quarta-feira, 28 de novembro de 2012

PÍNCAROS DA EUROPA - CAP III

“PICOS DE ESPANHA”

CAPÍTULO III

Bilbao, 6 de Agosto de 2012

São 07:45h. Para trás uma noite que devia ter sido de sonho. Mesmo assim, dormi menos mal sobre umas manchas de vermelho que ficaram para lavar. Sete horas, tocou o telefone para o despertar. Desci. O pequeno-almoço foi de reis, mas comi apenas como um príncipe. Croissants e doce, um bocado do inevitável e irresistível presunto e ainda um triângulo de queijo. Ainda estou nervoso. Estou a tentar dissociar-me, mas o problema, apesar de não subsistir, preocupa-me.

Está um dia claro. Está fresco, mas creio que a chuva ficou para trás. Espera-nos mais um dia bom, divertido, interessante e para conhecer novas paragens. É muita boa a sensação de irmos visitar locais onde nunca estivemos. É uma descoberta que nos faz sentir como crianças perante um novo brinquedo.

Sinto-me fisicamente bem. Vesti hoje umas calças compridas de ganga para me sentir mais confortável e uma t-shirt Lacoste rosa. Calcei uns ténis com meias. Ontem senti-me um pouco à fresca na visita ao museu. Mas não estava muito diferente dos outros, mesmo de calções e mais desportivo. Ainda guardo na memória aquele local onde se cruzam tantas culturas. Fiquei sem perceber é se o que se fala no país basco é um idioma se um dialecto. Sabê-lo-ei na internet.

(espanhol é um idioma, mas o basco, não, e o português é uma língua e um idioma. Ou seja, o idioma sempre está vinculado à língua oficial de um país. Já dialeto é a designação para variedades linguísticas, que podem ser regionais). Conforme em http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/fundamentos/qual-diferenca-lingua-idioma-dialeto-427786.shtml.

Aqui e agora as minhas dúvidas são outras. Neste momento já estamos atrasados para a hora prevista de saída.

São 8:00h e faltam pessoas. Quero libertar-me. Olho para as pessoas e vejo outras e comparo-as. Na minha cabeça há outra gente; quero ser feliz.

Ao microfone, brinca-se com o Euscádio, Euskadi, o tal dialecto aqui do País Basco. Estamos quase de partida, julgo que para Santander. O autocarro já pegou. Falta alguém? Parece que não. O Luís já fez a sua habitual contagem. Estamos ainda dentro do parque de autocarros deste magnífico Hotel Gran Bilbao que dizem só ter três anos. Autocarros são quatro aqui estacionados.

São 08:05h, estão 17ºC e vamos embora. Vamos na direcção Oeste. O nosso destino é Oviedo, nas Astúrias. Já estamos numa via rápida, dentro de um túnel enorme, por onde de resto já passámos quando fomos para Bilbao. Saímos e está sol, com nuvens dispersas. Há algum trânsito, sobretudo de pesados. Mais um túnel. Tem dois quilómetros de comprimento. Estava a escrever às escuras…. E outro túnel e outro. Velocidade 100 indica-nos a sinalização exterior.

Eu estou sentado na traseira do autocarro, quase sem ninguém. Os passageiros estão todos sentados à minha frente. Somos 31 e só 9 vêm aqui atrás depois da porta do meio do autocarro. Portagem em Portugalete. Estamos a pagar. A portagem é para custear a manutenção dos túneis que acabámos de passar.

São 08:22h As indicações ainda estão em Euskadi na E70 até Santander, numa zona industrial. Nesta zona prevalecem a indústria metalomecânica, a construção naval e a indústria da pesca. O porto de Bilbao é o mais importante.

Vamos entrar na Costa Verde e o Atlântico já apareceu lá ao longe recortado na paisagem.

São 08:25h e continuamos com os 17ºC nesta manhã em que o trânsito de camiões é muito intenso. Aqui a atmosfera também cheira um pouco a gás, mas não admira: há por aqui várias centrais com grandes depósitos circulares. É nitidamente uma zona muito industrializada, pouco apelativa para quem quer desfrutar de paisagens verdejantes.

