segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

BOM ANO 2013

Boa tarde amigos

Estamos todos a poucas horas do final de mais um ano e quero aqui deixar umas últimas palavras antes de o deixarmos.

Não tenho nada preparado, nem discursos. Aquilo que tenho para deixar aqui são apenas palavras de esperança que quero para todos. Palavras que pretendo que sejam de Amor, apesar de nesse capítulo ter sido bastante penalizado neste ano. Deixar, no entanto, palavras de gratidão por aqueles qe se esforçaram por manter a sua amizade por mim. E foram poucos, confesso. Mas tenho aquilo que mereço e não me queixo.

Sei que sou uma pessoa ruim, pouco sociável, mas não o faço por mal. Na verdade sou uma pessoa muito frágil e que se mostro rudeza e antipatia é apenas para esconder a minha sensibilidade para com o amor que sinto pelas pessoas em geral. Sim, não faço fretes, nem me obrigo a gostar de todos. Normalmente a indiferença é recíproca. Mas regra geral procuro ser amigo.

É habitual dizer-se que "se é amigo do amigo". Eu não fujo à regra, mas difícil é sermos amigos dos nossos inimigos e isso eu não sou, apesar de não semear também a discórdia e preferir manter a harmonia, mesmo que a certa distância.

Finalmente dizer que espero ter um BOM ANO de 2013, apesar dos maus presságios que se ouvem todos os dias, e pode ser que hajam mudanças profundas que me marcarão decisivamente.

Tenho dito nos últimos tempos que "hei-de ser feliz, não sei como, nem onde, nem com quem, mas hei-de sê-lo". Pois meus amigos, estas palavras nunca estiveram tão próximas de se concretizarem e espero que nesse dia, não apenas eu, mas várias pessoas à minha volta, possam não só testemunhá-lo, mas partilhar comigo esse momento.

Obrigado.

Carlos Alberto

PS: Quero pedir desculpa a todos aqueles que, por uma razão qualquer, tenha ofendido ou feito sofrer, porque não é essa a minha intenção de vida. A minha Mãe ensinou-me que O AMOR VENCE SEMPRE, é isso que eu prefiro partilhar com TODOS.







quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

NOITE E DIA


Dentro da noite fria
o ruido fustigador da trovoada
e do vento que sopra forte
e leva os sonhos da gente
que não dorme.
 
Um raio que chega
ilumina o Mundo de um Homem,
mas logo se apaga
e como a vida
escoa-se para a terra.

A chuva cai impiedosamente
e consigo arrasta a vida.
As árvores declinam-se
beijam o chão as folhas
mortas pelo tempo:
As cancelas dos quintais
chocam nos batentes dos trincos;
as portas estremecem;
os olhos nas janelas
refugiam-se…
por detrás das cortinas
o medo alastra-se,
as pessoas apertam-se
e na face de cada um
o retrato vivo
da miséria pungente.

A chuva aumenta persistentemente,
os relâmpagos desencadeiam-se
no espaço as árvores tombam,
as telhas voam,
o tecto desaba,
as paredes desmoronam-se
na derrocada o Mundo alaga-se
em suor e sangue e
nada resta senão
a vida dura e difícil.

Acaba-se o mundo
entre lençóis brancos  
e desperta-se
numa aurora primaveril
(do solstício de inverno)
com um sol radioso:
Olha-se em redor e nada
nos resta senão orar
a Deus pela paz do novo dia.

Carlos Alberto  10-09-1973
Nota1: Trago aqui este poema em alusão ao fim do mundo que ocorrerá em 21 de     Dezembro de 2012

Nota2: Alterei parte o último verso do original para a adaptação ao assunto em ( ).

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

PICOS DA EUROPA - CAP IV

Aqui vai a quarta parte, já não era sem tempo, digo eu. Espero que gostem tanto quanto eu gostei. Neste texto acrescentei mais alguns detalhes ao original.


CAPÍTULO IV

Oviedo, 7 de Agosto de 2012

Bom dia, Oviedo! São oito horas. Acordei (acordaram-me pelo telefone), às seis e meia da manhã. Estava com uma dor de cabeça. Mas nada de grave e que me espante, estas cefaleias matinais.

Tinha pedido que me despertassem às sete, e fizeram-no, só que já o tinham feito meia hora antes, na hora do “acordar do grupo”. Fiquei lixado, mas não relevei o engano da recepção.

O meu pequeno-almoço foi bom e variado, à base de fruta, incluindo o habitual melão com presunto e sumo de laranja natural. Bebi depois um café, mas antes, não resisti, e ainda me atirei a uns deliciosos croissants com doce de geleia. Nada mau para começar um dia que acordou com umas nuvens a lembrar aqueles flocos de algodão, todos dispostos muito certinhos no céu. É a imagem que tenho daqui. Está fresco, mas está-se bem com os 18ºC que mostra o termómetro digital do autocarro.

De manhã as conversas são sempre as mesmas. “ – Então dormiu bem? Eu não consegui dormir, com o barulho” – queixa-se um. Outro diz que teve insónias e que só adormeceu lá para as tantas.

Eu, apesar do pequeno barulho do ar condicionado do corredor, consegui adormecer agarrado à almofada comprida, em forma de chouriço, e dormi acho que bem, apesar da tal dor de cabeça com que acordei, mas que, entretanto, já se desvaneceu com o pequeno-almoço.

Saímos. São 08:05h e o programa de hoje passa por irmos de manhã para Covadonga com passagem por Potes e, de tarde, Ribadesella e Gijón. O tempo está bom e esperam-se 25ªC.

Estamos em Oviedo, a atravessar a cidade e vamos direitos à serra que já descortino lá ao longe. As nuvens no céu parecem ondulações de areia na praia na maré baixa. Um espectáculo magnífico.

11:30h e já estamos de saída de Covadonga. A chegada aqui não foi muito pacífica porque havia uma excursão opcional aos Lagos dos Picos da Europa e só uma minoria queria ir. O Rui argumentou várias desculpas, como perda de tempo para os que não queriam ir e eu acabei por tomar o partido do guia e, por solidariedade não fui, embora acabasse por me arrepender.

Neste lugar o ex-libris é a gruta da Santa de Covadonga que fica incrustada, acima do nosso olhar, numa rocha, como um presépio suspenso, aparentemente inacessível, sobre um lago natural para onde escorre uma pequena cascata de água. Chega-se lá por uma escadaria de pedra, contígua também a umas casas existentes, ou através de um túnel lateral escavado na montanha, que nós percorremos, por onde se entra passando três cruzes de pedra apoiadas num pedestal também em pedra. No fim deste túnel ergue-se então, em frente, uma pequena capela, que se expõe lateralmente à abertura com vista para o lago, na rasante e a pique.

À direita da gruta escavada e aberta está a Santa de Covadonga a olhar para a paisagem que se abre em frente. É uma pequena imagem de cerca de meio metro, pouco mais, corpo inteiro, coberta com um manto vermelho debruado a ouro. Sobre a cabeça tem uma coroa e uma auréola também ourada e na mão direita uma flor também do mesmo material. Está colocada atrás de um pequeno altar sobre uma base de cabeças de anjos e, apesar do exíguo espaço, há ainda uns bancos em madeira trabalhada onde se sentam fiéis; e havia quem estivesse a rezar. Outros tiravam fotos para a posteridade e houve quem fugisse das escadas…

A ideia com que se fica deste lugar estranhamente localizado numa consola rochosa é que se entra numa pequena ermida exterior onde se fundem paredes e tecto num invólucro irregular e granítico que se abre como uma espécie de concha alveolar e profunda. No chão há também um tapete vermelho que nos silencia o andar sobre a pedra, e do tecto, com a Santa de Covadonga no meio, pendem dois candelabros metálicos com duas velas vermelhas.

Este local, além de religioso, é ainda muito bucólico e aprazível, e não se esgota na gruta com a capela e a imagem da Santa, que visitámos. A paisagem é maravilhosa: com muita vegetação, recortada por ribeiras e pequenas cascatas que nos deliciam o olhar e entoam canções de imaginárias sereias.

Pelo meio “troquei” umas fotos com uma das passageiras do autocarro e ainda brinquei com outra do mesmo grupo simulando atirar-lhe a mala para dentro do lago. Enfim, um pequeno momento de aproximação ou abordagem de pessoas que estão ali connosco, na mesma viagem pelos sonhos.

No lago, sobre uma ponte de blocos de pedra, atirei uma moeda à espera que o amor assistisse, mas continuei sozinho no meu percurso e pelas minhas deambulações, embora o olhar tivesse parado numa cumplicidade mútua. Cada um de nós seguiu o seu destino e eu desci mais escadas até ao fundo do vale.

Fui então explorar este pequeno jardim florido de hortênsias lilases entre leões de pedra, em guarda sobre a entrada. E entre a paz e sossego do arvoredo, encontrei outras escadas que galguei em êxtase, subi e desci, caminhei e corri sobre plataformas de madeira que se baloiçavam em grossas cordas, percorri caminhos de extrema beleza natural e, no silêncio das formas que me envolveram numa carícia, fui à procura finalmente daquele que constitui também o Corpo central e religioso desta localidade que é a Catedral de Covadonga.

Situada bem lá no alto, tive que emergir das profundezas e percorrer os antigos jardins do Parque del Príncipe cuja porta de entrada, de duas folhas em ferro, ainda ostentam, na verga da moldura, aquele nome.

Mas é preciso alguma preparação física para, num lugar como este, se apreciar tudo o que o envolve, nomeadamente percorrer os trilhos de pedras no meio de riachos, galgar as escadas, contornar as raízes das árvores que se expandem para além dos troncos e depois, olhar para cima e ver aquela Igreja recortada na paisagem, cujas paredes parecem terminar no céu.

A Basílica de Santa Maria Real de Covadonga é uma construção de estilo românico executada com pedras de calcário em tons de cor-de-rosa. Construída sobre uma plataforma regular que encontramos no cimo de um pico, por uma estrada de alcatrão que subimos, destaca-se da paisagem verde pelos seus tons que me pareceram mais de um vermelho ocre. De aspecto sólido, sóbrio e austero é um edifício de sumptuosidade religiosa, à dimensão de uma grande Igreja. Ergue-se em três naves, sendo a nave central maior e as duas laterais mais pequenas, constituindo estas os corredores do seu interior. É, realmente, um edifício belo e simultaneamente estranho pelas suas formas e cores no meio daquela paisagem carregada de verdes profundos e em inexorável contraste.

Há imensos turistas por aqui, que olham, observam, comentam, tiram fotos, rezam. Há também gente devota que vem sobretudo aqui para rezar. Outros ainda apenas para usufruírem desta inexaurível beleza natural e magnífica. De repente, observei três padres de batinas pretas que saíram da Igreja e caminharam pelo adro lateral, conversando. Iriam talvez aproveitar o excelente clima de sol que se fazia sentir. Ao longe, porque se afastavam de mim, tentei, ainda que em contra luz, umas fotos daquele momento. Ficaram.

Mas toda a envolvente aqui é fascinante, encerrando até um certo mistério todas as cores, formas e sentidos que somos levados a experimentar. Este parece ser um dos locais sagrados eleitos, longe de tudo, como se estivesse fora do mundo e inacessível. É um local onde a paisagem, os muitos tons de verdes nos atiram e projectam para as nossas ilhas no meio do Atlântico e os seus edílicos sentidos. As emoções são fortes. Captamo-las.

