terça-feira, 17 de outubro de 2017

SILÊNCIO ENSURDECEDOR


A manhã estava soalheira, mas fresca. O verão ficara lá atrás e o outono ia agora ao lado, tal como rio. Espelhado de céu salpicado de nuvens brancas dispersas e que voavam comigo, mergulhei meu olhar taciturno nesse indefinido horizonte aguado. A determinação arrancara-me da cama e a necessidade do desafio físico presente, fazia-me todo o sentido. Acompanhado, estava só.
Pela frente um caminho pedonal tapetado, ora de calçada, ora de cimento colorido para percorrer. Normalmente o diálogo projecta-nos para outros caminhos e os passos perdem-se em aventuras por desbravar. Ou os assuntos da actualidade preenchem-nos os minutos e estes passam em passos largos. É bom, salutar e agradável.
Mas nesta estranha manhã tudo pareceu diferente entre ele e ela. E o ruído do silêncio foi ensurdecedor. Foram quatro quilómetros de deserto em palavras engolidas em seco. Como se tivessem tudo para dizer e nada.
Percorridos os primeiros cinquenta metros, procuro fazer o que sempre faço: despoletar um assunto:
– Finalmente a chuva, agora que tudo ardeu por aí...
Apenas ouvi o silêncio.
Dez minutos depois ouço:
– Gostaste da açorda de camarão ou deitaste fora?
Aludia a um tupperware que me dera na véspera com aquele petisco.
A minha resposta, na linha do que me é habitual foi:
– Deitei fora.  
Na verdade não havia sequer comido. Mas perante tanto silêncio, não me apeteceu responder de outra forma. Ainda admiti que a conversa podia ter sido alimentada por “deitaste fora porque não gostaste ou porque foi? ...
Não, nada. O assunto morreu ali prostrado no vómito, no grito para dentro, no desespero de quem quer parar e tem que andar.
Os passos prosseguiram, as pernas agiram, a cabeça olhou em volta tentando perceber o vento, as folhas, o chão, a manhã, a razão, se o tempo era bom ou mau...
Não se comentou o atarefado trânsito de automóveis na estrada, ou o pato que vive no rio no seu palanque de madeira – à espera de quem o alimenta a pão – ou dos barcos que servem as duas margens ou sequer do tapete de relva nas novas zonas verdes que por aqui cresceram e que alegram este espaço lúdico que usufruímos.
Mas a sua boca não se abriu mais e a minha também não.
Ficou a caminhada de um tempo aparentemente perdido, consumido em pensamentos que ecoam agora por aqui, mas que servem para aferirmos o que somos, cada um de nós, com nossas legítimas razões e que amanhã entenderemos.
Não falei porque não me apeteceu. Escrevi aqui porque quero e me apeteceu.
Cada um tem aquilo que merece. E eu mereço o que tenho e estou grato.
 
Carlos Alberto

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

CARTAS DE AMOR

 
Querida Maria

Bom dia, meu amor. Espero que esta carta te vá encontrar de boa saúde e que estejas de bem contigo mesma. Quanto a mim, cá estou na minha pacata vida, longe de ti, mas sempre contigo no meu coração. A distância que nos separa hoje deixa—me marcas todos os dias, porque me deito e acordo contigo na cabeça, sempre a pensar em ti; e como isso me magoa o coração... Não é fácil saber—te aí e eu aqui, com uma necessidade enorme de te sentir, abraçar e beijar. ...
Mas o destino assim quis e vou aceitar este momento como uma prova de resistência ao nosso amor, à nossa paixão, à nossa loucura.

Lembras—te como foi linda a forma como nos conhecemos? Tu à janela e eu disse—te que eras linda. Sorriste—me, envergonhada, e baixaste os olhos em sinal de de confirmação. Desde esse dia passei a ir ver—te todos os dias, nem que fosse apenas para descortinar a tua sombra e sentia—me feliz, só por isso. Disse—te que te amava, que era um dos dez homens mais felizes do mundo e as sensações que passei a sentir contigo na minha vida, fizeram renascer em mim um amor imenso e adormecido. 

Depois disto, deixaste—me entrar no teu coração e, à janela, namorávamos como dois amantes adolescentes, brincando um com o outro. Era tão bom, amor, não era?

Tenho pena que ainda não tivéssemos podido brincar os dois no Jardim, no mesmo baloiço, mas a distância e o tempo que tem estado sempre mau e tudo muito nublado, molhado e escorregadio, não ajuda, não é? 

E aqui estou eu, desterrado, numa rua vazia de ti, mesmo que o rio me abrace, mas sem o teu cheiro e com apenas a tua alma como companhia.

Bom, amor, despeço—me por hoje, na esperança de que esta carta nos faça sentir mais perto um do outro e que o nosso amor possa assim sair reforçado.
Já te disse hoje que te amo? E que és linda? Não? Amo—te, amo—te muito, Maria.

Eternamente teu, recebe os meus beijos de amor que te envio do mais profundo da minha alma. Grato.

 Carlos Alberto.

domingo, 20 de agosto de 2017

PALAVRA


 
Palavra dita em clamor
Tantas vezes mal tratada
Há uma que elejo: AMOR
Palavra abençoada.
 

 

terça-feira, 25 de abril de 2017

COM OU SEM MAR


Quero ouvir os pardais, as gaivotas,
observar o oceano a beijar as margens;
quero sentir as aragens,
e também ouvir tua voz.
Sentir o teu cheiro, tua essência
perdida nesta concha de noz.

Navego à tua procura:
Escondes-te e não estás.
Rejeitas-me, ignoras-me,
ou não sou capaz.
 
Quero fazer poesia,
cantar, dançar com mestria;
como uma flor a abrir,
erguer-me para o teu abraço;
mas nem me deixas sorrir;
Sobra-me o cansaço.
 
Fecho-me, triste, derreado
na minha concha embrulhado.
Cubro-me com um lençol
de vergonha amarrotado.
Choro uma mágoa
da qual me quero libertar,
triste por te amar, sem me cansar.

Mas dói-me e tenho medo:
dos trovões e das farpas — credo!
Dos zumbidos do vento
que ecoam pelo espaço.
E no dilúvio das vagas
que me enrolam no cansaço
contra as rochas me tragas.

segunda-feira, 20 de março de 2017

MMEMÓRIAS 2015 (2º SEMESTRE)

Terça-feira, 14 de Julho de 2015 (Torre da Marinha, 21:56h)

“Obrigado, meu Deus”
E vai tudo correr bem. Não há nada que nos impeça de sermos felizes. Porque é isso que eu quero, é isso que eu desejo, é isso que eu mereço, é isso que eu procuro transmitir aos outros. E a vida acontece. Acordamos, sentimo-nos gratos e vamos em busca, não dos silêncios, mas dos sons que brotam à nossa volta e nos despertam. E são muitos, vindos de todas as direcções, que captamos e gerimos como quem usa colheres que manuseamos e transportamos até à alma. São imensas as sensações e todas boas. Vamos trilhando o caminho e descobrindo cada local, cada momento, como o lugar certo para se estar. E até conseguimos controlar tudo, como se fossemos um super-homem, mas sem capa. Há sorrisos, despertamos prazer. Há luz, sol, calor e até somos um forno a aquecer tudo o que está frio. Somos a paz dentro de uma guerra, somos a flor num jardim palaciano, o anjo da guarda de alguém que protegemos, a tranquilidade ou a fonte de harmonia entre o conhecimento e a sabedoria que nos envolve. Espanto-me, no entanto, é com a importância que me é dada e deslumbro-me na essência em que me transformam. Serei eu assim o homem tão especial, o líder, o ídolo que as pessoas tanto procuram? Eu só quero mesmo é ser uma boa pessoa e alguém reconhecido apenas como “boa pessoa” e mais nada.  Porque, como ser humano, considero-me uma pessoa como as outras, com imensos defeitos, nomeadamente, um pervertido, um louco, um tarado, alguém capaz de tudo e disposto a tudo. Quem me conhece a fundo sabe do que estou a falar. Se sou feliz assim sendo assim? Sou e muito. Inteiramente amado por muitas pessoas, amando como amo a vida e as pessoas, isso faz de mim o homem que sou e dá-me um conforto enorme. Resta dizer, aquilo que pronuncio diariamente: obrigado, meu Deus.

