terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Rio Tejo na Margem Sul

Há um novo filme em "imagens do Tejo". Decidi colocá-lo no separador:

Imagens da minha vida, olhares sobre tudo, aqui ao lado.


CA

Sapal de Corroios em Imagens



Aqui tão perto de casa a Natureza em estado puro.

Sapal de Corroios Slideshow: Carlos’s trip to Corroios, Setúbal (near Almada) was created with TripAdvisor TripWow!

Filme fotográfico aos Píncaros da Europa

Imagens ilustradas aos Píncaros da Europa


Viagem Aos Pincaros da Europa Slideshow: Carlos’s trip to 13 cities including Salamanca was created with TripAdvisor TripWow!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Passeio em família


Com a família no Portinho da Arrábida (Experiência fotográfica)

Família em Convívio Slideshow: Carlos’s trip was created with TripAdvisor TripWow!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

PÍNCAROS DA EUROPA - CAP VI

Eis, finalmente, o capítulo final da saga aos Píncaros da Europa, no norte de Espanha, efectuada em Agosto de 2012. Espero que gostem.


CAPÍTULO VI

Cidade de León, 9 de Agosto de 2012

São 08:25h e estou já dentro do autocarro que me levará até Lisboa. Arrumadas as malas, pela última vez, aguardo pela partida enquanto se espera por uns retardatários. Sentimos no espírito um certo sentimento de nostalgia que tentamos gerir com naturalidade.

Deixei para trás o Hotel Conde Luna, aqui no centro, onde dormi muito bem. Muito bem mesmo: tranquilo, desafogado, sem pesadelos, sem dores de cabeça e quaisquer sintomas de claustrofobia. Excelente quarto, na despedida.

Ontem deitei-me tarde (já esta madrugada: eram quase duas da manhã) e não me lembro de nada do que aconteceu depois de ter repousado a cabeça na almofada. Recordo-me apenas de me ter deitado, com o comando da televisão ter ligado a TV, a ter temporizado para trinta minutos e, a partir daí, como recebendo um analgésico, ter profundamente rumado a um lugar bem longe dali, dentro do meu inconsciente anestesiado.

O cansaço do dia de ontem não me deu tréguas e caí que nem uma pedra; como um anjo: adormeci voando num sonho de que não me lembro.

Hoje levantei-me, como toda a gente, às sete e trinta, na hora do despertar do grupo. Faltavam, no entanto, cinco minutos para essa hora quando acordei sobressaltado com um salto da cama, como se estivesse atrasado. Aliviado, percebi que tinha ainda algum tempo para saborear os lençóis aconchegantes que me abraçavam e o silêncio da manhã, mas rompida logo depois pelo telintar do telefone.  

Preparei-me e desci para o piso “P” para tomar um excelente pequeno-almoço. Contudo, como se estivesse zangado com todo o mundo, acabei por tomá-lo sozinho numa sala contígua, fora da área das mesas reservadas para o grupo. Senti-me, inexplicavelmente desorientado, como se não tivesse ainda acordado de uma estranha letargia. Infringidas as regras, apeteceu-me, no entanto, levar até ao fim a minha obstinação: tornei como natural a minha insolência, deixei confusos alguns companheiros de viagem que se cruzaram comigo sem perceber a minha irreverência e só emergi do meu ego depois de consolada aquela parte depois do esófago.

Porque a nossa sala ficava depois da zona do buffet, - onde me instalei - e que era a zona de entrada e passagem dos utentes vindos do hall dos elevadores, isso baralhou um pouco aqueles que chegaram depois de mim. Aos hesitantes, – da minha zona VIP – fui-lhes indicando para aonde se deviam dirigir.

As pessoas do grupo começaram a chegar, estão já a acomodar-se nos seus lugares habituais; o motorista do autocarro ligou a ignição, o motor começou a trabalhar e vamos arrancar daqui dentro de minutos para a nossa última viagem… aqui por terras de Espanha.

Será a viagem de regresso, a mais difícil, como alguém acabou de dizer em voz alta, porque também vai ser longa até lisboa.

Ainda no hotel cruzei-me com uma das “algarvias” que vinha a entrar para tomar o pequeno-almoço. Só agora? Perguntei. Atrasei-me, disse ela. E acrescentou: estive a pensar nas suas palavras de ontem no café. Estranha resposta. Intrigante mesmo para mim, pelo facto de alguém ter ficado a pensar no que eu descontraidamente dissera na tertúlia descomprometida de uma noite de despedidas, como se tivesse dado importância ao que eu referi, aos meus pontos de vista (sempre discutíveis).

Mas que terei dito assim de tão relevante? Lembro-me de ter falado em coisas gerais e em particular do amor, do seu significado e do que pode representar na relação entre duas pessoas. Lembro-me de ter dito que não basta haver amor, não basta dizer que amamos, não basta dizer que temos a melhor pessoa do mundo ao nosso lado, não basta sequer mesmo prová-lo em atitudes, porque o amor é algo que nos transcende. Nesta altura justifiquei com as palavras da psicóloga Cláudia Morais no programa “A tarde é sua” da Fátima Lopes em que eu fui protagonista na TVI
 http://www.youtube.com/watch?v=aeHf0IN3NVo e
http://www.youtube.com/watch?v=zAhB6SEm6Cg 
onde aquela psicóloga refere assertivamente que no amor “nós escolhemos, mas também somos escolhidos”. E esta é que é a pura, dura e crua realidade.

São 08:38h e cá vamos nós. Acabámos de deixar a frente do hotel. Está mais um lindíssimo dia de sol e céu azul com o visor do termómetro a piscar os 19ºC. Daqui vamos em direcção a Salamanca onde chegaremos daqui a duas horas.

Ficámos a saber também que vem aí uma onda de calor do sul pelo que temos pela frente um dia bastante quente. Mas que importa o clima quando nos sentimos bem e felizes usufruindo de algo tão bom como a disponibilidade de umas férias, algures pelo norte de Espanha?

Estamos na Autovia E-66 sem nenhum trânsito na estrada. Deixámos para trás as serras, o verde, a altitude e rolamos tranquilos com a nostalgia “de quem vem da festa”. A paisagem é plana, muito plana mesmo, a perder de vista, quer para um lado quer para o outro. É o amarelo que predomina. As colheitas de milho devem ter sido feitas e há grandes áreas completamente despidas sem nada cultivado ou, pelo menos, crescido. Vê-se aqui e ali campos de girassóis e zonas de pasto verde. É a paisagem típica do sul, sem a beleza que encontrámos para lá das serras e de León.

Agora é tempo de descermos à terra, à nossa condição humana consciente, tempo de encararmos a realidade do que somos porque o tempo do sonho acabou e ficou para trás, a florir para outras memórias.

Para a maioria dos que aqui vão este terá sido apenas mais um passeio, um tempo de descontração, de descoberta do prazer que uma viagem proporciona; uma forma de compensação pelo labor de um ano inteiro de trabalho. Será o regresso às suas vidas normais e da qual gostam e amam. Será o retorno ao conforto das suas casas, ao seu habitat do qual nem sequer abdicam por muito tempo, ou mesmo o reencontro consigo mesmos. Para mim, no entanto, a pensar nisso e nesta perspectiva, acabo por sentir-me um pouco deprimido e frustrado porque eu vou voltar às minhas humildes origens, sem o conforto que tive em outros tempos e, pior que isso, à minha triste e vazia vida de desempregado. Mas é vazia porque sou uma pessoa vazia.

Aqui há gente ciosa de ter amizades, de conviver, pessoas que buscam a felicidade em cada momento e que procuram aproveitá-la, que se integram e que aproveitam essa possibilidade, que exploram as oportunidades e, com elas, tiram ao máximo partido da vida que assim as preenche. E eu, onde é que estou?