Agora que este local ficou para trás e nos restam as memórias dele, fico com pena de não ter absorvido a experiência dos Lagos, cujo passeio, dizem os que foram, foi simplesmente maravilhoso. Por isso me arrependi.

Depois de menos de três horas de visitas, reconhecimento e descobertas, deixámos assim a Gruta de Pelágio, a Santa de Covadonga e a Basílica Real e vamos agora a descer montanha, estrada abaixo, rumo a Potes onde almoçaremos.

Chegámos a Potes às 13:30h. Saí do autocarro, juntei-me ao casal Abreu e fomos, os três, almoçar a uma esplanada aqui mesmo no centro. Ele trazia a indicação de um restaurante especial, mas acabámos por reparar num local harmonioso, logo ali, num largo abaixo da rua onde estávamos. Fomos inspecionar descendo umas escadas e encontrámos um ambiente muito aprazível, com várias mesas cobertas com uns chapéus abrangentes e não foi difícil decidirmos ficar e de escolhermos um sítio para nos sentarmos.

A minha refeição de cabrito estava com muito bom aspecto e foi muito apetitosa. Bebemos vinho da região por uma garrafa com uma forma pouco comum, a lembrar um daqueles frascos antigos de remédios, só que de capacidade maior. O vinho foi tinto com sabor frutado e a companhia muito agradável. O assunto de conversa foi transversal e a cultura ficou à borda do prato. Não se falou de Alexandre Herculano e de Eurico Presbítero, nem da região de Cantábria, onde estamos, deixando para trás as Astúrias.

Potes é um local pitoresco, muito turístico, mas que me parece ficar nos confins de tudo. Não tivemos tempo para ver nada, praticamente só tivemos tempo para almoçar. Viemos aqui, penso que, apenas pelo passeio através de um desfiladeiro que percorremos, realmente apaixonante e muito bonito, mesmo pela agressividade pura de uma paisagem que parece virgem.

E vamos voltar para trás. Vamos regressar e percorrer de novo os vinte e dois quilómetros desse desfiladeiro, de nome “Hermidas”, e que nos trouxe até Potes. É um caminho por um vale estreito, imponente, assombroso quanto assustador, ladeado de monstruosas elevações de montanhas que se erguem por cima de nós, dantescamente, quase até ao céu e que vorazmente nos parecem engolir em cada metro de estrada que percorremos. Guardamos cada passada do percurso com uma foto, cada uma diferente da anterior, até consumirmos quase toda a bateria, tanta é a beleza disponibilizada nesta garganta do mundo, algures nos Picos da Europa, em Espanha.

 A N-621 é uma estrada que serpenteia por este desfiladeiro ao longo de um rio, o Deva e, porque estamos no verão, está meio vazio.

Potes é um local muito pequeno, muito recatado e bonito a fazer-me lembrar um postal ilustrado, tudo muito bem composto e arrumadinho. E apesar da sua localização no meio do nada e de difícil acesso, é um local muito procurado, quer no verão, quer no inverno. No verão é esta paisagem deslumbrante pela sumptuosidade: o caminho através do desfiladeiro com as montanhas rochosas a desafiarem-nos a vista. E o rio, em baixo, sempre ao nosso lado, a escorrer por entre um estreito leito de águas transparentes. No inverno, dizem, é o espectáculo do gelo que cobre as altas montanhas, que se elevam a mais de 2500m, e é destino para esquiadores. Sim, fica-se com a boa sensação de um lugar paradisíaco que vale a pena visitar e ficar, se for possível. Não é o nosso caso. São 15:30h, estão 27ºC e estamos já de saída.

São 16:35h e vamos a caminho de Ribadesella. Já passámos por esta estrada rumo a Oviedo. Aí mais à frente devemos derivar para outra estrada qualquer que nos levará a Ribadesella que, ao que julgo saber, será também uma estância balnear.

E estou a escrever agora porque está imenso calor aqui dentro (24ºC); vai o sol a bater-me na nuca e já estava a fechar os olhos, da moleza, para dormir. Um desperdício. Deve ter sido do excelente almoço que comi. Então, para obviar isso, resolvi vir para estas páginas que quero que transmitam as coisas agradáveis que estou a viver, acordado. Embora “os sonhos” que pudesse ter pudessem constituir uma boa alternativa, penso que o essencial e importante agora é “a realidade”, vivida nesta viagem e, pois então, quero e devo estar de olhinhos bem abertos para não perder pitada dela. Está bom de ver…

A verdade é que quero também que a minha descrição dela não se torne mais aborrecida e estou a alterar um pouco o estilo. Gostava de poder e ser capaz de descrever as sensações da alma em vez de referir que a estrada que vou é esta ou é aquela. É a escrever o que se sente, sobre aquilo que nos rodeia - nomeadamente aqui numa página de Diário de uma Viagem - que faz com que a leitura possa ser mais apelativa para quem lê e, dessa forma, valha a pena perder tempo a ler o que alguém escreveu.

E, de facto, a sensação ou as sensações que os Picos da Europa nos transmitiram são únicas: tenebrosas e perigosas pela sinuosidade da estrada, mas ao mesmo tempo deliciosas e aventureiras, numa transmissão pela alma que nos relega para a nossa pequenez, comparando-nos infinitesimamente com a grandiosidade do mundo onde assentamos.

A cordilheira de Hermidas, que termina quase em Potes, envia-nos para o espírito uma brisa que nos arrepia, de quem entra num labirinto e de onde não sabe se sai. Pelo rio Deva, reparamos que há troços que trazem consigo zonas pedestres, laterais, meias suspensas e que se podem percorrer em harmonia com a corrente do leito. Podemos sentir o quanto deve ser delicioso palmilhar aqueles estreitos caminhos, ao som do gorgolhar das águas, por onde só há espaço para se andar em fila indiana.

Estamos agora de novo a aproximar-nos do mar, mas curiosamente o clima piorou. É suposto irmos para uma zona balnear, onde haja um clima de sol e calor, além de que estamos em pleno agosto, no entanto, são nuvens altas e cinzentas que temos a horizonte. Mas não vai chover, longe disso. E já vejo o imenso Atlântico a acenar-me com os braços aqui perto de Villahormes. 

Esta vai ser uma visita completamente diferente das que fizemos da parte da manhã. E volto a acentuar que deve ter sido, até agora, o melhor deste passeio, embora, obviamente, este ainda não tenha terminado.

Na minha memória trago ainda as sensações do que senti em Covadonga. E vou aqui a regurgitar pensamentos sobre a intensa energia, sobre o imenso tempo de devoção à Santa padroeira. Depois, o percurso por aquele fenomenal desfiladeiro e as imagens que nos ficarão no imaginário, cuidadosamente arrumadas num rolo com um laço colorido à volta, dentro de uma gaveta onde guardamos as partes felizes das coisas boas da nossa vida. E, por inerência, também gravado nestas humildes páginas de histórias e sentidos, mesmo que estas sejam apenas pequenas pinceladas e pouco possam revelar do que se pode interiorizar e sentir.

São momentos únicos que, provavelmente, mereceriam mais tempo para desfrutar, nomeadamente, aqueles a meio do caminho da ribeira, nalguns pontos meio vazia, e de onde se salientavam os calhaus brancos e roliços que esteiravam o fundo do rio. Um rio onde também se criam trutas, um peixe muito cultivado por aquelas paragens.

E a viagem para Ribadesella continua. Pensava há pouco que estávamos a chegar, já se via o mar, mas o certo é que neste momento estamos no meio de uma serra de grandes vertentes apenas salpicada de verde e onde, provavelmente, será inóspito estar.

Já respirámos o ar da montanha, vamos agora respirar um bocadinho do ar do mar. Entrámos em Ribadesella pela carretera N-632 com um rio a receber-nos logo à entrada. Pejado de gaivotas debicando na areia da maré baixa, estas saudaram-nos efusivamente numa belíssima imagem de lusco-fusco e de sombras, como se do crepúsculo se tratasse.

São agora 17:15h e vamos sair para dar um pequeno giro. Está agora bom tempo e o termómetro indica 25ºC.

Ribadesella é um local pacato, do género de São Vicente, onde se está bem, tranquilamente, mas com apenas um tímido movimento turístico. Foi a ideia que me deixou. É uma cidadela com características ribeirinhas onde a pesca também parece ser um atrativo, além dos desportos náuticos, nomeadamente a canoagem, que até tem aqui um monumento, à beira-rio, erigido. Este monumento evoca as provas que aqui se efectuam com uma representação em pedra sobre um plinto, de uma canoa com dois atletas sentados dentro dela com as pás nas mãos, um deles com os braços erguidos de uma vitória, talvez.

É também conhecida esta pequena cidade costeira porque terá nascido por estas paragens a actual princesa Letizia Ortiz, futura rainha de Espanha. Este título, no entanto, diz-nos o guia, só o terá por morte de Juan Carlos, se continuar casada com Filipe de Bourbon, príncipe das Astúrias e se, entretanto, não mudarem a constituição espanhola.

Letizia tem aqui junto ao rio uma placa onde se lê: “Passeo Marítimo Princesa Letizia - Hija adoptiva de Ribadesella - 2007”, colocada em sua homenagem, mas que desta forma trará, com certeza, mais algum protagonismo a este lugar que é, de facto também, muito bonito e aprazível.

E no pouco tempo que aqui estivemos não deu para ver muito. Diria que foi mais uma paragem técnica que outra coisa. Dei, no entanto, conta que há uma pequena praia fluvial, do lado de lá, junto à foz, e para aonde se vai por uma ponte baixa, que é estrada nacional, e que atravessa o rio Sella. Pelo meio, o meu olhar encalhou numa língua de terra onde estão pousadas também imensas gaivotas e, por fim, ao fundo, vê-se uma marina de pequenas embarcações. Deste lado estão também vários pequenos barcos de pesca encostados ao paredão que sustenta o famoso passeio pedestre aqui contíguo.

Os edifícios que encontramos aqui junto à orla marítima são baixos, de apartamentos já com alguns anos, sem requintes, e terão até seis andares de altura. Estes refletem-se, em harmonia de cores de tons ocre e branco, de aspecto mais descontraído, no rio, onde se espelham, transmitindo-nos uma calma enleante que cativa. Há também lojas com artigos artesanais e os cafés do costume, mas estes com caraterísticas provincianas.

Estamos agora a caminho de Gijon onde vamos fazer também uma pequena paragem.

Para trás Ribadesella: o rio, as gaivotas, a marina, os barcos, as lojas, as vistas e… que bem se estava ali. Mas o nosso tempo é outro e perspectiva-se já o regresso com a chegada a Oviedo por volta das oito e meia, com esse desvio por Gijon.

Mas fomos a Gijon? Não. Passámos por Gijon. Havia planos para pararmos, mas não foi possível por causa da imensa confusão. Entrámos na cidade, passámos de autocarro à beira da praia e esta, pudemos ver, estava pejada de gente: milhares de pessoas, quer no areal, quer no calçadão contíguo entre a estrada e a praia. Estava um ambiente típico de férias, com muito sol e calor, gente de um lado para o outro, um pouco caótico mesmo, incluindo o trânsito automóvel por onde andávamos, sem conseguirmos estacionar.

Aqui, pude observar, as barracas armadas em tendas coloridas perfilavam-se em várias ordens pela praia. E estas não são apenas para proteger as pessoas do sol, são, sobretudo, para as proteger do vento que sopra sempre com muita força por estas paragens. Deu facilmente para percepcionar isso, pela agitação das bandeiras hasteadas e pelo varrimento do mar.   

