quarta-feira, 14 de setembro de 2016

QUEM SOMOS

Na verdade somos tudo e nada. Nascemos e morremos. Passamos por aqui, vivenciamos e deixamos uma marca, ou não. Mas regra geral, deixamos, que pode ser boa ou má.
 
Acredito no destino, não em acasos. Temos um papel a desempenhar. Procuro fazê-lo bem, mas falho muitas vezes e muitas vezes recorro ao "ponto" para continuar. Mas prossigo.
 
Muitos me conhecem e sabem quem sou. Mas saberão, mesmo? Eu acho que não. Sou como um icebergue e esses que acham que me conhecem só conseguem ver a parte flutuante e visível; a outra parte é privilégio de uns poucos.
 
Lidar comigo não é fácil, mas cá bem no fundo até nem a uma formiga faço mal (como o meu pai que nos piqueniques as alimentava). 
 
Cuidem-se amigos e sejam felizes. Se precisarem de mim, digam, mas não abusem que já atingi o limite de tolerância para alguns. E aqui fica a minha máxima: "eternamente grato, não é ser eternamente parvo".
 

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

MÃE

Farias hoje 100 anos. Partiste há quase dezoito, mas continuas viva na nossa memória, sempre dentro do nosso coração, sendo o meu amor por ti, como esta escrita, eterno.
 
Recordamos-te com saudade, mas em alegria e com o vislumbre do teu sorriso que temos sempre presente. 
 
Ainda hoje os teus exemplos são sempre aflorados nas minhas convicções e tenho-te não apenas como uma mulher, mãe, esposa e amiga, mas como alguém cujo comportamento, acima de qualquer interesse pessoal se pautava pelo AMOR aos outros e que tantas vezes o demonstraste nas tuas atitudes.  
 
Foste mãe de três filhos e qualquer um de nós, tenho a certeza, se orgulha da mulher e da mãe que foste, apesar da vida difícil por que passámos, das adversidades da vida, da pobreza, mas sobretudo da alegria, da paz e da harmonia que permanentemente irradiavas. 
 
Finalmente dizer-te OBRIGADO minha mãe por tudo e pela inspiração e protecção que continuas a dar-me hoje - onde quer que estejas no Universo - e que me motiva para este testemunho que aqui deixo, com a mesma alegria, amor e felicidade que tu sempre me transmitiste.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

IRMÃ

Passei dia e meio com a minha irmã. Percebo agora como é delicioso termos irmãos, sobretudo como aqueles que eu tenho.
 
Jantámos, dormimos uma noite, fomos para a praia no dia seguinte e, principalmente, conversámos.
 
Foram desabafos atrás de desabafos, coisas da sua vida. Gosto de a ouvir. Ela precisa, compreendo as suas mágoas e tento ajudá-la. É o meu papel.
 
Estou disponível, por alguma razão e, já me basta saber (e fico feliz), que eu existo, nem que seja para ajudar aqueles que precisam de uma palavra de conforto ou de uma mão que os segure e puxe para cima Assim percebo como faz tanto sentido a minha actual vida.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

SEGUNDA

Não, não é segunda, mas terça-feira. Queria escrever diariamente, mas logo à segunda, caiu por terra a ideia. O cansaço no final do dia é muito e, deitado no maple, o sono sobrepõe-se e é mais forte que eu. Por outro lado, não me vai ser fácil escrever diariamente aqui face à minha agenda sempre muito preenchida....
 
Sim, fui para a praia, como planeara e, os banhos, a longa caminhada que prefiro fazer para ir para aquela praia naturista, tudo isso, para um "cota" como eu, já não é fácil ou pera doce.
 
Só então para dizer que estou vivo, que passei por uma "segunda" e estranha indigestão, mas foi uma forma de eu analisar porque é que isto me acontece e em que circunstâncias.
 
Como se sabe, não se deve ir a banhos com o estômago cheio. Não foi o meu caso, mas almocei bem demais, e bebi um "lambrusco" tinto que me soube muito bem. O "tinto" não me faz bem... não é o vinho... mas a verdade é que depois de "molhar os pés" foi o suficiente para ter que "falar com o gregório" para me recuperar.
 
Está tudo bem, até à próxima.

domingo, 4 de setembro de 2016

FIM-DE-SEMANA

Vou iniciar hoje uma nova etapa deste meu blogue. Sei que são poucos os que o procuram, mas o que me interessa é a qualidade em detrimento da quantidade de pessoas que o visitam.
 
O objectivo é criar uma rotina para mim, a rotina da escrita aqui. Por outro lado darei um pouco de vida, quer a mim quer a esta página.
 
Aquilo que vou escrever poderá ser apenas uma frase, uma ideia, um pensamento, ou uma foto. Será uma palavra, um grito, uma mensagem; será o que for.
 
Hoje refiro-me ao fim-de-semana e, quanto a isso, é só para dizer que os meus dias da semana são todos iguais hoje. A minha vida é maravilhosa por não ter que ir para o trabalho amanhã aturar patrões, chefes ou quem quer que seja e isto é óptimo.
 
Fiquem bem e... bom trabalho que amanhã eu tenho uma praia à minha espera.  

terça-feira, 16 de agosto de 2016

HÁ 16 ANOS

Vou escrever de improviso, sem rede, completamente despreocupado com as palavras e interessado apenas em expressar sentimentos.
 
Fui pai há dezasseis anos atrás e pela terceira vez. E foi especial e diferente. E porquê?
 
A experiência  de ser pai é sempre gratificante. Foram três momentos especiais e diferentes sendo que se na primeira vez é a novidade, são os receios, a ansiedade. Na segunda, por outro lado, é o reviver do que se viveu da primeira vez e sentimo-nos mais tranquilos, uns experts na matéria, tendo a sensação de que temos tudo controlado. Já o terceiro filho (vá-se lá saber porquê) teve esse condão especial, esse momento mágico que ultrapassa tudo. É a possibilidade de estarmos ali, naquele instante e assistirmos in loco a tudo. É fantástico. 
 
E, de facto, no hospital Espírito Santo, em Ponta Delgada nasceu essa criança adorável que é já uma mulher. São onze e trinta e cinco da noite e vejo-a pela primeira vez a estrebuchar para a nova vida. Tem apenas 1840 gramas e é uma milagre ter resistido a tudo, depois de oito meses na barriga da mãe. Especial? Sim.
 
