terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Bom Ano 2014

Chegámos ao último dia de 2013 incólumes. Grande proeza. Parece fácil, mas não é. Por esse facto, quero contragular-me pelo feito, assim como aproveitar para parabenizar todos aqueles que como eu o conseguiram.

E agora desejar que o ano de 2014 que vai arrancar possa ser melhor ou tão solidário como foi este. Sei que para muitos de nós foi um ano terrível, com cortes e mais cortes e, pior que isso, o espectro  da incerteza que paira sobre todos e que nos deixa apreensivos quanto ao futuro.

Mas não vamos desistir. As crises, reza a História, são cíclicas e ultrapassa-la-emos todos com a certeza de que daqui a cem anos já cá estará outra gente...

Bom 2014 para todos e no dia 31 de Dezembro cá estaremos de novo.

Carlos Alberto

sábado, 30 de novembro de 2013

LISBOA


Há muito que não tenho vindo aqui acrescentar algo às coisas da minha vida. Aqui fica então um pequeno texto que fiz para a turma de Oficina de Português. É um texto baseado num Documentário de um filme de José Fonseca e Costa.


 
P

ercorremos Lisboa com o olhar. As sete Colinas, o Rio Tejo, as cores das casas, os eléctricos, os Monumentos, as Praças, as Estátuas, os bairros típicos, os Palácios e seus interiores deslumbrantes.

Somos levados pela memória à época dos Descobrimentos e partimos daí até aos dias de hoje. Subimos e descemos as ruas da cidade velha, onde nos perdemos em ruelas estreitas e labirintos de escadarias de calçada, até à cidade nova e moderna de grandes largos e onde emergem figuras que perpetuam a nossa História.

Perdemo-nos então nos detalhes em que normalmente não reparamos - na pressa de um agitado quotidiano - e sentimos aqui, através da poesia que o poeta descreve em cada olhar, que há em cada instante como que parcelas de uma tela magnífica, que se desenha à nossa frente. E descobrimos, afinal, uma cidade de luz, cor, sons e sentimentos que nos invadem a alma e que guardamos no nosso coração.

Lisboa, uma cidade à beira-mar implantada que, percorrida, galgada e absorvida, nos deixa a sensação de que vale a pena conhecer porque a sua alma não é pequena.
 
Carlos Alberto
 
 

sábado, 28 de setembro de 2013

DEIXEM-ME DORMIR

Mudei de casa recentemente. Vivo sozinho aqui para os lados do Seixal, na margem sul do Tejo, já perto da foz em Lisboa. Gosto do espaço, embora não seja aquilo que procurava. Contudo, a proximidade de eventual trabalho e porque já vivo nesta zona há mais de trinta anos, é aqui por estas bandas que me habituei a viver. A proximidade das praias da Costa da Caparica, o clima e outras valências importantes também me seduziram e contribuiram para a minha escolha.

É um apartamento pequeno (T1), ainda que acolhedor, numa rua principal, muito movimentada, num prédio de três pisos com nove inquilinos. O sossêgo que procurava e as vistas para a serra ou para o mar aqui não encontro. Por isso, esta não será ainda a minha casa de sonho que andei à procura, e é muito provável que daqui a uns tempos possa até mudar. Até lá, no entanto, com vantagens e desvantagens, é aqui que vou viver nos próximos tempos.
 
Mas esta abordagem à minha nova residência deve-se apenas à questão da tranquilidade que privilegio e que aqui não encontrei, na medida em que queria. Se onde vivi até há pouco acordava a ouvir os passarinhos, aqui adormeço a ouvir os vizinhos...
Por causa disso, inspirei-me na poesia que partilho a seguir e cada um fará o seu juízo de valor e me dirá, depois, o que devo privilegiar: se a sensação do acordar, se a sensação do adormecer...
 

Acordei, a cama tremia, tremia,
E nunca mais parava.

E mais me assustava.
Estaria a sonhar ou a delirar, que fazia?

A tamanho barulho, tomei atenção,
Queria saber qual era a razão.

Tomei consciência com paciência
Que afinal tudo era normal;
Escutando o barulho da vivência
Das brincadeiras de um casal.

Por cima de mim, ao lado, em baixo
O chão não parava de se baloiçar,
Rangia a cama em ritmo de samba
E a mulher não parava de gritar.

Enterro minha cabeça na almofada,
Tapo, ao meu sofrimento, os ouvidos
Sob cobertores minha mente atirada,
Fugindo a todos os meus sentidos.

Percebi com muita pena minha
Que de uma festa se tratava e durava,
Que a noite era afinal da vizinha,
E eu queria dormir, mas aquilo não acabava.

Mas finalmente, já noite adentro
Ouço o grito do Ipiranga, talvez.
Tudo se acalma, e no silêncio me concentro
De que o amor não se faz só uma vez...

A cama tremia, tremia...
Eu já não ouvia.
Carlos Alberto
 

quarta-feira, 24 de julho de 2013

ILHA DO PICO



Recebi um email com estas imagens da Ilha do Pico e não pude ficar indiferente.

O power point tem o mesmo título que a poesia e aqui fica a minha homenagem àquele que foi eleito o meu lugar de sonho.

A PÉROLA NEGRA DO ATLÂNTICO

Sim, diz-me muito esta terra negra de paixão
que conheci e vivi, onde a vida parece parar,
mas tive de partir e deixar,
porque a vida é como um vulcão:
hoje activo, amanhã não.

E nos silêncios da vida,
olhamos para trás e sorrimos
porque um dia partimos,
mas a terra ainda lá está.

Feita de rocha, pedra sobre pedra
pelo mar moldada e sofrida
ainda a sentimos presente
como um sopro de ar que se sente
numa brisa amena e querida.

Cada recanto reconhecemos
e deslumbra-nos ainda:
cada casa, cada porta, cada olhar;
um dia, com certeza
perante tanta beleza
voltaremos para a abraçar.

CA

Dedico esta poesia à minha filha cujo nome o deve a um lugar desta terra.

PS: Os créditos do Power Point estão no filme a quem agradeço.

terça-feira, 16 de julho de 2013

MEMÓRIAS DE 2012

Páginas  do Meu Diário ( 1º Semestre)


Desta vez deixo aqui os meus melhores resumos do 1º semestre de 2012, de acordo, obviamente, com o critério que defini.
Reitero que é uma transcrição integral do que senti no momento em que escrevi os resumos e que não vou aqui fazer qualquer alteração no sentido de subverter o que disse. Mais uma vez reforço que o que escrevi é apenas o meu ponto de vista e é da minha total responsabilidade.

Carlos Alberto

 
Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012 (Miratejo, 4/1 00:55h)
“Um sonho na viagem”

O amor, sempre o amor, esse cruel sentimento que ou nos faz feliz ou nos mata por estrangulamento. E basta um filme, uma história e as lágrimas enchem-nos estupidamente a vista. Sim, porque chorar só mesmo por alguém que nos faça feliz. Mas aí não achamos que valha a pena. Contudo, quero viver.  O amor é demasiado frio, mas servir-se-á à mesa. O tempo acusa-nos de sermos brandos. A fome come-se com garfo ou com as mãos se não houver guardanapos de pano. Somos seres demasiados espertos para estarmos acordados e adormecemos acreditando que a lua nos transmite em canal aberto. Sim, é verdade, sempre há um oceano para atravessar, mas desta vez rumo ao sul. Já não há nada a oeste. Vibra a noite para os lados do equador, onde as sombras se apagam em fumos de dança. Somos carne, sensação, alegria quando choramos. Poetas à noite fingindo de dia que a escrita é o ocaso da vida. Vamos a correr para os braços da outra, ilha dos sonhos de todos, com a luz da noite a salpicar-nos a vista. Rimos às estrelas que cintilam e pulam, cantamos ao rio que se esvai em alegres rumores de que São Tomé é Príncipe. É a viagem do sonho descoberta de um sopro, como se os mares nunca antes navegados nos sacudissem da letargia de sermos velhos. Não queremos morrer, mas saborear a vida, sorrir para as crianças, dançar ao som de “vai, vai” dentro de mim, ao som brasileiro ou de outra língua qualquer. Quero lá saber; a vida pode acabar depois de amanhã, quero viver intensamente o amanhã com quem quer estar comigo.

Carlos Alberto


Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012 (Miratejo, 6/01 00:30h)

“Livres como os passarinhos”
Escondidos pela sombra da noite inventamos a vida que nos afoga. Somos o que não somos, gememos no silêncio dos murmúrios e explodimos em raiva pela razão que nos acorda. Homens e mulheres num grito de prazer escondidos enquanto um manto de fantasia nos cobre o rosto de vergonha. Humanos, apenas humanos, mas como animais com cio desbravamos caminhos que nos conduzem à luz. Que mal há naquilo a que se convencionou chamar pecado? Sim, não fiz amor à luz das velas, nem acordado nem de forma nenhuma. Essa é outra vertente da paixão que se aguarda, que se vai adiando de hoje para amanhã, como de ontem para hoje. Não há sinais de glória, nem de loucura que valha a pena. Apenas homens, um pau enquanto uma mulher se masturba. Delicia de sonho que nos faz esconder a cara da vergonha de estarmos ali prostrados a sentir o quanto quente o pau duro de um esgoto qualquer. Não, a rua não é o nosso lugar. A cama abre-se em lençóis de flanela. Os joelhos estão no chão que nos sacodem em movimentos repetitivos e cadenciados... Que mulher, meu Deus, que nos abre o apetite mesmo que por detrás as entranhas nos rasguem por dentro. Loucos, loucos até que o cansaço nos atire ao chão e clarividentes possamos voltar a respirar normalmente, sem estarmos ofegantes. É assim a noite da solidão desmedida, do pássaro que quer fugir da gaiola, mas as grades impedem-no. Ainda bem que as grades existem para sermos homens, mas como pássaros, livres de vento.  

Carlos Alberto  
 

Sábado, 7 de Janeiro de 2012 (Lisboa, 23:50h)
“Sporting-Porto”

É uma febre que nos ataca e nos enerva um dia inteiro. Pensamos nisso o tempo todo e a hora derradeira finalmente chega. Os nervos estão à flor da pele. Tentamos abstrair-nos, mas o nosso coração palpita mais depressa. Somos alma e coração, alegria e angústia. Esperamos o momento de saltarmos do maple e gritarmos a pulmões abertos aquilo que a alma nos reprime. Os minutos passam e tentamos perceber de que lado está a força. Sentimos que há alguma diferença, que ela está do outro lado e que a todo o momento o mundo pode desabar. Mas não será o fim. Haverá sobreviventes e não estaremos sozinhos. É a hora de gritar, está na hora de explodirmos. Trememos, trememos, sentimos que vamos desfalecer a qualquer momento. Batemos com os pés no chão, as mãos magoam-se entre si em estalos de falhanços de bolas no poste e gritamos contra nós próprios enquanto alguém se ri atrás de nós. É uma sorte que não chega, um prazer que não temos. Sofremos, sofremos, mas acreditamos que ainda somos capazes. Há ali homens a correr com toda a força e com fé e, portanto, ainda é possível saltarmos de alegria. A lua está cheia, linda lá no alto, a observar-nos. O estádio está a abarrotar, quase todo ele verde da esperança que não conseguimos senão alimentar. Mas o grito, o salto, a expressão máxima do golo, esse não acontece. Vamo-nos contorcendo tentando daqui dar um chuto certeiro na bola e enfiá-la na baliza do nosso adversário. E não há meio de desempatarmos aquilo. E o tempo passa, passa, e quando o minuto noventa chega todos têm razões de queixa e ninguém foi capaz de dar um chuto de jeito. Tudo igual, tudo pior, digo eu, sem ter podido gritar: golo do Sporting!

Carlos Alberto

 
Domingo, 22 de Janeiro de 2012 (Lisboa, 23:30h)
“Sofrimento oculto”

Acordar na Costa, deitar em Lisboa, adormecer no sonho, despertar de um pesadelo. É a vida confusa e difusa de um tempo amargo doce onde tentamos buscar a paz num inferno de emoções. Não sei que fazer, não sei que me espera o dia de amanhã, não sei o que é bom ou mau para mim. É uma mistura de sentimentos entre o querer e o não querer, o ser capaz e o de não ter capacidade, o de sorrir e ser infeliz. Quero que a minha vida seja um projecto real de vida, mas sinto-me amordaçado por um jogo de interesses. Gostava de não me sentir um intruso, mas é o que sinto e às vezes pressinto que não pertenço ao clã, que há reservas. Por outro lado insurjo-me com facilidade contra aquilo que eu acho que é “a miséria de espírito”. Vejo um roto com um saco de dinheiro debaixo do colchão. Sinto-me mal por ver tanta estupidez, ganância, instabilidade emocional. Não sou capaz de diluir o azeite em água nem tornar a água em álcool. Cresço e esmoreço. Tento e não me sinto com capacidade. Dizem para eu ter força, mas há forças ocultas que me empurram para fora. Eu serei apenas uma peça que não pertence à engrenagem e que se vai tentando ajustar: como uma roldana que devia ser de chumbo e é de pau. Vai-se encaixando, sim, até roda, mas um dia vai-se desgastar e vai acabar por partir. Mas por agora serve, gira, acredita-se até que resiste ao tempo, mas eu sinto a minha fraqueza, a minha impotência e sei que não. Porque é que as pessoas não vêem aquilo que é óbvio e que está diante dos seus olhos?

Carlos Alberto
 

Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012 (Miratejo, 24:00h)
“Aquilo que mereço”

E continua o mesmo desabafo, a mesma conversa, a mesma insatisfação. E apetece-me dizer que estou a atravessar um dos piores períodos da minha vida, mas certamente não o pior. E tudo porque não me considero um homem feliz e realizado. Todavia, já o disse, a culpa é só minha. Eu sou o homem que sou porque não fiz mais por mim, não investi em mim, fui passando sempre ao lado daquilo que me desse mais trabalho. Diria que procurei sempre o caminho mais fácil e, por isso, estou onde estou. Podia e devia ter tirado o curso de engenharia, mas também tenho a consciência de que não seria um grande engenheiro. As obras, por muito estranho que isso possa parecer, não são o meu forte. Se gosto do que faço e se faço o que gostava de fazer digo, redondamente, não!!! Mas não sou capaz de dizer que me daria bem nesta ou naquela área. Direi que sou um falhado geral, um projecto adiado, sem uma competência numa qualquer área que seja. Sou assim um homem que falha em toda a linha e que apesar de ter trabalhado sempre e até ter ganho muito bem, não me especializei em nada, não tenho nada, não construí nada, não sou ninguém. E este é o meu drama. O que é preciso fazer para termos estatuto? Eu olho para o meu irmão e ele tem onde se agarrar; e eu? Sim, tenho três filhos, que serão eles “a minha riqueza”, o fruto dos meus amores. Há quem colecione bens, terrenos, casas, poder; eu tenho o amor, filhos, carinho e muita compreensão de todos face ao homem limitado que me tornei e sou. Enfim, termino como sempre com o que costumo dizer: tenho aquilo que mereço.

Carlos Alberto

 
Domingo, 12 de Fevereiro de 2012 (Lisboa, 23:45h)
“Sair ou ficar”

E o tempo passa, vai-nos consumindo, sem sermos capazes de fazer melhor, sermos outro, sentirmos o quanto vale a vida para além do que somos. E é bom quando acordamos e sentimos o calor e o aconchego de um abraço e um beijo que chega na vontade. Sentimos por instantes o ofegar do outro e gozamos o que é possível num esgar de circunstância. É a manhã que nos acorda assim. Lá fora um frio de rachar. Os gatos espreitam pela janela através dos baços vidros. Levantamo-nos e acabamos por sair de casa desafiando ainda o sol tímido que, no entanto, com a sua pujança vai aquecendo talvez as folhas amarelecidas pelo tempo. Não há mais nada além da luz. O amor já se foi, a paixão, a loucura. Apenas um abraço do sol com a lua que ainda se atreve do outro lado do céu. É uma canção, talvez, o riso pelas palavras, o gesto e a forma. Sinto-me bem no momento em que me cobres as pernas arregaçadas do curto pijama que se me encolhe. Ouço-te dizer que gostas de mim, enquanto desaparece uma fatia de pizza. É a encomenda para o jantar que se pediu ainda a noite mal chegou. Gelado o entardecer. Um filme na televisão que vejo e de que gosto sem apreciar. Durmo pelo meio e acordo com a história quase no fim onde se descobrem os criminosos. É mais um dia, ou menos; com a sensação de que há tanto para viver, para fazer, para amar e nós nos perdemos ali em séries e mais séries e também nas histórias de “era uma vez” a que se juntam a crimes imperfeitos. Perfeitas perdas de tempo que só servem para estarmos juntos em frente da TV.
Carlos Alberto

 
Sábado, 25 de Fevereiro de 2012 (Miratejo, 23:30h)
“Solidão”

A solidão, as lágrimas, o rio, a brisa da tarde, as gaivotas, os veleiros, os pássaros sobre o sapal, a nostalgia do tempo, a areia, as conchas, os barcos, o céu azul, os namorados, as árvores, as palmeiras, o caminho de terra batida, o sonho, a luz, a vida, as fotografias, o tempo, o passado, o presente, a música, o outro lado da margem, a cidade primeiro, a vila do outro lado do sapal. Os pardais, as árvores caducas sem folhas, outra vez aqui as palmeiras, o pneu pendurado atado numa corda grosa de sisal - com que se amarram as grandes embarcações - a um ramo de um velho pinheiro. Os armazéns velhos e meio destruídos recortados na paisagem maravilhosa do entardecer na baía, o tempo... A maré a encher, as gaivotas a perderem os bancos de areia nas suas temporárias ilhotas que emergem das águas do rio. Os velhos cacilheiros, os catamarãs, o meu tempo num livro, numa revista que se desfolha sem ler, o meu automóvel. Apenas eu e o meu mundo iluminado pela literatura. Turvam-se os olhos por instantes na areia enquanto as ondas vão trazendo o rio margem acima. Sobra o lixo, os paus, as canas, garrafas de plástico e os milhares e milhares de conchas de todos os tamanhos e feitios. Sonhamos, acordamos, temos pesadelos. É a tarde na solidão da vida, o que nos sobra quando não temos ninguém. E esperamos. Espero pela minha filha Celina que vai chegar: é tudo quanto me resta, para a ouvir falar, falar, falar dos seus amores, salvadores, do gostar e amar na versão mais poética e sincera de que um ser humano consegue, sem hipocrisia. Resta-me agora este tempo com ela, enquanto o sono já me embala, a noite que já nos abraça e, mesmo que a cama seja pequena, para o amor há sempre espaço.
Carlos Alberto

 
Terça-feira, 24 de Abril de 2012 (Miratejo, 25/4  12:50h)
“A frustração de uma vida”

A sensação que tenho é que há um país perdido para aquilo que são os direitos fundamentais de um povo. Eu não sou ninguém, nunca fui ninguém, mas sinto-me sobretudo “injustiçado” por aquilo que é a minha actual situação neste país. E sou um homem frustrado. Um homem que apesar da sorte que sempre tive em sair incólume das pequenas lutas que travei, sinto-me agora, quase no fim da minha vida, como aquele homem que teve nas suas mãos a possibilidade de ganhar a taça e ser o verdadeiro campeão e, no momento decisivo, falhou o penalti que lhe daria não só a consagração da sua vida, mas da vida de todos aqueles que o rodeiam. Sou por isso hoje um homem fragilizado pelas consequências, quer das minhas atitudes quer dos actos daqueles que nos governam. E talvez por isso e de uma forma inexplicável, chego à noite e não consigo dormir. Passam a uma, as duas, três e quatro da manhã e de televisão acesa debato-me contra o sono que me desperta. Provavelmente não estou bem e a minha instabilidade reflete-se neste estado de espírito estranho que não me beneficia. Primeiro tento ou durmo na sala deitado no maple e, por fim ou depois, numa pequena cama de corpo e meio, sem a abrir, num pequeno quarto, por cima da roupa e apenas tapado com um cobertor que improviso. Olho à minha volta e vejo-me então no quarto que foi da minha filha mais velha. Mas a sensação não é boa, e sinto-me num espaço com o qual não me identifico porque não tem a ver nem com os meus ideais e padrões de vida, nem com aquilo que eu sonhei para mim e que até já tive no passado. Sou, por isso, um homem desgastado e frustrado para quem a vida se perde nestes labirintos de sentimentos e também de alguma inglória. Irei, no entanto, sobreviver, não sei é até quando.
Carlos Alberto



Terça-feira, 8 de Maio de 2012 (Miratejo, 9/5 00:45h)
“Vales zero”

Sempre me achei um homem especial e diferente dos outros homens, é verdade. Essa diferença comecei a senti-la na tropa quando reparei que os meus gostos e interesses eram diferentes dos outros rapazes da minha idade. Todavia, integrei-me e daí a pouco acabei por tornar-me pior que eles. Até lá, no entanto, eu era mesmo um tipo demasiado certinho e organizado. Eles jogavam à batota e bebiam; eu lia os jornais e escrevia. Eles gritavam, berravam, digladiavam-se; eu no meu canto, não chateava ninguém. Cresci, então assim com este sentimento de alguma distância e diferença da maioria. Também achava que era um tipo muito honesto, trabalhador, amigo do seu amigo e de toda a gente. Extremamente tímido, houve um momento que achei que nunca seria capaz de ter uma namorada. Apareceu então aquela que seria a mãe dos meus primeiros dois filhos e casei-me com ela, não fosse ainda ficar para tio. Já tarde, a chegar quase à terceira idade, eis que me apaixono verdadeiramente por uma mulher que eu achava que era a minha cara-metade. Era, mas foi o meu lado podre dela. Mas, mesmo assim, valorizei-me como homem. Com ela tornei-me muito mais poderoso e seguro de mim. Achava-me o homem mais feliz do mundo. Até ao momento em que me empurrou do comboio em andamento em cima da ponte. Caí ao rio, vim parar à água e lá se foram as peneiras e a mania das grandezas. Qual melhor, qual diferente dos outros, qual carapuça: um parvo, um estúpido foi como me senti. Mais tarde tentei uma segunda hipótese, que seria a terceira, pois achava que seria bom fazer uma reciclagem. Consegui ser feliz por instantes: entendia até que voltava a ser especial para alguém, diferente dos anteriores, insubstituível, mas, catrapumba, lá vou eu de novo ao charco. Qual especial, qual quê: um banana, alguém que não vale um caco. E, de facto, não fiz nada para evoluir. Acordo e deito-me sem construir nada de relevante. Ou será que este pouco justifica algum mérito e valeu a pena?
Carlos Alberto

 
 
Segunda-feira, 18 de Junho de 2012 (Miratejo, 21:40h)
“À procura da ilusão”