Tirei a primeira foto ao Atlântico que estranhamente está à minha direita. Vejo uma placa a indicar à direita Cobaron e vamos em frente pela E70/A8. Já saímos do País Basco e entrámos na Cantábria, outra região autónoma desta dividida Espanha. As encostas têm muita vegetação. Já não há dois nomes nas placas de sinalização das estradas. Agora estão apenas em castelhano.

A capital é Santander, nome que deriva do nome do Santo André (Sanct Ander) - diz-nos o guia. A vegetação é densa e bastante alta e o Golfo da Biscaia está ao meu lado direito. Castro-Urdiales é uma conhecida e reputada zona balneária nesta costa Cantábrica. Aqui parámos.

Luís Filipe de Abreu. Artista Plástico. Um diálogo curto com esta figura pública que à mesa de uma esplanada se escondia na simplicidade e humildade de quem é grande em todos os sentidos. Descobri então quem era com a cumplicidade da sua esposa que me revelou com quem eu estava a conversar, sem saber. Um privilégio. Ele não queria que ela revelasse detalhes, sentiu-se até incomodado, como se não fosse revelante o seu trabalho. Ela insistiu, orgulhosa do homem que a acompanhava.

Fiquei a saber que eram de sua autoria os azulejos da estação do metro no Saldanha, em Lisboa, e que algumas das notas do Banco de Portugal tinham o seu cunho. Admirável e inesquecível encontro este.

Em Castro-Urdiales, à beira-mar, como saído de um sonho, conheci assim pessoas tão simples quanto ilustres. Paragem curta, mas que se revelou muito significativa por este pequeno diálogo de aproximação em que me senti deslumbrado e com uma profunda admiração e respeito por estar na presença de uma figura tão respeitosa quanto emblemática da nossa cultura.

São 09:20h, estão 20ºC, o tempo magnífico, e Santander aqui vamos nós…

Mudou a paisagem de ontem para hoje. O cenário de inverno passou para o edílico verão. É o mar aqui e ali que sarapinta agora a paisagem. Uma ribeira que vem desaguar no mar; as encostas muito verdes de vegetação vária e muito densa; subimos e há casario espalhado lá em baixo, ainda do meu lado direito, com o sol atrás de mim a bater-me na nuca. Afastámo-nos da costa, mas estamos na mesma estrada E70/A8 rumo a Santander.

Estamos na região de Laredo, localizada noutra baía da costa Cantábrica. Estamos também nos Caminhos de Santiago, um dos caminhos que levam até Compostela. Laredo é uma lagoa muito bonita. Passámos ao lado, mas parece que vamos para lá, pelo menos assim parece pela sinalização que vou encontrando. Ainda não são dez da manhã e, por isso, o comércio ainda está fechado. Vamos sair por dez minutos para ver a praia e tirar umas fotos. Já está. Missão cumprida. Mais uma pequena troca de palavras com o casal Abreu. Gente, de facto, muito simples e com quem dá gosto conversar.

São 10:00h, o tempo está aberto de um sol pleno, mas a praia deserta, apenas com gente ao fundo, na maré baixa, a apanhar marisco, bivalves, talvez.

Laredo é um local pacato, mas muito turístico, de vivendas e prédios altos de apartamentos de muito bom aspecto que se abeiram da praia. Têm aspecto de mais de vinte anos, mas estão muito bem conservados. E o pessoal vai chegando à praia…

A areia não é fina. É branca, sim, mas granulada. Agachei-me, peguei nela para sentir a sua textura e fechando a mão senti as pedrinhas arredondadas a escorrerem-me por entre os dedos.

Agora quero fazer tudo ao mesmo tempo: tirar fotos e escrever ao mesmo tempo, o que me parece difícil. Enquanto as coisas me vão caindo para o chão: ora os óculos, ora a caneta, ora eu próprio embalado pelo serpenteado do percurso do autocarro.

Estamos a caminho de Santander, já faltam poucos quilómetros. A paisagem agora é igual à que vimos antes. Verde nas encostas com casas ao fundo recortadas no verde dos campos. São vivendas isoladas. Agora há serra e a paisagem ainda totalmente verde, o que justifica porque se dá o nome de Costa Verde a estas paragens.

