domingo, 4 de janeiro de 2015

A SOPA DAS MASSAS GIGANTES



E
ra uma vez um menino chamado Artur e que era muito bem comportado. Tanto em casa como na sua escolinha todos os meninos e educadores gostavam muito dele. Os seus desenhos eram sempre muito lindos, gostava muito de aprender coisas e adorava partilhar aquilo que era seu. Brincava muito, era muito respeitador para com as pessoas mais velhas e procurava sempre ser um bom menino. Com os seus coleguinhas e amigos dava-lhes sempre as suas bolachas e quando jogava um jogo com eles deixava que eles ganhassem algumas vezes para eles não ficarem tristes por perder; assim ganhavam todos e, no fim, todos ficavam sempre felizes e amigos uns dos outros.
Em casa, o Artur era também um menino de quem os pais gostavam muito porque ele era realmente um menino muito especial.
 Certo dia, o Artur que adorava comer sopa, reparou que a sopa que a sua mãe lhe deu era diferente, parecia especial. “Aquela não era uma sopa qualquer, não, tinha qualquer coisa de mágico e estranho” – pensou.
- Mãe, esta sopa tem massas gigantes. - Disse ele, espantado, olhado para o prato.
A mãe olhou para ele e riu-se da observação.
- Pois tem. – Disse-lhe então, reparando, também ela, que de facto as massas eram maiores do que habitualmente punha na sua sopa.
- Sabes, Artur – explicou-lhe ela - esta sopa não foi a mãe que fez: é mágica e foi feita por um duende que a veio trazer.
- Um duende? O que é um duende? – Perguntou o Artur à mãe.
– Os duendes são seres muito pequeninos que vivem muito longe, numa floresta encantada e que gostam muito dos meninos que comem sempre a sopa e que se portam bem. Por isso, como prémio, eles decidiram trazer-te esta sopa com massas gigantes por seres um menino muito especial.
- Deve ter sido muito difícil para eles carregar estas massas gigantes às costas - concluiu o Artur.
- Sim, sim, muito difícil, mas eles são fortes e prometeram que se continuares a ser um menino bem comportado vão continuar a trazer-te mais sopa mágica, como esta, e com massas ainda mais gigantes...
- Boa, Mãe!!! – gritou o Artur todo contente. - vou continuar a portar-me bem – e comeu a sopa toda.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

LIBERDADE

 
 
 
 
 
 
LIVRE?
 

 A liberdade já passou por aqui:
Pela liberdade acordei,
pela liberdade me vesti e lutei,
pela liberdade, liberdade senti.
 
Imberbe, trajado a rigor
arma na mão desafiei sem temor:
porque a liberdade crescia ali
em sonhos verdes que como homem pari.
 
Noite, viagem, carros de combate,
vento e alento nas mensagens trocadas;
deslizando madrugada adentro
em pequenas vitórias alcançadas:
Confrontos, negociações, desfazer o empate
enfrentar as ilusões na liberdade, com arte.
 
A liberdade já passou por aqui:
Heróis a vilões, cravos e canhões,
soldados fomos e tememos,
o que a História ditará: repercussões
do que realmente somos e seremos.
 
A liberdade já passou por aqui,
sim. Um dia saberei se sobrevivi.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

MEMÓRIAS DE 2013

Páginas  do Meu Diário ( 1º Semestre)

Terça-feira, 8 de Janeiro de 2013 (Miratejo, 09/01 02:25h)

“À espera do milagre”

As sombras da noite, as insónias que me invadem o espírito, o silêncio que me percorre o sangue. Deito-me, apago a luz, mas falta-me fazer algo. A meu lado não tenho ninguém. Comigo só mesmo este livro. Escrevo, escrevo sobre ele as memórias do que sou. A morte aguarda-me no escuro e, por isso, fico acordado, à espreita. A mágoa, o amor perdido. Choro, mas porquê? Por quem? Rasgo-me por dentro. Estou farto de ser vítima. Acorda homem! No entanto, não durmo. Olho em volta e apenas sombras, espíritos que me envolvem e me acusam de ser inerte, sem vida, sem paixão. Sonhos e mais sonhos de vida, sem vida. Projectos de amor, de paz, de família; e uma ponte ruiu mesmo por debaixo dos meus pés. Iludi-me no caminho. Errei na estrada. Sofro então por meus filhos, mas levanto-me para lhes dizer que estou bem, que estou feliz, que continuo a ser um homem de sorte, com o mundo todo à minha volta para viver. Não se preocupem. “À espera do milagre” é um filme estranho, de formas estranhas: os crimes que não cometemos, as penas por que passamos e pagamos. A luz, a vida, a paixão, o amor. Quero dormir, mesmo sobre a cama, apenas com um cobertor por cima, como uma mortalha. Quero viver em paz para morrer em paz com todos. Sim, o amor traiu-me e deu-me uma lição. Choro com ela, sofro muito com ela, mas não há mais nada a fazer. Estou no corredor verde e parece que nunca mais chega ao fim. Deus, estás a ouvir-me?
 
Carlos Alberto

Terça, 15 de Janeiro de 2013 (Miratejo, 23:00h)
“A raiz ao pensamento”

Parece que nada acontece e a vida se aborrece. Acordamos com alegria para que o dia nos sorria. Cantamos uma canção mesmo que só cantarolando para animar as hostes dançando e sambando. E na cozinha com tachos e panelas, à farinha, ovos e açúcar nos atiramos, um bolo tentamos fazer e nem que seja experiência ganhamos. E no ar ficou um cheiro a algo que no fogão se queimou, mas mesmo assim saboroso o bolo se foi e acabou. Portanto, meus amigos, há mais para além da vida e do facto de não ficar nada, experiencia-se a feitura de algo (um bolo) e no fim recebemos obrigada. Porque a felicidade nos transcende, tudo nos pode passar ao lado, portanto, mesmo que a mão emende, amanhã será outro fado. Tenho também o gosto de escrever, da escrita; no entanto, não consigo bem viver, mas com a força bendita invicta tudo pode acontecer. Sei que valho pouco, tenho pouca capacidade, mas o gosto de estar aqui ninguém me tira e por esta vontade e felicidade irei até ao fim da minha vida. É certo que é importante termos o eco do que escrevemos, mas mesmo com o pouco que sabemos temos a satisfação de nós mesmos. E aqui fica um resumo diferente, longe do que imaginei, mas significa o que se sente, mesmo que não seja nada do que pensei. As palavras são ditas com a alma e coração e ficam aqui para sempre gravadas com a força da minha paixão. E porque quero ser feliz é como se fossem a raiz.

