quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

MEMÓRIAS DE 2011

Páginas Diário (2º semestre 2011)

Aqui vai, como prometido, a segunda parte dos meus melhores resumos do 2º semestre de 2011 de acordo, obviamente, com o meu critério.

Faço notar que será uma transcrição integral do que senti no momento em que escrevi os resumos e que não vou agora fazer qualquer alteração no sentido de subverter o que disse. Além de que o que escrevi é apenas o meu ponto de vista e é da minha inteira responsabilidade. Doa o que doer.
Carlos Alberto

 
Sábado, 23 de Julho de 2011 (Lisboa, 24/7 15:40h)
“Explodi”

Procuramos a felicidade, mas ela foge-nos por entre os dedos. Tentamos segurá-la com a outra mão, mas ela escapa-se-nos como fumo que se esvai e desaparece no ar. É uma tortura, uma afronta estúpida; queixas e mais queixas que nos rasgam por dentro. Num último recurso tentamos coser as costuras abertas, mas já não há volta a dar. A única solução possível é sairmos, irmos embora, esquecer que a felicidade nos atraiçoa. Talvez não seja esta a melhor solução. Talvez não esteja aqui a felicidade que busco. Sei que há condições: como um saco furado, que está roto, basta entrelaçarmos os nós existentes. Só que explodi como uma bomba. Aguentei o choro, mas não resisti. Voltei a chorar. Não sou feliz. Olho para a Cristina e ela fecha as portas todas. O seu conceito de amor é limitado, não é o mesmo que o meu. Eu procuro que a nossa relação dê certo. Eu tento juntar as pontas, mas a Cristina não tem resistência. Ela stressa com muita facilidade e temos poucos pontos comuns. Eu gosto dela, sempre o disse, mas sinto-me impotente. Sou impotente como homem (o que me agoniza) e depois sinto-me impotente para acudir ao seu estado desequilibrado. Fomos para a Costa onde almoçámos e fui conhecer a casa que ela adquiriu para a filha. Entrei lá dentro vestido como se fosse fazer uma cirurgia a alguém e depressa fui invadido por centenas de pulgas que me crivaram o traje. Estivemos a arrancar alcatifas e tomei conhecimento do espaço. No regresso, no entanto, algo é que correu mal. Uma manobra minha “normal” despoletou uma reprimenda, como se eu tivesse começado a conduzir há quinze dias. Passei-me. A conversa azedou, azedou mesmo, e pensei em ir-me embora. E estou a pensar nisso vezes a mais. Até onde aguento?

Carlos Alberto
 
Segunda, 8 de Agosto de 2011 (Lisboa, 9/8  12:10h)
“1ª Vez”

Há sempre uma primeira vez para tudo. Era para ser ontem, mas acabou por ser hoje. Tive algum receio que não aguentasse o balanço e o barco fosse demasiado agitado. As águas pareceram-me tumultuosas, mas com o afastamento para o mar alto o desejo de navegar aconteceu. E entrou-se quase no delírio. Não foi ir ao céu e voltar, algo paranormal ou edílico, mas creio que o capitão se portou bem, soube gerir as vagas e aportámos todos bem. Quer dizer, ficaram amarras a ranger e o nó não ficou apertado até ao fim, mas deu para gozar a brisa, a paisagem, saborear o gosto de um valente mastro de vela sempre hasteada. Foi uma boa viagem pelos prazeres de uma navegação nada solitária, vivida e repartida a três por tarefas bem definidas. Pude também por instantes saborear o leme, usufruindo do gosto do mastro, sentindo o calor de um motor firme de rotação constante e acertada. Duas horas de puro prazer navegando a “maruja” por águas nunca antes navegadas e sentindo o pulsar de uma força negra pelo final de um dia, mas aguentando sem enjoar as estocadas de uma vaga sempre compensada. Explodimos então, risonhos da viagem diferente e de certo para repetir lá mais para a frente. Para mim nada de novo. O dia acabou mesmo na cama, os dois, terminando uma viagem que começamos e dando lugar à narrativa do que foi viver a experiência nova. Um dia marcado assim pelo prazer misturado com o medo e a ansiedade. Mas depois do embarque tudo se foi normalizando e construindo como um castelo de sonhos, pedra a pedra, sem dramas, dentro daquilo que seria expectável e normal. Aconteceu, foi bom, longe do mundo, longe da multidão, quatro paredes com histórias dentro.
Carlos Alberto

Terça, 11 de Outubro de 2011 (Miratejo, 12/10  00:25h)
“Amargo de boca”

Há dias assim: em que nos sentimos impotentes, incapazes de rir, onde não somos nós mesmos. Dias que parecem que o mundo não avança, onde tudo nos parece adverso, e não temos capacidade para dizer basta. Dias de morrer, de ficar parado a olhar o nada. Dias em que mais valia não termos acordado e devíamos ter ficado na letargia do ser. Sim, caminhamos, as horas passam, mas os resultados são os mesmos. Nada nos espanta, nada nos acorda, nos trás à realidade do pobre que somos. São dias amargos, cinzentos, mesmo que o sol brilhe, brilhe até demais com as temperaturas melhores que no verão, estranhamente. A lua está cheia. O sol esteve lindo, todo o dia a bafejar de sorte todos aqueles que têm o privilégio de estar de férias. E é o céu limpo de norte a sul. E cá estamos nós, nem sequer aproveitando a vida. Ficamos aqui gozando sozinho e desejando o que não é comum ou normal. Ficamos no “nim” sem nada dentro para sorrir. O trabalho foge-nos sem glória. Os dias são negros, confusos, intrigantes. Estamos onde não queremos, temos o que não desejamos, somos o que não devíamos. Há gente com sorte. Eu perdi a minha num baloiço de criança. Caí no chão redondo como uma pedra que se lança contra o mar. Afunda-se num círculo interminável de círculos que se multiplicam até ser nada. E não sou nada, perdido aqui em palavras que não dizem senão que estou mal, confuso e amargo.
Carlos Alberto  


Quinta, 13 de Outubro de 2011 (Miratejo, 24:00h)
“Amargurado e só”

Dividido, perdido, esquecido pelo mundo. Não sei o que faço aqui e porquê aqui. Choro. No meu rosto há lágrimas. Serão de alegria? As histórias dos outros podem ser as nossas histórias contadas numa outra versão. Atitudes e consequências. Os filhos que geramos, depois não queremos; mas que amamos, mesmo que fruto de um amor desaparecido. E as lágrimas saltam-me  dos olhos e escorrem-me pela cara. A vida muda, acaba, tão efémera ela é. Vivemos para quê? É o Governo a pôr-nos a pão e água. Os empregos desaparecem, acabam, não há trabalho. Os comboios são uma arma, como as pontes, os gases. Pensamos em coisas parvas se o mundo nos abandona. Acreditamos, temos esperança, mas há um momento em que não percebemos nada. Perdemos o contacto com o que nos envolve. Estamos sós, tristemente sós e em busca do AMOR. É só isso que quero e não tenho. Olho para o lado e não vejo amor, mas apenas um momento circunstancial. Não há conforto, aconchego, o carinho que se sente quando se ama. Só vejo fagulhas no ar de um fogo que crepita, mas não embala, só ateia e preocupa. Estou amargurado e triste porque não sou nada nem tenho nada. Construí um castelo de areia à beira da água que se foi com a primeira onda. Sinto-me infeliz e incapaz de vencer o simples degrau, um salto de amor onde a paixão se manifeste. Mas estou só, dividido, confuso e sem horizontes. Não me sinto rodeado pelas pessoas certas. Não encontrei ainda o meu caminho, o caminho da felicidade que ainda busco.
Carlos Alberto

 
Quarta, 19 de Outubro de 2011 (Miratejo, 23:20h)
“Entre duas margens”

Aqui estou eu dividido entre as duas margens do Tejo. De um lado a cidade de Lisboa, a capital, uma cidade moderna virada para o turismo; deste lado a vertente campestre, rural, ainda que hoje erigida de prédios, elementos de betão que constroem este lado do Cristo Rei. Se em Lisboa predomina o fado, a luz, os monumentos, deste lado de Almada agita-se o mar com as suas praias, e a Costa marginada de areia branca que nos aconchega no verão quando deitados ao sol. São dois polos diferentes, duas canções que nos embalam, conforme o ritmo que queremos. Do lado de lá são os bares, a noite frenética, a cidade que não dorme. Do lado de cá assemelham-se alguns aspectos, mas privilegia-se a calma, o rio, a ponte que nos trás, o próprio monumento que de braços aberto nos acolhe deste lado virado para toda a margem norte do Tejo. Pelo meio também há os cacilheiros, hoje alguns transformados em catamarãs. Barcos que nos levam e nos trazem em ondulações de embalar com os olhos pregados num jornal, na miúda gira ou no próprio horizonte adivinhando o trabalho que nos espera, ou o jantar que nos põem sobre a mesa. Duas margens distintas, que nos separam da alegria ou do prazer, do sentir e do sofrer. São sentimentos que se dividem, partem e repartem e esteja onde estiver estarei bem, tranquilo, fazendo aquilo que é possível fazer. Do lado de lá é estar onde não tenho nada meu. Do lado de cá é estar no meu canto, mesmo que pobre e apenas seja realmente um canto, mas é meu…   
Carlos Alberto


Sábado, 22 de Outubro de 2011 (Lisboa, 23/10 10:40h)
“Momentos de felicidade”

A vida vale pelo seu todo, mas é feita de pequenos momentos que valem por toda ela. E, por isso, nunca vamos deixar de enaltecê-los e de ficarmos felizes por tê-los vivido. Na verdade a vida está cheia de contrariedades, coisas que nos apoquentam e aborrecem, coisas que nos martirizam e nos ofendem; mas por outro lado há os momentos bons que devemos, sim, valorizá-los e deixar que superem e que nos façam sentir bem e recompensados. E se a felicidade está dentro de nós é bom trazermo-la cá para fora e que ofereçamos aos outros um pouco dela.  E é bom quando partilhamos, quando estamos ao lado de alguém e transmitimos esse bem-estar, essa paz, essa harmonia. E nada melhor do que estar sentado numa esplanada, à beira mar, no crepúsculo do dia, com o sol vermelho de fogo a esconder-se nas nuvens e afundando no oceano estranhamente calmo e dourado. É muito bom sentir o abraço de alguém, o conforto de uma carícia, a felicidade de um belo momento partilhado naquele instante mágico, tão efémero quanto toda a vida, e saboreá-lo com a tranquilidade de quem espera, mesmo na espera do nada, mas apenas de quem saboreia o tempo e a brisa da tarde que sopra amena, num aconchego que nos acalma. Foi assim hoje, sê-lo-á amanhã, se Deus quiser; se a vida nos permitir. Com a Cristina ao lado, os projectos dela são muitos: a casa da Costa e a nossa vida, o nosso espaço, o nosso futuro. Como vai ser amanhã, não sei. Só sei que os momentos são bons e quero guardá-los para amanhã sorrir de novo quando me lembrar deles.
Carlos Alberto
 

Sábado, 19 de Novembro de 2011 (Peniche, 23:30h)
“Com o mar em fundo”

Um quarto de hotel, o silêncio da noite com o mar em fundo. Chega-nos o som das vagas constantes que nos embalam o sono. Não há nada além do cansaço. Um passeio pela praia, outro pelas arribas pedregosas com vista para os “mosteiros” que se erguem em esquemas naturais, pedra sobre pedra, em figuras estranhas de rochas acamadas. É o mar e a violência das ondas contra as rochas que nos despertam os sentidos pela magnitude que ele tem. A espuma dissolve-se no ar em espirros brancos de sal que nos salpicam. É já o final da tarde. O tempo até parece que parou. Os dias, no entanto, já são pequenos, mas o tempo sobra-nos até para não nos apetecer jantar. Interessa mesmo é andarmos de mão dada, dois namorados felizes que têm o privilégio de se gostarem. Depois é o porto com as ondas quase a cobrirem o molhe em vagas que nos assustam. A noite já caiu, embora sejam apenas seis da tarde. Não há mais nada para fazer, só sentir. Sentir o prazer de estarmos. Não há mais nada nem vontade. A cama abre-se. A TV é fraca, mas o cansaço, este cansaço incompreensível atira-nos para o sono. Não temos disposição nem para o Amor. As camas são separadas. Ainda nos deitamos juntos, mas a Cristina prefere a sua cama e enrosca-se do outro lado com as suas almofadas e desaparece lá ao longe entre lençóis onde se afunda pela noite adentro. Eu, sinto-me bem, apesar da azia do almoço que me vem à boca de vez em quando. Agora vou tentar dormir, mas já não tenho o sono que preciso para isso. Vou tentar embalar-me também nas vagas que veem do mar.
Carlos Alberto