E guardo hoje as palavras da Celina quando, surpreendentemente, com dez anos, me disse numa conversa de adultos justificando o seu amor por mim: "Pai, não te esqueça, antes de sair de dentro da mãe, saí de dentro de ti".

segunda-feira, 16 de maio de 2016

SPORTING

O campeonato nacional de futebol, 1ª Liga, época 2015/2016 acabou e o Sporting não conseguiu ser CAMPEÃO; mas podia tê-lo sido. Fez tudo para o conseguir, mas faltou-lhe algo, talvez sorte, talvez mais justiça, talvez mais verdade desportiva, a verdade desportiva que não existe no nosso campeonato. Joga-se muito fora das quatro linhas. 
 
É apenas isto que quero destacar.
 
Parabéns Sporting Clube de Portugal.

CA

sábado, 9 de janeiro de 2016

MEMÓRIAS 2014 (2º Semestre)


Antes de mais quero fazer dois esclarecimentos. O primeiro é que estes resumos estão escritos em desacordo com o Acordo Ortográfico. Em segundo lugar dizer que fiz algumas acentuadas alterações aos textos originais. Os Diários são meus e, neste caso, decidi “embelezar” os textos originais. Como já referi várias vezes, estes resumos, no original, são manuscritos “sem rede” ou seja, quaisquer erros gramaticais ou de sintaxe podem ser encontrados lá, enquanto eu aqui posso fazer alguns ajustes e alterações. Foi o que fiz. Posto isto, aqui deixo os meus melhores resumos das PÁGINAS DO MEU DIÁRIO 
2º Semestre das Memórias de 2014

 
Sexta-feira, 8 de Agosto de 2014 (Torre da Marinha, 09-08  00:40h)
E na cama fizemos  

Para quem ergueu barreiras, atirou pedras e reagiu altiva às minhas desmesuradas provocações, foi longe, muito longe mesmo. Havia colocado toalhas frescas na casa de banho e pusera um cheiro de incenso sobre o turíbulo para dar vida alienígena ao ambiente. Encontrei-te, então, deitada na minha cama sobre lençóis lavados de fresco e disposta a tudo a que tinhas direito. E foste minha por fugazes instantes, embora o tempo, com todo o tempo, fosse o tempo suficiente. “Dá cá mais cinco”, disseste-me tu, vez após vez, e eu dei-te. Era de tarde e naquele quarto algures, obscurecido, entregaste-te rendida aos meus diálogos carregados de simbolismo e obscenas fantasias que te foram inebriando. Correu mal, é verdade, mas é normal comigo. A tensão sobe-me e há muita energia desperdiçada. Tento convencer-te e convencer-me de que as minhas disfunções são assim habituais, mas tu nem queres saber e já lá estás. Não há pau para toda a obra, mas a obra é feita a pulso e já está feita. Crescem murmúrios em esgares de prazer, ouvem-se gritos de bocas que se abafam, estremecem estruturas que se desfazem sem fronteiras. “Cinco a um” grita-se de cima do poleiro com o galo depenado. “Temos homem”, gemo, “mulher”, corrijo, confuso entre palavras. Como é brava esta guerreira que luta até à vitória final... Sorriso no olhar, gloriosa e poderosa, eis que me rendo à evidência absoluta. E mesmo na decadência, quando a tarde já abala, ainda há energia, quanto baste, para mais sete... quilómetros a pedalar, mas pé ante pé, com diálogos e justificações que não servem para nada. Ou se é homem ou não é. E, aqui chegado, sobra-me a sombra da minha vergonha agora deitada do meu lado. Sorri, mesmo assim, talvez para me dar alento, mas nada me livra do meu lamento. E de sofrimento em sofrimento aqui vou com o intento de chegar até à prova real. E será que vai haver nova luta? Com certeza absoluta. E a ti peço perdão, sabendo que não há nenhuma razão, para não ser melhor homem, então.
Carlos Alberto

 
Quarta-feira, 3 de Setembro de 2014 (Torre da Marinha, 23:10h)
Um passo atrás

Fui à procura desse fascínio que me roubou o sossego de ser uma óptima pessoa e escorreguei nuns degraus de pedra gelada que se interpuseram no meu plano caminho. Ergui-me e tropecei de novo, mas agora em alguém, esbarrando num sorriso sarcástico contra uma parede de vidro que se levantou à minha frente. Percebi, no entanto, que foi uma falsa muralha, criada apenas para afugentar cães raivosos, o que não era o meu caso. Fingi a indiferença de quem percebe exactamente o que está a acontecer e segui em frente alheio às advertências intimidatórias. Todavia, pelo canto do olho, fui espreitando o que o meu pequeno coração queria e ao mesmo tempo temia. E não vi nada. Permaneci então na quietude daquele momento, perscrutei o vazio do meu íntimo e acabei ouvindo, lá ao fundo, um abafado e intrigante choro silencioso. Meio perdido numa ilusão dividida não tive direito a resposta, mas tudo porque as energias não estavam equilibradas nem concertadas e assim se perdera um dia de paixões ficando apenas com as ilusões. Num dia em que de manhã, de guilhotina na mão me entreguei, de tarde, com a faca na algibeira me desiludi. Não houve poesias nem grandes emoções, aliás, perderam-se numa mensagem de recados e medos, de traições e razões inexplicáveis. Queremos tudo e acabamos por não ter nada. Sonhamos decerto com o impossível e deitamos fora aquilo que pode ser nosso, sem custos acrescidos. E acabamos sofrendo, ingloriamente, por vermos a nossa pequena paixão a diluir-se por entre os dedos das nossas mãos. E não há energias quanto bastem para que possamos voltar a sonhar e a sorrir, acabando na tristeza de uma ilusão que se nos apaga abruptamente. Sabemos que o mundo não acabou aqui e até acreditamos que há pessoas que gostam de nós, mas a verdade é que há passos que têm de valer a pena serem dados.
Carlos Alberto

 
Domingo, 7 de Setembro de 2014 (Torre da Marinha, 22:45h)