09:40h na N-630 para Zamora. 20ºC. A paisagem não mudou muito. Planícies de um lado e de outro, ainda a perder de vista. Vêem-se algumas árvores de pequeno porte, muito certinhas no alinhamento por terem sido plantadas. Entrámos agora numa povoaçãozinha de casas muito velhas, mas não consegui ver o nome. Era tão pequena que quando dei por mim já tínhamos saído… Mais outra, muito rural, de casas rasteiras escuras e velhas. Villaveza, o nome desta, sem qualquer interesse que não seja agora unicamente situar-me no espaço e no tempo. Passei por aqui.

E aqui vou sentado no fim do autocarro dominando com a vista toda a gente que vai tranquilamente perfilada à minha frente e de costas para mim. Ninguém se levanta, ninguém faz barulho, vão todos muito sossegados e caladinhos. Cada um ordeiramente sentado no seu lugar, como de resto aconteceu em toda a viagem, sem ninguém a sobressair ou em qualquer manifestação de improviso. Apenas se ouve agora uma música de cariz espanhol, mas quase imperceptível.

Eu, viajando aqui atrás, fui sempre saltitando de lugar em lugar dominando estes nove assentos disponíveis e que praticamente fui ocupando, ora para desfrutar melhor da paisagem, para tirar fotos, ora para me refugiar do sol. Por causa desta mobilidade foi-me possível também tirar centenas de fotos, mas estou a preparar-me para só aproveitar metade. De facto, ou por não terem ficado bem, ou porque a máquina é boa e eu não sei lidar com ela, irão ficar algumas, com certeza, pelo caminho…

Estamos a 75 km de Salamanca na Autovia Estrada de Prata. A paisagem, idem, idem, planície e mais planície. E vou aqui a pensar com meus botões sobre o quanto efémeras são as sensações.

Conheci aqui pessoas nesta viagem, mas é como se eu tivesse medo delas e não me sentisse confortável com a situação. Tenho receio de me aproximar, não sou capaz de ir mais além, nomeadamente, trocar contactos, cimentar uma qualquer amizade, fazer com que este momento se possa prolongar para além dele. Fico frustrado comigo mesmo e esta força que me afasta das pessoas não é mais do que o reflexo de um complexo de inferioridade latente que estupidamente me domina. Às vezes ajo como se pudesse voltar a ver as pessoas amanhã, e amanhã logo tratamos de nos conhecer melhor. Mas não haverá amanhã nesta viagem. A verdade é que tudo vai acabar hoje e estas três dezenas de pessoas farão amanhã parte de um passado e dificilmente voltarei a encontrá-las de novo. E, como disse, a amizade que se criou, o espírito de grupo, acabará aqui.

Ainda há o pretexto de se trocarem umas fotos, provavelmente endereços de email, mas reconheço que sou demasiado “atado” (ou desinteressado). Fica-me sempre a sensação de que não vale a pena lutar pelas pessoas porque quando elas me interessam não me vão responder àquilo que espero, além de que não sou a sua escolha e, por isso, afasto-me de forma reptícia, como se não tivesse sido importante na vida delas.

São estes os meus devaneios interiores, juízos perdidos e realçados neste emaranhado de ideias que de forma fugaz me vão assaltando o espírito. Sinto-me a chocar contra o balanço do autocarro enquanto me abandono ao encontro da explicação de que há sempre uma razão para tudo, mas que me é muito difícil de interpretar. Levanto os olhos desta página, olho para fora e verifico que Salamanca está a 35km quando são 10:25h e lá fora estão 22ºC.

São agora quase duas da tarde, hora espanhola e estão só 33ºC, o que é fantástico quando se está “à sombra” de um autocarro com um ar condicionado a resfriar-nos os calores.

Salamanca ficou para trás e deixou-me a sensação de ser uma cidade muito bonita, tipicamente espanhola e dentro daquele padrão intermédio de riqueza arquitectónica. A Catedral destaca-se como o monumento ex-libris da cidade, mas o que mais apreciei foi mesmo a subida que fiz de cento e oitenta degraus até à cúpula do Edifício da Universidade Pontífice. Dali avista-se uma paisagem soberba de toda a cidade e podemos desfrutar de uma beleza magnífica até vários quilómetros adiante.

Chegado a Salamanca, saí do autocarro e não me “colei” a ninguém. De máquina fotográfica em punho corri para a Plaza Mayor e derivei depois para as ruas contíguas que me levaram até à Catedral.

A Catedral de Salamanca é um edifício imponente, soberbo mesmo, com várias naves e capelas interiores dedicadas a vários Santos. Interiormente circula-se por detrás do Altar e é muito parecida, em disposição à Catedral de Oviedo, embora sem vitrais, mas aqui também se tem a vantagem de não se pagar para visitá-la.

Ao longo do meu solitário passeio acabei por cruzar-me com a amiga Líbia “das vacas” que também resolveu distanciar-se do grupo com o pretexto de que “amigo não empata amigo”. Foi com ela que subi às torres da Universidade e acabou por ser com ela que almocei num café da Plaza Mayor onde comi a gosto uns “pinchos” e bebi uma refrescante “caña”.

E aqui vamos nós rumo ao destino final. E, neste momento, não digo que foi uma viagem de sonho, no entanto, ainda estou a tempo de poder torná-la num sonho de viagem. Na verdade, depois de a terminar, ninguém sabe que reflexos terá e como será o dia de amanhã quando estivermos a olhar para trás e a ponderarmos sobre tudo o que vivemos e sentimos.

E tudo isto porque ainda antes de entrarmos no autocarro para fazermos este derradeiro trajecto de regresso, e num último devaneio pela cidade universitária, como que para inalarmos um resquício de fôlego dos ares de nuestros hermanos, fomos encontrar sentada numa das dezenas de esplanadas existentes, na tal Plaza Mayor, ao lado de um seu familiar, a senhora professora de gestão e, logo a seguir, a outra sua amiga e colega também professora e que cujos nomes são aqui neste relato “top secret” pelas razões já mencionadas.

Havia por ali muita gente, muita actividade turística e foi com um prazer enorme que as reencontrei, mas também não seria uma tarefa difícil visto que estávamos todos muito próximos do ponto de encontro para o definitivo regresso ao nosso transporte colectivo.

E foi então agradável e muito útil este nosso encontro porque, além dos sorrisos de satisfação que trocámos, trocaram-se cartões com contactos mútuos para envio de fotos e afloraram-se ideias para futuras viagens, quem sabe, no futuro… As minhas novas amigas que viajaram desde o Algarve, uma delas na companhia do pai, mostraram-se muito disponíveis e muito habituadas a estas andanças.

Assim, no rescaldo desta aventura, acabam por sobressair estas novas três amigas, sendo que, a Líbia “das vacas” me pareceu uma mulher a quem ninguém engana, muito autoritária, autónoma e decidida e com quem não se consegue fazer farinha. Mora em Cascais e embora viva sozinha tem um namorado, mas com quem não partilha a casa. O epíteto “das vacas” advém da sua “tara” por objectos que simbolizem vacas, desde peluches de vários tamanhos feitios, a porta-chaves, passando por peças em loiça, aventais, ou autocolantes, artigos que não resiste em não comprar, se os vê numa loja ou em exposição. Ela diz que não se considera uma “acumuladora”, mas manifestou e presenciei, em diversas circunstâncias, todos os indícios sintomáticos dessa tendência de colecionadora de vacas.