 
Terça, 6 de Dezembro de 2011 (Miratejo,  21:50h)
“Aqui está um falhado”

Caminhamos a passos largos para o Natal, mas eu ainda não sinto isso. O Natal deixou de ser para mim aquilo que era. Vivia o Natal como o verdadeiro elo de ligação da família: o nascimento de um filho. Hoje não tenho uma família, um lar, uma casa. Sou um homem dividido que quer apenas ser feliz, mas que nem sequer completa ninguém. Não sou marido, não sou namorado presente sempre, não sou um pai a não ser a espaços. Sinto-me um pouco frustrado e acho que falhei como homem, como pessoa, como marido, como pai e mesmo socialmente. Não consegui fazer nenhuma licenciatura e sobrevivi sempre à custa de muita sorte. Ainda hoje sou um homem de sorte, um privilegiado, mas nem isso faz de mim uma pessoa importante, especial, com valor. Não consegui construir nada e esta frase já não é a primeira vez que a escrevo. Sou um homem que falhou na sua vida. Não fui capaz de atingir um sério objectivo e de fazer alguém verdadeiramente feliz. Por causa do meu egoísmo continuo assim repartido por entre duas casas sem pertencer a nenhuma. Não tenho nada meu. Tenho três filhos, mas não fui capaz de ser um pai capaz de desempenhar o seu papel. O Natal está aí, mas o espírito da família perdeu-se, ou eu perdi. Não tenho o prazer de fazer a árvore, enfeitar a casa com luzes, ver os olhos dos meus filhos a brilhar de alegria e tornar numa verdadeira magia esta fantasia do Natal, do Pai Natal, dos presentes. Sou assim hoje este homem frustrado, um homem triste por não ter sido capaz de ir mais longe, como devia e podia e deixei morrer a luz que cintilaria no presépio.
Carlos Alberto

 PS: Dizer apenas que fiz ligeiríssimas alterações muito pontuais nalguns textos, ou para lhes fazer alguma correção gramatical ou dar mais ênfase ao assunto.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

PÍNCAROS DA EUROPA - CAP. V


CAPÍTULO V

Oviedo, 8 de Agosto de 2012

Acordar hoje foi mais fácil... dormimos até às oito da manhã e saímos do hotel às nove. Para trás o pequeno-almoço, igual ao de ontem. Não dispensei o melão com presunto. Pode parecer disparate, mas é algo que me sabe muito bem e não abdico. Adoro presunto e aqui este produto é de altíssima qualidade e aproveito, enquanto posso.

E fui o último a chegar ao autocarro. Tive companhia à mesa do pequeno-almoço e apesar de me ter adiantado, acabei por me atrasar com a conversa. Assim, às nove e cinco estávamos a partir e já com a introdução na nossa viagem, da guia local espanhola, a Elvira, que nos vai mostrar alguns dos locais recomendados e característicos aqui da cidade de Oviedo.  

É suposto os guias falarem connosco em “portanhol”, mas de facto é em castelhano/galego que se expressam. Todavia, nessa combinação de línguas até se conseguem fazer entender bem. Pelo menos nós percebemo-los.

E saímos rumo a umas edificações históricas, no limite exterior e superior da cidade e que remontam à fundação de Oviedo, há 1200 anos atrás.

Subimos por umas ruas, através de uma zona de moradias e encontramos um parque de viaturas onde o autocarro estacionou. Saímos do autocarro e caminhamos, a pé, por um caminho a subir, de terra batida, até chegarmos a uma zona ampla de onde já se tem uma pequena panorâmica da cidade. Aqui, no meio de um amplo e descampado largo encontramos a Eglesia de Santa María del Naranco.

É um edifício pouco parecido com uma igreja tradicional. Situado numa zona isolada, é um edifício de dois pisos. Inicialmente serviu de Palácio Real para convívios e banhos e depois foi transformado em Igreja, estando hoje catalogado como tal.

Dali e depois, subimos mais um pouco e situado a cinquenta metros mais acima neste morro, encontramos um outro edifício que é a Eglesia de San Miguel de Lillo. Esta pequena construção resume-se hoje a uma pequena capela já um pouco degradada pelo seu interior e onde, em outros tempos, Rei e Rainha assistiam aos cultos.

É um edifício com muitas limitações, que se encontra encerrado e que só é visitado com marcações atempadas. Transposta a porta dupla de verga em arco desta capela, deparamo-nos com uma pequena câmara em cruz, onde mal cabem todas as cerca de trinta pessoas e onde nem é permitido fotografar. É quase um cubículo de uma nave, com paredes alta e velhas caiadas e com inscrições imperceptíveis.

Concluídas as visitas, ficámos também a saber que estes dois os edifícios pertencem ao século IX, são considerados hoje Património Mundial da Unesco e daí a sua importância nos roteiros turísticos desta cidade, assim como visitas obrigatórias para quem a visita.

Cá fora, deste ponto alto tem-se também uma interessante panorâmica de parte da cidade de Oviedo onde se inclui ao longe o Palácio de Congressos.

São 10:40h, estão 21ºC, está bom tempo e vamos já em direcção ao centro da cidade. Pelo caminho a Elvira vai dizendo-nos que “cu molhado” e “carvalhão” são termos pejorativos para os Gijones e Ovetenses, respectivamente, cuja rivalidade parece ser latente.

São agora já 14:30h e terminámos a nossa estadia aqui em Oviedo. Fiquei com muito melhor impressão desta cidade. E depois de ver o que acabei por ver, achei-a mais interessante, com mais vida e historicamente mais rica e interessante do que Gijón. De facto, desde a interessante e imponente Catedral às estátuas quase (e/ou) em tamanho real que proliferam pela cidade, Oviedo tem, efectivamente, muito mais carácter e não é comparável a Gijón. Agora percebo melhor a opção Oviedo em detrimento de Gijón neste passeio por parte da empresa promotora deste circuito turístico.

Com o passar dos dias, (e estamos já no quinto dia do passeio) vamos interagindo mais com os nossos companheiros de viagem.  Eu que não sou de muitas palavras fui-me cruzando sucessivamente com outros passageiros, trocando aqui e ali alguns comentários circunstanciais, e naturalmente, nestas abordagens também nos fomos aproximando mais.

Esta interacção gera, obviamente, empatias e simpatias, vamos descobrindo interesses e algumas afinidades, e, por fim, começamos a sentir pena por sabermos que daqui a dois dias estaremos todos em mundos e realidades completamente diferentes e tudo pertencerá ao nosso passado. E a vida é mesmo assim: tudo é efémero e se esgota de um momento para o outro.

Entretanto, com a minha mania das análises subjectivas, tento interiorizar o que vale cada um dos meus companheiros de viagem e, sumariamente, constato que o nível intelectual de grande parte das pessoas que aqui vão é muito alto, acima da média. E, de facto, nem se trata sequer de uma viagem de cariz determinantemente cultural. No entanto, a verdade é que este grupo será maioritariamente constituído por professores universitários, gestores, doutores, artistas plásticos, e… “escritores”, tudo gente muito fina (lol).

Aqui é para rir (por causa do “escritores”). Para quem não sabe e não faça a confusão que já alguém fez, “lol”, em inglês, é o acrónimo de “laughing out loud”, que à portuguesa se poderá traduzir por “rindo à gargalhada”, ou “rindo muito alto”.

Haverá de tudo um pouco, até nos sentirmos infimamente pequenos quando confrontados com simples estilos arquitectónicos de arte como o Renascentista ou o Maneirismo ou a Barroca ou outros estilos das quais pouco sabemos.

Quanto aos “escritores” – não por mim – abro aqui um parêntese para dizer que fará sentido, não sei, mas tem aqui total cabimento incluir, a saber: alguém nesta viagem – que não eu – foi empunhando, nas várias visitas guiadas que fizemos, um bloco de notas onde ia apontando muitos dos detalhes e aspectos que os respectivos guias locais iam referindo. Eu, já agora, escrevi grande parte destes textos apenas enquanto o autocarro circulava – conforme assinalo nas horas que referencio – ou desenvolvia-os quando, chegado ao hotel, à noite, reflectia sobre o dia vivido. Portanto, muita gente, muitos estilos, muita diversidade de tendências, muita cultura, muita sabedoria e muita audácia (a minha).

Reparamos assim o quanto ignorante somos face a conhecimentos primários que deveríamos ter e que são parte da nossa própria História. Neste particular ocorre-me citar uma máxima antiga que diz: “a cultura é aquilo que resta depois de termos esquecido tudo o que aprendemos”.

Imiscuímo-nos assim nos assuntos da cultura como se fossemos capazes de aguentar e de nos igualarmos, quando só nos resta a simpatia para compensar a ignorância que nos atravessa o espírito. E, no entanto, sentimo-nos felizes por podermos ter o privilégio de partilhamos o passeio e o tempo livre num salutar convívio de veraneantes com algumas pessoas muito especiais e que nos orgulhamos de conhecer.

Assim, nesta miscelânea de cruzamento de pessoas, géneros e culturas, como que numa derradeira tentativa de nos desinibirmos face às ideias e conceitos que temos dos outros e de nós mesmos, alarguei os meus horizontes e, quase num último esgar de viagem, ultrapassei os obstáculos que criei e parti à conquista de novos denominadores.

E se ontem almocei com o casal Abreu, hoje estive com outras pessoas e, neste caso, incluí-me em outro grupo de professores, estes do Algarve e cujos nomes não fui autorizado a revelar porque são da Universidade e os alunos muito “intrometidos” nos assuntos que não lhes dizem respeito…

Visitámos ainda o mercado do centro da cidade, fizemos compras para oferecer aos amigos e convivemos na cumplicidade possível. Por momentos senti-me repartido por outros grupos que também por ali partilhavam aqueles espaços, enquanto todos esperávamos pela hora de sairmos.

São 14:40h e com 30ºC termino o passeio e digo adeus aqui a Oviedo: até à próxima! Enquanto a León atiro: aqui vamos nós!

Rumámos a León pela autopista E-66. Temos à nossa direita uma serra bem verde e íngreme com vários picos de vários tons de verdes reflectidos pela luz do sol e que se prolongam até um vale bastante largo. Árvores, muitas árvores pequenas de copas baixas e que se distribuem serra acima. Há taludes com pregagens nalguns locais para susterem a inclinação perigosa de taludes quase verticais, mas de aspecto cinzento velho que se confundem com a vegetação.

O autocarro vai num silêncio absoluto. A rádio raramente se ouve agora. Há pessoas a dormir, o que também não me admira depois de um repasto bem apaladado. Cada um saboreia a viagem à sua maneira.

E devemos estar bastante acima do mar, a alta altitude, porque senti os ouvidos a estalarem da diferença de pressão, como se estivéssemos bem acima, em pleno voo.

Passámos dois túneis, o que de resto parece ser comum nesta zona elevada do norte de Espanha, atravessando montanhas, e agora um terceiro mais curto.

O sol continua intenso e o céu está salpicado de nuvens altas que nos oferecem imagens imaginárias que vou fotografando. De máquina apontada ao céu pareço meio tolo em busca de algo que invento no olhar:  um pássaro branco.