Depois deste giro pela “praia” e da impossibilidade de sentirmos sequer a intensidade do vento que se faria sentir, o autobus fez uma incursão pelo centro da cidade, mas nada que acrescentasse ou enriquecesse a viagem; deu “meia volta” e regressámos. Procurou, no seu percurso, apenas a porta de saída da cidade, rumo a Oviedo e saímos assim, sem honra nem glória, sem termos tido tempo para respirar sequer o ar exterior.

À primeira vista, fica-se com muita pena de não ficar, antes por aqui, por Gijon, em vez de Oviedo. E questiona-se a opção. Parece-me muito melhor e mais apelativa a terra do futebol da equipa do Sporting do que a dos hoquistas das bandas de Oviedo. Muita diversidade (festas, eventos, exposições permanentes, etc.), mais movimento, mais vida e a opção praia, mesmo ventosa. E creio que serão razões económicas “de preço” da promotora deste passeio que nos levam para a cidade industrial de Oviedo em detrimento da “mais desportiva” Gijon. Se eu pudesse escolher, nem hesitaria, escolheria Gijon para ficar.

E vamos já a caminho de casa, ou seja, do nosso hotel e eu daquele pequeno quarto do Ayre Hotel Ramiro I.

Está um clima excelente de 23ºC quando são agora 19:06h e rolamos a boa velocidade na autopista A-66 com chegada prevista para daqui a meia hora. Há muito trânsito, mas sobretudo no sentido contrário. E percebe-se a rivalidade Gijon/Oviedo.

O jantar. Sentei-me à mesa no mesmo lugar de ontem. Esperava ter na minha frente o casal Abreu, já que normalmente respeitam-se os lugares, e foram eles que se sentaram ali. Só que alguém se antecipou e, em vez do casal Abreu, sentou-se um outro grupo onde se inclui uma senhora sozinha. Foi ela própria que sugeriu sentarem-se ali, junto a mim e ela ficou à minha frente. Não valorizei esse facto. É uma mulher que terá passado há pouco tempo os cinquenta. Não é o meu género, mas as pessoas não são o nosso género e revelam-se depois pessoas com quem nos identificamos de alguma forma.

Acabou por ser um agradável e animado jantar com assuntos transversais, onde naturalmente me incluí, embora o tema dominante tivesse sido a visita da manhã aos Lagos dos Picos da Europa (que não fiz), mas admitia-se agora ali a possibilidade de uma passeata até ao centro da cidade, depois da refeição.

O jantar terminou e eu desapareci. Fui, no entanto, ao quarto buscar um blusão e saí na expectativa de reencontrar, às portas do hotel, as pessoas com quem jantara e ir com elas até à cidade. Pareceram-me pessoas acessíveis e uma boa companhia para partilhar e reexplorar a cidade que ontem tanto me desiludira. Com elas hoje seria, provavelmente, muito mais animado e também um bom pretexto para cimentar conhecimentos mútuos.

Chegado ao hall não encontrei quem esperava, mas não perdi muito tempo e, sem me deter, resolvi ir na mesma até ao centro, embora indo por outros sítios, explorando outras ruas, mesmo desertas à saída do hotel, àquela hora tardia. E em boa hora o fiz porque acabei por descobrir uma outra faceta de Oviedo, que ontem me escapara, deixando-me esta cidade, hoje, outra impressão.

Oviedo mostrou-me agora outra roupagem. Aquela cidade com bares, restaurantes, com algum movimento nocturno e animação, que eu esperava encontrar, estava ali mesmo ao meu lado. Só que chegado ao centro, em vez de virar à esquerda, como fiz ontem, devia ter virado à direita e ter-me ia deparado com algo totalmente diferente. Ontem descobri o lado comercial com as lojas obviamente fechadas; hoje descobri a zona histórica e simultaneamente de lazer que ontem procurava. Aquilo que não vi aqui e que vi quer em Burgos, quer em Bilbao, foram as casas de alterne. Aliás, bares de alterne, em evidente, descarada e manifesta atitude de engate, com as mulheres à porta, vi em Santander. Em Burgos e Bilbao pareceram-me, no entanto, mais discrectas e dissimuladas. Aqui não vi nada nesse género, (não que andasse à procura) nesta zona que explorei.

Em sentido contrário, o engraçado e inesperado foi o que acabou por me acontecer. Estava eu absorto nessa busca pela cidade histórica, enquanto tentava perceber na noite escura iluminada apenas por uns focos amarelados projectados para uma imponente igreja, de que construção se tratava, dei comigo a partilhar aquele mesmo monumento com o casal Abreu que, nas sombras da Catedral de Oviedo, a meu lado, também a contemplava e admirava. Acabámos todos sorrindo pela coincidência e acabámos por passar o resto da noite juntos percorrendo com o olhar os vários monumentos daquelas praças. Ainda tirámos fotos e partilhámos conversas.

A certa altura, em plena Plaza de la Constitución, interrompidos até por alguém que nos interpelava com uma pergunta, em espanhol, sobre a localização de algo que procuravam.

Nós, de frente para a Igreja de San Isidro, com o edifício do Ayuntamiento de Oviedo ao nosso lado, falávamos de arquitectura e de literatura, abordando as obras de Eça de Queirós da qual Gracinda Abreu é profunda conhecedora, às obras polémicas de Saramago. Confessei-lhes que me penitenciava porque “Os Maias” nunca os lera totalmente e da literatura de Saramago não sou grande fã. Relativamente aos Maias reconheci a minha falha imperdoável e prometi-lhes, como a mim mesmo, que os iria ler em breve; já quanto à obra de Saramago conheço pouco mais do que os meros títulos de alguns dos seus livros e, de comum, temos apenas o dia da data do nosso nascimento.

De Saramago soube que Luís Filipe de Abreu foi amigo pessoal, mas nunca se considerou adepto, nem afim do anti-Cristo que Saramago revelou mesmo até à sua morte.

E ali estava eu, embrenhado em assuntos como arquitectura e mesmo literatura, dialogando como se fosse um entendido, como se os dominasse, e logo com o casal Abreu, pessoas de um nível com o qual não me posso sequer ombrear, revelando eles uma cultura intelectual e humana acima da média. Além de uma perfeita e conhecedora cronologia dos factos históricos sobre a origem e estilo de obras de que falavam, tinham ainda o conhecimento profundo e exaustivo das respectivas épocas em que ocorreram, assim como os demais detalhes que, efectivamente, o senso comum (onde me incluo) desconhece e que não valoriza. E eu, obviamente, senti-me muito pequeno, ainda que honrado pelo diálogo e pela partilha de conhecimentos.

 A noite avançou e nós fomos regressando ao hotel. A Calle de Calvo Sotello que subimos por entre dissertações, comentários e opiniões para chegarmos ao nosso destino, galgámo-la descontraidamente e sem queixumes.

Sem ter feito por isso, concluí que acrescentei à minha noite um enriquecimento cultural fantástico. Como um quadro, feito, desenhado e pintado a quatro mãos, com uma notável palete de cores, reflexos, formas e sentidos, à imagem de verdadeiros e incomuns artistas, olho neste preciso momento para essa tela, cheia de cores e brilhos, espelhada ainda no meu consciente que me abana e acorda, e sinto-me um homem especial, diferente e feliz a olhar para o acaso que me retribui a sorrir.

Acabo assim agora a reflectir, antes de me abandonar dos pensamentos do que foi este cheio dia, sobre o acaso deste casual encontro que acabei de ter no centro da cidade, totalmente em contraste e em contraciclo com o que procurei no pretexto para a saída. Pois é, ninguém sabe para o que está guardado. Valeu a pena.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

PÍNCAROS DA EUROPA - CAP III

“PICOS DE ESPANHA”

CAPÍTULO III

Bilbao, 6 de Agosto de 2012

São 07:45h. Para trás uma noite que devia ter sido de sonho. Mesmo assim, dormi menos mal sobre umas manchas de vermelho que ficaram para lavar. Sete horas, tocou o telefone para o despertar. Desci. O pequeno-almoço foi de reis, mas comi apenas como um príncipe. Croissants e doce, um bocado do inevitável e irresistível presunto e ainda um triângulo de queijo. Ainda estou nervoso. Estou a tentar dissociar-me, mas o problema, apesar de não subsistir, preocupa-me.

Está um dia claro. Está fresco, mas creio que a chuva ficou para trás. Espera-nos mais um dia bom, divertido, interessante e para conhecer novas paragens. É muita boa a sensação de irmos visitar locais onde nunca estivemos. É uma descoberta que nos faz sentir como crianças perante um novo brinquedo.

Sinto-me fisicamente bem. Vesti hoje umas calças compridas de ganga para me sentir mais confortável e uma t-shirt Lacoste rosa. Calcei uns ténis com meias. Ontem senti-me um pouco à fresca na visita ao museu. Mas não estava muito diferente dos outros, mesmo de calções e mais desportivo. Ainda guardo na memória aquele local onde se cruzam tantas culturas. Fiquei sem perceber é se o que se fala no país basco é um idioma se um dialecto. Sabê-lo-ei na internet.

(espanhol é um idioma, mas o basco, não, e o português é uma língua e um idioma. Ou seja, o idioma sempre está vinculado à língua oficial de um país. Já dialeto é a designação para variedades linguísticas, que podem ser regionais). Conforme em http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/fundamentos/qual-diferenca-lingua-idioma-dialeto-427786.shtml.

Aqui e agora as minhas dúvidas são outras. Neste momento já estamos atrasados para a hora prevista de saída.

São 8:00h e faltam pessoas. Quero libertar-me. Olho para as pessoas e vejo outras e comparo-as. Na minha cabeça há outra gente; quero ser feliz.

Ao microfone, brinca-se com o Euscádio, Euskadi, o tal dialecto aqui do País Basco. Estamos quase de partida, julgo que para Santander. O autocarro já pegou. Falta alguém? Parece que não. O Luís já fez a sua habitual contagem. Estamos ainda dentro do parque de autocarros deste magnífico Hotel Gran Bilbao que dizem só ter três anos. Autocarros são quatro aqui estacionados.

São 08:05h, estão 17ºC e vamos embora. Vamos na direcção Oeste. O nosso destino é Oviedo, nas Astúrias. Já estamos numa via rápida, dentro de um túnel enorme, por onde de resto já passámos quando fomos para Bilbao. Saímos e está sol, com nuvens dispersas. Há algum trânsito, sobretudo de pesados. Mais um túnel. Tem dois quilómetros de comprimento. Estava a escrever às escuras…. E outro túnel e outro. Velocidade 100 indica-nos a sinalização exterior.

Eu estou sentado na traseira do autocarro, quase sem ninguém. Os passageiros estão todos sentados à minha frente. Somos 31 e só 9 vêm aqui atrás depois da porta do meio do autocarro. Portagem em Portugalete. Estamos a pagar. A portagem é para custear a manutenção dos túneis que acabámos de passar.

São 08:22h As indicações ainda estão em Euskadi na E70 até Santander, numa zona industrial. Nesta zona prevalecem a indústria metalomecânica, a construção naval e a indústria da pesca. O porto de Bilbao é o mais importante.

Vamos entrar na Costa Verde e o Atlântico já apareceu lá ao longe recortado na paisagem.

São 08:25h e continuamos com os 17ºC nesta manhã em que o trânsito de camiões é muito intenso. Aqui a atmosfera também cheira um pouco a gás, mas não admira: há por aqui várias centrais com grandes depósitos circulares. É nitidamente uma zona muito industrializada, pouco apelativa para quem quer desfrutar de paisagens verdejantes.