Carlos Alberto                             


Sexta-feira, 02 de Outubro de 2015 (Torre da Marinha, 22:31h)
“Amor para toda a vida”

O mais importante está aqui. Tenho tudo o que preciso: o sangue, o ar que respiro, a luz, o espaço, o sentido da vida. Ouço o seu respirar, o sorriso, a voz, sinto a presença, a vibração, a alegria, e basta-me. Ela fala, fala, está perfeita, completa, harmonizada. Fala da sua terra, das suas origens, e brilha, pois claro, porque domina o lugar onde viveu dez anos e de onde é natural. E é este prazer insubstituível que não dispenso. A cor dos seus olhos, a expressão corporal, a elegância da sua presença e o que manifesta, está tudo nela. Está tudo aqui. Sei, no entanto, que esta é uma felicidade que me é emprestada por umas horas. Uma felicidade que partilhamos apenas por um espaço de tempo único, mas que, por agora, ambos desfrutamos. E vale a pena. É a aproximação possível, a certeza da identidade, o desfrutar das raízes que assim não secam, como que um regar, para não se perderem, num entrelaçar para o resto da vida. É o meu bebé, a minha criança, o meu amor perdido, que agora cresce na distância, que perdi para uma vivência diária, mas que continua presente no meu tempo e a evoluir: uma menina hoje feita mulher. E, nesta condição de pai, usufruo, não interessa em que normas estabelecidas, o gosto de a ter aqui. Ela está aqui e saboreio-a apenas. Não importa se é necessidade ou interesse. O que é bom é que podemos viver juntos o momento, mesmo que ela continue a falar, a falar e a falar, vivendo de forma activa e alegremente o diálogo que, efusivamente, vai manifestando ao telefone com alguém que não comigo. Em qualquer circunstância, o que destaco é que esta criança é fruto de um grande amor e será assim de um amor para toda a vida.

Carlos Alberto  

Quarta-feira, 7 de Outubro de 2015 (Torre da Marinha, 22:02h)
“Paixão perdida”

Tenho que ganhar asas, voar, sair deste colete-de-forças em que me encontro, partir para outros e novos mundos. Chega. Sinto-me preso a este barco deteriorado, amarrado ao cais, e não quero. Quero partir, sobrevoar, navegar, viver, crescer, gritar bem alto a alegria que me vai na alma e que não consigo exprimir. É o céu que está cinzento,a chuva que cai, ou uma espécie de nevoeiro ou neblina que me tolda a visão, quando o tempo, afinal, está óptimo lá fora. Vou andar. Obrigo-me a isso. Quero ouvir os pardais, as gaivotas, observar o rio a beijar as margens. Sim, também há muito lixo, resíduos da cultura de um povo, mas ignoro-o neste contexto. Quero sentir que estou bem, apenas ouvir tua voz, sentir teu cheiro que me está a faltar muitas vezes. E nem sei de quem estou a falar... Vou à tua procura, mas tu não estás para mim. Ofendes-me, rejeitas-me, ignoras os meus sentimentos. Quero fazer poesia, cantar, dançar para ti, erguer-me para o teu abraço, e, afinal, nem me deixas sorrir. Fecho-me então nessa altura, triste, na minha concha, cubro-me com um lençol da vergonha que me fazes sentir e choro uma mágoa da qual me quero libertar. É como se tivesse medo: medo dos trovões, das farpas, dos zumbidos de vento que ecoam pelo espaço, das vagas que me enrolam e atiram contra as rochas. Estou sozinho e castigas-me como se castiga uma criança. Prometeste-me que me deixavas ver televisão, se eu me portasse bem, e depois não me deixaste ver. Ofereceste-me um rebuçado, mas não o descascaste e eu não sei fazê-lo sozinho. Gostava de te sentir e tu não queres. Queria tocar-te, abraçar-te, desejar-te, mas és para mim como a lua, em fase de “nova”: apenas estás lá. A paixão foi-se, a tua, já não existe e eu estou perdido nesta estrada de curvas e contra curvas de regresso a casa sem nada dentro. É com um vazio imenso, sem esperança que encontro. Sobram os frutos que colho no caminho e que absorvo sofregamente, mas queria mais. Desejava mais, mesmo sabendo que não posso, nem está ao meu alcance. Só me resta chorar, mas como sou forte, vou mesmo tornar a sair em busca desse momento sublime de voar por cima da montanha e voltar a sorrir.
Carlos Alberto

 
Sexta-feira, 09 de Outubro de 2015 (Torre da Marinha, 10/10, 00:59h)

“Sem medo”
Subi e desci escadas. Galguei, corri, esfolei-me todo para atingir o topo. Estou lá. Exausto, sim, mas cheguei. Sorri-te, penetrei-te nesses olhos brilhantes que me fulminaram, abracei-te, quis-te, mas só te deste numa medida que é a tua e que me quiseste dar. E foi pouco, para a minha vontade. Fiquei apenas com um gosto amargo na boca, como se nem o teu cheiro tivesse sentido. Afastaste-te, fugiste e escondeste-te de ti própria. Eu falho na escrita, falho na respiração, falho em tudo porque não estamos na mesma sintonia. Mas já sirvo de amigo, de pai, e até já sou avô e, que remédio, tenho que me resignar a essa condição privilegiada de estatuto ancião. “E já gozas, meu caro”. É o rebuçado que chupo sem ter o direito de o trincar. “Chupa, querido, chupa”. Vai atrás dos interesses dos outros, enterra-te nesse desejo de quereres, mas apenas cheiras e ao longe. E é assim que vivo, partilho, consulto, sou útil e gozo nesta cadeira. Mas é apenas um gozo de quem vê um filme na tela, onde se passa tudo ao nível da ficção, porque da realidade nada. Resta, no entanto, a boa sensação de que vale a pena explorar o momento, a amizade, o filme. Entretanto, para trás ficara uma hora e picos de ginásio, em regime gratuito de experimentação que aproveitámos. Um almoço em óptima companhia de mulheres e depois imiscuído entre muitas mulheres em conversas de mulheres para mulheres. Também cartas e mais números com tarot à mistura e mais mulheres fáceis e difíceis, amorosas ou para fugir delas. Enfim, um dia em que houve de tudo um pouco, até jantar: churrasco, como se eu fosse da família, pertencesse ao meio, com o mar ali tão perto. Abdiquei da família verdadeira, abdico de tudo por ti e, afinal, nem sequer para poder sentir o teu abraço apertado que queria. Recebes-me num tímido encontro, sem paixão e com medo enorme de qualquer envolvimento. Que pena as pessoas fugirem do medo... de se entregarem ou serem elas próprias, sem medo.

