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SILÊNCIO ENSURDECEDOR

A manhã estava soalheira, mas fresca. O verão ficara lá atrás e o outono ia agora ao lado, tal como rio. Espelhado de céu salpicado de nuvens brancas dispersas e que voavam comigo, mergulhei meu olhar taciturno nesse indefinido horizonte aguado. A determinação arrancara-me da cama e a necessidade do desafio físico presente, fazia-me todo o sentido. Acompanhado, estava só. Pela frente um caminho pedonal tapetado, ora de calçada, ora de cimento colorido para percorrer. Normalmente o diálogo projecta-nos para outros caminhos e os passos perdem-se em aventuras por desbravar. Ou os assuntos da actualidade preenchem-nos os minutos e estes passam em passos largos. É bom, salutar e agradável. Mas nesta estranha manhã tudo pareceu diferente entre ele e ela. E o ruído do silêncio foi ensurdecedor. Foram quatro quilómetros de deserto em palavras engolidas em seco. Como se tivessem tudo para dizer e nada. Percorridos os primeiros cinquenta metros, procuro fazer o que sempre faço: des...

CARTAS DE AMOR

  Querida Maria Bom dia, meu amor. Espero que esta carta te vá encontrar de boa saúde e que estejas de bem contigo mesma. Quanto a mim, cá estou na minha pacata vida, longe de ti, mas sempre contigo no meu coração. A distância que nos separa hoje deixa—me marcas todos os dias, porque me deito e acordo contigo na cabeça, sempre a pensar em ti; e como isso me magoa o coração... Não é fácil saber—te aí e eu aqui, com uma necessidade enorme de te sentir, abraçar e beijar. ... Mas o destino assim quis e vou aceitar este momento como uma prova de resistência ao nosso amor, à nossa paixão, à nossa loucura. Lembras—te como foi linda a forma como nos conhecemos? Tu à janela e eu disse—te que eras linda. Sorriste—me, envergonhada, e baixaste os olhos em sinal de de confirmação. Desde esse dia passei a ir ver—te todos os dias, nem que fosse apenas para descortinar a tua sombra e sentia—me feliz, só por isso. Disse—te que te amava, que era um dos dez homens mais felizes do mundo e as s...

PALAVRA

  Palavra dita em clamor Tantas vezes mal tratada Há uma que elejo: AMOR Palavra abençoada.    

COM OU SEM MAR

Quero ouvir os pardais, as gaivotas, observar o oceano a beijar as margens; quero sentir as aragens, e também ouvir tua voz. Sentir o teu cheiro, tua essência perdida nesta concha de noz. Navego à tua procura: Escondes-te e não estás. Rejeitas-me, ignoras-me, ou não sou capaz.   Quero fazer poesia, cantar, dançar com mestria; como uma flor a abrir, erguer-me para o teu abraço; mas nem me deixas sorrir; Sobra-me o cansaço.   Fecho-me, triste, derreado na minha concha embrulhado. Cubro-me com um lençol de vergonha amarrotado. Choro uma mágoa da qual me quero libertar, triste por te amar, sem me cansar. Mas dói-me e tenho medo: dos trovões e das farpas — credo! Dos zumbidos do vento que ecoam pelo espaço. E no dilúvio das vagas que me enrolam no cansaço contra as rochas me tragas.

MEMÓRIAS 2015 (2º SEMESTRE)

Terça-feira, 14 de Julho de 2015 (Torre da Marinha, 21:56h) “Obrigado, meu Deus” E vai tudo correr bem. Não há nada que nos impeça de sermos felizes. Porque é isso que eu quero, é isso que eu desejo, é isso que eu mereço, é isso que eu procuro transmitir aos outros. E a vida acontece. Acordamos, sentimo-nos gratos e vamos em busca, não dos silêncios, mas dos sons que brotam à nossa volta e nos despertam. E são muitos, vindos de todas as direcções, que captamos e gerimos como quem usa colheres que manuseamos e transportamos até à alma. São imensas as sensações e todas boas. Vamos trilhando o caminho e descobrindo cada local, cada momento, como o lugar certo para se estar. E até conseguimos controlar tudo, como se fossemos um super-homem, mas sem capa. Há sorrisos, despertamos prazer. Há luz, sol, calor e até somos um forno a aquecer tudo o que está frio. Somos a paz dentro de uma guerra, somos a flor num jardim palaciano, o anjo da guarda de alguém que protegemos, a tranquilida...

MEMÓRIAS 2015 (1º SEMESTRE)

Segunda-feira, 16 de Março de 2015 (Torre da Marinha, 21:40h) “Partilhando com ratos” É impressionante andarmos aqui nós tão preocupados com a nossa “vidinha” e com as condições que temos nela e, afinal, há gente a viver debaixo da ponte. Gente, como nós, que sem nada que lhes permita viver condignamente, são os caixotes do lixo o seu supermercado e simultaneamente o seu sustento. E é confrangedor ver de tão perto como certas pessoas sobrevivem à vida. São imagens como estas que nos tocam e fazem reflectir sobre o que somos e o que temos. Por isso não me queixo, e digo, sentindo, que sou um homem privilegiado. Nem se percebe como as pessoas se lamentam tanto e acham que as suas vidas são difíceis. Havendo pessoas, mesmo ao nosso lado, a partilharem o seu espaço com ratos à volta e que com eles vivem “portas meias”, vamos queixar-nos do quê? Há um rio que desagua no mar, comboios que os trucidam a todos os momentos, carros que velozmente lhes atropelam, ruidosamente, os ouvidos e...
A terminar o ano, aqui fica uma poesia... Folha De pele enrugada, Rasgada pelo tempo, Pela intempérie vergada, Ao sabor do vento: Surge da minha alma Uma folha Que brota, como sangue, Uma bolha: Lágrima de vida, alada. Escoa-se para a terra— Pó, cinza e nada. CA