Um túnel, este com mais de quatro mil metros. Estou a escrever às escuras e interrompi a escrita porque vejo apenas aos repelões, como se se tratasse da luz intermitente de um farol de rotação acelerada. Aqui, na verdadeira acepção da palavra, posso dizer: já vejo uma luz ao fundo do túnel.

Vamos sair das Astúrias e entrar na província de León e Castilla. Uma nova etapa. Acabou a verdura da costa Cantábrica; serra à vista, inóspita e clara.

São 16:15h da tarde e chegámos a León. Uma tarde quente de 32ºC. Vou sair do autocarro para o hotel e perceber se hoje tenho mais sorte do que tive nos dois últimos dias. E tive. “Não há bem que sempre dure e mal que nunca acabe”, apetece dizer.

Este quarto do Hotel Conde Luna é muito bom, tem excelentes condições e até tem vista sobre parte da cidade. Colocaram-me no 8º andar, e da varanda a que acedo, o meu olhar projecta-se por cima de uns telhados de uns prédios em frente, mas desafoga-se ao longe em vistas de uma segunda linha de mais prédios de tons e alturas que não ferem a paisagem citadina. O quarto de aspecto muito confortável com uma cama enorme e a casa de banho ampla e muito funcional, tem tudo o que é comum os quartos de hotel terem.

Entretanto, entrei e saí do quarto sem me deter em mais detalhes. Larguei o malão vermelho sobre a banca em estrutura de madeira para as malas e saí para ter tempo de visitar ainda a Catedral de León com os seus milhentos vitrais, antes que encerrasse.

Deram-me uns auscultadores para acompanhar a visita, mas tive que me entender em espanhol, visto que apesar da nossa proximidade as opções eram piores, tais como o inglês, francês ou alemão, entre outras; português népia.

 E a Catedral de León é, de facto, um espaço muito bonito, interessante, mesmo majestoso, mas confesso, cansei de tanta Igreja, capela, santos e mais santos. Entro e não sinto, como devia, a fé e a importância dos lugares. Entro nas Igrejas como um simples turista de ocasião para tirar umas fotos, se puder, e pouco mais. É triste que assim seja e que me limite a ter este sentimento, sendo eu um cristão cada vez mais distanciado da sua Igreja: talvez o resultado da decepcão que sinto pela vida, ainda que vá acreditando em algo superior.

Depois não entendo nada da arquitectura religiosa ou histórica, sou um leigo, como um burro a olhar para um palácio, sem entender traços, características, perceber nomenclaturas, ícones ou o que quer que seja. Olho sem ver; não sei tirar partido da cultura que aquelas paredes revelam, limito-me a apreciar sem compreender o que a história conta. A ignorância, quando reconhecida, magoa.

Visito então a Catedral no tempo que me resta, antes de regressar para a hora do jantar. Dou ainda um giro pelas ruas circundantes e procuro encontrar mais do que a principal Igreja nos transmite. Entro noutras pequenas igrejas. Procuro também descobrir a cidade, os seus recantos e até faço compras.

As fotos que são também o meu hobby nesta viagem, aqui em León juntam-se mais umas dezenas ao conjunto. Procuro fotografar não apenas o que todos fotografam, mas encontrar no que vejo um olhar de imagens que possam fazer a diferença. Infelizmente, não sou um perito e nem sempre consigo tirar partido daquilo que poderia ser uma excelente fotografia.

 Já no hotel, sempre a correr, porque as horas passam depressa, ainda tomo um banho para me sentir melhor, e desço com roupa e cara lavadas.

No piso inferior à recepção chego a um salão imponente de mesas redondas cobertas de toalhas brancas. Está tudo pronto com talheres e pratos dispostos em frente de cadeiras altas. Sento-me indiscriminadamente numa delas, numa mesa próxima da entrada. As pessoas vão chegando e sentam-se nos lugares disponíveis das quatro grandes mesas de oito pessoas. O casal Abreu atrasou-se e, inexplicavelmente, tiveram de se sentar em mesas separadas. Comigo seria impensável, nem que me tivessem de improvisar uma. Todavia, na sua simplicidade, preferiram não levantar problemas e, em silêncio, não partilharam juntos aquela que foi a última refeição do grupo.

 Já eu tive mais sorte na mesa que escolhi. Aqui, à sua volta, contaram-se histórias anedóticas, na primeira pessoa, sobre as mais diversas distracções de um casal em particular. Foi um rir à gargalhada entre garfadas de uma refeição bem apaladada.

O grupo distribuíra-se por quatro mesas, mas esta foi a mais “galhofeira”. E diverti-me bastante com estes inesperados comensais que se haviam sentando aleatoriamente, conforme iam chegando. A animação e o riso prevaleceram desde o prato de Jardineira que chegou primeiro ao das fatias de lombo assado com batatas – que estavam deliciosas – que comemos depois. No fim ainda houve espaço para uma sobremesa gelada com tarte. Tudo muito bom.

Mas a noite de convívio não havia de terminar naquele jantar. Depois do repasto juntei-me a um grupo de três mulheres da comitiva: nomeadamente, à Líbia “das vacas” e a mais duas professoras de origem algarvia, cujos nomes que não me ocorrem agora, mas como já referi antes também não os poderia mencionar.

Aqui chegado, estou, de facto, velho, cansado… e esquecido. Saímos do hotel com a perspectiva de irmos a um bar beber uns copos. Afinal, caminhámos cem metros e fomos sentar-nos numa esplanada à frente da Catedral (eu de costas para esse monumento) e ali ficámos a noite toda, até há pouco em conversas cruzadas. E são agora 01:30h.

À mesa da esplanada, foi um tempo de diálogo a quatro que acabou em conversas de amores antigos, entre outros assuntos transversais a todos. Pude aperceber-me, no entanto, que as minhas novas amigas são todas muito viajadas. Todas elas já calcorrearam essa europa fora, e eu, por outro lado, mais uma vez, senti-me uma insignificante molécula de partículas de papel de quarenta gramas que não deu nada de si à vida.

Limitei-me a vivê-la, sim, mas sem lhe dar nada em troca: um motivo, um trabalho, uma obra. E é isso que me entristece. Não ser nada, não ter obra feita. Olhar para essa gente tão culta, tão formada e informada e compreender porque eu estou onde estou e as pessoas são o que são, têm as experiências que têm e vivem bem, como vivem.

E pronto, é neste lamento repisado e de fragrâncias que exalo com o prazer efémero de uma noite à luz da Catedral que assim chego aos derradeiros minutos de convívio nesta viagem.

Regressámos os quatro pelo mesmo caminho ao Conde Luna sem termos desfrutado mais do que apenas aquelas inesperadas conversas de ocasião. Distância curta, por sinal, numa noite excelente em que só mesmo o conforto do hotel nos rouba a vontade de continuar por ali e prolongar aqueles momentos por mais algum tempo.

Meio deitado já, sobre esta enorme e confortável cama, respiro o aconchego de um abraço imaginário sobre mais este dia vivido aqui em León. Quero, no entanto, adormecer sobre as palavras que me vão embalar no meu sono e não pensar muito na ideia de que esta será a última noite dormida em hotéis de quatro estrelas. Quero absorver intensamente este último folego e não pensar no regresso à minha “pensão Josefina” e ao pequeno quarto que me abriga, o quarto onde minha filha mais velha cresceu, mas a cama não.

Vou querer saborear até à distância infinita de uma estrela, a tranquilidade serena de uma noite que quero que seja única, por ser a última. E enquanto o meu olhar se entreolha e se turva entre mantos lácteos de um universo de lençóis brancos que me abraçam, escondo a minha solidão em frígidos rugidos de um amor fugidio que não sinto, que não vejo, que não existe.

Vou assim neste embalar de sonhos acrescentando pensamentos às minhas ilusões e na vontade de procurar adormecer, não pensar muito que amanhã será o derradeiro dia. Aquele em que, depois de acordarmos, saltarmos do último despertar e sairmos daqui, restar-nos-á a viagem de regresso, onde terminaremos em solo Luso, na Avenida João XXI, na nossa cidade, em Lisboa à porta da Lusanova.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

BOM ANO 2013

Boa tarde amigos

Estamos todos a poucas horas do final de mais um ano e quero aqui deixar umas últimas palavras antes de o deixarmos.

Não tenho nada preparado, nem discursos. Aquilo que tenho para deixar aqui são apenas palavras de esperança que quero para todos. Palavras que pretendo que sejam de Amor, apesar de nesse capítulo ter sido bastante penalizado neste ano. Deixar, no entanto, palavras de gratidão por aqueles qe se esforçaram por manter a sua amizade por mim. E foram poucos, confesso. Mas tenho aquilo que mereço e não me queixo.

Sei que sou uma pessoa ruim, pouco sociável, mas não o faço por mal. Na verdade sou uma pessoa muito frágil e que se mostro rudeza e antipatia é apenas para esconder a minha sensibilidade para com o amor que sinto pelas pessoas em geral. Sim, não faço fretes, nem me obrigo a gostar de todos. Normalmente a indiferença é recíproca. Mas regra geral procuro ser amigo.

É habitual dizer-se que "se é amigo do amigo". Eu não fujo à regra, mas difícil é sermos amigos dos nossos inimigos e isso eu não sou, apesar de não semear também a discórdia e preferir manter a harmonia, mesmo que a certa distância.

Finalmente dizer que espero ter um BOM ANO de 2013, apesar dos maus presságios que se ouvem todos os dias, e pode ser que hajam mudanças profundas que me marcarão decisivamente.

Tenho dito nos últimos tempos que "hei-de ser feliz, não sei como, nem onde, nem com quem, mas hei-de sê-lo". Pois meus amigos, estas palavras nunca estiveram tão próximas de se concretizarem e espero que nesse dia, não apenas eu, mas várias pessoas à minha volta, possam não só testemunhá-lo, mas partilhar comigo esse momento.

Obrigado.

Carlos Alberto

PS: Quero pedir desculpa a todos aqueles que, por uma razão qualquer, tenha ofendido ou feito sofrer, porque não é essa a minha intenção de vida. A minha Mãe ensinou-me que O AMOR VENCE SEMPRE, é isso que eu prefiro partilhar com TODOS.







quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

NOITE E DIA


Dentro da noite fria
o ruido fustigador da trovoada
e do vento que sopra forte
e leva os sonhos da gente
que não dorme.
 
Um raio que chega
ilumina o Mundo de um Homem,
mas logo se apaga
e como a vida
escoa-se para a terra.

A chuva cai impiedosamente
e consigo arrasta a vida.
As árvores declinam-se
beijam o chão as folhas
mortas pelo tempo:
As cancelas dos quintais
chocam nos batentes dos trincos;
as portas estremecem;
os olhos nas janelas
refugiam-se…
por detrás das cortinas
o medo alastra-se,
as pessoas apertam-se
e na face de cada um
o retrato vivo
da miséria pungente.

A chuva aumenta persistentemente,
os relâmpagos desencadeiam-se
no espaço as árvores tombam,
as telhas voam,
o tecto desaba,
as paredes desmoronam-se
na derrocada o Mundo alaga-se
em suor e sangue e
nada resta senão
a vida dura e difícil.

Acaba-se o mundo
entre lençóis brancos  
e desperta-se
numa aurora primaveril
(do solstício de inverno)
com um sol radioso:
Olha-se em redor e nada
nos resta senão orar
a Deus pela paz do novo dia.

Carlos Alberto  10-09-1973
Nota1: Trago aqui este poema em alusão ao fim do mundo que ocorrerá em 21 de     Dezembro de 2012

Nota2: Alterei parte o último verso do original para a adaptação ao assunto em ( ).

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

PICOS DA EUROPA - CAP IV

Aqui vai a quarta parte, já não era sem tempo, digo eu. Espero que gostem tanto quanto eu gostei. Neste texto acrescentei mais alguns detalhes ao original.


CAPÍTULO IV

Oviedo, 7 de Agosto de 2012

Bom dia, Oviedo! São oito horas. Acordei (acordaram-me pelo telefone), às seis e meia da manhã. Estava com uma dor de cabeça. Mas nada de grave e que me espante, estas cefaleias matinais.