Começa uma semana, mas nada muda. Os dias como que se repetem. A diferença pode estar na nossa atitude, na diferença de sermos diferentes, onde os limites se tocam e se projectam num infindável eco de emoções que nos farão vibrar. Mas estamos ainda no campo das hipóteses. A nossa vida enche-se e esvazia-se quase no mesmo ritmo. Se procuramos uma identidade ela aí está. Não sei o que é que vai na alma daqueles que buscam um outro sentido para as coisas que os rodeiam. Eu quero viver, gozar a vida, mas sem fazer mal a ninguém. Eu nem sou vítima nem caçador. Nós escolhemos o nosso caminho em função das encruzilhadas que encontramos. E basta apenas um momento, um descargo de consciência e tudo muda com um gesto nosso. Mas não há nada de novo que se inclua aqui, para já, senão um projecto novo de vida. Uma hipotética relação que nasce ou morrerá na ilusão do acontecer. E hoje é até dia de festa, mas não para mim. E fico-me por aqui entregue à ilusão do que pode mudar amanhã na minha vida. E lá vamos nós para mais uma semana na esperança que nos dê algo de novo e diferente, mesmo que o novo não seja na verdadeira acepção da palavra. Mas o que quero é apenas gozar a vida, mesmo que seja em sentido contrário, dando em vez de receber, num jogo maléfico de que o proibido é o fruto apetecido e o sonho é apenas o período de um momento que se usufrui gostando. Mas nada é garantido e a ilusão pode dar lugar à frustração e à desilusão. Quando as expectativas são muito grandes, normalmente o cesto sai furado...
Carlos Alberto

 
 
Terça-feira, 26 de Junho de 2012 (Miratejo, 27/6 09:40h)
“Qual lenda da mitologia”

O cansaço invadiu-me o corpo, e a alma, repleta de sensações partiu para um descanso prometido e desejado. De facto, ainda me sinto anestesiado. Escrevo, mas a mão treme-me como se eu tivesse acabado de cometer um homicídio. Estou nervoso e inseguro. Se esta página servisse para me incriminar de um acto ilícito, seria absolutamente possível encontrar nela indícios de que algo de muito anormal se passou. Estou ainda transtornado depois do longo sono que fiz. Mas estou seguro de mim. Os meus alibis são perfeitos. Não há nada que me impeça de ser quem sou, aja como ajo e seja aquilo que sou e penso. Eu parto em busca de mim, como um guerreiro em busca da vitória, ao encontro daquilo que pode ser apenas mais uma batalha que se trava com prazer. Não o prazer do sangue, mas do físico das entranhas que se penetram em esgares de gozo assumido. No deleite de um sofá ou no chão sobre um tapete e ao fundo imagens do Oriente, África, mesmo que o mar esteja longe, pode ouvir-se na nossa imaginação o turbilhão que se enrola e nos degola até mais não. Percorremos quilómetros na esperança de irmos ao encontro daquilo que não as nossas convicções sobre os homens e as suas paixões. Sem medos, traumas ou tabus, sem danos colaterais, partimos, para chegarmos exaustos de uma contenda, como num diálogo de titãs, aqui retratado e que neste momento já nada é mais do que pura história. Recordo-me das lendas, dos mitos, qual Rei Artur do século VI de conquista em conquista em que não se sabe onde começa a verdade e acaba a lenda. Até lá vamos tentando ser felizes, acreditando, e encontrar nos momentos as razões do que somos e porque lutamos sendo assim. Amanhã será futuro, o passado já foi.  
Carlos Alberto

 
 
Sexta-feira, 29 de Julho de 2012 (Miratejo, 21:55h)

“Lágrimas efémeras”
Não sei que dizer, a não ser que as lágrimas voltaram por instantes. Efémeras também como aquele momento em que pensei e agi de acordo com o passado. E não vou acrescentar detalhes. Sei que quando voltar até esta página até já não perceberei, à primeira, do que estou a falar. Mas ficará assim mesmo. O passado, mesmo o recente, magoa-me e não quero chafurdar nele. Quero ser feliz, preciso ser feliz, não sou, mas hei-de tentar sê-lo. Continuo a dizer que não sei como, nem quando, nem onde, nem com quem, mas hei-de ser, mesmo que a minha fé esteja hoje muito abalada. Acredito, mas, infelizmente, não piamente. Todavia, acho que tudo tem uma razão de ser e que nada acontece por acaso. Acho que tenho o que mereço e se mais não tenho é porque não fiz o suficiente por isso. Sou, é verdade, o resultado dos meus actos e da sorte que tive. Fui muito feliz, um dos homens mais felizes do mundo; considerava-me até abençoado, mas, de repente, perdi tudo o que tinha e de que gostava muito. Estamos todos sujeitos a isso e ninguém pense que tudo o que é adquirido pode considerar-se como um facto consumado. Aprendi isto, da pior maneira, com o que a vida me deu e tirou. Eu achava que dominava, que tinha tudo sob o meu controle, que Deus me abençoara para ter o que tinha. Enganei-me. Deus mostrou-me também o outro lado da medalha: castigou-me severamente e ainda me castiga. Mesmo assim ainda me considero um privilegiado dentro da minha “desgraça”. Estou num quarto que é o espelho daquilo que tenho: um cubículo que apesar de ser o ex-quarto da minha filha mais velha é o retrato exacto do caos que é a minha vida hoje sob diversos aspectos. Sem amigos, afastado de todos, sinto-me muito infeliz.

Carlos Alberto

 PS: Para dizer que fiz ligeiríssimas alterações muito pontuais nalguns textos, ou para lhes fazer alguma correcção gramatical ou dar mais ênfase ao assunto.
Por outro lado dizer que são páginas de sentimentos que estão lá muito para trás no tempo, que valem o que valem, e que hoje seriam escritas com contornos mais positivos. “Não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe”... não é?

"Façam o favor de ser felizes" (Raúl Solnado).



sexta-feira, 5 de julho de 2013

BALANÇO I

Acordei hoje com vontade de escrever algo. Inspirei-me numa estrela.
(Chamo-lhe Balanço I porque é provável que tenha continuação.)

Sou o que sou,
valho o que valho,
cometi muitos erros,

faltou-me o trabalho.

Passei muito tempo a andar
de um lado para o outro,
não parei para pensar
que no amanhã seria pouco.


Não tenho cursos nem licenciaturas,
mestrados e afins, não;
dei tudo aos outros, assinaturas
e a olhar por mim, em vão.


Pouco me importei e investi
em mim: não valia a pena!
Hoje como um sem abrigo senti
que por engano estive em cena.

Fui especial às vezes,
fui pão de ló, arroz doce;
hoje carcaça dura, velha de meses.
Lamento minha postura que fosse
tão usada por interesses.


Tenho aquilo que mereço,
sempre o disse e afirmei
e repito com apreço:
sou aquilo que realizei.


Mas não desisti de viver
mesmo curvado das costas.
Ergo-me direito para fazer
o que tu, minha estrela, me mostras.


Sigo este caminho de vida
acreditando que é este o meu,
fingindo e achando que a lida
com tropeções e quedas, não doeu.


Tudo vale o que vale,
seja sonho, desilusão ou paixão:
vivendo por amor nada é igual
quando se vive gerido pelo coração.


E se estou errado ou certo
tudo vou ficar a saber;
sei que estou já bem perto
do dia em que vou morrer.

Carlos Alberto

quarta-feira, 22 de maio de 2013

A VIDA

A minha vida está a mudar. Lentamente, mas está. Acontecem-me coisas inesperadas, algumas boas, outras desagradáveis e lido mal com estas últimas. Mas estou a começar a perceber que nada acontece por acaso, e, como me dizia a minha querida mãe, "nem tudo o que nos parece mau para nós o é". E, de facto, aos poucos estou a aceitar melhor esta ideia e a perceber que ela tinha razão e que tudo o que nos acontece tem uma razão de ser.

Obrigado assim a todos os que de alguma forma têm contribuído para estas mudanças, nomeadamente, os meus novos "seguidores" deste humilde blogue que aqui se juntaram a partir do meu 1º ano de existência nestas águas.
 
E como tudo na vida parece cíclico, repete-se hoje o que senti há quarenta anos atrás. Por isso, aproveito mais uma vez para ir rebuscar às minha memórias um poema que escrevi em 14 de Setembro de 1973 e que aqui passo a transcrever:

A VIDA

E navego por mares distantes
entre peixes e outros animais.
Sou carne, todo um corpo sensível
às ondas, ao ruído fustigador
das águas contra o barco.
A calma reina ao sabor
das ondas e do céu azul
na água que cintila recortada
entre espuma branca que se forma.
As gaivotas rasgam o céu,
as nuvens surgem no horizonte;
os olhares tornam-se frios,
os corpos gelam e agasalham-se
em roupas velhas e sebosas.
As almas escurecem e o tempo
as pessoas movimenta.
Apressam-se e oram
interiormente sonha-se
com os filhos, com a mulher,
com a vida.
E a vida estremece
entre olas bravias que se agigantam
envolvidas pelo céu
negro e agressivo que oprime.
Os corpos calafriados oram
mais alto, sonoramente gritam
pela absolvição que se perde
com o turbilhão das águas
que se revoltam;
pela vida que se apaga
entre águas e céus,
entre nuvens e seres
que se movimentam dançando
alheios à miséria; nada
podem fazer sobre todo o sabor
amargo/salgado da água
que se envolve e dissolve
até ao âmago.
E morre-se longe,
abalroados pela água
agitada e inconstante
sem que ninguém se aperceba.

Carlos Alberto

PS: Fiz ligeiríssimas alterações pontuais ao poema inicial.
 

quinta-feira, 25 de abril de 2013

25 de Abril de 1974

Estou aqui hoje por uma razão que a mim me diz muito e, no entanto, poucos são os que conhecem esta razão e que sabem que, por estar no lugar certo, na hora certa, inadvertidamente, também faço parte da História, protagonizada naquela madrugada desse já distante dia de 25 de Abril de 1974.
 
É uma história pessoal, mas colectiva, porque nos envolve a todos. Uma história de um herói hoje, para uns, mas também de um traidor, para outros que perderam, naquela Revolução dos Cravos, privilégios ou aquilo que por direito, ou não, tinham como seu.
 
Portanto, sou um homem aberto a todas as perspectivas e posso desde já acrescentar, também bastante desiludido com aquilo a que aquela Revolução nos trouxe hoje. Somos um país miserável, com a população transformada em pedinte e os titulares dos sucessivos Governos todos muito bem na vida e alguns com histórias de interesses económicos, políticos e de descredibilidade dramaticamente aterrorizadoras.
 
Participar numa Revolução para estarmos como estamos, meus amigos, só tenho que lamentar. Por isso me afasto também destas pseudo comemorações. 
 
Falamos que somos livres de dizer e escrever o que pensamos, mas na verdade, é uma liberdade falsa. Vivemos uma vida que é uma espécie de jogo de futebol: (imagine-se o jogo Bayern de Munich contra o Barcelona, nas meias finais da Taça dos Campeões: o Barcelona dominou, teve a posse de bola, como costume, e quem é que perdeu por 4-0? : o Barcelona).  O país é igual: deixam-nos falar, berrar, queixarmo-nos contra a pobreza, a fome e o desemprego, e o que é que isso nos trás?: nada!, a não ser mais austeridade e o autismo dos governantes que continuam a refastelar-se, a deslocar-se em carros topo-de-gama, a sairem incólumes do governo para ocuparem cargos em empresas público-privadas: uma afronta a todos nós, que os sustentamos, e a quem vive em condições, dia para dia, cada vez piores.

Tanto piores que foi preciso eu chegar aos quase 60 anos e ficar desempregado. Ao longo da minha carreira, por duas vezes deixei empregos, por opção, despedi-me, e no dia seguinte já estava empregado de novo. Hoje isso é impossível (a menos que pertençamos a alguém ligado à classe política, o que, obviamente, não é o meu caso).
 
E fico-me por aqui neste desabafo. Para o ano, nos 40 anos, divulgarei a minha versão (vista por dentro) de como eu vivi o 25 de Abril de 1974.
 
Carlos Alberto
 
 
 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

PAIS E MÃES

Vou editar um comentário que fiz no Blogue que estou a seguir da Maria do Sol e vou acrescentar algo que me parece muito importante neste momento.
 
Eu já perdi, há muitos anos, pai e mãe, no entanto, tenho-os sempre presentes como se estivessem ao meu lado a apoiar-me.
 
Não sinto que me ajudem muito, pelo menos nada do que eu peço é atendido, mas na hora de evitar o acidente, apesar de ter fechado os olhos, porque ia bater no carro parado à minha frente, lá estava a mão do meu querido pai (que foi motorista de taxi anos a fio) e o carro parou a um centímetro do desastre...
 
Pai e mãe são géneros únicos que nunca devemos menosprezar. Se alguém tem amor aos seus filhos, esse amor verdadeiro e incondicional são os pais que o têm.
 
Hoje, no entanto, fui acusado de estar doente e que devia ir ao médico por agir de acordo com aquilo que eu acho que são critérios de justiça e igualdade que sempre defendi. Como se não bastasse, depois de quase 50 anos de trabalho, e como se estar desempregado fosse um privilégio, ainda me mandaram ir trabalhar...
 
Posso ter errado muito ao longo da minha vida, mas de algo me posso orgulhar: nunca faltei ao respeito aos meus pais nem a ninguém de forma deliberada. Todos temos telhados de vidro, ninguém é detentor da verdade absoluta, eu incluído.
 
É um lamento que aqui deixo, público.

Penso que fui um homem exemplar, um empregado exemplar, um marido exemplar, um pai exemplar, um filho exemplar, no entanto, não perfeito. Ninguém é perfeito. Mas, por favor, deixem de me castigar mais pelos meus erros, porque desde há quatro anos a esta parte que sofri muito e tenho continuado a sofrer por causa deles. Um sofrimento como não desejo a ninguém, nem mesmo àqueles que não gostam de mim, sabendo que há por aí muita gente que acha que eu sou realmente muito má pessoa. 
 
Por favor, sejam felizes, mas deixem-me também ser feliz.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

1 ANO

Bom dia, bom dia.

Faz hoje 1 ano que comecei a publicar neste Blogue. Foi um sucesso...

Estou aqui, exactamente, para assinalar esse facto e agradecer o apoio que recebi dos meus imensos, imensos (e repeti porque são mesmo muitos) fãs espalhados pelo mundo fora...(atente-se aos inúmeros comentários que recebi, mas claro, não são mais visíveis porque as pessoas preferem o anonimato, só por isso) e dá-me um alento extraordinário!

Já com os "seguidores" acontece o mesmo. Só tenho a minha filha mais nova, mas que vem ao meu blogue sempre que tem tempo nos intervalos das suas "paixões".

O problema é acharmos que queremos ser o centro do mundo e não somos, de facto, ninguém. O nosso universo é reduzido e quando não se sai de casa, como é o meu caso, dificilmente a socialização pode ser grande. Problema meu. Ok!

Mas vamos ao que verdadeiramente interessa e porque uma efeméride destas merece uma homenagem, resolvi ir ao meu baú de recordações e fui descobrir um poema que escrevi quando fiz 20 anos, portanto tem 40 anos... mas continua tão actual que não resisto em torná-lo público, além de que me dispensa de ter que escrever outra coisa qualquer.

Vinte anos faço eu hoje.
Vinte anos que não sei se de vida ou de morte.
Vinte anos apenas que foram supérfluos,
incoerentes a uma sociedade evoluída,
a olhos de muitos.

Vinte anos estéreis, infrutíferos, dubitáveis.
Vinte anos de luta sem luta.
Vinte anos de degredo moral, espiritual, carnal
sem resultados à vista,
a olhos de muitos.

Vinte anos de desgostos, de felicidades
Vinte anos... mas bons momentos muito poucos.
Vinte anos sem paz, com guerra arisca, pungente.
Vinte anos de estertores e ódios,
a olhos de muitos.

Vinte anos incapazes de construir algo.
Vinte anos esquecidos num espaço esquecido.
Vinte anos imberbes, inexperientes, imaturos.
Vinte anos, um tempo que se ocupou,
a olhos de muitos.

Em vinte anos construí casas palácios,
grandes os salões, vastíssimos em longitude.
Edifícios sobre edifícios, cidades!!!
Em vinte anos construí um mundo...
um mundo que era meu sem ser meu:
ocupei um espaço que era dos outros.

Em vinte anos construí cidades, países, continentes,
tudo construí, mas que ruiu num cataclismo.
Afinal, todos estes muitos olhos que me observaram
se iludiram porque eu não construí nada
nem sequer vivi ainda...
(dei apenas liberdade à minha imaginação.)

Carlos Alberto 16/11/1973


terça-feira, 2 de abril de 2013

PÍNCAROS DA EUROPA Cap I ao Cap VI

Para facilitar a leitura da saga da viagem a Espanha, decidi publicar aqui num único post o relato dessa viagem aos Píncaros da Europa, desde o Cap I ao Cap VI.
 
Vou tentar ainda enriquecer o texto com a introdução de algumas fotos para o ilustrar. Espero que o resultado seja o desejado. Para já aqui fica o texto global com algumas fotos.


"PICOS DE ESPANHA”

CAPÍTULO I

Lisboa, 4 de Agosto de 2012

07:40h. Sinto-me um pouco como uma criança excitada. A noite mal a dormi, mas porque estava preocupado em não acordar a horas. Pus dois despertadores, não fosse algum falhar-me, antes de ter adormecido já depois das duas da madrugada. Mas antes que os despertadores tocassem já estava acordado. Agora já estou em Lisboa, num café aqui ao lado da agência de viagens, onde vou apanhar o autocarro.

E chegar aqui também não foi fácil porque foi-me complicado estacionar o carro. Acabei por deixá-lo numa zona de estacionamento pago, sem perceber bem a que consequências me sujeito, nomeadamente, as multas, além do eventual reboque. Mas não vou pensar nisso agora; quando chegar logo vejo.

Por aqui já há muita gente com malas a deslizarem pela calçada num barulho característico dos rodados no empedrado e outros já à espera junto da agência. Eu bebi um café e tento assentar ideias.

A primeira, como se vê, foi utilizar este livro para descrever a viagem que vou fazer. Se vou conseguir ou como vou fazê-lo, não sei. Vou tentar fazer algo que nunca experimentei antes. Será apenas mais uma viagem, e desta vez ao norte de Espanha, até Oviedo. Estou só, irei no lugar 28 do autocarro. É só tempo de acabar esta página, esperar mais uns instantes e… “ there we go”.



Estamos na auto-estrada A1. Partimos da Avenida de Roma cerca das oito e trinta. Vamos, segundo o nosso guia, o Rui, rumo à A23.

O autocarro tem excelentes condições e não vai completo. Ao meu lado vai sentado um sujeito cuja mulher vai no lugar da frente… Há mais lugares vagos atrás, mas a falta de expediente das pessoas não as leva a agir, para fazerem a viagem juntos. Eu faria.

O Rui, que já conheço de outra viagem, é um excelente guia. O tempo está magnífico e vamos percorrer cerca de 650 km com saída de Portugal por Vilar Formoso.

São 09:20h, entrámos na A23 que foi uma antiga SCUT e agora paga-se portagem. A temperatura lá fora, segundo a indicação digital do autocarro é de 22ºC. Há gente a dormir e na rádio ouve-se, quase imperceptível na M80, “esta vida de marinheiro dá cabo de mim”. Por acaso esta vida não é de marinheiro, mas de turista e não está a dar cabo de mim, bem pelo contrário.

Entretanto, com um telefonema, já resolvi o problema do estacionamento indevido do meu carro: o meu filho Pedro vai buscá-lo e depois, quando eu regressar virá ele ter comigo. E aqui vamos nós rolando a cem à hora, como mandam as normas.

São 09:45h e estamos parados na área de serviço de Abrantes. É a nossa primeira paragem técnica entre várias que faremos. Lá fora imensos escuteiros que vão chegando em vários outros autocarros. Ao longe avista-se a Central termo eléctrica do Pego. Duas enormes torres cinzentas a fumegarem e que fazem lembrar dois funis invertidos. O Tejo não está longe, a poluição também não.



Saí para explorar a área de serviço e o que vi foram as largas centenas de escuteiros de vários agrupamentos e regiões. Muito jovens, chegaram em vários autocarros e espalham-se por aí em grupos, ora sentados, ora em filas, ora conversando uns com os outros, sempre a fazerem-se ouvir. Vão, segundo soube, para um encontro nacional, algures.

Ao sair, um outro passageiro abordou-me dizendo-me que “lhe vou a fazer muita inveja por ser capaz de escrever tanto…” Respondi-lhe, sem modéstia, que “são muitos anos de escrita… mais de quarenta…”. Por acaso, havia reparado que ele em determinada altura da viagem ia também a escrevinhar num pequeno bloco que levava na mão e pensei que afinal não estava sozinho na ideia de escrever. Mas terá ficado por aí.

Fui à procura do café, ainda tentei tomar um, mas desisti, face à confusão instalada. Dei meia volta, tirei duas fotos e regressei ao meu lugar do autocarro, mas não sem que antes tenha aproveitado para exercitar as pernas o que nestas viagens é essencial.

Aqui neste autocarro é só gente de meia-idade, gente reformada, muito tranquila, em contraste gritante com os outros autocarros aqui estacionados ao lado, pejados de juventude, risos e brincadeira. Que saudades…

Nós aqui aproveitamos para dar largas à vida ou o que ainda nos resta dela. São na maioria casais os que aqui vão, ou famílias, mas ainda não identifiquei nem padronizei ninguém. Neste momento estou ainda na fase em que me limito a observar, sem pretensões de analisar ou fazer juízos de valor muito elaborados sobre quem quer que seja e que integra comigo esta viagem. Mas também não o tenciono fazer. Não é esse o meu papel. Cada um tem o seu espaço e direito a não ser devassado por ninguém. Eu, em particular, quero e procuro apenas ser feliz, sentir-me bem, tranquilo e usufruir este momento. É o que procuro, para já, nesta viagem.

Preferia ir aqui sentado sozinho (e não com alguém estranho ao lado), mas não tive essa sorte. Hei de, todavia, mudar de lugar, lá para trás, lá mais para a frente… Há uma dúzia de lugares vagos e mudar-me-ei numa próxima oportunidade.

São 10:30h e vamos sair daqui. Vilar Formoso está a quase 200 km de distância, ou seja, mais duas horas de caminho. Os escuteiros vão, afinal, para um encontro nacional, este fim-de-semana em Idanha-a-Nova. Serão cerca de dezassete mil. Neste autopullman, Burgos será o nosso destino, em Espanha.

Somos 31 passageiros no autocarro e a cordilheira Montejunto Estrela vai aqui ao nosso lado esquerdo. Tomamos conhecimento do programa para hoje e para amanhã e em Bilbao, diz o guia, o museu Guggenheim é o ex-libris da cidade. Mas o Rui não se fica pelas meras intenções e começa a sua locução com uma demonstração inequívoca de bastante conhecimento da história quer espanhola quer portuguesa e das respectivas etnografias. É um gosto ouvi-lo; difícil é acompanhá-lo e captar tudo o que ele, com requintado detalhe, descreve.

São 10:45h e ao meu lado o passageiro lê o jornal enquanto a rádio deixou de se ouvir. O guia vai à conversa com o pessoal da frente e aqui o silêncio é total. Na estrada não há muito trânsito e a paisagem reparte-se por eucaliptos e pinheiros que vamos deixando para trás. Sentimos apenas a monotonia de uma auto-estrada e ainda não as emoções que verdadeiramente buscamos nesta aventura. Sabemos que os hotéis onde vamos ficar ficam nos centros das respectivas cidades e isso, obviamente, é bom. Haverá tempo para passear a pé e conhecer as redondezas. E aqui vou eu Espanha…

São 11:30h e estamos em plena A23, auto estrada da Beira Interior, com a Serra da Estrela como pano de fundo do lado esquerdo. Uma placa a dizer que a próxima povoação é Fundão está do lado direito, depois de termos passado ao lado de Castelo Branco. Guarda e Covilhã também estão no nosso caminho.