Carlos Alberto

Domingo, 29 de Novembro de 2015 (Torre da Marinha, 21:53h)
“Fotografando”

Aproveitamos o bom tempo, empunhamos a máquina fotográfica e vamos numa viagem em busca de imagens que ilustrem a nossa vida. O sol, fugidio e temperado do final da tarde, de cores amenas de um outono fresco, salpica-nos delicadamente o rosto pelo rio. Aqui a margem afagada pela ondulação na maré cheia. Do outro lado, as casas. No rio há gente em embarcações de recreio, em caiaques coloridos,­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­ ­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­— remando na desportiva brincadeira de quem aproveita o tempo — dispostos na corrente das calmas águas ainda pouco cristalinas. Nesta margem um pescador, de mãos nos bolsos, olha distraidamente para as suas duas canas apontadas ao céu. E eu vou, passo a passo, descobrindo e absorvendo cada momento: as luzes, as sombras, os perfis, os contrastes, as esquinas. Pelo caminho, “encadeio-me” na lanterna apagada provinda de um barco que cruza o horizonte, esbarro na simetria cónica do coreto que se eleva para as nuvens e tropeço na apinhada fila de cadeiras arrumadas. É assim esta tarde, despida de ruídos ou aglomerações supérfluas. Há apenas gente que se passeia, de cá para lá, com cães pela trela, pessoas de idade, que a juventude, provavelmente, preferirá outros cenários. Todavia, a tarde, assim, está encantadora. Um casal, sentado num banco, em trejeitos de cumplicidade, troca carícias como se estivesse a escrever em si mesmo um tratado de amor. Alguém surge de repente e se atravessa no meu olhar, pedalando em ritmo lânguido de quem tem todo o tempo do mundo, tal como eu, que respiro e observo cada imagem, cada traço, como se fosse a última vez, numa hora de despedidas. Fotografo as casas, cada uma, como se fossem para ser demolidas. Gravo imagens dispersas como “frames” de uma história, a minha história, o meu olhar que o tempo se encarregará de preservar para sempre, se estas palavras forem capazes de sobreviver à intempérie crítica do olhar dos críticos.

Carlos Alberto

PS: Estes resumos fazem parte de transcrições das páginas manuscritas do meu Diário.
Fiz várias alterações nos textos originais.
A minha opção é, com estas modificações, “enaltecer esses escritos” e, com umas pinceladas, pretender dar-lhes algum carácter literário, tonando-os mais apelativo à literacia.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

MEMÓRIAS 2015 (1º SEMESTRE)


Segunda-feira, 16 de Março de 2015 (Torre da Marinha, 21:40h)

“Partilhando com ratos”
É impressionante andarmos aqui nós tão preocupados com a nossa “vidinha” e com as condições que temos nela e, afinal, há gente a viver debaixo da ponte. Gente, como nós, que sem nada que lhes permita viver condignamente, são os caixotes do lixo o seu supermercado e simultaneamente o seu sustento. E é confrangedor ver de tão perto como certas pessoas sobrevivem à vida. São imagens como estas que nos tocam e fazem reflectir sobre o que somos e o que temos. Por isso não me queixo, e digo, sentindo, que sou um homem privilegiado. Nem se percebe como as pessoas se lamentam tanto e acham que as suas vidas são difíceis. Havendo pessoas, mesmo ao nosso lado, a partilharem o seu espaço com ratos à volta e que com eles vivem “portas meias”, vamos queixar-nos do quê? Há um rio que desagua no mar, comboios que os trucidam a todos os momentos, carros que velozmente lhes atropelam, ruidosamente, os ouvidos em zumbidos que já fazem parte da sua existência. Dói só de ver, quanto mais sentir. Passar ali uma só noite já seria um pesadelo; imagine-se uma vida. Uma noite que fosse, seria uma tragédia, uma experiência alucinante que nos mataria de uma só vez. Entretanto, nós vamo-nos perdendo na nossa “vidinha”, em sonhos que gostaríamos de ver realizados, no aconchego do nosso canto.. “Debaixo da ponte”, frase tantas vezes repetida para dizer quanta miséria ela encerra é, na verdade, para alguém tão humano quanto nós, literalmente uma realidade social para quem a vida foi madrasta e que a vivencia todos os dias. Por isso, quando ouvirmos alguém se queixar de que a sua vida é má e difícil é dizermos que vá até à Cruz Quebrada e espreite para debaixo da ponte e imagine-se a viver ali.
 
Carlos Alberto                             
 

Terça-feira, 31 de Março de 2015 (Torre da Marinha, 20:12h)

“Com as mãos no fogo”
Não sei o que vai acontecer a partir daqui, mas como eu acredito no destino, será o que tiver que acontecer. A vida está cheia de surpresas, surgem-nos em cada esquina, e a questão está em sabermos como lidar com elas. Podemos não lhes dar a melhor solução, mas haverá, com certeza, uma, e ela será a resposta certa ao desafio a que nos propusemos. E, na verdade, eu nem sei do que estou à procura. Aliás, como tenho sempre dito “não sei o que quero; só sei o que não quero”. Mas a solução é eu deixar fazer com que o “destino” me leve para aonde eu tiver que ir. Não estou muito seguro de mim, nem sequer sei se estou a agir bem ou mal, de forma correcta, ou não. Portanto, vou apenas seguir o meu instinto, acreditar nas minhas intuições. Também não sei sequer porque o faço e porque procuro o desafio. Mas sei que vou entender tudo quando lá chegar. Talvez comece por levar uma tareia e acabe estendido na lama, mas é o meu propósito, sou eu que só sei ser assim. Abrem-se as portas e eu entro. E neste caso nem peço para entrar, eu entro sem sequer pedir licença. E é isso que me preocupa e aflige. Porque me considero um homem honesto. E vou ter que continuar a sê-lo. E assim se abre a minha vida para um novo desafio. É apenas um dia alegre e muito bonito de sol resplandecente. Um dia de juventude, de partilha de sensações e bem-estar. E pergunta-se: eu atrapalho? Não sei nem quero saber. Eu entro e nem é pela porta. Eu forço até a janela, de forma brusca, abrupta, intempestiva. Sem olhar a meios ou fechaduras, trancas ou o que quer que se intrometa pelo meio, não há entraves ou obstáculos que, no momento da minha decisão de derrubá-los deixam logo de o ser, sem medos, sem contemplações, sem olhar para as consequências. Dentro ou fora, quero lá saber. Este sou eu, em toda a minha irreverência, quando te cubro com o meu amor.

Carlos Alberto  

Quarta-feira, 1 de Abril de 2015 (Torre da Marinha, 02/04 03:19h)

“Bora lá...”
Uma noite longa até que o sono nos separasse. E a noite chegou, de mansinho, como quem chama para a cama e, prego a fundo que se faz tarde, estrada fora com quem foge do destino e, pronto, já era. A luz finou-se. Num repente as velas acesas apagaram-se, num sinal de vento que não houve, num sol que se inundou e a luz, esfumando-se, desapareceu. Era um sonho?. Alguém estendeu um tapete para subirmos as escadas que nos levariam ao céu, mas, meu Deus, que caminhos queres que eu percorra? Fui então, a correr, atrás do teu chamamento e encontrei-me na rua do meu desespero. A loucura, de repente, apoderou-se de mim. Envolveste-me num suspiro e perdi-me na escalada ofegante da conquista de um castelo de ameias recortadas, numa torre que não tinha uma princesa, mas apenas uma mulher. Sonhámos com castelos, entrámos incógnitos por janelas, mas até havia portas abertas para entrarmos. Lisboa, fui atrás de ti, montado, a galope, em meu cavalo de vento e esbarrei nos meus próprios preconceitos que me afectam. Há palavras que deixam de fazer sentido e sentidos que percorrem as palavras certas para expressar sentimentos. E acordamos. Estás lá na ilusão do que sentimos, na paixão do que fomos e somos. Perdidos em insondáveis labirintos, conseguimos encontrar-nos, com paixão, no sorriso que nos coloca no caminho certo. A noite avança, assim irreverente, na loucura de abraços e beijos que nos enchem o corpo. Tentamos descobrir o nosso espaço por trilhos de atalhos em que queremos saber se é o fim do caminho ou o princípio de outro, o certo, que procuramos encontrar. Mas vamos saber no momento em que o vento nos soprar ao ouvido canções de embalar. Fico, no entanto, triste por ter tantos defeitos, achar que é na beleza que está a perfeição e sinto-me tão estúpido que até me magoo na escalada.