Carlos Alberto  
 
Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2013 (Miratejo, 23:10h)

“Nos caminhos do sucesso”
Acreditamos que é possível. Pode não ser fácil, mas estamos no caminho certo. A força unida jamais perderá a esperança. E caminhamos, assim, juntos nessa batalha contra o mal. Somos uma equipa à procura de uma identidade e sabemos estar, como já estivemos em repastos de reis, sentados em mesas de nobreza. No entanto, o clima é agreste. Quase que apetece não sair de casa. Desafiar a intempérie é outra afronta. Mas saímos e ali chegados somos quase vinte mil. Vinte mil vozes em uníssono. Há um momento que quase caímos por terra. Como foi possível chegar-se tão baixo? E sofremos. Quando devíamos estar a glorificar-nos, eis que o diabo nos bate à porta. Atónitos, nem acreditamos. Não tivéssemos nós do nosso lado um santo Patrício e estaríamos a carpir mágoas e a desejarmos não sermos de quem somos, desta estirpe sofredora que parece que gosta de ser chicoteada, masoquista, que gosta de sofrer. A chuva cai impiedosa. Parece que o mundo vai desabar. Mas o milagre acontece. Sorrimos à sorte e vaiamos o diabo que se tinha posto à espreita. Um Cosme de camisola amarela que entortava aquilo, como que manietado, que nós queríamos direito. Não, não nos molhámos No aconchego das bancadas varridas a vento e salpicos de chuva pudemos sorrir do milagre e saborear uma vitória arrancada a ferros. E demos graças a Jesualdos e a Patrícios por termos saído mesmo que só com o pecúlio mínimo no bornal. Mas foi o quanto baste, depois de um sofrimento quase atroz. Saímos felizes da contenda e regressámos a casa, mesmo que não seja à beira-mar. Obrigado, rapazes, apesar de pequenos. E viva o Sporting.

Carlos Alberto

Quarta-feira, 06 de Fevereiro de 2013 (Miratejo, 20:25h)
“Tantas, tantas voltas”

As férias já lá vão, mas continuamos a sentir a nostalgia desses dias que ainda perduram no nosso imaginário, a despeito da distância. E seguem-se os reflexos desses tempos, as emoções, os sentimentos, as palavras que se exprimem, os desejos subjacentes que se incorporam, as mensagens que se transcrevem. E estamos no meio de um desabar de sentidos, com emoções ao rubro. Escrevemos poesia e dizemos o que sentimos: agradecemos o amor, enaltecemos a solidariedade, louvamos a amizade levada ao extremo. E ficámos lá. Agora é a vida real, aquela que nos paga, aquela que nos faz viver todos os dias do ano. Esquecemos o passado, acordamos e saímos para a rua. Há trabalho à nossa espera. Aprendemos. Criamos espaço para aceitarmos o conhecimento que se atravessa no nosso horizonte. Passam os dias, as semanas, os meses e nós já nem nos apercebemos da velocidade com tudo passa. Foi no outro dia e já lá vai um ano. O tempo, esse tempo infinito que se esgota para todos. E não vale a pena esperar porque ele nos rouba tudo, a começar pela juventude. Temos tantas ilusões e, num instante, já não estamos aqui. E já estou até a ver alguém a ler esta página e eu já no outro lado do mundo, na zona dos espíritos e a rir-me da ilusão que tinha quando escrevi estas linhas. Construímos tanta coisa e afinal tudo se resume a um leve sopro que tudo sacode a atira abaixo. Mas é bom ter ilusões. Acreditarmos no amor, que nada é fruto do acaso e para estarmos aqui o mundo deu tantas, tantas voltas. E aqui estamos a sorrir...
Carlos Alberto


Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2013 (Miratejo, 14/02 01:40h)
“A escrever”

Escrevo à noite, escrevo ao tempo, escrevo à solidão. Só sei que escrevo, não a quem ao certo, se a todos, não sei, não. Escrevo nem sequer sei o quê, para quê, que. Que raio de conjunção. Eu quero, mas não sei. Só sei que escrevo. Sim, à noite, noite adentro, com a noite como companhia. Triste, sim, muito triste de estar só e cada vez mais só, que até mete dó. Prometi, no entanto, a mim mesmo escrever só alegrias, falar de sorrisos, de pombas brancas a esvoaçar, sem me lamentar. Escrever como coisas boas, mesmo as que sejam más para que pareçam lindas e que a todos satisfaz. A noite é escura, mas posso sempre acender a luz. Lá fora os homens do lixo recolhem os caixotes, mas agora é tudo feito à base de automatismos, sem archotes. E eu estou aqui a ouvi-los, deitado, de luz acesa para ver o que escrevo. Sim já com óculos novos. Estou feliz por ter óculos novos. Mesmo que tenha passado o dia a “gritar” com toda a gente porque os queria muito. Não consegui controlar-me. Peço desculpa agora, nesta hora. Parei para fazer sopa. Comi três tigelas logo de seguida, de vento em popa. Até estou mal disposto, com um nó no estômago. Mas se calhar não foi da sopa, mas do bolo de iogurte que estive a fazer e que comecei a comer sem o deixar arrefecer... Pois, aí esqueci a raiva. Sozinho, sozinho em tudo para tudo, coitadinho. Um feliz infeliz que escreve à noite para o tempo, o sonho, a ilusão que espreita e o sono que se esquece e nem arrefece. Quero sorrir à noite, ao vento, às sombras que aqui estão. Não queria estar sozinho, não. Mas estou. Estou no lugar que mereço, enfiado entre cobertores. Mas não estou a recolher o lixo, lá fora, nem sob a intempérie. Estou aqui a escrever sem tremer.
Carlos Alberto


Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2013 (Miratejo, 19/02 00:40h)