Tirei a primeira foto ao Atlântico que estranhamente está à minha direita. Vejo uma placa a indicar à direita Cobaron e vamos em frente pela E70/A8. Já saímos do País Basco e entrámos na Cantábria, outra região autónoma desta dividida Espanha. As encostas têm muita vegetação. Já não há dois nomes nas placas de sinalização das estradas. Agora estão apenas em castelhano.

A capital é Santander, nome que deriva do nome do Santo André (Sanct Ander) - diz-nos o guia. A vegetação é densa e bastante alta e o Golfo da Biscaia está ao meu lado direito. Castro-Urdiales é uma conhecida e reputada zona balneária nesta costa Cantábrica. Aqui parámos.

Luís Filipe de Abreu. Artista Plástico. Um diálogo curto com esta figura pública que à mesa de uma esplanada se escondia na simplicidade e humildade de quem é grande em todos os sentidos. Descobri então quem era com a cumplicidade da sua esposa que me revelou com quem eu estava a conversar, sem saber. Um privilégio. Ele não queria que ela revelasse detalhes, sentiu-se até incomodado, como se não fosse revelante o seu trabalho. Ela insistiu, orgulhosa do homem que a acompanhava.

Fiquei a saber que eram de sua autoria os azulejos da estação do metro no Saldanha, em Lisboa, e que algumas das notas do Banco de Portugal tinham o seu cunho. Admirável e inesquecível encontro este.

Em Castro-Urdiales, à beira-mar, como saído de um sonho, conheci assim pessoas tão simples quanto ilustres. Paragem curta, mas que se revelou muito significativa por este pequeno diálogo de aproximação em que me senti deslumbrado e com uma profunda admiração e respeito por estar na presença de uma figura tão respeitosa quanto emblemática da nossa cultura.

São 09:20h, estão 20ºC, o tempo magnífico, e Santander aqui vamos nós…

Mudou a paisagem de ontem para hoje. O cenário de inverno passou para o edílico verão. É o mar aqui e ali que sarapinta agora a paisagem. Uma ribeira que vem desaguar no mar; as encostas muito verdes de vegetação vária e muito densa; subimos e há casario espalhado lá em baixo, ainda do meu lado direito, com o sol atrás de mim a bater-me na nuca. Afastámo-nos da costa, mas estamos na mesma estrada E70/A8 rumo a Santander.

Estamos na região de Laredo, localizada noutra baía da costa Cantábrica. Estamos também nos Caminhos de Santiago, um dos caminhos que levam até Compostela. Laredo é uma lagoa muito bonita. Passámos ao lado, mas parece que vamos para lá, pelo menos assim parece pela sinalização que vou encontrando. Ainda não são dez da manhã e, por isso, o comércio ainda está fechado. Vamos sair por dez minutos para ver a praia e tirar umas fotos. Já está. Missão cumprida. Mais uma pequena troca de palavras com o casal Abreu. Gente, de facto, muito simples e com quem dá gosto conversar.

São 10:00h, o tempo está aberto de um sol pleno, mas a praia deserta, apenas com gente ao fundo, na maré baixa, a apanhar marisco, bivalves, talvez.

Laredo é um local pacato, mas muito turístico, de vivendas e prédios altos de apartamentos de muito bom aspecto que se abeiram da praia. Têm aspecto de mais de vinte anos, mas estão muito bem conservados. E o pessoal vai chegando à praia…

A areia não é fina. É branca, sim, mas granulada. Agachei-me, peguei nela para sentir a sua textura e fechando a mão senti as pedrinhas arredondadas a escorrerem-me por entre os dedos.

Agora quero fazer tudo ao mesmo tempo: tirar fotos e escrever ao mesmo tempo, o que me parece difícil. Enquanto as coisas me vão caindo para o chão: ora os óculos, ora a caneta, ora eu próprio embalado pelo serpenteado do percurso do autocarro.

Estamos a caminho de Santander, já faltam poucos quilómetros. A paisagem agora é igual à que vimos antes. Verde nas encostas com casas ao fundo recortadas no verde dos campos. São vivendas isoladas. Agora há serra e a paisagem ainda totalmente verde, o que justifica porque se dá o nome de Costa Verde a estas paragens.

Na estrada de via rápida, muito trânsito nos dois sentidos, mas tudo a rolar, sem problemas ou conflitos que gerem impaciência. Não é uma estrada em linha recta, estamos inclusive a subir, numa zona alta e de gelo. Mas agora está sol, estamos com os mesmos 20ºC do princípio da manhã e o relógio digital marca 10:20h.

Estamos a chegar, diz o Rui, embora faltem onze quilómetros. Aqui vêem-se de novo indústrias dos dois lados da estrada. Em Fevereiro 1941 houve um grande incêndio que destruiu o centro histórico da cidade de Santander pelo que hoje a cidade é mais moderna. É uma cidade também portuária e fica numa península de onde se apanha um ferryboat que vai para Inglaterra. Vi esse barco e não percebi que se tratava do mesmo. É um barco enorme, majestoso, tipo navio de Cruzeiro, o que também não admira visto que é um Atlântico que tem de enfrentar pelo Golfo da Biscaia até ao Sul das Ilhas Britânicas.

São 10:45h, está um sol imenso, 22ºC e ainda não chegámos ao centro da cidade do Santo André. Andámos ali um pouco às voltas para estacionar e não foi possível. Apercebemo-nos, entretanto, do intenso movimento, sobretudo por se tratar de uma zona extremamente turística e da importância estratégica desta cidade.

São 11:25h, acabámos por atravessar toda a cidade capital das Astúrias e viemos parar junto à praia do Sardinero, onde estamos. Aqui o autocarro deixou-nos em frente ao edifício do Gran Casino para uma visita rápida e para absorvermos um pouco do ambiente. Parece que estamos em Cascais, numa zona balnear rica e muito bem organizada, muito limpa e onde até há um jardim de flores, canteiros e palmeiras virados, tipo esplanada, para o mar.

A praia está cheia de gente. A areia é fina e branca. Piso-a só para a sentir e repito o ritual de Laredo. Na avenida, um tipo de dentro de um carro grita para outro que vai a passar: “vai trabalhar”, em castelhano, claro, - e ri-se. Onde é que eu já ouvi isto? -pensei e ri-me também do meu pensamento.

A paragem é curta, vinte minutos. Aqui cheira a férias e a turismo. Apetece ficar mais tempo, mas agora já vamos para o centro, que é aqui já o lado. Santander também é uma cidade pequena, e vamos ser de novo despejados, agora para almoçar. Falta alguém, esperam-se mais uns momentos e já está.

11:50h e vamos sair então para desfrutarmos, cada um por si, a cidade. Parámos em frente à Catedral que visitei, e percorri depois grande parte da cidade a pé até um largo com umas esplanadas onde comi uns saborosos “pinchos”. Foi o meu almoço, acompanhado, claro, por umas “canas” fresquinhas e, protegido por uma sombra de um chapéu-de-sol, desfrutei do ambiente e aproveitei para descansar um pouco num clima de puro devaneio.

À minha volta outras mesas com gente de cá, clientes “habitués” e outras com alguns estrangeiros a apreciarem o mesmo que eu. Soube-me muito bem este momento e foi reconfortante.

14:30h, regresso ao autocarro. Esta hora e meia passou-se num instante. Apetece estar na praia. Estão 23ºC e um sol radioso num contraste gritante com o dia de ontem.

No porto está o Ferry que nos levaria até Inglaterra. É um grande paquete que até daria gosto usufruir. Há pessoas na coberta onde há uma piscina. Deve estar-se bem ali.

Mas o nosso destino é outro e vamos sair de Santander. Olhando para trás, esta cidade deixou-me muito boa impressão: com muitas lojas, muito comércio, e não sei se por ser agosto, com muita gente, além de que me pareceu um sítio ideal e muito apetecível para férias de verão, sendo de facto uma zona muito turística. Mas para nós não dá e aqui vamos nós. Adeus, até à próxima.

Voltámos à auto pista del Cantábrico. Vamos passar em Santillana Del Mar que, por sinal fica a dez quilómetros da costa. Estamos em plena A67 e a sinalização indica, além de Oviedo, Burgos, onde já estivemos.

Muitas estradas, muitas entradas e saídas, imenso trânsito, mas tudo em andamento calmo, sem problemas ou constrangimentos. O motorista tem feito uma condução passiva, parece saber o que está a fazer e ser bastante responsável. Não há manobras abruptas, guinadas ou travagens bruscas e transmite-nos confiança, além de que o Luís, nosso guia, também é um veterano destas coisas de viagens e para ele, nestes percursos, não há segredos.

Atiramos um olhar para fora das grandes vidraças e na paisagem vemos mais construções industriais ao longo da estrada, tipo parques de zonas industriais. A sinalização indica-nos também que estamos a 170 km de Oviedo. Aqui dentro vamos todos ainda a saborear nas nossas memórias o rebuliço que trouxemos de Santander, confortavelmente acomodados, com o termómetro digital do autopullman a marcar 23ºC e o relógio nas 14:45h, enquanto numa bela tarde de verão, algures na A-67, o autocarro nos dirige para Santillana.

Santillana del Mar é uma localidade medieval, muito turística, e cujo nome deriva de Santa Juliana de Nicomedia, uma mártir perseguida e morta na Ásia no século III e cujos restos mortais foram para ali trazidos e depositados numa ermida que foi declarada monumento nacional no final do século XIX.

Estamos a afastar-nos da costa e a paisagem voltou ao verde do campo com pequenas elevações. É por aqui que se encontram também as célebres grutas de Altamira com pinturas rupestres, supostamente do paleolítico superior, com doze a quinze mil anos de existência, diz-nos o guia. Todavia, há ainda hoje dúvidas sobre a sua autenticidade. Deste conjunto pictórico, estas pinturas rupestres são as mais significativas que se conhecem. Curiosamente, devido ao grande número de visitas, acrescenta, decidiram fechá-las para assim serem melhor preservadas. Pela net, em http://pt.wikipedia.org/wiki/Caverna_de_Altamira encontra-se bastante informação sobre esta famosa caverna.

A N-611 é a estrada que circulamos, fizemos um pequeno largo e estamos entre casas dispersas de uma pequena povoação a caminho de Torrelavega que está a quatro quilómetros. Uma cimenteira à nossa direita fere-nos o olhar despreocupado que uma central eléctrica e mais indústrias acentuam na paisagem descaracterizada.

Voltas e mais voltas e descortinamos que há por aqui inúmeras pousadas para peregrinos. É um roteiro com muitas ermidas, o que não é estranho, dado estarmos também sobre um dos percursos dos Caminhos de Santiago. Mais rotundas e rotundas num emaranhado de vias e estradas, entradas e saídas num labirinto de destinos que se cruzam e descruzam entre paisagens que se perdem no olhar verde que nos fazem lembrar o norte de Portugal, agora com as vistas mais abertas com as montanhas lá ao longe.

São 15:05h e estamos a chegar a Santillana del Mar. Estão 22ºC e há imensos carros estacionados por aqui. Vamos parar para darmos o nosso passeio apeado. São duas ruas… mas há imensa gente a passear ou sentados nas pequenas e recatadas esplanadas. Temos quase uma hora para desfrutarmos aqui. Vamos então lá explorar.

