sábado, 7 de abril de 2012

ADITAMENTO AO TRABALHO


Quero aqui, antes de mais, penitenciar-me da minha falha que considero grosseira por me ter esquecido dessa figura ímpar do panorama hilariante português (no bom sentido, diga-se), desse homem notável, de uma altura e desenvoltura de que poucos se podem orgulhar e nem eu, que tenho um metro e oitenta e oitenta quilos de peso, consigo ter.

Estou a falar desse grande homem que não se mede aos palmos, mas às colheres de graça que ele tem: como é que ele se chama mesmo que não consigo lembrar-me? (esta minha idade, quase na reforma, já não me ajuda nada), mas sei que é muito conhecido e até entrou naquele programa “o último a rir”, ou como é que se chamava mesmo “a sair?”, uma coisa assim, não era? Pois, estou mesmo a falar do Bruno Nogueira. (Ninguém vai acreditar, mas tive mesmo que ir ao Google porque, desculpa Bruno, o nome não me saia).
É verdade Bruno, não falei no teu nome, como uma daquelas pessoas nomeadas por mim para eu pedir ajuda e solidariedade, mas tu tás cá, na minha amizade, na minha lista principal (tenho uma lista suplente, tipo plano B, mas não digo para não ferir susceptibilidades).

Isto é um pouco como as festas de Natal nos Hospitais, participamos graciosamente por solidariedade, não é para aparecer... E tu não sabes, mas eu sou teu amigo, acredita Bruno. Não sei se tens página no facebook, mas se tiveres também vou fazer lá um “gosto”, fica prometido, ok?
Dito isto, este aditamento, perfeitamente justificado e imperioso, é apenas para dizer-te, Bruno, que também és uma daquelas pessoas de quem facilmente gostamos, sobretudo se não estivermos muito perto. De facto, imagino a Maria Rueff a olhar para ti, ou a Dina, ou uma outra miúda qualquer que tenha um metro e cinquenta sempre a olhar para cima, deve ser muito desconfortável e para apanhar torcicolos deve ser muito fácil. Todavia, manter uma conversa contigo, sentado, deve ser muito bom e já não acho tão penoso. Portanto, se estiveres disponível ou quando puderes, diz que sim, que eu vou ter contigo para tu não perderes muito tempo. Falamos, tratamos da tua solidariedade, arranjas-me trabalho, nem que seja a divulgar a minha perseverança de chegar quase aos sessenta e querer ainda armar-me aos cucos, ou seja, achar que serei capaz de escrever umas graçolas para o pessoal rir e pronto, está feito.

Passei a vida nas obras a assentar tijolos e, agora que fiquei desempregado, comecei a olhar para estes putos que acabaram de nascer e que nem viram o 25 de Abril (e eu que até passei por ele) devo ter uma palavra a dizer, não?!

Mas sei que não é fácil, com a crise, os cortes nos subsídios, o Benfica fora das competições europeias, fazer rir as pessoas é obra. Mas aqui estou. A minha família já riu toda, agora só faltas tu. Que tal, há talento ou tenho que esperar pela próxima reencarnação?

Mas quanto àquele assunto, Bruno, também tu fazes parte do meu grupo restrito de pessoas de quem gosto. Olha, por exemplo, ele nunca me fez mal nenhum e, no entanto, detesto-o sem saber porquê: aquele tipo que é do júri dos Ídolos, aquele mal-encarado de quem ninguém gosta: esse, o Manuel Moura dos Santos. No entanto, por ti não tenho esse sentimento; acho-te um tipo simpático, muito alto, sim, mas simpático, como um filho que gostaria de ter, tás a ver?.

És, no entanto, e apesar de tudo, um tipo de pessoa que não inspira muita segurança. Não a mim, claro, mas é o que ouço. Isto porque tens umas pernas muito fininhas e isso não dá aquela confiança que uma pessoa precisa para gostar mesmo muito da outra. Vê, por exemplo, o caso das miúdas que gostam de ver futebol e que vão à bola sem perceberem nada de táticas: é para verem as pernas dos jogadores, não é para os verem jogar, que para isso estamos lá nós.
Foi por isto Bruno que pensei numa primeira instância mais no RAP, do que em ti, ele tem melhores pernas que tu. Mas aqui estou a corrigir o erro e a dizer-te que também és fixe e que penso que não sou da altura que tenho, mas da altura que penso, penso eu.

