terça-feira, 25 de abril de 2017

COM OU SEM MAR


Quero ouvir os pardais, as gaivotas,
observar o oceano a beijar as margens;
quero sentir as aragens,
e também ouvir tua voz.
Sentir o teu cheiro, tua essência
perdida nesta concha de noz.

Navego à tua procura:
Escondes-te e não estás.
Rejeitas-me, ignoras-me,
ou não sou capaz.
 
Quero fazer poesia,
cantar, dançar com mestria;
como uma flor a abrir,
erguer-me para o teu abraço;
mas nem me deixas sorrir;
Sobra-me o cansaço.
 
Fecho-me, triste, derreado
na minha concha embrulhado.
Cubro-me com um lençol
de vergonha amarrotado.
Choro uma mágoa
da qual me quero libertar,
triste por te amar, sem me cansar.

Mas dói-me e tenho medo:
dos trovões e das farpas — credo!
Dos zumbidos do vento
que ecoam pelo espaço.
E no dilúvio das vagas
que me enrolam no cansaço
contra as rochas me tragas.