domingo, 14 de outubro de 2012

PÍNCAROS DA EUROPA - CAP II

Meus amigos, lá fora está um tempo a cheirar a outono e decidi aproveitar para fazer-me ao trabalho. Assim, aqui está, como prometido, o Capítulo II dessa saga que foi a minha viagem a terras do norte de Espanha.

Resta ainda dizer que esta descrição corresponde apenas ao segundo dia, de seis, mas posso acrescentar que nos dias seguintes escrevi muito menos pelo que, o que me falta corresponderá apenas a metade daquilo que já escrevi... (boas notícias hem?)

Carlos Alberto

CAPÍTULO II

Burgos, 5 de Agosto de 2012

08:00h Estou em Burgos, sim, é verdade, mas não sei exactamente onde, em termos geográficos, em relação a outras cidades espanholas. Sei que estou no norte de Espanha, a caminho dos píncaros da europa, mas sem referências de correlação. Ontem à mesa com tanta gente formada, tantos doutores, até me senti mal e deslocado pela minha ignorância. Portanto, não admira que também não me consiga situar mentalmente no mapa...

Hoje a alvorada foi às sete da manhã. Higiene pessoal, pequeno-almoço e arrumar a mala. A roupa para vestir já estava preparada da véspera com uma t-shirt castanha da Lacoste, depois da amarela de ontem. Trago uns calções beges e uns sapatos práticos azulados.

A noite foi muito boa, tranquila, mas muito curta. Quando o despertador tocou achei que o despertador se teria enganado. Mas não. Nada, no entanto, que um bom banho não resolvesse, para acordar.

A manhã está fresca e o céu nublado. Já estou dentro do autocarro da Lusanova, bem adiantado na hora da partida. À mesa do pequeno-almoço também fui o primeiro a chegar. Adivinhe-se o que comi: melão com presunto. Não resisto.

Agora o pessoal já começou a chegar e imaginem-se as conversas. “Então, dormiu bem?” Pergunta um. Outro refere “A minha cama era dura”. Acrescenta o primeiro “Olhe, eu ontem tomei um rico banho e já não saí à noite”.

Entretanto, depois da longa viagem de ontem, a de hoje vai ser mais calma e diversificada. É isso que todos esperamos, além das novas sensações da descoberta que esperamos sentir.

Mudei de lugar no autocarro. Não há necessidade de me sentir enclausurado ao lado de uma pessoa que não conheço. É um tipo de uns cinquenta anos, meio inchado, de óculos redondos e cabelo comprido ondulado em farripas sobre o pescoço.

São 08:20h, começa a música. Vamos para o País Basco. Passámos ao lado da antiga porta da entrada da cidade, aquele arco que dá acesso ao Largo da Catedral de Burgos, e Bilbao é o nosso destino.

São 08:30h de uma manhã bem cinzenta de 15ºC. Entrámos na E70 e vamos em direcção a Guernica, uma pequena cidade (villa) situada numa serra nos picos de Espanha. Esta cidade celebrizou-se pela destruição que sofreu em 26 de Abril de 1937, bombardeada pelos nazis durante a guerra civil espanhola e pelo quadro que Picasso pintou em memória desta tragédia. Quando um nazi lhe perguntou se fora ele que fizera aquilo, Picasso terá respondido “não, foram vocês que fizeram”.

Ontem ainda percorremos centenas de quilómetros a partir de Vilar Formoso e não passámos por nenhuma portagem. Agora é a primeira aqui em Espanha, quando são 8:35h e rumamos no sentido de Bilbao.

As nuvens no céu são altas e estão 14ºC lá fora. Aqui dentro está-se muito bem, situado à vontade, agora sozinho nas traseiras do autocarro. A paisagem é amarela, cerealífera, vazia e plana. O olhar perde-se na contínua imensidão de cores que me ofuscam o sentido e me transportam apenas para um nada mais à frente que bruscamente será decerto interrompido por outras imagens e palavras que não estas. É o tempo dos sonhos, da viagem que nos embala sem percebermos sequer, e de propósito, por onde andamos, por onde nos levam.

Hoje é domingo, mas para nós isso é irrelevante. Quando se anda a passear tanto faz. O trânsito é grande, mas no sentido contrário ao nosso. Talvez o pessoal vá na direcção de Madrid.