Carlos Alberto

Quinta-feira, 14 de Maio de 2015 (Torre da Marinha, 20:25h)

“Noite ou dia de sonho”
As palavras não podem ser ditas de ânimo leve porque, carregadas de amor, podem ferir os sentimentos de quem as perscruta. Neste contexto, os dias também não acabam nem começam porque eles são um prolongamento de si em si mesmos. E neles se desenrolam descritivamente, raptos, torturas, gritos e estertores. Contudo, aqui as palavras são outras e falam do prazer escondido, proferidas em castelos inexpugnáveis que invadimos sem termos ganho uma consciência absoluta do que conquistámos. Aparentemente cegos, somos guiados por instintos, presos e arrastados por cordas invisíveis que nos amarram e nos rebocam até ao mais alto dos confins do mundo. Lisboa está a meus pés. O Tejo é também pano de fundo, enquanto as luzes da cidade, piscando-nos na vista, vão ofuscando-nos os sentidos. Partimos então à procura não sabemos exactamente do quê, mas também queremos muito perceber todos os contornos das linhas do horizonte colocadas diante de nós. Por fim descobrimos. Há foguetes no ar, explosões de cores em todas as direcções, depois a noite ou o dia ­­­­– já não sabemos – avança. E o reboliço é intenso pelo chão, em alternativa ao conforto do maple ali mesmo ao lado. Mas é o duro chão que nos acolhe no abraço, no grito – na noite ou no dia que não acaba e começa – a nudez, o gosto, o gozo, o desejo, os gritos abafados, o outro, a vontade... que se contém. Hirto na determinação, a envolvência não se encaixa e esbarra no pretexto da falta de protecção e segurança das alturas. Assim, restam mãos ciosas tacteando entranhas que percorrem colinas. Bocas que desfolham florestas húmidas e as carregam de beijos. Gestos e armas que aguilhoando muralhas fazem desprender sinos que estridentemente ecoam e se fazem ouvir. Acordamos então para adormecer no cansaço. A manhã já era. É o sol agora na paisagem. Há automóveis na estrada enquanto saboreamos um prazer que ainda nos envolve. A descoberta de todas as curvas, o quarto de paredes forrados de mensagens carregadas de energia que nos engole. Os segredos contados e revelados ao ouvido. Os corpos nus em sonhos feitos em pedaços reais. Ainda o cheiro, o gosto saboroso da fruta que deglutimos. É assim a paixão de uma noite – ou dia – de sonho.

Carlos Alberto
 

Sexta-feira, 19 de Junho de 2015 (Torre da Marinha, 20/06 01:05h)

“Gosto muito de vocês”
Sentei-me. Fechei os olhos olhando para trás e pensei: “tenho de ser diferente e dizer algo de diferente”. Eu não posso continuar a cair na tentação do facilitismo e de ir sempre pelo caminho mais fácil. Sim, quero crescer e estou a crescer, mas tenho que eliminar as ervas daninhas à minha volta. É verdade, também já não sou o mesmo homem de ontem, do meu passado. Sim, ainda choro, mas não pelas mesmas razões. Agradeço a Deus ou ao Universo tudo o que vivi e sofri, mas sem angústia. Sou hoje uma melhor pessoa e, curioso, muito mais feliz do que seria suposto. A vida hoje para mim acaba por ser aquilo que eu sempre desejei que fosse. Era exactamente assim que eu me imaginava viver e nem sabia. Acabei de aperceber-me que, afinal, sou hoje aquilo que sempre desejei ser. Um homem livre, que faz as suas escolhas (aparentes) e que segue o caminho ou caminhos que quer. Não preciso de ser prepotente, não preciso de impôr nada, nem de me insinuar a ninguém. Tudo o que é bom vem ter comigo, e eu só penso naquilo que me dá felicidade. E uma das conclusões a que chego é que não ser de ninguém é hoje um dos meus maiores bens e não me aflijo nada com aquilo que não tenho ou não é meu. Considero-me também um homem abençoado e muito feliz com o que me rodeia. A solidão não é meu lema e estar só hoje – quando sozinho – é apenas minha opção. Porque quero ser eu a decidir se saio, e quando saio de casa, daqui ou dali. Porque sou eu que decido se como carne ou peixe, se me apetece ou não; porque sou eu que decido se é bom ou mau para mim e sou eu que escolho quem quero para ser meu amigo e isto basta-me. E, de facto, tenho hoje vários amigos e amigas graças a essa minha liberdade de escolha. Por isso posso dizer e quero dizer que gosto muito de ti Victória, gosto muito de ti Cristina, gosto muito de ti Sónia e gosto muito da gente que gosta de mim, nomeadamente, de ti que acabaste de ler esta página agora.     

Carlos Alberto

PS: Estes resumos fazem parte de transcrições das páginas manuscritas do meu Diário que embora estejam já lá para trás no tempo, valem hoje o que valem.

Entretanto, e porque fiz várias alterações pontuais neles, a minha opção actualmente é “enaltecer esses textos escritos” e assim, com essas pinceladas, pretender apenas dar algum carácter literário e mais apelativo.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A terminar o ano, aqui fica uma poesia...

Folha

De pele enrugada,
Rasgada pelo tempo,
Pela intempérie vergada,
Ao sabor do vento:
Surge da minha alma
Uma folha
Que brota, como sangue,
Uma bolha:
Lágrima de vida, alada.
Escoa-se para a terra—
Pó, cinza e nada.

CA

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

"A GALINHA PINTAS"

 

A terra onde o Artur vive é um lugar muito tranquilo, lá muito longe num mundo onde todas as pessoas se dão muito bem, são muito amigas e gostam todas umas das outras. É um lugar calmo, fora da cidade, sem confusão, onde se respira paz e tranquilidade, se ouvem os passarinhos a cantar e até o vento sopra sempre muito baixinho para não assustar as pessoas. As árvores agitam-se e balançam como se dançassem ao som de canções de amor e a harmonia é tão perfeita que parecem bailarinas num espectáculo esverdeado cheio de alegria.
 
No céu, as nuvens estão sempre a criar desenhos e, quando lá vou, o Artur e eu, deitamo-nos no chão e pomo-nos a adivinhar o que são: umas vezes parecem-nos aves, outras parecem-nos golfinhos, outras patos e, algumas nuvens até nos parecem rostos a sorrirem para nós a brincar com a nossa imaginação.

Eu não vivo na terra do Artur, mas gosto muito de lá ir por causa disto; assim como gosto das sensações que, tanto ele como aquele lugar, me transmitem. Na verdade sinto-me como se estivesse no Céu, tão lindo e calmo é tudo aquilo: inspira-me muito bem-estar e confiança e quando estou lá sinto-me privilegiado por ter um amigo a viver ali naquela terra de sonho e poder ir visitá-lo de vez em quando.