Na estrada de via rápida, muito trânsito nos dois sentidos, mas tudo a rolar, sem problemas ou conflitos que gerem impaciência. Não é uma estrada em linha recta, estamos inclusive a subir, numa zona alta e de gelo. Mas agora está sol, estamos com os mesmos 20ºC do princípio da manhã e o relógio digital marca 10:20h.

Estamos a chegar, diz o Rui, embora faltem onze quilómetros. Aqui vêem-se de novo indústrias dos dois lados da estrada. Em Fevereiro 1941 houve um grande incêndio que destruiu o centro histórico da cidade de Santander pelo que hoje a cidade é mais moderna. É uma cidade também portuária e fica numa península de onde se apanha um ferryboat que vai para Inglaterra. Vi esse barco e não percebi que se tratava do mesmo. É um barco enorme, majestoso, tipo navio de Cruzeiro, o que também não admira visto que é um Atlântico que tem de enfrentar pelo Golfo da Biscaia até ao Sul das Ilhas Britânicas.

São 10:45h, está um sol imenso, 22ºC e ainda não chegámos ao centro da cidade do Santo André. Andámos ali um pouco às voltas para estacionar e não foi possível. Apercebemo-nos, entretanto, do intenso movimento, sobretudo por se tratar de uma zona extremamente turística e da importância estratégica desta cidade.

São 11:25h, acabámos por atravessar toda a cidade capital das Astúrias e viemos parar junto à praia do Sardinero, onde estamos. Aqui o autocarro deixou-nos em frente ao edifício do Gran Casino para uma visita rápida e para absorvermos um pouco do ambiente. Parece que estamos em Cascais, numa zona balnear rica e muito bem organizada, muito limpa e onde até há um jardim de flores, canteiros e palmeiras virados, tipo esplanada, para o mar.

A praia está cheia de gente. A areia é fina e branca. Piso-a só para a sentir e repito o ritual de Laredo. Na avenida, um tipo de dentro de um carro grita para outro que vai a passar: “vai trabalhar”, em castelhano, claro, - e ri-se. Onde é que eu já ouvi isto? -pensei e ri-me também do meu pensamento.

A paragem é curta, vinte minutos. Aqui cheira a férias e a turismo. Apetece ficar mais tempo, mas agora já vamos para o centro, que é aqui já o lado. Santander também é uma cidade pequena, e vamos ser de novo despejados, agora para almoçar. Falta alguém, esperam-se mais uns momentos e já está.

11:50h e vamos sair então para desfrutarmos, cada um por si, a cidade. Parámos em frente à Catedral que visitei, e percorri depois grande parte da cidade a pé até um largo com umas esplanadas onde comi uns saborosos “pinchos”. Foi o meu almoço, acompanhado, claro, por umas “canas” fresquinhas e, protegido por uma sombra de um chapéu-de-sol, desfrutei do ambiente e aproveitei para descansar um pouco num clima de puro devaneio.

À minha volta outras mesas com gente de cá, clientes “habitués” e outras com alguns estrangeiros a apreciarem o mesmo que eu. Soube-me muito bem este momento e foi reconfortante.

14:30h, regresso ao autocarro. Esta hora e meia passou-se num instante. Apetece estar na praia. Estão 23ºC e um sol radioso num contraste gritante com o dia de ontem.

No porto está o Ferry que nos levaria até Inglaterra. É um grande paquete que até daria gosto usufruir. Há pessoas na coberta onde há uma piscina. Deve estar-se bem ali.

Mas o nosso destino é outro e vamos sair de Santander. Olhando para trás, esta cidade deixou-me muito boa impressão: com muitas lojas, muito comércio, e não sei se por ser agosto, com muita gente, além de que me pareceu um sítio ideal e muito apetecível para férias de verão, sendo de facto uma zona muito turística. Mas para nós não dá e aqui vamos nós. Adeus, até à próxima.

Voltámos à auto pista del Cantábrico. Vamos passar em Santillana Del Mar que, por sinal fica a dez quilómetros da costa. Estamos em plena A67 e a sinalização indica, além de Oviedo, Burgos, onde já estivemos.