Fica bem enquanto eu espero… sentado.

Carlos Alberto 05-04-2012

PS Desculpa tratar-te por tu assim à primeira, mas sabes como é, é a tua presença que nos inspira muito à vontade, visto pela televisão.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

DEIXEM-ME TRABALHAR


Hoje resolvi vir aqui fazer um apelo de solidariedade. Será uma espécie de carta fechada ao actor Ricardo Araújo Pereira de quem eu sou, com mais cerca de pelo menos cinco, seis milhões de portugueses, um fervoroso adepto (não estou a incluir as crianças com menos de cinco anos, nem aqueles que não têm ou não vêem televisão).

Foi um assunto que eu ponderei muito bem e, por exemplo, não pensei no Herman e pensei no Ricardo. Mas se o Herman me estiver a ler, oh Herman, acho-te fantástico!!!, não ficas a dever nada ao RAP e, se calhar nalguns aspectos até és melhor, mas… pelo menos lembrei-me de ti, anota isso, ok?.

Mas porquê uma carta ao RAP e não ao Governo ou ao Presidente da Nação, ou ao Cristiano Ronaldo ou mesmo ao Mourinho?
Essa é uma boa pergunta, mas se não resultar com o Ricardo reenvio para o CR7 e se não der também com ele, vou a deus, ou seja, vou dirigir-me ao grande José Mourinho (nem que seja porque vivo no distrito de Setúbal de onde ele é natural). O que é que isso tem a ver?, mais à frente se perceberá, mas eu explicarei, não vale a pena pensar-se que vou pôr aqui alguém a esforçar-se muito com raciocínios elaborados ou subterfúgios muito esquisitos. Eu sou um homem simples, da cidade, sim, mas simples. Um homem que não despreza a vida do campo nem das vacas, mas que gosta muito da cidade, com ou sem leite.

Mas a pergunta era: porquê o RAP e não as outras grandes vedetas portuguesas e mundiais ou mesmo aos órgãos do Estado?
A questão é simples: o Ricardo é uma pessoa mais humilde, está ainda cá um pouco em baixo e ainda precisa de angariar protagonismo (sim, eu sei que está em duas rádios nacionais, que tem recusado convites, que não lhe falta trabalho); mas por outro lado, o Ronaldo e o Mourinho já não precisam de fazer solidariedade: já têm a sua conta e não vão ligar nenhuma ao meu apêlo. A probabilidade que tenho de sucesso com eles é muito menor (nem percebo nada de futebol).

O Ricardo, não, está agora a balançar-se, está a ter algum êxito (em Portugal e no Brasil) e vai querer saber a minha história e vai, com certeza, senão ajudar-me, dizer-me, com franqueza, o que posso fazer e por onde devo ir. Ele é jovem, mas sabe muito!
Com esse seu simples gesto, qual pena soprada ao vento, vai querer contribuir de forma decisiva para a prossecução do seu sucesso, (ele ganhará notoriedade e pelo menos mais uns seis ou sete “gosto” (meu, da minha família e de alguns dos meus amigos) na página dele no facebook) e crescerá a nível social, naquilo que diz respeito à solidariedade, nomeadamente, no que diz respeito ao ajudar os outros, aqueles que precisam, como é o meu caso e isso fica muito bem a qualquer figura pública, como é o RAP.

Acho que ir aos hospitais, às escolas é importante e um gesto bonito, mas ajudarmos um estranho, alguém que nunca vimos nem mais gordo, nem mais magro é um gesto muito nobre e relevante: “ajudar alguém sem olhar a quem”… (por acaso é a mim, mas pronto).

E quanto aos órgãos do Estado, isso está posto de parte. E está fora de questão, porque se lhes vou pedir ajuda ainda me cobram algum imposto ou uma taxa especial relativa à mais-valia de me socorrer aos fundos do Estado. Além disso ainda posso ser incriminado por tráfico de influências e ainda tenho que pagar por, numa altura de crise como esta, estar a querer subverter o estado da economia sustentada e a contribuir de forma acintosa para o agravamento do défice. Portanto, isso eu não quero, não quero passar por essa vergonha, e vou pedir ajuda a quem pode, a quem tem inteligência suficiente para ser capaz de sorrir, digo chorar, destas minha palavras e não socorrer-me de um governo austero que hoje diz uma coisa e amanhã diz outra.