E aqui vou eu a pensar na minha vida e no que já passei. Há quase dois anos também viajava sozinho. Depois conheci a Cristina numa viagem parecida com esta e… já passou. Pensava que a minha vida mudara aí. E mudou. Só que a ilusão durou menos de ano e meio. Podia, com ela, ter uma vida muito boa, desafogada, mas não seria feliz. Agora posso ainda não sê-lo, mas vou criar condições para alterar isso e encarar esta situação como mais uma oportunidade. Viajo só, é verdade, mas não pode ser um drama. 

11:34h “Serra da Gardunha”- avisa-nos o guia, e queixa-se das sucessivas portagens que pagamos e já vão nos vinte euros. Um silêncio abateu-se de novo sobre o autocarro. Ouve-se a música, volume muito baixinho, em jeito de adormecermos todos. A paisagem vê-se aqui e ali ardida. A serra está despida e mostra o seu lado inóspito. Há muitos carros estrangeiros na estrada, alguns, talvez a maioria são de emigrantes. Agora um túnel: entrámos e saímos. E outro de mil seiscentos e vinte metros de comprimento.

Quase meio-dia. A Covilhã vimo-la ao nosso lado esquerdo e já ficou para trás. Lá fora a temperatura aquece e está nos 27ºC. Aqui dentro uns vinte. Está agradável. O autocarro como é novo está em excelentes condições. Na rádio ouve-se agora a RR e as noticias onde se incluem os resultados dos Jogos Olímpicos que estão a decorrer em Londres. De medalhas para portugueses não se ouve falar, a não ser da desilusão que têm sido as nossas prestações. Mas vai haver remo e estamos nas finais.

Por aqui a paisagem é agreste. Entrámos na Beira Alta e vamos subir a mais de mil metros de altitude. Daqui a meia hora estaremos a entrar na fronteira com Espanha. O ritmo do autocarro é constante e o motorista só pode conduzir determinados quilómetros por hora, obedecendo a regras muito rígidas de segurança rodoviária. Guarda está ao lado, a cidade mais alta do nosso país a cerca mil e cem metros de altitude.

São 12:40h e passámos para 13:40h. Vilar Formoso está à nossa frente, “nuestros hermanos” esperam-nos do outro lado da rotunda que fizemos antes da fronteira. Há imenso trânsito no sentido inverso, policia a controlar o movimento. Entrámos na região de Castela/Leão. Gasolina mais barata e bandeirinhas a reclamar, em território espanhol, “A23 NO PAGO”. E já ouvimos a rádio espanhola.

A Espanha tem 17 regiões autónomas, é o país das Tapas. Vem a propósito, parámos para comer na estação da área de serviço espanhola, junto à fronteira, em Fuentes de Oñoro. O movimento é imenso: gente nas compras, outros a comer no bar ou no restaurante. Antes daquelas decidi comer aqui aquilo que mais adoro: o famoso “jamón”.

E foi mais uma paragem técnica, rápida, mas em que não resisti também a comprar esses famigerados “caramelos con piñones”.

Depois de quarenta e cinco minutos, voltei ao autocarro e sentei-me no mesmo lugar, ainda acompanhado pelo mesmo sujeito. Não compreendo como é que um casal não se importa ou incomoda por não ir sentado, numa viagem destas, ao lado um do outro. Comigo seria impensável. Talvez por isso eu seja diferente ou eu faça a diferença. As pessoas viajam juntas, mas até parece que não querem partilhá-la. Não compreendo, sendo que para mim, ir ao lado de alguém de quem se goste, poder dar-lhe a mão, fazer uma carícia, oferecer um sorriso, partilhar uma paisagem, um sentimento, é fundamental, indispensável e único. Se a vida não for vivida assim, para mim ela não faz sentido. Mas enfim, são os meus meros pontos de vista que para outros podem não ser relevantes. E sinto-me apertado neste lugar, parece que sufoco.

São 14:35h saímos de Fuentes de Oñoro, na região de Castela. Castela porque, segundo a crença popular, o nome de Castela provem da grande quantidade de castelos ou fortalezas que existiam nestas terras, mas admite-se que possa ter outra origem o seu nome. É, no entanto, a maior região de Espanha desde a reconquista de todo o território peninsular que se concluiu em 1492 com a tomada do reino muçulmano de Granada pelos Reis Católicos. O título de Reis Católicos é o nome pelo qual ficou conhecido o casal composto pela rainha Isabel I de Castela e o rei Fernando II de Aragão, que unificaram os reinos ibéricos deste país que se tornou a Espanha de hoje. E o Rui está a dar espectáculo com a descrição da História espanhola. Acrescenta que há crise em Espanha, mas nós não notamos porque somos portugueses, turistas, estamos de passagem. A crise sentimo-la quando se vive no país, tal como nós sentimos a nossa vivendo em Portugal.

Olho através das amplas janelas fixas do autocarro e a paisagem é muito plana e as montanhas estão lá longe. Aqui também há desertificação e as pessoas fixam-se no litoral. Esta é uma das principais regiões de gado com a melhor carne em que se destaca a vitela.

A “Sierra de Gredos”, que vislumbro agora à direita, além de ser muito disputada em termos turísticos é também conhecida pela cultura do porco preto, aqui muito famosa, sendo o “jamón” uma especialidade. Com uma alimentação exclusiva à base de bolota, o “pata negra”, com um sabor especial e diferente, chega a ser comercializado a cem euros o quilo.

O guia diz-nos que a paisagem, até Salamanca, não terá atrativos nenhuns e que a rega nesta zona é feita a partir das águas de um canal vindo do Rio Douro. Lá fora estão agora 26ºC., mas no Inverno há neve e gelo por estas paragens. Amanhã, no entanto, quando entrarmos no País Basco já usufruiremos de um clima diferente, mais Atlântico. Para complementar a sua dissertação explica-nos a ainda a origem das “tapas”. Diz ele que o uso vem dos tempos medievais. Não sendo unânime a origem, alguns defendem que "tapa" deriva do verbo “tapar” e que teria origem no costume da Idade Média, em que os copos de vinho eram servidos (tapados) com uma fatia de presunto, queijo ou morcela para evitar que as insuportáveis moscas que apareciam no verão caíssem dentro dos copos ou dos jarros.

E o “show” do Rui continua: Cidade Rodrigo está à nossa esquerda. A cidade deve o seu nome a Rodrigo Diaz de Vivar, conhecido como “El Cid” que foi um nobre guerreiro castelhano que viveu no século XI, época em que a Hispânia estava dividida entre reinos rivais de cristãos e mouros (muçulmanos). Ele era conhecido entre os mouros por “sidi " que significa senhor em árabe.

Fala agora da queda que o Rei Juan Carlos deu há dias num degrau e que o Rei fala melhor português do que espanhol porque viveu muitos anos em Portugal… Entretanto o desemprego que em Espanha está nos 24 %, nomeadamente na Andaluzia, pelo contrário no País Basco há menos desemprego. Acrescenta ainda que na Catalunha se fala outra língua e que a Espanha tem quatro línguas oficiais, a saber: Castelhano, Basco, Catalão e Galego. Em Portugal falam-se duas: o português e o mirandês. Esta questão espanhola das quatro línguas oficiais levanta muita polémica, sendo que a ETA, Euskadi Ta Askatasuna no País Basco é (ou era) um dos problemas. É, por isto um país muito dividido.

As diferenças de riqueza e poderio económico das regiões autónomas, os seus recursos e valências causam também perturbações e, por exemplo, os Bancos Santander e Bilbao Biscaia, que temos em Portugal, têm origem nesta zona rica do país.

E depois de meia hora de dissertação a contar histórias sobre a vida e cultura espanholas e as comparações com Portugal, agora ouve-se a rádio com música de fundo. Na paisagem não há nada senão uma via rápida que percorremos ladeada de árvores que serão carvalhos e azinheiros. Estamos na E80 com Salamanca a 76 km de distância. Há nuvens dispersas no céu e a temperatura está nos 26ºC.

15:30h e ainda estamos a vinte e cinco quilómetros de Salamanca. Atravessamos campos de girassol. Nesta região, tal como nós portugueses juntamos os tremoços à cerveja, eles comem a semente de girassol, sendo que esta planta também é utilizado para a produção de óleo. Mas nesta paisagem a perder de vista, são as planícies que predominam. Salpicadas de casas ou casarios que aqui e ali pontilham o imenso e interminável castanho e que nos sacodem o olhar, a alternância dos altivos caules dos girassóis relegam-nos para uma interminável harmonia, como um exército em parada monumental.

Reparo agora que há muito trânsito nos dois sentidos sendo que há muitos carros com matrículas estrangeiras. Alguns vêm completamente cobertos de lama e sujos só com o desenho do limpa para brisas marcado nos vidros da frente e de trás. A maioria, no entanto, reluz à claridade do sol que se faz sentir com muita intensidade. A temperatura aqui dentro é amena e não reflete os 27º graus exteriores. Já vejo publicidade ao Corte Inglês o que quer dizer que nos aproximamos da “civilização”. Estou a tentar perceber a sinalização, mas está tudo em espanhol (…) e eu “no entiendo”. Salamanca 7 diz uma placa azul. Mas não vamos passar por lá hoje, só no regresso, na quinta-feira. Agora surgem placas a dizer “Valladolid” e “Tordesillas”. Mais estrada, mais campos de girassol.

16:00h e “Tordesillas” está a 67 km. Na paisagem, fenos de palha espalham-se do outro lado da estrada enquanto passamos pelo km 214 da Autovia. Na rádio, a música com letra em inglês é boa e chega-nos de uma estação de Salamanca cujo programa é TOP 40.

16:35h e acabámos de passar o Rio Douro que aqui se chama “Duero” na pequena localidade de “Tordesillas”. Foi aqui que se realizou em 7 de Junho de 1494 o célebre Tratado entre os reinos de Portugal e de Espanha que dividia, por ambos, as terras descobertas e por descobrir fora da Europa.

Estamos agora na E80 com “Valladolid” a menos de trinta quilómetros. A paisagem é constituída por pasto rasteiro de um lado e pinheiros do nosso lado direito. Não há nada que justifique ou valha a pena descrever, a não ser dizer que passámos agora por um pequeno edifício rasteiro que pertence ao aeródromo de “La Matilla”. A viagem vai levar-nos até Burgos onde vamos dormir, mas não sei nem quanto tempo nem quantos quilómetros nos faltam. Só sei que ainda vamos fazer uma paragem técnica para aliviar… as pernas e comer qualquer coisa. Por aqui encontramos à beira da estrada muitas indicações de “hostals”, que não são mais do que hospedarias, muito procuradas para encontros casuais. Têm imagens muito apelativas nas entradas. Muito curioso.

Para Burgos faltam 130 km e temos “Simancas” à direita, local onde há documentação sobre Colombo, esse controverso navegador quanto à sua nacionalidade. Nós dizemos que é português, outros defendem que é genovês. Colombo, segundo o historiador Salvador Madariaga, era judeu, razão que pela qual ele ocultou suas origens.

São 16:50h e vamos para a área de serviço de “Valladolid” onde estão 28ºC.

São 17:10h e estou aliviado… Para Burgos falta hora e meia de viagem e vai ser a nossa última etapa de hoje. O guia já nos falou sobre os pontos de interesse da cidade, e sugeriu, nomeadamente, a visita à Catedral que, segundo ele, é a segunda mais importante de Espanha, depois de Sevilha. De estilo gótico com as suas duas cúpulas em forma de agulha na fachada, é hoje património da humanidade, estatuto conferido em 1984. Na Catedral de Burgos destaca-se uma capela de culto onde a obra de “Cristo de Burgos”, um trabalho do século XIV, de origem flamenga, em madeira, é totalmente coberta com pele de bezerro.

Entretanto, a paisagem que desfrutamos é estilo rural sem nada de relevante e profundidade. Há casas velhas, indústrias com aspecto degradado, sendo esta zona uma zona tipicamente industrial. No céu há agora nuvens, mas as temperaturas continuam elevadas. A música na rádio é tipo flamenco com letra espanhola. Se me sinto fora de Portugal, diria que sim, a sensação é essa. Mesmo pela paisagem que voltou agora à planície amarelada e as indústrias ficaram para trás ou estão mais dispersas.

18:25h e estamos quase a chegar a Burgos. Esta cidade terá cerca de 200 mil habitantes e o guia dá-nos as últimas indicações sobre a cidade e instruções sobre o programa de amanhã. O jantar hoje será às 20:30h.

O hotel Corona de Castilla de quatro estrelas não é um hotel de encher o olho. É simples. Chegámos às 18:30h, recebemos os cartões que nos darão o acesso aos quartos e eu fiquei no 1º piso, como de resto toda a gente do grupo, embora o hotel tenha sete ou oito andares.

Aproveitei a luz do dia e fui tentar inteirar-me das redondezas. E a impressão é de que se trata de uma cidade pobre. Pobre no sentido em que se sente que é uma cidade pequena, modesta, de província. Há, no entanto, as características esplanadas que se enchem de gente, também o rio “Arlanzon” que atravessa a cidade e que segundo consta já a alagou duas vezes, sendo que, na última, a água terá quase chegado aos dois metros, conforme se atesta nas marcas traçadas a vermelho nos pilares de um edifício de arcadas que atravessamos da praça central.  


A cidade tem um arco à entrada, o arco de Santa Maria, que funciona como porta de entrada da cidade antiga e dá também acesso à Catedral. Mais à frente e continuando a subir deambulando pelas casas que ladeiam uma rua empedrada, encontramos umas pequenas muralhas de um castelo dissimulado na paisagem. A estrutura acidentada leva-nos por umas escadas a um pequeno miradouro com um largo onde existe uma roda dos ventos no chão. Daqui pode vislumbrar-se grande parte da cidade de Burgos, com referências em bronze, ao longo do parapeito deste miradouro, às igrejas, edifícios e monumentos que, em destaque, dali se avistam.

A catedral, tal como o castelo, só os visitei pelo exterior. Para visitar o interior da Catedral pagava-se sete euros e achei que era muito dinheiro, apesar de provavelmente, ter sido uma oportunidade única. Não sabemos. Só conheci a parte possível visitar pela entrada principal. Para o acesso ao castelo também se pagava e fiquei pela entrada, regressando ao miradouro. Aqui a estrela com os pontos cardeais indica-nos, cada um deles, as diversas distâncias a quatro pontos diferentes do globo, sendo que Lisboa a SO (Sueste) está a 620 km.






Outra particularidade desta cidade é ver os noivos a circularem pela cidade (e vi três ou quatro casamentos distintos) e a serem fotografados aqui e ali nas poses menos convencionais possível, procurando os fotógrafos captarem espontaneamente e ao acaso a atitude dos recém casados, ora descendo uma escadaria, ora debaixo de uma arcada e, na medida do possível, à distância dos nubentes.

De regresso ao hotel, jantámos numa sala interior onde três mesas compridas que se dispunham num U aberto. As pessoas do grupo foram-se sentando indiscriminadamente nos lugares encontrados vagos. Na minha mesa, constatei, só estavam doutorados, catedráticos e professores. Tudo gente de meia-idade, entrados ou a entrar. E não há aqui ninguém que me chame a atenção a fim de estabelecer uma amizade especial. Trinta hipóteses falhadas…

Achei o jantar de qualidade inferior, embora talvez que pelo preço pago não se possa exigir mais. Oito e meia até quase às dez da noite.

Pela mesa muitos diálogos trocados e animados entre pessoas que se descobriam ou desencriptavam, mas onde me senti pequeno face aos conteúdos tão académicos dos discursos que se cruzavam entre uma garfada ou um trago de vinho. Por fim, educadamente pedi licença para me levantar e fui para a rua absorver um pouco do ar da noite, mas percebi que fui logo seguido por todos os meus comensais. 

Fui então descontrair e espreitar vida nocturna de Burgos. E apercebi-me que há alguma movimentação, muitos bares, mas tudo numa escala muito moderada, face àquilo que é a vida nocturna espanhola, noutras cidades. Como começara a chuviscar, as esplanadas estavam agora desertas. Os bares, alguns pareceram-me deliberadamente de “engate”.

A determinada altura, na rua, cruzei-me com um tipo que se despedia, com um prolongado beijo, de uma fulana que era “uma bomba”. Não pude deixar de reparar, num flagrante olhar, na elegantíssima mulher, de saia curta a mostrar umas voluptuosas pernas, cabelo curto, loira, de rosto pintado e com um olhar de atractiva sensualidade. Ela afastou-se por uma rua caminhando como se pisasse uma passerelle. Ele, um tipo também novo, de calções e ténis, a meu lado, olhou para o relógio enquanto seguiu por outra rua, descontraído, pensando talvez que a noite lhe ia ser rentável. Ele ainda olhou de soslaio para mim e terá visto a quanta inveja eu deveria estar a sentir e dito mentalmente: “cota” (em espanhol, claro…). Dei meia volta por outra rua, perdi a noção de onde estava e desorientei-me. Procurei a Catedral, como sentido de orientação, porque fica perto do hotel e já cá estou de banhinho tomado e exausto de tanta emoção.

 

CAPÍTULO II

Burgos, 5 de Agosto de 2012

 08:00h Estou em Burgos, sim, é verdade, mas não sei exactamente onde, em termos geográficos, em relação a outras cidades espanholas. Sei que estou no norte de Espanha, a caminho dos píncaros da europa, mas sem referências de correlação. Ontem à mesa com tanta gente formada, tantos doutores, até me senti mal e deslocado pela minha ignorância. Portanto, não admira que também não me consiga situar mentalmente no mapa...

Hoje a alvorada foi às sete da manhã. Higiene pessoal, pequeno-almoço e arrumar a mala. A roupa para vestir já estava preparada da véspera com uma  t-shirt castanha da Lacoste, depois da t-shirt amarela de ontem. Trago uns calções beges e uns sapatos práticos azulados.

A noite foi muito boa, tranquila, mas muito curta. Quando o despertador tocou achei que o despertador se teria enganado. Mas não. Nada, no entanto, que um bom banho não resolvesse, para acordar.

A manhã está fresca e o céu nublado. Já estou dentro do autocarro da Lusanova, bem adiantado na hora da partida. À mesa do pequeno-almoço também fui o primeiro a chegar. Adivinhe-se o que comi: melão com presunto. Não resisto.

Agora o pessoal já começou a chegar e imaginem-se as conversas. “Então, dormiu bem?” Pergunta um. Outro refere “A minha cama era dura”. Acrescenta o primeiro “Olhe, eu ontem tomei um rico banho e já não saí à noite”.

Entretanto, depois da longa viagem de ontem, a de hoje vai ser mais calma e diversificada. É isso que todos esperamos, além das novas sensações da descoberta que esperamos sentir.

Mudei de lugar no autocarro. Não há necessidade de me sentir enclausurado ao lado de uma pessoa que não conheço. É um tipo de uns cinquenta anos, meio inchado, de óculos redondos e cabelo comprido ondulado em farripas sobre o pescoço.

São 08:20h, começa a música. Vamos para o País Basco. Passámos ao lado da antiga porta da entrada da cidade, aquele arco que dá acesso ao Largo da Catedral de Burgos, e Bilbao é o nosso destino.



São 08:30h de uma manhã bem cinzenta de 15ºC. Entrámos na E70 e vamos em direcção a Guernica, uma pequena cidade (villa) situada numa serra nos picos de Espanha. Esta cidade celebrizou-se pela destruição que sofreu em 26 de Abril de 1937, bombardeada pelos nazis durante a guerra civil espanhola e pelo quadro que Picasso pintou em memória desta tragédia. Quando um nazi lhe perguntou se fora ele que fizera aquilo, Picasso terá respondido “não, foram vocês que fizeram”.

Ontem ainda percorremos centenas de quilómetros a partir de Vilar Formoso e não passámos por nenhuma portagem. Agora é a primeira aqui em Espanha, quando são 8:35h e rumamos no sentido de Bilbao.

As nuvens no céu são altas e estão 14ºC lá fora. Aqui dentro está-se muito bem, situado à vontade, agora sozinho nas traseiras do autocarro. A paisagem é amarela, cerealífera, vazia e plana. O olhar perde-se na contínua imensidão de cores que me ofuscam o sentido e me transportam apenas para um nada mais à frente que bruscamente será decerto interrompido por outras imagens e palavras que não estas.  É o tempo dos sonhos, da viagem que nos embala sem percebermos sequer, e de propósito, por onde andamos, por onde nos levam.

Hoje é domingo, mas para nós isso é irrelevante. Quando se anda a passear tanto faz. O trânsito é grande, mas no sentido contrário ao nosso. Talvez o pessoal vá na direcção de Madrid.

Saindo de Castela muda a paisagem e haverá floresta. No País Basco esta será muito industrializada.

A estrada que percorremos é conhecida como a “estrada dos portugueses” porque morrem por aqui muitos em acidentes de viação. Espero que isto não se aplique a nós. Ah!Ah!Ah! 

09:00h Estamos a 106 km de Bilbao, na estrada AP1/E80. O trânsito é muito intenso no sentido contrário ao que vamos. Vi um autocarro que dizia no seu destino PORTUGAL (interessante a sensação de vermos o nome do nosso país; aqui faz toda a diferença). Os carros que vejo passar são todos de matrícula estrangeira, nomeadamente, suíços. Já começo a ver ao longe as montanhas e há muitas nuvens sobre elas, uma espécie de chapéu.

Quando entrarmos no País Basco vamos notar grandes diferenças, nomeadamente na sinalização com o nome das localidades, adverte-nos o guia. Têm dois nomes, um em basco e outro em catalão.

Um túnel e eis a serra e toda a sua agressividade rochosa com diversos picos. Passámos por uma espécie de estreito, uma garganta onde afluem várias estradas e até linhas de comboio. Fez-me lembrar as paisagens de “far west”, mas com estradas.

Aqui em Espanha tenho notado que as gasolineiras são predominantemente da CEPSA, algumas AVIA e poucas da portuguesa.

A estrada que estamos a percorrer trás a indicação de E5 além de E80 e AP1. Não sei porquê. Está agora a chuviscar, o que nestas paragens, apesar de agosto, é normal. Estou um pouco à fresca, quando sair acho que vou ter frio.

São 09:20h e estão 16ºC. Estamos na “auto pista do norte”, informa-nos a tabuleta na estrada. O céu aqui está mais carregado, totalmente cinzento. Entrámos na região da cidade de Vitória. Já se vêem os dois nomes nas tabuletas indicativas das localidades. Esta Espanha é um país dividido. Nesse aspecto Portugal, independentemente das rivalidades regionais norte/sul, é um paraíso.