Uma vitória da Victória

Aí vamos nós em direcção às nuvens. Projectamo-nos no ar a uma velocidade supersónica e quando damos por isso já nos perdemos num imenso universo de galáxias onde não se conhecem os limites. É uma espécie de sonho, de busca de algo a que nos agarramos num vazio físico, mas que é tão real que nos sentimos, com gosto, embalados nele. Não há explicação para o sucedido e apenas vamos, nos deixamos ir como se fosse normal estar assim num vácuo de sensações que nos tocam. Apenas sabemos, saboreando em extase, que estamos no meio de uma confusão que nos agrada e nos entregamos a ela. E a sensação não é deste mundo. Fisicamente sentimos o quanta força podem ter as palavras que se projectam; com elas sentimo-nos compensados da impotência e, assim, somos defendidos das fraquezas que psicologicamente nos afectam. E voamos. Voamos bem alto ao sabor das vozes que nos soam ao ouvido e nos sopram fantasias de sonhos inimagináveis. Sentimo-nos como pássaros que esvoaçam livres que saltitando de ramo em ramo em ágeis acrobacias se encantam num harmonioso chilrear. Na felicidade sentida naquele instante já se perdeu a noção do tempo, do espaço, do momento. E não estamos deitados a receber um beijo, nem a sentir a carícia de uma mão que se esfrega deslizante por estranhas entranhas de prazer, não. Estamos projectados num voo rasante de um espaço sideral plantado sobre um jardim de flores e exalamos um perfume enleante que nos inebria.  E vamos nesse sonho de quimeras, por detrás, pela frente, de lado, não sabemos de que maneira é proibida, mas vamos e queremos. E insistimos em perguntar: “queres mesmo ir?” e ouvimos um som a dizer sofregamente que “sim e depressa. Leva-me daqui, quero ir nas tuas asas”. E voámos então juntos mesmo sem sabermos exactamente sequer onde estávamos e onde era o ponto de chegada. Mas é isto o amor a dois. É assim que se parte para uma aventura que tem tudo para correr bem e promete. 
Carlos Alberto

 
Domingo, 12 de Outubro de 2014 (Torre da Marinha, 21:29h)
Domingo fora de casa

Como é bom escrever histórias de sonhos, de sorrisos e de palavras cheias de amor. Histórias que pudéssemos repetir todos os dias. Histórias onde entram copos de vinho que se enchem e transbordam vazados em gargantas sequiosas, sedentas da gula guloseima vinícola e que nos encharcam por dentro. Como seriam boas essas histórias. Mas na realidade, olho em volta e só vejo rostos fingidos, fechados, abertos em sorrisos de circunstância fabricados em telas da vida. Não quero acreditar no que vejo, mas não posso renegar o que sinto. Não há nada para além de uma dor interior daqueles rostos que se querem abrir, sinceros, mas que brotam, por dentro, lágrimas de sangue. Dói-me, como um murro no estômago. E sinto-me num beco sem saída, de gritos que posso ouvir, mas que não sei de onde vêm. É um mundo de ecos que me rasgam por dentro. Sinto-me impotente. Elevam-me a um pedestal onde me colocam, mas sei que é de pés de barro apodrecido aquilo do que sou feito. E, descalço na erosão do tempo, vou é sentindo as pedras que me são lançadas pelo tortuoso caminho e sinto-me, nesse percurso, apenas usado, como um trapo velho que daí a pouco será lançado no lixo. Tento acordar, sair do pesadelo, mas afinal estou amarrado. Brincam comigo sorrindo, mas estão a matar-me aos poucos. Sinto-me então perdido, incapaz de reagir, subir à montanha, fugir. Colocam-me depois, diante de mim, espelhos para ver refectidas as minhas misérias e consomem-me assim toda a energia que me resta em sombras que me absorvem e me gastam tudo do que sou feito. Sou agora uma forma distorcida, uma imagem partida em cacos que não espelham nada. Reflito apenas um olhar frio, disperso, despiciente e perdido no meio de um universo onde há actores, sim, que esvoaçam como borboletas errantes em busca do seu néctar - que pode ser mel, mas onde eu me sinto vazio e desprezível, sem forças para voar com eles. E que estranha é esta, a sensação de misturar dois seres opostos...
Carlos Alberto

 
Quarta-Feira, 22 de Outubro de 2014 (Torre da Marinha, 23-10 10:35h)
Palavras ditas e sentidas

As palavras são lindas ou feias, boas ou más, verdadeiras ou falsas, pobres ou ricas. As palavras fazem-nos rir ou chorar, incomodam-nos ou aconchegam-nos, ajudam-nos ou prejudicam-nos. As palavras têm uma força brutal, no entanto também podem ser fúteis ou desprezíveis. Com as palavras conseguimos exprimir tudo o que queremos, do amor ao ódio. Elas alimentam-nos ou destroem-nos. Com as palavras somos até capazes de dançar, voar, correr, subir uma montanha. Ah! Como eu gosto das palavras, ditas, escritas, sentidas, amadas, sofridas; das palavras que nos aquecem, nos prendem, nos preenchem, nos enganam, das palavras que têm um sabor tão intenso que até desejamos absorve-las. Sim, as palavras também têm sabor, cheiro, calor. O sabor pode ser a mel, a fel. Podem ser azedas ou envinagradas. Mas as doces, as doces são mesmo das que eu gosto mais, as do meu género. É verdade, sim, que há palavras que magoam, que incomodam. Mas há também forma de contorná-las, se formos capazes, ignorando-as, passarmos ao lado delas, desviarmo-nos e não as valorizarmos. As palavras valem a importância que lhes dermos. Temos ainda outras palavras que mexem connosco, ofensivas e defensivas. Palavra que servem para criar barreiras ou limites. A cumplicidade com as palavras é boa, importante, no entanto, é bom que se criem esses obstáculos que, mesmo invisíveis, se podem transformar em boas defesas que devemos respeitar. E assim vou eu caminhando pela vida, com as palavras no bolso, na alma, usando e abusando delas e do seu tom, da sua cor, da sua brisa, da sua generosidade. E é por isso que gosto muito de falar contigo, estar contigo, amar-te com todas as minhas forças. Quero, na brisa destas fracas palavras, que elas cheguem ao teu coração e percorram o teu corpo com as mesmas sensações de leveza como eu as sinto. Mas também quero na minha humilde condição de prosador que as refutes ou as absorvas conforme a tua condição humana. Amamos as palavras, sim, o que elas traduzem e são capazes, mas o que queremos mesmo é que elas nunca se esgotem ou atropelem e reproduzam apenas o bem. Quero, no fundo, que as palavras que espelho aqui sejam, sobretudo, aquilo que sou, penso e quero para a vida comum: amor.
Carlos Alberto