“Na hora dos aflitos”
Nada para fazer, nada para dizer, tudo para acrescentar. A vida, a hora, o sentido, a luz. Palavras que se escrevem apenas para se honrarem compromissos. Como uma espécie de interlúdio antes que cheguem as grandes decisões. A escrita, esse mundo estranho de letras que se juntam e que formam palavras. E estas até podem ser de ódio ou de amor. E a propósito: neste momento estou numa fase em que não sinto amor especial por alguém, além, claro, dos meus filhos e irmãos. Os tios estão longe, nunca me ligaram nenhuma. Os primos estão todos bem na vida e também se afastaram, cada um na sua. Mas quem ao certo se afastou de quem? Pois, restam as palavras. Sonhos que tornamos realidade nua e crua, como na vida. Há montanhas, ratos, Natais, meninos e meninas e há palavras por dizer: ovos, sopa, bolos para comer. Há a cozinha, o tempo que sobra das palavras e nos dispõe. Que bom que é ter na mesa a sopa que confeccionámos: as batatas, as ovas, ovos e cenoura, tudo cozido e regado com um bom azeite e que preparámos. No fim, como sobremesa, ainda há um bolo de iogurte, cada vez mais perfeito. Fome? Já não passaria fome. As conversas com as palavras estão assim a ficar para trás. Só os traumas não. Tenho ainda raiva e acho que vou tê-la até ao último suspiro da minha vida: alguém me roubou a felicidade que tinha e deitou-me para o lixo. Alguém me abandonou achando que tinha muito melhor ali mesmo ao lado, à mão de semear. Deixou-me na lama, a apodrecer. E da lama estou ainda a tentar sair, mas às vezes atolo-me e sofro angustiado pelas palavras que gostava de escrever e que não sou capaz. Sinto-me frustrado pelo que sou e pelo que me tornei. Até quando?
 
Carlos Alberto

Segunda-feira, 11 de Março de 2013 (Miratejo, 19:00h)
“No silêncio das palavras”

Acordo para um novo dia, mas sem esperança de que ele me possa trazer algo de novo. Não tenho nada para fazer e o meu espírito esvazia-se nesse mesmo momento. Todavia, levanto-me, visto-me e saio de casa. Levo uma revista debaixo do braço para ler. Na rua, o clima está péssimo. Chove a potes e empunho na mão um guarda-chuva. No entanto, a manhã já quase passou. Aliás, o tempo esgota-se a um ritmo impressionante. Não damos conta e até ao que nos rodeia ficamos absortos. Chega assim depressa a hora do almoço e na mesa “redon”, além da célebre sopinha que já foi a melhor do mundo. Depois, computador e porcarias. Porcarias e computador. Enquanto isso, a tarde avança, intrépida, fria e chuvosa também. Um pouco de leitura para encher o tempo cinzento. Meia dúzia de minutos com a minha filha mais velha, de manhã e depois do almoço. Ela ainda trabalha. É das poucas pessoas que ainda tem trabalho neste país cada vez mais miserável. Foge-me a tarde. Passo pela padaria e trago pão quase quente para o lanche/jantar. Há mais sopa para comer onde incluo um naco de chouriço de cebolada que a minha irmã me vai oferecendo. (a razão porque gosto cada vez mais dela). Delicio-me. Sabe-me muito bem. E cai a noite, impiedosa. O meu sossego quebra-se com a porta da rua a abrir-se. Já não estou só aqui em casa, mas preferia. A companhia não me trás alegria. Há momentos em que estar só vale mais que mil pessoas juntas. O ruido instala-se e eu preferia o silêncio dos meus ecos, a cor da minha sombra, as luzes do meu torpe pensamento. Sobram-me as fotos de viagens de ontem e de sempre: o meu tempo, o meu espaço. Estar comigo mesmo.
Carlos Alberto

 
Quinta-feira, 25 de Abril de 2013 (Miratejo, 26/4 01:10h)
“Pelo meu país”

Os foguetes ecoaram noite dentro, meia-noite, madrugada da libertação. As vozes do povo ergueram-se e cantaram a liberdade numa canção. As pessoas saíram à rua e os cravos espigaram na ponta das espingardas. Foi uma festa, a alegria, a vitória dos oprimidos sobre os opressores, contra os horrores. Acabaram os presos políticos. Os contestatários foram todos libertados, uma nova canção nasceu, seja em Grândola, seja em Lisboa, nada aconteceu à toa. A minha pátria voltou a sorrir, a minha voz voltou a ouvir-se e já não fui para a guerra e vi-a sumir-se. Aqui e na minha terra, Santarém ou no Terreiro do Paço, a fera sucumbiu ao cansaço. Estive no Camões que se encheu de poetas e esvaziou de ladrões. Lembro-me das fardas da GNR, militares perfilados, em parada, armados até aos dentes, e eu imberbe, de arma na mão, mal sabia o que fazia, não. Não sabia. Acabar com a guerra colonial, salvar o meu país, Portugal, e na fúria de vencer, vi o povo a meu lado erguer, e o medo, o terror de morrer se perdeu, o povo saiu à rua e venceu. Pela noite dentro e durante o dia fui soldado, numa História que nunca se viveria, não fossem homens como Salgueiro Maia, idolatrado. Ainda me lembro naquela noite, acordado, da parada para o anfiteatro em que nos disse ”amigos, vamos salvar Portugal, acabar com a guerra colonial”. Uma noite fantástica e memorável aquela, em cima de uma camioneta, rumo a Lisboa pela madrugada fora soando aquela canção de vitória, ouvida no silêncio, com paixão e alegria contida no medo do que estaria por vir. E de manhã, na aurora de uma novo dia, nascia um país novo que pela pátria morreria. Foi há trinta e nove anos, parece que foi ontem.

Carlos Alberto

Sexta-feira, 21 de Junho de 2013 (Torre da Marinha, 22/6 01:45h)
“E deixa-nos a noite”

Escrevo à noite, ao que resta dela, ao silêncio deste quarto, na penumbra da luz que me inspira. São os sentidos da alma, a nostalgia da escrita, o momento imediatamente antes de me deitar para baixo, de deixar cair a cabeça sobre a almofada, deixar-me ir na onda dos sonhos e descansar. É a hora de dizer até amanhã. Hora, no entanto, de deixar primeiro o testemunho, a mensagem de que houve vida, há vida e também paz. Sim, há tudo isso, mas falta algo: falta o amor; e esse só existe aqui nas palavras que transcrevo. Na minha alma há, no entanto, essa frustração. Não fui capaz de cativar, de guardar para mim algo que eu merecesse, esse carinho essencial à vida dos seres. Mas não foi só aí que falhei. Não fui capaz de muita coisa, não fui suficientemente competente. Por outro lado, achei sempre que o tinha sido, que procurava ser melhor em tudo o que fazia, mas afinal estive enganado o tempo todo e errei nos meus critérios de avaliação. Todavia, “o bem não está perdido”. Encontro então, na esquina, a gratidão de outra gente que me apoia e ajuda e me dá um pouco do ânimo de que preciso. Pode até ser um encontro de trabalho, mas até isso é bom e reconfortante nos tempos que correm, tão difíceis estão os dias de hoje para a maioria das pessoas. E afinal não somos o centro de nada, como pensávamos, a não ser de nós mesmos.  Sim, é bom ter trabalho. É bom sair de casa e cinco minutos depois estarmos sentados num escritório à secretária, diante de um computador. Como seria bom para mim que o trabalho fosse permanente, que tivesse a ajuda que preciso. Mas infelizmente, não é assim, tudo é temporário. E resta-me aqui nesta noite silenciosa escrever e o sentir da minha respiração que agora se acalma e preparar-me, enfim, para mais uma deliciosa noite de sonhos...

