domingo, 9 de setembro de 2012

PÍNCAROS DA EUROPA - CAP I

Introdução

Meus amigos, sinto-me obrigado a passar para aqui a versão inicial da minha viagem a Espanha, aos Píncaros da Europa. Mas será apenas o Cap. I que corresponde ao 1º dia dos seis que foram a viagem.

Ainda não consegui avançar muito mais porque estive pelos Algarves na companhia das minhas filhas, em períodos diferentes com cada uma delas e, por isso, sem tempo para continuar esta "viagem".

Mas o prometido é devido e, aqui publicado, aceito críticas e sugestões para esta "versão base" deste Cap I.

De notar ainda que nesta transcrição fiz obviamente algumas alterações e acrescentei alguns aspectos de que me fui lembrando. Omiti, naturalmente, da versão manuscrita alguns detalhes pessoais, mas procurei ser fiel ao que vivi e senti.

Finalmente dizer que esta foi a minha primeira experiência no campo da narração de viagens, que fiz como se se tratasse de um Diário de Bordo.

Certamente conterá aspectos que podem ser melhorados, mas obviamente só traduzem aquilo que foi para mim possível dizer no momento em que a viagem se realizou, sem introduzir demasiados detalhes, hoje possíveis acrescentar com recurso à Internet.

“PICOS DE ESPANHA”

CAPÍTULO I

Lisboa, 4 de Agosto de 2012

07:40h. Sinto-me um pouco como uma criança excitada. A noite mal a dormi, mas porque estava preocupado em não acordar a horas. Pus dois despertadores, não fosse algum falhar-me, antes de ter adormecido já depois das duas da madrugada. Mas antes que os despertadores tocassem já estava acordado. Agora já estou em Lisboa, num café aqui ao lado da agência de viagens, onde vou apanhar o autocarro.

E chegar aqui também não foi fácil porque foi-me complicado estacionar o carro. Acabei por deixá-lo numa zona de estacionamento pago, sem perceber bem a que consequências me sujeito, nomeadamente, as multas, além do eventual reboque. Mas não vou pensar nisso agora; quando chegar logo vejo.

Por aqui já há muita gente com malas a deslizarem pela calçada num barulho característico dos rodados no empedrado e outros já à espera junto da agência. Eu bebi um café e tento assentar ideias.

A primeira, como se vê, foi utilizar este livro para descrever a viagem que vou fazer. Se vou conseguir ou como vou fazê-lo, não sei. Vou tentar fazer algo que nunca experimentei antes. Será apenas mais uma viagem, e desta vez ao norte de Espanha, até Oviedo. Estou só, irei no lugar 28 do autocarro. É só tempo de acabar esta página, esperar mais uns instantes e… “ there we go”.

Estamos na auto-estrada A1. Partimos da Avenida de Roma cerca das oito e trinta. Vamos, segundo o nosso guia, o Rui, rumo à A23.

O autocarro tem excelentes condições e não vai completo. Ao meu lado vai sentado um sujeito cuja mulher vai no lugar da frente… Há mais lugares vagos atrás, mas a falta de expediente das pessoas não as leva a agir, para fazerem a viagem juntos. Eu faria.
O Rui, que já conheço de outra viagem, é um excelente guia. O tempo está magnífico e vamos percorrer cerca de 650 km com saída de Portugal por Vilar Formoso.

São 09:20h, entrámos na A23 que foi uma antiga SCUT e agora paga-se portagem. A temperatura lá fora, segundo a indicação digital do autocarro é de 22ºC. Há gente a dormir e na rádio ouve-se, quase imperceptível na M80, “esta vida de marinheiro dá cabo de mim”. Por acaso esta vida não é de marinheiro, mas de turista e não está a dar cabo de mim, bem pelo contrário.

Entretanto, com um telefonema, já resolvi o problema do estacionamento indevido do meu carro: o meu filho Pedro vai buscá-lo e depois, quando eu regressar virá ele ter comigo. E aqui vamos nós rolando a cem à hora, como mandam as normas.

São 09:45h e estamos parados na área de serviço de Abrantes. É a nossa primeira paragem técnica entre várias que faremos. Lá fora imensos escuteiros que vão chegando em vários outros autocarros. Ao longe avista-se a Central termo eléctrica do Pego.

Duas enormes torres cinzentas a fumegarem e que fazem lembrar dois funis invertidos. O Tejo não está longe, a poluição também não.

