quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

MEMÓRIAS DE 2011

Páginas Diário (2º semestre 2011)

Aqui vai, como prometido, a segunda parte dos meus melhores resumos do 2º semestre de 2011 de acordo, obviamente, com o meu critério.

Faço notar que será uma transcrição integral do que senti no momento em que escrevi os resumos e que não vou agora fazer qualquer alteração no sentido de subverter o que disse. Além de que o que escrevi é apenas o meu ponto de vista e é da minha inteira responsabilidade. Doa o que doer.
Carlos Alberto

 
Sábado, 23 de Julho de 2011 (Lisboa, 24/7 15:40h)
“Explodi”

Procuramos a felicidade, mas ela foge-nos por entre os dedos. Tentamos segurá-la com a outra mão, mas ela escapa-se-nos como fumo que se esvai e desaparece no ar. É uma tortura, uma afronta estúpida; queixas e mais queixas que nos rasgam por dentro. Num último recurso tentamos coser as costuras abertas, mas já não há volta a dar. A única solução possível é sairmos, irmos embora, esquecer que a felicidade nos atraiçoa. Talvez não seja esta a melhor solução. Talvez não esteja aqui a felicidade que busco. Sei que há condições: como um saco furado, que está roto, basta entrelaçarmos os nós existentes. Só que explodi como uma bomba. Aguentei o choro, mas não resisti. Voltei a chorar. Não sou feliz. Olho para a Cristina e ela fecha as portas todas. O seu conceito de amor é limitado, não é o mesmo que o meu. Eu procuro que a nossa relação dê certo. Eu tento juntar as pontas, mas a Cristina não tem resistência. Ela stressa com muita facilidade e temos poucos pontos comuns. Eu gosto dela, sempre o disse, mas sinto-me impotente. Sou impotente como homem (o que me agoniza) e depois sinto-me impotente para acudir ao seu estado desequilibrado. Fomos para a Costa onde almoçámos e fui conhecer a casa que ela adquiriu para a filha. Entrei lá dentro vestido como se fosse fazer uma cirurgia a alguém e depressa fui invadido por centenas de pulgas que me crivaram o traje. Estivemos a arrancar alcatifas e tomei conhecimento do espaço. No regresso, no entanto, algo é que correu mal. Uma manobra minha “normal” despoletou uma reprimenda, como se eu tivesse começado a conduzir há quinze dias. Passei-me. A conversa azedou, azedou mesmo, e pensei em ir-me embora. E estou a pensar nisso vezes a mais. Até onde aguento?

Carlos Alberto
 
Segunda, 8 de Agosto de 2011 (Lisboa, 9/8  12:10h)
“1ª Vez”

Há sempre uma primeira vez para tudo. Era para ser ontem, mas acabou por ser hoje. Tive algum receio que não aguentasse o balanço e o barco fosse demasiado agitado. As águas pareceram-me tumultuosas, mas com o afastamento para o mar alto o desejo de navegar aconteceu. E entrou-se quase no delírio. Não foi ir ao céu e voltar, algo paranormal ou edílico, mas creio que o capitão se portou bem, soube gerir as vagas e aportámos todos bem. Quer dizer, ficaram amarras a ranger e o nó não ficou apertado até ao fim, mas deu para gozar a brisa, a paisagem, saborear o gosto de um valente mastro de vela sempre hasteada. Foi uma boa viagem pelos prazeres de uma navegação nada solitária, vivida e repartida a três por tarefas bem definidas. Pude também por instantes saborear o leme, usufruindo do gosto do mastro, sentindo o calor de um motor firme de rotação constante e acertada. Duas horas de puro prazer navegando a “maruja” por águas nunca antes navegadas e sentindo o pulsar de uma força negra pelo final de um dia, mas aguentando sem enjoar as estocadas de uma vaga sempre compensada. Explodimos então, risonhos da viagem diferente e de certo para repetir lá mais para a frente. Para mim nada de novo. O dia acabou mesmo na cama, os dois, terminando uma viagem que começamos e dando lugar à narrativa do que foi viver a experiência nova. Um dia marcado assim pelo prazer misturado com o medo e a ansiedade. Mas depois do embarque tudo se foi normalizando e construindo como um castelo de sonhos, pedra a pedra, sem dramas, dentro daquilo que seria expectável e normal. Aconteceu, foi bom, longe do mundo, longe da multidão, quatro paredes com histórias dentro.
Carlos Alberto

Terça, 11 de Outubro de 2011 (Miratejo, 12/10  00:25h)
“Amargo de boca”