E eu até poderia ser enganado e dizerem-me que sim hoje, que sim senhor, que trabalho não têm (já têm motoristas e secretários ou adjuntos a mais), mas que eu teria uma subvenção vitalícia qualquer. Mas depois, no dia seguinte ainda me mandavam à fava, que era um malandro e coisas desse género ou arranjavam uma justificação capciosa, como por exemplo, “Desculpe lá mas o dinheiro já não dá para si porque nos surgiu uma despesa com que não estávamos à espera, nomeadamente, pagar a multa de excesso de velocidade de Mário Soares que disse que o Estado é que pagava”. Realmente coisas que não lembraria o diabo. E eu teria que entender e meter o rabo entre as pernas, como de resto, já tenho.
Posto isto, acho mesmo que o Ricardo é a pessoa certa. E porquê? Porque temos várias coisas em comum, temos várias afinidades, senão vejamos:

Primeiro, ele é alto como eu. Ele sabe escrever bem e eu também sei escrever. Ele tem mais de trinta anos e eu também, quase o dobro. Ele é Pereira e eu também (será que não somos da mesma família? Dava-me um jeito do caraças…). Depois ele é Ricardo e tenho um filho com o mesmo nome (esta é boa!) e depois ele é inteligente e eu não (como os contrários se atraem aqui funciona essa lei). Outra coisa que temos em comum e esta é talvez a mais relevante é que somos SEMPRE RIVAIS: ele é do Benfica e eu sou do Sporting, embora tenhamos estádios na mesma rua. Por fim, Ele não acredita em Deus e eu estou quase a chegar lá. Se o Ricardo me ajudar, foi Deus que me pôs no seu caminho e conseguirei provar ao Ricardo que ele está enganado, senão estou eu (vamos ver quem tem razão?).

São pois estas questões que me puseram em rota de colisão com o grande Ricardo Araújo Pereira. Será que eclodimos um com o outro? (veja os próximos textos neste blogue, um blogue para me servir e servir a COST.

Ao contrário do que parece à primeira vista a COST não é uma organização lucrativa, mas é apenas a sigla de Comunidade Oportunista e Solidária dos Tristes, (embora haja quem nos chame de Trastes, vá-se lá saber porquê). Já agora fazem parte desta recente comunidade pessoas como o meu pai e minha mãe, (já falecidos), como sócios honorários, os meus três filhos, um meu vizinho e quatro amigos meus, embora um deles esteja no estrangeiro e conto, se quiser aderir, com o seu apoio para fazer parte desta comunidade que nasceu cheia de força anteontem, quando eu pensei, quando estava a lavar os dentes, em fazer este texto.

Aqui chegado só me resta dizer que gostava de conseguir algum protagonismo na minha vida que se está a apagar. A questão é (assim de chofre, toma), se o Ricardo me arranja trabalho? Sei lá, limpar os vidros do escritório, da casa (sou uma pessoa asseada), levá-lo de manhã de carro ainda a dormir à radio, também moro na margem sul (e assim sempre descansa mais um bocadinho), ler as cartas (longas como esta que dão um trabalhão enorme a ler e sempre posso fazer a selecção do que interessa), ler em diagonal os livros para um sketch qualquer em que não tem que fazer figura de que já os leu), ou mesmo os e-mails que recebe, assinalar e separar as facturas dos recebimentos, por exemplo; levar os filhos à escola (sou muito responsável e também tenho dois filhos como o Ricardo). Enfim, sei que não sou bonito, nem larilas, que tenho quase sessenta anos, mas queria ainda ser útil, agora que estou desempregado e à procura do primeiro emprego (e repare que não disse do primeiro trabalho). Veja-me lá isso Ok?!
Finalmente desvendar aqui a questão que atrás deixei em aberto no quarto parágrafo linhas quatro e cinco da página número um e que se prende com o facto de relativamente ao Mourinho, temos em comum, o facto de termos residência fiscal no mesmo distrito, o que já é uma aproximação e uma afinidade. Teremos outras, mas não é hora para isso. 

Mesmo finalmente, para finalizar mesmo (porque está a faltar-me a tinta, só por isso) o CR7 aparece aqui referenciado porque tenho um filho parecidíssimo com o Cristiano, mas só mesmo de aspecto e que eu bem podia ter tido a sorte do meu Ricardo ser o Cristiano (agora não tinha que andar por aqui a pedinchar a ninguém). Mas fica atento Ronaldo que pode ser que se o Ricardo não me ligar nenhuma, sempre te darei a oportunidade de “fazeres bem sem olhar a quem” (e pode ser a mim, nem imaginas o quanto isso me faria feliz!!!).