Carlos Alberto

 PS: Fiz, como habitualmente, ligeiríssimas alterações muito pontuais nalguns textos. Por outro lado dizer que estes resumos são páginas manuscritas que estão lá para trás no tempo e valem o que valem. “Não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe”.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

QUERIDO PAI

A paixão pode surgir-nos e manifestar-se das mais diversas formas. E o amor, sempre o amor está presente, mesmo que as circunstâncias sejam díspares.
 
E hoje que foi um dia muito especial para mim, já era, no entanto, desde há muitos anos atrás e por razões bem mais dolorosas e diferentes.
 
Fatalmente, nesta data, há trinta anos atrás, meu Pai descia à terra.
 
E ainda me lembro dele, do seu rosto de sofrimento, daqueles seus olhos verdes lindos a olhar para dentro, enquanto se agarrava às grades da cama, no hospital, nos seus últimos dias aqui connosco.
 
Depois recordo-me que brinquei com ele, deitado na sua carruagem de pinho, enquanto a noite nos preparava para a sua  última viagem, dizendo-lhe que me parecia o Pai Natal, tal era o seu aspecto castiço com aquele algodão em volta do pescoço para esconder a sua doença. 
 
Além de um poema, deixamos-lhe também um baralho de cartas para ele jogar com os amigos, como ele tanto gostava. Vi-o então a sorrir, com aquele olhar doce que tinha e disse-nos adeus.
 
Partiu, enfim, "desta para melhor", mas apenas fisicamente. Hoje ainda o sinto a olhar para mim, e a proteger-me. Pai galinha mesmo. Se juntarmos a isto o amor que a minha mãe também me dava, sinto-me cada vez mais vigiado por eles e não posso pôr o pé em ramo verde.
 
"Não vás por aí, vai por ali", estão sempre a dizer-me e a corrigir-me, ora um, ora outro, ainda hoje; grandes carraças, não me largam. "Já sou grande" tento dizer-lhes, mas eles é que mandam. "Eu sou uma autoridade" diz-me sempre ela, como frequentemente nos dizia quando nos repreendia das asneiras que fazíamos.
 
Aqui chegado, trinta anos depois, outros sorrisos, outro amor, outra paixão.
 
Subimos as escadas e o rio abraçou-nos, beijou-nos o rosto, acariciou-nos até à alma. Os barquitos lá em baixo, baloiçava-nos como um sonho e fomos rio acima, ofegantes, até nos perdermos na paixão da paisagem. O Cristo Rei olhava para nós, abençoando-nos, primeiro, mas depois, com vergonha, acabámos, no cimo das escadas, escondidos por detrás do arvoredo, longe do seu olhar para consumarmos aquilo que era o nosso desejo, apenas com o Universo como testemunha, mas sem nada que o escandalizasse. Será apenas um beijo um pecado?
 
De mãos dadas, selámos esse desejo e que, daqui a trinta anos, apoiados em bengalas, voz trémula e meio desengonçados voltaríamos ali juntos, não para subirmos, mas para descermos, aqueles que foram e serão para todo o sempre os nossos degraus de paixão.
 
O amor é lindo, não é? Agora só falta ser verdade tudo.
 
CA
 
 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

MUSA

Peço desculpa por te incomodar,
E invadir tua privacidade
Dizer-te o que sinto e falar
Do que é a nossa realidade.
Conheço os teus medos,
Mas não sei teus segredos
Embora do que sinto, gosto
E será que no que aposto
Vou ter o que merecer?
És, sim, minha musa,
Meu desejo, mulher confusa:
Um sonho, talvez, em maré vazia,
Mas quem sabe, um dia...
Embarcarei em teus navios
Mar afora para sentir
O doce sabor e os arrepios
De um amor para parir.
CA

POETA FINGIDOR

Queres a poesia que sinto?
Queres a paixão de um poeta?
Queres a loucura de que não minto?
Queres a verdade concreta?
Queres viver um sonho
De palavras gastas, já escritas?
Ou acreditar nas encriptas
Formas de amar?
Nos sentidos diversos
De quem gosta do que diz?
Que te olha com a ternura
Que sente por uma criança
Numa incondicional aliança
Por quem olhamos, petiz,
Gostamos, protegemos
E que nos leva ao amor?
Queres a poesia que sinto?
Queres a ilusão da minha dor?
CA
Nota:(com alterações ao original)

ESCADAS

Subo as escadas contigo
É a primeira vez e não decido:
Deixo-me levar por ti
No teu sonho e dormi
Embalado nos teus barcos
Como embalo nos teus braços
E cheguei ao cimo e sorri
Do cansaço em vez do abraço
Que me apeteceu e não aconteceu.
Pretexto, talvez
Para lá voltarmos
Outra vez
Provavelmente com mais paixão,
levando-te pela mão.
CA

segunda-feira, 7 de julho de 2014

AMARRAS

amarras
As palavras perdem todo o sentido
quando te vejo:
e fico feliz só por estares
mesmo na distância de um meio metro
já não há palavras que valham
o ensejo
do momento de te sentir perto,
olhar-te e os meus sentimentos se calam
no desejo
do que é certo.

Errado: reclamas distância em tua defesa
e sobre minha dor acumulada
de mágoa e em surpresa
minha angústia recrudesce desesperada.

Baixo o olhar para o chão,
procuro não vacilar,
tento segurar-me da morte
com minha própria mão
e repetir bem alto e forte
que não te posso nem devo amar.
CA

quarta-feira, 25 de junho de 2014

AMAR


Alguém escreveu que basta tirar algumas letras para mudar o sabor AMARGO

Então se é assim:


Eu quero que a vida AMARGA seja doce

e que o AMARGO que sinto AMARE de vez

num cais de esperança que é o AMOR

e do qual me afasto em estertor.


Quero AMAR, sem a amargura AMARGA...

deste viver sem doçura, 


quero viver no sorriso que transmite uma criança,


quero AMAR a aliança que perdi 


no dia AMARGO em que te foste e morri.


CA


O CHORO DE UMA CRIANÇA

O choro da criança: é o princípio de tudo:
logo à nascença, para respirarmos,
uma palmada no miúdo.