Saí para explorar a área de serviço e o que vi foram as largas centenas de escuteiros de vários agrupamentos e regiões. Muito jovens, chegaram em vários autocarros e espalham-se por aí em grupos, ora sentados, ora em filas, ora conversando uns com os outros, sempre a fazerem-se ouvir. Vão, segundo soube, para um encontro nacional, algures.

Ao sair, um outro passageiro abordou-me dizendo-me que “lhe vou a fazer muita inveja por ser capaz de escrever tanto…” Respondi-lhe, sem modéstia, que “são muitos anos de escrita… mais de quarenta…”. Por acaso, havia reparado que ele em determinada altura da viagem ia também a escrevinhar num pequeno bloco que levava na mão e pensei que afinal não estava sozinho na ideia de escrever. Mas terá ficado por aí.

Fui à procura do café, ainda tentei tomar um, mas desisti, face à confusão instalada. Dei meia volta, tirei duas fotos e regressei ao meu lugar do autocarro, mas não sem que antes tenha aproveitado para exercitar as pernas o que nestas viagens é essencial.

Aqui neste autocarro é só gente de meia-idade, gente reformada, muito tranquila, em contraste gritante com os outros autocarros aqui estacionados ao lado, pejados de juventude, risos e brincadeira. Que saudades…

Nós aqui aproveitamos para dar largas à vida ou o que ainda nos resta dela. São na maioria casais os que aqui vão, ou famílias, mas ainda não identifiquei nem padronizei ninguém. Neste momento estou ainda na fase em que me limito a observar, sem pretensões de analisar ou fazer juízos de valor muito elaborados sobre quem quer que seja e que integra comigo esta viagem. Mas também não o tenciono fazer. Não é esse o meu papel.

Cada um tem o seu espaço e direito a não ser devassado por ninguém. Eu, em particular, quero e procuro apenas ser feliz, sentir-me bem, tranquilo e usufruir este momento. É o que procuro, para já, nesta viagem.

Preferia ir aqui sentado sozinho (e não com alguém estranho ao lado), mas não tive essa sorte. Hei de, todavia, mudar de lugar, lá para trás, lá mais para a frente… Há uma dúzia de lugares vagos e mudar-me-ei numa próxima oportunidade.

São 10:30h e vamos sair daqui. Vilar Formoso está a quase 200 km de distância, ou seja, mais duas horas de caminho. Os escuteiros vão, afinal, para um encontro nacional, este fim-de-semana em Idanha-a-Nova. Serão cerca de dezassete mil. Neste autopullman, Burgos será o nosso destino, em Espanha.

Somos 31 passageiros no autocarro e a cordilheira Montejunto Estrela vai aqui ao nosso lado esquerdo. Tomamos conhecimento do programa para hoje e para amanhã e em Bilbao, diz o guia, o museu Guggenheim é o ex-libris da cidade. Mas o Rui não se fica pelas meras intenções e começa a sua locução com uma demonstração inequívoca de bastante conhecimento da história quer espanhola quer portuguesa e das respectivas etnografias. É um gosto ouvi-lo; difícil é acompanhá-lo e captar tudo o que ele, com requintado detalhe, descreve.

São 10:45h e ao meu lado o passageiro lê o jornal enquanto a rádio deixou de se ouvir. O guia vai à conversa com o pessoal da frente e aqui o silêncio é total. Na estrada não há muito trânsito e a paisagem reparte-se por eucaliptos e pinheiros que vamos deixando para trás. Sentimos apenas a monotonia de uma auto-estrada e ainda não as emoções que verdadeiramente buscamos nesta aventura. Sabemos que os hotéis onde vamos ficar ficam nos centros das respectivas cidades e isso, obviamente, é bom. Haverá tempo para passear a pé e conhecer as redondezas. E aqui vou eu Espanha…

São 11:30h e estamos em plena A23, auto estrada da Beira Interior, com a Serra da Estrela como pano de fundo do lado esquerdo. Uma placa a dizer que a próxima povoação é Fundão está do lado direito, depois de termos passado ao lado de Castelo Branco. Guarda e Covilhã também estão no nosso caminho.