Quanto às incógnitas professoras, uma delas viajou com o pai: um homem de estatura média, seco e muito rijo, com mais de oitenta anos que não transparecia a idade. Às refeições, cheio de apetite, vi-o a comer muito bem, em quantidade, mais do dobro do que eu, por exemplo. Com uma energia para dar e vender, nos percursos a pé nunca ficou para trás e manifestou sempre muita determinação estando sempre na linha da frente. Em todos os momentos, pelo que me deu a perceber, nunca se furtou na provecta idade e só mesmo à noite se retirava para descansar.

A professora de comunicação mostrou-se mais activa, ao nível da Líbia. Mulher de peso, fugia às escadas nas caminhadas, escondia-se atrás de uns óculos escuros, mas foi extremamente participativa nos diálogos, ao contrário da colega de gestão que preferia ficar na qualidade de observadora.

Em suma, tudo mulheres fora ou saídas de relações fracassadas, de idades a rondar as bodas de prata e para quem os homens são dispensáveis, embora possam ser importantes ou necessários nas suas vidas, meio ou totalmente solitárias.

São agora 14:35h e estão 35ºC lá fora quando estamos a cem quilómetros da fronteira. Neste momento e como sempre acontece nestas viagens, está a passar no ecrã do autocarro um filme publicitário sobre as belezas de Espanha. Nestas, incluem-se imagens do que acabámos de ver por estes dias, assim como se promovem outros lugares e as paisagens mais bonitas e características deste país. 

São 15:20h e estão uns quentíssimos 35ºC. Chegámos a Fuentes de Oñoro, fronteira com o nosso país. Mas vamos mudar a hora e atrasar os relógios. Já vi Portugal num placard azul com estrelas à volta. Passámos a rotunda e aproximamo-nos de Vilar Formoso. Passámos a polícia de fronteira e cá estamos nós na nossa querida terrinha. Felizmente já não há aquele protocolo dos passaportes, abrir as malas, declarar mercadorias, perder uma hora em burocracias, além das chatices que às vezes acontecem nestas circunstâncias.

Tem alguma coisa a declarar?

E aqui estão as nossas casinhas brancas (uma azul para chatear), mas as cores na paisagem já são outras. A qualidade das estradas muda logo, percebe-se só de olhar e a bomba de gasolina, a portuguesa, a portuguesa… fechou! Pudera, a cem metros mais à frente custa menos vinte/trinta cêntimos por litro. Ninguém resiste.

Curioso e estranho é o facto de, com as temperaturas a arderem e a aquecerem as nossas paisagens por todo o lado, aquilo que constato, aqui chegado e como apontamento final, é que relativamente à nossa passagem por Espanha não vi por lá um único incêndio. Não vi matas ardidas, nem a arder, ao contrário do nosso país, infelizmente, em que isso não aconteceu. Em Espanha vi tudo verde, árvores imensas, vegetação o quanto baste e nem uma única fagulha, um único foco de incêndio ou área ardida. Pode ter sido coincidência, mas a verdade é que fizemos mais de mil quilómetros e não assistimos a nenhum cenário com esse flagelo ambiental. 

Também me congratulo pelo facto de não termos visto um único acidente grave - infelizmente outro drama social - e apenas aqui em Vilar Formoso, no início da nossa viagem, na saída para Espanha e já no lado espanhol, vi um BMW de matrícula portuguesa com a frente meio destruída, consequência de um choque, provavelmente na pressa de chegar.   

Portanto, estou muito feliz porque correu tudo muito bem. Estive numa viagem agradável e muito proveitosa, incluído num grupo de pessoas cumpridoras e que seguiram à risca as regras e horários da organização, gente certinha e educada, que não levantou quaisquer problemas logísticos. E neste tipo de circuitos, isto nem sempre acontece ou é possível. À parte do que aconteceu apenas em Covadonga, onde houve divergências, foi, no entanto, algo que foi sanado no momento e que acabou por ser irrelevante face a tudo o que vivemos e ao tempo que estivemos todos juntos.

Outro destaque desta viagem, e do qual me apercebi com agrado, prende-se com o termos percorrido largas centenas de quilómetros em Espanha, com estradas excelentes, extremamente bem traçadas e sinalização bastante adequada e legível. Todavia e apesar disso, as autopistas tinham ainda várias saídas que, em caso de qualquer engano, nos permitiriam fazer, sem problemas ou constrangimentos, a inversão de sentido e o respectivo retorno. Os automobilistas têm assim rotundas que ladeiam as saídas, que se contornam e permitem voltar para trás para se seguir para a estrada que se pretende. De facto, muito funcional.

Outro pequeno detalhe que faz toda a diferença do nosso país é que, mesmo com muito melhores estradas que nós, em Espanha só pagámos portagem em dois ou três locais. Aqui em Portugal pagam-se portagens em tudo o que são autoestradas e vias rápidas, (inicialmente chamadas de “Scut”, ironicamente sem custo para o utilizador), o que não se entende.

Dizia o guia que, como agora se paga em tudo o que são estradas, mas como não há portageiros, para os estrangeiros constitui um problema acrescido e gera imensas dificuldades de logística. Até há pouco não havia informação adequada, nem sequer para dizer que as estradas eram tributadas. Agora já colocaram grandes painéis de informação advertindo dessa nova regulamentação e os estrangeiros são obrigado a parar na primeira área de serviço e comprar o “serviço” de pagamento de portagens nas diversas autoestradas e “Scuts” nacionais portuguesas, para não serem penalizados.

Pessoalmente creio que não são com medidas destas que cativaremos aqueles que nos querem visitar. Para mim seria à partida uma dor de cabeça e motivo desencorajador para visitar um país estrangeiro, nomeadamente se fosse em Espanha. Mas os nossos governantes têm todos uma grande visão e saberão o que andam a fazer…

São agora 15:20h, hora portuguesa, e 35ºC na área de serviço da Guarda, nossa penúltima paragem para desentorpecer as articulações e oxigenar o cérebro. Paragem técnica, como o guia gosta de dizer.

Bebe-se uma água, come-se um gelado e aproveitamos para alinhavar compromissos para a chegada. A Líbia sugere um bife na Portugália, na Praça do Chile. A professora que está sozinha propõe que seja no Parque das Nações porque se está mais perto do rio. Há a sensação de que ninguém quer que o momento acabe e assim se prolongue o passeio, deixando para mais tarde a dificuldade do termos que dizer “adeus”.

Mas a vida é mesmo assim. Há uma hora em que tudo acaba e voltamos à nossa humilde realidade de um trivial quotidiano. Vão-se os sonhos, as ideias, as intenções e, como a vida, tudo nos foge por entre os dedos.

Mas estou certo de que há aqui no autocarro meia dúzia de pessoas de quem me quero despedir de forma especial e com quem partilhei momentos muito agradáveis. Outras há, no entanto, que nem sou capaz de as identificar como pertencendo ao grupo, tão despercebidas me passaram. Portanto, há aqui espaço para todos os sentimentos possíveis e que consigo “diferenciar” no momento das despedidas.

Neste momento já estamos no caminho da nossa última paragem e que será em Abrantes ou Santarém, segundo nos informa ao microfone o Rui. E depois do filme promocional sobre Espanha que nos mostrou o quanto nobre é aquela terra remetendo o nosso país para um recato canto (onde de resto já estamos na europa), passa agora um filme zen, provavelmente para não pensarmos demasiado na chegada que se avizinha e nos frustrarmos com isso.

São 18:10h de uma tarde muito quente quer lá fora onde estão 36ºC, como aqui dentro com uma temperatura que nos vem da alma e nos aquece o espírito. Mensagens telegráficas que percorrem o autocarro desde o primeiro lugar até ao último onde me encontro e nos incitam à descoberta. Chegámos à área de serviço de Santarém.