E é uma vilazita interessante, muito disputada por umas lojinhas características das pequenas localidades como esta, dispersas por ruazinhas estreitas com casas de pedra, tão tradicionais quanto artesanais, espaços exíguos de comércio onde se explora o que aqui se produz. Artesanato e chocolate são elementos dominantes.

Na arquitectura medieval, as varandas destacam-se por serem construídas em barrotes de madeira escura com umas plantas aéreas que se desprendem dependuradas e que fazem lembrar ouriços verdes e gigantes. Outras, apenas ostentam vasos com flores muito garridas de um vermelho vivo que nos atrai, salpicadas de cor que sobressai da madeira com pilaretes helicoidais. Outras ainda enchem-se de artefactos diversos, desde baldes a bicicletas, de bandeiras espanholas a roupa escura de trabalho, esta estendida ao sol aproveitando esta bela tarde de um dia verão.

Há lojas de artesanato, mas também restaurantes, estalagens e muita gente em busca de raízes dos seus antepassados. Revivem-se aqui histórias de infância e eu aproveito apenas para um olhar despretensioso para uma antiguidade de séculos sem sequer sentir o que vejo. São para mim apenas lugares de circunstância vividos sem a paixão de um artista ou de quem tem alguém a seu lado para partilhar.

Percorro estes caminhos olhando cada centímetro quadrado de paisagem, mas para mim este um lugar é como tantos outros que conheço e que temos no nosso país, ainda que este tenha a particularidade de estar muito bem cuidado e preservado e que nos transporta, em momentos pontuais, às gentes e às tradições ancestrais de um povo que aqui viveu e que soube ao longo dos anos guardar-nos este bocado de terra com as casas de dois/três pisos como um local de culto para aqueles que apreciam o passado e as tradições das suas gentes.

16:06h saída de Santillana rumo a Oviedo. Está um tempo magnífico e eu estou de calças compridas em vez de calções. Mas foi estratégico, devido ao meu percalço, aparentemente ultrapassado.

Estão 25ºC e para Oviedo não vamos pela autopista, mas pela estrada nacional porque temos mais paisagem para desfrutar, diz-nos o Rui. Por aqui temos também acesso visual aos prados de Cantábria com as bobines de fardos empilhados a um canto, nas propriedades, envoltas em plástico negro. Há por aqui ainda várias ermidas que fazem parte do roteiro dos Caminhos de Santiago e que foram fundadas por monges beneditinos. E encontramos também pequenos povoados com casas de dois pisos em tons avermelhados como suas cores características sóbrias e predominantes.

Os cavalinhos também são por aqui tradição. Estes animaizinhos têm características que ficam entre o poldro e o cavalo. Vacas é outra das espécies animais que por aqui se podem ver; e fazem-me lembrar os Açores. São de cor castanha, mas também já as vi pretas e brancas, como as que conhecemos melhor, nomeadamente, das Ilhas do meio do Atlântico. E a salpicar também os campos de prados verdes, vamos encontrando diversos pastos de dezenas de ovelhas que, pachorrentamente vão degustando a erva, alheias ao nosso olhar efémero de uma passagem que também é meramente fugaz.

E, claro, com tanta quantidade e qualidade desta pastorícia não podiam faltar as indústrias com as fábricas de queijo, assim como deve haver de chocolates, já que estes tanto predominam e são apreciados aqui no norte de Espanha. Do queijo não tenho opinião formada. Já quanto aos chocolates posso dizer que têm um aspecto delicioso, embalados com vários enfeites tipo “confiserie”. Vi isso em Gernika e Bilbao e fiquei… a olhar para eles e com pena de não os poder comprar, para evitar as calorias…

16:30h CA-131, Estamos a passar por Comillas que é outra zona balnear muito característica e disputada por aqui. Tem em anexo à praia dois parques de campismo e, pelo que nos apercebemos, estão lotados de gente. Parece a aldeia da roupa branca, tal a mistura de tendas que se estendem como lençóis lançados ao vento numa caótica cobertura de geometrias variadas.

Atravessámos a “aldeia”, seguimos viagem e ficámos com a mesma sensação de quem chega a São Martinho do Porto, pela similitude e pela confusão instalada. Não me parece ser um centro turístico de eleição, nobre por excelência, como vimos em Santander. Para Comillas vem o pobrezito.

Agora seguimos para San Vicente de la Barquera e vejo uma serra lá ao longe do meu lado esquerdo e o mar à minha direita, ou o seu reflexo. Oviedo está a 148 km e continuamos a serpentear pela estrada de curvas e contracurvas por entre pastos, vacas e bois a pastarem e por aquilo que me pareceram ser plantações de milho.

Parámos em San Vicente depois de percorrermos uma ponte antiga, provavelmente romana, pela arquitectura, que atravessa um rio com o mesmo nome.

São 17:05h e estão 25ºC na rua. Está um final de tarde ameno e muito agradável aqui à beira rio. No céu, nuvens muito altas e dispersas elevam-nos o ego e inspiramo-nos no clima abafado de um verão apetecível para sentir a leveza deste momento sublime, longe de outro qualquer lugar da nossa memória ou vil existência.

Estamos numa zona tipicamente marítima, de ria, mas sem praia. Parece-me um local tranquilo, acolhedor, turístico, e muito mais apelativo, embora bem diferente de Comillas. Digamos que é um local que se visita e onde se está de passagem, para comer ou beber, (diz-se que se pratica por aqui a pesca da lagosta), se conversa, ou se vem para dar um giro. Há muita organização e limpeza, está tudo muito equilibrado, e é sítio muito aprazível para passar uma tarde depois de um prolongado e bem degustado almoço de marisco.

Um local onde também se pode saborear a paisagem bucólica dos barcos que se agarram nas âncoras, enquanto se desfaz o cansaço no olhar perdido da paisagem marítima; ou o descansamos nas barcaças que salpicam a foz, e se consome, enfim, em harmonia com a natureza, o bem-estar e o ruido de uma pacata e pitoresca vila piscatória.

Um porto pesqueiro, sim, de pequenas embarcações atracadas às margens, numa paisagem edílica e extasiante para quem chega e para quem sai. Mergulhando-se o olhar na ribeira, esta ramifica-se de braços abertos e no seu regaço embalam-se e descansam frágeis barquitos de pesca artesanal.

Com uma ou duas ruas principais, com muitos cafés e restaurantes marisqueiros a animar quem aqui chega, San Vicente surge-nos como um lugar limpo, arrumado, onde há também jardins e parques infantis, um lugar onde se vem e se está com gosto, uma porção de terra também de canteiros e flores, mas onde não se foge à característica inexaurível de sons, cheiros e aromas de uma terra banhada pelo mar e com um rio a entrar-lhe pelas entranhas.

São 17:30h e estamos já a aprontar-nos para sairmos, rumo a Oviedo. Subimos agora uma serra onde tudo é verde e a paisagem a perder de vista. É o prolongamento de uma sensação aqui diferente de preenchimento da alma e de paz de espírito, como uma tranquilidade divina. Estamos na estrada nacional, há muitas curvas, mas apenas nos servem de embalo e suportam-se muito bem. À minha direita está agora o Parque Nacional dos Picos da Europa, uma grande e verdejante serra que iremos visitar amanhã.

A 140 km de Oviedo deixámos a Cantábria e entrámos no Principado das Astúrias. Saímos da Estrada principal E-70 A-8, e esta só tem duas faixas, uma para cada lado, quando vejo Noriega numa placa, que fica à esquerda.

17:45h e 21ºC, e La Franca acaba de ficar para trás enquanto eu aqui atrás no autocarro tenho muita dificuldade em perceber por onde passamos. Agora é o mar mesmo aqui ao meu lado direito e é como se percorrêssemos uma marginal com uma linha de comboio entre nós. Mas estamos num ponto alto, vejo arribas e desnível até ao mar. Há trânsito na estrada e obras que provocam alguns constrangimentos. Há viadutos em construção e uma placa diz-nos que estamos a 114 km do nosso destino. N-634. Vidiago, Riego, logo a seguir. Aqui as localidades estão bem identificadas, e seguimos para um troço da A-8 acabadinho de fazer.

À minha esquerda uma extensa cordilheira a lembrar a Serra da Estrela. Umas nuvens cinzentas cobrem alguns dos picos. Estamos a passar Llanes, contornámos uma rotunda e saímos por uma estrada nacional de duas faixas AS-263, enquanto a cordilheira se afastou de nós e ficou mais longe, embora continuemos a segui-la. Depois de voltas e mais voltas, estamos de novo ao lado do Atlântico, a cerca de 100 km de Oviedo. E voltámos à via rápida E70-A8. Ribadesella será a próxima localidade. Julgo que esta constante mudança de estradas e desvios é por causa das diversas obras de melhoramento e construção de novas vias que se estão a fazer por esta região.

Entretanto, enquanto o sol se vai escondendo por detrás das dispersas nuvens altas, os picos desta grande serra continuam aqui a fazer-nos sombra. Ribadesella está a quatro quilómetros e estas montanhas são umas autênticas esculturas naturais, verdadeiramente imponentes, parecendo que escorreriam para cima de nós se a chuva as fustigasse. Estão cobertas por um verde rasteiro e são bastante íngremes e rochosas morfologicamente.

Mas não o suficientemente duras para que a tecnologia humana não as atravesse: um túnel, outro túnel, mais outro. Gijon 58, Oviedo 74, indica a sinalização. E mais um túnel. O homem é imparável na sua obstinação de chegar mais depressa. E fura, perfura, inventa caminhos por entre a serra que nos engole por largas centenas de metros. Estamos nos Picos da Europa, é verdade, e escrevo (originalmente) às escuras. Este túnel era enorme. Saímos e de novo a serra à esquerda e pastorícia à direita, ou o mar, como acontece agora que levantei os olhos para contemplar esse plano de azul anil. Mais um túnel, este pequenino e o mar de novo. É uma paisagem muito bonita esta, recortada no nosso olhar que se distrai, ora desfrutando a serra num lado, ora mergulhando no mar, do outro.

À minha frente, há duas mulheres que vão sentadas sozinhas. Não me dizem nada, isto é, não me inspiram a vontade de comunicar com elas, distribuir-lhes um comentário, atirar uma piada, o que quer que seja. Não se encaixam no meu perfil. Há também vários casais, incluindo o casal Abreu, que vai um pouco mais à minha frente. O que estranho é que os casais vão todos sempre muitos calados, não há comunicação verbal, um diálogo visível entre eles, e isso aflige-me. Ou será que sou eu, em companhia de alguém, que sou “uma melga”?

Eu não me tenho imposto, nas nossas paragens, ao casal Abreu. Não me quero intrometer no passeio deles, nem sequer ser um intruso nas suas cogitações familiares ou deambulações nos locais onde paramos. Não quero também ser inoportuno, apesar de notar que se mostram sempre bastante disponíveis e simpáticos, além de me parecerem ser pessoas muito simples e acessíveis.

Assim, quando saímos do autocarro não me colo a eles para não ser - nem me sentir- indesejado, além de não querer perturbar a sua privacidade. Mas dá para perceber que não se escondem da minha aproximação.

Ele, como artista está uns furos muito acima do comum dos mortais, sem comparação, e noto também tratar-se de uma pessoa muito inteligente e culta. Eu não me sinto à sua altura, nem de perto nem de longe, e estou muito aquém, em todos os níveis de quaisquer paralelos. Tratando-se Luís Filipe de Abreu de uma figura de grande relevo e mérito da nossa sociedade cultural, individuo com um nível intelectual muito elevado e de estirpe notável, como a que demonstra mesmo na sua simplicidade, apenas me limito a ter o privilégio da sua admiração, ao empreendimento a que me propus, nesta viagem. E aqui vai ele, incógnito, como um passageiro comum, no seio de um restrito grupo de viajantes, trinta e um turistas ocasionais, numa viagem que esperamos todos que seja inesquecível.