PS: Depois desta conversa toda, o que sobra é um texto que considero uma carta fechada. E porquê? Porque, estupidamente, não a vou enviar a ninguém. Ficará aqui na minha página do blogue à espera que alguém a abra e depois, então, sim, depois de encontrada será uma carta aberta, ou seja, é uma espécie de carta que fizemos e à qual ainda não pusemos o sêlo, ou então, uma outra figura de estilo que aqui se adapta bem que é, ter um boletim do euro milhões com os números certos e não o registarmos.  Será que há jackpot esta semana e ainda vou a tempo?
Carlos Alberto  05-04-2012

quarta-feira, 4 de abril de 2012

"O REINO ONDE NÃO FORAM FELIZES PARA SEMPRE"



Era uma vez um rei e uma rainha que viviam num grande castelo de uma pequena ilha, muito, muito distante de nós e que se situava no meio de um oceano chamado Atlântico. Estamos em pleno século de um tempo que nunca existiu, atrás da nossa memória.
Ele era o Rei Marcus, homem bom, mas teimoso. Não era um homem robusto, de barbas grandes e austero, de rosto enrugado, típico dos reis que conhecemos dos outros reinos, mas impunha o seu respeito aos demais: era um homem de poucas palavras, tinha uma figura esguia e o cabelo curto e escasso. Ela, por outro lado, era uma mulher muito bonita e elegante. Isis, de seu nome, era uma rainha esbelta, formosa, de traços perfeitos, de sorriso fácil. Muito paciente, simpática e acessível para as pessoas, era por isso muito admirada e estimada por todos. Já o nosso rei, sempre sisudo e mal disposto, não cativava tanto as pessoas. No entanto, sua alma era afinal tão frágil, como de um humilde homem, e apenas se escondia atrás dessa máscara austera para se demarcar dos que lhe queriam roubar o trono.

A ilha onde viviam era verde e encantada: as árvores eram grandes e imponentes onde as criptomérias sobressaiam. Os prados, extensos recortados por muros de pedra e os campos, na primavera, cheios de flores de todas as cores, onde se destacavam as hortênsias: cada conjunto mais lindo que o outro. Vivia-se num paraíso onde os vários tons dos verdes se misturavam em cenários edílicos de beleza digna de uma tela pintada.
Por ali, com frequência, se viam pequenos coelhos que saltitavam pelas pernas das pessoas, atravessando-se no caminho destas e fugiam, lestos como lebres, escondendo-se atrás dos arbustos. Era como se estivessem a brincar uns com os outros e a desafiarem quem aparecia. Era, por isso, maravilhoso poder ficar ali parado, uns instantes, a olhar para eles naquelas correrias furtivas por entre o arvoredo, como se, com o olhar, as pessoas fossem verdadeiros predadores daquelas pequenas e redondas figuras saltitantes de pêlo acinzentado.

Também havia uma montanha, enorme, tão enorme que ia quase até ao céu. Pelo menos assim parecia vista cá de baixo. Ninguém se atrevia a subi-la porque ela deitava fumo de vez em quando: dizia-se que era quando estava zangada, e temia-se que ela cuspisse lava, como já acontecera, se alguém a desafiasse, escalando-a. Assim aquela sumptuosa montanha erguia-se no meio da ilha e dominava toda a paisagem, como um vulcão meio adormecido que todos temiam, e destacava-se recortada na paisagem deslumbrante e magnífica da ilha.

Os cheiros a campo e a terra molhada eram intensos e o aroma suave de flores campestres inalava-se e sentia-se como em nenhum outro lugar do mundo. Se imaginássemos um paraíso na terra seria aqui neste lugar, nesta ilha muito distante com uma montanha a vigiar todo o horizonte.

Nesta ilha longínqua, as pessoas eram quase todas felizes, viviam bem e no reino respirava-se paz, amor e harmonia. E as pessoas não eram todas felizes porque, como em todos os reinos, terras e mares, há pessoas más que vivem apenas na sombra para fazer mal aos outros. Acabam por destruir a natureza, os jardins, sujam os caminhos e só atrapalham a vida daqueles que querem construir os parques, as aldeias, as casas e viver uma vida em paz aproveitando as coisas boas que a natureza tem para dar.