Saímos já da auto pista Vasco-Aragonesa e estamos agora noutra via, “Ongi Etorri”, dizia a placa da estrada com outros nomes por baixo que já não consegui ler. É uma estrada secundária tipo IP. Igay, saída à direita, mas vamos em frente. A paisagem mudou, agora é floresta. Há ursos nesta zona, como lobos, raposas e javalis, diz-nos o guia. É Parque natural, área protegida, acrescenta. Mas trata-se de uma área ampla, aberta; não se pode dizer que vamos pelo meio das árvores. Faz-me lembrar o nosso norte, no Minho, muito verde.

Bilbao 76km, numa placa lilás. É para lá que vamos pelo meio deste clima meio cinzento a cheirar a outono. Chuvisca, os carros trazem as luzes acesas. Lá à frente a paisagem não é melhor e mostra-nos imensas nuvens que cobrem e fazem desaparecer a serra que vamos atravessar. Mas não estou triste por isso; acho até desafiante. Estou a passear, sem compromissos, nem medos. Todavia levo o cinto do assento do autocarro apertado, não vá o diabo tecê-las. A estrada dos portugueses também pode ser esta.

“Pobes Nanclares”, à direita. Nomes estranhos estes, como “A-dos-cunhados” para outros, digo eu. Vamos subir até aos 850 metros pela tal serra que não sei o nome. Faz-se por aqui caça ao veado. Assusta um pouco, não pela caça, mas face ao clima nublado. Está muito cinzento o tempo. O trânsito é agora quase nulo, como se toda a gente se estivesse a refugiar da adversidade climatérica. Parece que vai chover a potes, bátegas de água que começam a inundar-nos o subconsciente. Não é nada apelativo para quem se desloca por estradas tão longínquas. Estamos na AP-68.

Na paisagem recortam-se agora construções, aqui diferentes, com vivendas tipo casa de bonecas, baixas de telhados de duas águas muito acentuadas. Já se viu uma bandeira basca hasteada numa primeira villa por onde passámos que, ao longe, parece ter um X traçado em toda ela em tons de verde e branco. Ao perto percebemos que a bandeira tem fundo vermelho com uma cruz branca e um X verde. Não sei qual a interpretação que é dada a estes símbolos e cores, mas a minha é que o vermelho pode ser o sangue derramado na luta pela paz simbolizada na cruz branca, sendo o verde do X o objetivo na esperança na vitória final.  
 
Aquilo que acho comum aqui com toda a Espanha é o tom vermelho ou ocre que predomina nas casas, edifícios e em quase todas as construções. Muitas delas têm o próprio tijolo à vista, o que lhes confere muita sobriedade, é verdade. Mas o alto grau de intensidade na combinação destes tons, do meu ponto de vista, imprime à paisagem urbana um aspecto muito austero. A rigidez física que transmite, embora a torne nobre, realça, no entanto, um carácter de antiguidade, como se cansada estivesse da exposição prolongada do tempo. São cores e tons com características do ferro, muito fortes e pesadas que intimidam ao olhar, e que lhes dá um aspecto que me parece robusto, sim, mas carregado e pouco alegre, sobretudo em ambientes outonais como o de hoje.

São 09:42h, agora está a chover e estamos a passar por um banco de nevoeiro. Não se vê nada. Bem-vindos ao inverno. Apesar do intenso nevoeiro, o autocarro não refreou a marcha e vêem-se os cem metros adiante. Bilbao está a 38km e vamos a descer. É o País Basco em todo o seu esplendor. Enquanto isso, aqui dentro o silêncio é absoluto. Nem música. Há quem durma. Da paisagem só se vê o nevoeiro que cobre uma floresta de alto arvoredo. Nada mais para além disso, enquanto se espera que o nevoeiro se dissipe o que começa a acontecer. Mas há ainda muita nebulosidade, céu carregado e a chuva parece iminente.

“Bizkaia” em verde. São quase dez horas e vamos a descer por entre cedros que nos fazem lembrar as paisagens suíças. É o País Basco, mais uma vez com toda a sua força intrínseca de região autónoma e fechada. Pelo meio umas fotos em movimento. Trago duas máquinas fotográficas: a antiga compacta e a Olympus Pen Digital E-PL2 adquirida recentemente e da qual pouco sei ainda tirar o máximo partido. Já tirei uma larga centena de fotos, mas por nenhuma sinto especial interesse. São fotos aleatórias, iguais às que toda a gente tira, sem cunho artístico ou que se realcem.

Chegámos a mais uma portagem. Estamos ainda na AP-68 com Bilbao a 16 km. Mas antes, segundo o programa, vamos fazer um desvio a Guernica para visitarmos o museu local.

As placas de sinalização, aqui azuis, parecem estar escritas em grego com nomes impronunciáveis: Ordezko…, Francia, Basauri. Nem consigo ler as placas porque há também muita informação nelas inscrita. Passámos numa localidade com uma ribeira que segue aqui à nossa esquerda. Há muita indústria pesada. Estamos em Arriaga, diz-nos o guia que é o dormitório de Bilbao. Vamos aqui numa encruzilhada de estradas em que entramos e saímos, contornamos rotundas, viramos e reviramos, é um emaranhando de vias que é difícil de perceber, sobretudo se não vamos na frente do autocarro e pela rapidez com que o percurso é feito. Nota-se que o motorista sabe exactamente para aonde quer ir porque, provavelmente, já fez este percurso imensas vezes.

Passamos por Galdakao, Iurreta e estamos sobre a E-70 a 159km de Burgos.

São 10:11h e deixámos Bilbao para trás sem ter ido lá agora. Só iremos no final do dia, além de que o hotel ainda não está preparado para nos receber. Percorremos agora de novo uma zona isolada, de floresta. Deixámos os subúrbios de Bilbao e mais uma portagem, esta pequena em Donastia-San Sebastián na N-634 no sentido de Guernica. Amorebieta surge numa tabuleta. €1.407 é o preço da gasolina 95 nesta estrada. Em Portugal está quase nos €1.70 e os espanhóis ganham quase o dobro do que nós … Estamos em pleno campo entre árvores que ladeiam a estrada de três faixas, duas ascendentes, quando subimos e ao contrário quando descemos.

O clima é que continua cinzento, como a evocação do lugar que vamos visitar. Curvas e contra curvas, a subir e a descer até Guernica. É uma espécie de embalo para um lugar de pesadelo por entre energias que nos envolvem numa misteriosa carícia mórbida.

O museu de Guernica, chamado Museu da Paz, homenageia os cerca de dois mil mortos do bombardeamento alemão durante a guerra civil espanhola.

12:30h, hora de saída. Foi pena a chuva, mas o tempo que aqui estivemos foi também pouco para explorar esta pequena cidade interior de Gernika, Guernika ou Guernica. Não se entende nada. A grafia muda, os nomes aparecem escritos em várias línguas.


Mas valeu a pena esta visita e esta passagem pelo Museu da Paz. Picasso, como já disse, está ligado a esta terra pelo seu quadro com o mesmo nome e que traduz o horror que aqui se viveu nessa fatídica segunda-feira 26 de Abril de 1937. Há imagens que ilustram a réplica do quadro em tons de cinzento com pessoas e animais esquartejados.

destroços
O edifício do museu está dividido por vários pisos e um deles recorda-nos os estilhaços dos bombardeamentos. No chão, sob os nossos pés, através de um piso envidraçado, caminhamos, indirectamente, sobre os escombros dessa tragédia. Há sons e imagens que ilustram esses momentos e, por instantes, sentimo-nos também atingidos, como se levássemos com uma pedra. São imagens violentas, de dor e angústia sufocante que até magoa só de olhar. Noutro piso há cartazes, frases e depoimentos que nos transportam não só para aquela realidade, mas que depois nos trazem para os dias de hoje e para o preço da liberdade.

Para mim, serão estas palavras que aqui transcrevo, que ilustrarão a minha breve passagem por aqui, como as fotos que testemunham aqueles tão cruéis momentos. Outros houve, no entanto, que guardarão no armário os guarda-chuvas que compraram nesta passagem por aqui, algo que, por sinal, muito útil hoje porque o clima continua chuvoso e cinzento. Eu estou vestido à verão, e também houve quem se tivesse precavido com para-ventos ou agasalhos para o clima das terras altas e não tenha sucumbido à intempérie.

Mesmo assim, não deixei de dar uma volta por aí. Visitei uma igreja lateral ao museu, subindo uma escadaria que nos encaminha para um largo. Estamos aí diante de uma outra escadaria de uma enorme igreja de estilo gótico basco, que é a igreja de Santa Maria. Entrei, admirei o seu amplo interior um pouco diferente das igrejas tradicionais e saí com duas ou três fotos tiradas, mas apenas do exterior. A chuva caía agora com mais intensidade. Não desisti e dei comigo diante da estação de comboios de Gernika, na Geltoki Plaza, onde uma escultura em bronze de corpo inteiro e tamanho natural me despertou a atenção. Trata-se da figura Lehendakari José António Aguirre, político basco, o primeiro presidente Euzkadi em terras bascas. Há outras esculturas do género nesta cidade, nomeadamente, um tocador de viola, mesmo no centro e que nos chamam a atenção. Aqui, pelos vistos, investe-se na arte e na cultura. É uma cidade pequena, mas muito interessante pela sua história.

Mas o separatismo nota-se e sente-se muito por aqui. É como se fosse uma energia latente nas pessoas com que nos cruzamos. O Basco ou Euskara é um idioma ancestral que se fala nesta zona, e que é anterior à introdução do latim pelos romanos. É uma língua diferente de quaisquer outras em que “askaricasco” significa “obrigado”. Ninguém os entende e só eles falam esta língua estranha e difícil. Parece um povo à parte.

É domingo e está tudo fechado, excepto os cafés e as doçarias com montras de bolinhos com aspecto muito apelativo e saboroso.

E aqui vamos nós já, estrada fora, contemplando a paisagem fria, triste, escura e avermelhada dos edifícios. Gernika é igualmente uma cidade cinzenta, talvez carregada pelo simbolismo e também pela chuva, embora hajam canteiros de flores que predominam em janelas e varandas de vários edifícios e que salpicam de cores alegres os vasos dependurados. São 12:40h e deixámo-la para trás com um clima invernal.

São 13:10h chegámos a Bilbao, junto ao hotel, mas os quartos não estão prontos, soubemos agora. Entretanto a viagem até aqui foi feita debaixo de chuva impiedosa. Agora só está tudo muito cinzento a cheirar a inverno. Deixámos em Lisboa o verão para virmos aqui inalar a estação oposta. Vamos até ao Centro da cidade.

São 13:30h, estamos na Gran Via, junto à Praça do Sagrado Coração de Jesus onde está um monumento com uma estátua alusiva a Jesus no cimo de um plinto. Vamos sair do autocarro para voltarmos daqui a duas horas. É tempo de cada um por si, em regime livre, ir almoçar.

Antes disso resolvi “girondar” (girar sondando) por aí, apesar de saber que depois vamos percorrer a cidade, no autocarro, com um guia local. E depois de ter estado no Parque da Cidade Doña Casilda, descido a Gran Via até à famosa Praça Elíptica e palmilhado junto ao rio o passeio Uribitarte com a Torre Iberdrola a expiar toda a cidade, percebi que estava na rota não só do porto mais importante de Espanha, como já perto do museu ex-libris desta cidade de Bilbao que visitaremos logo à tarde.

Entretanto, pelo caminho encontrei um fast food da Burger King na estação de comboios de Abando e refastelei-me com um menu tipo, com bacon (adoro bacon), enquanto dividi umas migalhas com uma pomba destemida que por ali adentro se atrevia.

São 15:30h e saímos com o guia local. Grandes e interessantes as histórias: de Nicolau ao Bacalhau passando pela guerra e pelas Chiquitas; descrições entusiásticas e intensivas com o separatismo sempre à flor da pele, pronto a explodir. Há vários dialectos, explica, porque os bascos viviam muito isolados e refere que é mais antigo que o latim. Leva-nos da igreja de São Nicolau à Praça Central e, à saída, faz questão de nos mostrar, acima das nossas cabeças, numa varanda, a bandeira do Athletic Club Bilbao.

São 18:50h, estão 20ºC e não chove. O mau tempo já lá vai. Regressámos da visita que fizemos, também com este guia local, ao Museu Guggenheim. Simplesmente extraordinário. Entramos num mundo novo e diferente de tudo o que já vimos em que o edifício se constitui, em si mesmo, uma obra de arte integrante do museu. Grande espaço onde se misturam grandes superfícies brancas de paredes sem geometria aos amplos painéis de vidro que nos atiram para a paisagem exterior como se também ela fosse parte do museu. Várias exposições em três pisos que ficam incompletas numa visita de duas horas e picos.

Em suma, este parece ter sido, de facto, um dia muito divertido e cultural, que valeu a pena, mas que me soube a pouco. Faltou ou não houve tempo para irmos debaixo da “mamã”, nome dado pela autora Louise Bourgeois à aranha que, também no exterior, faz parte do património das peças do museu. E a visita consumou-se a apreciarmos com detalhe o gato florido existente na saída do museu, escultura revestida de milhares flores de várias cores e que compõem uma figura de índole controversa.

São 19:00h, cheguei ao quarto 712 do Hotel Gran Bilbao. Perdão, isto não é um quarto, é uma suite!!! Bom, mas numa suite??? Sim! Eu explico.

Quando entrei no hotel gracejei dizendo que ia dormir na garagem… Na recepção deram-me o quarto nº 215. Peguei no cartão e dirigi-me ao 2º andar à procura do mesmo. Ali chegado deparei-me com uma inusitada situação: o quarto estava desarrumado. Irritado, voltei à recepção (o quarto nem tinha vista para a frente rio/cidade, mas para as traseiras) e, apesar da minha irascibilidade, amavelmente, a recepcionista prontificou-se imediatamente a resolver-me a situação e deu-me um novo quarto, este onde me encontro. Simplesmente deslumbrante. Enquanto o outro ficava lá em baixo, atarracado, sem vista, este é uma espaçosa e acolhedora suite no 7º piso com duas grandes janelas com vistas para o rio, com a ponte que nos trás a Bilbao e para uma panorâmica, bastante aberta, da entrada desta cidade. Diria que há males que vêm por bem e jamais vou esquecer este episódio que aqui nestas memórias deixo imortalizado.

Antes do jantar que será às 20:30 tenho ainda tempo para reflectir sobre esta tarde em Bilbao de que destaco, obviamente, a imponência e o vanguardismo do museu de Guggenheim e das suas obras.

Alguns exemplos serão discutíveis, mas como disse o guia, cada um interpreta o que vê à sua maneira. Devemos olhar para as obras de arte com a sensibilidade do coração e não com a sustentabilidade da razão, acrescentou. Tudo é susceptível de interpretações várias e o museu tem tudo. Há inclusive peças no interior e no exterior. Aqui até a Ponte que chega e dá acesso ao museu é obra integrada no espólio do museu, tal como o enorme gato florido já referido.

Há peças no interior de tal dimensão que para as colocarem tiveram que demolir (e reconstruir depois) parte da cobertura de um dos pavilhões. É, de facto, uma visita obrigatória e extraordinariamente enriquecedora e tenho consciência que muitas palavras ficam por escrever e dizer sobre a riqueza e o património que vi e que estão aqui disponíveis. Há muita informação, muitas sensações, muita emoção nesta visita.

Tenho pena que a minha capacidade de absorver e descrever tudo o que aqui ouvi e o que se explicou já não a tenha e, por isso, se perca um pouco da magia que esta viagem ao Guggenheim pode transmitir. A mim resta-me a satisfação das sensações vividas e este pequeno depoimento constituirá tão-somente um apelo, transformando-se num convite, para vir aqui de novo, e redescobrir este fabuloso espaço/museu.

Não me canso de referir, estou na suite 712 deste magnífico hotel situado à entrada da cidade de Bilbao. Era para sair, mas face à qualidade do conforto aqui oferecido, seria um desperdício não usufruir e aproveitar esta comodidade. Só falta aqui uma pessoa. Podia lembrar-me de várias, mas lembrei-me da minha filha mais nova. No entanto, qualquer um dos meus três filhos mereceria estar aqui. É, de facto, um quarto destinado só a “big-people” que deve pagar muito bem para ter este conforto, mas aqui estou eu gozando-o sozinho, que nem um lorde, por causa de um descuido de alguém.

E hoje foi realmente um dia de emoções fortes em que há dois momentos que tenho de destacar. Um foi a dúvida surgida sobre a escultura ternurenta e animalesca do bicho florido em posição sentada em que se discute se é cão ou gato. Eu opinei que se trata apenas de uma “obra de arte, coberta de flores que mudam de acordo com a estação do ano”. É, de facto, um monumento controverso, mas muito bonito e apreciado e quero lá saber se é gato ou cão…

O outro momento interessante e que destaco foi o que aconteceu na visita guiada que fizemos de autocarro pela cidade. Ao passarmos pelo largo oposto ao Sagrado Coração, na Gran Via, a Plaza Elíptica, o guia pediu para repararmos que a praça, no centro, estava ligeiramente rebaixada relativamente ao nível da rua. E a razão era simples: aquele local tinha sido ponto de encontro da alta burguesia da cidade em outros tempos, onde a “grand finesse” se reunia ali para estar e conversar. Com a zona rebaixada ficavam assim os senhores mais protegidos dos ventos e menos sujeitos às corretes de ar… Um detalhe curioso e engraçado e que me passara despercebido a mim quando antes de almoço estivera ali, a pé, exactamente naquele sítio a tirar fotografias.

Além destes dois episódios há ainda mais duas histórias que o guia nos relatou e que vou tentar transcreve-las com o rigor que me foi possível captar no “portugalês” do basco. Uma tem a ver com a Praça Nova e a outra com o Bacalhau, alimento muito apreciado e reconhecido na gastronomia de Bilbao.

E das histórias que se contam daquela “Plaza Nueva”, uma tem a ver com o facto de na construção inicial, esta praça tinha quatro entradas, quatro arcadas que se abriam na construção quadrangular e que davam acesso ao interior do largo. Era assim uma praça completamente rodeada de edifícios de três pisos elevados sobre umas arcadas que, transpostas, era como se penetrássemos num claustro.

Hoje, no entanto, em vez das quatro “portas de entrada”, situadas uma em cada canto do quadrilátero, encontramos uma quinta porta, esta localizada num topo, a meio de uma das alas. Esta nova entrada surge em resultado das bombas, de um ataque aéreo, que caíram sobre Bilbao e que destruíram uma das alas destes edifícios. Na reconstrução decidiram fazer esta entrada porque seria mais fácil e menos dispendiosa a obra.

A outra história, também relacionada com estes trágicos acontecimentos de guerra e com os constantes e sucessivos bombardeamentos, leva-nos até à gastronomia catalã e ao famoso bacalhau, aqui cozinhado de mil e uma maneiras diferentes.

O bacalhau é nesta zona o alimento mais cozinhado e consumido pela sua excelente especialidade. E isto porque, conta a história, nos tempos idos das guerras, alguém mandou comprar, para cozinhar, vinte e uma postas de bacalhau e quem recebeu a comunicação percebeu vinte e uma mil… Como estavam em tempo de guerra, a ser cercados pelos inimigos, quem comprou julgou que aquela quantidade era para fazer face a um eventual cerco e teriam que ter comida quanto bastasse.

Assim, aconteceu que durante a dita guerra havia excesso de bacalhau, tudo por causa deste equívoco e então tiveram que reinventar os processos de o cozinhar, cozinhando-o de diversas formas, tipos e maneiras pelo que, durante semanas, só se comeu bacalhau, bacalhau, bacalhau.

Uma das especialidades mais características, apetecíveis e elogiadas nesta região é o “bacalhau mexido” em que, na sua confeção, o bacalhau é movido na caçarola com um movimento de vaivém circular. Este movimento é aludido ao facto de que como caíam muitas bombas, o chão estava sempre a tremer e então com a tremedeira o bacalhau ficava mais saboroso.

E outras e mais histórias o nosso guia local nos foi contando, mas ou eu não percebi, ou não me foi audível, ou não consegui mesmo fixar, o que foi pena, porque, quem sabe, sabe e muito teria ainda para relatar. Mesmo assim posso concluir que foi um excelente dia bastante diversificado, cultural e muito divertido.

São agora 20:05h e estou à espera da hora do jantar para descer. Estou um pouco cansado e, por isso, não sei mesmo se vou ainda regressar a Bilbao e sentir a pulsação da noite nesta cidade. Nós não estamos no centro e, pelo que me apercebi, as zonas com algum interesse estão bem longe daqui. O hotel Gran Bilbao fica situado numa colina, um pouco afastado do centro (dez minutos a descer e quinze para subir) e a zona mais interessante demasiada afastada para confrontar com o meu cansaço e para calcorrear a pé.

Mas andei e fui, não tão longe quanto queria, mas pesquisei um pouco.

São 23:30h, já tomei banho e queria usufruir ao máximo este espaço. Só que como “não há bela sem senão”, aqui chegado, inexplicavelmente, tive uma hemorragia intestinal e lá se foi “o gozo” pleno da suite…

Estou um pouco destroçado, constrangido mesmo, deixei vestígios da “luta sangrenta”, mas só espero que amanhã a situação esteja regularizada e possa prosseguir normalmente o meu passeio, sem resquícios do sucedido.

E é assim desta forma estranha e inusitada que termino o meu segundo dia de viagem por terras dos píncaros da europa, embora ciente que o mundo não vai acabar aqui. Vou tentar dormir.

 

CAPÍTULO III

Bilbao, 6 de Agosto de 2012

São 07:45h. Para trás uma noite que devia ter sido de sonho. Mesmo assim, dormi menos mal sobre umas manchas de vermelho que ficaram para lavar. Sete horas, tocou o telefone para despertar. Desci. O pequeno-almoço foi de reis, mas comi apenas como um príncipe. Croissants e doce, um bocado do inevitável e irresistível presunto e ainda um triângulo de queijo. Ainda estou nervoso. Estou a tentar dissociar-me, mas o problema, apesar de não subsistir, preocupa-me.

Está um dia claro. Está fresco, mas creio que a chuva ficou para trás. Espera-nos mais um dia bom, divertido, interessante e para conhecer novas paragens. É muita boa a sensação de irmos visitar locais onde nunca estivemos. É uma descoberta que nos faz sentir como crianças perante um novo brinquedo.

Sinto-me fisicamente bem. Vesti hoje umas calças compridas de ganga para me sentir mais confortável e uma t-shirt Lacoste rosa. Calcei uns ténis com meias. Ontem senti-me um pouco à fresca na visita ao museu. Mas não estava muito diferente dos outros, mesmo de calções e mais desportivo. Ainda guardo na memória aquele local onde se cruzam tantas culturas. Fiquei sem perceber é se o que se fala no país basco é um idioma se um dialecto. Sabê-lo-ei na internet.

(espanhol é um idioma, mas o basco, não, e o português é uma língua e um idioma. Ou seja, o idioma sempre está vinculado à língua oficial de um país. Já dialeto é a designação para variedades linguísticas, que podem ser regionais). Conforme em http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/fundamentos/qual-diferenca-lingua-idioma-dialeto-427786.shtml.

Aqui e agora as minhas dúvidas são outras. Neste momento já estamos atrasados para a hora prevista de saída.

São 8:00h e faltam pessoas. Quero libertar-me. Olho para as pessoas e vejo outras e comparo-as. Na minha cabeça há outra gente; quero ser feliz.