Como naquela terra distante as pessoas são muito amigas e simpáticas, certo dia, a mãe do Artur recebeu de uns vizinhos uma oferta muito especial: uma galinha para eles matarem e fazerem com ela uma deliciosa refeição de arroz de cabidela. Este arroz é cozinhado com o sangue da galinha e dizem que é muito bom. Mas o meu amigo Artur que não gostou muito da ideia de matarem a galinha teve uma ideia genial e disse à mãe que a galinha parecia triste e magra e que queria ficar com ela. Disse-lhe que achava que a galinha precisava primeiro de engordar para ficar mais suculenta e que ele mesmo iria alimentá-la para ficar mais gorda e depois já poderia ir para a panela. A mãe do Artur gostou da ideia e concordou com a sugestão dele. O Artur agarrou então na galinha e levou-a para o pombal da sua casa onde tinha também uns pombos de estimação. Pelo caminho sussurrou à galinha que ia tratar dela, não para ir para a panela, mas que iam ser amigos e, para provar isso, começou a fazer-lhe festinhas e deu-lhe beijinhos. A pequena galinha que ainda estava meio assustada, agora no colo do Artur, aceitou os carinhos, aquelas palavras de amizade, confiou nele e ficou então um pouco mais tranquila. A sua hora, afinal, ainda não tinha chegado.

A galinha era de facto magrita e enfezada. Tinha um pescoço comprido e despido de penas com umas pintas pretas sarapintadas e as suas penas acastanhadas nem brilhavam muito. Era realmente uma galinha de aspecto muito esgazeado e que fazia pena. Por causa das pintas do pescoço o Artur começou a chamá-la por galinha Pintas.

No início ela nem punha ovos e, quando raramente os punha, estes eram brancos e pequenitos. Depois o Artur falava com ela, fazia-lhe festinhas no bico e nas penas; ela agachava-se sossegadinha para recebê-las e ficava a ouvi-lo com atenção. Aos poucos, com o passar do tempo, a galinha Pintas ia melhorando de aspecto e agora, quando via o Artur e este se aproximava, ela até batia as asas de contente, já ia ter com ele para ele lhe fazer festinhas no peito e pareciam, de facto, entender-se muito bem. E foi assim que o Artur e a galinha Pintas se tornaram grandes amigos e também foi a partir dali que ela começou a pôr ovos todos os dias, ovos cada vez mais amarelos, grandes e gostosos e tornou-se numa galinha muito feliz e contente, porque era uma galinha que punha ovos para o Artur ficar mais forte.

O Artur para continuar a alimentar a ideia à mãe de que estava a engordar a galinha Pintas, ia dizendo-lhe que um dia tinha tido um sonho de que aquela galinha era a verdadeira galinha dos ovos de ouro de que se falava muito, e que a galinha Pintas, um dia, iria pôr um ovo de ouro... e todos ficariam mais felizes.

Obviamente que a mãe do Artur percebendo da amizade criada entre eles e das justificações que ele ia inventando, desistiu da ideia de matar a galinha Pintas e, assim, o nosso herói Artur salvou a galinha da panela de arroz de cabidela e ficaram todos amigos para sempre.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

QUEM SOMOS

Na verdade somos tudo e nada. Nascemos e morremos. Passamos por aqui, vivenciamos e deixamos uma marca, ou não. Mas regra geral, deixamos, que pode ser boa ou má.
 
Acredito no destino, não em acasos. Temos um papel a desempenhar. Procuro fazê-lo bem, mas falho muitas vezes e muitas vezes recorro ao "ponto" para continuar. Mas prossigo.
 
Muitos me conhecem e sabem quem sou. Mas saberão, mesmo? Eu acho que não. Sou como um icebergue e esses que acham que me conhecem só conseguem ver a parte flutuante e visível; a outra parte é privilégio de uns poucos.
 
Lidar comigo não é fácil, mas cá bem no fundo até nem a uma formiga faço mal (como o meu pai que nos piqueniques as alimentava). 
 
Cuidem-se amigos e sejam felizes. Se precisarem de mim, digam, mas não abusem que já atingi o limite de tolerância para alguns. E aqui fica a minha máxima: "eternamente grato, não é ser eternamente parvo".
 

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

MÃE

Farias hoje 100 anos. Partiste há quase dezoito, mas continuas viva na nossa memória, sempre dentro do nosso coração, sendo o meu amor por ti, como esta escrita, eterno.
 
Recordamos-te com saudade, mas em alegria e com o vislumbre do teu sorriso que temos sempre presente. 
 
Ainda hoje os teus exemplos são sempre aflorados nas minhas convicções e tenho-te não apenas como uma mulher, mãe, esposa e amiga, mas como alguém cujo comportamento, acima de qualquer interesse pessoal se pautava pelo AMOR aos outros e que tantas vezes o demonstraste nas tuas atitudes.  
 
Foste mãe de três filhos e qualquer um de nós, tenho a certeza, se orgulha da mulher e da mãe que foste, apesar da vida difícil por que passámos, das adversidades da vida, da pobreza, mas sobretudo da alegria, da paz e da harmonia que permanentemente irradiavas. 
 
Finalmente dizer-te OBRIGADO minha mãe por tudo e pela inspiração e protecção que continuas a dar-me hoje - onde quer que estejas no Universo - e que me motiva para este testemunho que aqui deixo, com a mesma alegria, amor e felicidade que tu sempre me transmitiste.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

IRMÃ

Passei dia e meio com a minha irmã. Percebo agora como é delicioso termos irmãos, sobretudo como aqueles que eu tenho.
 
Jantámos, dormimos uma noite, fomos para a praia no dia seguinte e, principalmente, conversámos.
 
Foram desabafos atrás de desabafos, coisas da sua vida. Gosto de a ouvir. Ela precisa, compreendo as suas mágoas e tento ajudá-la. É o meu papel.
 
Estou disponível, por alguma razão e, já me basta saber (e fico feliz), que eu existo, nem que seja para ajudar aqueles que precisam de uma palavra de conforto ou de uma mão que os segure e puxe para cima Assim percebo como faz tanto sentido a minha actual vida.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

SEGUNDA

Não, não é segunda, mas terça-feira. Queria escrever diariamente, mas logo à segunda, caiu por terra a ideia. O cansaço no final do dia é muito e, deitado no maple, o sono sobrepõe-se e é mais forte que eu. Por outro lado, não me vai ser fácil escrever diariamente aqui face à minha agenda sempre muito preenchida....
 
Sim, fui para a praia, como planeara e, os banhos, a longa caminhada que prefiro fazer para ir para aquela praia naturista, tudo isso, para um "cota" como eu, já não é fácil ou pera doce.
 
Só então para dizer que estou vivo, que passei por uma "segunda" e estranha indigestão, mas foi uma forma de eu analisar porque é que isto me acontece e em que circunstâncias.
 
Como se sabe, não se deve ir a banhos com o estômago cheio. Não foi o meu caso, mas almocei bem demais, e bebi um "lambrusco" tinto que me soube muito bem. O "tinto" não me faz bem... não é o vinho... mas a verdade é que depois de "molhar os pés" foi o suficiente para ter que "falar com o gregório" para me recuperar.
 
Está tudo bem, até à próxima.

domingo, 4 de setembro de 2016

FIM-DE-SEMANA

Vou iniciar hoje uma nova etapa deste meu blogue. Sei que são poucos os que o procuram, mas o que me interessa é a qualidade em detrimento da quantidade de pessoas que o visitam.
 
