos adiante uma data imperdoavelmente esquecível, aliás, impossível de esquecer, pois marca um tópico fundamental na vida de todos nós. A partir de hoje Portugal é um país LIVRE e, como livre, todos temos os mesmos direitos de seres humanos. Somos uma DEMOCRACIA. Somos GENTE, finalmente. E Portugal que precisa de evoluir poderá agora evoluir realmente. (...) Somos um país Comunista e, como tal, somos todos “filhos de Deus”. Mas será que isto de direitos está realmente definido? (...) Hoje é domingo e deveria estar em casa e estou aqui em Santarém, obrigado. Será que perdemos direitos, ou será que ainda não foram distribuídos? (...) Tive de estar nas formaturas das refeições, embora o resto do dia tivesse estado por minha conta. Acordei às oito da manhã e às nove saí a Porta d’Armas. Às doze voltei para almoçar e depois, de tarde, o destaque vai para o facto de ter ido à Tourada. (...) Eu e muitos militares estivemos na Praça de Touros de Santarém e foi através de um pedido que se fez para que os militares do MFA (Movimento das Forças Armadas) entrassem gratuitamente. Depois da animada corrida o regresso ao quartel para jantar. Agora já estou no café do costume a “Bijou” onde escrevo esta página. A favor do progresso.
E passo agora à descrição, (à minha descrição), dos acontecimentos que vivi nos dias 25 e 26 de Abril de 1974. Dias que serão para mim, em particular, inesquecíveis, porque vivi-os por dentro, na luta que levou este país à LIBERDADE e que esperamos que seja total. Confiemos nos homens e no futuro!
 
Era duas horas da madrugada escura do dia 25 de Abril de 1974 quando alguns furriéis irrompendo pela camarata nos acordaram dizendo ruidosamente para nos vestirmos rapidamente trajando o fato de combate. E, estranhando todo aquele alarido, resignámo-nos a vestirmo-nos enquanto nos debatíamos com a justificação plausível para aquele inusitado acordar àquela hora da manhã. E a que mais se ajustava, para a maioria, era de que iriamos ter uma das “praxes” da EPC.
Mas não, não era exactamente de uma praxe que se tratava. Havia era que salvar Portugal de se afundar no Atlântico. Havia era que nos integrarmos no Movimento de Libertação Nacional. E todos anuímos a tão alta iniciativa que, naquele instante, era ainda como que um sonho por despertar. E a seguir ao momento em que nos puseram ao corrente da situação, começámos logo a formar pelotões de combate. Depois, devidamente municiados, iniciámos de seguida a nossa partida rumo a Lisboa.
 
Assim, a partida para a capital processou-se depois das três. Na viagem pela noite, não me lembro sequer se fazia frio ou não. Lembro-me apenas que éramos nove e que me instalei no canto posterior direito do lastro da camioneta, de G3 em punho, com uma metralhadora Browning 12,7 Mod. 951 no meio de nós. A certa altura o alferes que nos comandava ofereceu-nos tabaco e aguardente e estranhando o meu silêncio perguntou-me porque é que eu ia tão calado. Respondi-lhe apenas que estava bem ali e me sentia bem instalado naquele canto traseiro da camioneta.
Lisboa era o nosso objectivo. Não sei quantos homens se viraram para ela, mas da EPC deviam ser talvez uns trezentos. Os carros de combate e viaturas blindadas deviam ocupar ao longo da estrada cerca de um quilómetro de extensão. E aquelas viaturas deslizavam, silenciosamente, sobre o rodar daquele que viria a ser o caminho que nos conduziria à decisão de usufruir aquilo que agora usufruímos.
 