 
Quinta-Feira, 23 de Outubro de 2014 (Torre da Marinha, 22:50h)
Um homem feliz, pois claro

Gostava muito de poder escrever sobre sentimentos escondidos, revelar desejos e vontades, mas não posso. Não posso porque estes livros não são meus, (nem este blogue). Falam de mim, dizem o que sou, mas não vão morrer comigo. Eles falarão sempre por mim e ao falarem por mim estarão a dizer coisas que posso não querer dizer. Por isso haverá sempre algo omisso, escondido que aqui não posso revelar. São, sim, os meus inconfessáveis segredos, E como é possível que tenha segredos guardados que não possa aqui expressá-los? Pois tenho. Segredos que acabam por pertencer a uma banda encriptada inscritos também nestas páginas, mas que só bem interpretados se revelam. Outros segredos estarão na escolha das palavras para dizer que te amo sem o dizer, que não sou apenas um homem. E é verdade que há nestes livros algumas histórias que poderiam ferir a susceptibilidades de muitas pessoas, mas eu não quero que isso aconteça. Quero morrer em paz e quero apenas deixar a imagem de um homem irreverente, sim, mas íntegro, com ideias muito avançadas, misterioso, talvez, mas que quer acabar sendo um homem feliz e de bem com todos. Importante realçar que de tudo o que fiz até hoje não me arrependo de nada e faria tudo de novo. Reconheço, no entanto, que a decisão que tomei de deixar os Açores para salvar meu casamento não terá sido a melhor opção. Todavia, só essa decisão me possibilitou também tudo o que vivi depois de diferente até hoje, nomeadamente, o ter conhecido novas pessoas e ter vivido as novas experiências que vivi. É este o meu percurso, um caminho cheio e variado de subidas e descidas, que me trouxe não apenas tristeza e momentos difíceis de superar, mas deu-me muita alegria e que faz de mim hoje, de novo, um homem feliz e (quase) realizado. (Um homem nunca se realiza totalmente).
Carlos Alberto

 

Segunda-Feira, 3 de Novembro de 2014 (Torre da Marinha, 23:23h)
Cozido à Portuguesa

Quando saí da escola, à uma da tarde, da minha aula de poesia, tinha à minha espera uma outra nota não menos poética. Com o título sugestivo de quem não come há semanas “cozido com todos”, eis como uma mera necessidade se transformou num momento de puro prazer gastronómico. De facto, pude apreciar em versos de rima desorganizada mergulhados em calda de água temperada com aspecto suculento, couves que se misturavam com o chouriço numa harmoniosa conjunção de apelativos verbos e gostos de encher a alma. Às carnes, à batata e ao nabo a espreitar por baixo da farinheira, também se juntou o aroma delicioso de quem anseia o infinito que se chegava ali tão perto. E as palavras ali confeccionadas perderam-se assim em adjectivos com sabores de outros saudosos tempos. Aquecido em lume brando, misturado em género de cores deliciosas, fumegando em cheiros de tempos de outrora, começámos então no prazer da inalação pelo deleite de quem deseja comer também com o gosto das palavras. E construi-se assim naquele gesto de solidariedade uma sublime e saborosa história, olhos fechados, sentindo apenas as palavras a desfazerem-se na boca, sugadas com o desejo de quem absorve o melhor cozido do mundo. E todas e quaisquer palavras que podem ser ditas se perderam no paladar que nos eleva e inebria, em condimentos que se engolem e nos fazem esquecer a fome ou outros desejos. Consumimos, deleitamo-nos, empanturramo-nos em gostos de quem gosta de nós e, em bandejas de prata, nos serve ainda poemas de outro tipo de amor. Sim, foi um épico poema traduzido não em palavras, mas em gestos que nos prendem, cativam e encantam pelo prazer que proporcionam. Obrigado, Victoria pelo delicioso cozido à portuguesa.
Carlos Alberto

 

Quinta-Feira, 20 de Novembro de 2014 (Torre da Marinha, 21-11 00:19h)
Rumo ao futuro

Vou escrever sobre nada. Nada para dizer, nada para falar, nada para inventar. E porque não? Porque sim. Fotos e mais fotos, palavras ditas e reditas, imensas vezes já escritas e reescritas vezes sem conta. Falar sobre o que já foi feito, dito e repetido, mesmo sem jeito. Palavras vãs, sem motivo, sem ordem, sem mensagens dentro, mas sãs. Estou aqui apenas para dizer que estou vivo e activo. Sim, não sei exactamente por quantos mais anos, mas espero que sejam pelo menos vinte. Está comprado. Também porque tenho a casa com duas piscinas, ainda em construção, e as obras, parece-me, estão atrasadas. Há um ano que ando nisto e não há meio de se resolver a conclusão. Mas há tempo quanto baste, então. Não vale a pena apressarmos as coisas. Tudo tem o seu tempo e os projectos são para ficar sólidos e bem-feitos. E feitas as contas, as palavras são de borla, gratuitas, e falam de tudo e de nada. Do nada, do vazio, do verbo-de-encher, de comer, de saborear e sentir mesmo que de barriga vazia. E como é estranho como simples palavras são capazes de transmitir tantas sensações e mesmo sobre nada. Choramos e rimos, sofremos e divertimo-nos, pensamos e tudo é possível e nada. É claro que há fotos no computador (e no Google se se procurar por cpontoal tem gente dentro). As fotos são horas a ajeitá-las (editá-las) para ficarem mais bonitas a que se juntam uns versos de poetas que se escrevem à luz da vela. Falam também em jornais, de poetisas, de prémios e méritos e eu, nem mais. Será que um dia hei-de chegar lá? Eu sei que sim. Qualquer dia, um dia destes. Tão fácil como escrever esta página que, sem nada para escrever, do nada, sai uma criança. Pois claro. Cada página é como um filho que nasce todos os dias renovado, todos os dias parido. É esta a minha vida de velho, sessenta e um anos, sem esperar muito e esperar tudo, do nada. E assim aqui vou eu rumo ao futuro.
Carlos Alberto