”Aquilo que um homem sonha, realiza-se”, disse-me a minha amiga professora que viaja com o pai. E neste sentido, este relato de viagem exulta muito quer da paixão pela escrita, quer dos sonhos que vamos construindo.

Assim, as palavras percorrem recônditos labirintos onde nos cruzamos com fantasmas ou bruxas, príncipes ou piratas; percorremos mares longínquos e profundos nunca antes navegados ou calcorreamos caminhos onde nos surgem castelos com torres altas, mesmo muito altas, com princesas dentro que pedem para ser salvas.

Pela frente mundos desconhecidos à conquista. Palavras ditas se calhar, sem sentido, perdidas e achadas no coração, algures. Palavras que se assumem aqui e agora, nestas andanças de contornos indefinidos, indiscritíveis até, integradas numa componente de cumplicidade onde as amizades se realizam, concretizam ou crescem, conforme se verá. Mas as palavras não ficarão apenas nesta aventura. Irão mundo fora.

Aqui cabe também uma palavra muito especial a Luís Filipe de Abreu cuja amizade me concedeu e tive o privilégio de conhecer nesta viagem. É a ele, essa ilustre e hirta figura de cabelo e barbas brancas, porte erecto, simpático e seguro a quem devo este meu trabalho internauta.

Numa primeira ideia este relato teria apenas um carácter caseiro e não passaria do manuscrito. Todavia, LFA pediu-me para quando o tivesse terminado lho enviasse, se eu assim o entendesse, ao que respondi anuindo, com reconhecimento, ao pedido.

É pois um desafio que assumo com muito gosto, mas com responsabilidades acrescidas face ao(s) destinatário(s). É que, além de Luís Filipe de Abreu, sua esposa, uma fervorosa e dilecta admiradora de Eça de Queirós, esse vulto maior da literatura portuguesa, que já não me perdoou por não ter lido ainda “Os Maias”, mais depressa me ignorará, certamente, quando tiver nas suas mãos esta minha pequena obra. Embora sem querer ter pretensões a obra literária, mas apenas de que se trate de um relato e de uma perspectiva de viagem, espero que na sua leitura se identifiquem com ela e que seja, pelo menos, do agrado daqueles que comigo a partilharam.

Obrigado. Até à próxima!

Carlos Alberto


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

MEMÓRIAS DE 2011

Páginas Diário (2º semestre 2011)

Aqui vai, como prometido, a segunda parte dos meus melhores resumos do 2º semestre de 2011 de acordo, obviamente, com o meu critério.

Faço notar que será uma transcrição integral do que senti no momento em que escrevi os resumos e que não vou agora fazer qualquer alteração no sentido de subverter o que disse. Além de que o que escrevi é apenas o meu ponto de vista e é da minha inteira responsabilidade. Doa o que doer.
Carlos Alberto

 
Sábado, 23 de Julho de 2011 (Lisboa, 24/7 15:40h)
“Explodi”

Procuramos a felicidade, mas ela foge-nos por entre os dedos. Tentamos segurá-la com a outra mão, mas ela escapa-se-nos como fumo que se esvai e desaparece no ar. É uma tortura, uma afronta estúpida; queixas e mais queixas que nos rasgam por dentro. Num último recurso tentamos coser as costuras abertas, mas já não há volta a dar. A única solução possível é sairmos, irmos embora, esquecer que a felicidade nos atraiçoa. Talvez não seja esta a melhor solução. Talvez não esteja aqui a felicidade que busco. Sei que há condições: como um saco furado, que está roto, basta entrelaçarmos os nós existentes. Só que explodi como uma bomba. Aguentei o choro, mas não resisti. Voltei a chorar. Não sou feliz. Olho para a Cristina e ela fecha as portas todas. O seu conceito de amor é limitado, não é o mesmo que o meu. Eu procuro que a nossa relação dê certo. Eu tento juntar as pontas, mas a Cristina não tem resistência. Ela stressa com muita facilidade e temos poucos pontos comuns. Eu gosto dela, sempre o disse, mas sinto-me impotente. Sou impotente como homem (o que me agoniza) e depois sinto-me impotente para acudir ao seu estado desequilibrado. Fomos para a Costa onde almoçámos e fui conhecer a casa que ela adquiriu para a filha. Entrei lá dentro vestido como se fosse fazer uma cirurgia a alguém e depressa fui invadido por centenas de pulgas que me crivaram o traje. Estivemos a arrancar alcatifas e tomei conhecimento do espaço. No regresso, no entanto, algo é que correu mal. Uma manobra minha “normal” despoletou uma reprimenda, como se eu tivesse começado a conduzir há quinze dias. Passei-me. A conversa azedou, azedou mesmo, e pensei em ir-me embora. E estou a pensar nisso vezes a mais. Até onde aguento?

Carlos Alberto
 
Segunda, 8 de Agosto de 2011 (Lisboa, 9/8  12:10h)
“1ª Vez”

Há sempre uma primeira vez para tudo. Era para ser ontem, mas acabou por ser hoje. Tive algum receio que não aguentasse o balanço e o barco fosse demasiado agitado. As águas pareceram-me tumultuosas, mas com o afastamento para o mar alto o desejo de navegar aconteceu. E entrou-se quase no delírio. Não foi ir ao céu e voltar, algo paranormal ou edílico, mas creio que o capitão se portou bem, soube gerir as vagas e aportámos todos bem. Quer dizer, ficaram amarras a ranger e o nó não ficou apertado até ao fim, mas deu para gozar a brisa, a paisagem, saborear o gosto de um valente mastro de vela sempre hasteada. Foi uma boa viagem pelos prazeres de uma navegação nada solitária, vivida e repartida a três por tarefas bem definidas. Pude também por instantes saborear o leme, usufruindo do gosto do mastro, sentindo o calor de um motor firme de rotação constante e acertada. Duas horas de puro prazer navegando a “maruja” por águas nunca antes navegadas e sentindo o pulsar de uma força negra pelo final de um dia, mas aguentando sem enjoar as estocadas de uma vaga sempre compensada. Explodimos então, risonhos da viagem diferente e de certo para repetir lá mais para a frente. Para mim nada de novo. O dia acabou mesmo na cama, os dois, terminando uma viagem que começamos e dando lugar à narrativa do que foi viver a experiência nova. Um dia marcado assim pelo prazer misturado com o medo e a ansiedade. Mas depois do embarque tudo se foi normalizando e construindo como um castelo de sonhos, pedra a pedra, sem dramas, dentro daquilo que seria expectável e normal. Aconteceu, foi bom, longe do mundo, longe da multidão, quatro paredes com histórias dentro.
Carlos Alberto

Terça, 11 de Outubro de 2011 (Miratejo, 12/10  00:25h)
“Amargo de boca”

Há dias assim: em que nos sentimos impotentes, incapazes de rir, onde não somos nós mesmos. Dias que parecem que o mundo não avança, onde tudo nos parece adverso, e não temos capacidade para dizer basta. Dias de morrer, de ficar parado a olhar o nada. Dias em que mais valia não termos acordado e devíamos ter ficado na letargia do ser. Sim, caminhamos, as horas passam, mas os resultados são os mesmos. Nada nos espanta, nada nos acorda, nos trás à realidade do pobre que somos. São dias amargos, cinzentos, mesmo que o sol brilhe, brilhe até demais com as temperaturas melhores que no verão, estranhamente. A lua está cheia. O sol esteve lindo, todo o dia a bafejar de sorte todos aqueles que têm o privilégio de estar de férias. E é o céu limpo de norte a sul. E cá estamos nós, nem sequer aproveitando a vida. Ficamos aqui gozando sozinho e desejando o que não é comum ou normal. Ficamos no “nim” sem nada dentro para sorrir. O trabalho foge-nos sem glória. Os dias são negros, confusos, intrigantes. Estamos onde não queremos, temos o que não desejamos, somos o que não devíamos. Há gente com sorte. Eu perdi a minha num baloiço de criança. Caí no chão redondo como uma pedra que se lança contra o mar. Afunda-se num círculo interminável de círculos que se multiplicam até ser nada. E não sou nada, perdido aqui em palavras que não dizem senão que estou mal, confuso e amargo.
Carlos Alberto  