E aqui vou eu a pensar na minha vida e no que já passei. Há quase dois anos também viajava sozinho. Depois conheci a Cristina numa viagem parecida com esta e… já passou. Pensava que a minha vida mudara aí. E mudou. Só que a ilusão durou menos de ano e meio. Podia, com ela, ter uma vida muito boa, desafogada, mas não seria feliz. Agora posso ainda não sê-lo, mas vou criar condições para alterar isso e encarar esta situação como mais uma oportunidade. Viajo só, é verdade, mas não pode ser um drama.

11:34h “Serra da Gardunha”, avisa-nos o guia, e queixa-se das sucessivas portagens que pagamos e já vão nos vinte euros. Um silêncio abateu-se de novo sobre o autocarro. Ouve-se a música, volume muito baixinho, em jeito de adormecermos todos. A paisagem vê-se aqui e ali ardida. A serra está despida e mostra o seu lado inóspito. Há muitos carros estrangeiros na estrada, alguns, talvez a maioria são de emigrantes. Agora um túnel: entrámos e saímos. E outro de mil seiscentos e vinte metros de comprimento.
Quase meio-dia. A Covilhã vimo-la ao nosso lado esquerdo e já ficou para trás. Lá fora a temperatura aquece e está nos 27ºC. Aqui dentro uns vinte. Está agradável. O autocarro como é novo está em excelentes condições. Na rádio ouve-se agora a RR e as noticias onde se incluem os resultados dos Jogos Olímpicos que estão a decorrer em Londres. De medalhas para portugueses não se ouve falar, a não ser da desilusão que têm sido as nossas prestações. Mas vai haver remo e estamos nas finais.

Por aqui a paisagem é agreste. Entrámos na Beira Alta e vamos subir a mais de mil metros de altitude. Daqui a meia hora estaremos a entrar na fronteira com Espanha. O ritmo do autocarro é constante e o motorista só pode conduzir determinados quilómetros por hora, obedecendo a regras muito rígidas de segurança rodoviária. Guarda está ao lado, a cidade mais alta do nosso país a cerca mil e cem metros de altitude.

São 12:40h e passámos para 13:40h. Vilar Formoso está à nossa frente, “nuestros hermanos” esperam-nos do outro lado da rotunda que fizemos antes da fronteira. Há imenso trânsito no sentido inverso, policia a controlar o movimento. Entrámos na região de Castela/Leão. Gasolina mais barata e bandeirinhas a reclamar, em território espanhol, “A23 NO PAGO”. E já ouvimos a rádio espanhola.

A Espanha tem 17 regiões autónomas, é o país das Tapas. Vem a propósito, parámos para comer na estação da área de serviço espanhola, junto à fronteira, em Fuentes de Oñoro. O movimento é imenso: gente nas compras, outros a comer no bar ou no restaurante. Antes daquelas decidi comer aqui aquilo que mais adoro: o famoso “jamón”.
E foi mais uma paragem técnica, rápida, mas em que não resisti também a comprar esses famigerados “caramelos con piñones”.

Depois de quarenta e cinco minutos, voltei ao autocarro e sentei-me no mesmo lugar, ainda acompanhado pelo mesmo sujeito. Não compreendo como é que um casal não se importa ou incomoda por não ir sentado, numa viagem destas, ao lado um do outro. Comigo seria impensável. Talvez por isso eu seja diferente ou eu faça a diferença. As pessoas viajam juntas, mas até parece que não querem partilhá-la. Não compreendo, sendo que para mim, ir ao lado de alguém de quem se goste, poder dar-lhe a mão, fazer uma carícia, oferecer um sorriso, partilhar uma paisagem, um sentimento, é fundamental, indispensável e único. Se a vida não for vivida assim, para mim ela não faz sentido. Mas enfim, são os meus meros pontos de vista que para outros podem não ser relevantes. E sinto-me apertado neste lugar, parece que sufoco.

São 14:35h saímos de Fuentes de Oñoro, na região de Castela. Castela porque, segundo a crença popular, o nome de Castela provem da grande quantidade de castelos ou fortalezas que existiam nestas terras, mas admite-se que possa ter outra origem o seu nome. É, no entanto, a maior região de Espanha desde a reconquista de todo o território peninsular que se concluiu em 1492 com a tomada do reino muçulmano de Granada pelos Reis Católicos. O título de Reis Católicos é o nome pelo qual ficou conhecido o casal composto pela rainha Isabel I de Castela e o rei Fernando II de Aragão, que unificaram os reinos ibéricos deste país que se tornou a Espanha de hoje. E o Rui está a dar espectáculo com a descrição da História espanhola. Acrescenta que há crise em Espanha, mas nós não notamos porque somos portugueses, turistas, estamos de passagem. A crise, sentimo-la quando se vive no país, tal como nós sentimos a nossa, vivendo em Portugal.

