sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

PREVISÕES PARA O ANO

Vou aqui partilhar um trabalho que acabei de enviar para as minhas aulas Temas Contemporâneos do Professor Joaquim Letria.

Carlos Alberto


PREVISÕES PARA O ANO (ESTE OU OUTRO)

Sentei-me sobre a minha tarimba, virei-me para a parede e risquei com o meu lápis negro de carpinteiro mais um traço vertical e paralelo a outros sobre um outro perpendicular. Sessenta, disse mentalmente, sorrindo para os que me faltam ainda riscar nesta parcela de parede já tão suja e preenchida. Mas só me resta mesmo sorrir, nos intervalos deste choro que me corrói por dentro. O bom é que mais de metade da pena perpétua a que fui condenado está cumprida, pelo menos é o que diz a previsão.

Deitei-me, olhei mais uma vez para este tecto vazio de estrelas, carregado de nuvens e de raios que atravessam o universo e admiti, facilmente, que as previsões são más porque vai haver uma grande tempestade; talvez mesmo um dilúvio.

Quis adormecer sem me molhar, virei-me para o outro lado tentando cobrir-me com aquele pobre e velho manto retalhado e a definhar como eu e, como que entrado numa amálgama de sonhos, dei comigo a perspectivar o que será o ano (este ou outro qualquer) que tenho pela frente.

Assim, além das muitas ilusões e dos cortes nas provisões de cada um, dos assaltos à mão armada do Governo (sobretudo sobre os mais desprotegidos), das trafulhices, dos interesses instalados e do autismo de quem de direito, dei comigo numa gargalhada interior por causa da conquista do ansiado título do meu Sporting no campeonato. Enquanto isso, Jorge Jesus irá deixar o Benfica, e o Paulo Fonseca confessará que o 2º lugar, à frente do clube do Eusébio é mais uma conquista sobre o principal rival.

Ah, o futebol, sempre o futebol... E que tal reaver o emprego perdido e o sustento, reunir a família desfeita, estudar um pouco e encontrar a outra parte da minha cara-metade...? Que boas previsões seriam estas relativamente a esta parte do futuro!

Contudo, ainda sou dos que não me posso queixar muito; sou um privilegiado: tenho tudo o que um homem precisa para ser feliz, mesmo que o espaço seja exíguo e fedorento e que as paredes sejam esfumadas de betão e não de zinco. Estas, pelo menos, proteger-me-ão do frio que promete gelar o mundo lá fora e também do vento que soprará sem contemplações e levará os sonhos de muita gente que não dormirá jamais.

Como este espaço não fica à beira-mar, logo também não correrei o risco de que alguma vaga traiçoeira me engolirá. Posso ser espancado e ter de ajoelhar por caprichos ou diretrizes superiores, mas compreendo que estou e estarei aqui porque as previsões assim o exigem, face aos meus antecedentes e fugir não está nos meus horizontes. Por outro lado, tenho uma porta de segurança com grades e até uma janela lá para fora. Tenho ainda uma mesinha, uma cadeira, uma latrina e uma estante com um livro sagrado de milhares de páginas. Com cama, mesa e roupa lavada e um sol todos os dias quando não chove, que mais preciso?

Ouvi também uma vez dizer que a nossa vida é como um puzzle e que só nos devemos preocupar com as peças que encaixam com a nossa, à nossa volta, porque coisas como a fome no mundo, por exemplo, deve ser encarada por outros que estejam mais perto dela e que tenham condições para a erradicar. Não deveremos sentir a obrigação de querer resolver todos os problemas do Universo. Se ajudarmos os sem-abrigo na nossa rua já fazemos muito.

Nesta perspectiva, as previsões para mim, neste capítulo, são, por isso boas, e não vivo nem viverei na rua. A minha saúde física e mental estarão “au point”, a minha casa com duas piscinas – uma exterior e outra interior – está a ser construída na minha cabeça e, portanto, um sonho perto de realizar-se nesta minha parede quase toda riscada.

Sim, eu lembro-me do que a minha pequena filha de dez anos me disse no outro dia a chorar compulsivamente tentando chamar-me à razão: “Pai, é impossível conseguires ter uma casa, que seja tua, e muito menos com duas piscinas! Tu não tens rendimentos, estás preso, para sempre; como é que podes prometer ou prever uma coisa dessas?”

E sobre o seu pranto enorme sorri, tentei consolá-la e disse-lhe calmamente com palavras que ela entendesse: “Filha, na vida é fácil fazer previsões do que é óbvio, porque prever o possível qualquer um consegue; difícil é acreditarmos com força nas previsões do que queremos para nós e, se pensarmos desta forma, o impossível torna-se realidade e concretiza-se”.

E nesta previsão de que seremos a força do que somos capazes de sonhar também serei capaz de dizer que serei livre, mesmo que aguilhoado por amarras que me prendem ao sistema e me agarram à vida que me resta. E cantei:

“Cheio de ilusões continuarei a sonhar,

ainda que perdido num emaranhado difuso

de previsões, ardido em guerras e sombras, confuso:

cantarei com glória, em minha memória,

quando  ao fim conseguir chegar  

a alegria da minha vitória.”

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