Saindo de Castela muda a paisagem e haverá floresta. No País Basco esta será muito industrializada.

A estrada que percorremos é conhecida como a “estrada dos portugueses” porque morrem por aqui muitos em acidentes de viação. Espero que isto não se aplique a nós. Ah!Ah!Ah!

09:00h Estamos a 106 km de Bilbao, na estrada AP1/E80. O trânsito é muito intenso no sentido contrário ao que vamos. Vi um autocarro que dizia no seu destino PORTUGAL (interessante a sensação de vermos o nome do nosso país; aqui faz toda a diferença). Os carros que vejo passar são todos de matrícula estrangeira, nomeadamente, suíços. Já começo a ver ao longe as montanhas e há muitas nuvens sobre elas, uma espécie de chapéu.

Quando entrarmos no País Basco vamos notar grandes diferenças, nomeadamente na sinalização com o nome das localidades, adverte-nos o guia. Têm dois nomes, um em basco e outro em catalão.

Um túnel e eis a serra e toda a sua agressividade rochosa com diversos picos. Passámos por uma espécie de estreito, uma garganta onde afluem várias estradas e até linhas de comboio. Fez-me lembrar as paisagens de “far west”, mas com estradas.

Aqui em Espanha tenho notado que as gasolineiras são predominantemente da CEPSA, algumas AVIA e poucas da portuguesa.

A estrada que estamos a percorrer trás a indicação de E5 além de E80 e AP1. Não sei porquê. Está agora a chuviscar, o que nestas paragens, apesar de agosto, é normal. Estou um pouco à fresca, quando sair acho que vou ter frio.

São 09:20h e estão 16ºC. Estamos na “auto pista do norte”, informa-nos a tabuleta na estrada. O céu aqui está mais carregado, totalmente cinzento. Entrámos na região da cidade de Vitória. Já se vêem os dois nomes nas tabuletas indicativas das localidades. Esta Espanha é um país dividido. Nesse aspecto Portugal, independentemente das rivalidades regionais norte/sul, é um paraíso.

Saímos já da auto pista Vasco-Aragonesa e estamos agora noutra via, “Ongi Etorri”, dizia a placa da estrada com outros nomes por baixo que já não consegui ler. É uma estrada secundária tipo IP. Igay, saída à direita, mas vamos em frente. A paisagem mudou, agora é floresta. Há ursos nesta zona, como lobos, raposas e javalis, diz-nos o guia. É Parque natural, área protegida, acrescenta. Mas trata-se de uma área ampla, aberta; não se pode dizer que vamos pelo meio das árvores. Faz-me lembrar o nosso norte, no Minho, muito verde.

Bilbao 76km, numa placa lilás. É para lá que vamos pelo meio deste clima meio cinzento a cheirar a outono. Chuvisca, os carros trazem as luzes acesas. Lá à frente a paisagem não é melhor e mostra-nos imensas nuvens que cobrem e fazem desaparecer a serra que vamos atravessar. Mas não estou triste por isso; acho até desafiante. Estou a passear, sem compromissos, nem medos. Todavia levo o cinto do assento do autocarro apertado, não vá o diabo tecê-las. A estrada dos portugueses também pode ser esta.

“Pobes Nanclares”, à direita. Nomes estranhos estes, como “A-dos-cunhados” para outros, digo eu. Vamos subir até aos 850 metros pela tal serra que não sei o nome. Faz-se por aqui caça ao veado. Assusta um pouco, não pela caça, mas face ao clima nublado.

Está muito cinzento o tempo. O trânsito é agora quase nulo, como se toda a gente se estivesse a refugiar da adversidade climatérica. Parece que vai chover a potes, bátegas de água que começam a inundar-nos o subconsciente. Não é nada apelativo para quem se desloca por estradas tão longínquas. Estamos na AP-68.

Na paisagem recortam-se agora construções, aqui diferentes, com vivendas tipo casa de bonecas, baixas de telhados de duas águas muito acentuadas. Já se viu uma bandeira basca hasteada numa primeira villa por onde passámos que, ao longe, parece ter um X traçado em toda ela em tons de verde e branco. Ao perto percebemos que a bandeira tem fundo vermelho com uma cruz branca e um X verde. Não sei qual a interpretação que é dada a estes símbolos e cores, mas a minha é que o vermelho pode ser o sangue derramado na luta pela paz simbolizada na cruz branca, sendo o verde do X o objetivo na esperança na vitória final.