Ao microfone, brinca-se com o Euscádio, Euskadi, o tal dialecto aqui do País Basco. Estamos quase de partida, julgo que para Santander. O autocarro já pegou. Falta alguém? Parece que não. O Rui já fez a sua habitual contagem. Estamos ainda dentro do parque de autocarros deste magnífico Hotel Gran Bilbao que dizem só ter três anos. Autocarros são quatro aqui estacionados.

São 08:05h, estão 17ºC e vamos embora. Vamos na direcção Oeste. O nosso destino é Oviedo, nas Astúrias. Já estamos numa via rápida, dentro de um túnel enorme, por onde de resto já passámos quando fomos para Bilbao. Saímos e está sol, com nuvens dispersas. Há algum trânsito, sobretudo de pesados. Mais um túnel. Tem dois quilómetros de comprimento. Estava a escrever às escuras….  E outro túnel e outro. Velocidade 100 indica-nos a sinalização exterior.

Eu estou sentado na traseira do autocarro, quase sem ninguém. Os passageiros estão todos sentados à minha frente. Somos 31 e só 9 vêm aqui atrás depois da porta do meio do autocarro. Portagem em Portugalete. Estamos a pagar. A portagem é para custear a manutenção dos túneis que acabámos de passar.

São 08:22h As indicações ainda estão em Euskadi na E70 até Santander, numa zona industrial. Nesta zona prevalecem a indústria metalomecânica, a construção naval e a indústria da pesca. O porto de Bilbao é o mais importante.

Vamos entrar na Costa Verde e o Atlântico já apareceu lá ao longe recortado na paisagem.

São 08:25h e continuamos com os 17ºC nesta manhã em que o trânsito de camiões é muito intenso. Aqui a atmosfera também cheira um pouco a gás, mas não admira: há por aqui várias centrais com grandes depósitos circulares. É nitidamente uma zona muito industrializada, pouco apelativa para quem quer desfrutar de paisagens verdejantes.

Tirei a primeira foto ao Atlântico que estranhamente está à minha direita. Vejo uma placa a indicar à direita Cobaron e vamos em frente pela E70/A8. Já saímos do País Basco e entrámos na Cantábria, outra região autónoma desta dividida Espanha. As encostas têm muita vegetação. Já não há dois nomes nas placas de sinalização das estradas. Agora estão apenas em castelhano.

A capital é Santander, nome que deriva do nome do Santo André (Sanct Ander) - diz-nos o guia. A vegetação é densa e bastante alta e o Golfo da Biscaia está ao meu lado direito. Castro-Urdiales é uma conhecida e reputada zona balneária nesta costa Cantábrica. Aqui parámos.

Luís Filipe de Abreu. Artista Plástico. Um diálogo curto com esta figura pública que à mesa de uma esplanada se escondia na simplicidade e humildade de quem é grande em todos os sentidos. Descobri então quem era com a cumplicidade da sua esposa que me revelou com quem eu estava a conversar, sem saber. Um privilégio. Ele não queria que ela revelasse detalhes, sentiu-se até incomodado, como se não fosse revelante o seu trabalho. Ela insistiu, orgulhosa do homem que a acompanhava.

Fiquei a saber que eram de sua autoria os azulejos da estação do metro no Saldanha, em Lisboa, e que algumas das notas do Banco de Portugal tinham o seu cunho. Admirável e inesquecível encontro este.

Em Castro-Urdiales, à beira-mar, como saído de um sonho, conheci assim pessoas tão simples quanto ilustres. Paragem curta, mas que se revelou muito significativa por este pequeno diálogo de aproximação em que me senti deslumbrado e com uma profunda admiração e respeito por estar na presença de uma figura tão respeitosa quanto emblemática da nossa cultura.

São 09:20h, estão 20ºC, o tempo magnífico, e Santander aqui vamos nós…

Mudou a paisagem de ontem para hoje. O cenário de inverno passou para o edílico verão. É o mar aqui e ali que sarapinta agora a paisagem. Uma ribeira que vem desaguar no mar; as encostas muito verdes de vegetação vária e muito densa; subimos e há casario espalhado lá em baixo, ainda do meu lado direito, com o sol atrás de mim a bater-me na nuca. Afastámo-nos da costa, mas estamos na mesma estrada E70/A8 rumo a Santander.

Estamos na região de Laredo, localizada noutra baía da costa Cantábrica. Estamos também nos Caminhos de Santiago, um dos caminhos que levam até Compostela. Laredo é uma lagoa muito bonita. Passámos ao lado, mas parece que vamos para lá, pelo menos assim parece pela sinalização que vou encontrando. Ainda não são dez da manhã e, por isso, o comércio ainda está fechado. Vamos sair por dez minutos para ver a praia e tirar umas fotos. Já está. Missão cumprida. Mais uma pequena troca de palavras com o casal Abreu. Gente, de facto, muito simples e com quem dá gosto conversar.

São 10:00h, o tempo está aberto de um sol pleno, mas a praia deserta, apenas com gente ao fundo, na maré baixa, a apanhar marisco, bivalves, talvez.

Laredo é um local pacato, mas muito turístico, de vivendas e prédios altos de apartamentos de muito bom aspecto que se abeiram da praia. Têm aspecto de mais de vinte anos, mas estão muito bem conservados. E o pessoal vai chegando à praia…

A areia não é fina. É branca, sim, mas granulada. Agachei-me, peguei nela para sentir a sua textura e fechando a mão senti as pedrinhas arredondadas a escorrerem-me por entre os dedos.

Agora quero fazer tudo ao mesmo tempo: tirar fotos e escrever ao mesmo tempo, o que me parece difícil. Enquanto as coisas me vão caindo para o chão: ora os óculos, ora a caneta, ora eu próprio embalado pelo serpenteado do percurso do autocarro.

Estamos a caminho de Santander, já faltam poucos quilómetros. A paisagem agora é igual à que vimos antes. Verde nas encostas com casas ao fundo recortadas no verde dos campos. São vivendas isoladas. Agora há serra e a paisagem ainda totalmente verde, o que justifica porque se dá o nome de Costa Verde a estas paragens.

Na estrada de via rápida, muito trânsito nos dois sentidos, mas tudo a rolar, sem problemas ou conflitos que gerem impaciência. Não é uma estrada em linha recta, estamos inclusive a subir, numa zona alta e de gelo.  Mas agora está sol, estamos com os mesmos 20ºC do princípio da manhã e o relógio digital marca 10:20h.

Estamos a chegar, diz o Rui, embora faltem onze quilómetros. Aqui vêem-se de novo indústrias dos dois lados da estrada. Em Fevereiro 1941 houve um grande incêndio que destruiu o centro histórico da cidade de Santander pelo que hoje a cidade é mais moderna. É uma cidade também portuária e fica numa península de onde se apanha um ferryboat que vai para Inglaterra. Vi esse barco e não percebi que se tratava do mesmo. É um barco enorme, majestoso, tipo navio de Cruzeiro, o que também não admira visto que é um Atlântico que tem de enfrentar pelo Golfo da Biscaia até ao Sul das Ilhas Britânicas.

São 10:45h, está um sol imenso, 22ºC e ainda não chegámos ao centro da cidade do Santo André. Andámos ali um pouco às voltas para estacionar e não foi possível. Apercebemo-nos, entretanto, do intenso movimento, sobretudo por se tratar de uma zona extremamente turística e da importância estratégica desta cidade.

São 11:25h, acabámos por atravessar toda a cidade capital das Astúrias e viemos parar junto à praia do Sardinero, onde estamos. Aqui o autocarro deixou-nos em frente ao edifício do Gran Casino para uma visita rápida e para absorvermos um pouco do ambiente. Parece que estamos em Cascais, numa zona balnear rica e muito bem organizada, muito limpa e onde até há um jardim de flores, canteiros e palmeiras virados, tipo esplanada, para o mar.

A praia está cheia de gente. A areia é fina e branca. Piso-a só para a sentir e repito o ritual de Laredo. Na avenida, um tipo de dentro de um carro grita para outro que vai a passar: “vai trabalhar”, em castelhano, claro, - e ri-se. Onde é que eu já ouvi isto? -pensei e ri-me também do meu pensamento.

A paragem é curta, vinte minutos. Aqui cheira a férias e a turismo. Apetece ficar mais tempo, mas agora já vamos para o centro, que é aqui já o lado. Santander também é uma cidade pequena, e vamos ser de novo despejados, agora para almoçar. Falta alguém, esperam-se mais uns momentos e já está.

11:50h e vamos sair então para desfrutarmos, cada um por si, a cidade. Parámos em frente à Catedral que visitei, e percorri depois grande parte da cidade a pé até um largo com umas esplanadas onde comi uns saborosos “pinchos”. Foi o meu almoço, acompanhado, claro, por umas “canas” fresquinhas e protegido por uma sombra de um chapéu-de-sol, desfrutei do ambiente e aproveitei para descansar um pouco num clima de puro devaneio.

À minha volta outras mesas com gente de cá, clientes “habitués” e outras com alguns estrangeiros a apreciarem o mesmo que eu. Soube-me muito bem este momento e foi reconfortante.

14:30h, regresso ao autocarro. Esta hora e meia passou-se num instante. Apetece estar na praia. Estão 23ºC e um sol radioso num contraste gritante com o dia de ontem.

No porto está o Ferry que nos levaria até Inglaterra. É um grande paquete que até daria gosto usufruir. Há pessoas na coberta onde há uma piscina. Deve estar-se bem ali.

Mas o nosso destino é outro e vamos sair de Santander. Olhando para trás, esta cidade deixou-me muito boa impressão: com muitas lojas, muito comércio, e não sei se por ser agosto, com muita gente, além de que me pareceu um sítio ideal e muito apetecível para férias de verão, sendo de facto uma zona muito turística. Mas para nós não dá e aqui vamos nós. Adeus, até à próxima.

Voltámos à auto pista del Cantábrico. Vamos passar em Santillana Del Mar que, por sinal fica a dez quilómetros da costa. Estamos em plena A67 e a sinalização indica, além de Oviedo, Burgos, onde já estivemos.

Muitas estradas, muitas entradas e saídas, imenso trânsito, mas tudo em andamento calmo, sem problemas ou constrangimentos. O motorista tem feito uma condução passiva, parece saber o que está a fazer e ser bastante responsável. Não há manobras abruptas, guinadas ou travagens bruscas e transmite-nos confiança, além de que o Rui, nosso guia, também é um veterano destas coisas de viagens e para ele, nestes percursos, não há segredos.

Atiramos um olhar para fora das grandes vidraças e na paisagem vemos mais construções industriais ao longo da estrada, tipo parques de zonas industriais. A sinalização indica-nos também que estamos a 170 km de Oviedo. Aqui dentro vamos todos ainda a saborear nas nossas memórias o rebuliço que trouxemos de Santander, confortavelmente acomodados, com o termómetro digital do autopullman a marcar 23ºC e o relógio nas 14:45h, enquanto numa bela tarde de verão, algures na A-67, o autocarro nos dirige para Santillana.

Santillana del Mar é uma localidade medieval, muito turística, e cujo nome deriva de Santa Juliana de Nicomedia, uma mártir perseguida e morta na Ásia no século III e cujos restos mortais foram para ali trazidos e depositados numa ermida que foi declarada monumento nacional no final do século XIX.

Estamos a afastar-nos da costa e a paisagem voltou ao verde do campo com pequenas elevações. É por aqui que se encontram também as célebres grutas de Altamira com pinturas rupestres, supostamente do paleolítico superior, com doze a quinze mil anos de existência, diz-nos o guia. Todavia, há ainda hoje dúvidas sobre a sua autenticidade. Deste conjunto pictórico, estas pinturas rupestres são as mais significativas que se conhecem. Curiosamente, devido ao grande número de visitas, acrescenta, decidiram fechá-las para assim serem melhor preservadas. Pela net, em http://pt.wikipedia.org/wiki/Caverna_de_Altamira encontra-se bastante informação sobre esta famosa caverna.

A N-611 é a estrada que circulamos, fizemos um pequeno largo e estamos entre casas dispersas de uma pequena povoação a caminho de Torrelavega que está a quatro quilómetros. Uma cimenteira à nossa direita fere-nos o olhar despreocupado que uma central eléctrica e mais indústrias acentuam na paisagem descaracterizada.

Voltas e mais voltas e descortinamos que há por aqui inúmeras pousadas para peregrinos. É um roteiro com muitas ermidas, o que não é estranho, dado estarmos também sobre um dos percursos dos Caminhos de Santiago. Mais rotundas e rotundas num emaranhado de vias e estradas, entradas e saídas num labirinto de destinos que se cruzam e descruzam entre paisagens que se perdem no olhar verde que nos fazem lembrar o norte de Portugal, agora com as vistas mais abertas com as montanhas lá ao longe.

São 15:05h e estamos a chegar a Santillana del Mar. Estão 22ºC e há imensos carros estacionados por aqui. Vamos parar para darmos o nosso passeio apeado. São duas ruas… mas há imensa gente a passear ou sentados nas pequenas e recatadas esplanadas. Temos quase uma hora para desfrutarmos aqui. Vamos então lá explorar.

E é uma vilazita interessante, muito disputada por umas lojinhas características das pequenas localidades como esta, dispersas por ruazinhas estreitas com casas de pedra, tão tradicionais quanto artesanais, espaços exíguos de comércio onde se explora o que aqui se produz. Artesanato e chocolate são elementos dominantes.

Na arquitectura medieval, as varandas destacam-se por serem construídas em barrotes de madeira escura com umas plantas aéreas que se desprendem dependuradas e que fazem lembrar ouriços verdes e gigantes. Outras, apenas ostentam vasos com flores muito garridas de um vermelho vivo que nos atrai, salpicadas de cor que sobressai da madeira com pilaretes helicoidais. Outras ainda enchem-se de artefactos diversos, desde baldes a bicicletas, de bandeiras espanholas a roupa escura de trabalho, esta estendida ao sol aproveitando esta bela tarde de um dia verão.

Há lojas de artesanato, mas também restaurantes, estalagens e muita gente em busca de raízes dos seus antepassados. Revivem-se aqui histórias de infância e eu aproveito apenas para um olhar despretensioso para uma antiguidade de séculos sem sequer sentir o que vejo. São para mim apenas lugares de circunstância vividos sem a paixão de um artista ou de quem tem alguém a seu lado para partilhar.

Percorro estes caminhos olhando cada centímetro quadrado de paisagem, mas para mim este um lugar é como tantos outros que conheço e que temos no nosso país, ainda que este tenha a particularidade de estar muito bem cuidado e preservado e que nos transporta, em momentos pontuais, às gentes e às tradições ancestrais de um povo que aqui viveu e que soube ao longo dos anos guardar-nos este bocado de terra com as casas de dois/três pisos como um local de culto para aqueles que apreciam o passado e as tradições das suas gentes.

16:06h saída de Santillana rumo a Oviedo. Está um tempo magnífico e eu estou de calças compridas em vez de calções. Mas foi estratégico, devido ao meu percalço, aparentemente ultrapassado.

Estão 25ºC e para Oviedo não vamos pela autopista, mas pela estrada nacional porque temos mais paisagem para desfrutar, diz-nos o Rui. Por aqui temos também acesso visual aos prados de Cantábria com as bobines de fardos empilhados a um canto, nas propriedades, envoltas em plástico negro. Há por aqui ainda várias ermidas que fazem parte do roteiro dos Caminhos de Santiago e que foram fundadas por monges beneditinos. E encontramos também pequenos povoados com casas de dois pisos em tons avermelhados como suas cores características sóbrias e predominantes.

Os cavalinhos também são por aqui tradição. Estes animaizinhos têm características que ficam entre o poldro e o cavalo. Vacas é outra das espécies animais que por aqui se podem ver; e fazem-me lembrar os Açores. São de cor castanha, mas também já as vi pretas e brancas, como as que conhecemos melhor, nomeadamente, das Ilhas do meio do Atlântico. E a salpicar também os campos de prados verdes, vamos encontrando diversos pastos de dezenas de ovelhas que, pachorrentamente vão degustando a erva, alheias ao nosso olhar efémero de uma passagem que também é meramente fugaz.

E, claro, com tanta quantidade e qualidade desta pastorícia não podiam faltar as indústrias com as fábricas de queijo, assim como deve haver de chocolates, já que estes tanto predominam e são apreciados aqui no norte de Espanha. Do queijo não tenho opinião formada. Já quanto aos chocolates posso dizer que têm um aspecto delicioso, embalados com vários enfeites tipo “confiserie”. Vi isso em Gernika e Bilbao e fiquei… a olhar para eles e com pena de não os poder comprar, para evitar as calorias…

16:30h CA-131, Estamos a passar por Comillas que é outra zona balnear muito característica e disputada por aqui. Tem em anexo à praia dois parques de campismo e, pelo que nos apercebemos, estão lotados de gente. Parece a aldeia da roupa branca, tal a mistura de tendas que se estendem como lençóis lançados ao vento numa caótica cobertura de geometrias variadas.

Atravessámos a “aldeia”, seguimos viagem e ficámos com a mesma sensação de quem chega a São Martinho do Porto, pela similitude e pela confusão instalada. Não me parece ser um centro turístico de eleição, nobre por excelência, como vimos em Santander. Para Comillas vem o pobrezito.

Agora seguimos para San Vicente de la Barquera e vejo uma serra lá ao longe do meu lado esquerdo e o mar à minha direita, ou o seu reflexo. Oviedo está a 148 km e continuamos a serpentear pela estrada de curvas e contracurvas por entre pastos, vacas e bois a pastarem e por aquilo que me pareceram ser plantações de milho.

Parámos em San Vicente depois de percorrermos uma ponte antiga, provavelmente romana, pela arquitectura, que atravessa um rio com o mesmo nome.

São 17:05h e estão 25ºC na rua. Está um final de tarde ameno e muito agradável aqui à beira rio. No céu, nuvens muito altas e dispersas elevam-nos o ego e inspiramo-nos no clima abafado de um verão apetecível para sentir a leveza deste momento sublime, longe de outro qualquer lugar da nossa memória ou vil existência.

Estamos numa zona tipicamente marítima, de ria, mas sem praia. Parece-me um local tranquilo, acolhedor, turístico, e muito mais apelativo, embora bem diferente de Comillas. Digamos que é um local que se visita e onde se está de passagem, para comer ou beber, (diz-se que se pratica por aqui a pesca da lagosta), se conversa, ou se vem para dar um giro. Há muita organização e limpeza, está tudo muito equilibrado, e é sítio muito aprazível para passar uma tarde depois de um prolongado e bem degustado almoço de marisco.

Um local onde também se pode saborear a paisagem bucólica dos barcos que se agarram nas âncoras, enquanto se desfaz o cansaço no olhar perdido da paisagem marítima; ou o descansamos nas barcaças que salpicam a foz, e se consome, enfim, em harmonia com a natureza, o bem-estar e o ruido de uma pacata e pitoresca vila piscatória.

Um porto pesqueiro, sim, de pequenas embarcações atracadas às margens, numa paisagem edílica e extasiante para quem chega e para quem sai. Mergulhando-se o olhar na ribeira, esta ramifica-se de braços abertos e no seu regaço embalam-se e descansam frágeis barquitos de pesca artesanal.  

Com uma ou duas ruas principais, com muitos cafés e restaurantes marisqueiros a animar quem aqui chega, San Vicente surge-nos como um lugar limpo, arrumado, onde há também jardins e parques infantis, um lugar onde se vem e se está com gosto, uma porção de terra também de canteiros e flores, mas onde não se foge à característica inexaurível de sons, cheiros e aromas de uma terra banhada pelo mar e com um rio a entrar-lhe pelas entranhas.

São 17:30h e estamos já a aprontar-nos para sairmos, rumo a Oviedo. Subimos agora uma serra onde tudo é verde e a paisagem a perder de vista. É o prolongamento de uma sensação aqui diferente de preenchimento da alma e de paz de espírito, como uma tranquilidade divina. Estamos na estrada nacional, há muitas curvas, mas apenas nos servem de embalo e suportam-se muito bem. À minha direita está agora o Parque Nacional dos Picos da Europa, uma grande e verdejante serra que iremos visitar amanhã.    

A 140 km de Oviedo deixámos a Cantábria e entrámos no Principado das Astúrias. Saímos da Estrada principal E-70 A-8, e esta só tem duas faixas, uma para cada lado, quando vejo Noriega numa placa, que fica à esquerda.

17:45h e 21ºC, e La Franca acaba de ficar para trás enquanto eu aqui atrás no autocarro tenho muita dificuldade em perceber por onde passamos. Agora é o mar mesmo aqui ao meu lado direito e é como se percorrêssemos uma marginal com uma linha de comboio entre nós. Mas estamos num ponto alto, vejo arribas e desnível até ao mar. Há trânsito na estrada e obras que provocam alguns constrangimentos. Há viadutos em construção e uma placa diz-nos que estamos a 114 km do nosso destino. N-634. Vidiago, Riego, logo a seguir. Aqui as localidades estão bem identificadas, e seguimos para um troço da A-8 acabadinho de fazer.

À minha esquerda uma extensa cordilheira a lembrar a Serra da Estrela. Umas nuvens cinzentas cobrem alguns dos picos. Estamos a passar Llanes, contornámos uma rotunda e saímos por uma estrada nacional de duas faixas AS-263, enquanto a cordilheira se afastou de nós e ficou mais longe, embora continuemos a segui-la. Depois de voltas e mais voltas, estamos de novo ao lado do Atlântico, a cerca de 100 km de Oviedo. E voltámos à via rápida E70-A8. Ribadesella será a próxima localidade. Julgo que esta constante mudança de estradas e desvios é por causa das diversas obras de melhoramento e construção de novas vias que se estão a fazer por esta região.

Entretanto, enquanto o sol se vai escondendo por detrás das dispersas nuvens altas, os picos desta grande serra continuam aqui a fazer-nos sombra. Ribadesella está a quatro quilómetros e estas montanhas são umas autênticas esculturas naturais, verdadeiramente imponentes, parecendo que escorreriam para cima de nós se a chuva as fustigasse. Estão cobertas por um verde rasteiro e são bastante íngremes e rochosas morfologicamente.

Mas não o suficientemente duras para que a tecnologia humana não as atravesse: um túnel, outro túnel, mais outro. Gijon 58, Oviedo 74, indica a sinalização. E mais um túnel. O homem é imparável na sua obstinação de chegar mais depressa. E fura, perfura, inventa caminhos por entre a serra que nos engole por largas centenas de metros. Estamos nos Picos da Europa, é verdade, e escrevo (originalmente) às escuras. Este túnel era enorme. Saímos e de novo a serra à esquerda e pastorícia à direita, ou o mar, como acontece agora que levantei os olhos para contemplar esse plano de azul anil. Mais um túnel, este pequenino e o mar de novo. É uma paisagem muito bonita esta, recortada no nosso olhar que se distrai, ora desfrutando a serra num lado, ora mergulhando no mar, do outro.