O objectivo é criar uma rotina para mim, a rotina da escrita aqui. Por outro lado darei um pouco de vida, quer a mim quer a esta página.
 
Aquilo que vou escrever poderá ser apenas uma frase, uma ideia, um pensamento, ou uma foto. Será uma palavra, um grito, uma mensagem; será o que for.
 
Hoje refiro-me ao fim-de-semana e, quanto a isso, é só para dizer que os meus dias da semana são todos iguais hoje. A minha vida é maravilhosa por não ter que ir para o trabalho amanhã aturar patrões, chefes ou quem quer que seja e isto é óptimo.
 
Fiquem bem e... bom trabalho que amanhã eu tenho uma praia à minha espera.  

terça-feira, 16 de agosto de 2016

HÁ 16 ANOS

Vou escrever de improviso, sem rede, completamente despreocupado com as palavras e interessado apenas em expressar sentimentos.
 
Fui pai há dezasseis anos atrás e pela terceira vez. E foi especial e diferente. E porquê?
 
A experiência  de ser pai é sempre gratificante. Foram três momentos especiais e diferentes sendo que se na primeira vez é a novidade, são os receios, a ansiedade. Na segunda, por outro lado, é o reviver do que se viveu da primeira vez e sentimo-nos mais tranquilos, uns experts na matéria, tendo a sensação de que temos tudo controlado. Já o terceiro filho (vá-se lá saber porquê) teve esse condão especial, esse momento mágico que ultrapassa tudo. É a possibilidade de estarmos ali, naquele instante e assistirmos in loco a tudo. É fantástico. 
 
E, de facto, no hospital Espírito Santo, em Ponta Delgada nasceu essa criança adorável que é já uma mulher. São onze e trinta e cinco da noite e vejo-a pela primeira vez a estrebuchar para a nova vida. Tem apenas 1840 gramas e é uma milagre ter resistido a tudo, depois de oito meses na barriga da mãe. Especial? Sim.
 
E guardo hoje as palavras da Celina quando, surpreendentemente, com dez anos, me disse numa conversa de adultos justificando o seu amor por mim: "Pai, não te esqueça, antes de sair de dentro da mãe, saí de dentro de ti".

segunda-feira, 16 de maio de 2016

SPORTING

O campeonato nacional de futebol, 1ª Liga, época 2015/2016 acabou e o Sporting não conseguiu ser CAMPEÃO; mas podia tê-lo sido. Fez tudo para o conseguir, mas faltou-lhe algo, talvez sorte, talvez mais justiça, talvez mais verdade desportiva, a verdade desportiva que não existe no nosso campeonato. Joga-se muito fora das quatro linhas. 
 
É apenas isto que quero destacar.
 
Parabéns Sporting Clube de Portugal.

CA

sábado, 9 de janeiro de 2016

MEMÓRIAS 2014 (2º Semestre)


Antes de mais quero fazer dois esclarecimentos. O primeiro é que estes resumos estão escritos em desacordo com o Acordo Ortográfico. Em segundo lugar dizer que fiz algumas acentuadas alterações aos textos originais. Os Diários são meus e, neste caso, decidi “embelezar” os textos originais. Como já referi várias vezes, estes resumos, no original, são manuscritos “sem rede” ou seja, quaisquer erros gramaticais ou de sintaxe podem ser encontrados lá, enquanto eu aqui posso fazer alguns ajustes e alterações. Foi o que fiz. Posto isto, aqui deixo os meus melhores resumos das PÁGINAS DO MEU DIÁRIO 
2º Semestre das Memórias de 2014

 
Sexta-feira, 8 de Agosto de 2014 (Torre da Marinha, 09-08  00:40h)
E na cama fizemos  

Para quem ergueu barreiras, atirou pedras e reagiu altiva às minhas desmesuradas provocações, foi longe, muito longe mesmo. Havia colocado toalhas frescas na casa de banho e pusera um cheiro de incenso sobre o turíbulo para dar vida alienígena ao ambiente. Encontrei-te, então, deitada na minha cama sobre lençóis lavados de fresco e disposta a tudo a que tinhas direito. E foste minha por fugazes instantes, embora o tempo, com todo o tempo, fosse o tempo suficiente. “Dá cá mais cinco”, disseste-me tu, vez após vez, e eu dei-te. Era de tarde e naquele quarto algures, obscurecido, entregaste-te rendida aos meus diálogos carregados de simbolismo e obscenas fantasias que te foram inebriando. Correu mal, é verdade, mas é normal comigo. A tensão sobe-me e há muita energia desperdiçada. Tento convencer-te e convencer-me de que as minhas disfunções são assim habituais, mas tu nem queres saber e já lá estás. Não há pau para toda a obra, mas a obra é feita a pulso e já está feita. Crescem murmúrios em esgares de prazer, ouvem-se gritos de bocas que se abafam, estremecem estruturas que se desfazem sem fronteiras. “Cinco a um” grita-se de cima do poleiro com o galo depenado. “Temos homem”, gemo, “mulher”, corrijo, confuso entre palavras. Como é brava esta guerreira que luta até à vitória final... Sorriso no olhar, gloriosa e poderosa, eis que me rendo à evidência absoluta. E mesmo na decadência, quando a tarde já abala, ainda há energia, quanto baste, para mais sete... quilómetros a pedalar, mas pé ante pé, com diálogos e justificações que não servem para nada. Ou se é homem ou não é. E, aqui chegado, sobra-me a sombra da minha vergonha agora deitada do meu lado. Sorri, mesmo assim, talvez para me dar alento, mas nada me livra do meu lamento. E de sofrimento em sofrimento aqui vou com o intento de chegar até à prova real. E será que vai haver nova luta? Com certeza absoluta. E a ti peço perdão, sabendo que não há nenhuma razão, para não ser melhor homem, então.
Carlos Alberto

 
Quarta-feira, 3 de Setembro de 2014 (Torre da Marinha, 23:10h)
Um passo atrás

Fui à procura desse fascínio que me roubou o sossego de ser uma óptima pessoa e escorreguei nuns degraus de pedra gelada que se interpuseram no meu plano caminho. Ergui-me e tropecei de novo, mas agora em alguém, esbarrando num sorriso sarcástico contra uma parede de vidro que se levantou à minha frente. Percebi, no entanto, que foi uma falsa muralha, criada apenas para afugentar cães raivosos, o que não era o meu caso. Fingi a indiferença de quem percebe exactamente o que está a acontecer e segui em frente alheio às advertências intimidatórias. Todavia, pelo canto do olho, fui espreitando o que o meu pequeno coração queria e ao mesmo tempo temia. E não vi nada. Permaneci então na quietude daquele momento, perscrutei o vazio do meu íntimo e acabei ouvindo, lá ao fundo, um abafado e intrigante choro silencioso. Meio perdido numa ilusão dividida não tive direito a resposta, mas tudo porque as energias não estavam equilibradas nem concertadas e assim se perdera um dia de paixões ficando apenas com as ilusões. Num dia em que de manhã, de guilhotina na mão me entreguei, de tarde, com a faca na algibeira me desiludi. Não houve poesias nem grandes emoções, aliás, perderam-se numa mensagem de recados e medos, de traições e razões inexplicáveis. Queremos tudo e acabamos por não ter nada. Sonhamos decerto com o impossível e deitamos fora aquilo que pode ser nosso, sem custos acrescidos. E acabamos sofrendo, ingloriamente, por vermos a nossa pequena paixão a diluir-se por entre os dedos das nossas mãos. E não há energias quanto bastem para que possamos voltar a sonhar e a sorrir, acabando na tristeza de uma ilusão que se nos apaga abruptamente. Sabemos que o mundo não acabou aqui e até acreditamos que há pessoas que gostam de nós, mas a verdade é que há passos que têm de valer a pena serem dados.
Carlos Alberto