Quinta, 13 de Outubro de 2011 (Miratejo, 24:00h)
“Amargurado e só”

Dividido, perdido, esquecido pelo mundo. Não sei o que faço aqui e porquê aqui. Choro. No meu rosto há lágrimas. Serão de alegria? As histórias dos outros podem ser as nossas histórias contadas numa outra versão. Atitudes e consequências. Os filhos que geramos, depois não queremos; mas que amamos, mesmo que fruto de um amor desaparecido. E as lágrimas saltam-me  dos olhos e escorrem-me pela cara. A vida muda, acaba, tão efémera ela é. Vivemos para quê? É o Governo a pôr-nos a pão e água. Os empregos desaparecem, acabam, não há trabalho. Os comboios são uma arma, como as pontes, os gases. Pensamos em coisas parvas se o mundo nos abandona. Acreditamos, temos esperança, mas há um momento em que não percebemos nada. Perdemos o contacto com o que nos envolve. Estamos sós, tristemente sós e em busca do AMOR. É só isso que quero e não tenho. Olho para o lado e não vejo amor, mas apenas um momento circunstancial. Não há conforto, aconchego, o carinho que se sente quando se ama. Só vejo fagulhas no ar de um fogo que crepita, mas não embala, só ateia e preocupa. Estou amargurado e triste porque não sou nada nem tenho nada. Construí um castelo de areia à beira da água que se foi com a primeira onda. Sinto-me infeliz e incapaz de vencer o simples degrau, um salto de amor onde a paixão se manifeste. Mas estou só, dividido, confuso e sem horizontes. Não me sinto rodeado pelas pessoas certas. Não encontrei ainda o meu caminho, o caminho da felicidade que ainda busco.
Carlos Alberto

 
Quarta, 19 de Outubro de 2011 (Miratejo, 23:20h)
“Entre duas margens”

Aqui estou eu dividido entre as duas margens do Tejo. De um lado a cidade de Lisboa, a capital, uma cidade moderna virada para o turismo; deste lado a vertente campestre, rural, ainda que hoje erigida de prédios, elementos de betão que constroem este lado do Cristo Rei. Se em Lisboa predomina o fado, a luz, os monumentos, deste lado de Almada agita-se o mar com as suas praias, e a Costa marginada de areia branca que nos aconchega no verão quando deitados ao sol. São dois polos diferentes, duas canções que nos embalam, conforme o ritmo que queremos. Do lado de lá são os bares, a noite frenética, a cidade que não dorme. Do lado de cá assemelham-se alguns aspectos, mas privilegia-se a calma, o rio, a ponte que nos trás, o próprio monumento que de braços aberto nos acolhe deste lado virado para toda a margem norte do Tejo. Pelo meio também há os cacilheiros, hoje alguns transformados em catamarãs. Barcos que nos levam e nos trazem em ondulações de embalar com os olhos pregados num jornal, na miúda gira ou no próprio horizonte adivinhando o trabalho que nos espera, ou o jantar que nos põem sobre a mesa. Duas margens distintas, que nos separam da alegria ou do prazer, do sentir e do sofrer. São sentimentos que se dividem, partem e repartem e esteja onde estiver estarei bem, tranquilo, fazendo aquilo que é possível fazer. Do lado de lá é estar onde não tenho nada meu. Do lado de cá é estar no meu canto, mesmo que pobre e apenas seja realmente um canto, mas é meu…   
Carlos Alberto


Sábado, 22 de Outubro de 2011 (Lisboa, 23/10 10:40h)
“Momentos de felicidade”

A vida vale pelo seu todo, mas é feita de pequenos momentos que valem por toda ela. E, por isso, nunca vamos deixar de enaltecê-los e de ficarmos felizes por tê-los vivido. Na verdade a vida está cheia de contrariedades, coisas que nos apoquentam e aborrecem, coisas que nos martirizam e nos ofendem; mas por outro lado há os momentos bons que devemos, sim, valorizá-los e deixar que superem e que nos façam sentir bem e recompensados. E se a felicidade está dentro de nós é bom trazermo-la cá para fora e que ofereçamos aos outros um pouco dela.  E é bom quando partilhamos, quando estamos ao lado de alguém e transmitimos esse bem-estar, essa paz, essa harmonia. E nada melhor do que estar sentado numa esplanada, à beira mar, no crepúsculo do dia, com o sol vermelho de fogo a esconder-se nas nuvens e afundando no oceano estranhamente calmo e dourado. É muito bom sentir o abraço de alguém, o conforto de uma carícia, a felicidade de um belo momento partilhado naquele instante mágico, tão efémero quanto toda a vida, e saboreá-lo com a tranquilidade de quem espera, mesmo na espera do nada, mas apenas de quem saboreia o tempo e a brisa da tarde que sopra amena, num aconchego que nos acalma. Foi assim hoje, sê-lo-á amanhã, se Deus quiser; se a vida nos permitir. Com a Cristina ao lado, os projectos dela são muitos: a casa da Costa e a nossa vida, o nosso espaço, o nosso futuro. Como vai ser amanhã, não sei. Só sei que os momentos são bons e quero guardá-los para amanhã sorrir de novo quando me lembrar deles.
Carlos Alberto
 

Sábado, 19 de Novembro de 2011 (Peniche, 23:30h)
“Com o mar em fundo”

Um quarto de hotel, o silêncio da noite com o mar em fundo. Chega-nos o som das vagas constantes que nos embalam o sono. Não há nada além do cansaço. Um passeio pela praia, outro pelas arribas pedregosas com vista para os “mosteiros” que se erguem em esquemas naturais, pedra sobre pedra, em figuras estranhas de rochas acamadas. É o mar e a violência das ondas contra as rochas que nos despertam os sentidos pela magnitude que ele tem. A espuma dissolve-se no ar em espirros brancos de sal que nos salpicam. É já o final da tarde. O tempo até parece que parou. Os dias, no entanto, já são pequenos, mas o tempo sobra-nos até para não nos apetecer jantar. Interessa mesmo é andarmos de mão dada, dois namorados felizes que têm o privilégio de se gostarem. Depois é o porto com as ondas quase a cobrirem o molhe em vagas que nos assustam. A noite já caiu, embora sejam apenas seis da tarde. Não há mais nada para fazer, só sentir. Sentir o prazer de estarmos. Não há mais nada nem vontade. A cama abre-se. A TV é fraca, mas o cansaço, este cansaço incompreensível atira-nos para o sono. Não temos disposição nem para o Amor. As camas são separadas. Ainda nos deitamos juntos, mas a Cristina prefere a sua cama e enrosca-se do outro lado com as suas almofadas e desaparece lá ao longe entre lençóis onde se afunda pela noite adentro. Eu, sinto-me bem, apesar da azia do almoço que me vem à boca de vez em quando. Agora vou tentar dormir, mas já não tenho o sono que preciso para isso. Vou tentar embalar-me também nas vagas que veem do mar.
Carlos Alberto