Aquilo que acho comum aqui com toda a Espanha é o tom vermelho ou ocre que predomina nas casas, edifícios e em quase todas as construções. Muitas delas têm o próprio tijolo à vista, o que lhes confere muita sobriedade, é verdade. Mas o alto grau de intensidade na combinação destes tons, do meu ponto de vista, imprime à paisagem urbana um aspecto muito austero. A rigidez física que transmite, embora a torne nobre, realça, no entanto, um carácter de antiguidade, como se cansada estivesse da exposição prolongada do tempo. São cores e tons com características do ferro, muito fortes e pesadas que intimidam ao olhar, e que lhes dá um aspecto que me parece robusto, sim, mas carregado e pouco alegre, sobretudo em ambientes outonais como o de hoje.

São 09:42h, agora está a chover e estamos a passar por um banco de nevoeiro. Não se vê nada. Bem-vindos ao inverno. Apesar do intenso nevoeiro, o autocarro não refreou a marcha e vêem-se os cem metros adiante. Bilbao está a 38km e vamos a descer. É o País Basco em todo o seu esplendor. Enquanto isso, aqui dentro o silêncio é absoluto. Nem música. Há quem durma. Da paisagem só se vê o nevoeiro que cobre uma floresta de alto arvoredo. Nada mais para além disso, enquanto se espera que o nevoeiro se dissipe o que começa a acontecer. Mas há ainda muita nebulosidade, céu carregado e a chuva parece iminente.

“Bizkaia” em verde. São quase dez horas e vamos a descer por entre cedros que nos fazem lembrar as paisagens suíças. É o País Basco, mais uma vez com toda a sua força intrínseca de região autónoma e fechada. Pelo meio umas fotos em movimento. Trago duas máquinas fotográficas: a antiga compacta e a Olympus Pen Digital E-PL2 adquirida recentemente e da qual pouco sei ainda tirar o máximo partido. Já tirei uma larga centena de fotos, mas por nenhuma sinto especial interesse. São fotos aleatórias, iguais às que toda a gente tira, sem cunho artístico ou que se realcem.

Chegámos a mais uma portagem. Estamos ainda na AP-68 com Bilbao a 16 km. Mas antes, segundo o programa, vamos fazer um desvio a Guernica para visitarmos o museu local.

As placas de sinalização, aqui azuis, parecem estar escritas em grego com nomes impronunciáveis: Ordezko…, Francia, Basauri. Nem consigo ler as placas porque há também muita informação nelas inscrita. Passámos numa localidade com uma ribeira que segue aqui à nossa esquerda. Há muita indústria pesada. Estamos em Arriaga, diz-nos o guia que é o dormitório de Bilbao. Vamos aqui numa encruzilhada de estradas em que entramos e saímos, contornamos rotundas, viramos e reviramos, é um emaranhando de vias que é difícil de perceber, sobretudo se não vamos na frente do autocarro e pela rapidez com que o percurso é feito. Nota-se que o motorista sabe exactamente para aonde quer ir porque, provavelmente, já fez este percurso imensas vezes.Passamos por Galdakao, Iurreta e estamos sobre a E-70 a 159km de Burgos.

São 10:11h e deixámos Bilbao para trás sem ter ido lá agora. Só iremos no final do dia, além de que o hotel ainda não está preparado para nos receber. Percorremos agora de novo uma zona isolada, de floresta. Deixámos os subúrbios de Bilbao e mais uma portagem, esta pequena em Donastia-San Sebastián na N-634 no sentido de Guernica. Amorebieta surge numa tabuleta. €1.407 é o preço da gasolina 95 nesta estrada. Em Portugal está quase nos €1.70 e os espanhóis ganham quase o dobro do que nós …

Estamos em pleno campo entre árvores que ladeiam a estrada de três faixas, duas ascendentes, quando subimos e ao contrário quando descemos.

O clima é que continua cinzento, como a evocação do lugar que vamos visitar. Curvas e contra curvas, a subir e a descer até Guernica. É uma espécie de embalo para um lugar de pesadelo por entre energias que nos envolvem numa misteriosa carícia mórbida.
O museu de Guernica, chamado Museu da Paz, homenageia os cerca de dois mil mortos do bombardeamento alemão durante a guerra civil espanhola.