Estamos agora com 22ºC, são 18:47h, o céu tem umas gretas azuis, mas as nuvens são daquelas que só fazem sombra. Deixámos de ter serra e chegámos a… um túnel dentro de uma localidade que é Villaviciosa, pela qual passámos por baixo. Aqui é assim: não se incomoda ninguém.

Estamos na A-64, mas há já algum tempo. Agora o guia diz-nos que amanhã vamos andar de novo por estes caminhos para irmos aos Picos da Europa. Percorremos um vale. É tudo verde de um lado e de outro da estrada, com muitas árvores de pequeno porte e de característica halófitas. Um enorme talude em rede de protecção protege a outra faixa de estrada. Acenderam as luzes aqui do autocarro o que significa que vamos ter pela frente um túnel enorme. Assim era. Saímos com cerca de uns dois quilómetros percorridos debaixo do chão. São 19:00h e estaremos a 20km de Oviedo.

Oviedo é a capital do Principado das Astúrias. Este território que se constitui simultaneamente como uma província e uma comunidade autónoma de Espanha teve o seu reconhecimento durante o século VIII.

Como sempre acontece, com o aproximar das cidades surgem na paisagem as zonas industriais. Típico, de um lado e de outro.

19:10h e entrámos em Oviedo. IKEA à esquerda e a Porcelanosa. Temos a segunda circular e o viaduto do Espírito Santo. Oviedo está à direita. Parece uma cidade velha, baixa, avermelhada, como se se tratasse de uma zona industrializada, não muito apelativa para ficar. Ainda mais um túnel e agora uns prédios castanhos. E as minhas suspeitas confirmam-se: Oviedo é uma cidade velha, suja e usada. Estamos a chegar ao hotel quando são 19:30h e o jantar será às 08:30h da noite.

Também este hotel não é nada de especial. É até o pior daqueles em que já fiquei nas minhas diversas viagens por Espanha. Julgo que este quarto onde estou, de tão pequeno, é um daqueles que fazem pandã com outros, do tipo familiar. Há pelo menos uma porta aqui ao lado que dará para esse outro quarto. Eu estarei no quarto dos filhos… ou consideraram-me um hóspede de segunda, ou um excursionista subalterno nesta comitiva...

De facto, este é um quarto extremamente pequeno, muito pequeno mesmo, com a cabeceira da cama, imagine-se, encostada à parede da porta da entrada. Se uma pessoa ressonar, quem for a passar no corredor, ouve-a. O quarto é, no entanto, acolhedor, está limpo e tem bom aspecto. Tem um quadro da Roma antiga com um militar sobre uma quadriga de dois cavalos. As paredes são rugosas, tipo antigo Karapas, pintadas de branco sujo. A mobília em mogno favorece o estilo antigo, século XIX, com linhas direitas numa cabeceira com os cantos recortados. A janela dá para umas traseiras fechadas por uns prédios altos que se erguem em frente, mesmo diante do nariz.

Não sei quanto se paga neste hotel comparativamente ao Gran Bilbao, mas o Ayre Hotel Ramiro I fica a léguas, diria mesmo que não tem categoria para as quatro estrelas que ostenta. Definitivamente, o Ayre Hotel Ramiro I foi mesmo um “ar” viciado que me deram. O mais grave é que vão ser, não uma, mas duas noites as que aqui vou passar.

Todavia, a única vantagem que tenho é que, mesmo assim, com todas estas pouco abonatórias considerações, se comparar este quarto com aquele onde eu durmo todos os dias, todo o ano, o melhor é ficar calado. Esta cama é de casal, é bastante grande, desproporcional até ao tamanho do quarto, e parece-me também muito confortável; no meu quarto, em casa, as condições que tenho não são melhores.

Para o jantar foi preparada uma sala particular para o nosso grupo. Entrei e fui escolher um lugar na ponta mais longínqua de uma das duas mesas que, perpendicularmente à entrada e paralelas entre si, estavam preparadas para o efeito. Quando entrei reparei que já estavam pessoas sentadas às mesas, mas algumas, confesso, era como se as estivesse a ver pela primeira vez. Em outro grupo – talvez constituído por pessoas que estão no autocarro mais próximas do meu lugar – reconheci-as melhor. Sentei-me. Logo a seguir chegaram as restantes pessoas do grupo que se foram sentando nos lugares disponíveis, tendo o casal Abreu privilegiado os dois lugares vagos à minha frente na mesa. Foi muito amável da parte deles e agradável a presença. A refeição acompanhou o clima descontraído ali estabelecido. Para mim nem tudo era mau.

Se este quarto que me atribuíram é pouco mais que um cubículo de 14 ou 15m² e tem uma casa de banho que faz um “ele” com uma área de uns 3m², tudo em pequeno, em contraste com a suite de ontem, o jantar foi em grande, simplesmente excelente e divinal.

A refeição começou com uns enchidos que chegaram à mesa e para os quais ficámos todos a olhar sem perceber se eram apenas entradas ou parte da refeição propriamente dita. E o meu olhar de destaque foi logo para um chouriço de cebolada – de que sou fã incondicional – de muito boa qualidade. Atirámo-nos a eles (aos enchidos) com o pãozinho que tínhamos à mão. Depois veio sopa de cozido – cinco estrelas –, e o segundo prato é que já não valeu nada. Eram uns croquetes de batata com salada de alface e tomate, mas como já estávamos empanturrados de sopa e enchidos, já ninguém se importou. Ficámos a saber depois que os enchidos eram para juntar na sopa. Misturámos tudo no estômago.

Para remoer um jantar daqueles nada melhor que um salto ao centro da cidade. Mas foi mais uma decepcão. Nenhum movimento e tudo apagado. Oviedo é uma cidade às escuras, a meio gás, triste e sem vida.

Resta-me este quartito. Em contraste gritante com a sumptuosidade do quarto de ontem, em que me senti o Xá da Pérsia ou a celebridade mais importante da nossa caravana, hoje chego apenas à exiguidade do meu próprio pensamento, em que, encaixotado aqui neste pedaço de mundo, serei, tão-somente, um hóspede solitário do Terceiro Mundo. E é interessante verificar como pode mudar a forma de sentirmos as coisas: num dia, grandes, no seguinte, pequenos e, num instante, passamos de bestial a bestas…

Boa noite, espero.

domingo, 14 de outubro de 2012

PÍNCAROS DA EUROPA - CAP II

Meus amigos, lá fora está um tempo a cheirar a outono e decidi aproveitar para fazer-me ao trabalho. Assim, aqui está, como prometido, o Capítulo II dessa saga que foi a minha viagem a terras do norte de Espanha.

Resta ainda dizer que esta descrição corresponde apenas ao segundo dia, de seis, mas posso acrescentar que nos dias seguintes escrevi muito menos pelo que, o que me falta corresponderá apenas a metade daquilo que já escrevi... (boas notícias hem?)

Carlos Alberto

CAPÍTULO II

Burgos, 5 de Agosto de 2012

08:00h Estou em Burgos, sim, é verdade, mas não sei exactamente onde, em termos geográficos, em relação a outras cidades espanholas. Sei que estou no norte de Espanha, a caminho dos píncaros da europa, mas sem referências de correlação. Ontem à mesa com tanta gente formada, tantos doutores, até me senti mal e deslocado pela minha ignorância. Portanto, não admira que também não me consiga situar mentalmente no mapa...

Hoje a alvorada foi às sete da manhã. Higiene pessoal, pequeno-almoço e arrumar a mala. A roupa para vestir já estava preparada da véspera com uma t-shirt castanha da Lacoste, depois da amarela de ontem. Trago uns calções beges e uns sapatos práticos azulados.

A noite foi muito boa, tranquila, mas muito curta. Quando o despertador tocou achei que o despertador se teria enganado. Mas não. Nada, no entanto, que um bom banho não resolvesse, para acordar.

A manhã está fresca e o céu nublado. Já estou dentro do autocarro da Lusanova, bem adiantado na hora da partida. À mesa do pequeno-almoço também fui o primeiro a chegar. Adivinhe-se o que comi: melão com presunto. Não resisto.

Agora o pessoal já começou a chegar e imaginem-se as conversas. “Então, dormiu bem?” Pergunta um. Outro refere “A minha cama era dura”. Acrescenta o primeiro “Olhe, eu ontem tomei um rico banho e já não saí à noite”.

Entretanto, depois da longa viagem de ontem, a de hoje vai ser mais calma e diversificada. É isso que todos esperamos, além das novas sensações da descoberta que esperamos sentir.

Mudei de lugar no autocarro. Não há necessidade de me sentir enclausurado ao lado de uma pessoa que não conheço. É um tipo de uns cinquenta anos, meio inchado, de óculos redondos e cabelo comprido ondulado em farripas sobre o pescoço.

São 08:20h, começa a música. Vamos para o País Basco. Passámos ao lado da antiga porta da entrada da cidade, aquele arco que dá acesso ao Largo da Catedral de Burgos, e Bilbao é o nosso destino.

São 08:30h de uma manhã bem cinzenta de 15ºC. Entrámos na E70 e vamos em direcção a Guernica, uma pequena cidade (villa) situada numa serra nos picos de Espanha. Esta cidade celebrizou-se pela destruição que sofreu em 26 de Abril de 1937, bombardeada pelos nazis durante a guerra civil espanhola e pelo quadro que Picasso pintou em memória desta tragédia. Quando um nazi lhe perguntou se fora ele que fizera aquilo, Picasso terá respondido “não, foram vocês que fizeram”.

Ontem ainda percorremos centenas de quilómetros a partir de Vilar Formoso e não passámos por nenhuma portagem. Agora é a primeira aqui em Espanha, quando são 8:35h e rumamos no sentido de Bilbao.

As nuvens no céu são altas e estão 14ºC lá fora. Aqui dentro está-se muito bem, situado à vontade, agora sozinho nas traseiras do autocarro. A paisagem é amarela, cerealífera, vazia e plana. O olhar perde-se na contínua imensidão de cores que me ofuscam o sentido e me transportam apenas para um nada mais à frente que bruscamente será decerto interrompido por outras imagens e palavras que não estas. É o tempo dos sonhos, da viagem que nos embala sem percebermos sequer, e de propósito, por onde andamos, por onde nos levam.

Hoje é domingo, mas para nós isso é irrelevante. Quando se anda a passear tanto faz. O trânsito é grande, mas no sentido contrário ao nosso. Talvez o pessoal vá na direcção de Madrid.

Saindo de Castela muda a paisagem e haverá floresta. No País Basco esta será muito industrializada.

A estrada que percorremos é conhecida como a “estrada dos portugueses” porque morrem por aqui muitos em acidentes de viação. Espero que isto não se aplique a nós. Ah!Ah!Ah!

09:00h Estamos a 106 km de Bilbao, na estrada AP1/E80. O trânsito é muito intenso no sentido contrário ao que vamos. Vi um autocarro que dizia no seu destino PORTUGAL (interessante a sensação de vermos o nome do nosso país; aqui faz toda a diferença). Os carros que vejo passar são todos de matrícula estrangeira, nomeadamente, suíços. Já começo a ver ao longe as montanhas e há muitas nuvens sobre elas, uma espécie de chapéu.