Tinha pedido que me despertassem às sete, e fizeram-no, só que já o tinham feito meia hora antes, na hora do “acordar do grupo”. Fiquei lixado, mas não relevei o engano da recepção.

O meu pequeno-almoço foi bom e variado, à base de fruta, incluindo o habitual melão com presunto e sumo de laranja natural. Bebi depois um café, mas antes, não resisti, e ainda me atirei a uns deliciosos croissants com doce de geleia. Nada mau para começar um dia que acordou com umas nuvens a lembrar aqueles flocos de algodão, todos dispostos muito certinhos no céu. É a imagem que tenho daqui. Está fresco, mas está-se bem com os 18ºC que mostra o termómetro digital do autocarro.

De manhã as conversas são sempre as mesmas. “ – Então dormiu bem? Eu não consegui dormir, com o barulho” – queixa-se um. Outro diz que teve insónias e que só adormeceu lá para as tantas.

Eu, apesar do pequeno barulho do ar condicionado do corredor, consegui adormecer agarrado à almofada comprida, em forma de chouriço, e dormi acho que bem, apesar da tal dor de cabeça com que acordei, mas que, entretanto, já se desvaneceu com o pequeno-almoço.

Saímos. São 08:05h e o programa de hoje passa por irmos de manhã para Covadonga com passagem por Potes e, de tarde, Ribadesella e Gijón. O tempo está bom e esperam-se 25ªC.

Estamos em Oviedo, a atravessar a cidade e vamos direitos à serra que já descortino lá ao longe. As nuvens no céu parecem ondulações de areia na praia na maré baixa. Um espectáculo magnífico.

11:30h e já estamos de saída de Covadonga. A chegada aqui não foi muito pacífica porque havia uma excursão opcional aos Lagos dos Picos da Europa e só uma minoria queria ir. O Rui argumentou várias desculpas, como perda de tempo para os que não queriam ir e eu acabei por tomar o partido do guia e, por solidariedade não fui, embora acabasse por me arrepender.

Neste lugar o ex-libris é a gruta da Santa de Covadonga que fica incrustada, acima do nosso olhar, numa rocha, como um presépio suspenso, aparentemente inacessível, sobre um lago natural para onde escorre uma pequena cascata de água. Chega-se lá por uma escadaria de pedra, contígua também a umas casas existentes, ou através de um túnel lateral escavado na montanha, que nós percorremos, por onde se entra passando três cruzes de pedra apoiadas num pedestal também em pedra. No fim deste túnel ergue-se então, em frente, uma pequena capela, que se expõe lateralmente à abertura com vista para o lago, na rasante e a pique.

À direita da gruta escavada e aberta está a Santa de Covadonga a olhar para a paisagem que se abre em frente. É uma pequena imagem de cerca de meio metro, pouco mais, corpo inteiro, coberta com um manto vermelho debruado a ouro. Sobre a cabeça tem uma coroa e uma auréola também ourada e na mão direita uma flor também do mesmo material. Está colocada atrás de um pequeno altar sobre uma base de cabeças de anjos e, apesar do exíguo espaço, há ainda uns bancos em madeira trabalhada onde se sentam fiéis; e havia quem estivesse a rezar. Outros tiravam fotos para a posteridade e houve quem fugisse das escadas…

A ideia com que se fica deste lugar estranhamente localizado numa consola rochosa é que se entra numa pequena ermida exterior onde se fundem paredes e tecto num invólucro irregular e granítico que se abre como uma espécie de concha alveolar e profunda. No chão há também um tapete vermelho que nos silencia o andar sobre a pedra, e do tecto, com a Santa de Covadonga no meio, pendem dois candelabros metálicos com duas velas vermelhas.

Este local, além de religioso, é ainda muito bucólico e aprazível, e não se esgota na gruta com a capela e a imagem da Santa, que visitámos. A paisagem é maravilhosa: com muita vegetação, recortada por ribeiras e pequenas cascatas que nos deliciam o olhar e entoam canções de imaginárias sereias.

Pelo meio “troquei” umas fotos com uma das passageiras do autocarro e ainda brinquei com outra do mesmo grupo simulando atirar-lhe a mala para dentro do lago. Enfim, um pequeno momento de aproximação ou abordagem de pessoas que estão ali connosco, na mesma viagem pelos sonhos.

No lago, sobre uma ponte de blocos de pedra, atirei uma moeda à espera que o amor assistisse, mas continuei sozinho no meu percurso e pelas minhas deambulações, embora o olhar tivesse parado numa cumplicidade mútua. Cada um de nós seguiu o seu destino e eu desci mais escadas até ao fundo do vale.

Fui então explorar este pequeno jardim florido de hortênsias lilases entre leões de pedra, em guarda sobre a entrada. E entre a paz e sossego do arvoredo, encontrei outras escadas que galguei em êxtase, subi e desci, caminhei e corri sobre plataformas de madeira que se baloiçavam em grossas cordas, percorri caminhos de extrema beleza natural e, no silêncio das formas que me envolveram numa carícia, fui à procura finalmente daquele que constitui também o Corpo central e religioso desta localidade que é a Catedral de Covadonga.

Situada bem lá no alto, tive que emergir das profundezas e percorrer os antigos jardins do Parque del Príncipe cuja porta de entrada, de duas folhas em ferro, ainda ostentam, na verga da moldura, aquele nome.

Mas é preciso alguma preparação física para, num lugar como este, se apreciar tudo o que o envolve, nomeadamente percorrer os trilhos de pedras no meio de riachos, galgar as escadas, contornar as raízes das árvores que se expandem para além dos troncos e depois, olhar para cima e ver aquela Igreja recortada na paisagem, cujas paredes parecem terminar no céu.

A Basílica de Santa Maria Real de Covadonga é uma construção de estilo românico executada com pedras de calcário em tons de cor-de-rosa. Construída sobre uma plataforma regular que encontramos no cimo de um pico, por uma estrada de alcatrão que subimos, destaca-se da paisagem verde pelos seus tons que me pareceram mais de um vermelho ocre. De aspecto sólido, sóbrio e austero é um edifício de sumptuosidade religiosa, à dimensão de uma grande Igreja. Ergue-se em três naves, sendo a nave central maior e as duas laterais mais pequenas, constituindo estas os corredores do seu interior. É, realmente, um edifício belo e simultaneamente estranho pelas suas formas e cores no meio daquela paisagem carregada de verdes profundos e em inexorável contraste.

Há imensos turistas por aqui, que olham, observam, comentam, tiram fotos, rezam. Há também gente devota que vem sobretudo aqui para rezar. Outros ainda apenas para usufruírem desta inexaurível beleza natural e magnífica. De repente, observei três padres de batinas pretas que saíram da Igreja e caminharam pelo adro lateral, conversando. Iriam talvez aproveitar o excelente clima de sol que se fazia sentir. Ao longe, porque se afastavam de mim, tentei, ainda que em contra luz, umas fotos daquele momento. Ficaram.

Mas toda a envolvente aqui é fascinante, encerrando até um certo mistério todas as cores, formas e sentidos que somos levados a experimentar. Este parece ser um dos locais sagrados eleitos, longe de tudo, como se estivesse fora do mundo e inacessível. É um local onde a paisagem, os muitos tons de verdes nos atiram e projectam para as nossas ilhas no meio do Atlântico e os seus edílicos sentidos. As emoções são fortes. Captamo-las.

Agora que este local ficou para trás e nos restam as memórias dele, fico com pena de não ter absorvido a experiência dos Lagos, cujo passeio, dizem os que foram, foi simplesmente maravilhoso. Por isso me arrependi.

Depois de menos de três horas de visitas, reconhecimento e descobertas, deixámos assim a Gruta de Pelágio, a Santa de Covadonga e a Basílica Real e vamos agora a descer montanha, estrada abaixo, rumo a Potes onde almoçaremos.

Chegámos a Potes às 13:30h. Saí do autocarro, juntei-me ao casal Abreu e fomos, os três, almoçar a uma esplanada aqui mesmo no centro. Ele trazia a indicação de um restaurante especial, mas acabámos por reparar num local harmonioso, logo ali, num largo abaixo da rua onde estávamos. Fomos inspecionar descendo umas escadas e encontrámos um ambiente muito aprazível, com várias mesas cobertas com uns chapéus abrangentes e não foi difícil decidirmos ficar e de escolhermos um sítio para nos sentarmos.

A minha refeição de cabrito estava com muito bom aspecto e foi muito apetitosa. Bebemos vinho da região por uma garrafa com uma forma pouco comum, a lembrar um daqueles frascos antigos de remédios, só que de capacidade maior. O vinho foi tinto com sabor frutado e a companhia muito agradável. O assunto de conversa foi transversal e a cultura ficou à borda do prato. Não se falou de Alexandre Herculano e de Eurico Presbítero, nem da região de Cantábria, onde estamos, deixando para trás as Astúrias.

Potes é um local pitoresco, muito turístico, mas que me parece ficar nos confins de tudo. Não tivemos tempo para ver nada, praticamente só tivemos tempo para almoçar. Viemos aqui, penso que, apenas pelo passeio através de um desfiladeiro que percorremos, realmente apaixonante e muito bonito, mesmo pela agressividade pura de uma paisagem que parece virgem.

E vamos voltar para trás. Vamos regressar e percorrer de novo os vinte e dois quilómetros desse desfiladeiro, de nome “Hermidas”, e que nos trouxe até Potes. É um caminho por um vale estreito, imponente, assombroso quanto assustador, ladeado de monstruosas elevações de montanhas que se erguem por cima de nós, dantescamente, quase até ao céu e que vorazmente nos parecem engolir em cada metro de estrada que percorremos. Guardamos cada passada do percurso com uma foto, cada uma diferente da anterior, até consumirmos quase toda a bateria, tanta é a beleza disponibilizada nesta garganta do mundo, algures nos Picos da Europa, em Espanha.

 A N-621 é uma estrada que serpenteia por este desfiladeiro ao longo de um rio, o Deva e, porque estamos no verão, está meio vazio.

Potes é um local muito pequeno, muito recatado e bonito a fazer-me lembrar um postal ilustrado, tudo muito bem composto e arrumadinho. E apesar da sua localização no meio do nada e de difícil acesso, é um local muito procurado, quer no verão, quer no inverno. No verão é esta paisagem deslumbrante pela sumptuosidade: o caminho através do desfiladeiro com as montanhas rochosas a desafiarem-nos a vista. E o rio, em baixo, sempre ao nosso lado, a escorrer por entre um estreito leito de águas transparentes. No inverno, dizem, é o espectáculo do gelo que cobre as altas montanhas, que se elevam a mais de 2500m, e é destino para esquiadores. Sim, fica-se com a boa sensação de um lugar paradisíaco que vale a pena visitar e ficar, se for possível. Não é o nosso caso. São 15:30h, estão 27ºC e estamos já de saída.

São 16:35h e vamos a caminho de Ribadesella. Já passámos por esta estrada rumo a Oviedo. Aí mais à frente devemos derivar para outra estrada qualquer que nos levará a Ribadesella que, ao que julgo saber, será também uma estância balnear.

E estou a escrever agora porque está imenso calor aqui dentro (24ºC); vai o sol a bater-me na nuca e já estava a fechar os olhos, da moleza, para dormir. Um desperdício. Deve ter sido do excelente almoço que comi. Então, para obviar isso, resolvi vir para estas páginas que quero que transmitam as coisas agradáveis que estou a viver, acordado. Embora “os sonhos” que pudesse ter pudessem constituir uma boa alternativa, penso que o essencial e importante agora é “a realidade”, vivida nesta viagem e, pois então, quero e devo estar de olhinhos bem abertos para não perder pitada dela. Está bom de ver…

A verdade é que quero também que a minha descrição dela não se torne mais aborrecida e estou a alterar um pouco o estilo. Gostava de poder e ser capaz de descrever as sensações da alma em vez de referir que a estrada que vou é esta ou é aquela. É a escrever o que se sente, sobre aquilo que nos rodeia - nomeadamente aqui numa página de Diário de uma Viagem - que faz com que a leitura possa ser mais apelativa para quem lê e, dessa forma, valha a pena perder tempo a ler o que alguém escreveu.