Muitas estradas, muitas entradas e saídas, imenso trânsito, mas tudo em andamento calmo, sem problemas ou constrangimentos. O motorista tem feito uma condução passiva, parece saber o que está a fazer e ser bastante responsável. Não há manobras abruptas, guinadas ou travagens bruscas e transmite-nos confiança, além de que o Luís, nosso guia, também é um veterano destas coisas de viagens e para ele, nestes percursos, não há segredos.

Atiramos um olhar para fora das grandes vidraças e na paisagem vemos mais construções industriais ao longo da estrada, tipo parques de zonas industriais. A sinalização indica-nos também que estamos a 170 km de Oviedo. Aqui dentro vamos todos ainda a saborear nas nossas memórias o rebuliço que trouxemos de Santander, confortavelmente acomodados, com o termómetro digital do autopullman a marcar 23ºC e o relógio nas 14:45h, enquanto numa bela tarde de verão, algures na A-67, o autocarro nos dirige para Santillana.

Santillana del Mar é uma localidade medieval, muito turística, e cujo nome deriva de Santa Juliana de Nicomedia, uma mártir perseguida e morta na Ásia no século III e cujos restos mortais foram para ali trazidos e depositados numa ermida que foi declarada monumento nacional no final do século XIX.

Estamos a afastar-nos da costa e a paisagem voltou ao verde do campo com pequenas elevações. É por aqui que se encontram também as célebres grutas de Altamira com pinturas rupestres, supostamente do paleolítico superior, com doze a quinze mil anos de existência, diz-nos o guia. Todavia, há ainda hoje dúvidas sobre a sua autenticidade. Deste conjunto pictórico, estas pinturas rupestres são as mais significativas que se conhecem. Curiosamente, devido ao grande número de visitas, acrescenta, decidiram fechá-las para assim serem melhor preservadas. Pela net, em http://pt.wikipedia.org/wiki/Caverna_de_Altamira encontra-se bastante informação sobre esta famosa caverna.

A N-611 é a estrada que circulamos, fizemos um pequeno largo e estamos entre casas dispersas de uma pequena povoação a caminho de Torrelavega que está a quatro quilómetros. Uma cimenteira à nossa direita fere-nos o olhar despreocupado que uma central eléctrica e mais indústrias acentuam na paisagem descaracterizada.

Voltas e mais voltas e descortinamos que há por aqui inúmeras pousadas para peregrinos. É um roteiro com muitas ermidas, o que não é estranho, dado estarmos também sobre um dos percursos dos Caminhos de Santiago. Mais rotundas e rotundas num emaranhado de vias e estradas, entradas e saídas num labirinto de destinos que se cruzam e descruzam entre paisagens que se perdem no olhar verde que nos fazem lembrar o norte de Portugal, agora com as vistas mais abertas com as montanhas lá ao longe.

São 15:05h e estamos a chegar a Santillana del Mar. Estão 22ºC e há imensos carros estacionados por aqui. Vamos parar para darmos o nosso passeio apeado. São duas ruas… mas há imensa gente a passear ou sentados nas pequenas e recatadas esplanadas. Temos quase uma hora para desfrutarmos aqui. Vamos então lá explorar.

E é uma vilazita interessante, muito disputada por umas lojinhas características das pequenas localidades como esta, dispersas por ruazinhas estreitas com casas de pedra, tão tradicionais quanto artesanais, espaços exíguos de comércio onde se explora o que aqui se produz. Artesanato e chocolate são elementos dominantes.

Na arquitectura medieval, as varandas destacam-se por serem construídas em barrotes de madeira escura com umas plantas aéreas que se desprendem dependuradas e que fazem lembrar ouriços verdes e gigantes. Outras, apenas ostentam vasos com flores muito garridas de um vermelho vivo que nos atrai, salpicadas de cor que sobressai da madeira com pilaretes helicoidais. Outras ainda enchem-se de artefactos diversos, desde baldes a bicicletas, de bandeiras espanholas a roupa escura de trabalho, esta estendida ao sol aproveitando esta bela tarde de um dia verão.