Quando entrarmos no País Basco vamos notar grandes diferenças, nomeadamente na sinalização com o nome das localidades, adverte-nos o guia. Têm dois nomes, um em basco e outro em catalão.

Um túnel e eis a serra e toda a sua agressividade rochosa com diversos picos. Passámos por uma espécie de estreito, uma garganta onde afluem várias estradas e até linhas de comboio. Fez-me lembrar as paisagens de “far west”, mas com estradas.

Aqui em Espanha tenho notado que as gasolineiras são predominantemente da CEPSA, algumas AVIA e poucas da portuguesa.

A estrada que estamos a percorrer trás a indicação de E5 além de E80 e AP1. Não sei porquê. Está agora a chuviscar, o que nestas paragens, apesar de agosto, é normal. Estou um pouco à fresca, quando sair acho que vou ter frio.

São 09:20h e estão 16ºC. Estamos na “auto pista do norte”, informa-nos a tabuleta na estrada. O céu aqui está mais carregado, totalmente cinzento. Entrámos na região da cidade de Vitória. Já se vêem os dois nomes nas tabuletas indicativas das localidades. Esta Espanha é um país dividido. Nesse aspecto Portugal, independentemente das rivalidades regionais norte/sul, é um paraíso.

Saímos já da auto pista Vasco-Aragonesa e estamos agora noutra via, “Ongi Etorri”, dizia a placa da estrada com outros nomes por baixo que já não consegui ler. É uma estrada secundária tipo IP. Igay, saída à direita, mas vamos em frente. A paisagem mudou, agora é floresta. Há ursos nesta zona, como lobos, raposas e javalis, diz-nos o guia. É Parque natural, área protegida, acrescenta. Mas trata-se de uma área ampla, aberta; não se pode dizer que vamos pelo meio das árvores. Faz-me lembrar o nosso norte, no Minho, muito verde.

Bilbao 76km, numa placa lilás. É para lá que vamos pelo meio deste clima meio cinzento a cheirar a outono. Chuvisca, os carros trazem as luzes acesas. Lá à frente a paisagem não é melhor e mostra-nos imensas nuvens que cobrem e fazem desaparecer a serra que vamos atravessar. Mas não estou triste por isso; acho até desafiante. Estou a passear, sem compromissos, nem medos. Todavia levo o cinto do assento do autocarro apertado, não vá o diabo tecê-las. A estrada dos portugueses também pode ser esta.

“Pobes Nanclares”, à direita. Nomes estranhos estes, como “A-dos-cunhados” para outros, digo eu. Vamos subir até aos 850 metros pela tal serra que não sei o nome. Faz-se por aqui caça ao veado. Assusta um pouco, não pela caça, mas face ao clima nublado.

Está muito cinzento o tempo. O trânsito é agora quase nulo, como se toda a gente se estivesse a refugiar da adversidade climatérica. Parece que vai chover a potes, bátegas de água que começam a inundar-nos o subconsciente. Não é nada apelativo para quem se desloca por estradas tão longínquas. Estamos na AP-68.

Na paisagem recortam-se agora construções, aqui diferentes, com vivendas tipo casa de bonecas, baixas de telhados de duas águas muito acentuadas. Já se viu uma bandeira basca hasteada numa primeira villa por onde passámos que, ao longe, parece ter um X traçado em toda ela em tons de verde e branco. Ao perto percebemos que a bandeira tem fundo vermelho com uma cruz branca e um X verde. Não sei qual a interpretação que é dada a estes símbolos e cores, mas a minha é que o vermelho pode ser o sangue derramado na luta pela paz simbolizada na cruz branca, sendo o verde do X o objetivo na esperança na vitória final.

Aquilo que acho comum aqui com toda a Espanha é o tom vermelho ou ocre que predomina nas casas, edifícios e em quase todas as construções. Muitas delas têm o próprio tijolo à vista, o que lhes confere muita sobriedade, é verdade. Mas o alto grau de intensidade na combinação destes tons, do meu ponto de vista, imprime à paisagem urbana um aspecto muito austero. A rigidez física que transmite, embora a torne nobre, realça, no entanto, um carácter de antiguidade, como se cansada estivesse da exposição prolongada do tempo. São cores e tons com características do ferro, muito fortes e pesadas que intimidam ao olhar, e que lhes dá um aspecto que me parece robusto, sim, mas carregado e pouco alegre, sobretudo em ambientes outonais como o de hoje.

São 09:42h, agora está a chover e estamos a passar por um banco de nevoeiro. Não se vê nada. Bem-vindos ao inverno. Apesar do intenso nevoeiro, o autocarro não refreou a marcha e vêem-se os cem metros adiante. Bilbao está a 38km e vamos a descer. É o País Basco em todo o seu esplendor. Enquanto isso, aqui dentro o silêncio é absoluto. Nem música. Há quem durma. Da paisagem só se vê o nevoeiro que cobre uma floresta de alto arvoredo. Nada mais para além disso, enquanto se espera que o nevoeiro se dissipe o que começa a acontecer. Mas há ainda muita nebulosidade, céu carregado e a chuva parece iminente.

“Bizkaia” em verde. São quase dez horas e vamos a descer por entre cedros que nos fazem lembrar as paisagens suíças. É o País Basco, mais uma vez com toda a sua força intrínseca de região autónoma e fechada. Pelo meio umas fotos em movimento. Trago duas máquinas fotográficas: a antiga compacta e a Olympus Pen Digital E-PL2 adquirida recentemente e da qual pouco sei ainda tirar o máximo partido. Já tirei uma larga centena de fotos, mas por nenhuma sinto especial interesse. São fotos aleatórias, iguais às que toda a gente tira, sem cunho artístico ou que se realcem.

Chegámos a mais uma portagem. Estamos ainda na AP-68 com Bilbao a 16 km. Mas antes, segundo o programa, vamos fazer um desvio a Guernica para visitarmos o museu local.

As placas de sinalização, aqui azuis, parecem estar escritas em grego com nomes impronunciáveis: Ordezko…, Francia, Basauri. Nem consigo ler as placas porque há também muita informação nelas inscrita. Passámos numa localidade com uma ribeira que segue aqui à nossa esquerda. Há muita indústria pesada. Estamos em Arriaga, diz-nos o guia que é o dormitório de Bilbao. Vamos aqui numa encruzilhada de estradas em que entramos e saímos, contornamos rotundas, viramos e reviramos, é um emaranhando de vias que é difícil de perceber, sobretudo se não vamos na frente do autocarro e pela rapidez com que o percurso é feito. Nota-se que o motorista sabe exactamente para aonde quer ir porque, provavelmente, já fez este percurso imensas vezes.Passamos por Galdakao, Iurreta e estamos sobre a E-70 a 159km de Burgos.

São 10:11h e deixámos Bilbao para trás sem ter ido lá agora. Só iremos no final do dia, além de que o hotel ainda não está preparado para nos receber. Percorremos agora de novo uma zona isolada, de floresta. Deixámos os subúrbios de Bilbao e mais uma portagem, esta pequena em Donastia-San Sebastián na N-634 no sentido de Guernica. Amorebieta surge numa tabuleta. €1.407 é o preço da gasolina 95 nesta estrada. Em Portugal está quase nos €1.70 e os espanhóis ganham quase o dobro do que nós …

Estamos em pleno campo entre árvores que ladeiam a estrada de três faixas, duas ascendentes, quando subimos e ao contrário quando descemos.

O clima é que continua cinzento, como a evocação do lugar que vamos visitar. Curvas e contra curvas, a subir e a descer até Guernica. É uma espécie de embalo para um lugar de pesadelo por entre energias que nos envolvem numa misteriosa carícia mórbida.
O museu de Guernica, chamado Museu da Paz, homenageia os cerca de dois mil mortos do bombardeamento alemão durante a guerra civil espanhola.

12:30h, hora de saída. Foi pena a chuva, mas o tempo que aqui estivemos foi também pouco para explorar esta pequena cidade interior de Gernika, Guernika ou Guernica. Não se entende nada. A grafia muda, os nomes aparecem escritos em várias línguas.

Mas valeu a pena esta visita e esta passagem pelo Museu da Paz. Picasso, como já disse, está ligado a esta terra pelo seu quadro com o mesmo nome e que traduz o horror que aqui se viveu nessa fatídica segunda-feira 26 de Abril de 1937. Há imagens que ilustram a réplica do quadro em tons de cinzento com pessoas e animais esquartejados.

O edifício do museu está dividido por vários pisos e um deles recorda-nos os estilhaços dos bombardeamentos. No chão, sob os nossos pés, através de um piso envidraçado, caminhamos, indirectamente, sobre os escombros dessa tragédia. Há sons e imagens que ilustram esses momentos e, por instantes, sentimo-nos também atingidos, como se levássemos com uma pedra. São imagens violentas, de dor e angústia sufocante que até magoa só de olhar. Noutro piso há cartazes, frases e depoimentos que nos transportam não só para aquela realidade, mas que depois nos trazem para os dias de hoje e para o preço da liberdade.

Para mim, serão estas palavras que aqui transcrevo, que ilustrarão a minha breve passagem por aqui, como as fotos que testemunham aqueles tão cruéis momentos. Outros houve, no entanto, que guardarão no armário os guarda-chuvas que compraram nesta passagem por aqui, algo que, por sinal, muito útil hoje porque o clima continua chuvoso e cinzento. Eu estou vestido à verão, e também houve quem se tivesse precavido com para-ventos ou agasalhos para o clima das terras altas e não tenha sucumbido à intempérie.

Mesmo assim, não deixei de dar uma volta por aí. Visitei uma igreja lateral ao museu, subindo uma escadaria que nos encaminha para um largo. Estamos aí diante de uma outra escadaria de uma enorme igreja de estilo gótico basco, que é a igreja de Santa Maria. Entrei, admirei o seu amplo interior um pouco diferente das igrejas tradicionais e saí com duas ou três fotos tiradas, mas apenas do exterior. A chuva caía agora com mais intensidade. Não desisti e dei comigo diante da estação de comboios de Gernika, na Geltoki Plaza, onde uma escultura em bronze de corpo inteiro e tamanho natural me despertou a atenção. Trata-se da figura Lehendakari José António Aguirre, político basco, o primeiro presidente Euzkadi em terras bascas. Há outras esculturas do género nesta cidade, nomeadamente, um tocador de viola, mesmo no centro e que nos chamam a atenção. Aqui, pelos vistos, investe-se na arte e na cultura. É uma cidade pequena, mas muito interessante pela sua história.

Mas o separatismo nota-se e sente-se muito por aqui. É como se fosse uma energia latente nas pessoas com que nos cruzamos. O Basco ou Euskara é um idioma ancestral que se fala nesta zona, e que é anterior à introdução do latim pelos romanos. É uma língua diferente de quaisquer outras em que “askaricasco” significa “obrigado”. Ninguém os entende e só eles falam esta língua estranha e difícil. Parece um povo à parte.
É domingo e está tudo fechado, excepto os cafés e as doçarias com montras de bolinhos com aspecto muito apelativo e saboroso.

E aqui vamos nós já, estrada fora, contemplando a paisagem fria, triste, escura e avermelhada dos edifícios. Gernika é igualmente uma cidade cinzenta, talvez carregada pelo simbolismo e também pela chuva, embora hajam canteiros de flores que predominam em janelas e varandas de vários edifícios e que salpicam de cores alegres os vasos dependurados. São 12:40h e deixámo-la para trás com um clima invernal.