Olho através das amplas janelas fixas do autocarro e a paisagem é muito plana e as montanhas estão lá longe. Aqui também há desertificação e as pessoas fixam-se no litoral. Esta é uma das principais regiões de gado com a melhor carne em que se destaca a vitela.

A “Sierra de Gredos”, que vislumbro agora à direita, além de ser muito disputada em termos turísticos é também conhecida pela cultura do porco preto, aqui muito famosa, sendo o “jamón” uma especialidade. Com uma alimentação exclusiva à base de bolota, o “pata negra”, com um sabor especial e diferente, chega a ser comercializado a cem euros o quilo.

O guia diz-nos que a paisagem, até Salamanca, não terá atrativos nenhuns e que a rega nesta zona é feita a partir das águas de um canal vindo do Rio Douro. Lá fora estão agora 26ºC., mas no Inverno há neve e gelo por estas paragens. Amanhã, no entanto, quando entrarmos no País Basco já usufruiremos de um clima diferente, mais Atlântico. Para complementar a sua dissertação explica-nos a ainda a origem das “tapas”. Diz ele que o uso vem dos tempos medievais. Não sendo unânime a origem, alguns defendem que "tapa" deriva do verbo “tapar” e que teria origem no costume da Idade Média, em que os copos de vinho eram servidos (tapados) com uma fatia de presunto, queijo ou morcela para evitar que as insuportáveis moscas que apareciam no verão caíssem dentro dos copos ou dos jarros.

E o “show” do Rui continua: Cidade Rodrigo está à nossa esquerda. A cidade deve o seu nome a Rodrigo Diaz de Vivar, conhecido como “El Cid” que foi um nobre guerreiro castelhano que viveu no século XI, época em que a Hispânia estava dividida entre reinos rivais de cristãos e mouros (muçulmanos). Ele era conhecido entre os mouros por “sidi " que significa senhor em árabe.

Fala agora da queda que o Rei Juan Carlos deu há dias num degrau e que o Rei fala melhor português do que espanhol porque viveu muitos anos em Portugal… Entretanto o desemprego que em Espanha está nos 24 %, nomeadamente na Andaluzia, pelo contrário no País Basco há menos desemprego. Acrescenta ainda que na Catalunha se fala outra língua e que a Espanha tem quatro línguas oficiais, a saber: Castelhano, Basco, Catalão e Galego. Em Portugal falam-se duas: o português e o mirandês. Esta questão espanhola das quatro línguas oficiais levanta muita polémica, sendo que a ETA, Euskadi Ta Askatasuna no País Basco é (ou era) um dos problemas. É, por isto um país muito dividido.

As diferenças de riqueza e poderio económico das regiões autónomas, os seus recursos e valências causam também perturbações e, por exemplo, os Bancos Santander e Bilbao Biscaia, que temos em Portugal, têm origem nesta zona rica do país.
E depois de meia hora de dissertação a contar histórias sobre a vida e cultura espanholas e as comparações com Portugal, agora ouve-se a rádio com música de fundo. Na paisagem não há nada senão uma via rápida que percorremos ladeada de árvores que serão carvalhos e azinheiros. Estamos na E80 com Salamanca a 76 km de distância. Há nuvens dispersas no céu e a temperatura está nos 26ºC.

15:30h e ainda estamos a vinte e cinco quilómetros de Salamanca. Atravessamos campos de girassol. Nesta região, tal como nós portugueses juntamos os tremoços à cerveja, eles comem a semente de girassol, sendo que esta planta também é utilizado para a produção de óleo. Mas nesta paisagem a perder de vista, são as planícies que predominam. Salpicadas de casas ou casarios que aqui e ali pontilham o imenso e interminável castanho e que nos sacodem o olhar, a alternância dos altivos caules dos girassóis relegam-nos para uma interminável harmonia, como um exército em parada monumental.