 
Terça, 6 de Dezembro de 2011 (Miratejo,  21:50h)
“Aqui está um falhado”

Caminhamos a passos largos para o Natal, mas eu ainda não sinto isso. O Natal deixou de ser para mim aquilo que era. Vivia o Natal como o verdadeiro elo de ligação da família: o nascimento de um filho. Hoje não tenho uma família, um lar, uma casa. Sou um homem dividido que quer apenas ser feliz, mas que nem sequer completa ninguém. Não sou marido, não sou namorado presente sempre, não sou um pai a não ser a espaços. Sinto-me um pouco frustrado e acho que falhei como homem, como pessoa, como marido, como pai e mesmo socialmente. Não consegui fazer nenhuma licenciatura e sobrevivi sempre à custa de muita sorte. Ainda hoje sou um homem de sorte, um privilegiado, mas nem isso faz de mim uma pessoa importante, especial, com valor. Não consegui construir nada e esta frase já não é a primeira vez que a escrevo. Sou um homem que falhou na sua vida. Não fui capaz de atingir um sério objectivo e de fazer alguém verdadeiramente feliz. Por causa do meu egoísmo continuo assim repartido por entre duas casas sem pertencer a nenhuma. Não tenho nada meu. Tenho três filhos, mas não fui capaz de ser um pai capaz de desempenhar o seu papel. O Natal está aí, mas o espírito da família perdeu-se, ou eu perdi. Não tenho o prazer de fazer a árvore, enfeitar a casa com luzes, ver os olhos dos meus filhos a brilhar de alegria e tornar numa verdadeira magia esta fantasia do Natal, do Pai Natal, dos presentes. Sou assim hoje este homem frustrado, um homem triste por não ter sido capaz de ir mais longe, como devia e podia e deixei morrer a luz que cintilaria no presépio.
Carlos Alberto

 PS: Dizer apenas que fiz ligeiríssimas alterações muito pontuais nalguns textos, ou para lhes fazer alguma correção gramatical ou dar mais ênfase ao assunto.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

PÍNCAROS DA EUROPA - CAP. V


CAPÍTULO V

Oviedo, 8 de Agosto de 2012

Acordar hoje foi mais fácil... dormimos até às oito da manhã e saímos do hotel às nove. Para trás o pequeno-almoço, igual ao de ontem. Não dispensei o melão com presunto. Pode parecer disparate, mas é algo que me sabe muito bem e não abdico. Adoro presunto e aqui este produto é de altíssima qualidade e aproveito, enquanto posso.

E fui o último a chegar ao autocarro. Tive companhia à mesa do pequeno-almoço e apesar de me ter adiantado, acabei por me atrasar com a conversa. Assim, às nove e cinco estávamos a partir e já com a introdução na nossa viagem, da guia local espanhola, a Elvira, que nos vai mostrar alguns dos locais recomendados e característicos aqui da cidade de Oviedo.  

É suposto os guias falarem connosco em “portanhol”, mas de facto é em castelhano/galego que se expressam. Todavia, nessa combinação de línguas até se conseguem fazer entender bem. Pelo menos nós percebemo-los.

E saímos rumo a umas edificações históricas, no limite exterior e superior da cidade e que remontam à fundação de Oviedo, há 1200 anos atrás.

Subimos por umas ruas, através de uma zona de moradias e encontramos um parque de viaturas onde o autocarro estacionou. Saímos do autocarro e caminhamos, a pé, por um caminho a subir, de terra batida, até chegarmos a uma zona ampla de onde já se tem uma pequena panorâmica da cidade. Aqui, no meio de um amplo e descampado largo encontramos a Eglesia de Santa María del Naranco.

É um edifício pouco parecido com uma igreja tradicional. Situado numa zona isolada, é um edifício de dois pisos. Inicialmente serviu de Palácio Real para convívios e banhos e depois foi transformado em Igreja, estando hoje catalogado como tal.

Dali e depois, subimos mais um pouco e situado a cinquenta metros mais acima neste morro, encontramos um outro edifício que é a Eglesia de San Miguel de Lillo. Esta pequena construção resume-se hoje a uma pequena capela já um pouco degradada pelo seu interior e onde, em outros tempos, Rei e Rainha assistiam aos cultos.

É um edifício com muitas limitações, que se encontra encerrado e que só é visitado com marcações atempadas. Transposta a porta dupla de verga em arco desta capela, deparamo-nos com uma pequena câmara em cruz, onde mal cabem todas as cerca de trinta pessoas e onde nem é permitido fotografar. É quase um cubículo de uma nave, com paredes alta e velhas caiadas e com inscrições imperceptíveis.

Concluídas as visitas, ficámos também a saber que estes dois os edifícios pertencem ao século IX, são considerados hoje Património Mundial da Unesco e daí a sua importância nos roteiros turísticos desta cidade, assim como visitas obrigatórias para quem a visita.

Cá fora, deste ponto alto tem-se também uma interessante panorâmica de parte da cidade de Oviedo onde se inclui ao longe o Palácio de Congressos.

São 10:40h, estão 21ºC, está bom tempo e vamos já em direcção ao centro da cidade. Pelo caminho a Elvira vai dizendo-nos que “cu molhado” e “carvalhão” são termos pejorativos para os Gijones e Ovetenses, respectivamente, cuja rivalidade parece ser latente.

São agora já 14:30h e terminámos a nossa estadia aqui em Oviedo. Fiquei com muito melhor impressão desta cidade. E depois de ver o que acabei por ver, achei-a mais interessante, com mais vida e historicamente mais rica e interessante do que Gijón. De facto, desde a interessante e imponente Catedral às estátuas quase (e/ou) em tamanho real que proliferam pela cidade, Oviedo tem, efectivamente, muito mais carácter e não é comparável a Gijón. Agora percebo melhor a opção Oviedo em detrimento de Gijón neste passeio por parte da empresa promotora deste circuito turístico.

Com o passar dos dias, (e estamos já no quinto dia do passeio) vamos interagindo mais com os nossos companheiros de viagem.  Eu que não sou de muitas palavras fui-me cruzando sucessivamente com outros passageiros, trocando aqui e ali alguns comentários circunstanciais, e naturalmente, nestas abordagens também nos fomos aproximando mais.

Esta interacção gera, obviamente, empatias e simpatias, vamos descobrindo interesses e algumas afinidades, e, por fim, começamos a sentir pena por sabermos que daqui a dois dias estaremos todos em mundos e realidades completamente diferentes e tudo pertencerá ao nosso passado. E a vida é mesmo assim: tudo é efémero e se esgota de um momento para o outro.

Entretanto, com a minha mania das análises subjectivas, tento interiorizar o que vale cada um dos meus companheiros de viagem e, sumariamente, constato que o nível intelectual de grande parte das pessoas que aqui vão é muito alto, acima da média. E, de facto, nem se trata sequer de uma viagem de cariz determinantemente cultural. No entanto, a verdade é que este grupo será maioritariamente constituído por professores universitários, gestores, doutores, artistas plásticos, e… “escritores”, tudo gente muito fina (lol).

Aqui é para rir (por causa do “escritores”). Para quem não sabe e não faça a confusão que já alguém fez, “lol”, em inglês, é o acrónimo de “laughing out loud”, que à portuguesa se poderá traduzir por “rindo à gargalhada”, ou “rindo muito alto”.

Haverá de tudo um pouco, até nos sentirmos infimamente pequenos quando confrontados com simples estilos arquitectónicos de arte como o Renascentista ou o Maneirismo ou a Barroca ou outros estilos das quais pouco sabemos.