Mas o rei Marcus e a rainha Isis procuravam o entendimento de todos e viviam na tolerância e com o espírito construtivo de quem queriam que todos fossem felizes, como eles eram. De facto, podia-se dizer que aqueles reis eram o casal mais feliz da ilha e, se calhar, do resto do mundo. Não por serem rei e rainha, mas porque o amor que sentiam um pelo outro era realmente muito grande e invejável.
Apesar de bastante mais velho que ela, o rei Marcus, com a maior das ternuras, dizia-lhe muitas vezes: “que se houvesse uma eleição sobre quem eram, à face da terra, os dez homens mais felizes do mundo, ele seria um deles”. Da mesma forma, e como a amava profundamente, também lhe dizia: “que se houvesse na terra uma eleição sobre quem eram as dez melhores mulheres do mundo, ela seria uma delas, eleita e destacada das demais”.

O amor que sentiam um pelo outro não parecia terreno, mas espiritual; era um amor divino, como uma bênção de Deus. Amavam-se e até fizeram pactos e juras de que seriam um do outro para o resto das suas vidas, sendo realmente as pessoas mais felizes desde ali até ao infinito.

E foi neste espirito de profundo e intenso amor que um dia, depois de uma viagem pelos mares que atravessavam o seu reino, no cansaço desta, deitaram-se exaustos, mas antes de adormecerem entregaram-se e entrelaçaram-se em promessas de amor e o rei beijando sua esposa Isis disse-lhe que lhe ia dar um filho.

E assim aconteceu. De facto, a rainha ficou grávida e uns meses depois nasceu uma menina. Diziam que a rainha não podia ter filhos e todos acharam que foi um milagre aquele nascimento. Fizeram uma grande festa  e decidiram chamar-lhe Madalena, em honra ao lugar onde se conheceram.

Madalena tornou-se numa criança fantástica, linda como a mãe, muito inteligente e com grande capacidade para ajudar as outras crianças, sempre pronta a dar-lhes conselhos e a ser amiga delas.

Mas chegou um dia malvado, que ninguém imaginara viver alguma vez, em que o paraíso se transformou num inferno. Quando nada o fazia prever, o vulcão adormecido acordou e começou a expelir fogo. Estavam todos a dormir e foi trágico e diabólico o que se seguiu.

As pessoas começaram a fugir e o rei providenciou que sua esposa e filha saíssem dali no primeiro barco para terras distantes, para fugir à catástrofe que aí vinha; mas ele teria que ficar, como rei, para organizar a população e seria o último a deixar a ilha. E assim aconteceu. Milagrosamente não morreu ninguém. Por fim, meteu-se a caminho em busca da sua mulher amada e da sua filha que o esperariam do outro lado do mundo.
Tinha-se passado algum tempo e não as encontrou, à sua espera, quando desembarcou naquele outro reino, do outro lado do mundo, onde foram acolhidos. A rainha estava diferente, era como se não fosse a mesma mulher e tivesse perdido o brilho no olhar. Disse-lhe, depois de alguma insistência dele, que já não o amava. O rei Marcus empalideceu, estremeceu, mais do que na noite em que o vulcão explodiu e não acreditava no que os seus ouvidos lhe diziam. Não podia ser, algo de muito estranho se passara para haver tão radical mudança. Seriam os ares da mudança que lhe teriam feito mal? Com que companhias sua esposa se aconselhara e intimamente se relacionara para tomar tais atitudes? Ela que tinha sido, em tempos passados, a melhor mulher do mundo, que tinha sido a mulher dos seus sonhos, onde estava ela agora?

Afinal, aquela mulher tão especial e diferente que o rei Marcus conhecera, era agora uma mulher vulgar, igual a tantas outras. Uma mulher que se perdera na ilusão da sua juventude por amores provavelmente interesseiros de um “Apolo” de conveniência. Alguém que não só a soube cativar e atrair para si como lhe dividiu a alma com promessas de um futuro mais risonho.
O rei Marcus estava de rastos, completamente desorientado. Perdera o trono, a mulher e a filha que ficara com a mãe e viu-se, num repente, dentro de um sismo humano, perdido e só no mundo, sem nada, sem objectivos, sem reino, sem amor, sem paz. Pensou nessa altura que teria sido melhor ter sido engolido pelo vulcão e passou grande parte do que restou da sua vida a chorar pelo que perdeu e pela sua pouca sorte e infelicidade, como uma verdadeira tragédia para a sua vida. Não desejava a ninguém o sofrimento por qua passava, eram momentos de profunda amargura, tristeza e desilusão.  