A noite decorria e, enquanto uns descansavam na paz de uma noite tranquila, já milhares de homens se deslocavam e organizavam para uma surpresa que seria fatal para alguns daqueles. E quando acordassem já o mundo não seria o mesmo.
Quando chegámos a Lisboa (vínhamos a descer a Fontes Pereira de Melo o nosso comandante do Movimento, o capitão Maia, disse-nos que a Emissora Nacional e a Rádio Clube nos estavam a apoiar. Mais tarde foi a Rádio Renascença e a RTP. Não me recordo em que momento, mas lembro-me de ouvir no silêncio da noite, enquanto atravessávamos a cidade, numa rádio, a canção do Paulo de Carvalho “e depois do adeus” que soou como um sinal da Revolução. Os órgãos de imprensa passaram também a apoiar-nos e o mesmo se passou com a população quando tomou consciência do que se passava. No aeroporto da Portela já se haviam instalado tropas e, ao que à primeira vista nos pareceu, era que tudo estava a correr bem e tinha sido bem planeado. Tudo se conjugava. Chegados ao Terreiro do Paço instalámo-nos e distribuímo-nos estrategicamente pelo Largo. Eu fiquei junto ao cais dos barcos e tinha como função impedir a passagem das pessoas. Perante o aparato militar todos queriam saber o que se passava. Enquanto decorria a rendição e as conversações da luta pela Paz ouviram-se tiros. E o povo ali aglomerado junto ao Cais das Colunas, vindo da outra margem, ficou em alvoroço. Com estes disparos temeram o pior e todos se refugiavam de possíveis e graves consequências escondendo-se como que a fugirem de uma zona de iminente guerra de fogo cruzado.
 
Viviam-se ali momentos históricos, simultaneamente dramáticos, mas nem por sombras se supunha dos efeitos que estes haviam de produzir. Consumada a rendição dos Oficiais e a expulsão com êxito dos membros do Governo dos Ministérios, deixámos o Terreiro do Paço e, nas viaturas, dirigimo-nos nos para o Largo do Carmo.
Entretanto, por todo o país se faziam manifestações com este fito comum (o fim do regime) e, a pouco e pouco, Portugal ia-se transformando num país livre.
 
Ali no Largo do Carmo onde permaneci de arma em punho, houve mais debates (ultimatos/declarações de rendição) para dentro do quartel da GNR, mas que não surtiram efeito. Vários tiros de rajada foram então disparados na direcção do edifício. Entretanto já reparara que um pelotão de guardas da GNR no Largo da Trindade, armados até aos dentes, se preparavam para nos atacar. Mas não o fizeram. Ao mesmo tempo metralhadoras foram apontadas na direcção deles e acabaram por não resistir à inevitável rendição. Também me apercebi que alguns elementos da PIDE armados se escondiam nos edifícios de ruas contíguas e tentavam ocupar pontos de destaque para retaliarem. O mesmo terá acontecido com os elementos instalados dentro do quartel para defender Marcelo Caetano que se encontrava no seu interior. Mas após vários ultimatos e tiroteios de intimidação, sem resposta, lá consideraram a derrota suprema e consumou-se a tão esperada rendição (demissão do Governo).
 
Mas a tensão era grande e generalizada. População e militares, apesar de sermos milhares e a uma só voz, permaneciam ali angustiados sob um clima que era de pressão enorme. E de todo este Movimento de solidariedade quero destacar a simpatia e a unidade de toda a população ali reunida e que se dispôs a oferecer-nos alimentação e palavras de conforto e apoio que foram um importante estímulo, bastante positivo (diria determinante para não termos medo) para a nossa posição de defender a causa nobre e justa da libertação. Lembro-me ainda de ter pensado, quando vi os soldados da GNR perfilados e armados que, com certeza, eles não nos iriam atacar porque, do nosso lado, rodeados de milhares de civis, poderia haver ali também filhos deles, familiares e ninguém atiraria a matar sobre tanta gente, ou então seria uma tragédia. Isso aliviou-me um pouco o medo que a certa altura senti.
 
Mas todos estes épicos acontecimentos se situaram num tempo. Primeiro o acordar às duas da madrugada de 25 de Abril. (Só voltaria a deitar-me para descansar quarenta e oito horas depois).
Depois das três horas estava a caminho da capital e às seis e trinta da manhã estava a posicionar-me junto ao Cais das Colunas do Terreiro do Paço. Daqui, depois de consumada a rendição das forças da Ajuda (forças de apoio ao Governo), vitoriosos seguimos para o Largo do Carmo. Seria cerca de meio-dia e pouco quando iniciámos a marcha.

No Carmo estive em várias posições, mas aquela que mais me marcou foi quando estive na esquina da Rua da Trindade: primeiro com o receio que tive devido à presença dos militares da GNR no cimo da rua, depois porque era também ali que eu estava na hora em que houve os vários disparos contra o edifício do quartel.
 