Quanto aos “escritores” – não por mim – abro aqui um parêntese para dizer que fará sentido, não sei, mas tem aqui total cabimento incluir, a saber: alguém nesta viagem – que não eu – foi empunhando, nas várias visitas guiadas que fizemos, um bloco de notas onde ia apontando muitos dos detalhes e aspectos que os respectivos guias locais iam referindo. Eu, já agora, escrevi grande parte destes textos apenas enquanto o autocarro circulava – conforme assinalo nas horas que referencio – ou desenvolvia-os quando, chegado ao hotel, à noite, reflectia sobre o dia vivido. Portanto, muita gente, muitos estilos, muita diversidade de tendências, muita cultura, muita sabedoria e muita audácia (a minha).

Reparamos assim o quanto ignorante somos face a conhecimentos primários que deveríamos ter e que são parte da nossa própria História. Neste particular ocorre-me citar uma máxima antiga que diz: “a cultura é aquilo que resta depois de termos esquecido tudo o que aprendemos”.

Imiscuímo-nos assim nos assuntos da cultura como se fossemos capazes de aguentar e de nos igualarmos, quando só nos resta a simpatia para compensar a ignorância que nos atravessa o espírito. E, no entanto, sentimo-nos felizes por podermos ter o privilégio de partilhamos o passeio e o tempo livre num salutar convívio de veraneantes com algumas pessoas muito especiais e que nos orgulhamos de conhecer.

Assim, nesta miscelânea de cruzamento de pessoas, géneros e culturas, como que numa derradeira tentativa de nos desinibirmos face às ideias e conceitos que temos dos outros e de nós mesmos, alarguei os meus horizontes e, quase num último esgar de viagem, ultrapassei os obstáculos que criei e parti à conquista de novos denominadores.

E se ontem almocei com o casal Abreu, hoje estive com outras pessoas e, neste caso, incluí-me em outro grupo de professores, estes do Algarve e cujos nomes não fui autorizado a revelar porque são da Universidade e os alunos muito “intrometidos” nos assuntos que não lhes dizem respeito…

Visitámos ainda o mercado do centro da cidade, fizemos compras para oferecer aos amigos e convivemos na cumplicidade possível. Por momentos senti-me repartido por outros grupos que também por ali partilhavam aqueles espaços, enquanto todos esperávamos pela hora de sairmos.

São 14:40h e com 30ºC termino o passeio e digo adeus aqui a Oviedo: até à próxima! Enquanto a León atiro: aqui vamos nós!

Rumámos a León pela autopista E-66. Temos à nossa direita uma serra bem verde e íngreme com vários picos de vários tons de verdes reflectidos pela luz do sol e que se prolongam até um vale bastante largo. Árvores, muitas árvores pequenas de copas baixas e que se distribuem serra acima. Há taludes com pregagens nalguns locais para susterem a inclinação perigosa de taludes quase verticais, mas de aspecto cinzento velho que se confundem com a vegetação.

O autocarro vai num silêncio absoluto. A rádio raramente se ouve agora. Há pessoas a dormir, o que também não me admira depois de um repasto bem apaladado. Cada um saboreia a viagem à sua maneira.

E devemos estar bastante acima do mar, a alta altitude, porque senti os ouvidos a estalarem da diferença de pressão, como se estivéssemos bem acima, em pleno voo.

Passámos dois túneis, o que de resto parece ser comum nesta zona elevada do norte de Espanha, atravessando montanhas, e agora um terceiro mais curto.

O sol continua intenso e o céu está salpicado de nuvens altas que nos oferecem imagens imaginárias que vou fotografando. De máquina apontada ao céu pareço meio tolo em busca de algo que invento no olhar:  um pássaro branco.

Um túnel, este com mais de quatro mil metros. Estou a escrever às escuras e interrompi a escrita porque vejo apenas aos repelões, como se se tratasse da luz intermitente de um farol de rotação acelerada. Aqui, na verdadeira acepção da palavra, posso dizer: já vejo uma luz ao fundo do túnel.

Vamos sair das Astúrias e entrar na província de León e Castilla. Uma nova etapa. Acabou a verdura da costa Cantábrica; serra à vista, inóspita e clara.

São 16:15h da tarde e chegámos a León. Uma tarde quente de 32ºC. Vou sair do autocarro para o hotel e perceber se hoje tenho mais sorte do que tive nos dois últimos dias. E tive. “Não há bem que sempre dure e mal que nunca acabe”, apetece dizer.

Este quarto do Hotel Conde Luna é muito bom, tem excelentes condições e até tem vista sobre parte da cidade. Colocaram-me no 8º andar, e da varanda a que acedo, o meu olhar projecta-se por cima de uns telhados de uns prédios em frente, mas desafoga-se ao longe em vistas de uma segunda linha de mais prédios de tons e alturas que não ferem a paisagem citadina. O quarto de aspecto muito confortável com uma cama enorme e a casa de banho ampla e muito funcional, tem tudo o que é comum os quartos de hotel terem.

Entretanto, entrei e saí do quarto sem me deter em mais detalhes. Larguei o malão vermelho sobre a banca em estrutura de madeira para as malas e saí para ter tempo de visitar ainda a Catedral de León com os seus milhentos vitrais, antes que encerrasse.

Deram-me uns auscultadores para acompanhar a visita, mas tive que me entender em espanhol, visto que apesar da nossa proximidade as opções eram piores, tais como o inglês, francês ou alemão, entre outras; português népia.

 E a Catedral de León é, de facto, um espaço muito bonito, interessante, mesmo majestoso, mas confesso, cansei de tanta Igreja, capela, santos e mais santos. Entro e não sinto, como devia, a fé e a importância dos lugares. Entro nas Igrejas como um simples turista de ocasião para tirar umas fotos, se puder, e pouco mais. É triste que assim seja e que me limite a ter este sentimento, sendo eu um cristão cada vez mais distanciado da sua Igreja: talvez o resultado da decepcão que sinto pela vida, ainda que vá acreditando em algo superior.

Depois não entendo nada da arquitectura religiosa ou histórica, sou um leigo, como um burro a olhar para um palácio, sem entender traços, características, perceber nomenclaturas, ícones ou o que quer que seja. Olho sem ver; não sei tirar partido da cultura que aquelas paredes revelam, limito-me a apreciar sem compreender o que a história conta. A ignorância, quando reconhecida, magoa.

Visito então a Catedral no tempo que me resta, antes de regressar para a hora do jantar. Dou ainda um giro pelas ruas circundantes e procuro encontrar mais do que a principal Igreja nos transmite. Entro noutras pequenas igrejas. Procuro também descobrir a cidade, os seus recantos e até faço compras.

As fotos que são também o meu hobby nesta viagem, aqui em León juntam-se mais umas dezenas ao conjunto. Procuro fotografar não apenas o que todos fotografam, mas encontrar no que vejo um olhar de imagens que possam fazer a diferença. Infelizmente, não sou um perito e nem sempre consigo tirar partido daquilo que poderia ser uma excelente fotografia.

 Já no hotel, sempre a correr, porque as horas passam depressa, ainda tomo um banho para me sentir melhor, e desço com roupa e cara lavadas.

No piso inferior à recepção chego a um salão imponente de mesas redondas cobertas de toalhas brancas. Está tudo pronto com talheres e pratos dispostos em frente de cadeiras altas. Sento-me indiscriminadamente numa delas, numa mesa próxima da entrada. As pessoas vão chegando e sentam-se nos lugares disponíveis das quatro grandes mesas de oito pessoas. O casal Abreu atrasou-se e, inexplicavelmente, tiveram de se sentar em mesas separadas. Comigo seria impensável, nem que me tivessem de improvisar uma. Todavia, na sua simplicidade, preferiram não levantar problemas e, em silêncio, não partilharam juntos aquela que foi a última refeição do grupo.

