sábado, 28 de setembro de 2013

DEIXEM-ME DORMIR

Mudei de casa recentemente. Vivo sozinho aqui para os lados do Seixal, na margem sul do Tejo, já perto da foz em Lisboa. Gosto do espaço, embora não seja aquilo que procurava. Contudo, a proximidade de eventual trabalho e porque já vivo nesta zona há mais de trinta anos, é aqui por estas bandas que me habituei a viver. A proximidade das praias da Costa da Caparica, o clima e outras valências importantes também me seduziram e contribuiram para a minha escolha.

É um apartamento pequeno (T1), ainda que acolhedor, numa rua principal, muito movimentada, num prédio de três pisos com nove inquilinos. O sossêgo que procurava e as vistas para a serra ou para o mar aqui não encontro. Por isso, esta não será ainda a minha casa de sonho que andei à procura, e é muito provável que daqui a uns tempos possa até mudar. Até lá, no entanto, com vantagens e desvantagens, é aqui que vou viver nos próximos tempos.
 
Mas esta abordagem à minha nova residência deve-se apenas à questão da tranquilidade que privilegio e que aqui não encontrei, na medida em que queria. Se onde vivi até há pouco acordava a ouvir os passarinhos, aqui adormeço a ouvir os vizinhos...
Por causa disso, inspirei-me na poesia que partilho a seguir e cada um fará o seu juízo de valor e me dirá, depois, o que devo privilegiar: se a sensação do acordar, se a sensação do adormecer...
 

Acordei, a cama tremia, tremia,
E nunca mais parava.

E mais me assustava.
Estaria a sonhar ou a delirar, que fazia?

A tamanho barulho, tomei atenção,
Queria saber qual era a razão.

Tomei consciência com paciência
Que afinal tudo era normal;
Escutando o barulho da vivência
Das brincadeiras de um casal.

Por cima de mim, ao lado, em baixo
O chão não parava de se baloiçar,
Rangia a cama em ritmo de samba
E a mulher não parava de gritar.

Enterro minha cabeça na almofada,
Tapo, ao meu sofrimento, os ouvidos
Sob cobertores minha mente atirada,
Fugindo a todos os meus sentidos.

Percebi com muita pena minha
Que de uma festa se tratava e durava,
Que a noite era afinal da vizinha,
E eu queria dormir, mas aquilo não acabava.

Mas finalmente, já noite adentro
Ouço o grito do Ipiranga, talvez.
Tudo se acalma, e no silêncio me concentro
De que o amor não se faz só uma vez...

A cama tremia, tremia...
Eu já não ouvia.
Carlos Alberto
 

3 comentários:

  1. :-)

    Lado positivo: inspiração, poesia.

    Abraços

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  2. Sim, sim, há sempre o lado positivo das coisas... Obrigado Maria.

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  3. É fogo isso e ouvir toda intimidade dos vizinho é danado,sr Prefiro os passarinhos,mas... abração praiano, linda poesia, como sempre! chica

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