 

Quarta-Feira, 24 de Dezembro de 2014 (Torre da Marinha, 25-12 02:00h)
Poesia em prosa

Cá estamos nós na noite de todas as magias em que tudo acontece, o Pai Natal aparece e ninguém adormece. Nascem e crescem as fantasias, florescem energias, as crianças entram em euforias. Presentes e mais presentes, vindos até de pessoas ausentes e instala-se a alegria, se fosse possível, até ser dia. É a festa verdadeira de um Natal anunciado. À mesa bebe-se o vinho, entra o bacalhau, rimos e brincamos até vir a sobremesa. E no meio de tanta euforia sempre chega a meia-noite. A festa recrudesce, tantas cores, tantos embrulhos, carregados de presentes onde sobram os papéis para os entulhos. Sobem de tom as vozes agitadas, as crianças espantadas e arregaladas, os adultos riem encantados com o sorriso das crianças inebriadas. Tantos sonhos encontrados, desfeitos ou concretizados. Tantas ilusões ou desilusões, brilhos e estrelas em infusões; deslumbrados, perdidos ou encontrados. É a noite de Natal e ninguém se lembra que Jesus nasceu em palhinhas deitado. Tanta fartura, tanto tempo desperdiçado e só resta o amor guardado. É o encontro com a família, a paz que se procura, as desavenças que renegamos. É o conforto, do abraço que queremos, a alegria por que lutamos, desejamos e teremos. É a noite do Nascimento, não há lugar a lamento, mas ao cântico épico de um sentimento que temos de espalhar a todo o momento pelo tempo. E que estas palavras não as levem o vento. Quero que a satisfação que sinto, a tranquilidade que tenho e o amor que transporto possam contagiar os outros. E dizer que não minto, ao sabor do que venho e por tudo aquilo que comporto. Podem até ser só palavras, é verdade, mas elas significam a razão da minha paz e amor interior que neste momento sinto.
Carlos Alberto    





  

 

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

MEMÓRIAS DE 2014

PÁGINAS DO MEU DIÁRIO (1º Semestre)




Quinta-feira, 9 de Janeiro de 2014 (Torre da Marinha, 10/01 00:55h)

“Previsões para o futuro”
As minhas previsões para este ano algures na minha vida é que, de certo, morrerei, sem apelo nem agravo. E será num dia de chuva ou de sol, poderá até estar cinzento, ou não. Se não for de manhã será com certeza à tarde, ou mesmo à noite se os dias forem mais curtos. Nesse dia todas as rádios estarão no ar com a música que sempre tocaram e as televisões transmitirão a sua programação habitual: uma delas até pode estar a transmitir um jogo de futebol, um debate, ou até um talk-show muito divertido. Será um dia muito importante na vida de cada um e ocorrerá entre os dias um e vinte e oito de um mês entre Janeiro e Dezembro. Se o ano for bissexto poderá calhar no dia vinte e nove, além que nos meses de trinta dias poderá também acontecer o epílogo. Os dias trinta e um não foram excluídos, não, mas isso só acontecerá nos meses em que este dia estiver presente. No céu a lua poderá estar escondida, invisível, porque a fase estará em lua nova, mas a hipótese de lua cheia também não está fora de questão, mesmo que o céu possa estar muito nublado. As fases intermédias de quarto crescente e minguante também são hipóteses não descartáveis. Portugal viverá numa República e o vinte e cinco de Abril pertencerá ao século anterior. Nesse dia nascerão alguns bebés, outras farão anos de idade, ou seja, será o dia do seu aniversário e faltarão ou terão passado mais dias para o final do ano, nomeadamente se for no primeiro ou no segundo semestre desse fatídico ano. Em suma, as minhas previsões nunca falham nem falharão e ainda posso acrescentar que depois desse dia ninguém vai dar pela minha falta na Assembleia da República ou mesmo na Patagónia, por exemplo.

Carlos Alberto                             

 

Terça-feira, 21 de Janeiro de 2014 (Torre da Marinha, 22:25h)
“Acreditar sempre” (Resumo parcial)
Escrever uma página destas quando um dia se enche de motivações é fácil. Difícil é escrevê-la quando o dia se despe de razões para viver. Já o disse várias vezes e, tal como neste momento, nada me incentiva a estar aqui. Eu gosto de viver, sim, e quero viver porque acredito que a vida ainda me reserva coisas boas e algumas surpresas, mas morrer também não me assusta. Assusta-me é a forma “como”, como já referi inúmeras vezes...

...Há sensações na vida que nunca se perdem, portanto, viver para mim é sobretudo reviver, mas isso é mau. Espero encontrar outras razões para me motivar, para crescer, para ser feliz. Mas onde é que vou encontrar esse estímulo? Tenho provavelmente que nascer outra vez para me encontrar de novo. Não quero desistir, já volto, pode ser?    

Carlos Alberto  

 

Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2014 (Torre da Marinha, 22:25h)
“Quero erguer-me”
Tento levantar-me, mas não sou capaz. Sinto-me sem forças levado pelo vento que sopra forte e me arrasta para um abismo. Sei que se lutar eu sou capaz, mas não tenho coragem. É como se a noite fosse escura e os meus caminhos de terra batida rodeados de um estranho arvoredo: tenho medo. Agora ouço a corrente de um rio que desliza forte em direcção a uma cascata e, como um tronco inerte que se aproxima do precipício, vou nessa corrente, como que aguilhoado e sem hipóteses de salvação. É uma espécie de sufoco, é estarmos onde não queremos, é irmos sem querer ir, é chorar porque perdemos a nossa bússola, é não sabermos sequer onde estamos. Há um vendaval imenso que arrasta tudo. Não encontramos um caminho de fuga, apenas uma espécie de labirinto que nos confunde, baralha e desorienta. E nem força temos para gritar, mas mesmo que se o fizéssemos também ninguém nos iria ouvir. Mas tentamos. Gritamos, gritamos, mas de facto não há ninguém perto para nos arrancar deste sufoco. Temos que encontrar a saída, sei que há uma saída, mas não encontro uma pista a que me agarre. É um pesadelo, uma tristeza de vida a que vivemos, como um caminhar sem destino com destino a um abismo onde vamos cair. Tudo parece uma questão de tempo e o tempo é pouco. Preciso de alguém que me socorra e ajude, mas não há ninguém disposto a fazê-lo Está tudo recolhido e acomodado no seu conforto e tenho que ser eu a desenvencilhar-me. Mas onde vou eu arranjar argumentos para sair deste “buraco”? Estou no meio de um temporal enorme e num caminho cheio de ratoeiras onde posso cair. Polvilhado de granadas defensivas que explodem à minha passagem, caminho agora estonteante em direcção a um castelo de areia construído mesmo à beira-mar. Mas virá, não tarda nada, uma vaga maior e levará tudo. E eu continuo perdido, triste e só em busca do que não encontro.