E, de facto, a sensação ou as sensações que os Picos da Europa nos transmitiram são únicas: tenebrosas e perigosas pela sinuosidade da estrada, mas ao mesmo tempo deliciosas e aventureiras, numa transmissão pela alma que nos relega para a nossa pequenez, comparando-nos infinitesimamente com a grandiosidade do mundo onde assentamos.

A cordilheira de Hermidas, que termina quase em Potes, envia-nos para o espírito uma brisa que nos arrepia, de quem entra num labirinto e de onde não sabe se sai. Pelo rio Deva, reparamos que há troços que trazem consigo zonas pedestres, laterais, meias suspensas e que se podem percorrer em harmonia com a corrente do leito. Podemos sentir o quanto deve ser delicioso palmilhar aqueles estreitos caminhos, ao som do gorgolhar das águas, por onde só há espaço para se andar em fila indiana.

Estamos agora de novo a aproximar-nos do mar, mas curiosamente o clima piorou. É suposto irmos para uma zona balnear, onde haja um clima de sol e calor, além de que estamos em pleno agosto, no entanto, são nuvens altas e cinzentas que temos a horizonte. Mas não vai chover, longe disso. E já vejo o imenso Atlântico a acenar-me com os braços aqui perto de Villahormes. 

Esta vai ser uma visita completamente diferente das que fizemos da parte da manhã. E volto a acentuar que deve ter sido, até agora, o melhor deste passeio, embora, obviamente, este ainda não tenha terminado.

Na minha memória trago ainda as sensações do que senti em Covadonga. E vou aqui a regurgitar pensamentos sobre a intensa energia, sobre o imenso tempo de devoção à Santa padroeira. Depois, o percurso por aquele fenomenal desfiladeiro e as imagens que nos ficarão no imaginário, cuidadosamente arrumadas num rolo com um laço colorido à volta, dentro de uma gaveta onde guardamos as partes felizes das coisas boas da nossa vida. E, por inerência, também gravado nestas humildes páginas de histórias e sentidos, mesmo que estas sejam apenas pequenas pinceladas e pouco possam revelar do que se pode interiorizar e sentir.

São momentos únicos que, provavelmente, mereceriam mais tempo para desfrutar, nomeadamente, aqueles a meio do caminho da ribeira, nalguns pontos meio vazia, e de onde se salientavam os calhaus brancos e roliços que esteiravam o fundo do rio. Um rio onde também se criam trutas, um peixe muito cultivado por aquelas paragens.

E a viagem para Ribadesella continua. Pensava há pouco que estávamos a chegar, já se via o mar, mas o certo é que neste momento estamos no meio de uma serra de grandes vertentes apenas salpicada de verde e onde, provavelmente, será inóspito estar.

Já respirámos o ar da montanha, vamos agora respirar um bocadinho do ar do mar. Entrámos em Ribadesella pela carretera N-632 com um rio a receber-nos logo à entrada. Pejado de gaivotas debicando na areia da maré baixa, estas saudaram-nos efusivamente numa belíssima imagem de lusco-fusco e de sombras, como se do crepúsculo se tratasse.

São agora 17:15h e vamos sair para dar um pequeno giro. Está agora bom tempo e o termómetro indica 25ºC.

Ribadesella é um local pacato, do género de São Vicente, onde se está bem, tranquilamente, mas com apenas um tímido movimento turístico. Foi a ideia que me deixou. É uma cidadela com características ribeirinhas onde a pesca também parece ser um atrativo, além dos desportos náuticos, nomeadamente a canoagem, que até tem aqui um monumento, à beira-rio, erigido. Este monumento evoca as provas que aqui se efectuam com uma representação em pedra sobre um plinto, de uma canoa com dois atletas sentados dentro dela com as pás nas mãos, um deles com os braços erguidos de uma vitória, talvez.

É também conhecida esta pequena cidade costeira porque terá nascido por estas paragens a actual princesa Letizia Ortiz, futura rainha de Espanha. Este título, no entanto, diz-nos o guia, só o terá por morte de Juan Carlos, se continuar casada com Filipe de Bourbon, príncipe das Astúrias e se, entretanto, não mudarem a constituição espanhola.

Letizia tem aqui junto ao rio uma placa onde se lê: “Passeo Marítimo Princesa Letizia - Hija adoptiva de Ribadesella - 2007”, colocada em sua homenagem, mas que desta forma trará, com certeza, mais algum protagonismo a este lugar que é, de facto também, muito bonito e aprazível.

E no pouco tempo que aqui estivemos não deu para ver muito. Diria que foi mais uma paragem técnica que outra coisa. Dei, no entanto, conta que há uma pequena praia fluvial, do lado de lá, junto à foz, e para aonde se vai por uma ponte baixa, que é estrada nacional, e que atravessa o rio Sella. Pelo meio, o meu olhar encalhou numa língua de terra onde estão pousadas também imensas gaivotas e, por fim, ao fundo, vê-se uma marina de pequenas embarcações. Deste lado estão também vários pequenos barcos de pesca encostados ao paredão que sustenta o famoso passeio pedestre aqui contíguo.

Os edifícios que encontramos aqui junto à orla marítima são baixos, de apartamentos já com alguns anos, sem requintes, e terão até seis andares de altura. Estes refletem-se, em harmonia de cores de tons ocre e branco, de aspecto mais descontraído, no rio, onde se espelham, transmitindo-nos uma calma enleante que cativa. Há também lojas com artigos artesanais e os cafés do costume, mas estes com caraterísticas provincianas.

Estamos agora a caminho de Gijon onde vamos fazer também uma pequena paragem.

Para trás Ribadesella: o rio, as gaivotas, a marina, os barcos, as lojas, as vistas e… que bem se estava ali. Mas o nosso tempo é outro e perspectiva-se já o regresso com a chegada a Oviedo por volta das oito e meia, com esse desvio por Gijon.

Mas fomos a Gijon? Não. Passámos por Gijon. Havia planos para pararmos, mas não foi possível por causa da imensa confusão. Entrámos na cidade, passámos de autocarro à beira da praia e esta, pudemos ver, estava pejada de gente: milhares de pessoas, quer no areal, quer no calçadão contíguo entre a estrada e a praia. Estava um ambiente típico de férias, com muito sol e calor, gente de um lado para o outro, um pouco caótico mesmo, incluindo o trânsito automóvel por onde andávamos, sem conseguirmos estacionar.

Aqui, pude observar, as barracas armadas em tendas coloridas perfilavam-se em várias ordens pela praia. E estas não são apenas para proteger as pessoas do sol, são, sobretudo, para as proteger do vento que sopra sempre com muita força por estas paragens. Deu facilmente para percepcionar isso, pela agitação das bandeiras hasteadas e pelo varrimento do mar.   

Depois deste giro pela “praia” e da impossibilidade de sentirmos sequer a intensidade do vento que se faria sentir, o autobus fez uma incursão pelo centro da cidade, mas nada que acrescentasse ou enriquecesse a viagem; deu “meia volta” e regressámos. Procurou, no seu percurso, apenas a porta de saída da cidade, rumo a Oviedo e saímos assim, sem honra nem glória, sem termos tido tempo para respirar sequer o ar exterior.

À primeira vista, fica-se com muita pena de não ficar, antes por aqui, por Gijon, em vez de Oviedo. E questiona-se a opção. Parece-me muito melhor e mais apelativa a terra do futebol da equipa do Sporting do que a dos hoquistas das bandas de Oviedo. Muita diversidade (festas, eventos, exposições permanentes, etc.), mais movimento, mais vida e a opção praia, mesmo ventosa. E creio que serão razões económicas “de preço” da promotora deste passeio que nos levam para a cidade industrial de Oviedo em detrimento da “mais desportiva” Gijon. Se eu pudesse escolher, nem hesitaria, escolheria Gijon para ficar.

E vamos já a caminho de casa, ou seja, do nosso hotel e eu daquele pequeno quarto do Ayre Hotel Ramiro I.

Está um clima excelente de 23ºC quando são agora 19:06h e rolamos a boa velocidade na autopista A-66 com chegada prevista para daqui a meia hora. Há muito trânsito, mas sobretudo no sentido contrário. E percebe-se a rivalidade Gijon/Oviedo.

O jantar. Sentei-me à mesa no mesmo lugar de ontem. Esperava ter na minha frente o casal Abreu, já que normalmente respeitam-se os lugares, e foram eles que se sentaram ali. Só que alguém se antecipou e, em vez do casal Abreu, sentou-se um outro grupo onde se inclui uma senhora sozinha. Foi ela própria que sugeriu sentarem-se ali, junto a mim e ela ficou à minha frente. Não valorizei esse facto. É uma mulher que terá passado há pouco tempo os cinquenta. Não é o meu género, mas as pessoas não são o nosso género e revelam-se depois pessoas com quem nos identificamos de alguma forma.

Acabou por ser um agradável e animado jantar com assuntos transversais, onde naturalmente me incluí, embora o tema dominante tivesse sido a visita da manhã aos Lagos dos Picos da Europa (que não fiz), mas admitia-se agora ali a possibilidade de uma passeata até ao centro da cidade, depois da refeição.

O jantar terminou e eu desapareci. Fui, no entanto, ao quarto buscar um blusão e saí na expectativa de reencontrar, às portas do hotel, as pessoas com quem jantara e ir com elas até à cidade. Pareceram-me pessoas acessíveis e uma boa companhia para partilhar e reexplorar a cidade que ontem tanto me desiludira. Com elas hoje seria, provavelmente, muito mais animado e também um bom pretexto para cimentar conhecimentos mútuos.

Chegado ao hall não encontrei quem esperava, mas não perdi muito tempo e, sem me deter, resolvi ir na mesma até ao centro, embora indo por outros sítios, explorando outras ruas, mesmo desertas à saída do hotel, àquela hora tardia. E em boa hora o fiz porque acabei por descobrir uma outra faceta de Oviedo, que ontem me escapara, deixando-me esta cidade, hoje, outra impressão.

Oviedo mostrou-me agora outra roupagem. Aquela cidade com bares, restaurantes, com algum movimento nocturno e animação, que eu esperava encontrar, estava ali mesmo ao meu lado. Só que chegado ao centro, em vez de virar à esquerda, como fiz ontem, devia ter virado à direita e ter-me ia deparado com algo totalmente diferente. Ontem descobri o lado comercial com as lojas obviamente fechadas; hoje descobri a zona histórica e simultaneamente de lazer que ontem procurava. Aquilo que não vi aqui e que vi quer em Burgos, quer em Bilbao, foram as casas de alterne. Aliás, bares de alterne, em evidente, descarada e manifesta atitude de engate, com as mulheres à porta, vi em Santander. Em Burgos e Bilbao pareceram-me, no entanto, mais discrectas e dissimuladas. Aqui não vi nada nesse género, (não que andasse à procura) nesta zona que explorei.

Em sentido contrário, o engraçado e inesperado foi o que acabou por me acontecer. Estava eu absorto nessa busca pela cidade histórica, enquanto tentava perceber na noite escura iluminada apenas por uns focos amarelados projectados para uma imponente igreja, de que construção se tratava, dei comigo a partilhar aquele mesmo monumento com o casal Abreu que, nas sombras da Catedral de Oviedo, a meu lado, também a contemplava e admirava. Acabámos todos sorrindo pela coincidência e acabámos por passar o resto da noite juntos percorrendo com o olhar os vários monumentos daquelas praças. Ainda tirámos fotos e partilhámos conversas.

A certa altura, em plena Plaza de la Constitución, interrompidos até por alguém que nos interpelava com uma pergunta, em espanhol, sobre a localização de algo que procuravam.

