quarta-feira, 22 de maio de 2013

A VIDA

A minha vida está a mudar. Lentamente, mas está. Acontecem-me coisas inesperadas, algumas boas, outras desagradáveis e lido mal com estas últimas. Mas estou a começar a perceber que nada acontece por acaso, e, como me dizia a minha querida mãe, "nem tudo o que nos parece mau para nós o é". E, de facto, aos poucos estou a aceitar melhor esta ideia e a perceber que ela tinha razão e que tudo o que nos acontece tem uma razão de ser.

Obrigado assim a todos os que de alguma forma têm contribuído para estas mudanças, nomeadamente, os meus novos "seguidores" deste humilde blogue que aqui se juntaram a partir do meu 1º ano de existência nestas águas.
 
E como tudo na vida parece cíclico, repete-se hoje o que senti há quarenta anos atrás. Por isso, aproveito mais uma vez para ir rebuscar às minha memórias um poema que escrevi em 14 de Setembro de 1973 e que aqui passo a transcrever:

A VIDA

E navego por mares distantes
entre peixes e outros animais.
Sou carne, todo um corpo sensível
às ondas, ao ruído fustigador
das águas contra o barco.
A calma reina ao sabor
das ondas e do céu azul
na água que cintila recortada
entre espuma branca que se forma.
As gaivotas rasgam o céu,
as nuvens surgem no horizonte;
os olhares tornam-se frios,
os corpos gelam e agasalham-se
em roupas velhas e sebosas.
As almas escurecem e o tempo
as pessoas movimenta.
Apressam-se e oram
interiormente sonha-se
com os filhos, com a mulher,
com a vida.
E a vida estremece
entre olas bravias que se agigantam
envolvidas pelo céu
negro e agressivo que oprime.
Os corpos calafriados oram
mais alto, sonoramente gritam
pela absolvição que se perde
com o turbilhão das águas
que se revoltam;
pela vida que se apaga
entre águas e céus,
entre nuvens e seres
que se movimentam dançando
alheios à miséria; nada
podem fazer sobre todo o sabor
amargo/salgado da água
que se envolve e dissolve
até ao âmago.
E morre-se longe,
abalroados pela água
agitada e inconstante
sem que ninguém se aperceba.

Carlos Alberto

PS: Fiz ligeiríssimas alterações pontuais ao poema inicial.
 

9 comentários:

  1. Por muito que vivamos, a vida surpreende em cada acontecimento e sentimos sempre a incapacidade de lidar com o desagradável. Nesses momentos, isolo os bons acontecimentos e procuro focar os meus pensamentos neles.

    Abraços

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  2. Obrigado, Maria do Sol estou quase a chegar lá. Um telefonema e tudo pode mudar. Primeiro rumei a sul, onde quase, quase me instalei a olhar para África. Depois faltou um pouco para ficar mais perto com a Costa Vicentina à vista. Agora, de repente, já estou a norte quase, quase em Espanha... E a minha vida a mudar, estou quase quase lá... Nada é definitivo, sempre em mudanças, quase, quase feliz com a música da guitarra nos ouvidos!

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  3. Arrepiante... este estado de alma... estou a ver além de fotografo também poeta, grandes facetas que aplaudo de pé... sem estar a ser mesureiro.

    Obrigado Carlos por este momento de culto.

    Bem-Haja

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  4. Obrigado Ricardo por aparecer por aqui.

    Ninguém precisa de ser mesureiro para estar aqui, bem pelo contrário. É para mim sempre um privilégio quando alguém aqui chega e se apresenta sem quaisquer compromissos senão o de partilhar sentimentos, ideias ou afinidades.

    Obrigado e seja sempre bem-vindo.

    Acrescento, no entanto, que nem sou poeta nem fotógrafo. Gosto muito de escrever e de tirar fotografias, só isso. E como se costuma dizer, quem toca muitos instrumentos, não toca bem nenhum: eu estou nesse lote. Ok?

    Um grande abraço

    Carlos Alberto

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  5. Que maraviçlhosda tua poesia. Falaste de coração, sensibilidade mil! abraços,chica

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  6. Obrigado Chica, admitindo que quiseste escrever "que maravilhosa a tua poesia".

    Sim, é sempre o meu coração que fala. Ninguém consegue expressar-se desta forma se não for o coração a dizê-lo.

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  7. São todos esses balanços da vida, pedaços de nós,
    que nos aquecem a alma dorida...

    E ainda que sejas «abalroado pela água agitada e inconstante»,
    a tua/nossa/minha estrela, sempre brilhará lá no alto, serena,
    mas persistentemente...

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  8. Obrigado Ana pelo teu comentário e por teres chegado aqui.

    De facto, toda a minha vida foi vivida em "alto mar", arriscando tudo: família, valores, graças, forças.

    Algumas vezes caí e levantei-me, outras vezes ajudei quem estava ao meu lado; às vezes a pesca foi frutuosa, outras vezes fui mordido por tubarões.

    Tenho maselas, sim dessa faina, mas estou vivo.

    Já não "ando no mar", limito-me a olhar o céu, ver as estrelas, sentir o chão que piso e com a consciência que fiz sempre o que o meu coração me ditou.

    Fui o melhor homem do mundo? Não. Mas não estou a mudar nada porque, pensando em mim e na minha felicidade, foi aos outros que entreguei tudo. Ver feliz quem esteve ao meu lado foi sempre o meu principal objectivo.

    Arrependido? Não. Acredito em Deus. Sei que errei muitas vezes, mas fi-lo sempre por amor. Como num jogo de futebol, para uns ganharem outros têm que perder, mas isso não significa que só os vencedores têm mérito: todos têm e todos somos precisos para que a vida faça sentido e o ciclo se feche.

    E pronto, tens aqui, neste blogue o homem que sou, assim despido.

    Beijinhos

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