Mas certo dia o velho rei Marcus acordou desse pesadelo que o atemorizava, abriu os olhos e pensou que aquilo tinha que ter um fim. Não podia continuar a sofrer por quem não merecia. Sentiu-se com a coragem de um jovem que já não era, com a força de um guerreiro a quem lhe entregaram a espada de combate e com a energia de uma onda de mar revoltosa e capaz de mover um império. De um salto levantou-se da cama onde caíra enfermo e partiu à conquista de outros sentimentos, em outro reino, algures.

Encontramos então o rei Marcus numa viagem de barco à procura do seu destino e lá estava ele a conversar com uma donzela, aparentemente disponível e que engraçara com ele.

Vemo-lo ali muito interessado e entusiasmado pela aparente conquista. Trata-se de uma outra rainha que viaja em companhia da sua família. Parece gente também meio perdida em busca de algo. Não aparentam o que na verdade são: as propriedades, os bens, as riquezas que possuem, mas naquele momento não é isso que é importante. Só mais tarde o rei Marcus se aperceberá disso quando é convidado para um banquete no reino de Dona Maria Sepúlveda, matriarca da família.

Depois de algum convívio com a filha Celeste, com quem travara conhecimento naquele passeio de barco no mar do Olimpo e de criada uma afinidade muito grande com ela, rei Marcus começa a aperceber-se do quanto infelizes são todos. Apesar das suas riquezas, dos bens que têm, dos castelos, dos palácios, falta-lhes, no entanto, o essencial para a vida humana: o amor, o aconchego, o abraço, o colo.

Rei Marcus acaba, no entanto, por se envolver com a rainha Celeste e chega mesmo a ir viver com ela. Ele não tem nada e ela tem tudo para o fazer feliz. Tenta apaixonar-se por ela, mas não consegue porque a nova rainha não deixa que ele se aproxime demais. Primeiro ela diz-lhe que ele é apenas uma visita do palácio, depois porque não gosta de certas manifestações de carinho: um simples beijo incomodava-a, e constantemente o repreendia das suas manifestações, como uma carícia, revelando sempre uma insensibilidade muito grande.
Rei Marcus sofria com aquele comportamento - porque era um homem cheio de amor para lhe dar - e achava-o estranho, mas era capaz de entender que as causas vinham de um passado difícil, com relações de grande sofrimento em que a rainha teria sido apenas vítima de algum trauma que a afectava e a trazia deprimida até aquela altura.

Ele tinha assim pela frente um duplo desafio: conquistar o seu amor e reabilitá-la para a felicidade, além de naturalmente reconquistar o amor e a felicidade que ele também perdera.

E foi o que fez, tentando proporcionar-lhe o que de melhor ele tinha par dar e sabia. Ela foi também correspondendo e aceitando as mudanças e quase que me arrisco a dizer que conseguiram apaixonar-se e amar-se mutuamente: andavam de mãos dadas na rua, passeavam muito, ela tinha projectos para ambos e até adquiriu e restaurou um novo palácio para eles irem viver; sorria agora com mais frequência, arranjava-se, pintava-se, vestia-se melhor: era um gosto vê-la, uma mulher diferente, uma mulher feliz, mais equilibrada. Finalmente, eram felizes.

O tempo passou, mas o amor, no entanto, não cresceu, e ele foi percebendo que tinha perdido o fascínio pela rainha Celeste cuja forma de viver era muito diferente da sua. Não gostavam das mesmas coisas, não sentiam as mesmas palpitações, não estavam unidos pelos mesmos ideais.
Ele gostaria de partilhar com ela o mundo, viajar, conhecer outras paragens, outras pessoas, outras culturas, proporcionar-lhe tudo; ela, não. Agia como uma pedinte e não saía, apenas dormia, como não partilhava um centavo seu com ele. Sim, dava-lhe guarida, oferecia-lhe umas refeições que confecionava a seu jeito, mas podiam fazer outra vida que não aquela. Ele, além de viagens, ainda lhe ofereceu a melhor joia que pode comprar-lhe; ela ofereceu-lhe roupa interior comprada numa loja de feira, e que ele aceitou com o maior carinho. Mas foi este continuado miserabilismo que acabou por mexer com ele. Ela, uma rainha que tinha tudo para ser feliz e fazer alguém feliz remetia-se a uma vida de remendos e de aproveitamento de todos os cacos que lhe davam e que os aceitava como se precisasse deles.  

