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CARTA A FERNANDO PESSOA

Seixal, 25 de Janeiro de 2018 Meu caro amigo, Bom dia. Espero que esta carta o vá encontrar sepulcralmente tranquilo na sua ancestral paz (se é que é possível dizê-lo, nesta simbiose energética), que eu, ainda por cá, mesmo distante no tempo e no espaço, vou tentando gerir minhas perturbações, nomeadamente, uma delas, o efeito que o eco das suas palavras escritas vai hoje surtindo pelo meu subconsciente. Provavelmente estranhará o teor dela e até a minha motivação, mas digo-lhe, neste momento, ela apenas pretende ser um elo de ligação, como um traço, entre aquilo que o meu amigo foi como Pessoa e aquilo que eu sou hoje como Fernando. Ironia, pensará o meu amigo, e que estou apenas a brincar com as palavras. Mas é isso mesmo: e como adoro brincar com as palavras, gostava de perceber melhor como o meu amigo as dominou com tanta mestria e fez delas uma arte que ultrapassou todo e qualquer simples sentimento e atingiu, com elas, já várias gerações, como me atingiu a mim. De...

ATÉ QUE A MORTE OS UNA

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  O Inverno já se fora, assim como o caminho e, o que agora percorre, está bem longe das montanhas e vales que o pariram, criaram na juventude e o consumiram. A calosidade das feridas mantêm-no alerta para as suas origens, e Manuel caminha agora, distraidamente pela rua, mas calçado, de ténis confortáveis, roupa desportiva, e disposto a viver e a saborear novos odores, bem diferentes daqueles que, no passado, inalou. Não tem aqui o cheiro a rosmaninho ou alfazema, nem dos pinheiros, ou dos eucaliptos; apenas um vazio salpicado de pontos verdes que parecem destoar da paisagem urbana que agora desfruta. As pequenas árvores salpicadas por traços no seu novo caminho até parecem que se escondem nas esquinas do amontoado de casas, e mais casas, que se perfilam lado a lado, a seu lado, sem nenhum critério estético definido.   A Primavera, em toda a sua plenitude, sobrevoa-lhe o horizonte, embora esteja no outono da sua História e que lhe pesa na essência do que é hoje. “...

SILÊNCIO ENSURDECEDOR

A manhã estava soalheira, mas fresca. O verão ficara lá atrás e o outono ia agora ao lado, tal como rio. Espelhado de céu salpicado de nuvens brancas dispersas e que voavam comigo, mergulhei meu olhar taciturno nesse indefinido horizonte aguado. A determinação arrancara-me da cama e a necessidade do desafio físico presente, fazia-me todo o sentido. Acompanhado, estava só. Pela frente um caminho pedonal tapetado, ora de calçada, ora de cimento colorido para percorrer. Normalmente o diálogo projecta-nos para outros caminhos e os passos perdem-se em aventuras por desbravar. Ou os assuntos da actualidade preenchem-nos os minutos e estes passam em passos largos. É bom, salutar e agradável. Mas nesta estranha manhã tudo pareceu diferente entre ele e ela. E o ruído do silêncio foi ensurdecedor. Foram quatro quilómetros de deserto em palavras engolidas em seco. Como se tivessem tudo para dizer e nada. Percorridos os primeiros cinquenta metros, procuro fazer o que sempre faço: des...

SENTIDOS

Saímos para a rua dispostos a viver um dia diferente. A Primavera sobrevoa-nos o horizonte em toda a sua plenitude. Sentimos no ar um clima autêntico, puro e duro, ou melhor, macio, já que uma amena lufada de ar que se faz levemente sentir sopra-nos como que segredos aos ouvidos, acariciando-nos ao mesmo tempo o rosto e de uma forma doce, meiga e reconfortante. Caminhamos sentindo o pulsar da vida: são as crianças que brincam alegremente à nossa volta; ora gritando, ora rindo umas das outras, correndo numa e noutra direcção. O rio calmo, muito sereno e sem qualquer movimento, parece um espelho cintilante reflectindo a acalmia vinda do céu sem nuvens, enquanto um ciclista pedala compassadamente sentado ao selim usufruindo, com a velocidade, a possibilidade de chegar mais depressa. Eu caminho sem pressa por entre as flores, o jardim, as pessoas, os automóveis que passam ao lado e as casas. Observo, sinto, inspiro e expiro com a força intensa que me é permitido pela lei da naturez...

PREVISÕES PARA O ANO

Vou aqui partilhar um trabalho que acabei de enviar para as minhas aulas Temas Contemporâneos do Professor Joaquim Letria. Carlos Alberto PREVISÕES PARA O ANO (ESTE OU OUTRO) Sentei-me sobre a minha tarimba, virei-me para a parede e risquei com o meu lápis negro de carpinteiro mais um traço vertical e paralelo a outros sobre um outro perpendicular. Sessenta, disse mentalmente, sorrindo para os que me faltam ainda riscar nesta parcela de parede já tão suja e preenchida. Mas só me resta mesmo sorrir, nos intervalos deste choro que me corrói por dentro. O bom é que mais de metade da pena perpétua a que fui condenado está cumprida, pelo menos é o que diz a previsão. Deitei-me, olhei mais uma vez para este tecto vazio de estrelas, carregado de nuvens e de raios que atravessam o universo e admiti, facilmente, que as previsões são más porque vai haver uma grande tempestade; talvez mesmo um dilúvio. Quis adormecer sem me molhar, virei-me para o outro lado tentando cobrir-m...

LISBOA

Há muito que não tenho vindo aqui acrescentar algo às coisas da minha vida . Aqui fica então um pequeno texto que fiz para a turma de Oficina de Português. É um texto baseado num Documentário de um filme de José Fonseca e Costa.   P ercorremos Lisboa com o olhar. As sete Colinas, o Rio Tejo, as cores das casas, os eléctricos, os Monumentos, as Praças, as Estátuas, os bairros típicos, os Palácios e seus interiores deslumbrantes. Somos levados pela memória à época dos Descobrimentos e partimos daí até aos dias de hoje. Subimos e descemos as ruas da cidade velha, onde nos perdemos em ruelas estreitas e labirintos de escadarias de calçada, até à cidade nova e moderna de grandes largos e onde emergem figuras que perpetuam a nossa História. Perdemo-nos então nos detalhes em que normalmente não reparamos - na pressa de um agitado quotidiano - e sentimos aqui, através da poesia que o poeta descreve em cada olhar, que há em cada inst...