Precisamos de chorar
e choramos sempre,
na juventude, mais tarde e
até agora, nesta hora:
do passado até ao presente,
pela vida afora.

O pior é o choro que não se ouve.
Aquele silêncio da dor interior
que nos rasga por dentro.
E sofremos sem amor:

Um choro invisível, indescritível.
Na psicologia algo risível:
Causa, efeito, vamos analisar
Que mestre para responder
a tão subtil forma de estar?

E chega a hora do adeus,
para todos e até ateus:
choramos na despedida
dos amigos que já sem vida
nos deixam a alma sentida.

Mas para que tudo acabe bem,
deixo um sorriso de esperança
que na psicologia valerá um vintém
depois do choro de uma criança.

Na psicologia aprendemos
que nada é absolutamente garantido;
muitos mestres, muitas vidas lemos
para um teorema ficar concluído.

E se a criança chora,
Será que não é apenas fome?
- diz este velho agora.
Temendo que por louco me tome
o professor, o melhor é ir-me embora.


Texto elaborado para ser dito na festa do final deste ano da Turma de Psicologia do  Desenvolvimento, sob o tema "O choro da Criança".

domingo, 13 de abril de 2014

25 DE ABRIL DE 1974


Onde é que estavas no 25 de Abril?

Ele naquele tempo era apenas um imberbe mancebo lançado para a vida – fora das saias da mãe – e que nada sabia sobre o que tinha pela frente. Ali chegado, cabelo rapado, diante do quartel, surgia-lhe assim abruptamente um enorme desafio, completamente novo e diferente e que tinha agora de ser capaz de transpor e superar. Era a nova vida do serviço militar obrigatório.
Entregaram-lhe uma arma que veio a reconhecer ser uma espingarda de guerra G3 e, com receio, guardou-a religiosamente no cacifo não fosse aquilo disparar inadvertidamente contra alguém. Aprendeu a manuseá-la e, mais tarde, foi até obrigado a desmontá-la e montá-la, peça por peça, de olhos vendados, com o objectivo de, em cenário nocturno de guerra, ser capaz de ultrapassar, sem ver, um encravamento ou anomalia.
 
Em exercício, perante as exigências, lembrava-se de sua mãe, chegando a pensar que se elas soubessem o que aqueles tipos faziam aos seus filhos, iam lá e batiam-lhes com certeza, tão cruéis, determinadas e difíceis eram as simulações de guerra a que tinham de se sujeitar.
Ali administravam-se duas especialidades principais: a de Policia Militar e de Atiradores da arma de Cavalaria. Os Polícias iriam ter uma vida mais facilitada: patrulhariam as cidades das colónias, sem conhecer os verdadeiros cenários de guerra, enquanto, por outro lado, os outros, os Atiradores, (caso dele), eram a classe menor que iria para as frentes de batalha, para o interior, e que seriam aquilo a que na altura se designava como “carne para canhão”. Face ao que viria a acontecer, acabaram por se inverter os papéis e os Atiradores acabaram por não ter actividade nenhuma (acabaria a guerra de milícias) e foram os PM que avançaram para “os campos de batalha”, nas cidades.
 
Três meses depois daquele primeiro dia, naquela madrugada de Abril, soou o grito de alarme em Santarém.
– Tudo a levantar e a reunir na parada, completamente equipados – gritou-lhes uma voz de comando irrompendo pela camarata adentro, acendendo as luzes e acordando toda a gente. Mais uma praxe – pensou-se – e, sem pestanejar, todos se vestiram rapidamente e se dirigiram para o centro da parada, preparados para algo que nunca imaginariam passar e que iria mudar radicalmente as suas vidas e os seus respectivos futuros.
 
Depois, estranhamente, foram conduzidos para um pequeno anfiteatro e logo de seguida entrou Salgueiro Maia que naquela sua voz forte, mas num tom calmo e muito expressivo, explicou clara e objectivamente o que se estava a passar e o que se pretendia, nomeadamente, acabar com a guerra no Ultramar. Por fim acrescentou que quem o quisesse acompanhar rumo a Lisboa que fosse completar o seu arsenal, municiando-se, e quem não quisesse poderia ficar no quartel, que ninguém seria penalizado por isso. Estavam lançados os dados.
Quando o instruendo C. Pereira ouviu falar na sua terra Natal, nem olhou para trás. Dali a pouco estava em cima de uma camioneta tipo Berliet do exército, sentado no lastro, com uma dezena de outros companheiros, abraçado à sua G3. Sem nenhuma experiência de guerra, carregado de balas e sem medo, numa viatura com uma arma metralhadora tipo Browning 12,7 no centro da caixa aberta da camioneta, partiu, madrugada adentro, rumo a Lisboa, sem perceber, minimamente, o que o esperava.