À minha frente, há duas mulheres que vão sentadas sozinhas. Não me dizem nada, isto é, não me inspiram a vontade de comunicar com elas, distribuir-lhes um comentário, atirar uma piada, o que quer que seja. Não se encaixam no meu perfil. Há também vários casais, incluindo o casal Abreu, que vai um pouco mais à minha frente. O que estranho é que os casais vão todos sempre muitos calados, não há comunicação verbal, um diálogo visível entre eles, e isso aflige-me. Ou será que sou eu, em companhia de alguém, que sou “uma melga”?

Eu não me tenho imposto, nas nossas paragens, ao casal Abreu. Não me quero intrometer no passeio deles, nem sequer ser um intruso nas suas cogitações familiares ou deambulações nos locais onde paramos. Não quero também ser inoportuno, apesar de notar que se mostram sempre bastante disponíveis e simpáticos, além de me parecerem ser pessoas muito simples e acessíveis.

Assim, quando saímos do autocarro não me colo a eles para não ser - nem me sentir- indesejado, além de não querer perturbar a sua privacidade. Mas dá para perceber que não se escondem da minha aproximação.

Ele, como artista está uns furos muito acima do comum dos mortais, sem comparação, e noto também tratar-se de uma pessoa muito inteligente e culta. Eu não me sinto à sua altura, nem de perto nem de longe, e estou muito aquém, em todos os níveis de quaisquer paralelos. Tratando-se Luís Filipe de Abreu de uma figura de grande relevo e mérito da nossa sociedade cultural, individuo com um nível intelectual muito elevado e de estirpe notável, como a que demonstra mesmo na sua simplicidade, apenas me limito a ter o privilégio da sua admiração, ao empreendimento a que me propus, nesta viagem. E aqui vai ele, incógnito, como um passageiro comum, no seio de um restrito grupo de viajantes, trinta e um turistas ocasionais, numa viagem que esperamos todos que seja inesquecível.

Estamos agora com 22ºC, são 18:47h, o céu tem umas gretas azuis, mas as nuvens são daquelas que só fazem sombra. Deixámos de ter serra e chegámos a… um túnel dentro de uma localidade que é Villaviciosa, pela qual passámos por baixo. Aqui é assim: não se incomoda ninguém.

Estamos na A-64, mas há já algum tempo. Agora o guia diz-nos que amanhã vamos andar de novo por estes caminhos para irmos aos Picos da Europa. Percorremos um vale. É tudo verde de um lado e de outro da estrada, com muitas árvores de pequeno porte e de característica halófitas. Um enorme talude em rede de protecção protege a outra faixa de estrada. Acenderam as luzes aqui do autocarro o que significa que vamos ter pela frente um túnel enorme. Assim era. Saímos com cerca de uns dois quilómetros percorridos debaixo do chão. São 19:00h e estaremos a 20km de Oviedo.

Oviedo é a capital do Principado das Astúrias. Este território que se constitui simultaneamente como uma província e uma comunidade autónoma de Espanha teve o seu reconhecimento durante o século VIII.

Como sempre acontece, com o aproximar das cidades surgem na paisagem as zonas industriais. Típico, de um lado e de outro.

19:10h e entrámos em Oviedo. IKEA à esquerda e a Porcelanosa. Temos a segunda circular e o viaduto do Espírito Santo. Oviedo está à direita. Parece uma cidade velha, baixa, avermelhada, como se se tratasse de uma zona industrializada, não muito apelativa para ficar. Ainda mais um túnel e agora uns prédios castanhos. E as minhas suspeitas confirmam-se: Oviedo é uma cidade velha, suja e usada. Estamos a chegar ao hotel quando são 19:30h e o jantar será às 08:30h da noite.

Também este hotel não é nada de especial. É até o pior daqueles em que já fiquei nas minhas diversas viagens por Espanha. Julgo que este quarto onde estou, de tão pequeno, é um daqueles que fazem pandã com outros, do tipo familiar. Há pelo menos uma porta aqui ao lado que dará para esse outro quarto. Eu estarei no quarto dos filhos… ou consideraram-me um hóspede de segunda, ou um excursionista subalterno nesta comitiva...  

De facto, este é um quarto extremamente pequeno, muito pequeno mesmo, com a cabeceira da cama, imagine-se, encostada à parede da porta da entrada. Se uma pessoa ressonar, quem for a passar no corredor, ouve-a. O quarto é, no entanto, acolhedor, está limpo e tem bom aspecto. Tem um quadro da Roma antiga com um militar sobre uma quadriga de dois cavalos. As paredes são rugosas, tipo antigo Karapas, pintadas de branco sujo. A mobília em mogno favorece o estilo antigo, século XIX, com linhas direitas numa cabeceira com os cantos recortados. A janela dá para umas traseiras fechadas por uns prédios altos que se erguem em frente, mesmo diante do nariz.

Não sei quanto se paga neste hotel comparativamente ao Gran Bilbao, mas o Ayre Hotel Ramiro I fica a léguas, diria mesmo que não tem categoria para as quatro estrelas que ostenta. Definitivamente, o Ayre Hotel Ramiro I foi mesmo um “ar” viciado que me deram. O mais grave é que vão ser, não uma, mas duas noites as que aqui vou passar.

Todavia, a única vantagem que tenho é que, mesmo assim, com todas estas pouco abonatórias considerações, se comparar este quarto com aquele onde eu durmo todos os dias, todo o ano, o melhor é ficar calado. Esta cama é de casal, é bastante grande, desproporcional até ao tamanho do quarto, e parece-me também muito confortável; no meu quarto, em casa, as condições que tenho não são melhores.

Para o jantar foi preparada uma sala particular para o nosso grupo. Entrei e fui escolher um lugar na ponta mais longínqua de uma das duas mesas que, perpendicularmente à entrada e paralelas entre si, estavam preparadas para o efeito. Quando entrei reparei que já estavam pessoas sentadas às mesas, mas algumas, confesso, era como se as estivesse a ver pela primeira vez. Em outro grupo – talvez constituído por pessoas que estão no autocarro mais próximas do meu lugar – reconheci-as melhor. Sentei-me. Logo a seguir chegaram as restantes pessoas do grupo que se foram sentando nos lugares disponíveis, tendo o casal Abreu privilegiado os dois lugares vagos à minha frente na mesa. Foi muito amável da parte deles e agradável a presença. A refeição acompanhou o clima descontraído ali estabelecido. Para mim nem tudo era mau.

Se este quarto que me atribuíram é pouco mais que um cubículo de 14 ou 15m² e tem uma casa de banho que faz um “ele” com uma área de uns 3m², tudo em pequeno, em contraste com a suite de ontem, o jantar foi em grande, simplesmente excelente e divinal.

A refeição começou com uns enchidos que chegaram à mesa e para os quais ficámos todos a olhar sem perceber se eram apenas entradas ou parte da refeição propriamente dita. E o meu olhar de destaque foi logo para um chouriço de cebolada de que sou fã incondicional de muito boa qualidade. Atirámo-nos a eles (aos enchidos) com o pãozinho que tínhamos à mão. Depois veio sopa de cozido cinco estrelas , e o segundo prato é que já não valeu nada. Eram uns croquetes de batata com salada de alface e tomate, mas como já estávamos empanturrados de sopa e enchidos, já ninguém se importou. Ficámos a saber depois que os enchidos eram para juntar na sopa. Misturámos tudo no estômago.

Para remoer um jantar daqueles nada melhor que um salto ao centro da cidade. Mas foi mais uma decepcão. Nenhum movimento e tudo apagado. Oviedo é uma cidade às escuras, a meio gás, triste e sem vida.

Resta-me este quartito. Em contraste gritante com a sumptuosidade do quarto de ontem, em que me senti o Xá da Pérsia ou a celebridade mais importante da nossa caravana, hoje chego apenas à exiguidade do meu próprio pensamento, em que, encaixotado aqui neste pedaço de mundo, serei, tão-somente, um hóspede solitário do Terceiro Mundo. E é interessante verificar como pode mudar a forma de sentirmos as coisas: num dia, grandes, no seguinte, pequenos e, num instante, passamos de bestial a bestas…

Boa noite, espero.

 

CAPÍTULO IV

Oviedo, 7 de Agosto de 2012

Bom dia, Oviedo! São oito horas. Acordei (acordaram-me pelo telefone), às seis e meia da manhã. Estava com uma dor de cabeça. Mas nada de grave e que me espante, estas cefaleias matinais.

Tinha pedido que me despertassem às sete, e fizeram-no, só que já o tinham feito meia hora antes, na hora do “acordar do grupo”. Fiquei lixado, mas não relevei o engano da recepção.

O meu pequeno-almoço foi bom e variado, à base de fruta, incluindo o habitual melão com presunto e sumo de laranja natural. Bebi depois um café, mas antes, não resisti, e ainda me atirei a uns deliciosos croissants com doce de geleia. Nada mau para começar um dia que acordou com umas nuvens a lembrar aqueles flocos de algodão, todos dispostos muito certinhos no céu. É a imagem que tenho daqui. Está fresco, mas está-se bem com os 18ºC que mostra o termómetro digital do autocarro.

De manhã as conversas são sempre as mesmas. “ – Então dormiu bem? Eu não consegui dormir, com o barulho” – queixa-se um. Outro diz que teve insónias e que só adormeceu lá para as tantas.

Eu, apesar do pequeno barulho do ar condicionado do corredor, consegui adormecer agarrado à almofada comprida, em forma de chouriço, e dormi acho que bem, apesar da tal dor de cabeça com que acordei, mas que, entretanto, já se desvaneceu com o pequeno-almoço.

Saímos. São 08:05h e o programa de hoje passa por irmos de manhã para Covadonga com passagem por Potes e, de tarde, Ribadesella e Gijón. O tempo está bom e esperam-se 25ªC.

Estamos em Oviedo, a atravessar a cidade e vamos direitos à serra que já descortino lá ao longe. As nuvens no céu parecem ondulações de areia na praia na maré baixa. Um espectáculo magnífico.

11:30h e já estamos de saída de Covadonga. A chegada aqui não foi muito pacífica porque havia uma excursão opcional aos Lagos dos Picos da Europa e só uma minoria queria ir. O Rui argumentou várias desculpas, como perda de tempo para os que não queriam ir e eu acabei por tomar o partido do guia e, por solidariedade não fui, embora acabasse por me arrepender.

Neste lugar o ex-libris é a gruta da Santa de Covadonga que fica incrustada, acima do nosso olhar, numa rocha, como um presépio suspenso, aparentemente inacessível, sobre um lago natural para onde escorre uma pequena cascata de água. Chega-se lá por uma escadaria de pedra, contígua também a umas casas existentes, ou através de um túnel lateral escavado na montanha, que nós percorremos, por onde se e entra passando três cruzes de pedra apoiadas num pedestal também em pedra. No fim deste túnel ergue-se então, em frente, uma pequena capela, que se expõe lateralmente à abertura com vista para o lago, na rasante e a pique.

À direita da gruta escavada e aberta está a Santa de Covadonga a olhar para a paisagem que se abre em frente. É uma pequena imagem de cerca de meio metro, pouco mais, corpo inteiro, coberta com um manto vermelho debruado a ouro. Sobre a cabeça tem uma coroa e uma auréola também ourada e na mão direita uma flor também do mesmo material. Está colocada atrás de um pequeno altar sobre uma base de cabeças de anjos e, apesar do exíguo espaço, há ainda uns bancos em madeira trabalhada onde se sentam fiéis; e havia quem estivesse a rezar. Outros tiravam fotos para a posteridade e houve quem fugisse das escadas…

A ideia com que se fica deste lugar estranhamente localizado numa consola rochosa é que se entra numa pequena ermida exterior onde se fundem paredes e tecto num invólucro irregular e granítico que se abre como uma espécie de concha alveolar e profunda. No chão há também um tapete vermelho que nos silencia o andar sobre a pedra, e do tecto, com a Santa de Covadonga no meio, pendem dois candelabros metálicos com duas velas vermelhas.

Este local, além de religioso, é ainda muito bucólico e aprazível, e não se esgota na gruta com a capela e a imagem da Santa, que visitámos. A paisagem é maravilhosa: com muita vegetação, recortada por ribeiras e pequenas cascatas que nos deliciam o olhar e entoam canções de imaginárias sereias.

Pelo meio “troquei” umas fotos com uma das passageiras do autocarro e ainda brinquei com outra do mesmo grupo simulando atirar-lhe a mala para dentro do lago. Enfim, um pequeno momento de aproximação ou abordagem de pessoas que estão ali connosco, na mesma viagem pelos sonhos.

No lago, sobre uma ponte de blocos de pedra, atirei uma moeda à espera que o amor assistisse, mas continuei sozinho no meu percurso e pelas minhas deambulações, embora o olhar tivesse parado numa cumplicidade mútua. Cada um de nós seguiu o seu destino e eu desci mais escadas até ao fundo do vale.

Fui então explorar este pequeno jardim florido de hortênsias lilases entre leões de pedra, em guarda sobre a entrada. E entre a paz e sossego do arvoredo, encontrei outras escadas que galguei em êxtase, subi e desci, caminhei e corri sobre plataformas de madeira que se baloiçavam em grossas cordas, percorri caminhos de extrema beleza natural e, no silêncio das formas que me envolveram numa carícia, fui à procura finalmente daquele que constitui também o Corpo central e religioso desta localidade que é a Catedral de Covadonga.

Situada bem lá no alto, tive que emergir das profundezas e percorrer os antigos jardins do Parque del Príncipe cuja porta de entrada, de duas folhas em ferro, ainda ostentam, na verga da moldura, aquele nome.

Mas é preciso alguma preparação física para, num lugar como este, se apreciar tudo o que o envolve, nomeadamente percorrer os trilhos de pedras no meio de riachos, galgar as escadas, contornar as raízes das árvores que se expandem para além dos troncos e depois, olhar para cima e ver aquela Igreja recortada na paisagem, cujas paredes parecem terminar no céu.

A Basílica de Santa Maria Real de Covadonga é uma construção de estilo românico executada com pedras de calcário em tons de cor-de-rosa. Construída sobre uma plataforma regular que encontramos no cimo de um pico, por uma estrada de alcatrão que subimos, destaca-se da paisagem verde pelos seus tons que me pareceram mais de um vermelho ocre. De aspecto sólido, sóbrio e austero é um edifício de sumptuosidade religiosa, à dimensão de uma grande Igreja. Ergue-se em três naves, sendo a nave central maior e as duas laterais mais pequenas, constituindo estas os corredores do seu interior. É, realmente, um edifício belo e simultaneamente estranho pelas suas formas e cores no meio daquela paisagem carregada de verdes profundos e em inexorável contraste.

Há imensos turistas por aqui, que olham, observam, comentam, tiram fotos, rezam. Há também gente devota que vem sobretudo aqui para rezar. Outros ainda apenas para usufruírem desta inexaurível beleza natural e magnífica. De repente, observei três padres de batinas pretas que saíram da Igreja e caminharam pelo adro lateral, conversando. Iriam talvez aproveitar o excelente clima de sol que se fazia sentir. Ao longe, porque se afastavam de mim, tentei, ainda que em contra luz, umas fotos daquele momento. Ficaram.

Mas toda a envolvente aqui é fascinante, encerrando até um certo mistério todas as cores, formas e sentidos que somos levados a experimentar. Este parece ser um dos locais sagrados eleitos, longe de tudo, como se estivesse fora do mundo e inacessível. É um local onde a paisagem, os muitos tons de verdes nos atiram e projectam para as nossas ilhas no meio do Atlântico e os seus edílicos sentidos. As emoções são fortes. Captamo-las.

Agora que este local ficou para trás e nos restam as memórias dele, fico com pena de não ter absorvido a experiência dos Lagos, cujo passeio, dizem os que foram, foi simplesmente maravilhoso. Por isso me arrependi.

Depois de menos de três horas de visitas, reconhecimento e descobertas, deixámos assim a Gruta de Pelágio, a Santa de Covadonga e a Basílica Real e vamos agora a descer da montanha, estrada abaixo, rumo a Potes onde almoçaremos.

Chegámos a Potes às 13:30h. Saí do autocarro, juntei-me ao casal Abreu e fomos, os três, almoçar a uma esplanada aqui mesmo no centro. Ele trazia a indicação de um restaurante especial, mas acabámos por reparar num local harmonioso, logo ali, num largo abaixo da rua onde estávamos. Fomos inspecionar descendo umas escadas e encontrámos um ambiente muito aprazível, com várias mesas cobertas com uns chapéus abrangentes e não foi difícil decidirmos ficar e de escolhermos um sítio para nos sentarmos.

A minha refeição de cabrito estava com muito bom aspecto e foi muito apetitosa. Bebemos vinho da região por uma garrafa com uma forma pouco comum, a lembrar um daqueles frascos antigos de remédios, só que de capacidade maior. O vinho foi tinto com sabor frutado e a companhia muito agradável. O assunto de conversa foi transversal e a cultura ficou à borda do prato. Não se falou de Alexandre Herculano e de Eurico Presbítero, nem da região de Cantábria, onde estamos, deixando para trás as Astúrias.

Potes é um local pitoresco, muito turístico, mas que me parece ficar nos confins de tudo. Não tivemos tempo para ver nada, praticamente só tivemos tempo para almoçar. Viemos aqui, penso que, apenas pelo passeio através de um desfiladeiro que percorremos, realmente apaixonante e muito bonito, mesmo pela agressividade pura de uma paisagem que parece virgem.

E vamos voltar para trás. Vamos regressar e percorrer de novo os vinte e dois quilómetros desse desfiladeiro, de nome “Hermidas”, e que nos trouxe até Potes. É um caminho por um vale estreito, imponente, assombroso quanto assustador, ladeado de monstruosas elevações de montanhas que se erguem por cima de nós, dantescamente, quase até ao céu e que vorazmente nos parecem engolir em cada metro de estrada que percorremos. Guardamos cada passada do percurso com uma foto, cada uma diferente da anterior, até consumirmos quase toda a bateria, tanta é a beleza disponibilizada nesta garganta do mundo, algures nos Picos da Europa, em Espanha.

 A N-621 é uma estrada que serpenteia por este desfiladeiro ao longo de um rio, o Deva e, porque estamos no verão, está meio vazio.

Potes é um local muito pequeno, muito recatado e bonito a fazer-me lembrar um postal ilustrado, tudo muito bem composto e arrumadinho. E apesar da sua localização no meio do nada e de difícil acesso, é um local muito procurado, quer no verão, quer no inverno.

No verão é esta paisagem deslumbrante pela sumptuosidade: o caminho através do desfiladeiro com as montanhas rochosas a desafiarem-nos a vista. E o rio, em baixo, sempre ao nosso lado, a escorrer por entre um estreito leito de águas transparentes. No inverno, dizem, é o espectáculo do gelo que cobre as altas montanhas, que se elevam a mais de 2500m, e é destino para esquiadores. Sim, fica-se com a boa sensação de um lugar paradisíaco que vale a pena visitar e ficar, se for possível. Não é o nosso caso. São 15:30h, estão 27ºC e estamos já de saída.

São 16:35h e vamos a caminho de Ribadesella. Já passámos por esta estrada rumo a Oviedo. Aí mais à frente devemos derivar para outra estrada qualquer que nos levará a Ribadesella que, ao que julgo saber, será também uma estância balnear.

E estou a escrever agora porque está imenso calor aqui dentro (24ºC); vai o sol a bater-me na nuca e já estava a fechar os olhos, da moleza, para dormir. Um desperdício. Deve ter sido do excelente almoço que comi. Então, para obviar isso, resolvi vir para estas páginas que quero que transmitam as coisas agradáveis que estou a viver, acordado. Embora “os sonhos” que pudesse ter pudessem constituir uma boa alternativa, penso que o essencial e importante agora é “a realidade”, vivida nesta viagem e, pois então, quero e devo estar de olhinhos bem abertos para não perder pitada dela. Está bom de ver…

A verdade é que quero também que a minha descrição dela não se torne mais aborrecida e estou a alterar um pouco o estilo. Gostava de poder e ser capaz de descrever as sensações da alma em vez de referir que a estrada que vou é esta ou é aquela. É a escrever o que se sente, sobre aquilo que nos rodeia - nomeadamente aqui numa página de Diário de uma Viagem - que faz com que a leitura possa ser mais apelativa para quem lê e, dessa forma, valha a pena perder tempo a ler o que alguém escreveu.

E, de facto, a sensação ou as sensações que os Picos da Europa nos transmitiram são únicas: tenebrosas e perigosas pela sinuosidade da estrada, mas ao mesmo tempo deliciosas e aventureiras, numa transmissão pela alma que nos relega para a nossa pequenez, comparando-nos infinitesimamente com a grandiosidade do mundo onde assentamos.

A cordilheira de Hermidas, que termina quase em Potes, envia-nos para o espírito uma brisa que nos arrepia, de quem entra num labirinto e de onde não sabe se sai. Pelo rio Deva, reparamos que há troços que trazem consigo zonas pedestres, laterais, meias suspensas e que se podem percorrer em harmonia com a corrente do leito. Podemos sentir o quanto deve ser delicioso palmilhar aqueles estreitos caminhos, ao som do gorgolhar das águas, por onde só há espaço para se andar em fila indiana.

Estamos agora de novo a aproximar-nos do mar, mas curiosamente o clima piorou. É suposto irmos para uma zona balnear, onde haja um clima de sol e calor, além de que estamos em pleno agosto, no entanto, são nuvens altas e cinzentas que temos a horizonte. Mas não vai chover, longe disso. E já vejo o imenso Atlântico a acenar-me com os braços aqui perto de Villahormes. 

Esta vai ser uma visita completamente diferente das que fizemos da parte da manhã. E volto a acentuar que deve ter sido, até agora, o melhor deste passeio, embora, obviamente, este ainda não tenha terminado.

Na minha memória trago ainda as sensações do que senti em Covadonga. E vou aqui a regurgitar pensamentos sobre a intensa energia, sobre o imenso tempo de devoção à Santa padroeira. Depois, o percurso por aquele fenomenal desfiladeiro e as imagens que nos ficarão no imaginário, cuidadosamente arrumadas num rolo com um laço colorido à volta, dentro de uma gaveta onde guardamos as partes felizes das coisas boas da nossa vida. E, por inerência, também gravado nestas humildes páginas de histórias e sentidos, mesmo que estas sejam apenas pequenas pinceladas e pouco possam revelar do que se pode interiorizar e sentir.

São momentos únicos que, provavelmente, mereceriam mais tempo para desfrutar, nomeadamente, aqueles a meio do caminho da ribeira, nalguns pontos meio vazia, e de onde se salientavam os calhaus brancos e roliços que esteiravam o fundo do rio. Um rio onde também se criam trutas, um peixe muito cultivado por aquelas paragens.

E a viagem para Ribadesella continua. Pensava há pouco que estávamos a chegar, já se via o mar, mas o certo é que neste momento estamos no meio de uma serra de grandes vertentes apenas salpicada de verde e onde, provavelmente, será inóspito estar.

Já respirámos o ar da montanha, vamos agora respirar um bocadinho do ar do mar. Entrámos em Ribadesella pela carretera N-632 com um rio a receber-nos logo à entrada. Pejado de gaivotas debicando na areia da maré baixa, estas saudaram-nos efusivamente numa belíssima imagem de lusco-fusco e de sombras, como se do crepúsculo se tratasse.

São agora 17:15h e vamos sair para dar um pequeno giro. Está agora bom tempo e o termómetro indica 25ºC.