No episódio da rendição propriamente dita, que terá durado cerca de uma hora, no fim a população ali reunida, apercebendo-se da situação, delirou eufórica com o desfecho e começou a cantar o Hino Nacional. Houve uma alegria indescritível naquele momento, muito entusiasmo e a consciência generalizada de que se vivera ali um momento histórico. E foi neste clima de euforia sincera, com muita disponibilidade por parte das pessoas, mas também de muita incerteza e tensão que se desejou que tudo acabasse depressa. E tudo acabou quando um carro blindado do exército entrou pelo portão principal, como que a confirmar o êxito da vitória. Soube posteriormente que foi nessa viatura que se transportou para fora do edifício, aquele que passou a ser o ex-Primeiro Ministro Marcelo Caetano.
 
Dali do Largo do Carmo regressámos às camionetas e partimos sem nos dizerem para aonde, tratando-se de informação secreta. Descemos então pela Calçada do Carmo até à Baixa, depois seguimos até ao Marquês de Pombal, depois Avenida da República até ao Campo Grande e em todo este percurso milhares de pessoas ao longo da estrada manifestavam-se acenando-nos efusivamente. Outros buzinavam dos seus automóveis e avisavam da nossa vitoriosa passagem. Pena foi a chuva miudinha que, entretanto, começou a cair. Porque nós, sobre as camionetas descobertas, fomos aí alvos fáceis da intempérie que acabou por nos fustigar cruelmente depois de tanto sacrifício e da nossa vitoriosa acção pela Liberdade. 
 
E Portugal era LIVRE e o “V” da Vitória surgia agora nos dedos das pessoas, surgia espontaneamente das mãos frias daquela gente que, inertes, nada podiam ter feito até aquele momento em que as cordas da opressão tinham finalmente cedido.
Afinal o nosso destino foi o quartel da RE1 da Pontinha e por ali andámos em contantes andanças para finalmente jantarmos e, depois, passarmos a noite. Mas a noite passámo-la ao relento a dormitar em cima das camionetas que nos transportavam. Com apenas um pano de tenda sobre nós tentámos assim proteger-nos do frio, do vento e da chuva que foi, a espaços, permanecendo até de manhã.
O dia 26 chegara e, sem fazermos nada, acabámos por ficar ali o dia inteiro, de prevenção. Almoçámos terrivelmente mal, as incertezas eram muitas, e tivemos de permanecer ali no quartel todo o tempo sem nunca abandonarmos as viaturas, prontos para qualquer intervenção. E foi deveras dolorosa a nossa permanência ali, exaustos. Todos desejávamos e implorávamos pelo regresso a Santarém, mas só quando a noite chegou se processou essa famigerada viagem. Todavia, só acreditei mesmo quando me vi na auto-estrada do Norte, mas mesmo assim, como o nosso andamento era lento, ainda duvidei do nosso destino. Mas graças a Deus a volta à EPC confirmou-se. Deixámos então Lisboa por volta das nove da noite e chegámos finalmente a Santarém cerca da meia-noite e meia hora.
 
A nossa recepção foi muito calorosa e eufórica por parte da população que nos aguardava. Mas estas manifestações espontâneas de solidariedade começaram logo no Cartaxo, pois desde aí até Santarém fomos “escoltados” por imensos automóveis que buzinavam ininterruptamente ao longo do percurso, sinalizando e alertando a nossa passagem. Já em Santarém surgiram mais palmas, mais flores (cravos vermelhos) e bandeiras nacionais. E foi aqui que eu ouvi pela primeira vez as palavras que se tornariam um ícone e de força para a população: “O povo unido jamais será vencido” E entre aplausos, gritos de alegria e buzinadelas ensurdecedoras foi-se ouvindo, repetidamente, a palavra Liberdade, Liberdade, Liberdade. 
Chegava então ao fim o nosso pungente sacrifício que, no entanto, obviamente, jamais esquecerei. E depois de tudo o que passei, tenho a certeza que cada vez mais me lembrarei deste fantástico, memorável e insólito dia 25 de Abril de 1974.
 
Entrámos as Portas de Armas da EPC e depois disso não sei o que se passou lá fora, mas parece-me que se juntou imensa gente que ali esteve até altas horas da madrugada apoiando o nosso Movimento e elevando o feito do nosso Capitão Salgueiro Maia. Eu deitei-me na minha cama do quartel, já passavam das três horas da madrugada.