Página do Diário 25 de Abril de 1974               (Santarém, 27-04-1974, 18:00h)
Só agora tive possibilidades para esta página preencher. Uma página tão semelhante às outras, mas que se destaca porque hoje (25 de Abril de 1974) é um dia importante. E que serei eu capaz de dizer?... Poderei descrever tudo o que hoje vivi, mas em outra oportunidade o farei.
HOJE HOUVE GUERRA PELA PAZ.
Eu andei na guerra!
Houve um “golpe de Estado” e foi todo o exército que o desencadeou. Muita coisa se passou, mas agora estou incapaz de desenvolver. Posso é dizer que até este momento dormi ou não dormi como normalmente faria. Portugal é livre! Mas eu de política pouco percebo. Os jornais são bem expressivos e, basta dizer que “acabou-se a Censura”. Fala-se livremente e eu poderei falar livremente. Mas como disse, não sou político e posso apenas transcrever que Marcelo Caetano e Américo Tomaz estão exilados algures na Madeira. Entretanto, quer-se a Paz Colonial. Quer-se Spínola e tê-lo-emos no Comando do Poder. Eu hoje estive pelo exército e andei armado até aos cabelos por Lisboa. Entretanto, em outro livro “especial” direi integralmente tudo o que se passou e tudo o que eu vivi.
Carlos Alberto
Página do Diário 26 de Abril de 1974               (Santarém, 27-04-1974, 20:00h)
Hoje (26 de Abril de 1974) foi ainda um dia de sacrifício para mim e para todos aqueles que pelo MFA lutaram. Efectivamente, foi um dia mais descansado pois não fizemos mais do que ficar incomodamente instalados nas camionetas prontos para qualquer intervenção, sofrendo as inconstâncias do tempo que foi fustigador e da incerteza de cada momento. E em cada instante esperámos por uma ordem positiva, uma hora (ordem) de regresso e ela só surgiu no final do dia, quando esperávamos no RE1 na Pontinha voltar a Lisboa. Mas Santarém era afinal o nosso destino e quando soubemos respirámos profundamente (de alívio). E assim, 25 de Abril de 1974 ficará “histórico” (na história) pois houve e foi concretizada uma mudança no Regime Político que se mantinha há 50 anos. Portugal é, assim, livre! Agora esperamos é que este Portugal fique mais pequenino, mas mais seguro, acabando assim com a guerra colonial. Já muitos milhares de homens como eu morreram por aquela causa tão fútil como criminosa. Acabe-se então com “o opressionismo” (a opressão) e fiquemos libertos para uma vida mais sã e objectiva. Contudo, não abusemos da liberdade, pois a mim parece-me que já se está a exigir demais. E se assim continuar isto ainda vai dar mau resultado e quem acabará por rir são aqueles que algures na Madeira estão exilados.
Carlos Alberto
Página do Diário 27 de Abril de 1974              (Santarém, 27-04-1974, 20:15h)
Esta noite de 26 para 27 já a dormi no quartel. Deitámo-nos cerca das 3 horas, mas só acordámos pelas 10 horas ao som de alguém que nos anunciava que iriamos de fim-de-semana. Toda a gente se vestiu, toda a gente se preparou com sacos e toda a bagagem, mas tudo foi em vão porque afinal não haviam ordens (autorizações) para sairmos.
O dia de ontem, como já disse, passei-o em Lisboa dormitando ao frio e à chuva, incomodamente instalado numa camioneta do exército. Quando a noite chegou, contudo, houve o regresso à Unidade e, aqui em Santarém, fomos acolhidos com todas as honras. Houve palmas, (aplausos), buzinadelas, gritos de Paz, slogans como “O povo unido jamais será vencido” e gestos manuais formando o V de Vitória. E ganhou-se qualquer coisa, de facto, mas que eu ainda não apercebi. Aliás, até aqui eu e os outros só perdemos porque acabámos por perder a regalia que mais ansiávamos que era ir de fim-de-semana. Mas pode ser que para o futuro isto melhore. Para bem de todos, esperamos que sim!
Entretanto, o dia 25 em Lisboa foi deveras memorável. Foi um dia que, se puder, descreverei até ao mais pequeno pormenor, pois foi um dia em que se lutou pela liberdade e eu andei na guerra pela Liberdade. Lutei pela PAZ.
Carlos Alberto

Aqui chegado valerá a pena descrever o que reportei no tal “livro especial” que referi anteriormente:
Santarém, 28 de Abril de 1974 20:00 horas

25 de Abril de 1974 será por todos os tempos adiante uma data imperdoavelmente esquecível, aliás, impossível de esquecer, pois marca um tópico fundamental na vida de todos nós. A partir de hoje Portugal é um país LIVRE e, como livre, todos temos os mesmos direitos de seres humanos. Somos uma DEMOCRACIA. Somos GENTE, finalmente. E Portugal que precisa de evoluir poderá agora evoluir realmente. (...) Somos um país Comunista e, como tal, somos todos “filhos de Deus”. Mas será que isto de direitos está realmente definido? (...) Hoje é domingo e deveria estar em casa e estou aqui em Santarém, obrigado. Será que perdemos direitos, ou será que ainda não foram distribuídos? (...) Tive de estar nas formaturas das refeições, embora o resto do dia tivesse estado por minha conta. Acordei às oito da manhã e às nove saí a Porta d’Armas. Às doze voltei para almoçar e depois, de tarde, o destaque vai para o facto de ter ido à Tourada. (...) Eu e muitos militares estivemos na Praça de Touros de Santarém e foi através de um pedido que se fez para que os militares do MFA (Movimento das Forças Armadas) entrassem gratuitamente. Depois da animada corrida o regresso ao quartel para jantar. Agora já estou no café do costume a “Bijou” onde escrevo esta página. A favor do progresso.
E passo agora à descrição, (à minha descrição), dos acontecimentos que vivi nos dias 25 e 26 de Abril de 1974. Dias que serão para mim, em particular, inesquecíveis, porque vivi-os por dentro, na luta que levou este país à LIBERDADE e que esperamos que seja total. Confiemos nos homens e no futuro!
 
Era duas horas da madrugada escura do dia 25 de Abril de 1974 quando alguns furriéis irrompendo pela camarata nos acordaram dizendo ruidosamente para nos vestirmos rapidamente trajando o fato de combate. E, estranhando todo aquele alarido, resignámo-nos a vestirmo-nos enquanto nos debatíamos com a justificação plausível para aquele inusitado acordar àquela hora da manhã. E a que mais se ajustava, para a maioria, era de que iriamos ter uma das “praxes” da EPC.
Mas não, não era exactamente de uma praxe que se tratava. Havia era que salvar Portugal de se afundar no Atlântico. Havia era que nos integrarmos no Movimento de Libertação Nacional. E todos anuímos a tão alta iniciativa que, naquele instante, era ainda como que um sonho por despertar. E a seguir ao momento em que nos puseram ao corrente da situação, começámos logo a formar pelotões de combate. Depois, devidamente municiados, iniciámos de seguida a nossa partida rumo a Lisboa.
 
Assim, a partida para a capital processou-se depois das três. Na viagem pela noite, não me lembro sequer se fazia frio ou não. Lembro-me apenas que éramos nove e que me instalei no canto posterior direito do lastro da camioneta, de G3 em punho, com uma metralhadora Browning 12,7 Mod. 951 no meio de nós. A certa altura o alferes que nos comandava ofereceu-nos tabaco e aguardente e estranhando o meu silêncio perguntou-me porque é que eu ia tão calado. Respondi-lhe apenas que estava bem ali e me sentia bem instalado naquele canto traseiro da camioneta.
Lisboa era o nosso objectivo. Não sei quantos homens se viraram para ela, mas da EPC deviam ser talvez uns trezentos. Os carros de combate e viaturas blindadas deviam ocupar ao longo da estrada cerca de um quilómetro de extensão. E aquelas viaturas deslizavam, silenciosamente, sobre o rodar daquele que viria a ser o caminho que nos conduziria à decisão de usufruir aquilo que agora usufruímos.
 