 Já eu tive mais sorte na mesa que escolhi. Aqui, à sua volta, contaram-se histórias anedóticas, na primeira pessoa, sobre as mais diversas distracções de um casal em particular. Foi um rir à gargalhada entre garfadas de uma refeição bem apaladada.

O grupo distribuíra-se por quatro mesas, mas esta foi a mais “galhofeira”. E diverti-me bastante com estes inesperados comensais que se haviam sentando aleatoriamente, conforme iam chegando. A animação e o riso prevaleceram desde o prato de Jardineira que chegou primeiro ao das fatias de lombo assado com batatas – que estavam deliciosas – que comemos depois. No fim ainda houve espaço para uma sobremesa gelada com tarte. Tudo muito bom.

Mas a noite de convívio não havia de terminar naquele jantar. Depois do repasto juntei-me a um grupo de três mulheres da comitiva: nomeadamente, à Líbia “das vacas” e a mais duas professoras de origem algarvia, cujos nomes que não me ocorrem agora, mas como já referi antes também não os poderia mencionar.

Aqui chegado, estou, de facto, velho, cansado… e esquecido. Saímos do hotel com a perspectiva de irmos a um bar beber uns copos. Afinal, caminhámos cem metros e fomos sentar-nos numa esplanada à frente da Catedral (eu de costas para esse monumento) e ali ficámos a noite toda, até há pouco em conversas cruzadas. E são agora 01:30h.

À mesa da esplanada, foi um tempo de diálogo a quatro que acabou em conversas de amores antigos, entre outros assuntos transversais a todos. Pude aperceber-me, no entanto, que as minhas novas amigas são todas muito viajadas. Todas elas já calcorrearam essa europa fora, e eu, por outro lado, mais uma vez, senti-me uma insignificante molécula de partículas de papel de quarenta gramas que não deu nada de si à vida.

Limitei-me a vivê-la, sim, mas sem lhe dar nada em troca: um motivo, um trabalho, uma obra. E é isso que me entristece. Não ser nada, não ter obra feita. Olhar para essa gente tão culta, tão formada e informada e compreender porque eu estou onde estou e as pessoas são o que são, têm as experiências que têm e vivem bem, como vivem.

E pronto, é neste lamento repisado e de fragrâncias que exalo com o prazer efémero de uma noite à luz da Catedral que assim chego aos derradeiros minutos de convívio nesta viagem.

Regressámos os quatro pelo mesmo caminho ao Conde Luna sem termos desfrutado mais do que apenas aquelas inesperadas conversas de ocasião. Distância curta, por sinal, numa noite excelente em que só mesmo o conforto do hotel nos rouba a vontade de continuar por ali e prolongar aqueles momentos por mais algum tempo.

Meio deitado já, sobre esta enorme e confortável cama, respiro o aconchego de um abraço imaginário sobre mais este dia vivido aqui em León. Quero, no entanto, adormecer sobre as palavras que me vão embalar no meu sono e não pensar muito na ideia de que esta será a última noite dormida em hotéis de quatro estrelas. Quero absorver intensamente este último folego e não pensar no regresso à minha “pensão Josefina” e ao pequeno quarto que me abriga, o quarto onde minha filha mais velha cresceu, mas a cama não.

Vou querer saborear até à distância infinita de uma estrela, a tranquilidade serena de uma noite que quero que seja única, por ser a última. E enquanto o meu olhar se entreolha e se turva entre mantos lácteos de um universo de lençóis brancos que me abraçam, escondo a minha solidão em frígidos rugidos de um amor fugidio que não sinto, que não vejo, que não existe.

Vou assim neste embalar de sonhos acrescentando pensamentos às minhas ilusões e na vontade de procurar adormecer, não pensar muito que amanhã será o derradeiro dia. Aquele em que, depois de acordarmos, saltarmos do último despertar e sairmos daqui, restar-nos-á a viagem de regresso, onde terminaremos em solo Luso, na Avenida João XXI, na nossa cidade, em Lisboa à porta da Lusanova.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

BOM ANO 2013

Boa tarde amigos

Estamos todos a poucas horas do final de mais um ano e quero aqui deixar umas últimas palavras antes de o deixarmos.

Não tenho nada preparado, nem discursos. Aquilo que tenho para deixar aqui são apenas palavras de esperança que quero para todos. Palavras que pretendo que sejam de Amor, apesar de nesse capítulo ter sido bastante penalizado neste ano. Deixar, no entanto, palavras de gratidão por aqueles qe se esforçaram por manter a sua amizade por mim. E foram poucos, confesso. Mas tenho aquilo que mereço e não me queixo.

Sei que sou uma pessoa ruim, pouco sociável, mas não o faço por mal. Na verdade sou uma pessoa muito frágil e que se mostro rudeza e antipatia é apenas para esconder a minha sensibilidade para com o amor que sinto pelas pessoas em geral. Sim, não faço fretes, nem me obrigo a gostar de todos. Normalmente a indiferença é recíproca. Mas regra geral procuro ser amigo.

É habitual dizer-se que "se é amigo do amigo". Eu não fujo à regra, mas difícil é sermos amigos dos nossos inimigos e isso eu não sou, apesar de não semear também a discórdia e preferir manter a harmonia, mesmo que a certa distância.

Finalmente dizer que espero ter um BOM ANO de 2013, apesar dos maus presságios que se ouvem todos os dias, e pode ser que hajam mudanças profundas que me marcarão decisivamente.

Tenho dito nos últimos tempos que "hei-de ser feliz, não sei como, nem onde, nem com quem, mas hei-de sê-lo". Pois meus amigos, estas palavras nunca estiveram tão próximas de se concretizarem e espero que nesse dia, não apenas eu, mas várias pessoas à minha volta, possam não só testemunhá-lo, mas partilhar comigo esse momento.

Obrigado.

Carlos Alberto

PS: Quero pedir desculpa a todos aqueles que, por uma razão qualquer, tenha ofendido ou feito sofrer, porque não é essa a minha intenção de vida. A minha Mãe ensinou-me que O AMOR VENCE SEMPRE, é isso que eu prefiro partilhar com TODOS.







quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

NOITE E DIA


Dentro da noite fria
o ruido fustigador da trovoada
e do vento que sopra forte
e leva os sonhos da gente
que não dorme.
 
Um raio que chega
ilumina o Mundo de um Homem,
mas logo se apaga
e como a vida
escoa-se para a terra.

A chuva cai impiedosamente
e consigo arrasta a vida.
As árvores declinam-se
beijam o chão as folhas
mortas pelo tempo:
As cancelas dos quintais
chocam nos batentes dos trincos;
as portas estremecem;
os olhos nas janelas
refugiam-se…
por detrás das cortinas
o medo alastra-se,
as pessoas apertam-se
e na face de cada um
o retrato vivo
da miséria pungente.

A chuva aumenta persistentemente,
os relâmpagos desencadeiam-se
no espaço as árvores tombam,
as telhas voam,
o tecto desaba,
as paredes desmoronam-se
na derrocada o Mundo alaga-se
em suor e sangue e
nada resta senão
a vida dura e difícil.

Acaba-se o mundo
entre lençóis brancos  
e desperta-se
numa aurora primaveril
(do solstício de inverno)
com um sol radioso:
Olha-se em redor e nada
nos resta senão orar
a Deus pela paz do novo dia.

Carlos Alberto  10-09-1973
Nota1: Trago aqui este poema em alusão ao fim do mundo que ocorrerá em 21 de     Dezembro de 2012

Nota2: Alterei parte o último verso do original para a adaptação ao assunto em ( ).