Ribadesella é um local pacato, do género de São Vicente, onde se está bem, tranquilamente, mas com apenas um tímido movimento turístico. Foi a ideia que me deixou. É uma cidadela com características ribeirinhas onde a pesca também parece ser um atrativo, além dos desportos náuticos, nomeadamente a canoagem, que até tem aqui um monumento, à beira-rio, erigido. Este monumento evoca as provas que aqui se efectuam com uma representação em pedra sobre um plinto, de uma canoa com dois atletas sentados dentro dela com as pás nas mãos, um deles com os braços erguidos de uma vitória, talvez.

É também conhecida esta pequena cidade costeira porque terá nascido por estas paragens a actual princesa Letizia Ortiz, futura rainha de Espanha. Este título, no entanto, diz-nos o guia, só o terá por morte de Juan Carlos, se continuar casada com Filipe de Bourbon, príncipe das Astúrias e se, entretanto, não mudarem a constituição espanhola.

Letizia tem aqui junto ao rio uma placa onde se lê: “Passeo Marítimo Princesa Letizia - Hija adoptiva de Ribadesella - 2007”, colocada em sua homenagem, mas que desta forma trará, com certeza, mais algum protagonismo a este lugar que é, de facto também, muito bonito e aprazível.

E no pouco tempo que aqui estivemos não deu para ver muito. Diria que foi mais uma paragem técnica que outra coisa. Dei, no entanto, conta que há uma pequena praia fluvial, do lado de lá, junto à foz, e para aonde se vai por uma ponte baixa, que é estrada nacional, e que atravessa o rio Sella. Pelo meio, o meu olhar encalhou numa língua de terra onde estão pousadas também imensas gaivotas e, por fim, ao fundo, vê-se uma marina de pequenas embarcações. Deste lado estão também vários pequenos barcos de pesca encostados ao paredão que sustenta o famoso passeio pedestre aqui contíguo.

Os edifícios que encontramos aqui junto à orla marítima são baixos, de apartamentos já com alguns anos, sem requintes, e terão até seis andares de altura. Estes refletem-se, em harmonia de cores de tons ocre e branco, de aspecto mais descontraído, no rio, onde se espelham, transmitindo-nos uma calma enleante que cativa. Há também lojas com artigos artesanais e os cafés do costume, mas estes com caraterísticas provincianas.

Estamos agora a caminho de Gijon onde vamos fazer também uma pequena paragem.

Para trás Ribadesella: o rio, as gaivotas, a marina, os barcos, as lojas, as vistas e… que bem se estava ali. Mas o nosso tempo é outro e perspectiva-se já o regresso com a chegada a Oviedo por volta das oito e meia, com esse desvio por Gijon.

Mas fomos a Gijon? Não. Passámos por Gijon. Havia planos para pararmos, mas não foi possível por causa da imensa confusão. Entrámos na cidade, passámos de autocarro à beira da praia e esta, pudemos ver, estava pejada de gente: milhares de pessoas, quer no areal, quer no calçadão contíguo entre a estrada e a praia. Estava um ambiente típico de férias, com muito sol e calor, gente de um lado para o outro, um pouco caótico mesmo, incluindo o trânsito automóvel por onde andávamos, sem conseguirmos estacionar.

Aqui, pude observar, as barracas armadas em tendas coloridas perfilavam-se em várias ordens pela praia. E estas não são apenas para proteger as pessoas do sol, são, sobretudo, para as proteger do vento que sopra sempre com muita força por estas paragens. Deu facilmente para percepcionar isso, pela agitação das bandeiras hasteadas e pelo varrimento do mar.   

Depois deste giro pela “praia” e da impossibilidade de sentirmos sequer a intensidade do vento que se faria sentir, o autobus fez uma incursão pelo centro da cidade, mas nada que acrescentasse ou enriquecesse a viagem; deu “meia volta” e regressámos. Procurou, no seu percurso, apenas a porta de saída da cidade, rumo a Oviedo e saímos assim, sem honra nem glória, sem termos tido tempo para respirar sequer o ar exterior.

À primeira vista, fica-se com muita pena de não ficar, antes por aqui, por Gijon, em vez de Oviedo. E questiona-se a opção. Parece-me muito melhor e mais apelativa a terra do futebol da equipa do Sporting do que a dos hoquistas das bandas de Oviedo. Muita diversidade (festas, eventos, exposições permanentes, etc.), mais movimento, mais vida e a opção praia, mesmo ventosa. E creio que serão razões económicas “de preço” da promotora deste passeio que nos levam para a cidade industrial de Oviedo em detrimento da “mais desportiva” Gijon. Se eu pudesse escolher, nem hesitaria, escolheria Gijon para ficar.

E vamos já a caminho de casa, ou seja, do nosso hotel e eu daquele pequeno quarto do Ayre Hotel Ramiro I.

Está um clima excelente de 23ºC quando são agora 19:06h e rolamos a boa velocidade na autopista A-66 com chegada prevista para daqui a meia hora. Há muito trânsito, mas sobretudo no sentido contrário. E percebe-se a rivalidade Gijon/Oviedo.

O jantar. Sentei-me à mesa no mesmo lugar de ontem. Esperava ter na minha frente o casal Abreu, já que normalmente respeitam-se os lugares, e foram eles que se sentaram ali. Só que alguém se antecipou e, em vez do casal Abreu, sentou-se um outro grupo onde se inclui uma senhora sozinha. Foi ela própria que sugeriu sentarem-se ali, junto a mim e ela ficou à minha frente. Não valorizei esse facto. É uma mulher que terá passado há pouco tempo os cinquenta. Não é o meu género, mas as pessoas não são o nosso género e revelam-se depois pessoas com quem nos identificamos de alguma forma.

Acabou por ser um agradável e animado jantar com assuntos transversais, onde naturalmente me incluí, embora o tema dominante tivesse sido a visita da manhã aos Lagos dos Picos da Europa (que não fiz), mas admitia-se agora ali a possibilidade de uma passeata até ao centro da cidade, depois da refeição.

O jantar terminou e eu desapareci. Fui, no entanto, ao quarto buscar um blusão e saí na expectativa de reencontrar, às portas do hotel, as pessoas com quem jantara e ir com elas até à cidade. Pareceram-me pessoas acessíveis e uma boa companhia para partilhar e reexplorar a cidade que ontem tanto me desiludira. Com elas hoje seria, provavelmente, muito mais animado e também um bom pretexto para cimentar conhecimentos mútuos.

Chegado ao hall não encontrei quem esperava, mas não perdi muito tempo e, sem me deter, resolvi ir na mesma até ao centro, embora indo por outros sítios, explorando outras ruas, mesmo desertas à saída do hotel, àquela hora tardia. E em boa hora o fiz porque acabei por descobrir uma outra faceta de Oviedo, que ontem me escapara, deixando-me esta cidade, hoje, outra impressão.

Oviedo mostrou-me agora outra roupagem. Aquela cidade com bares, restaurantes, com algum movimento nocturno e animação, que eu esperava encontrar, estava ali mesmo ao meu lado. Só que chegado ao centro, em vez de virar à esquerda, como fiz ontem, devia ter virado à direita e ter-me ia deparado com algo totalmente diferente. Ontem descobri o lado comercial com as lojas obviamente fechadas; hoje descobri a zona histórica e simultaneamente de lazer que ontem procurava. Aquilo que não vi aqui e que vi quer em Burgos, quer em Bilbao, foram as casas de alterne. Aliás, bares de alterne, em evidente, descarada e manifesta atitude de engate, com as mulheres à porta, vi em Santander. Em Burgos e Bilbao pareceram-me, no entanto, mais discrectas e dissimuladas. Aqui não vi nada nesse género, (não que andasse à procura) nesta zona que explorei.

Em sentido contrário, o engraçado e inesperado foi o que acabou por me acontecer. Estava eu absorto nessa busca pela cidade histórica, enquanto tentava perceber na noite escura iluminada apenas por uns focos amarelados projectados para uma imponente igreja, de que construção se tratava, dei comigo a partilhar aquele mesmo monumento com o casal Abreu que, nas sombras da Catedral de Oviedo, a meu lado, também a contemplava e admirava. Acabámos todos sorrindo pela coincidência e acabámos por passar o resto da noite juntos percorrendo com o olhar os vários monumentos daquelas praças. Ainda tirámos fotos e partilhámos conversas.

A certa altura, em plena Plaza de la Constitución, interrompidos até por alguém que nos interpelava com uma pergunta, em espanhol, sobre a localização de algo que procuravam.

Nós, de frente para a Igreja de San Isidro, com o edifício do Ayuntamiento de Oviedo ao nosso lado, falávamos de arquitectura e de literatura, abordando as obras de Eça de Queirós da qual Gracinda Abreu é profunda conhecedora, às obras polémicas de Saramago. Confessei-lhes que me penitenciava porque “Os Maias” nunca os lera totalmente e da literatura de Saramago não sou grande fã. Relativamente aos Maias reconheci a minha falha imperdoável e prometi-lhes, como a mim mesmo, que os iria ler em breve; já quanto à obra de Saramago conheço pouco mais do que os meros títulos de alguns dos seus livros e, de comum, temos apenas o dia da data do nosso nascimento.

De Saramago soube que Luís Filipe de Abreu foi amigo pessoal, mas nunca se considerou adepto, nem afim do anti-Cristo que Saramago revelou mesmo até à sua morte.

E ali estava eu, embrenhado em assuntos como arquitectura e mesmo literatura, dialogando como se fosse um entendido, como se os dominasse, e logo com o casal Abreu, pessoas de um nível com o qual não me posso sequer ombrear, revelando eles uma cultura intelectual e humana acima da média. Além de uma perfeita e conhecedora cronologia dos factos históricos sobre a origem e estilo de obras de que falavam, tinham ainda o conhecimento profundo e exaustivo das respectivas épocas em que ocorreram, assim como os demais detalhes que, efectivamente, o senso comum (onde me incluo) desconhece e que não valoriza. E eu, obviamente, senti-me muito pequeno, ainda que honrado pelo diálogo e pela partilha de conhecimentos.

 A noite avançou e nós fomos regressando ao hotel. A Calle de Calvo Sotello que subimos por entre dissertações, comentários e opiniões para chegarmos ao nosso destino, galgámo-la descontraidamente e sem queixumes.

Sem ter feito por isso, concluí que acrescentei à minha noite um enriquecimento cultural fantástico. Como um quadro, feito, desenhado e pintado a quatro mãos, com uma notável palete de cores, reflexos, formas e sentidos, à imagem de verdadeiros e incomuns artistas, olho neste preciso momento para essa tela, cheia de cores e brilhos, espelhada ainda no meu consciente que me abana e acorda, e sinto-me um homem especial, diferente e feliz a olhar para o acaso que me retribui a sorrir.

Acabo assim agora a reflectir, antes de me abandonar dos pensamentos do que foi este cheio dia, sobre o acaso deste casual encontro que acabei de ter no centro da cidade, totalmente em contraste e em contraciclo com o que procurei no pretexto para a saída. Pois é, ninguém sabe para o que está guardado. Valeu a pena.

 

CAPÍTULO V

Oviedo, 8 de Agosto de 2012

Acordar hoje foi mais fácil... dormimos até às oito da manhã e saímos do hotel às nove. Para trás o pequeno-almoço, igual ao de ontem. Não dispensei o melão com presunto. Pode parecer disparate, mas é algo que me sabe muito bem e não abdico. Adoro presunto e aqui este produto é de altíssima qualidade e aproveito, enquanto posso.

E fui o último a chegar ao autocarro. Tive companhia à mesa do pequeno-almoço e apesar de me ter adiantado, acabei por me atrasar com a conversa. Assim, às nove e cinco estávamos a partir e já com a introdução da guia local espanhola, a Elvira, que nos irá mostrar alguns dos locais recomendados aqui da cidade de Oviedo.  

É suposto falarem connosco em “portanhol”, mas de facto é em castelhano/galego que se expressam. Todavia, nessa combinação de línguas até se conseguem fazer entender bem.

E saímos rumo a umas edificações históricas, no limite exterior da cidade e que remontam à fundação de Oviedo, há 1200 anos atrás. São dois os edifícios que visitámos, do século IX, considerados Património Mundial da Unesco. Um deles de dois pisos, que serviu de Palácio Real para convívios e banhos e depois transformado em Igreja, estando hoje catalogado como Eglesia de Santa María del Naranco. O outro, a cinquenta metros mais acima, é a Eglesia de San Miguel de Lillo, que se resume hoje a uma pequena capela um pouco degradada pelo interior, e onde Rei e Rainha assistiam aos cultos. Deste ponto alto tem-se também uma panorâmica de parte da cidade de Oviedo.

São 10:40h, estão 21ºC, está bom tempo e vamos já em direcção ao centro da cidade. Pelo caminho a Elvira vai dizendo-nos que “cú molhado” e “carvalhão” são termos pejorativos para os Gijones e Ovetenses, respectivamente, cuja rivalidade parece ser latente.

São agora já 14:30h e terminámos a nossa estadia aqui em Oviedo. Fiquei com muito melhor impressão desta cidade. Depois de ver o que acabei por ver, achei-a mais interessante, com mais vida e historicamente mais rica e interessante do que Gijón. De facto, desde a interessante e imponente Catedral às estátuas quase e ou em tamanho real que proliferam pela cidade, Oviedo tem, efectivamente, muito mais carácter e não é comparável a Gijón. Agora percebo melhor a opção Oviedo em detrimento de Gijón neste passeio.

Com o passar dos dias, (e estamos já no quinto dia de viagem) vamos interagindo mais com os nossos companheiros de viagem.  Eu que não sou de muitas palavras fui-me cruzando sucessivamente com outros passageiros, trocando aqui e ali alguns comentários circunstanciais, e naturalmente, nestas abordagens também nos fomos aproximando mais.

Esta interacção gera, obviamente, empatias e simpatias, vamos descobrindo interesses e algumas afinidades, e, por fim, começamos a sentir pena por sabermos que daqui a dois dias estaremos todos em mundos e realidades completamente diferentes e tudo pertencerá ao nosso passado. E a vida é mesmo assim: tudo é efémero e se esgota de um momento para o outro.

Entretanto, tento interiorizar cada um e, sumariamente, constato que o nível intelectual de grande parte das pessoas que aqui vão é muito alto, acima da média. E, de facto, nem se trata de uma viagem de cariz determinantemente cultural. No entanto, a verdade é que este grupo será maioritariamente constituído por professores universitários, gestores, doutores, artistas plásticos, e… “escritores”, tudo gente muito fina (lol).

Aqui é para rir (por causa do “escritores”). Para quem não sabe e não faça a confusão que já alguém fez, “lol”, em inglês, é o acrónimo de “laughing out loud”, que à portuguesa se poderá traduzir por “rindo à gargalhada”, ou “rindo muito alto”.

Haverá de tudo um pouco, até nos sentirmos infimamente pequenos quando confrontados com simples estilos arquitectónicos de arte como o Renascentista ou o Maneirismo ou a Barroca ou outros estilos das quais pouco sabemos.

Quanto aos “escritores” – não por mim – abro aqui um parêntese para dizer que fará sentido, não sei, mas tem aqui total cabimento incluir, a saber: alguém nesta viagem – que não eu – foi empunhando, nas várias visitas guiadas que fizemos, um bloco de notas onde ia apontando muitos dos detalhes e aspectos que os respectivos guias locais iam referindo. Eu, já agora, escrevi grande parte destes textos apenas enquanto o autocarro circulava – conforme assinalo nas horas que referencio – ou desenvolvia-os quando, chegado ao hotel, à noite, reflectia sobre o dia vivido. Portanto, muita gente, muitos estilos, muita diversidade de tendências, muita cultura, muita sabedoria e muita audácia (a minha).

Reparamos assim o quanto ignorante somos face a conhecimentos primários que deveríamos ter e que são parte da nossa própria História. Neste particular ocorre-me citar uma máxima antiga que diz: “a cultura é aquilo que resta depois de termos esquecido tudo o que aprendemos”.

Imiscuímo-nos assim nos assuntos da cultura como se fossemos capazes de aguentar e de nos igualarmos, quando só nos resta a simpatia para compensar a ignorância que nos atravessa o espírito. E, no entanto, sentimo-nos felizes por podermos ter o privilégio de partilhamos o passeio e o tempo livre num salutar convívio de veraneantes com algumas pessoas muito especiais e que nos orgulhamos de conhecer.

E se ontem almocei com o casal Abreu, hoje estive com outro grupo de professores, estes do Algarve e cujos nomes não fui autorizado a revelar porque são da Universidade e os alunos muito “intrometidos” nos assuntos que não lhes dizem respeito…

São 14:40h e com 30ºC termino o passeio e digo adeus aqui a Oviedo: até à próxima! Enquanto a Leon atiro: aqui vamos nós!

Rumamos a Leon pela autopista E-66 Temos à nossa direita uma serra bem verde e íngreme com vários picos de vários tons de verdes reflectidos pela luz do sol e que se prolongam até um vale bastante largo. Árvores, muitas árvores pequenas de copas baixas e que se distribuem serra acima. Há taludes com pregagens nalguns locais para susterem a inclinação perigosa de taludes quase verticais, mas de aspecto cinzento velho que se confundem com a vegetação.

O autocarro vai num silêncio absoluto. A rádio raramente se ouve agora. Há pessoas a dormir, o que também não me admira depois de um repasto bem apaladado. Cada um saboreia a viagem à sua maneira.

E devemos estar bastante altos, a alta altitude, porque senti os ouvidos a estalarem da diferença de pressão, como se estivéssemos bem acima, em pleno voo.

Passámos dois túneis, o que de resto parece ser comum nesta zona elevada do norte de Espanha, atravessando montanhas, e agora um terceiro mais curto.

O sol continua intenso e o céu está salpicado de nuvens altas que nos oferecem imagens imaginárias.

Um túnel, este com mais de quatro mil metros. Estou a escrever às escuras e interrompi a escrita porque vejo apenas aos repelões, como se se tratasse da luz intermitente de um farol de rotação acelerada. Aqui, na verdadeira acepção da palavra, posso dizer: já vejo já uma luz ao fundo do túnel.

Vamos sair das Astúrias e entrar na província de León e Castilla. Uma nova etapa. Acabou a verdura da costa Cantábrica; serra à vista, inóspita e clara.

São 16:15h da tarde e chegámos a León. Uma tarde quente de 32ºC. Vou sair do autocarro para o hotel e perceber se hoje tenho mais sorte do que tive nos dois últimos dias. E tive. “Não há bem que sempre dure e mal que nunca acabe”, apetece dizer.

Este quarto do Hotel Conde Luna é muito bom, tem excelentes condições e até tem vista sobre parte da cidade. Colocaram-me no 8º andar, e da varanda a que acedo o meu olhar projecta-se por cima de uns telhados de uns prédios em frente, mas desafoga-se ao longe em vistas de uma segunda linha de mais prédios de tons e alturas que não ferem a paisagem citadina. O quarto de aspecto muito confortável com uma cama enorme e a casa de banho ampla e muito funcional.

Entretanto, entrei e saí do quarto sem me deter em mais detalhes. Larguei o malão vermelho sobre a banca em estrutura de madeira para as malas e saí para ter tempo de visitar a Catedral de León com os seus milhentos vitrais, antes que encerre.

É, de facto um espaço muito bonito, interessante, mesmo majestoso, mas confesso, cansei de tanta Igreja, capela, santos e mais santos. Entro e não sinto, como devia, a fé e a importância dos lugares. Entro nas Igrejas como um simples turista de ocasião para tirar umas fotos, se puder, e pouco mais. É triste que assim seja e que me limite a ter este sentimento, sendo eu um cristão cada vez mais distanciado da sua Igreja: talvez o resultado da decepcão que sinto pela vida, ainda que vá acreditando em algo superior.

Depois não entendo nada da arquitectura religiosa ou histórica, sou um leigo, como um burro a olhar para um palácio, sem entender traços, características, perceber nomenclaturas, ícones ou o que quer que seja. Olho sem ver; não sei tirar partido da cultura que aquelas paredes revelam, limito-me a apreciar sem compreender o que a história conta. A ignorância, quando reconhecida, magoa.

Visito então a Catedral no tempo que me resta, antes de regressar para o jantar. Dou ainda um giro pelas ruas circundantes e procuro encontrar mais do que a principal Igreja nos transmite. Procuro descobrir a cidade, os seus recantos e até faço compras. As fotos que são também o meu hobby nesta viagem, aqui em León juntam-se mais umas dezenas ao conjunto.

 Já no hotel, a correr, ainda tomo banho para me sentir melhor, e desço para um salão imponente de mesas redondas onde à sua volta se contam histórias anedóticas sobre as mais diversas distracções de um casal em particular. O grupo distribui-se por quatro mesas e diverti-me bastante com estes inesperados comensais que se foram sentando aleatoriamente, conforme iam chegando. A animação e o riso prevaleceram desde o prato de Jardineira que chegou primeiro ao das fatias de lombo assado com batatas – que estavam deliciosas – que comemos depois. No fim ainda houve espaço para uma sobremesa gelada com tarte. Tudo muito bom.

Juntei-me, depois do repasto, a um grupo de três mulheres da comitiva: a Líbia das vacas e mais duas professoras de origem algarvia, cujos nomes que não me ocorrem agora, mas como já referi antes também não os poderia mencionar.

Aqui chegado, estou, de facto, velho, cansado… e esquecido. Saímos do hotel com a perspectiva de irmos a um bar beber uns copos. Afinal, caminhámos cem metros e fomos sentar-nos numa esplanada à frente da Catedral (eu de costas para esse monumento) e ali ficámos a noite toda, até há pouco em conversas cruzadas. E são agora 01:30h.

À mesa, foi um tempo de diálogo a quatro que acabou em conversas de amores antigos, entre outros assuntos transversais a todos. Pude aperceber-me, no entanto, que as minhas companheiras são todas muito viajadas por essa europa fora, e eu, por outro lado, mais uma vez, uma insignificante molécula de partículas de papel de quarenta gramas que não deu nada de si à vida. Limitei-me a vivê-la, sim, mas sem lhe dar nada em troca: um motivo, um trabalho, uma obra. E é isso que me entristece. Não ser nada, não ter obra feita. Olhar para essa gente tão culta, tão formada e informada e compreender porque eu estou onde estou e as pessoas são o que são, têm as experiências que têm e vivem bem, como vivem.

E pronto, assim chego aos derradeiros minutos desta viagem. Será a última noite dormida em hotéis de quatro estrelas e o regresso à minha “pensão Josefina” e ao pequeno quarto que me abriga e onde minha filha mais velha cresceu, mas a cama não.

Vou saborear esta noite e não pensar muito que amanhã é o derradeiro dia, o dia em que, depois de acordarmos, restar-nos-á a viagem de regresso e terminaremos em solo Luso, na Avenida João XXI, em Lisboa à porta da Lusanova.

 

CAPÍTULO VI

Cidade de León, 9 de Agosto de 2012

São 08:25h e estou já dentro do autocarro que me levará até Lisboa. Arrumadas as malas, pela última vez, aguardo pela partida enquanto se espera por uns retardatários. Sentimos no espírito um certo sentimento de nostalgia que tentamos gerir com naturalidade.