Reparo agora que há muito trânsito nos dois sentidos sendo que há muitos carros com matrículas estrangeiras. Alguns vêm completamente cobertos de lama e sujos só com o desenho do limpa para brisas marcado nos vidros da frente e de trás. A maioria, no entanto, reluz à claridade do sol que se faz sentir com muita intensidade. A temperatura aqui dentro é amena e não reflete os 27º graus exteriores. Já vejo publicidade ao Corte Inglês o que quer dizer que nos aproximamos da “civilização”. Estou a tentar perceber a sinalização, mas está tudo em espanhol (…) e eu “no entiendo”. Salamanca 7 diz uma placa azul. Mas não vamos passar por lá hoje, só no regresso, na quinta-feira. Agora surgem placas a dizer “Valladolid” e “Tordesillas”.
Mais estrada, mais campos de girassol.

16:00h e “Tordesillas” está a 67 km. Na paisagem, fenos de palha espalham-se do outro lado da estrada enquanto passamos pelo km 214 da Autovia. Na rádio, a música com letra em inglês é boa e chega-nos de uma estação de Salamanca cujo programa é TOP 40.

16:35h e acabámos de passar o Rio Douro que aqui se chama “Duero” na pequena localidade de “Tordesillas”. Foi aqui que se realizou em 7 de Junho de 1494 o célebre Tratado entre os reinos de Portugal e de Espanha que dividia, por ambos, as terras descobertas e por descobrir fora da Europa.

Estamos agora na E80 com “Valladolid” a menos de trinta quilómetros. A paisagem é constituída por pasto rasteiro de um lado e pinheiros do nosso lado direito. Não há nada que justifique ou valha a pena descrever, a não ser dizer que passámos agora por um pequeno edifício rasteiro que pertence ao aeródromo de “La Matilla”. A viagem vai levar-nos até Burgos onde vamos dormir, mas não sei nem quanto tempo nem quantos quilómetros nos faltam. Só sei que ainda vamos fazer uma paragem técnica para aliviar… as pernas e comer qualquer coisa. Por aqui encontramos à beira da estrada muitas indicações de “hostals”, que não são mais do que hospedarias, muito procuradas para encontros casuais. Têm imagens muito apelativas nas entradas. Muito curioso.

Para Burgos faltam 130 km e temos “Simancas” à direita, local onde há documentação sobre Colombo, esse controverso navegador quanto à sua nacionalidade. Nós dizemos que é português, outros defendem que é genovês. Colombo, segundo o historiador Salvador Madariaga, era judeu, razão que pela qual ele ocultou suas origens.

São 16:50h e vamos para a área de serviço de “Valladolid” onde estão 28ºC.

São 17:10h e estou aliviado… Para Burgos falta hora e meia de viagem e vai ser a nossa última etapa de hoje. O guia já nos falou sobre os pontos de interesse da cidade, e sugeriu, nomeadamente, a visita à Catedral que, segundo ele, é a segunda mais importante de Espanha, depois de Sevilha. De estilo gótico com as suas duas cúpulas em forma de agulha na fachada, é hoje património da humanidade, estatuto conferido em 1984. Na Catedral de Burgos destaca-se uma capela de culto onde a obra de “Cristo de Burgos”, um trabalho do século XIV, de origem flamenga, em madeira, é totalmente coberta com pele de bezerro.

Entretanto, a paisagem que desfrutamos é estilo rural sem nada de relevante e profundidade. Há casas velhas, indústrias com aspecto degradado, sendo esta zona uma zona tipicamente industrial. No céu há agora nuvens, mas as temperaturas continuam elevadas. A música na rádio é tipo flamenco com letra espanhola. Se me sinto fora de Portugal, diria que sim, a sensação é essa. Mesmo pela paisagem que voltou agora à planície amarelada e as indústrias ficaram para trás ou estão mais dispersas.

18:25h e estamos quase a chegar a Burgos. Esta cidade terá cerca de 200 mil habitantes e o guia dá-nos as últimas indicações sobre a cidade e instruções sobre o programa de amanhã. O jantar hoje será às 20:30h.

O hotel Corona de Castilla de quatro estrelas não é um hotel de encher o olho. É simples. Chegámos às 18:30h, recebemos os cartões que nos darão o acesso aos quartos e eu fiquei no 1º piso, como de resto toda a gente do grupo, embora o hotel tenha sete ou oito andares.