12:30h, hora de saída. Foi pena a chuva, mas o tempo que aqui estivemos foi também pouco para explorar esta pequena cidade interior de Gernika, Guernika ou Guernica. Não se entende nada. A grafia muda, os nomes aparecem escritos em várias línguas.

Mas valeu a pena esta visita e esta passagem pelo Museu da Paz. Picasso, como já disse, está ligado a esta terra pelo seu quadro com o mesmo nome e que traduz o horror que aqui se viveu nessa fatídica segunda-feira 26 de Abril de 1937. Há imagens que ilustram a réplica do quadro em tons de cinzento com pessoas e animais esquartejados.

O edifício do museu está dividido por vários pisos e um deles recorda-nos os estilhaços dos bombardeamentos. No chão, sob os nossos pés, através de um piso envidraçado, caminhamos, indirectamente, sobre os escombros dessa tragédia. Há sons e imagens que ilustram esses momentos e, por instantes, sentimo-nos também atingidos, como se levássemos com uma pedra. São imagens violentas, de dor e angústia sufocante que até magoa só de olhar. Noutro piso há cartazes, frases e depoimentos que nos transportam não só para aquela realidade, mas que depois nos trazem para os dias de hoje e para o preço da liberdade.

Para mim, serão estas palavras que aqui transcrevo, que ilustrarão a minha breve passagem por aqui, como as fotos que testemunham aqueles tão cruéis momentos. Outros houve, no entanto, que guardarão no armário os guarda-chuvas que compraram nesta passagem por aqui, algo que, por sinal, muito útil hoje porque o clima continua chuvoso e cinzento. Eu estou vestido à verão, e também houve quem se tivesse precavido com para-ventos ou agasalhos para o clima das terras altas e não tenha sucumbido à intempérie.

Mesmo assim, não deixei de dar uma volta por aí. Visitei uma igreja lateral ao museu, subindo uma escadaria que nos encaminha para um largo. Estamos aí diante de uma outra escadaria de uma enorme igreja de estilo gótico basco, que é a igreja de Santa Maria. Entrei, admirei o seu amplo interior um pouco diferente das igrejas tradicionais e saí com duas ou três fotos tiradas, mas apenas do exterior. A chuva caía agora com mais intensidade. Não desisti e dei comigo diante da estação de comboios de Gernika, na Geltoki Plaza, onde uma escultura em bronze de corpo inteiro e tamanho natural me despertou a atenção. Trata-se da figura Lehendakari José António Aguirre, político basco, o primeiro presidente Euzkadi em terras bascas. Há outras esculturas do género nesta cidade, nomeadamente, um tocador de viola, mesmo no centro e que nos chamam a atenção. Aqui, pelos vistos, investe-se na arte e na cultura. É uma cidade pequena, mas muito interessante pela sua história.

Mas o separatismo nota-se e sente-se muito por aqui. É como se fosse uma energia latente nas pessoas com que nos cruzamos. O Basco ou Euskara é um idioma ancestral que se fala nesta zona, e que é anterior à introdução do latim pelos romanos. É uma língua diferente de quaisquer outras em que “askaricasco” significa “obrigado”. Ninguém os entende e só eles falam esta língua estranha e difícil. Parece um povo à parte.
É domingo e está tudo fechado, excepto os cafés e as doçarias com montras de bolinhos com aspecto muito apelativo e saboroso.

E aqui vamos nós já, estrada fora, contemplando a paisagem fria, triste, escura e avermelhada dos edifícios. Gernika é igualmente uma cidade cinzenta, talvez carregada pelo simbolismo e também pela chuva, embora hajam canteiros de flores que predominam em janelas e varandas de vários edifícios e que salpicam de cores alegres os vasos dependurados. São 12:40h e deixámo-la para trás com um clima invernal.

São 13:10h chegámos a Bilbao, junto ao hotel, mas os quartos não estão prontos, soubemos agora. Entretanto a viagem até aqui foi feita debaixo de chuva impiedosa. Agora só está tudo muito cinzento a cheirar a inverno. Deixámos em Lisboa o verão para virmos aqui inalar a estação oposta. Vamos até ao Centro da cidade.