Nós, de frente para a Igreja de San Isidro, com o edifício do Ayuntamiento de Oviedo ao nosso lado, falávamos de arquitectura e de literatura, abordando as obras de Eça de Queirós da qual Gracinda Abreu é profunda conhecedora, às obras polémicas de Saramago. Confessei-lhes que me penitenciava porque “Os Maias” nunca os lera totalmente e da literatura de Saramago não sou grande fã. Relativamente aos Maias reconheci a minha falha imperdoável e prometi-lhes, como a mim mesmo, que os iria ler em breve; já quanto à obra de Saramago conheço pouco mais do que os meros títulos de alguns dos seus livros e, de comum, temos apenas o dia da data do nosso nascimento.

De Saramago soube que Luís Filipe de Abreu foi amigo pessoal, mas nunca se considerou adepto, nem afim do anti-Cristo que Saramago revelou mesmo até à sua morte.

E ali estava eu, embrenhado em assuntos como arquitectura e mesmo literatura, dialogando como se fosse um entendido, como se os dominasse, e logo com o casal Abreu, pessoas de um nível com o qual não me posso sequer ombrear, revelando eles uma cultura intelectual e humana acima da média. Além de uma perfeita e conhecedora cronologia dos factos históricos sobre a origem e estilo de obras de que falavam, tinham ainda o conhecimento profundo e exaustivo das respectivas épocas em que ocorreram, assim como os demais detalhes que, efectivamente, o senso comum (onde me incluo) desconhece e que não valoriza. E eu, obviamente, senti-me muito pequeno, ainda que honrado pelo diálogo e pela partilha de conhecimentos.

 A noite avançou e nós fomos regressando ao hotel. A Calle de Calvo Sotello que subimos por entre dissertações, comentários e opiniões para chegarmos ao nosso destino, galgámo-la descontraidamente e sem queixumes.

Sem ter feito por isso, concluí que acrescentei à minha noite um enriquecimento cultural fantástico. Como um quadro, feito, desenhado e pintado a quatro mãos, com uma notável palete de cores, reflexos, formas e sentidos, à imagem de verdadeiros e incomuns artistas, olho neste preciso momento para essa tela, cheia de cores e brilhos, espelhada ainda no meu consciente que me abana e acorda, e sinto-me um homem especial, diferente e feliz a olhar para o acaso que me retribui a sorrir.

Acabo assim agora a reflectir, antes de me abandonar dos pensamentos do que foi este cheio dia, sobre o acaso deste casual encontro que acabei de ter no centro da cidade, totalmente em contraste e em contraciclo com o que procurei no pretexto para a saída. Pois é, ninguém sabe para o que está guardado. Valeu a pena.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

PÍNCAROS DA EUROPA - CAP III

“PICOS DE ESPANHA”

CAPÍTULO III

Bilbao, 6 de Agosto de 2012

São 07:45h. Para trás uma noite que devia ter sido de sonho. Mesmo assim, dormi menos mal sobre umas manchas de vermelho que ficaram para lavar. Sete horas, tocou o telefone para o despertar. Desci. O pequeno-almoço foi de reis, mas comi apenas como um príncipe. Croissants e doce, um bocado do inevitável e irresistível presunto e ainda um triângulo de queijo. Ainda estou nervoso. Estou a tentar dissociar-me, mas o problema, apesar de não subsistir, preocupa-me.

Está um dia claro. Está fresco, mas creio que a chuva ficou para trás. Espera-nos mais um dia bom, divertido, interessante e para conhecer novas paragens. É muita boa a sensação de irmos visitar locais onde nunca estivemos. É uma descoberta que nos faz sentir como crianças perante um novo brinquedo.

Sinto-me fisicamente bem. Vesti hoje umas calças compridas de ganga para me sentir mais confortável e uma t-shirt Lacoste rosa. Calcei uns ténis com meias. Ontem senti-me um pouco à fresca na visita ao museu. Mas não estava muito diferente dos outros, mesmo de calções e mais desportivo. Ainda guardo na memória aquele local onde se cruzam tantas culturas. Fiquei sem perceber é se o que se fala no país basco é um idioma se um dialecto. Sabê-lo-ei na internet.

(espanhol é um idioma, mas o basco, não, e o português é uma língua e um idioma. Ou seja, o idioma sempre está vinculado à língua oficial de um país. Já dialeto é a designação para variedades linguísticas, que podem ser regionais). Conforme em http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/fundamentos/qual-diferenca-lingua-idioma-dialeto-427786.shtml.

Aqui e agora as minhas dúvidas são outras. Neste momento já estamos atrasados para a hora prevista de saída.

São 8:00h e faltam pessoas. Quero libertar-me. Olho para as pessoas e vejo outras e comparo-as. Na minha cabeça há outra gente; quero ser feliz.

Ao microfone, brinca-se com o Euscádio, Euskadi, o tal dialecto aqui do País Basco. Estamos quase de partida, julgo que para Santander. O autocarro já pegou. Falta alguém? Parece que não. O Luís já fez a sua habitual contagem. Estamos ainda dentro do parque de autocarros deste magnífico Hotel Gran Bilbao que dizem só ter três anos. Autocarros são quatro aqui estacionados.

São 08:05h, estão 17ºC e vamos embora. Vamos na direcção Oeste. O nosso destino é Oviedo, nas Astúrias. Já estamos numa via rápida, dentro de um túnel enorme, por onde de resto já passámos quando fomos para Bilbao. Saímos e está sol, com nuvens dispersas. Há algum trânsito, sobretudo de pesados. Mais um túnel. Tem dois quilómetros de comprimento. Estava a escrever às escuras…. E outro túnel e outro. Velocidade 100 indica-nos a sinalização exterior.

Eu estou sentado na traseira do autocarro, quase sem ninguém. Os passageiros estão todos sentados à minha frente. Somos 31 e só 9 vêm aqui atrás depois da porta do meio do autocarro. Portagem em Portugalete. Estamos a pagar. A portagem é para custear a manutenção dos túneis que acabámos de passar.

São 08:22h As indicações ainda estão em Euskadi na E70 até Santander, numa zona industrial. Nesta zona prevalecem a indústria metalomecânica, a construção naval e a indústria da pesca. O porto de Bilbao é o mais importante.

Vamos entrar na Costa Verde e o Atlântico já apareceu lá ao longe recortado na paisagem.

São 08:25h e continuamos com os 17ºC nesta manhã em que o trânsito de camiões é muito intenso. Aqui a atmosfera também cheira um pouco a gás, mas não admira: há por aqui várias centrais com grandes depósitos circulares. É nitidamente uma zona muito industrializada, pouco apelativa para quem quer desfrutar de paisagens verdejantes.

Tirei a primeira foto ao Atlântico que estranhamente está à minha direita. Vejo uma placa a indicar à direita Cobaron e vamos em frente pela E70/A8. Já saímos do País Basco e entrámos na Cantábria, outra região autónoma desta dividida Espanha. As encostas têm muita vegetação. Já não há dois nomes nas placas de sinalização das estradas. Agora estão apenas em castelhano.

A capital é Santander, nome que deriva do nome do Santo André (Sanct Ander) - diz-nos o guia. A vegetação é densa e bastante alta e o Golfo da Biscaia está ao meu lado direito. Castro-Urdiales é uma conhecida e reputada zona balneária nesta costa Cantábrica. Aqui parámos.

Luís Filipe de Abreu. Artista Plástico. Um diálogo curto com esta figura pública que à mesa de uma esplanada se escondia na simplicidade e humildade de quem é grande em todos os sentidos. Descobri então quem era com a cumplicidade da sua esposa que me revelou com quem eu estava a conversar, sem saber. Um privilégio. Ele não queria que ela revelasse detalhes, sentiu-se até incomodado, como se não fosse revelante o seu trabalho. Ela insistiu, orgulhosa do homem que a acompanhava.

Fiquei a saber que eram de sua autoria os azulejos da estação do metro no Saldanha, em Lisboa, e que algumas das notas do Banco de Portugal tinham o seu cunho. Admirável e inesquecível encontro este.

Em Castro-Urdiales, à beira-mar, como saído de um sonho, conheci assim pessoas tão simples quanto ilustres. Paragem curta, mas que se revelou muito significativa por este pequeno diálogo de aproximação em que me senti deslumbrado e com uma profunda admiração e respeito por estar na presença de uma figura tão respeitosa quanto emblemática da nossa cultura.

São 09:20h, estão 20ºC, o tempo magnífico, e Santander aqui vamos nós…

Mudou a paisagem de ontem para hoje. O cenário de inverno passou para o edílico verão. É o mar aqui e ali que sarapinta agora a paisagem. Uma ribeira que vem desaguar no mar; as encostas muito verdes de vegetação vária e muito densa; subimos e há casario espalhado lá em baixo, ainda do meu lado direito, com o sol atrás de mim a bater-me na nuca. Afastámo-nos da costa, mas estamos na mesma estrada E70/A8 rumo a Santander.

Estamos na região de Laredo, localizada noutra baía da costa Cantábrica. Estamos também nos Caminhos de Santiago, um dos caminhos que levam até Compostela. Laredo é uma lagoa muito bonita. Passámos ao lado, mas parece que vamos para lá, pelo menos assim parece pela sinalização que vou encontrando. Ainda não são dez da manhã e, por isso, o comércio ainda está fechado. Vamos sair por dez minutos para ver a praia e tirar umas fotos. Já está. Missão cumprida. Mais uma pequena troca de palavras com o casal Abreu. Gente, de facto, muito simples e com quem dá gosto conversar.

São 10:00h, o tempo está aberto de um sol pleno, mas a praia deserta, apenas com gente ao fundo, na maré baixa, a apanhar marisco, bivalves, talvez.

Laredo é um local pacato, mas muito turístico, de vivendas e prédios altos de apartamentos de muito bom aspecto que se abeiram da praia. Têm aspecto de mais de vinte anos, mas estão muito bem conservados. E o pessoal vai chegando à praia…

A areia não é fina. É branca, sim, mas granulada. Agachei-me, peguei nela para sentir a sua textura e fechando a mão senti as pedrinhas arredondadas a escorrerem-me por entre os dedos.

Agora quero fazer tudo ao mesmo tempo: tirar fotos e escrever ao mesmo tempo, o que me parece difícil. Enquanto as coisas me vão caindo para o chão: ora os óculos, ora a caneta, ora eu próprio embalado pelo serpenteado do percurso do autocarro.

Estamos a caminho de Santander, já faltam poucos quilómetros. A paisagem agora é igual à que vimos antes. Verde nas encostas com casas ao fundo recortadas no verde dos campos. São vivendas isoladas. Agora há serra e a paisagem ainda totalmente verde, o que justifica porque se dá o nome de Costa Verde a estas paragens.

Na estrada de via rápida, muito trânsito nos dois sentidos, mas tudo a rolar, sem problemas ou conflitos que gerem impaciência. Não é uma estrada em linha recta, estamos inclusive a subir, numa zona alta e de gelo. Mas agora está sol, estamos com os mesmos 20ºC do princípio da manhã e o relógio digital marca 10:20h.

Estamos a chegar, diz o Rui, embora faltem onze quilómetros. Aqui vêem-se de novo indústrias dos dois lados da estrada. Em Fevereiro 1941 houve um grande incêndio que destruiu o centro histórico da cidade de Santander pelo que hoje a cidade é mais moderna. É uma cidade também portuária e fica numa península de onde se apanha um ferryboat que vai para Inglaterra. Vi esse barco e não percebi que se tratava do mesmo. É um barco enorme, majestoso, tipo navio de Cruzeiro, o que também não admira visto que é um Atlântico que tem de enfrentar pelo Golfo da Biscaia até ao Sul das Ilhas Britânicas.

São 10:45h, está um sol imenso, 22ºC e ainda não chegámos ao centro da cidade do Santo André. Andámos ali um pouco às voltas para estacionar e não foi possível. Apercebemo-nos, entretanto, do intenso movimento, sobretudo por se tratar de uma zona extremamente turística e da importância estratégica desta cidade.