Carlos Alberto

 

Quinta-feira, 30 de Janeiro de 2014 (Torre da Marinha, 22:20h)
“O pior de todos”
Não vou escrever nada com sentido. Vou a correr para não ir a lado nenhum. O acordar não serviu esta manhã o pequeno-almoço. A razão estava escondida atrás do lodo e por isso o sol escondeu-se na sombra da nuvem Eu quis acreditar que era verdade e o circo abriu as portas ao palhaço. Ele sorriu para o leão, mas o vento era tão forte que a porta se fechou. Depois eu saí para a rua deserta e senti uma multidão a rezar para a sepultura aberta. Por volta da tarde o relógio apagou-se e o telefone tocou. Atendi e um pássaro cagou-me em cima da cabeça. Mas eu tinha um chapéu sobre os joelhos e limpei a caca com uma casca de banana. Depois do que senti sentei-me sobre o ramo de uma árvore e nesse momento projectei o passado enquanto aquele presente me atirava para o futuro. Mas não desisti porque previ que o tempo ia melhorar enquanto o avião se fez à aterragem de emergência. Não fora aquele gato e a escada tinha sido de madeira. Subi então ao terceiro andar e escorreguei pela janela até cair em cima da piscina cheia de cerveja. Estava gelada e aqueci-me no fogão de sala enquanto o Pai Natal me olhava incrédulo para o pavão que entrava no castelo. Eu fui testemunha e tentei, em vão, crescer para uma realidade aparente. Contudo, o espelho estava lá e pude parti-lo com o beijo de Judas. E assim se conseguiu juntar as peças do mar de pérolas que se espraiaram sobre a mesa num silêncio que magoava a idade. E foi assim o nada sem sentido  

Carlos Alberto

 

Sexta-feira, 14 de Fevereiro de 2014 (Torre da Marinha, 22:30h)
“Dia dos namorados”
Agarrei-me a ela e descasquei-a, palmo a palmo, com calma, sem pressas, com cuidado. O momento era desejado e muito apetecido. A fome também era muita e há muito tempo que não a comia. Mas não quis fazer daquele momento um momento só a dois. Gosto de misturas e juntei outros ingredientes, como uma pitada de sal. Mexi tudo muito bem e provei. Estava gostosa e bem encaminhada. A refeição haveria de ser óptima. Meti então tudo descascado dentro de água e deixei aquecer o ambiente. Não estava sozinha, tinha tudo o que era necessário e boa companhia para o efeito desejado. Não havia flores, nem vinho à mistura, mas apenas água para que tudo saísse bem e ao jeito. Os odores eram agradáveis e enleantemente apetitosos, enquanto o lume que começou brando, daí a pouco já fervilhava e fumegava, vindos da panela. Delicioso o cheiro e não tardaria nada estaria finalmente a comê-la. Juntei então o chouriço e, com uma colher, voltei a mexer e provei. Mais uma pitada de sal, pisquei os olhos e ela abriu-se toda deixando-me penetrá-la com a intensidade de um profundo esgar de prazer. Provei-a, saboreei-a, lambuzei-me por tudo o que é gosto e pude senti-la a desfazer-se na minha boca. E são estes saborosos momentos que enchem a nossa vida de deleite, sobretudo neste dia especial, onde podemos usufruir dos prazeres de uma boa refeição à mesa. Sentei-me então à sua frente e agora confortável e bem instalado, à mesa, peguei na colher e comia-a toda. A sopa de caldo verde estava deliciosa. Batatas passadas com alhos e cebolas, de comer e chorar por mais. Depois a hortaliça, tudo mexido e misturado: ficou deliciosa. E foi assim que comemorei o meu final do dia dos namorados.

Carlos Alberto

 

Domingo, 23 de Março de 2014 (Torre da Marinha, 22:20h)
“Pensamento positivo”
Vou pensar positivo e não pôr-me aqui a lamentar que a solidão é terrível e/ou coisas assim negativas, desse género. Vou antes valorizar o facto de ter saído de casa, mesmo que para caminhar a ritmo do passo, andando por aí mais de meia dúzia de quilómetros, usufruindo com satisfação da paz e da capacidade de ter a mobilidade para poder fazer essa caminhada. Sentindo o sol no rosto, a primavera e todo o ambiente envolvente que me rodeou, incluindo o rio pela margem, pude, a pulmões abertos e com alegria, inalar toda a energia que a Natureza me transmitiu. Pude ainda sentir a aragem de um clima a atirar-nos para um verão que aí vem e respirar profundamente os odores exalados pelas flores, pelas árvores e rebentos que de alguma forma me foram enchendo a alma. Debaixo do braço um livro; comigo todo o tempo do mundo. Ouvir as pessoas, os carros, as crianças, vê-las a brincar no jardim, ou as bicicletas que circulavam pela marginal, um privilégio. Estamos dentro de uma espécie de silêncio ruidoso, mas que nos enche os ouvidos de forma harmoniosa e nos desperta para a vida com vida dentro. Andamos, andamos, percorremos a linha que traçámos e saboreamos a disponibilidade. Somos livres de pensar, de sonhar, desta vez por opção para estarmos calados e apenas ouvir. Sim, há gente aos pares, famílias inteiras, amigos que se juntam, mas haverá amor em tudo e em todos? Reparo nas flores, nos malmequeres amarelos. Não apanho nenhum, mas apetece-me. Não tinha, no entanto, a quem o oferecer, embora pudesse coloca-lo na lapela. E ali estava eu falando com os botões do meu casaco, olhando o céu salpicado de nuvens brancas sem chuva, sentindo o cheiro das coisas, observando as figuras pintadas nos murais e apreciando a destreza artística de quem as desenhou assim e que assim se revela ao mundo. Ganhámos espaço, tempo, vida agora percorrida neste instante. Amámos tudo o que vimos e só nos faltou mesmo acariciar a Natureza que apenas contemplámos. Mas ao vibrarmos com ela concluímos que foram sentimentos positivos que nos invadiram e era isso, afinal, o que procurávamos.