 
Domingo, 7 de Setembro de 2014 (Torre da Marinha, 22:45h)

Uma vitória da Victória

Aí vamos nós em direcção às nuvens. Projectamo-nos no ar a uma velocidade supersónica e quando damos por isso já nos perdemos num imenso universo de galáxias onde não se conhecem os limites. É uma espécie de sonho, de busca de algo a que nos agarramos num vazio físico, mas que é tão real que nos sentimos, com gosto, embalados nele. Não há explicação para o sucedido e apenas vamos, nos deixamos ir como se fosse normal estar assim num vácuo de sensações que nos tocam. Apenas sabemos, saboreando em extase, que estamos no meio de uma confusão que nos agrada e nos entregamos a ela. E a sensação não é deste mundo. Fisicamente sentimos o quanta força podem ter as palavras que se projectam; com elas sentimo-nos compensados da impotência e, assim, somos defendidos das fraquezas que psicologicamente nos afectam. E voamos. Voamos bem alto ao sabor das vozes que nos soam ao ouvido e nos sopram fantasias de sonhos inimagináveis. Sentimo-nos como pássaros que esvoaçam livres que saltitando de ramo em ramo em ágeis acrobacias se encantam num harmonioso chilrear. Na felicidade sentida naquele instante já se perdeu a noção do tempo, do espaço, do momento. E não estamos deitados a receber um beijo, nem a sentir a carícia de uma mão que se esfrega deslizante por estranhas entranhas de prazer, não. Estamos projectados num voo rasante de um espaço sideral plantado sobre um jardim de flores e exalamos um perfume enleante que nos inebria.  E vamos nesse sonho de quimeras, por detrás, pela frente, de lado, não sabemos de que maneira é proibida, mas vamos e queremos. E insistimos em perguntar: “queres mesmo ir?” e ouvimos um som a dizer sofregamente que “sim e depressa. Leva-me daqui, quero ir nas tuas asas”. E voámos então juntos mesmo sem sabermos exactamente sequer onde estávamos e onde era o ponto de chegada. Mas é isto o amor a dois. É assim que se parte para uma aventura que tem tudo para correr bem e promete. 
Carlos Alberto

 
Domingo, 12 de Outubro de 2014 (Torre da Marinha, 21:29h)
Domingo fora de casa

Como é bom escrever histórias de sonhos, de sorrisos e de palavras cheias de amor. Histórias que pudéssemos repetir todos os dias. Histórias onde entram copos de vinho que se enchem e transbordam vazados em gargantas sequiosas, sedentas da gula guloseima vinícola e que nos encharcam por dentro. Como seriam boas essas histórias. Mas na realidade, olho em volta e só vejo rostos fingidos, fechados, abertos em sorrisos de circunstância fabricados em telas da vida. Não quero acreditar no que vejo, mas não posso renegar o que sinto. Não há nada para além de uma dor interior daqueles rostos que se querem abrir, sinceros, mas que brotam, por dentro, lágrimas de sangue. Dói-me, como um murro no estômago. E sinto-me num beco sem saída, de gritos que posso ouvir, mas que não sei de onde vêm. É um mundo de ecos que me rasgam por dentro. Sinto-me impotente. Elevam-me a um pedestal onde me colocam, mas sei que é de pés de barro apodrecido aquilo do que sou feito. E, descalço na erosão do tempo, vou é sentindo as pedras que me são lançadas pelo tortuoso caminho e sinto-me, nesse percurso, apenas usado, como um trapo velho que daí a pouco será lançado no lixo. Tento acordar, sair do pesadelo, mas afinal estou amarrado. Brincam comigo sorrindo, mas estão a matar-me aos poucos. Sinto-me então perdido, incapaz de reagir, subir à montanha, fugir. Colocam-me depois, diante de mim, espelhos para ver refectidas as minhas misérias e consomem-me assim toda a energia que me resta em sombras que me absorvem e me gastam tudo do que sou feito. Sou agora uma forma distorcida, uma imagem partida em cacos que não espelham nada. Reflito apenas um olhar frio, disperso, despiciente e perdido no meio de um universo onde há actores, sim, que esvoaçam como borboletas errantes em busca do seu néctar - que pode ser mel, mas onde eu me sinto vazio e desprezível, sem forças para voar com eles. E que estranha é esta, a sensação de misturar dois seres opostos...
Carlos Alberto

 
Quarta-Feira, 22 de Outubro de 2014 (Torre da Marinha, 23-10 10:35h)
Palavras ditas e sentidas

As palavras são lindas ou feias, boas ou más, verdadeiras ou falsas, pobres ou ricas. As palavras fazem-nos rir ou chorar, incomodam-nos ou aconchegam-nos, ajudam-nos ou prejudicam-nos. As palavras têm uma força brutal, no entanto também podem ser fúteis ou desprezíveis. Com as palavras conseguimos exprimir tudo o que queremos, do amor ao ódio. Elas alimentam-nos ou destroem-nos. Com as palavras somos até capazes de dançar, voar, correr, subir uma montanha. Ah! Como eu gosto das palavras, ditas, escritas, sentidas, amadas, sofridas; das palavras que nos aquecem, nos prendem, nos preenchem, nos enganam, das palavras que têm um sabor tão intenso que até desejamos absorve-las. Sim, as palavras também têm sabor, cheiro, calor. O sabor pode ser a mel, a fel. Podem ser azedas ou envinagradas. Mas as doces, as doces são mesmo das que eu gosto mais, as do meu género. É verdade, sim, que há palavras que magoam, que incomodam. Mas há também forma de contorná-las, se formos capazes, ignorando-as, passarmos ao lado delas, desviarmo-nos e não as valorizarmos. As palavras valem a importância que lhes dermos. Temos ainda outras palavras que mexem connosco, ofensivas e defensivas. Palavra que servem para criar barreiras ou limites. A cumplicidade com as palavras é boa, importante, no entanto, é bom que se criem esses obstáculos que, mesmo invisíveis, se podem transformar em boas defesas que devemos respeitar. E assim vou eu caminhando pela vida, com as palavras no bolso, na alma, usando e abusando delas e do seu tom, da sua cor, da sua brisa, da sua generosidade. E é por isso que gosto muito de falar contigo, estar contigo, amar-te com todas as minhas forças. Quero, na brisa destas fracas palavras, que elas cheguem ao teu coração e percorram o teu corpo com as mesmas sensações de leveza como eu as sinto. Mas também quero na minha humilde condição de prosador que as refutes ou as absorvas conforme a tua condição humana. Amamos as palavras, sim, o que elas traduzem e são capazes, mas o que queremos mesmo é que elas nunca se esgotem ou atropelem e reproduzam apenas o bem. Quero, no fundo, que as palavras que espelho aqui sejam, sobretudo, aquilo que sou, penso e quero para a vida comum: amor.
Carlos Alberto

 
Quinta-Feira, 23 de Outubro de 2014 (Torre da Marinha, 22:50h)
Um homem feliz, pois claro