São 11:25h, acabámos por atravessar toda a cidade capital das Astúrias e viemos parar junto à praia do Sardinero, onde estamos. Aqui o autocarro deixou-nos em frente ao edifício do Gran Casino para uma visita rápida e para absorvermos um pouco do ambiente. Parece que estamos em Cascais, numa zona balnear rica e muito bem organizada, muito limpa e onde até há um jardim de flores, canteiros e palmeiras virados, tipo esplanada, para o mar.

A praia está cheia de gente. A areia é fina e branca. Piso-a só para a sentir e repito o ritual de Laredo. Na avenida, um tipo de dentro de um carro grita para outro que vai a passar: “vai trabalhar”, em castelhano, claro, - e ri-se. Onde é que eu já ouvi isto? -pensei e ri-me também do meu pensamento.

A paragem é curta, vinte minutos. Aqui cheira a férias e a turismo. Apetece ficar mais tempo, mas agora já vamos para o centro, que é aqui já o lado. Santander também é uma cidade pequena, e vamos ser de novo despejados, agora para almoçar. Falta alguém, esperam-se mais uns momentos e já está.

11:50h e vamos sair então para desfrutarmos, cada um por si, a cidade. Parámos em frente à Catedral que visitei, e percorri depois grande parte da cidade a pé até um largo com umas esplanadas onde comi uns saborosos “pinchos”. Foi o meu almoço, acompanhado, claro, por umas “canas” fresquinhas e, protegido por uma sombra de um chapéu-de-sol, desfrutei do ambiente e aproveitei para descansar um pouco num clima de puro devaneio.

À minha volta outras mesas com gente de cá, clientes “habitués” e outras com alguns estrangeiros a apreciarem o mesmo que eu. Soube-me muito bem este momento e foi reconfortante.

14:30h, regresso ao autocarro. Esta hora e meia passou-se num instante. Apetece estar na praia. Estão 23ºC e um sol radioso num contraste gritante com o dia de ontem.

No porto está o Ferry que nos levaria até Inglaterra. É um grande paquete que até daria gosto usufruir. Há pessoas na coberta onde há uma piscina. Deve estar-se bem ali.

Mas o nosso destino é outro e vamos sair de Santander. Olhando para trás, esta cidade deixou-me muito boa impressão: com muitas lojas, muito comércio, e não sei se por ser agosto, com muita gente, além de que me pareceu um sítio ideal e muito apetecível para férias de verão, sendo de facto uma zona muito turística. Mas para nós não dá e aqui vamos nós. Adeus, até à próxima.

Voltámos à auto pista del Cantábrico. Vamos passar em Santillana Del Mar que, por sinal fica a dez quilómetros da costa. Estamos em plena A67 e a sinalização indica, além de Oviedo, Burgos, onde já estivemos.

Muitas estradas, muitas entradas e saídas, imenso trânsito, mas tudo em andamento calmo, sem problemas ou constrangimentos. O motorista tem feito uma condução passiva, parece saber o que está a fazer e ser bastante responsável. Não há manobras abruptas, guinadas ou travagens bruscas e transmite-nos confiança, além de que o Luís, nosso guia, também é um veterano destas coisas de viagens e para ele, nestes percursos, não há segredos.

Atiramos um olhar para fora das grandes vidraças e na paisagem vemos mais construções industriais ao longo da estrada, tipo parques de zonas industriais. A sinalização indica-nos também que estamos a 170 km de Oviedo. Aqui dentro vamos todos ainda a saborear nas nossas memórias o rebuliço que trouxemos de Santander, confortavelmente acomodados, com o termómetro digital do autopullman a marcar 23ºC e o relógio nas 14:45h, enquanto numa bela tarde de verão, algures na A-67, o autocarro nos dirige para Santillana.

Santillana del Mar é uma localidade medieval, muito turística, e cujo nome deriva de Santa Juliana de Nicomedia, uma mártir perseguida e morta na Ásia no século III e cujos restos mortais foram para ali trazidos e depositados numa ermida que foi declarada monumento nacional no final do século XIX.

Estamos a afastar-nos da costa e a paisagem voltou ao verde do campo com pequenas elevações. É por aqui que se encontram também as célebres grutas de Altamira com pinturas rupestres, supostamente do paleolítico superior, com doze a quinze mil anos de existência, diz-nos o guia. Todavia, há ainda hoje dúvidas sobre a sua autenticidade. Deste conjunto pictórico, estas pinturas rupestres são as mais significativas que se conhecem. Curiosamente, devido ao grande número de visitas, acrescenta, decidiram fechá-las para assim serem melhor preservadas. Pela net, em http://pt.wikipedia.org/wiki/Caverna_de_Altamira encontra-se bastante informação sobre esta famosa caverna.

A N-611 é a estrada que circulamos, fizemos um pequeno largo e estamos entre casas dispersas de uma pequena povoação a caminho de Torrelavega que está a quatro quilómetros. Uma cimenteira à nossa direita fere-nos o olhar despreocupado que uma central eléctrica e mais indústrias acentuam na paisagem descaracterizada.

Voltas e mais voltas e descortinamos que há por aqui inúmeras pousadas para peregrinos. É um roteiro com muitas ermidas, o que não é estranho, dado estarmos também sobre um dos percursos dos Caminhos de Santiago. Mais rotundas e rotundas num emaranhado de vias e estradas, entradas e saídas num labirinto de destinos que se cruzam e descruzam entre paisagens que se perdem no olhar verde que nos fazem lembrar o norte de Portugal, agora com as vistas mais abertas com as montanhas lá ao longe.

São 15:05h e estamos a chegar a Santillana del Mar. Estão 22ºC e há imensos carros estacionados por aqui. Vamos parar para darmos o nosso passeio apeado. São duas ruas… mas há imensa gente a passear ou sentados nas pequenas e recatadas esplanadas. Temos quase uma hora para desfrutarmos aqui. Vamos então lá explorar.

E é uma vilazita interessante, muito disputada por umas lojinhas características das pequenas localidades como esta, dispersas por ruazinhas estreitas com casas de pedra, tão tradicionais quanto artesanais, espaços exíguos de comércio onde se explora o que aqui se produz. Artesanato e chocolate são elementos dominantes.

Na arquitectura medieval, as varandas destacam-se por serem construídas em barrotes de madeira escura com umas plantas aéreas que se desprendem dependuradas e que fazem lembrar ouriços verdes e gigantes. Outras, apenas ostentam vasos com flores muito garridas de um vermelho vivo que nos atrai, salpicadas de cor que sobressai da madeira com pilaretes helicoidais. Outras ainda enchem-se de artefactos diversos, desde baldes a bicicletas, de bandeiras espanholas a roupa escura de trabalho, esta estendida ao sol aproveitando esta bela tarde de um dia verão.

Há lojas de artesanato, mas também restaurantes, estalagens e muita gente em busca de raízes dos seus antepassados. Revivem-se aqui histórias de infância e eu aproveito apenas para um olhar despretensioso para uma antiguidade de séculos sem sequer sentir o que vejo. São para mim apenas lugares de circunstância vividos sem a paixão de um artista ou de quem tem alguém a seu lado para partilhar.

Percorro estes caminhos olhando cada centímetro quadrado de paisagem, mas para mim este um lugar é como tantos outros que conheço e que temos no nosso país, ainda que este tenha a particularidade de estar muito bem cuidado e preservado e que nos transporta, em momentos pontuais, às gentes e às tradições ancestrais de um povo que aqui viveu e que soube ao longo dos anos guardar-nos este bocado de terra com as casas de dois/três pisos como um local de culto para aqueles que apreciam o passado e as tradições das suas gentes.

16:06h saída de Santillana rumo a Oviedo. Está um tempo magnífico e eu estou de calças compridas em vez de calções. Mas foi estratégico, devido ao meu percalço, aparentemente ultrapassado.

Estão 25ºC e para Oviedo não vamos pela autopista, mas pela estrada nacional porque temos mais paisagem para desfrutar, diz-nos o Rui. Por aqui temos também acesso visual aos prados de Cantábria com as bobines de fardos empilhados a um canto, nas propriedades, envoltas em plástico negro. Há por aqui ainda várias ermidas que fazem parte do roteiro dos Caminhos de Santiago e que foram fundadas por monges beneditinos. E encontramos também pequenos povoados com casas de dois pisos em tons avermelhados como suas cores características sóbrias e predominantes.

Os cavalinhos também são por aqui tradição. Estes animaizinhos têm características que ficam entre o poldro e o cavalo. Vacas é outra das espécies animais que por aqui se podem ver; e fazem-me lembrar os Açores. São de cor castanha, mas também já as vi pretas e brancas, como as que conhecemos melhor, nomeadamente, das Ilhas do meio do Atlântico. E a salpicar também os campos de prados verdes, vamos encontrando diversos pastos de dezenas de ovelhas que, pachorrentamente vão degustando a erva, alheias ao nosso olhar efémero de uma passagem que também é meramente fugaz.

E, claro, com tanta quantidade e qualidade desta pastorícia não podiam faltar as indústrias com as fábricas de queijo, assim como deve haver de chocolates, já que estes tanto predominam e são apreciados aqui no norte de Espanha. Do queijo não tenho opinião formada. Já quanto aos chocolates posso dizer que têm um aspecto delicioso, embalados com vários enfeites tipo “confiserie”. Vi isso em Gernika e Bilbao e fiquei… a olhar para eles e com pena de não os poder comprar, para evitar as calorias…

16:30h CA-131, Estamos a passar por Comillas que é outra zona balnear muito característica e disputada por aqui. Tem em anexo à praia dois parques de campismo e, pelo que nos apercebemos, estão lotados de gente. Parece a aldeia da roupa branca, tal a mistura de tendas que se estendem como lençóis lançados ao vento numa caótica cobertura de geometrias variadas.

Atravessámos a “aldeia”, seguimos viagem e ficámos com a mesma sensação de quem chega a São Martinho do Porto, pela similitude e pela confusão instalada. Não me parece ser um centro turístico de eleição, nobre por excelência, como vimos em Santander. Para Comillas vem o pobrezito.

Agora seguimos para San Vicente de la Barquera e vejo uma serra lá ao longe do meu lado esquerdo e o mar à minha direita, ou o seu reflexo. Oviedo está a 148 km e continuamos a serpentear pela estrada de curvas e contracurvas por entre pastos, vacas e bois a pastarem e por aquilo que me pareceram ser plantações de milho.

Parámos em San Vicente depois de percorrermos uma ponte antiga, provavelmente romana, pela arquitectura, que atravessa um rio com o mesmo nome.

São 17:05h e estão 25ºC na rua. Está um final de tarde ameno e muito agradável aqui à beira rio. No céu, nuvens muito altas e dispersas elevam-nos o ego e inspiramo-nos no clima abafado de um verão apetecível para sentir a leveza deste momento sublime, longe de outro qualquer lugar da nossa memória ou vil existência.

Estamos numa zona tipicamente marítima, de ria, mas sem praia. Parece-me um local tranquilo, acolhedor, turístico, e muito mais apelativo, embora bem diferente de Comillas. Digamos que é um local que se visita e onde se está de passagem, para comer ou beber, (diz-se que se pratica por aqui a pesca da lagosta), se conversa, ou se vem para dar um giro. Há muita organização e limpeza, está tudo muito equilibrado, e é sítio muito aprazível para passar uma tarde depois de um prolongado e bem degustado almoço de marisco.

Um local onde também se pode saborear a paisagem bucólica dos barcos que se agarram nas âncoras, enquanto se desfaz o cansaço no olhar perdido da paisagem marítima; ou o descansamos nas barcaças que salpicam a foz, e se consome, enfim, em harmonia com a natureza, o bem-estar e o ruido de uma pacata e pitoresca vila piscatória.

Um porto pesqueiro, sim, de pequenas embarcações atracadas às margens, numa paisagem edílica e extasiante para quem chega e para quem sai. Mergulhando-se o olhar na ribeira, esta ramifica-se de braços abertos e no seu regaço embalam-se e descansam frágeis barquitos de pesca artesanal.