A noite decorria e, enquanto uns descansavam na paz de uma noite tranquila, já milhares de homens se deslocavam e organizavam para uma surpresa que seria fatal para alguns daqueles. E quando acordassem já o mundo não seria o mesmo.
Quando chegámos a Lisboa (vínhamos a descer a Fontes Pereira de Melo o nosso comandante do Movimento, o capitão Maia, disse-nos que a Emissora Nacional e a Rádio Clube nos estavam a apoiar. Mais tarde foi a Rádio Renascença e a RTP. Não me recordo em que momento, mas lembro-me de ouvir no silêncio da noite, enquanto atravessávamos a cidade, numa rádio, a canção do Paulo de Carvalho “e depois do adeus” que soou como um sinal da Revolução. Os órgãos de imprensa passaram também a apoiar-nos e o mesmo se passou com a população quando tomou consciência do que se passava. No aeroporto da Portela já se haviam instalado tropas e, ao que à primeira vista nos pareceu, era que tudo estava a correr bem e tinha sido bem planeado. Tudo se conjugava. Chegados ao Terreiro do Paço instalámo-nos e distribuímo-nos estrategicamente pelo Largo. Eu fiquei junto ao cais dos barcos e tinha como função impedir a passagem das pessoas. Perante o aparato militar todos queriam saber o que se passava. Enquanto decorria a rendição e as conversações da luta pela Paz ouviram-se tiros. E o povo ali aglomerado junto ao Cais das Colunas, vindo da outra margem, ficou em alvoroço. Com estes disparos temeram o pior e todos se refugiavam de possíveis e graves consequências escondendo-se como que a fugirem de uma zona de iminente guerra de fogo cruzado.
 
Viviam-se ali momentos históricos, simultaneamente dramáticos, mas nem por sombras se supunha dos efeitos que estes haviam de produzir. Consumada a rendição dos Oficiais e a expulsão com êxito dos membros do Governo dos Ministérios, deixámos o Terreiro do Paço e, nas viaturas, dirigimo-nos nos para o Largo do Carmo.
Entretanto, por todo o país se faziam manifestações com este fito comum (o fim do regime) e, a pouco e pouco, Portugal ia-se transformando num país livre.
 
Ali no Largo do Carmo onde permaneci de arma em punho, houve mais debates (ultimatos/declarações de rendição) para dentro do quartel da GNR, mas que não surtiram efeito. Vários tiros de rajada foram então disparados na direcção do edifício. Entretanto já reparara que um pelotão de guardas da GNR no Largo da Trindade, armados até aos dentes, se preparavam para nos atacar. Mas não o fizeram. Ao mesmo tempo metralhadoras foram apontadas na direcção deles e acabaram por não resistir à inevitável rendição. Também me apercebi que alguns elementos da PIDE armados se escondiam nos edifícios de ruas contíguas e tentavam ocupar pontos de destaque para retaliarem. O mesmo terá acontecido com os elementos instalados dentro do quartel para defender Marcelo Caetano que se encontrava no seu interior. Mas após vários ultimatos e tiroteios de intimidação, sem resposta, lá consideraram a derrota suprema e consumou-se a tão esperada rendição (demissão do Governo).
 
Mas a tensão era grande e generalizada. População e militares, apesar de sermos milhares e a uma só voz, permaneciam ali angustiados sob um clima que era de pressão enorme. E de todo este Movimento de solidariedade quero destacar a simpatia e a unidade de toda a população ali reunida e que se dispôs a oferecer-nos alimentação e palavras de conforto e apoio que foram um importante estímulo, bastante positivo (diria determinante para não termos medo) para a nossa posição de defender a causa nobre e justa da libertação. Lembro-me ainda de ter pensado, quando vi os soldados da GNR perfilados e armados que, com certeza, eles não nos iriam atacar porque, do nosso lado, rodeados de milhares de civis, poderia haver ali também filhos deles, familiares e ninguém atiraria a matar sobre tanta gente, ou então seria uma tragédia. Isso aliviou-me um pouco o medo que a certa altura senti.
 
Mas todos estes épicos acontecimentos se situaram num tempo. Primeiro o acordar às duas da madrugada de 25 de Abril. (Só voltaria a deitar-me para descansar quarenta e oito horas depois).
Depois das três horas estava a caminho da capital e às seis e trinta da manhã estava a posicionar-me junto ao Cais das Colunas do Terreiro do Paço. Daqui, depois de consumada a rendição das forças da Ajuda (forças de apoio ao Governo), vitoriosos seguimos para o Largo do Carmo. Seria cerca de meio-dia e pouco quando iniciámos a marcha.

No Carmo estive em várias posições, mas aquela que mais me marcou foi quando estive na esquina da Rua da Trindade: primeiro com o receio que tive devido à presença dos militares da GNR no cimo da rua, depois porque era também ali que eu estava na hora em que houve os vários disparos contra o edifício do quartel.
 
No episódio da rendição propriamente dita, que terá durado cerca de uma hora, no fim a população ali reunida, apercebendo-se da situação, delirou eufórica com o desfecho e começou a cantar o Hino Nacional. Houve uma alegria indescritível naquele momento, muito entusiasmo e a consciência generalizada de que se vivera ali um momento histórico. E foi neste clima de euforia sincera, com muita disponibilidade por parte das pessoas, mas também de muita incerteza e tensão que se desejou que tudo acabasse depressa. E tudo acabou quando um carro blindado do exército entrou pelo portão principal, como que a confirmar o êxito da vitória. Soube posteriormente que foi nessa viatura que se transportou para fora do edifício, aquele que passou a ser o ex-Primeiro Ministro Marcelo Caetano.
 
Dali do Largo do Carmo regressámos às camionetas e partimos sem nos dizerem para aonde, tratando-se de informação secreta. Descemos então pela Calçada do Carmo até à Baixa, depois seguimos até ao Marquês de Pombal, depois Avenida da República até ao Campo Grande e em todo este percurso milhares de pessoas ao longo da estrada manifestavam-se acenando-nos efusivamente. Outros buzinavam dos seus automóveis e avisavam da nossa vitoriosa passagem. Pena foi a chuva miudinha que, entretanto, começou a cair. Porque nós, sobre as camionetas descobertas, fomos aí alvos fáceis da intempérie que acabou por nos fustigar cruelmente depois de tanto sacrifício e da nossa vitoriosa acção pela Liberdade. 
 