Aproveitei a luz do dia e fui tentar inteirar-me das redondezas. E a impressão é de que se trata de uma cidade pobre. Pobre no sentido no sentido em que se sente que é uma cidade pequena, modesta, de província. Há, no entanto, as características esplanadas que se enchem de gente, também o rio “Arlanzon” que atravessa a cidade e que segundo consta já a alagou duas vezes, sendo que, na última, a água terá quase chegado aos dois metros, conforme se atesta nas marcas traçadas a vermelho nos pilares de um edifício de arcadas que atravessamos da praça central.

A cidade tem um arco à entrada, o arco de Santa Maria, que funciona como porta de entrada da cidade antiga e dá também acesso à Catedral. Mais à frente e continuando a subir deambulando pelas casas que ladeiam uma rua empedrada, encontramos umas pequenas muralhas de um castelo dissimulado na paisagem. A estrutura acidentada leva-nos por umas escadas a um pequeno miradouro com um largo onde existe uma roda dos ventos no chão. Daqui pode vislumbrar-se grande parte da cidade de Burgos, com referências em bronze, ao longo do parapeito deste miradouro, às igrejas, edifícios e monumentos que, em destaque, dali se avistam.

A catedral, tal como o castelo, só os visitei pelo exterior. Para visitar o interior da Catedral pagava-se sete euros e achei que era muito dinheiro, apesar de provavelmente, ter sido uma oportunidade única. Não sabemos. Só conheci a parte possível visitar pela entrada principal. Para o acesso ao castelo também se pagava e fiquei pela entrada, regressando ao miradouro. Aqui a estrela com os pontos cardeais indica-nos, cada um deles, as diversas distâncias a quatro pontos diferentes do globo, sendo que Lisboa a SO (Sueste) está a 620 km.

Outra particularidade desta cidade é ver os noivos a circularem pela cidade (e vi três ou quatro casamentos distintos) e a serem fotografados aqui e ali nas poses menos convencionais possível, procurando os fotógrafos captarem espontaneamente e ao acaso a atitude dos recém casados, ora descendo uma escadaria, ora debaixo de uma arcada e, na medida do possível, à distância dos nubentes.

De regresso ao hotel, jantámos numa sala interior onde três mesas compridas que se dispunham num U aberto. As pessoas do grupo foram-se sentando indiscriminadamente nos lugares encontrados vagos. Na minha mesa, constatei, só estavam doutorados, catedráticos e professores. Tudo gente de meia-idade, entrados ou a entrar. E não há aqui ninguém que me chame a atenção a fim de estabelecer uma amizade especial. Trinta hipóteses falhadas…

Achei o jantar de qualidade inferior, embora talvez que pelo preço pago não se possa exigir mais. Oito e meia até quase às dez da noite.

Pela mesa muitos diálogos trocados e animados entre pessoas que se descobriam ou desencriptavam, mas onde me senti pequeno face aos conteúdos tão académicos dos discursos que se cruzavam entre uma garfada ou um trago de vinho. Por fim, educadamente, pedi licença para me levantar e fui para a rua absorver um pouco do ar da noite, mas percebi que fui logo seguido por todos os meus comensais.

Fui então descontrair e espreitar vida nocturna de Burgos. E apercebi-me que há alguma movimentação, muitos bares, mas tudo numa escala muito moderada, face àquilo que é a vida nocturna espanhola, noutras cidades. Como começara a chuviscar, as esplanadas estavam agora desertas. Os bares, alguns pareceram-me deliberadamente de “engate”.
A determinada altura, na rua, cruzei-me com um tipo que se despedia, com um prolongado beijo, de uma fulana que era “uma bomba”. Não pude deixar de reparar, num flagrante olhar, na elegantíssima mulher, de saia curta a mostrar umas voluptuosas pernas, cabelo curto, loira, de rosto pintado e com um olhar de atractiva sensualidade. Ela afastou-se por uma rua caminhando como se pisasse uma passerelle. Ele, um tipo também novo, de calções e ténis, a meu lado, olhou para o relógio enquanto seguiu por outra rua, descontraído, pensando talvez que a noite lhe ia ser rentável. Ele ainda olhou de soslaio para mim e terá visto a quanta inveja eu deveria estar a sentir e dito mentalmente “cota” (em espanhol, claro…). Dei meia volta por outra rua, perdi a noção de onde estava e desorientei-me. Procurei a Catedral, como sentido de orientação, porque fica perto do hotel e já cá estou de banhinho tomado e exausto de tanta emoção.

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