Com uma ou duas ruas principais, com muitos cafés e restaurantes marisqueiros a animar quem aqui chega, San Vicente surge-nos como um lugar limpo, arrumado, onde há também jardins e parques infantis, um lugar onde se vem e se está com gosto, uma porção de terra também de canteiros e flores, mas onde não se foge à característica inexaurível de sons, cheiros e aromas de uma terra banhada pelo mar e com um rio a entrar-lhe pelas entranhas.

São 17:30h e estamos já a aprontar-nos para sairmos, rumo a Oviedo. Subimos agora uma serra onde tudo é verde e a paisagem a perder de vista. É o prolongamento de uma sensação aqui diferente de preenchimento da alma e de paz de espírito, como uma tranquilidade divina. Estamos na estrada nacional, há muitas curvas, mas apenas nos servem de embalo e suportam-se muito bem. À minha direita está agora o Parque Nacional dos Picos da Europa, uma grande e verdejante serra que iremos visitar amanhã.

A 140 km de Oviedo deixámos a Cantábria e entrámos no Principado das Astúrias. Saímos da Estrada principal E-70 A-8, e esta só tem duas faixas, uma para cada lado, quando vejo Noriega numa placa, que fica à esquerda.

17:45h e 21ºC, e La Franca acaba de ficar para trás enquanto eu aqui atrás no autocarro tenho muita dificuldade em perceber por onde passamos. Agora é o mar mesmo aqui ao meu lado direito e é como se percorrêssemos uma marginal com uma linha de comboio entre nós. Mas estamos num ponto alto, vejo arribas e desnível até ao mar. Há trânsito na estrada e obras que provocam alguns constrangimentos. Há viadutos em construção e uma placa diz-nos que estamos a 114 km do nosso destino. N-634. Vidiago, Riego, logo a seguir. Aqui as localidades estão bem identificadas, e seguimos para um troço da A-8 acabadinho de fazer.

À minha esquerda uma extensa cordilheira a lembrar a Serra da Estrela. Umas nuvens cinzentas cobrem alguns dos picos. Estamos a passar Llanes, contornámos uma rotunda e saímos por uma estrada nacional de duas faixas AS-263, enquanto a cordilheira se afastou de nós e ficou mais longe, embora continuemos a segui-la. Depois de voltas e mais voltas, estamos de novo ao lado do Atlântico, a cerca de 100 km de Oviedo. E voltámos à via rápida E70-A8. Ribadesella será a próxima localidade. Julgo que esta constante mudança de estradas e desvios é por causa das diversas obras de melhoramento e construção de novas vias que se estão a fazer por esta região.

Entretanto, enquanto o sol se vai escondendo por detrás das dispersas nuvens altas, os picos desta grande serra continuam aqui a fazer-nos sombra. Ribadesella está a quatro quilómetros e estas montanhas são umas autênticas esculturas naturais, verdadeiramente imponentes, parecendo que escorreriam para cima de nós se a chuva as fustigasse. Estão cobertas por um verde rasteiro e são bastante íngremes e rochosas morfologicamente.

Mas não o suficientemente duras para que a tecnologia humana não as atravesse: um túnel, outro túnel, mais outro. Gijon 58, Oviedo 74, indica a sinalização. E mais um túnel. O homem é imparável na sua obstinação de chegar mais depressa. E fura, perfura, inventa caminhos por entre a serra que nos engole por largas centenas de metros. Estamos nos Picos da Europa, é verdade, e escrevo (originalmente) às escuras. Este túnel era enorme. Saímos e de novo a serra à esquerda e pastorícia à direita, ou o mar, como acontece agora que levantei os olhos para contemplar esse plano de azul anil. Mais um túnel, este pequenino e o mar de novo. É uma paisagem muito bonita esta, recortada no nosso olhar que se distrai, ora desfrutando a serra num lado, ora mergulhando no mar, do outro.

À minha frente, há duas mulheres que vão sentadas sozinhas. Não me dizem nada, isto é, não me inspiram a vontade de comunicar com elas, distribuir-lhes um comentário, atirar uma piada, o que quer que seja. Não se encaixam no meu perfil. Há também vários casais, incluindo o casal Abreu, que vai um pouco mais à minha frente. O que estranho é que os casais vão todos sempre muitos calados, não há comunicação verbal, um diálogo visível entre eles, e isso aflige-me. Ou será que sou eu, em companhia de alguém, que sou “uma melga”?

Eu não me tenho imposto, nas nossas paragens, ao casal Abreu. Não me quero intrometer no passeio deles, nem sequer ser um intruso nas suas cogitações familiares ou deambulações nos locais onde paramos. Não quero também ser inoportuno, apesar de notar que se mostram sempre bastante disponíveis e simpáticos, além de me parecerem ser pessoas muito simples e acessíveis.

Assim, quando saímos do autocarro não me colo a eles para não ser - nem me sentir- indesejado, além de não querer perturbar a sua privacidade. Mas dá para perceber que não se escondem da minha aproximação.

Ele, como artista está uns furos muito acima do comum dos mortais, sem comparação, e noto também tratar-se de uma pessoa muito inteligente e culta. Eu não me sinto à sua altura, nem de perto nem de longe, e estou muito aquém, em todos os níveis de quaisquer paralelos. Tratando-se Luís Filipe de Abreu de uma figura de grande relevo e mérito da nossa sociedade cultural, individuo com um nível intelectual muito elevado e de estirpe notável, como a que demonstra mesmo na sua simplicidade, apenas me limito a ter o privilégio da sua admiração, ao empreendimento a que me propus, nesta viagem. E aqui vai ele, incógnito, como um passageiro comum, no seio de um restrito grupo de viajantes, trinta e um turistas ocasionais, numa viagem que esperamos todos que seja inesquecível.

Estamos agora com 22ºC, são 18:47h, o céu tem umas gretas azuis, mas as nuvens são daquelas que só fazem sombra. Deixámos de ter serra e chegámos a… um túnel dentro de uma localidade que é Villaviciosa, pela qual passámos por baixo. Aqui é assim: não se incomoda ninguém.

Estamos na A-64, mas há já algum tempo. Agora o guia diz-nos que amanhã vamos andar de novo por estes caminhos para irmos aos Picos da Europa. Percorremos um vale. É tudo verde de um lado e de outro da estrada, com muitas árvores de pequeno porte e de característica halófitas. Um enorme talude em rede de protecção protege a outra faixa de estrada. Acenderam as luzes aqui do autocarro o que significa que vamos ter pela frente um túnel enorme. Assim era. Saímos com cerca de uns dois quilómetros percorridos debaixo do chão. São 19:00h e estaremos a 20km de Oviedo.

Oviedo é a capital do Principado das Astúrias. Este território que se constitui simultaneamente como uma província e uma comunidade autónoma de Espanha teve o seu reconhecimento durante o século VIII.

Como sempre acontece, com o aproximar das cidades surgem na paisagem as zonas industriais. Típico, de um lado e de outro.

19:10h e entrámos em Oviedo. IKEA à esquerda e a Porcelanosa. Temos a segunda circular e o viaduto do Espírito Santo. Oviedo está à direita. Parece uma cidade velha, baixa, avermelhada, como se se tratasse de uma zona industrializada, não muito apelativa para ficar. Ainda mais um túnel e agora uns prédios castanhos. E as minhas suspeitas confirmam-se: Oviedo é uma cidade velha, suja e usada. Estamos a chegar ao hotel quando são 19:30h e o jantar será às 08:30h da noite.

Também este hotel não é nada de especial. É até o pior daqueles em que já fiquei nas minhas diversas viagens por Espanha. Julgo que este quarto onde estou, de tão pequeno, é um daqueles que fazem pandã com outros, do tipo familiar. Há pelo menos uma porta aqui ao lado que dará para esse outro quarto. Eu estarei no quarto dos filhos… ou consideraram-me um hóspede de segunda, ou um excursionista subalterno nesta comitiva...

De facto, este é um quarto extremamente pequeno, muito pequeno mesmo, com a cabeceira da cama, imagine-se, encostada à parede da porta da entrada. Se uma pessoa ressonar, quem for a passar no corredor, ouve-a. O quarto é, no entanto, acolhedor, está limpo e tem bom aspecto. Tem um quadro da Roma antiga com um militar sobre uma quadriga de dois cavalos. As paredes são rugosas, tipo antigo Karapas, pintadas de branco sujo. A mobília em mogno favorece o estilo antigo, século XIX, com linhas direitas numa cabeceira com os cantos recortados. A janela dá para umas traseiras fechadas por uns prédios altos que se erguem em frente, mesmo diante do nariz.

Não sei quanto se paga neste hotel comparativamente ao Gran Bilbao, mas o Ayre Hotel Ramiro I fica a léguas, diria mesmo que não tem categoria para as quatro estrelas que ostenta. Definitivamente, o Ayre Hotel Ramiro I foi mesmo um “ar” viciado que me deram. O mais grave é que vão ser, não uma, mas duas noites as que aqui vou passar.

Todavia, a única vantagem que tenho é que, mesmo assim, com todas estas pouco abonatórias considerações, se comparar este quarto com aquele onde eu durmo todos os dias, todo o ano, o melhor é ficar calado. Esta cama é de casal, é bastante grande, desproporcional até ao tamanho do quarto, e parece-me também muito confortável; no meu quarto, em casa, as condições que tenho não são melhores.

Para o jantar foi preparada uma sala particular para o nosso grupo. Entrei e fui escolher um lugar na ponta mais longínqua de uma das duas mesas que, perpendicularmente à entrada e paralelas entre si, estavam preparadas para o efeito. Quando entrei reparei que já estavam pessoas sentadas às mesas, mas algumas, confesso, era como se as estivesse a ver pela primeira vez. Em outro grupo – talvez constituído por pessoas que estão no autocarro mais próximas do meu lugar – reconheci-as melhor. Sentei-me. Logo a seguir chegaram as restantes pessoas do grupo que se foram sentando nos lugares disponíveis, tendo o casal Abreu privilegiado os dois lugares vagos à minha frente na mesa. Foi muito amável da parte deles e agradável a presença. A refeição acompanhou o clima descontraído ali estabelecido. Para mim nem tudo era mau.

Se este quarto que me atribuíram é pouco mais que um cubículo de 14 ou 15m² e tem uma casa de banho que faz um “ele” com uma área de uns 3m², tudo em pequeno, em contraste com a suite de ontem, o jantar foi em grande, simplesmente excelente e divinal.

A refeição começou com uns enchidos que chegaram à mesa e para os quais ficámos todos a olhar sem perceber se eram apenas entradas ou parte da refeição propriamente dita. E o meu olhar de destaque foi logo para um chouriço de cebolada – de que sou fã incondicional – de muito boa qualidade. Atirámo-nos a eles (aos enchidos) com o pãozinho que tínhamos à mão. Depois veio sopa de cozido – cinco estrelas –, e o segundo prato é que já não valeu nada. Eram uns croquetes de batata com salada de alface e tomate, mas como já estávamos empanturrados de sopa e enchidos, já ninguém se importou. Ficámos a saber depois que os enchidos eram para juntar na sopa. Misturámos tudo no estômago.

Para remoer um jantar daqueles nada melhor que um salto ao centro da cidade. Mas foi mais uma decepcão. Nenhum movimento e tudo apagado. Oviedo é uma cidade às escuras, a meio gás, triste e sem vida.

Resta-me este quartito. Em contraste gritante com a sumptuosidade do quarto de ontem, em que me senti o Xá da Pérsia ou a celebridade mais importante da nossa caravana, hoje chego apenas à exiguidade do meu próprio pensamento, em que, encaixotado aqui neste pedaço de mundo, serei, tão-somente, um hóspede solitário do Terceiro Mundo. E é interessante verificar como pode mudar a forma de sentirmos as coisas: num dia, grandes, no seguinte, pequenos e, num instante, passamos de bestial a bestas…

Boa noite, espero.