Há dias assim: em que nos sentimos impotentes, incapazes de rir, onde não somos nós mesmos. Dias que parecem que o mundo não avança, onde tudo nos parece adverso, e não temos capacidade para dizer basta. Dias de morrer, de ficar parado a olhar o nada. Dias em que mais valia não termos acordado e devíamos ter ficado na letargia do ser. Sim, caminhamos, as horas passam, mas os resultados são os mesmos. Nada nos espanta, nada nos acorda, nos trás à realidade do pobre que somos. São dias amargos, cinzentos, mesmo que o sol brilhe, brilhe até demais com as temperaturas melhores que no verão, estranhamente. A lua está cheia. O sol esteve lindo, todo o dia a bafejar de sorte todos aqueles que têm o privilégio de estar de férias. E é o céu limpo de norte a sul. E cá estamos nós, nem sequer aproveitando a vida. Ficamos aqui gozando sozinho e desejando o que não é comum ou normal. Ficamos no “nim” sem nada dentro para sorrir. O trabalho foge-nos sem glória. Os dias são negros, confusos, intrigantes. Estamos onde não queremos, temos o que não desejamos, somos o que não devíamos. Há gente com sorte. Eu perdi a minha num baloiço de criança. Caí no chão redondo como uma pedra que se lança contra o mar. Afunda-se num círculo interminável de círculos que se multiplicam até ser nada. E não sou nada, perdido aqui em palavras que não dizem senão que estou mal, confuso e amargo.
Carlos Alberto  


Quinta, 13 de Outubro de 2011 (Miratejo, 24:00h)
“Amargurado e só”

Dividido, perdido, esquecido pelo mundo. Não sei o que faço aqui e porquê aqui. Choro. No meu rosto há lágrimas. Serão de alegria? As histórias dos outros podem ser as nossas histórias contadas numa outra versão. Atitudes e consequências. Os filhos que geramos, depois não queremos; mas que amamos, mesmo que fruto de um amor desaparecido. E as lágrimas saltam-me  dos olhos e escorrem-me pela cara. A vida muda, acaba, tão efémera ela é. Vivemos para quê? É o Governo a pôr-nos a pão e água. Os empregos desaparecem, acabam, não há trabalho. Os comboios são uma arma, como as pontes, os gases. Pensamos em coisas parvas se o mundo nos abandona. Acreditamos, temos esperança, mas há um momento em que não percebemos nada. Perdemos o contacto com o que nos envolve. Estamos sós, tristemente sós e em busca do AMOR. É só isso que quero e não tenho. Olho para o lado e não vejo amor, mas apenas um momento circunstancial. Não há conforto, aconchego, o carinho que se sente quando se ama. Só vejo fagulhas no ar de um fogo que crepita, mas não embala, só ateia e preocupa. Estou amargurado e triste porque não sou nada nem tenho nada. Construí um castelo de areia à beira da água que se foi com a primeira onda. Sinto-me infeliz e incapaz de vencer o simples degrau, um salto de amor onde a paixão se manifeste. Mas estou só, dividido, confuso e sem horizontes. Não me sinto rodeado pelas pessoas certas. Não encontrei ainda o meu caminho, o caminho da felicidade que ainda busco.
Carlos Alberto

 
Quarta, 19 de Outubro de 2011 (Miratejo, 23:20h)
“Entre duas margens”

Aqui estou eu dividido entre as duas margens do Tejo. De um lado a cidade de Lisboa, a capital, uma cidade moderna virada para o turismo; deste lado a vertente campestre, rural, ainda que hoje erigida de prédios, elementos de betão que constroem este lado do Cristo Rei. Se em Lisboa predomina o fado, a luz, os monumentos, deste lado de Almada agita-se o mar com as suas praias, e a Costa marginada de areia branca que nos aconchega no verão quando deitados ao sol. São dois polos diferentes, duas canções que nos embalam, conforme o ritmo que queremos. Do lado de lá são os bares, a noite frenética, a cidade que não dorme. Do lado de cá assemelham-se alguns aspectos, mas privilegia-se a calma, o rio, a ponte que nos trás, o próprio monumento que de braços aberto nos acolhe deste lado virado para toda a margem norte do Tejo. Pelo meio também há os cacilheiros, hoje alguns transformados em catamarãs. Barcos que nos levam e nos trazem em ondulações de embalar com os olhos pregados num jornal, na miúda gira ou no próprio horizonte adivinhando o trabalho que nos espera, ou o jantar que nos põem sobre a mesa. Duas margens distintas, que nos separam da alegria ou do prazer, do sentir e do sofrer. São sentimentos que se dividem, partem e repartem e esteja onde estiver estarei bem, tranquilo, fazendo aquilo que é possível fazer. Do lado de lá é estar onde não tenho nada meu. Do lado de cá é estar no meu canto, mesmo que pobre e apenas seja realmente um canto, mas é meu…   
Carlos Alberto


Sábado, 22 de Outubro de 2011 (Lisboa, 23/10 10:40h)
“Momentos de felicidade”