Deixei para trás o Hotel Conde Luna, aqui no centro, onde dormi muito bem. Muito bem mesmo: tranquilo, desafogado, sem pesadelos, sem dores de cabeça e quaisquer sintomas de claustrofobia. Excelente quarto, na despedida.

Ontem deitei-me tarde (já esta madrugada: eram quase duas da manhã) e não me lembro de nada do que aconteceu depois de ter repousado a cabeça na almofada. Recordo-me apenas de me ter deitado, com o comando da televisão ter ligado a TV, a ter temporizado para trinta minutos e, a partir daí, como recebendo um analgésico, ter profundamente rumado a um lugar bem longe dali, dentro do meu inconsciente anestesiado.

O cansaço do dia de ontem não me deu tréguas e caí que nem uma pedra; como um anjo: adormeci voando num sonho de que não me lembro.

Hoje levantei-me, como toda a gente, às sete e trinta, na hora do despertar do grupo. Faltavam, no entanto, cinco minutos para essa hora quando acordei sobressaltado com um salto da cama, como se estivesse atrasado. Aliviado, percebi que tinha ainda algum tempo para saborear os lençóis aconchegantes que me abraçavam e o silêncio da manhã, mas rompida logo depois pelo telintar do telefone.  

Preparei-me e desci para o piso “P” para tomar um excelente pequeno-almoço. Contudo, como se estivesse zangado com todo o mundo, acabei por tomá-lo sozinho numa sala contígua, fora da área das mesas reservadas para o grupo. Senti-me, inexplicavelmente desorientado, como se não tivesse ainda acordado de uma estranha letargia. Infringidas as regras, apeteceu-me, no entanto, levar até ao fim a minha obstinação: tornei como natural a minha insolência, deixei confusos alguns companheiros de viagem que se cruzaram comigo sem perceber a minha irreverência e só emergi do meu ego depois de consolada aquela parte depois do esófago.

Porque a nossa sala ficava depois da zona do buffet, - onde me instalei - e que era a zona de entrada e passagem dos utentes vindos do hall dos elevadores, isso baralhou um pouco aqueles que chegaram depois de mim. Aos hesitantes, – da minha zona VIP – fui-lhes indicando para aonde se deviam dirigir.

As pessoas do grupo começaram a chegar, estão já a acomodar-se nos seus lugares habituais; o motorista do autocarro ligou a ignição, o motor começou a trabalhar e vamos arrancar daqui dentro de minutos para a nossa última viagem… aqui por terras de Espanha.

Será a viagem de regresso, a mais difícil, como alguém acabou de dizer em voz alta, porque também vai ser longa até lisboa.

Ainda no hotel cruzei-me com uma das “algarvias” que vinha a entrar para tomar o pequeno-almoço. Só agora? Perguntei. Atrasei-me, disse ela. E acrescentou: estive a pensar nas suas palavras de ontem no café. Estranha resposta. Intrigante mesmo para mim, pelo facto de alguém ter ficado a pensar no que eu descontraidamente dissera na tertúlia descomprometida de uma noite de despedidas, como se tivesse dado importância ao que eu referi, aos meus pontos de vista (sempre discutíveis).

Mas que terei dito assim de tão relevante? Lembro-me de ter falado em coisas gerais e em particular do amor, do seu significado e do que pode representar na relação entre duas pessoas. Lembro-me de ter dito que não basta haver amor, não basta dizer que amamos, não basta dizer que temos a melhor pessoa do mundo ao nosso lado, não basta sequer mesmo prová-lo em atitudes, porque o amor é algo que nos transcende. Nesta altura justifiquei com as palavras da psicóloga Cláudia Morais no programa “A tarde é sua” da Fátima Lopes em que eu fui protagonista na TVI


 onde aquela psicóloga refere assertivamente que no amor “nós escolhemos, mas também somos escolhidos”. E esta é que é a pura, dura e crua realidade.

São 08:38h e cá vamos nós. Acabámos de deixar a frente do hotel. Está mais um lindíssimo dia de sol e céu azul com o visor do termómetro a piscar os 19ºC. Daqui vamos em direcção a Salamanca onde chegaremos daqui a duas horas.

Ficámos a saber também que vem aí uma onda de calor do sul pelo que temos pela frente um dia bastante quente. Mas que importa o clima quando nos sentimos bem e felizes usufruindo de algo tão bom como a disponibilidade de umas férias, algures pelo norte de Espanha?

Estamos na Autovia E-66 sem nenhum trânsito na estrada. Deixámos para trás as serras, o verde, a altitude e rolamos tranquilos com a nostalgia “de quem vem da festa”. A paisagem é plana, muito plana mesmo, a perder de vista, quer para um lado quer para o outro. É o amarelo que predomina. As colheitas de milho devem ter sido feitas e há grandes áreas completamente despidas sem nada cultivado ou, pelo menos, crescido. Vê-se aqui e ali campos de girassóis e zonas de pasto verde. É a paisagem típica do sul, sem a beleza que encontrámos para lá das serras e de León.

Agora é tempo de descermos à terra, à nossa condição humana consciente, tempo de encararmos a realidade do que somos porque o tempo do sonho acabou e ficou para trás, a florir para outras memórias.

Para a maioria dos que aqui vão este terá sido apenas mais um passeio, um tempo de descontração, de descoberta do prazer que uma viagem proporciona; uma forma de compensação pelo labor de um ano inteiro de trabalho. Será o regresso às suas vidas normais e da qual gostam e amam. Será o retorno ao conforto das suas casas, ao seu habitat do qual nem sequer abdicam por muito tempo, ou mesmo o reencontro consigo mesmos. Para mim, no entanto, a pensar nisso e nesta perspectiva, acabo por sentir-me um pouco deprimido e frustrado porque eu vou voltar às minhas humildes origens, sem o conforto que tive em outros tempos e, pior que isso, à minha triste e vazia vida de desempregado. Mas é vazia porque sou uma pessoa vazia.

Aqui há gente ciosa de ter amizades, de conviver, pessoas que buscam a felicidade em cada momento e que procuram aproveitá-la, que se integram e que aproveitam essa possibilidade, que exploram as oportunidades e, com elas, tiram ao máximo partido da vida que assim as preenche. E eu, onde é que estou?

09:40h na N-630 para Zamora. 20ºC. A paisagem não mudou muito. Planícies de um lado e de outro, ainda a perder de vista. Vêem-se algumas árvores de pequeno porte, muito certinhas no alinhamento por terem sido plantadas. Entrámos agora numa povoaçãozinha de casas muito velhas, mas não consegui ver o nome. Era tão pequena que quando dei por mim já tínhamos saído… Mais outra, muito rural, de casas rasteiras escuras e velhas. Villaveza, o nome desta, sem qualquer interesse que não seja agora unicamente situar-me no espaço e no tempo. Passei por aqui.

E aqui vou sentado no fim do autocarro dominando com a vista toda a gente que vai tranquilamente perfilada à minha frente e de costas para mim. Ninguém se levanta, ninguém faz barulho, vão todos muito sossegados e caladinhos. Cada um ordeiramente sentado no seu lugar, como de resto aconteceu em toda a viagem, sem ninguém a sobressair ou em qualquer manifestação de improviso. Apenas se ouve agora uma música de cariz espanhol, mas quase imperceptível.

Eu, viajando aqui atrás, fui sempre saltitando de lugar em lugar dominando estes nove assentos disponíveis e que praticamente fui ocupando, ora para desfrutar melhor da paisagem, para tirar fotos, ora para me refugiar do sol. Por causa desta mobilidade foi-me possível também tirar centenas de fotos, mas estou a preparar-me para só aproveitar metade. De facto, ou por não terem ficado bem, ou porque a máquina é boa e eu não sei lidar com ela, irão ficar algumas, com certeza, pelo caminho…

Estamos a 75 km de Salamanca na Autovia Estrada de Prata. A paisagem, idem, idem, planície e mais planície. E vou aqui a pensar com meus botões sobre o quanto efémeras são as sensações.

Conheci aqui pessoas nesta viagem, mas é como se eu tivesse medo delas e não me sentisse confortável com a situação. Tenho receio de me aproximar, não sou capaz de ir mais além, nomeadamente, trocar contactos, cimentar uma qualquer amizade, fazer com que este momento se possa prolongar para além dele. Fico frustrado comigo mesmo e esta força que me afasta das pessoas não é mais do que o reflexo de um complexo de inferioridade latente que estupidamente me domina. Às vezes ajo como se pudesse voltar a ver as pessoas amanhã, e amanhã logo tratamos de nos conhecer melhor. Mas não haverá amanhã nesta viagem. A verdade é que tudo vai acabar hoje e estas três dezenas de pessoas farão amanhã parte de um passado e dificilmente voltarei a encontrá-las de novo. E, como disse, a amizade que se criou, o espírito de grupo, acabará aqui.

Ainda há o pretexto de se trocarem umas fotos, provavelmente endereços de email, mas reconheço que sou demasiado “atado” (ou desinteressado). Fica-me sempre a sensação de que não vale a pena lutar pelas pessoas porque quando elas me interessam não me vão responder àquilo que espero, além de que não sou a sua escolha e, por isso, afasto-me de forma reptícia, como se não tivesse sido importante na vida delas.

São estes os meus devaneios interiores, juízos perdidos e realçados neste emaranhado de ideias que de forma fugaz me vão assaltando o espírito. Sinto-me a chocar contra o balanço do autocarro enquanto me abandono ao encontro da explicação de que há sempre uma razão para tudo, mas que me é muito difícil de interpretar. Levanto os olhos desta página, olho para fora e verifico que Salamanca está a 35km quando são 10:25h e lá fora estão 22ºC.

São agora quase duas da tarde, hora espanhola e estão só 33ºC, o que é fantástico quando se está “à sombra” de um autocarro com um ar condicionado a resfriar-nos os calores.

Salamanca ficou para trás e deixou-me a sensação de ser uma cidade muito bonita, tipicamente espanhola e dentro daquele padrão intermédio de riqueza arquitectónica. A Catedral destaca-se como o monumento ex-libris da cidade, mas o que mais apreciei foi mesmo a subida que fiz de cento e oitenta degraus até à cúpula do Edifício da Universidade Pontífice. Dali avista-se uma paisagem soberba de toda a cidade e podemos desfrutar de uma beleza magnífica até vários quilómetros adiante.

Chegado a Salamanca, saí do autocarro e não me “colei” a ninguém. De máquina fotográfica em punho corri para a Plaza Mayor e derivei depois para as ruas contíguas que me levaram até à Catedral.

A Catedral de Salamanca é um edifício imponente, soberbo mesmo, com várias naves e capelas interiores dedicadas a vários Santos. Interiormente circula-se por detrás do Altar e é muito parecida, em disposição à Catedral de Oviedo, embora sem vitrais, mas aqui também se tem a vantagem de não se pagar para visitá-la.

Ao longo do meu solitário passeio acabei por cruzar-me com a amiga Líbia “das vacas” que também resolveu distanciar-se do grupo com o pretexto de que “amigo não empata amigo”. Foi com ela que subi às torres da Universidade e acabou por ser com ela que almocei num café da Plaza Mayor onde comi a gosto uns “pinchos” e bebi uma refrescante “caña”.

E aqui vamos nós rumo ao destino final. E, neste momento, não digo que foi uma viagem de sonho, no entanto, ainda estou a tempo de poder torná-la num sonho de viagem. Na verdade, depois de a terminar, ninguém sabe que reflexos terá e como será o dia de amanhã quando estivermos a olhar para trás e a ponderarmos sobre tudo o que sentimos.

E tudo isto porque ainda antes de entrarmos no autocarro para fazermos este derradeiro trajecto de regresso, e num último devaneio pela cidade universitária, como que para inalarmos um resquício de fôlego dos ares de nuestros hermanos, fomos encontrar sentada numa das dezenas de esplanadas existentes, na tal Plaza Mayor, ao lado de um seu familiar, a senhora professora de gestão e, logo a seguir, a outra sua amiga e colega também professora e que cujos nomes são aqui neste relato “top secret” pelas razões já mencionadas.

Havia por ali muita gente, muita actividade turística e foi com um prazer enorme que as reencontrei, mas também não seria uma tarefa difícil visto que estávamos todos muito próximos do ponto de encontro para o definitivo regresso ao nosso transporte colectivo.

E foi então agradável e muito útil este nosso encontro porque, além dos sorrisos de satisfação que trocámos, trocaram-se cartões com contactos mútuos para envio de fotos e afloraram-se ideias para futuras viagens, quem sabe, no futuro… As minhas novas amigas que viajaram desde o Algarve, uma delas na companhia do pai, mostraram-se muito disponíveis e muito habituadas a estas andanças.

Assim, no rescaldo desta aventura, acabam por sobressair estas novas três amigas, sendo que, a Líbia “das vacas” me pareceu uma mulher a quem ninguém engana, muito autoritária, autónoma e decidida e com quem não se consegue fazer farinha. Mora em Cascais e embora viva sozinha tem um namorado, mas com quem não partilha a casa. O epíteto “das vacas” advém da sua “tara” por objectos que simbolizem vacas, desde peluches de vários tamanhos feitios, a porta-chaves, passando por peças em loiça, aventais, ou autocolantes, artigos que não resiste em não comprar, se os vê numa loja ou em exposição. Ela diz que não se considera uma “acumuladora”, mas manifestou e presenciei, em diversas circunstâncias, todos os indícios sintomáticos dessa tendência de colecionadora de vacas.

Quanto às incógnitas professoras, uma delas viajou com o pai: um homem de estatura média, seco e muito rijo, com mais de oitenta anos que não transparecia a idade. Às refeições, cheio de apetite, vi-o a comer muito bem, em quantidade, mais do dobro do que eu, por exemplo. Com uma energia para dar e vender, nos percursos a pé nunca ficou para trás e manifestou sempre muita determinação estando sempre na linha da frente. Em todos os momentos, pelo que me deu a perceber, nunca se furtou na provecta idade e só mesmo à noite se retirava para descansar.

A professora de comunicação mostrou-se mais activa, ao nível da Líbia. Mulher de peso, fugia às escadas nas caminhadas, escondia-se atrás de uns óculos escuros, mas foi extremamente participativa nos diálogos, ao contrário da colega de gestão que preferia ficar na qualidade de observadora.

Em suma, tudo mulheres fora ou saídas de relações fracassadas, de idades a rondar as bodas de prata e para quem os homens são dispensáveis, embora possam ser importantes ou necessários nas suas vidas, meio ou totalmente solitárias.

São agora 14:35h e estão 35ºC lá fora quando estamos a cem quilómetros da fronteira. Neste momento e como sempre acontece nestas viagens, está a passar no ecrã do autocarro um filme publicitário sobre as belezas de Espanha. Nestas, incluem-se imagens do que acabámos de ver por estes dias, assim como se promovem outros lugares e as paisagens mais bonitas e características deste país. 

São 15:20h e estão uns quentíssimos 35ºC. Chegámos a Fuentes de Oñoro, fronteira com o nosso país. Mas vamos mudar a hora e atrasar os relógios. Já vi Portugal num placard azul com estrelas à volta. Passámos a rotunda e aproximamo-nos de Vilar Formoso. Passámos a polícia de fronteira e cá estamos nós na nossa querida terrinha. Felizmente já não há aquele protocolo dos passaportes, abrir as malas, declarar mercadorias, perder uma hora em burocracias, além das chatices que às vezes acontecem nestas circunstâncias.

Tem alguma coisa a declarar?

E aqui estão as nossas casinhas brancas (uma azul para chatear), mas as cores na paisagem já são outras. A qualidade das estradas muda logo, percebe-se só de olhar e a bomba de gasolina, a portuguesa, a portuguesa… fechou! Pudera, a cem metros mais à frente custa menos vinte/trinta cêntimos por litro. Ninguém resiste.

Curioso e estranho é o facto de, com as temperaturas a arderem e a aquecerem as nossas paisagens por todo o lado, aquilo que constato, aqui chegado e como apontamento final, é que relativamente à nossa passagem por Espanha não vi por lá um único incêndio. Não vi matas ardidas, nem a arder, ao contrário do nosso país, infelizmente, em que isso não aconteceu. Em Espanha vi tudo verde, árvores imensas, vegetação o quanto baste e nem uma única fagulha, um único foco de incêndio ou área ardida. Pode ter sido coincidência, mas a verdade é que fizemos mais de mil quilómetros e não assistimos a nenhum cenário com esse flagelo ambiental. 

Também me congratulo pelo facto de não termos visto um único acidente grave - infelizmente outro drama social - e apenas aqui em Vilar Formoso, no início da nossa viagem, na saída para Espanha e já no lado espanhol, vi um BMW de matrícula portuguesa com a frente meio destruída, consequência de um choque, provavelmente na pressa de chegar.   

Portanto, estou muito feliz porque correu tudo muito bem. Estive numa viagem agradável e muito proveitosa, incluído num grupo de pessoas cumpridoras e que seguiram à risca as regras e horários da organização, gente certinha e educada, que não levantou quaisquer problemas logísticos. E neste tipo de circuitos, isto nem sempre acontece ou é possível. À parte do que aconteceu apenas em Covadonga, onde houve divergências, foi, no entanto, algo que foi sanado no momento e que acabou por ser irrelevante face a tudo o que vivemos e ao tempo que estivemos todos juntos.

Outro destaque desta viagem, e do qual me apercebi com agrado, prende-se com o termos percorrido largas centenas de quilómetros em Espanha, com estradas excelentes, extremamente bem traçadas e sinalização bastante adequada e legível. Todavia e apesar disso, as autopistas tinham ainda várias saídas que, em caso de qualquer engano, nos permitiriam fazer, sem problemas ou constrangimentos, a inversão de sentido e o respectivo retorno. Os automobilistas têm assim rotundas que ladeiam as saídas, que se contornam e permitem voltar para trás para se seguir para a estrada que se pretende. De facto, muito funcional.

Outro pequeno detalhe que faz toda a diferença do nosso país é que, mesmo com muito melhores estradas que nós, em Espanha só pagámos portagem em dois ou três locais. Aqui em Portugal pagam-se portagens em tudo o que são autoestradas e vias rápidas, (inicialmente chamadas de “Scut”, ironicamente sem custo para o utilizador), o que não se entende.

Dizia o guia que, como agora se paga em tudo o que são estradas, mas como não há portageiros, para os estrangeiros constitui um problema acrescido e gera imensas dificuldades de logística. Até há pouco não havia informação adequada, nem sequer para dizer que as estradas eram tributadas. Agora já colocaram grandes painéis de informação advertindo dessa nova regulamentação e os estrangeiros são obrigado a parar na primeira área de serviço e comprar o “serviço” de pagamento de portagens nas diversas autoestradas e “Scuts” nacionais portuguesas, para não serem penalizados.

Pessoalmente creio que não são com medidas destas que cativaremos aqueles que nos querem visitar. Para mim seria à partida uma dor de cabeça e motivo desencorajador para visitar um país estrangeiro, nomeadamente se fosse em Espanha. Mas os nossos governantes têm todos uma grande visão e saberão o que andam a fazer…

São agora 15:20h, hora portuguesa, e 35ºC na área de serviço da Guarda, nossa penúltima paragem para desentorpecer as articulações e oxigenar o cérebro. Paragem técnica, como o guia gosta de dizer.

Bebe-se uma água, come-se um gelado e aproveitamos para alinhavar compromissos para a chegada. A Líbia sugere um bife na Portugália, na Praça do Chile. A professora que está sozinha propõe que seja no Parque das Nações porque se está mais perto do rio. Há a sensação de que ninguém quer que o momento acabe e assim se prolongue o passeio, deixando para mais tarde a dificuldade do termos que dizer “adeus”.

Mas a vida é mesmo assim. Há uma hora em que tudo acaba e voltamos à nossa humilde realidade de um trivial quotidiano. Vão-se os sonhos, as ideias, as intenções e, como a vida, tudo nos foge por entre os dedos.

Mas estou certo de que há aqui no autocarro meia dúzia de pessoas de quem me quero despedir de forma especial e com quem partilhei momentos muito agradáveis. Outras há, no entanto, que nem sou capaz de as identificar como pertencendo ao grupo, tão despercebidas me passaram. Portanto, há aqui espaço para todos os sentimentos possíveis e que consigo “diferenciar” no momento das despedidas.

Neste momento já estamos no caminho da nossa última paragem e que será em Abrantes ou Santarém, segundo nos informa ao microfone o Rui. E depois do filme promocional sobre Espanha que nos mostrou o quanto nobre é aquela terra remetendo o nosso país para um recato canto (onde de resto já estamos na europa), passa agora um filme zen, provavelmente para não pensarmos demasiado na chegada que se avizinha e nos frustrarmos com isso.

São 18:10h de uma tarde muito quente quer lá fora onde estão 36ºC, como aqui dentro com uma temperatura que nos vem da alma e nos aquece o espírito. Mensagens telegráficas que percorrem o autocarro desde o primeiro lugar até ao último onde me encontro e nos incitam à descoberta. Chegámos à área de serviço de Santarém.

”Aquilo que um homem sonha, realiza-se”, disse-me a minha amiga professora que viaja com o pai. E neste sentido, este relato de viagem exulta muito quer da paixão pela escrita, quer dos sonhos que vamos construindo.

Assim, as palavras percorrem recônditos labirintos onde nos cruzamos com fantasmas ou bruxas, príncipes ou piratas; percorremos mares longínquos e profundos nunca antes navegados ou calcorreamos caminhos onde nos surgem castelos com torres altas, mesmo muito altas, com princesas dentro que pedem para ser salvas.

Pela frente mundos desconhecidos à conquista. Palavras ditas se calhar, sem sentido, perdidas e achadas no coração, algures. Palavras que se assumem aqui e agora, nestas andanças de contornos indefinidos, indiscritíveis até, integradas numa componente de cumplicidade onde as amizades se realizam, concretizam ou crescem, conforme se verá. Mas as palavras não ficarão apenas nesta aventura. Irão mundo fora.

Aqui cabe também uma palavra muito especial a Luís Filipe de Abreu cuja amizade me concedeu e tive o privilégio de conhecer nesta viagem. É a ele, essa ilustre e hirta figura de cabelo e barbas brancas, porte erecto, simpático e seguro a quem devo este meu trabalho internauta.

Numa primeira ideia este relato teria apenas um carácter caseiro e não passaria do manuscrito. Todavia, LFA pediu-me para quando o tivesse terminado lho enviasse, se eu assim o entendesse, ao que respondi anuindo, com reconhecimento, ao pedido.

É pois um desafio que assumo com muito gosto, mas com responsabilidades acrescidas face ao(s) destinatário(s). É que, além de Luís Filipe de Abreu, sua esposa, uma fervorosa e dilecta admiradora de Eça de Queirós, esse vulto maior da literatura portuguesa, que já não me perdoou por não ter lido ainda “Os Maias”, mais depressa me ignorará, certamente, quando tiver nas suas mãos esta minha pequena obra. Embora sem querer ter pretensões a obra literária, mas apenas de que se trate de um relato e de uma perspectiva de viagem, espero que na sua leitura se identifiquem com ela e que seja, pelo menos, do agrado daqueles que comigo a partilharam.

Obrigado. Até à próxima!

Carlos Alberto