E Portugal era LIVRE e o “V” da Vitória surgia agora nos dedos das pessoas, surgia espontaneamente das mãos frias daquela gente que, inertes, nada podiam ter feito até aquele momento em que as cordas da opressão tinham finalmente cedido.
Afinal o nosso destino foi o quartel da RE1 da Pontinha e por ali andámos em contantes andanças para finalmente jantarmos e, depois, passarmos a noite. Mas a noite passámo-la ao relento a dormitar em cima das camionetas que nos transportavam. Com apenas um pano de tenda sobre nós tentámos assim proteger-nos do frio, do vento e da chuva que foi, a espaços, permanecendo até de manhã.
O dia 26 chegara e, sem fazermos nada, acabámos por ficar ali o dia inteiro, de prevenção. Almoçámos terrivelmente mal, as incertezas eram muitas, e tivemos de permanecer ali no quartel todo o tempo sem nunca abandonarmos as viaturas, prontos para qualquer intervenção. E foi deveras dolorosa a nossa permanência ali, exaustos. Todos desejávamos e implorávamos pelo regresso a Santarém, mas só quando a noite chegou se processou essa famigerada viagem. Todavia, só acreditei mesmo quando me vi na auto-estrada do Norte, mas mesmo assim, como o nosso andamento era lento, ainda duvidei do nosso destino. Mas graças a Deus a volta à EPC confirmou-se. Deixámos então Lisboa por volta das nove da noite e chegámos finalmente a Santarém cerca da meia-noite e meia hora.
 
A nossa recepção foi muito calorosa e eufórica por parte da população que nos aguardava. Mas estas manifestações espontâneas de solidariedade começaram logo no Cartaxo, pois desde aí até Santarém fomos “escoltados” por imensos automóveis que buzinavam ininterruptamente ao longo do percurso, sinalizando e alertando a nossa passagem. Já em Santarém surgiram mais palmas, mais flores (cravos vermelhos) e bandeiras nacionais. E foi aqui que eu ouvi pela primeira vez as palavras que se tornariam um ícone e de força para a população: “O povo unido jamais será vencido” E entre aplausos, gritos de alegria e buzinadelas ensurdecedoras foi-se ouvindo, repetidamente, a palavra Liberdade, Liberdade, Liberdade. 
Chegava então ao fim o nosso pungente sacrifício que, no entanto, obviamente, jamais esquecerei. E depois de tudo o que passei, tenho a certeza que cada vez mais me lembrarei deste fantástico, memorável e insólito dia 25 de Abril de 1974.
 
Entrámos as Portas de Armas da EPC e depois disso não sei o que se passou lá fora, mas parece-me que se juntou imensa gente que ali esteve até altas horas da madrugada apoiando o nosso Movimento e elevando o feito do nosso Capitão Salgueiro Maia. Eu deitei-me na minha cama do quartel, já passavam das três horas da madrugada.

Finalmente a minha cama, o contacto com os lençóis, o conforto de um colchão de espuma delineando os contornos do corpo; um contraste gritante com a dureza do chão de madeira, bem dura, do lastro da viatura do exército, que me tinha servido de encosto nestas últimas, difíceis e dramáticas quarenta e oito horas. Nunca o descanso me soubera tão bem.
 
Na manhã de sábado 27 de Abril acordei cerca das nove horas. Mas foi uma desilusão porque acabavam de recusar-nos a saída de fim-de-semana para irmos a casa, como esperávamos. Afinal, a recompensa de tanto sacrifício desmoronara-se e, desmoralizados, sentimo-nos todos muito frustrados com a decisão.
E é esta a minha descrição, em traços largos e sem qualquer intenção épica da minha participação, nos acontecimentos do 25 de Abril. Esta é a descrição de alguém que esteve no lado de dentro (hoje como herói, amanhã como traidor?) da Revolução dos Cravos, pelo MFA ao serviço da Escola Prática de Cavalaria de Santarém.
 
Entretanto, lembrei-me de um episódio que recordo com emoção e que foi ter encontrado na multidão, quando nos dirigíamos do Terreiro do Paço para o Carmo, um ex-colega de trabalho. Quando o vi, dei um pulo, gritei por ele e desatei a chorar quando ele se aproximou da camioneta. Circulávamos em marcha lenta e foi possível cumprimentarmo-nos e trocarmos breves palavras de circunstância e de Liberdade. E foi nesse sentido único de efémeras lágrimas de alegria que percebi que o ter encontrado, na minha cidade, alguém conhecido no meio da multidão, me garantia, na minha aparente apatia, a veracidade, perante os meus amigos, da minha presença ali.
Acabei assim a minha descrição aos meus dias da Revolução de Abril. Não está exactamente como o original porque achei a descrição um pouco “insipiente”. Mas estão aqui os pressupostos, o essencial para aquilo que pretendo mostrar sobre o que foi a minha modestíssima participação.
 
Há ainda uma carta que escrevi à minha família narrando os acontecimentos em que refiro que passei frio e fome além de ter ficado encharcado até aos ossos na noite seguinte. Escrevo que passámos a noite de quartel em quartel, entre a Pontinha e o Colégio Militar, sem pregar olho.
 
Para nos situarmos melhor, talvez valha a pena ainda acrescentar – porque pode ser importante dizer – que eu era um puto com vinte anos acabados de fazer. Não sabia nada da vida. Estava na tropa há três meses e frequentava, como Instruendo, o curso de sargentos com a especialidade de Atirador. Tinham-me posto uma arma na mão que mal sabia ainda manusear e que, talvez por isso, se explica porque na hora dos disparos contra o quartel do Carmo nenhum dos tiros foi meu.

Não gastei uma única bala. Assisti impávido e sereno ao rebuliço do soar das balas a esburacarem a fachada, enquanto um aterrador silêncio de incerteza e medo tomava conta de mim. Incapaz de perceber a assimilar todos aqueles incrédulos e inimagináveis instantes, mergulhei meu olhar apenas nas janelas envidraçadas à espera de ver agitar numa delas uma bandeira branca a acenar a rendição.
 
Outro facto interessante de que me lembro é do momento em que deixámos o Largo do Carmo e descemos pela calçada do Carmo. Eu instalei-me no mesmo lugar de sempre no lastro da viatura e, como que indiferente à história, permaneci sentado enquanto os meus camaradas se manifestavam em pé e retribuíam os aplausos das pessoas. Nesse instante pensei que eu, naquela posição, nunca iria figurar nas centenas de fotos que ilustrariam um momento tão relevante da nossa História. Decidi então levantar-me (para aparecer) e, incrivelmente e por acaso, descobri, uns anos mais tarde, num CD da DICIOPÉDIA, que o momento em que me levanto e permaneço de pé (em primeiro plano no fim da camioneta) está retratado no final do filme sobre o 25 de Abril (no minuto 6:00) com a saída das tropas descendo a Calçada do Carmo (http://youtu.be/ti8AsJZdbDU). Não é que sou eu mesmo! Incrível!
Carlos Alberto