A vida vale pelo seu todo, mas é feita de pequenos momentos que valem por toda ela. E, por isso, nunca vamos deixar de enaltecê-los e de ficarmos felizes por tê-los vivido. Na verdade a vida está cheia de contrariedades, coisas que nos apoquentam e aborrecem, coisas que nos martirizam e nos ofendem; mas por outro lado há os momentos bons que devemos, sim, valorizá-los e deixar que superem e que nos façam sentir bem e recompensados. E se a felicidade está dentro de nós é bom trazermo-la cá para fora e que ofereçamos aos outros um pouco dela.  E é bom quando partilhamos, quando estamos ao lado de alguém e transmitimos esse bem-estar, essa paz, essa harmonia. E nada melhor do que estar sentado numa esplanada, à beira mar, no crepúsculo do dia, com o sol vermelho de fogo a esconder-se nas nuvens e afundando no oceano estranhamente calmo e dourado. É muito bom sentir o abraço de alguém, o conforto de uma carícia, a felicidade de um belo momento partilhado naquele instante mágico, tão efémero quanto toda a vida, e saboreá-lo com a tranquilidade de quem espera, mesmo na espera do nada, mas apenas de quem saboreia o tempo e a brisa da tarde que sopra amena, num aconchego que nos acalma. Foi assim hoje, sê-lo-á amanhã, se Deus quiser; se a vida nos permitir. Com a Cristina ao lado, os projectos dela são muitos: a casa da Costa e a nossa vida, o nosso espaço, o nosso futuro. Como vai ser amanhã, não sei. Só sei que os momentos são bons e quero guardá-los para amanhã sorrir de novo quando me lembrar deles.
Carlos Alberto
 

Sábado, 19 de Novembro de 2011 (Peniche, 23:30h)
“Com o mar em fundo”

Um quarto de hotel, o silêncio da noite com o mar em fundo. Chega-nos o som das vagas constantes que nos embalam o sono. Não há nada além do cansaço. Um passeio pela praia, outro pelas arribas pedregosas com vista para os “mosteiros” que se erguem em esquemas naturais, pedra sobre pedra, em figuras estranhas de rochas acamadas. É o mar e a violência das ondas contra as rochas que nos despertam os sentidos pela magnitude que ele tem. A espuma dissolve-se no ar em espirros brancos de sal que nos salpicam. É já o final da tarde. O tempo até parece que parou. Os dias, no entanto, já são pequenos, mas o tempo sobra-nos até para não nos apetecer jantar. Interessa mesmo é andarmos de mão dada, dois namorados felizes que têm o privilégio de se gostarem. Depois é o porto com as ondas quase a cobrirem o molhe em vagas que nos assustam. A noite já caiu, embora sejam apenas seis da tarde. Não há mais nada para fazer, só sentir. Sentir o prazer de estarmos. Não há mais nada nem vontade. A cama abre-se. A TV é fraca, mas o cansaço, este cansaço incompreensível atira-nos para o sono. Não temos disposição nem para o Amor. As camas são separadas. Ainda nos deitamos juntos, mas a Cristina prefere a sua cama e enrosca-se do outro lado com as suas almofadas e desaparece lá ao longe entre lençóis onde se afunda pela noite adentro. Eu, sinto-me bem, apesar da azia do almoço que me vem à boca de vez em quando. Agora vou tentar dormir, mas já não tenho o sono que preciso para isso. Vou tentar embalar-me também nas vagas que veem do mar.
Carlos Alberto

 
Terça, 6 de Dezembro de 2011 (Miratejo,  21:50h)
“Aqui está um falhado”

Caminhamos a passos largos para o Natal, mas eu ainda não sinto isso. O Natal deixou de ser para mim aquilo que era. Vivia o Natal como o verdadeiro elo de ligação da família: o nascimento de um filho. Hoje não tenho uma família, um lar, uma casa. Sou um homem dividido que quer apenas ser feliz, mas que nem sequer completa ninguém. Não sou marido, não sou namorado presente sempre, não sou um pai a não ser a espaços. Sinto-me um pouco frustrado e acho que falhei como homem, como pessoa, como marido, como pai e mesmo socialmente. Não consegui fazer nenhuma licenciatura e sobrevivi sempre à custa de muita sorte. Ainda hoje sou um homem de sorte, um privilegiado, mas nem isso faz de mim uma pessoa importante, especial, com valor. Não consegui construir nada e esta frase já não é a primeira vez que a escrevo. Sou um homem que falhou na sua vida. Não fui capaz de atingir um sério objectivo e de fazer alguém verdadeiramente feliz. Por causa do meu egoísmo continuo assim repartido por entre duas casas sem pertencer a nenhuma. Não tenho nada meu. Tenho três filhos, mas não fui capaz de ser um pai capaz de desempenhar o seu papel. O Natal está aí, mas o espírito da família perdeu-se, ou eu perdi. Não tenho o prazer de fazer a árvore, enfeitar a casa com luzes, ver os olhos dos meus filhos a brilhar de alegria e tornar numa verdadeira magia esta fantasia do Natal, do Pai Natal, dos presentes. Sou assim hoje este homem frustrado, um homem triste por não ter sido capaz de ir mais longe, como devia e podia e deixei morrer a luz que cintilaria no presépio.
Carlos Alberto

 PS: Dizer apenas que fiz ligeiríssimas alterações muito pontuais nalguns textos, ou para lhes fazer alguma correção gramatical ou dar mais ênfase ao assunto.

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