Tudo se acabaria por recompor não fora quando, certo dia, ele percebeu que a rainha estava louca. Ela quis atirar-se da janela do seu palácio e ele não sabia o que fazer. O seu comportamento não era de uma pessoa normal, era de alguém desequilibrado emocionalmente e o rei Marcos ficou transtornado com a inesperada situação, de demência extrema. Sofreu muito com isso porque, mesmo assim, gostava dela e gostaria de ser capaz de curá-la, de compreendê-la e, com o seu amor verdadeiro, fazê-la uma mulher feliz, como tanto queria. Quis muito ajudá-la a recuperar-se, mas não foi capaz. Sentiu-se extremamente frustrado e até responsabilizado, como se tivesse sido por causa dele aquele acto tresloucado, de avançado estado de dependência.  

Mas a família real Sepúlveda também não se importou muito com o acontecido, como se, tal facto, já não tivesse sido a primeira vez. Por outro lado, rei Marcus nunca se sentira muito apoiado nem como membro integrado da família, nem nas circunstâncias especiais de alucinação e loucura como a que viveu com a rainha Celeste.

Sentiu que o olharam sempre como alguém sem nada para enriquecer mais o património e que pouco ou nada acrescentaria ao poder da Corte. Assim, depressa o pobre e infeliz rei Marcus percebeu que o seu papel se esgotara ali e resolveu pegar nas suas parcas coisas, arranjar uma carroça e ir-se embora, em busca de um outro final feliz.
Não se sabe ao certo onde foi parar o rei Marcus, mas constou que foi viver para debaixo de uma ponte que atravessa a cidade. Houve quem o visse e o ouvisse a resmungar para o Céu blasfemando contra o seu destino porque ele aprendera que o amor vencia sempre, e ao rever as suas próprias histórias de amor da sua vida só conseguia chegar ao fim e dizer: “e não foram felizes para sempre”.

As personagens desta história:

rainha Isis
teve a vida de rainha que ambicionara para ela: viveu sempre sumptuosamente, mas chegou ao fim da sua vida infeliz porque acabara por se arrepender de ter deixado e feito sofrer tanto o homem que verdadeira e incondicionalmente mais a amara.

Madalena
insurgiu-se contra a mãe porque não lhe perdoara o que ela fez ao seu pai, Rei Marcus pelo que ele sofreu até ao fim da sua vida.

Celeste
limitou-se a viver outras paixões carnais, mas foi também infeliz. Viveu a sua vida como ela a imaginava, sempre a não gostar de si mesma e a sentir que os outros a achavam anormal e feia, rodeada dessas pessoas que, no entanto, procuraram apoiá-la, mas que nada puderam fazer além de a colocarem num hospício.

rei Marcus
morreu velhinho, apoiado nos filhos que teve, com a doença do século, infeliz porque chegara ao fim e não se cumprira a promessa que havia feito a si mesmo que “haveria de ser feliz, não sabia como, nem com quem, nem onde, mas que havia de sê-lo”.

Na hora da sua morte, com os filhos ao seu lado, esboçou um sorriso; ninguém soube o que significava ao certo.

Carlos Alberto 03-04-2012
PS1: Esta história é apenas fictícia e não se inspira em factos reais da vida de ninguém. Qualquer semelhança com factos, lugares, nomes ou pessoas reais aqui relatados é mera coincidência literária que não se legitima.

PS2: Este texto não foi totalmente escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

PS3: Gostava de publicar mais textos e poder viver à custa de os escrever. Aceito e admito sugestões, alterações, correções e outros senões a este contributo “literário”. 
penso... logo existo

o princípio

Começo aqui uma nova etapa. Criei um Blogg.
Para quê?
Para me expressar para o mundo e dizer-lhe o que sinto. Passei a vida inteira a escrever num Diário. Agora que tenho mais tempo quero ir mais longe, sair de casa e percorrer o mundo, quer com as palavras, quer com as imagens.
Onde quero chegar?
A todo o lado, a quem quiser saber mais de mim e o que sou.