São 13:10h chegámos a Bilbao, junto ao hotel, mas os quartos não estão prontos, soubemos agora. Entretanto a viagem até aqui foi feita debaixo de chuva impiedosa. Agora só está tudo muito cinzento a cheirar a inverno. Deixámos em Lisboa o verão para virmos aqui inalar a estação oposta. Vamos até ao Centro da cidade.

São 13:30h, estamos na Gran Via, junto à Praça do Sagrado Coração de Jesus onde está um monumento com uma estátua alusiva a Jesus no cimo de um plinto. Vamos sair do autocarro para voltarmos daqui a duas horas. É tempo de cada um por si, em regime livre, ir almoçar.

Antes disso resolvi “girondar” (girar sondando) por aí, apesar de saber que depois vamos percorrer a cidade, no autocarro, com um guia local. E depois de ter estado no Parque da Cidade Doña Casilda, descido a Gran Via até à famosa Praça Elíptica e palmilhado junto ao rio o passeio Uribitarte com a Torre Iberdrola a expiar toda a cidade, percebi que estava na rota não só do porto mais importante de Espanha, como já perto do museu ex-libris desta cidade de Bilbao que visitaremos logo à tarde.

Entretanto, pelo caminho encontrei um fast food da Burger King na estação de comboios de Abando e refastelei-me com um menu tipo, com bacon (adoro bacon), enquanto dividi umas migalhas com uma pomba destemida que por ali adentro se atrevia.

São 15:30h e saímos com o guia local. Grandes e interessantes as histórias: de Nicolau ao Bacalhau passando pela guerra e pelas Chiquitas; descrições entusiásticas e intensivas com o separatismo sempre à flor da pele, pronto a explodir. Há vários dialectos, explica, porque os bascos viviam muito isolados e refere que é mais antigo que o latim. Leva-nos da igreja de São Nicolau à Praça Central e, à saída, faz questão de nos mostrar, acima das nossas cabeças, numa varanda, a bandeira do Athletic Club Bilbao.

São 18:50h, estão 20ºC e não chove. O mau tempo já lá vai. Regressámos da visita que fizemos, também com este guia local, ao Museu Guggenheim. Simplesmente extraordinário.

Entramos num mundo novo e diferente de tudo o que já vimos em que o edifício se constitui, em si mesmo, uma obra de arte integrante do museu. Grande espaço onde se misturam grandes superfícies brancas de paredes sem geometria aos amplos painéis de vidro que nos atiram para a paisagem exterior como se também ela fosse parte do museu. Várias exposições em três pisos que ficam incompletas numa visita de duas horas e picos.

Em suma, este parece ter sido, de facto, um dia muito divertido e cultural, que valeu a pena, mas que me soube a pouco. Faltou ou não houve tempo para irmos debaixo da “mamã”, nome dado pela autora Louise Bourgeois à aranha que, também no exterior, faz parte do património das peças do museu. E a visita consumou-se a apreciarmos com detalhe o gato florido existente na saída do museu, escultura revestida de milhares flores de várias cores e que compõem uma figura de índole controversa.

São 19:00h, cheguei ao quarto 712 do Hotel Gran Bilbao. Perdão, isto não é um quarto, é uma suite!!! Bom, mas numa suite??? Sim!, eu explico.

Quando entrei no hotel gracejei dizendo que ia dormir na garagem… Na recepção deram-me o quarto nº 215. Peguei no cartão e dirigi-me ao 2º andar à procura do mesmo. Ali chegado deparei-me com uma inusitada situação: o quarto estava desarrumado. Irritado, voltei à recepção (o quarto nem tinha vista para a frente rio/cidade, mas para as traseiras) e, apesar da minha irascibilidade, amavelmente, a recepcionista prontificou-se imediatamente a resolver-me a situação e deu-me um novo quarto, este onde me encontro. Simplesmente deslumbrante. Enquanto o outro ficava lá em baixo, atarracado, sem vista, este é uma espaçosa e acolhedora suite no 7º piso com duas grandes janelas com vistas para o rio, com a ponte que nos trás a Bilbao e para uma panorâmica, bastante aberta, da entrada desta cidade. Diria que há males que vêm por bem e jamais vou esquecer este episódio que aqui nestas memórias deixo imortalizado.

Antes do jantar que será às 20:30 tenho ainda tempo para reflectir sobre esta tarde em Bilbao de que destaco, obviamente, a imponência e o vanguardismo do museu de Guggenheim e das suas obras.

Alguns exemplos serão discutíveis, mas como disse o guia, cada um interpreta o que vê à sua maneira. Devemos olhar para as obras de arte com a sensibilidade do coração e não com a sustentabilidade da razão, acrescentou. Tudo é susceptível de interpretações várias e o museu tem tudo. Há inclusive peças no interior e no exterior. Aqui até a Ponte que chega e dá acesso ao museu é obra integrada no espólio do museu, tal como o enorme gato florido já referido.

Há peças no interior de tal dimensão que para as colocarem tiveram que demolir (e reconstruir depois) parte da cobertura de um dos pavilhões. É, de facto, uma visita obrigatória e extraordinariamente enriquecedora e tenho consciência que muitas palavras ficam por escrever e dizer sobre a riqueza e o património que vi e que estão aqui disponíveis. Há muita informação, muitas sensações, muita emoção nesta visita.
Tenho pena que a minha capacidade de absorver e descrever tudo o que aqui ouvi e o que se explicou já não a tenha e, por isso, se perca um pouco da magia que esta viagem ao Guggenheim pode transmitir. A mim resta-me a satisfação das sensações vividas e este pequeno depoimento constituirá tão-somente um apelo, transformando-se num convite, para vir aqui de novo, e redescobrir este fabuloso espaço/museu.

Não me canso de referir, estou na suite 712 deste magnífico hotel situado à entrada da cidade de Bilbao. Era para sair, mas face à qualidade do conforto aqui oferecido, seria um desperdício não usufruir e aproveitar esta comodidade. Só falta aqui uma pessoa. Podia lembrar-me de várias, mas lembrei-me da minha filha mais nova. No entanto, qualquer um dos meus três filhos mereceria estar aqui. É, de facto, um quarto destinado só a “big-people” que deve pagar muito bem para ter este conforto, mas aqui estou eu gozando-o sozinho, que nem um lorde, por causa de um descuido de alguém.

E hoje foi realmente um dia de emoções fortes em que há dois momentos que tenho de destacar. Um foi a dúvida surgida sobre a escultura ternurenta e animalesca do bicho florido em posição sentada em que se discute se é cão ou gato. Eu opinei que se trata apenas de uma “obra de arte, coberta de flores que mudam de acordo com a estação do ano”. É, de facto, um monumento controverso, mas muito bonito e apreciado e quero lá saber se é gato ou cão…

O outro momento interessante e que destaco foi o que aconteceu na visita guiada que fizemos de autocarro pela cidade. Ao passarmos pelo largo oposto ao Sagrado Coração, na Gran Via, a Plaza Elíptica, o guia pediu para repararmos que a praça, no centro, estava ligeiramente rebaixada relativamente ao nível da rua. E a razão era simples: aquele local tinha sido ponto de encontro da alta burguesia da cidade em outros tempos, onde a “grand finesse” se reunia ali para estar e conversar. Com a zona rebaixada ficavam assim os senhores mais protegidos dos ventos e menos sujeitos às corretes de ar… Um detalhe curioso e engraçado e que me passara despercebido a mim quando antes de almoço estivera ali, a pé, exactamente naquele sítio a tirar fotografias.

Além destes dois episódios há ainda mais duas histórias que o guia nos relatou e que vou tentar transcreve-las com o rigor que me foi possível captar no “portugalês” do basco. Uma tem a ver com a Praça Nova e a outra com o Bacalhau, alimento muito apreciado e reconhecido na gastronomia de Bilbao.

E das histórias que se contam daquela “Plaza Nueva”, uma tem a ver com o facto de na construção inicial, esta praça tinha quatro entradas, quatro arcadas que se abriam na construção quadrangular e que davam acesso ao interior do largo. Era assim uma praça completamente rodeada de edifícios de três pisos elevados sobre umas arcadas que, transpostas, era como se penetrássemos num claustro.

Hoje, no entanto, em vez das quatro “portas de entrada”, situadas uma em cada canto do quadrilátero, encontramos uma quinta porta, esta localizada num topo, a meio de uma das alas. Esta nova entrada surge em resultado das bombas, de um ataque aéreo, que caíram sobre Bilbao e que destruíram uma das alas destes edifícios. Na reconstrução decidiram fazer esta entrada porque seria mais fácil e menos dispendiosa a obra.

A outra história, também relacionada com estes trágicos acontecimentos de guerra e com os constantes e sucessivos bombardeamentos, leva-nos até à gastronomia basca e ao famoso bacalhau, aqui cozinhado de mil e uma maneiras diferentes.

O bacalhau é nesta zona o alimento mais cozinhado e consumido pela sua excelente especialidade. E isto porque, conta a história, nos tempos idos das guerras, alguém mandou comprar, para cozinhar, vinte e uma postas de bacalhau e quem recebeu a comunicação percebeu vinte e uma mil… Como estavam em tempo de guerra, a ser cercados pelos inimigos, quem comprou julgou que aquela quantidade era para fazer face a um eventual cerco e teriam que ter comida quanto bastasse.

Assim, aconteceu que durante a dita guerra havia excesso de bacalhau, tudo por causa deste equívoco e então tiveram que reinventar os processos de o cozinhar, cozinhando-o de diversas formas, tipos e maneiras pelo que, durante semanas, só se comeu bacalhau, bacalhau, bacalhau.

Uma das especialidades mais características, apetecíveis e elogiadas nesta região é o “bacalhau mexido” em que, na sua confeção, o bacalhau é movido na caçarola com um movimento de vaivém circular. Este movimento é aludido ao facto de que como caíam muitas bombas, o chão estava sempre a tremer e então com a tremedeira o bacalhau ficava mais saboroso.

E outras e mais histórias o nosso guia local nos foi contando, mas ou eu não percebi, ou não me foi audível, ou não consegui mesmo fixar, o que foi pena, porque, quem sabe, sabe e muito teria ainda para relatar. Mesmo assim posso concluir que foi um excelente dia bastante diversificado, cultural e muito divertido.

São agora 20:05h e estou à espera da hora do jantar para descer. Estou um pouco cansado e, por isso, não sei mesmo se vou ainda regressar a Bilbao e sentir a pulsação da noite nesta cidade. Nós não estamos no centro e, pelo que me apercebi, as zonas com algum interesse estão bem longe daqui. O hotel Gran Bilbao fica situado numa colina, um pouco afastado do centro (dez minutos a descer e quinze para subir) e a zona mais interessante demasiada afastada para confrontar com o meu cansaço e para calcorrear a pé.

Mas andei e fui, não tão longe quanto queria, mas pesquisei um pouco.

São 23:30h, já tomei banho e queria usufruir ao máximo este espaço. Só que como “não há bela sem senão”, aqui chegado, inexplicavelmente, tive uma hemorragia intestinal e lá se foi “o gozo” pleno da suite…

Estou um pouco destroçado, constrangido mesmo, deixei vestígios da “luta sangrenta”, mas só espero que amanhã a situação esteja regularizada e possa prosseguir normalmente o meu passeio, sem resquícios do sucedido.

E é assim desta forma estranha e inusitada que termino o meu segundo dia de viagem por terras dos píncaros da europa, embora ciente que o mundo não vai acabar aqui. Vou tentar dormir.