Gostava muito de poder escrever sobre sentimentos escondidos, revelar desejos e vontades, mas não posso. Não posso porque estes livros não são meus, (nem este blogue). Falam de mim, dizem o que sou, mas não vão morrer comigo. Eles falarão sempre por mim e ao falarem por mim estarão a dizer coisas que posso não querer dizer. Por isso haverá sempre algo omisso, escondido que aqui não posso revelar. São, sim, os meus inconfessáveis segredos, E como é possível que tenha segredos guardados que não possa aqui expressá-los? Pois tenho. Segredos que acabam por pertencer a uma banda encriptada inscritos também nestas páginas, mas que só bem interpretados se revelam. Outros segredos estarão na escolha das palavras para dizer que te amo sem o dizer, que não sou apenas um homem. E é verdade que há nestes livros algumas histórias que poderiam ferir a susceptibilidades de muitas pessoas, mas eu não quero que isso aconteça. Quero morrer em paz e quero apenas deixar a imagem de um homem irreverente, sim, mas íntegro, com ideias muito avançadas, misterioso, talvez, mas que quer acabar sendo um homem feliz e de bem com todos. Importante realçar que de tudo o que fiz até hoje não me arrependo de nada e faria tudo de novo. Reconheço, no entanto, que a decisão que tomei de deixar os Açores para salvar meu casamento não terá sido a melhor opção. Todavia, só essa decisão me possibilitou também tudo o que vivi depois de diferente até hoje, nomeadamente, o ter conhecido novas pessoas e ter vivido as novas experiências que vivi. É este o meu percurso, um caminho cheio e variado de subidas e descidas, que me trouxe não apenas tristeza e momentos difíceis de superar, mas deu-me muita alegria e que faz de mim hoje, de novo, um homem feliz e (quase) realizado. (Um homem nunca se realiza totalmente).
Carlos Alberto

 

Segunda-Feira, 3 de Novembro de 2014 (Torre da Marinha, 23:23h)
Cozido à Portuguesa

Quando saí da escola, à uma da tarde, da minha aula de poesia, tinha à minha espera uma outra nota não menos poética. Com o título sugestivo de quem não come há semanas “cozido com todos”, eis como uma mera necessidade se transformou num momento de puro prazer gastronómico. De facto, pude apreciar em versos de rima desorganizada mergulhados em calda de água temperada com aspecto suculento, couves que se misturavam com o chouriço numa harmoniosa conjunção de apelativos verbos e gostos de encher a alma. Às carnes, à batata e ao nabo a espreitar por baixo da farinheira, também se juntou o aroma delicioso de quem anseia o infinito que se chegava ali tão perto. E as palavras ali confeccionadas perderam-se assim em adjectivos com sabores de outros saudosos tempos. Aquecido em lume brando, misturado em género de cores deliciosas, fumegando em cheiros de tempos de outrora, começámos então no prazer da inalação pelo deleite de quem deseja comer também com o gosto das palavras. E construi-se assim naquele gesto de solidariedade uma sublime e saborosa história, olhos fechados, sentindo apenas as palavras a desfazerem-se na boca, sugadas com o desejo de quem absorve o melhor cozido do mundo. E todas e quaisquer palavras que podem ser ditas se perderam no paladar que nos eleva e inebria, em condimentos que se engolem e nos fazem esquecer a fome ou outros desejos. Consumimos, deleitamo-nos, empanturramo-nos em gostos de quem gosta de nós e, em bandejas de prata, nos serve ainda poemas de outro tipo de amor. Sim, foi um épico poema traduzido não em palavras, mas em gestos que nos prendem, cativam e encantam pelo prazer que proporcionam. Obrigado, Victoria pelo delicioso cozido à portuguesa.
Carlos Alberto

 

Quinta-Feira, 20 de Novembro de 2014 (Torre da Marinha, 21-11 00:19h)
Rumo ao futuro

Vou escrever sobre nada. Nada para dizer, nada para falar, nada para inventar. E porque não? Porque sim. Fotos e mais fotos, palavras ditas e reditas, imensas vezes já escritas e reescritas vezes sem conta. Falar sobre o que já foi feito, dito e repetido, mesmo sem jeito. Palavras vãs, sem motivo, sem ordem, sem mensagens dentro, mas sãs. Estou aqui apenas para dizer que estou vivo e activo. Sim, não sei exactamente por quantos mais anos, mas espero que sejam pelo menos vinte. Está comprado. Também porque tenho a casa com duas piscinas, ainda em construção, e as obras, parece-me, estão atrasadas. Há um ano que ando nisto e não há meio de se resolver a conclusão. Mas há tempo quanto baste, então. Não vale a pena apressarmos as coisas. Tudo tem o seu tempo e os projectos são para ficar sólidos e bem-feitos. E feitas as contas, as palavras são de borla, gratuitas, e falam de tudo e de nada. Do nada, do vazio, do verbo-de-encher, de comer, de saborear e sentir mesmo que de barriga vazia. E como é estranho como simples palavras são capazes de transmitir tantas sensações e mesmo sobre nada. Choramos e rimos, sofremos e divertimo-nos, pensamos e tudo é possível e nada. É claro que há fotos no computador (e no Google se se procurar por cpontoal tem gente dentro). As fotos são horas a ajeitá-las (editá-las) para ficarem mais bonitas a que se juntam uns versos de poetas que se escrevem à luz da vela. Falam também em jornais, de poetisas, de prémios e méritos e eu, nem mais. Será que um dia hei-de chegar lá? Eu sei que sim. Qualquer dia, um dia destes. Tão fácil como escrever esta página que, sem nada para escrever, do nada, sai uma criança. Pois claro. Cada página é como um filho que nasce todos os dias renovado, todos os dias parido. É esta a minha vida de velho, sessenta e um anos, sem esperar muito e esperar tudo, do nada. E assim aqui vou eu rumo ao futuro.
Carlos Alberto

 

Quarta-Feira, 24 de Dezembro de 2014 (Torre da Marinha, 25-12 02:00h)
Poesia em prosa

Cá estamos nós na noite de todas as magias em que tudo acontece, o Pai Natal aparece e ninguém adormece. Nascem e crescem as fantasias, florescem energias, as crianças entram em euforias. Presentes e mais presentes, vindos até de pessoas ausentes e instala-se a alegria, se fosse possível, até ser dia. É a festa verdadeira de um Natal anunciado. À mesa bebe-se o vinho, entra o bacalhau, rimos e brincamos até vir a sobremesa. E no meio de tanta euforia sempre chega a meia-noite. A festa recrudesce, tantas cores, tantos embrulhos, carregados de presentes onde sobram os papéis para os entulhos. Sobem de tom as vozes agitadas, as crianças espantadas e arregaladas, os adultos riem encantados com o sorriso das crianças inebriadas. Tantos sonhos encontrados, desfeitos ou concretizados. Tantas ilusões ou desilusões, brilhos e estrelas em infusões; deslumbrados, perdidos ou encontrados. É a noite de Natal e ninguém se lembra que Jesus nasceu em palhinhas deitado. Tanta fartura, tanto tempo desperdiçado e só resta o amor guardado. É o encontro com a família, a paz que se procura, as desavenças que renegamos. É o conforto, do abraço que queremos, a alegria por que lutamos, desejamos e teremos. É a noite do Nascimento, não há lugar a lamento, mas ao cântico épico de um sentimento que temos de espalhar a todo o momento pelo tempo. E que estas palavras não as levem o vento. Quero que a satisfação que sinto, a tranquilidade que tenho e o amor que transporto possam contagiar os outros. E dizer que não minto, ao sabor do que venho e por tudo aquilo que comporto. Podem até ser só palavras, é verdade, mas elas significam a razão da minha paz e amor interior que neste momento sinto.
Carlos Alberto