São 13:30h, estamos na Gran Via, junto à Praça do Sagrado Coração de Jesus onde está um monumento com uma estátua alusiva a Jesus no cimo de um plinto. Vamos sair do autocarro para voltarmos daqui a duas horas. É tempo de cada um por si, em regime livre, ir almoçar.

Antes disso resolvi “girondar” (girar sondando) por aí, apesar de saber que depois vamos percorrer a cidade, no autocarro, com um guia local. E depois de ter estado no Parque da Cidade Doña Casilda, descido a Gran Via até à famosa Praça Elíptica e palmilhado junto ao rio o passeio Uribitarte com a Torre Iberdrola a expiar toda a cidade, percebi que estava na rota não só do porto mais importante de Espanha, como já perto do museu ex-libris desta cidade de Bilbao que visitaremos logo à tarde.

Entretanto, pelo caminho encontrei um fast food da Burger King na estação de comboios de Abando e refastelei-me com um menu tipo, com bacon (adoro bacon), enquanto dividi umas migalhas com uma pomba destemida que por ali adentro se atrevia.

São 15:30h e saímos com o guia local. Grandes e interessantes as histórias: de Nicolau ao Bacalhau passando pela guerra e pelas Chiquitas; descrições entusiásticas e intensivas com o separatismo sempre à flor da pele, pronto a explodir. Há vários dialectos, explica, porque os bascos viviam muito isolados e refere que é mais antigo que o latim. Leva-nos da igreja de São Nicolau à Praça Central e, à saída, faz questão de nos mostrar, acima das nossas cabeças, numa varanda, a bandeira do Athletic Club Bilbao.

São 18:50h, estão 20ºC e não chove. O mau tempo já lá vai. Regressámos da visita que fizemos, também com este guia local, ao Museu Guggenheim. Simplesmente extraordinário.

Entramos num mundo novo e diferente de tudo o que já vimos em que o edifício se constitui, em si mesmo, uma obra de arte integrante do museu. Grande espaço onde se misturam grandes superfícies brancas de paredes sem geometria aos amplos painéis de vidro que nos atiram para a paisagem exterior como se também ela fosse parte do museu. Várias exposições em três pisos que ficam incompletas numa visita de duas horas e picos.

Em suma, este parece ter sido, de facto, um dia muito divertido e cultural, que valeu a pena, mas que me soube a pouco. Faltou ou não houve tempo para irmos debaixo da “mamã”, nome dado pela autora Louise Bourgeois à aranha que, também no exterior, faz parte do património das peças do museu. E a visita consumou-se a apreciarmos com detalhe o gato florido existente na saída do museu, escultura revestida de milhares flores de várias cores e que compõem uma figura de índole controversa.

São 19:00h, cheguei ao quarto 712 do Hotel Gran Bilbao. Perdão, isto não é um quarto, é uma suite!!! Bom, mas numa suite??? Sim!, eu explico.

Quando entrei no hotel gracejei dizendo que ia dormir na garagem… Na recepção deram-me o quarto nº 215. Peguei no cartão e dirigi-me ao 2º andar à procura do mesmo. Ali chegado deparei-me com uma inusitada situação: o quarto estava desarrumado. Irritado, voltei à recepção (o quarto nem tinha vista para a frente rio/cidade, mas para as traseiras) e, apesar da minha irascibilidade, amavelmente, a recepcionista prontificou-se imediatamente a resolver-me a situação e deu-me um novo quarto, este onde me encontro. Simplesmente deslumbrante. Enquanto o outro ficava lá em baixo, atarracado, sem vista, este é uma espaçosa e acolhedora suite no 7º piso com duas grandes janelas com vistas para o rio, com a ponte que nos trás a Bilbao e para uma panorâmica, bastante aberta, da entrada desta cidade. Diria que há males que vêm por bem e jamais vou esquecer este episódio que aqui nestas memórias deixo imortalizado.

Antes do jantar que será às 20:30 tenho ainda tempo para reflectir sobre esta tarde em Bilbao de que destaco, obviamente, a imponência e o vanguardismo do museu de Guggenheim e das suas obras.