Finalmente a minha cama, o contacto com os lençóis, o conforto de um colchão de espuma delineando os contornos do corpo; um contraste gritante com a dureza do chão de madeira, bem dura, do lastro da viatura do exército, que me tinha servido de encosto nestas últimas, difíceis e dramáticas quarenta e oito horas. Nunca o descanso me soubera tão bem.
 
Na manhã de sábado 27 de Abril acordei cerca das nove horas. Mas foi uma desilusão porque acabavam de recusar-nos a saída de fim-de-semana para irmos a casa, como esperávamos. Afinal, a recompensa de tanto sacrifício desmoronara-se e, desmoralizados, sentimo-nos todos muito frustrados com a decisão.
E é esta a minha descrição, em traços largos e sem qualquer intenção épica da minha participação, nos acontecimentos do 25 de Abril. Esta é a descrição de alguém que esteve no lado de dentro (hoje como herói, amanhã como traidor?) da Revolução dos Cravos, pelo MFA ao serviço da Escola Prática de Cavalaria de Santarém.
 
Entretanto, lembrei-me de um episódio que recordo com emoção e que foi ter encontrado na multidão, quando nos dirigíamos do Terreiro do Paço para o Carmo, um ex-colega de trabalho. Quando o vi, dei um pulo, gritei por ele e desatei a chorar quando ele se aproximou da camioneta. Circulávamos em marcha lenta e foi possível cumprimentarmo-nos e trocarmos breves palavras de circunstância e de Liberdade. E foi nesse sentido único de efémeras lágrimas de alegria que percebi que o ter encontrado, na minha cidade, alguém conhecido no meio da multidão, me garantia, na minha aparente apatia, a veracidade, perante os meus amigos, da minha presença ali.
Acabei assim a minha descrição aos meus dias da Revolução de Abril. Não está exactamente como o original porque achei a descrição um pouco “insipiente”. Mas estão aqui os pressupostos, o essencial para aquilo que pretendo mostrar sobre o que foi a minha modestíssima participação.
 
Há ainda uma carta que escrevi à minha família narrando os acontecimentos em que refiro que passei frio e fome além de ter ficado encharcado até aos ossos na noite seguinte. Escrevo que passámos a noite de quartel em quartel, entre a Pontinha e o Colégio Militar, sem pregar olho.
 
Para nos situarmos melhor, talvez valha a pena ainda acrescentar – porque pode ser importante dizer – que eu era um puto com vinte anos acabados de fazer. Não sabia nada da vida. Estava na tropa há três meses e frequentava, como Instruendo, o curso de sargentos com a especialidade de Atirador. Tinham-me posto uma arma na mão que mal sabia ainda manusear e que, talvez por isso, se explica porque na hora dos disparos contra o quartel do Carmo nenhum dos tiros foi meu.

Não gastei uma única bala. Assisti impávido e sereno ao rebuliço do soar das balas a esburacarem a fachada, enquanto um aterrador silêncio de incerteza e medo tomava conta de mim. Incapaz de perceber a assimilar todos aqueles incrédulos e inimagináveis instantes, mergulhei meu olhar apenas nas janelas envidraçadas à espera de ver agitar numa delas uma bandeira branca a acenar a rendição.
 
Outro facto interessante de que me lembro é do momento em que deixámos o Largo do Carmo e descemos pela calçada do Carmo. Eu instalei-me no mesmo lugar de sempre no lastro da viatura e, como que indiferente à história, permaneci sentado enquanto os meus camaradas se manifestavam em pé e retribuíam os aplausos das pessoas. Nesse instante pensei que eu, naquela posição, nunca iria figurar nas centenas de fotos que ilustrariam um momento tão relevante da nossa História. Decidi então levantar-me (para aparecer) e, incrivelmente e por acaso, descobri, uns anos mais tarde, num CD da DICIOPÉDIA, que o momento em que me levanto e permaneço de pé (em primeiro plano no fim da camioneta) está retratado no final do filme sobre o 25 de Abril (no minuto 6:00) com a saída das tropas descendo a Calçada do Carmo (http://youtu.be/ti8AsJZdbDU). Não é que sou eu mesmo! Incrível!
Carlos Alberto