Há lojas de artesanato, mas também restaurantes, estalagens e muita gente em busca de raízes dos seus antepassados. Revivem-se aqui histórias de infância e eu aproveito apenas para um olhar despretensioso para uma antiguidade de séculos sem sequer sentir o que vejo. São para mim apenas lugares de circunstância vividos sem a paixão de um artista ou de quem tem alguém a seu lado para partilhar.

Percorro estes caminhos olhando cada centímetro quadrado de paisagem, mas para mim este um lugar é como tantos outros que conheço e que temos no nosso país, ainda que este tenha a particularidade de estar muito bem cuidado e preservado e que nos transporta, em momentos pontuais, às gentes e às tradições ancestrais de um povo que aqui viveu e que soube ao longo dos anos guardar-nos este bocado de terra com as casas de dois/três pisos como um local de culto para aqueles que apreciam o passado e as tradições das suas gentes.

16:06h saída de Santillana rumo a Oviedo. Está um tempo magnífico e eu estou de calças compridas em vez de calções. Mas foi estratégico, devido ao meu percalço, aparentemente ultrapassado.

Estão 25ºC e para Oviedo não vamos pela autopista, mas pela estrada nacional porque temos mais paisagem para desfrutar, diz-nos o Rui. Por aqui temos também acesso visual aos prados de Cantábria com as bobines de fardos empilhados a um canto, nas propriedades, envoltas em plástico negro. Há por aqui ainda várias ermidas que fazem parte do roteiro dos Caminhos de Santiago e que foram fundadas por monges beneditinos. E encontramos também pequenos povoados com casas de dois pisos em tons avermelhados como suas cores características sóbrias e predominantes.

Os cavalinhos também são por aqui tradição. Estes animaizinhos têm características que ficam entre o poldro e o cavalo. Vacas é outra das espécies animais que por aqui se podem ver; e fazem-me lembrar os Açores. São de cor castanha, mas também já as vi pretas e brancas, como as que conhecemos melhor, nomeadamente, das Ilhas do meio do Atlântico. E a salpicar também os campos de prados verdes, vamos encontrando diversos pastos de dezenas de ovelhas que, pachorrentamente vão degustando a erva, alheias ao nosso olhar efémero de uma passagem que também é meramente fugaz.

E, claro, com tanta quantidade e qualidade desta pastorícia não podiam faltar as indústrias com as fábricas de queijo, assim como deve haver de chocolates, já que estes tanto predominam e são apreciados aqui no norte de Espanha. Do queijo não tenho opinião formada. Já quanto aos chocolates posso dizer que têm um aspecto delicioso, embalados com vários enfeites tipo “confiserie”. Vi isso em Gernika e Bilbao e fiquei… a olhar para eles e com pena de não os poder comprar, para evitar as calorias…

16:30h CA-131, Estamos a passar por Comillas que é outra zona balnear muito característica e disputada por aqui. Tem em anexo à praia dois parques de campismo e, pelo que nos apercebemos, estão lotados de gente. Parece a aldeia da roupa branca, tal a mistura de tendas que se estendem como lençóis lançados ao vento numa caótica cobertura de geometrias variadas.

Atravessámos a “aldeia”, seguimos viagem e ficámos com a mesma sensação de quem chega a São Martinho do Porto, pela similitude e pela confusão instalada. Não me parece ser um centro turístico de eleição, nobre por excelência, como vimos em Santander. Para Comillas vem o pobrezito.

Agora seguimos para San Vicente de la Barquera e vejo uma serra lá ao longe do meu lado esquerdo e o mar à minha direita, ou o seu reflexo. Oviedo está a 148 km e continuamos a serpentear pela estrada de curvas e contracurvas por entre pastos, vacas e bois a pastarem e por aquilo que me pareceram ser plantações de milho.

Parámos em San Vicente depois de percorrermos uma ponte antiga, provavelmente romana, pela arquitectura, que atravessa um rio com o mesmo nome.