Alguns exemplos serão discutíveis, mas como disse o guia, cada um interpreta o que vê à sua maneira. Devemos olhar para as obras de arte com a sensibilidade do coração e não com a sustentabilidade da razão, acrescentou. Tudo é susceptível de interpretações várias e o museu tem tudo. Há inclusive peças no interior e no exterior. Aqui até a Ponte que chega e dá acesso ao museu é obra integrada no espólio do museu, tal como o enorme gato florido já referido.

Há peças no interior de tal dimensão que para as colocarem tiveram que demolir (e reconstruir depois) parte da cobertura de um dos pavilhões. É, de facto, uma visita obrigatória e extraordinariamente enriquecedora e tenho consciência que muitas palavras ficam por escrever e dizer sobre a riqueza e o património que vi e que estão aqui disponíveis. Há muita informação, muitas sensações, muita emoção nesta visita.
Tenho pena que a minha capacidade de absorver e descrever tudo o que aqui ouvi e o que se explicou já não a tenha e, por isso, se perca um pouco da magia que esta viagem ao Guggenheim pode transmitir. A mim resta-me a satisfação das sensações vividas e este pequeno depoimento constituirá tão-somente um apelo, transformando-se num convite, para vir aqui de novo, e redescobrir este fabuloso espaço/museu.

Não me canso de referir, estou na suite 712 deste magnífico hotel situado à entrada da cidade de Bilbao. Era para sair, mas face à qualidade do conforto aqui oferecido, seria um desperdício não usufruir e aproveitar esta comodidade. Só falta aqui uma pessoa. Podia lembrar-me de várias, mas lembrei-me da minha filha mais nova. No entanto, qualquer um dos meus três filhos mereceria estar aqui. É, de facto, um quarto destinado só a “big-people” que deve pagar muito bem para ter este conforto, mas aqui estou eu gozando-o sozinho, que nem um lorde, por causa de um descuido de alguém.

E hoje foi realmente um dia de emoções fortes em que há dois momentos que tenho de destacar. Um foi a dúvida surgida sobre a escultura ternurenta e animalesca do bicho florido em posição sentada em que se discute se é cão ou gato. Eu opinei que se trata apenas de uma “obra de arte, coberta de flores que mudam de acordo com a estação do ano”. É, de facto, um monumento controverso, mas muito bonito e apreciado e quero lá saber se é gato ou cão…

O outro momento interessante e que destaco foi o que aconteceu na visita guiada que fizemos de autocarro pela cidade. Ao passarmos pelo largo oposto ao Sagrado Coração, na Gran Via, a Plaza Elíptica, o guia pediu para repararmos que a praça, no centro, estava ligeiramente rebaixada relativamente ao nível da rua. E a razão era simples: aquele local tinha sido ponto de encontro da alta burguesia da cidade em outros tempos, onde a “grand finesse” se reunia ali para estar e conversar. Com a zona rebaixada ficavam assim os senhores mais protegidos dos ventos e menos sujeitos às corretes de ar… Um detalhe curioso e engraçado e que me passara despercebido a mim quando antes de almoço estivera ali, a pé, exactamente naquele sítio a tirar fotografias.

Além destes dois episódios há ainda mais duas histórias que o guia nos relatou e que vou tentar transcreve-las com o rigor que me foi possível captar no “portugalês” do basco. Uma tem a ver com a Praça Nova e a outra com o Bacalhau, alimento muito apreciado e reconhecido na gastronomia de Bilbao.

E das histórias que se contam daquela “Plaza Nueva”, uma tem a ver com o facto de na construção inicial, esta praça tinha quatro entradas, quatro arcadas que se abriam na construção quadrangular e que davam acesso ao interior do largo. Era assim uma praça completamente rodeada de edifícios de três pisos elevados sobre umas arcadas que, transpostas, era como se penetrássemos num claustro.

Hoje, no entanto, em vez das quatro “portas de entrada”, situadas uma em cada canto do quadrilátero, encontramos uma quinta porta, esta localizada num topo, a meio de uma das alas. Esta nova entrada surge em resultado das bombas, de um ataque aéreo, que caíram sobre Bilbao e que destruíram uma das alas destes edifícios. Na reconstrução decidiram fazer esta entrada porque seria mais fácil e menos dispendiosa a obra.

A outra história, também relacionada com estes trágicos acontecimentos de guerra e com os constantes e sucessivos bombardeamentos, leva-nos até à gastronomia basca e ao famoso bacalhau, aqui cozinhado de mil e uma maneiras diferentes.