Carlos Alberto

 

Sexta-feira, 4 de Abril de 2014 (Torre da Marinha, 05/04 00:40h)
“Não ao não”
Quero acertar o passo sem trocar as voltas ao meu destino. Quero escrever apenas aquilo que é positivo. As palavras negativas estarão abolidas deste resumo e apenas vou citá-las uma vez para ficar como o exemplo oposto àquilo que quero que fique aqui registado. Ou seja, estou proibido de escrever a palavra que revela o enigma deste resumo. E, por isso haverá palavras que ficarão por dizer, palavras que serão esquecidas, palavras que sobrarão para que nada reste. Assim, escrever NÃO é levar-me para um infinito sem retorno e se é isso que quero, então perder-me-ei sem ser capaz de ser eu mesmo. A partir de agora invento, só posso mesmo inventar para dizer aquilo que devia ser dito de outra forma. Esforço-me imenso e aquilo que consigo escrever é completamente diferente do que pretendo dizer. Aqui se entende porque é tão difícil escrever coisas. Como as palavras só podem ir num sentido fica por dizer o que quero dizer no outro. E a forma de o dizer é escrever que a forma é a contrária, a que se disse de trás para a frente, sem ser possível dizê-la de outra maneira. Confuso? Faz parte do processo de cura. E assim se constrói um resumo totalmente novo onde a palavra de três letras é abolida e se omite escrevendo que se a omite. E nesta difícil tarefa de falarmos apenas o que a censura permite nada se consegue harmonizar e percebemos o quanto complicada é a língua portuguesa. Aplaudo, no entanto, este meu desafio que vou aqui conseguir superar, mesmo que o que tenha dito revele apenas que nada foi dito e escrito que mereça ter sido lido. Mas já está.

Carlos Alberto

 

Quinta-feira, 15 de Maio de 2014 (Torre da Marinha, 23:00h)
“Vamos lá caminhar”
Ao desabafar com as pessoas vou tentando aliviar a minha tensão. Todos me dizem que devo abandonar a solidão e que devo sorrir. Mas ninguém me diz como é que isso se faz. Os amigos fabricam-se? E para sorrir não é preciso ter um motivo? Mas eu ainda tenho uma saída: vou para junto do rio e observo-o no final da tarde. Sinto ainda a brisa amena no rosto e olho adiante para os pequenos barcos amarrados ao cais. Absorvo o cheiro a rio que me chega através do vento e inalo com prazer aquele instante que me invade até ao âmago. É bom. E eu vou apenas andando, sem pretensões, apenas usufruindo a vida, o tempo. E naqueles momentos não sofro, deixei de me sentir só e vou acompanhado com o privilégio de estar ali. Mais à frente o areal, uma espécie de praia. Penetro nela. Abro os braços em busca das energias e exalo com prazer e por instantes a força que recebo e sinto-me abraçado numa despedida para o tempo de voltar. Retemperado e cheio até ao fundo do meu ser parto de novo em busca de um regresso com alma. Sim, também fui à procura de um amor, de uma Vitória que não encontrei, mas sabe Deus onde vou encontrar. Há uma luz no meu espírito que me diz que vou ter aquilo que mereço, mas sei também que tenho que fazer mais por mim. Vale a pena olhar o rio, caminhar com o pensamento da memória, sentir o pulsar do coração e saber que estamos vivos. Acreditar que nada é eterno e que tudo é efémero. Acreditar também na simples ideia de que aquilo que é meu, meu será. E, por fim, parto em busca de uma sentido para a minha vida sabendo que há um caminho para desbravar e percorrer, tendo noção de que esse caminho existe e está aí adiante.

Carlos Alberto

 

Quinta, 5 de Junho de 2014 (Torre da Marinha, 22:45h)
“Perdido na solidão”
À expressão que diz “quem não tem cão caça com gato” tenho que referir que comigo faz todo o sentido para o que vou escrever. Ou seja, vamos em busca de algo que não conseguimos, regressamos com o rabo entre as pernas ou metemos as pernas entre o rabo... Esquisita extrapolação. Mas são os tempos, as modernices, o estarmos sós, a busca infinita do que não temos e acabamos perdidos em laivos de harmonia mesmo que num distúrbio da nossa discórdia. Pois, palavras vãs que o vento leva na aragem da memória para o fundo de uma qualquer alma num quarto sem tempo e sem espaço. Abrimos então as cortinas e um sol trespassa-nos o ventre dorido de uma escuridão imensa. Como num discurso gestual sem palavras pronunciáveis, sentimos o nada. Resta-nos a sombra de uma esplanada e com um café na frente abordando sem sentido um passado tão longínquo quanto obsoleto; diálogo que já nada acrescenta, apesar de nos perecer que tudo se passou ontem. Sobram as sombras, apenas sombras, num diálogo que se abre até ao infinito, sim, mas inconsequente. Nada acontece e ficamo-nos mesmo só pelo que parece. E a vida continua. Virado para o outro lado, não consigo chegar a um Céu que me ignora e não corrobore com a paixão que me vai contida na alma. Pouco seguro, não há respostas e, sem argumentos, enfrento meus próprios dilemas sem partir para outros voos e talentos. É esta, afinal, minha sina: ir atrás do que me abomina e querer sentir o que me desatina. Fico-me então por este o tempo que me resta, sem resposta, apenas honesta, por um amigo mesmo que à distância, funesta. E destes silêncios tenho que me conformar, numa ténue esperança que outro mar me possa invadir as margens; e um dia possa então seguir para outras paragens e encontrar finalmente o meu destino, com tino, num lugar seguro por detrás de um qualquer muro.