São 17:05h e estão 25ºC na rua. Está um final de tarde ameno e muito agradável aqui à beira rio. No céu, nuvens muito altas e dispersas elevam-nos o ego e inspiramo-nos no clima abafado de um verão apetecível para sentir a leveza deste momento sublime, longe de outro qualquer lugar da nossa memória ou vil existência.

Estamos numa zona tipicamente marítima, de ria, mas sem praia. Parece-me um local tranquilo, acolhedor, turístico, e muito mais apelativo, embora bem diferente de Comillas. Digamos que é um local que se visita e onde se está de passagem, para comer ou beber, (diz-se que se pratica por aqui a pesca da lagosta), se conversa, ou se vem para dar um giro. Há muita organização e limpeza, está tudo muito equilibrado, e é sítio muito aprazível para passar uma tarde depois de um prolongado e bem degustado almoço de marisco.

Um local onde também se pode saborear a paisagem bucólica dos barcos que se agarram nas âncoras, enquanto se desfaz o cansaço no olhar perdido da paisagem marítima; ou o descansamos nas barcaças que salpicam a foz, e se consome, enfim, em harmonia com a natureza, o bem-estar e o ruido de uma pacata e pitoresca vila piscatória.

Um porto pesqueiro, sim, de pequenas embarcações atracadas às margens, numa paisagem edílica e extasiante para quem chega e para quem sai. Mergulhando-se o olhar na ribeira, esta ramifica-se de braços abertos e no seu regaço embalam-se e descansam frágeis barquitos de pesca artesanal.

Com uma ou duas ruas principais, com muitos cafés e restaurantes marisqueiros a animar quem aqui chega, San Vicente surge-nos como um lugar limpo, arrumado, onde há também jardins e parques infantis, um lugar onde se vem e se está com gosto, uma porção de terra também de canteiros e flores, mas onde não se foge à característica inexaurível de sons, cheiros e aromas de uma terra banhada pelo mar e com um rio a entrar-lhe pelas entranhas.

São 17:30h e estamos já a aprontar-nos para sairmos, rumo a Oviedo. Subimos agora uma serra onde tudo é verde e a paisagem a perder de vista. É o prolongamento de uma sensação aqui diferente de preenchimento da alma e de paz de espírito, como uma tranquilidade divina. Estamos na estrada nacional, há muitas curvas, mas apenas nos servem de embalo e suportam-se muito bem. À minha direita está agora o Parque Nacional dos Picos da Europa, uma grande e verdejante serra que iremos visitar amanhã.

A 140 km de Oviedo deixámos a Cantábria e entrámos no Principado das Astúrias. Saímos da Estrada principal E-70 A-8, e esta só tem duas faixas, uma para cada lado, quando vejo Noriega numa placa, que fica à esquerda.

17:45h e 21ºC, e La Franca acaba de ficar para trás enquanto eu aqui atrás no autocarro tenho muita dificuldade em perceber por onde passamos. Agora é o mar mesmo aqui ao meu lado direito e é como se percorrêssemos uma marginal com uma linha de comboio entre nós. Mas estamos num ponto alto, vejo arribas e desnível até ao mar. Há trânsito na estrada e obras que provocam alguns constrangimentos. Há viadutos em construção e uma placa diz-nos que estamos a 114 km do nosso destino. N-634. Vidiago, Riego, logo a seguir. Aqui as localidades estão bem identificadas, e seguimos para um troço da A-8 acabadinho de fazer.

À minha esquerda uma extensa cordilheira a lembrar a Serra da Estrela. Umas nuvens cinzentas cobrem alguns dos picos. Estamos a passar Llanes, contornámos uma rotunda e saímos por uma estrada nacional de duas faixas AS-263, enquanto a cordilheira se afastou de nós e ficou mais longe, embora continuemos a segui-la. Depois de voltas e mais voltas, estamos de novo ao lado do Atlântico, a cerca de 100 km de Oviedo. E voltámos à via rápida E70-A8. Ribadesella será a próxima localidade. Julgo que esta constante mudança de estradas e desvios é por causa das diversas obras de melhoramento e construção de novas vias que se estão a fazer por esta região.