O bacalhau é nesta zona o alimento mais cozinhado e consumido pela sua excelente especialidade. E isto porque, conta a história, nos tempos idos das guerras, alguém mandou comprar, para cozinhar, vinte e uma postas de bacalhau e quem recebeu a comunicação percebeu vinte e uma mil… Como estavam em tempo de guerra, a ser cercados pelos inimigos, quem comprou julgou que aquela quantidade era para fazer face a um eventual cerco e teriam que ter comida quanto bastasse.

Assim, aconteceu que durante a dita guerra havia excesso de bacalhau, tudo por causa deste equívoco e então tiveram que reinventar os processos de o cozinhar, cozinhando-o de diversas formas, tipos e maneiras pelo que, durante semanas, só se comeu bacalhau, bacalhau, bacalhau.

Uma das especialidades mais características, apetecíveis e elogiadas nesta região é o “bacalhau mexido” em que, na sua confeção, o bacalhau é movido na caçarola com um movimento de vaivém circular. Este movimento é aludido ao facto de que como caíam muitas bombas, o chão estava sempre a tremer e então com a tremedeira o bacalhau ficava mais saboroso.

E outras e mais histórias o nosso guia local nos foi contando, mas ou eu não percebi, ou não me foi audível, ou não consegui mesmo fixar, o que foi pena, porque, quem sabe, sabe e muito teria ainda para relatar. Mesmo assim posso concluir que foi um excelente dia bastante diversificado, cultural e muito divertido.

São agora 20:05h e estou à espera da hora do jantar para descer. Estou um pouco cansado e, por isso, não sei mesmo se vou ainda regressar a Bilbao e sentir a pulsação da noite nesta cidade. Nós não estamos no centro e, pelo que me apercebi, as zonas com algum interesse estão bem longe daqui. O hotel Gran Bilbao fica situado numa colina, um pouco afastado do centro (dez minutos a descer e quinze para subir) e a zona mais interessante demasiada afastada para confrontar com o meu cansaço e para calcorrear a pé.

Mas andei e fui, não tão longe quanto queria, mas pesquisei um pouco.

São 23:30h, já tomei banho e queria usufruir ao máximo este espaço. Só que como “não há bela sem senão”, aqui chegado, inexplicavelmente, tive uma hemorragia intestinal e lá se foi “o gozo” pleno da suite…

Estou um pouco destroçado, constrangido mesmo, deixei vestígios da “luta sangrenta”, mas só espero que amanhã a situação esteja regularizada e possa prosseguir normalmente o meu passeio, sem resquícios do sucedido.

E é assim desta forma estranha e inusitada que termino o meu segundo dia de viagem por terras dos píncaros da europa, embora ciente que o mundo não vai acabar aqui. Vou tentar dormir.

O TEMPO


Sei que os tempos não estão para a brincadeiras, mas mesmo assim não resisto de transcrever o que deu na real gana num e-mail para uma amiga minha.

TEMPO

O tempo, sempre o tempo, com ou sem tempo.
O tempo que tudo apaga e tudo revela, na querela.
Um tempo que dá para tudo, como no entrudo.
Fingirmos o que somos, querermos o que não temos,
esperamos que o tempo nos dê tempo do que tememos.
E sorrimos por um tempo, com alento,
na esperança que o tempo que nos lança
na cruzada que esperamos seja boa a jornada.

Tempo, sempre o tempo que as pessoas procuram,
para justificar as amarguras de um tempo de agruras.
Palavras que o tempo leva e nos eleva, até cairmos
na desgraça do que somos e desistirmos,
de lutar pelo tempo, contra o tempo, sem tempo
para sorrirmos antes que a morte nos faça perder o alento.

E prontos, é ixto. ásbezes dáme axim extes xeliques de intlegencia desmejurada e na me aguento nas canetas e comexo a iscriber a iscriber e prontos, xou eu mexmo em toda a minha pelenitude de um xer errante, xim, mas um xer ornesto no berdadeiro chentido da palabra.

Nota: os erros xão da pressa de iscreber deprexa e do nerbojo miudin-ho.Pecho per-dão.

Carlos Alberto (o nome já o iscrebo ámuito tempo e natem erros dexerteja)