Carlos Alberto

 

Quarta, 25 de Junho de 2014 (Torre da Marinha, 23:05h)
“A rotina de que se gosta”
Acordo, como é bom acordar. Espreguiço-me e indolentemente arrasto-me para fora da cama. Coloco os pés no chão e caminho ainda meio ensonado para a casa de banho. Consigo caminhar, mesmo que de olhos semi cerrados pelo acordar titubeante e silencioso. Não há palavras, não há choros, não há gritos, não há lamentos ou confusão. Apenas eu e o silêncio. A manhã acorda aos poucos. Os cereais esperam-me, mas sou eu que tenho que prepará-los. Tenho que comer no armário das provisões. Tenho o privilégio de ter que comer. O banho acaba por me trazer à vida. Um cheirinho a lavado inebria-me. Mudo igualmente os lençóis da cama e sei que quando voltar a ela e deitar-me será em lençóis lavados de fresco e a cheirar bem. Será o meu cheiro, sim, o meu único cheiro. Estou pronto. Olho para a frente e caminho rumo ao meu quotidiano Pode ser vazio, mas é meu e posso fazer dele o que quiser. Tal como o de um ilustre preso deste país que saiu da cadeia e disse que não havia nada mais maravilhoso do que aquele momento: o de poder ir beber um café e sentar-se numa uma esplanada em liberdade. E que agora livre ia correr todas as esplanadas para poder absorver esse privilégio que agora tinha. Pois é, só mesmo quando a nossa vida muda percebemos o quanto boa era a que tínhamos. Assim, um simples café, um jornal e as notícias que enchem a vida de muita gente tornam a nossa vida maravilhosa. De regresso a casa, à mesa como algo que confeccionei. Depois ainda me sobra tempo para um zapping pela TV e pelos programas desportivos que degusto. E divirto-me com as lutas que se travam para se ser a melhor equipa do mundo. Todos procuram troféus, prestígio, poder. Eu também. Adormeço nesse sonho. Adormeço sem ter ganho ou perdido nada, a não ser mais um dia de vida em feliz liberdade.

Carlos Alberto
 
PS: Voltei a fazer, como habitualmente, ligeiras alterações pontuais nalguns textos. Por outro lado dizer que estes resumos são transcrições de páginas manuscritas dos meus Diários e que estão lá para trás no tempo e que valem o que valem. Como tudo passa na vida resta concluir que: “Não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe”.
 
 

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

25 de Abril 1974


Uma página do meu diário sobre o 25 de Abril (adaptada)

 “Pelo meu país”
 
Os foguetes ecoaram noite dentro,
na madrugada da libertação.
As vozes do povo ergueram-se
e cantaram a liberdade numa canção.
 
Uma nova canção nasceu,
seja em Grândola, seja em Lisboa,
pela nação como um hino cresceu
uma luta que não aconteceu  à toa.
 
Pela noite dentro e durante o dia fui soldado,
numa História que nunca se viveria
não fossem homens como Salgueiro Maia, idolatrado.
outra versão aqui se contaria.
 
Ainda me lembro naquela noite, acordado, em riste,
da parada para o anfiteatro em que nos disse:
”amigos, vamos salvar Portugal, acabar com a guerra colonial”.
 
Uma noite fantástica e memorável aquela,
No lastro de uma camioneta, bornal à fivela.
Rumo a Lisboa e pela madrugada afora,
ouviu-se no silêncio, de alegria contida
aquela canção soando a vitória,
perdido o medo do que valeria a nossa vida.
E de manhã, na aurora daquele dia,
nascia um país novo que por ele morreria.
 
As pessoas saíram à rua e os cravos espigaram
na ponta das espingardas, as armas se calaram.
Foi uma festa, uma alegria, a vitória dos oprimidos
sobre os opressores, contra os horrores vividos.
 
Acabaram os presos políticos.
Os contestatários foram libertados,
Perderam-se os preconceitos míticos
das cordas fomos desamarrados.
 
A minha pátria voltou a sorrir,
a minha voz voltou a ouvir-se,
injustiças vi dirimir
já não fui à guerra e vi-a a sumir-se.
 
Aqui e na minha terra, Santarém e no Terreiro do Paço,
a fera sucumbiu à luta e nem senti o cansaço:
 
Estive no Camões que se encheu de poetas,
esvaziou-se de ladrões e sucedeu-se de alertas.
 
Lembro-me das fardas da GNR, militares perfilados,
Eles até aos dentes armados;
eu imberbe, de arma na mão,
sabia o que fazia? não sabia, não.
Como reis para atacar-nos como peões;
Eles em parada preparados, e nós sem guiões.
 
Acabar com a guerra colonial?
salvar o meu país: Portugal.
E na fúria de vencer, vi o povo a meu lado erguer;
e o medo, o terror de morrer se perdeu:
o povo saiu à rua e a liberdade venceu.
 
Foi há quarenta anos, parece que foi ontem...
mas com tantos desenganos, por favor, nos soltem.
CA
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

terça-feira, 16 de junho de 2015

REFORMA

Eis uma notícia muito importante para mim, para a minha vida e que partilho:
 
Não, não me apaixonei de novo, apesar de que, desde há um ano a esta parte, muita coisa tenha mudado dentro de mim.
 
Hoje, apesar de sozinho, não sinto a solidão de outros tempos. Aliás, estou sozinho por opção, não por carência ou falta do que quer que seja.
 
Hoje sinto-me até bastante (bem) acompanhado por pessoas de quem gosto e também um homem muito feliz. porque tenho tudo o que preciso.

Quanto ao meu novo estatuto, sim, é verdade, estou REFORMADO desde o dia 11 de Junho de 2015 e a única coisa que posso lamentar é que tive de trabalhar 50 anos para receber uma reforma de três dígitos, enquanto qualquer deputadozinho recebe por duas legislaturas na assembleia uma reforma choruda sem ter justificado rigorosamente nada. É o país que temos. 
 
Portanto, aquele foi o primeiro dia do resto da minha vida (boa).
CA