Entretanto, enquanto o sol se vai escondendo por detrás das dispersas nuvens altas, os picos desta grande serra continuam aqui a fazer-nos sombra. Ribadesella está a quatro quilómetros e estas montanhas são umas autênticas esculturas naturais, verdadeiramente imponentes, parecendo que escorreriam para cima de nós se a chuva as fustigasse. Estão cobertas por um verde rasteiro e são bastante íngremes e rochosas morfologicamente.

Mas não o suficientemente duras para que a tecnologia humana não as atravesse: um túnel, outro túnel, mais outro. Gijon 58, Oviedo 74, indica a sinalização. E mais um túnel. O homem é imparável na sua obstinação de chegar mais depressa. E fura, perfura, inventa caminhos por entre a serra que nos engole por largas centenas de metros. Estamos nos Picos da Europa, é verdade, e escrevo (originalmente) às escuras. Este túnel era enorme. Saímos e de novo a serra à esquerda e pastorícia à direita, ou o mar, como acontece agora que levantei os olhos para contemplar esse plano de azul anil. Mais um túnel, este pequenino e o mar de novo. É uma paisagem muito bonita esta, recortada no nosso olhar que se distrai, ora desfrutando a serra num lado, ora mergulhando no mar, do outro.

À minha frente, há duas mulheres que vão sentadas sozinhas. Não me dizem nada, isto é, não me inspiram a vontade de comunicar com elas, distribuir-lhes um comentário, atirar uma piada, o que quer que seja. Não se encaixam no meu perfil. Há também vários casais, incluindo o casal Abreu, que vai um pouco mais à minha frente. O que estranho é que os casais vão todos sempre muitos calados, não há comunicação verbal, um diálogo visível entre eles, e isso aflige-me. Ou será que sou eu, em companhia de alguém, que sou “uma melga”?

Eu não me tenho imposto, nas nossas paragens, ao casal Abreu. Não me quero intrometer no passeio deles, nem sequer ser um intruso nas suas cogitações familiares ou deambulações nos locais onde paramos. Não quero também ser inoportuno, apesar de notar que se mostram sempre bastante disponíveis e simpáticos, além de me parecerem ser pessoas muito simples e acessíveis.

Assim, quando saímos do autocarro não me colo a eles para não ser - nem me sentir- indesejado, além de não querer perturbar a sua privacidade. Mas dá para perceber que não se escondem da minha aproximação.

Ele, como artista está uns furos muito acima do comum dos mortais, sem comparação, e noto também tratar-se de uma pessoa muito inteligente e culta. Eu não me sinto à sua altura, nem de perto nem de longe, e estou muito aquém, em todos os níveis de quaisquer paralelos. Tratando-se Luís Filipe de Abreu de uma figura de grande relevo e mérito da nossa sociedade cultural, individuo com um nível intelectual muito elevado e de estirpe notável, como a que demonstra mesmo na sua simplicidade, apenas me limito a ter o privilégio da sua admiração, ao empreendimento a que me propus, nesta viagem. E aqui vai ele, incógnito, como um passageiro comum, no seio de um restrito grupo de viajantes, trinta e um turistas ocasionais, numa viagem que esperamos todos que seja inesquecível.

Estamos agora com 22ºC, são 18:47h, o céu tem umas gretas azuis, mas as nuvens são daquelas que só fazem sombra. Deixámos de ter serra e chegámos a… um túnel dentro de uma localidade que é Villaviciosa, pela qual passámos por baixo. Aqui é assim: não se incomoda ninguém.

Estamos na A-64, mas há já algum tempo. Agora o guia diz-nos que amanhã vamos andar de novo por estes caminhos para irmos aos Picos da Europa. Percorremos um vale. É tudo verde de um lado e de outro da estrada, com muitas árvores de pequeno porte e de característica halófitas. Um enorme talude em rede de protecção protege a outra faixa de estrada. Acenderam as luzes aqui do autocarro o que significa que vamos ter pela frente um túnel enorme. Assim era. Saímos com cerca de uns dois quilómetros percorridos debaixo do chão. São 19:00h e estaremos a 20km de Oviedo.

Oviedo é a capital do Principado das Astúrias. Este território que se constitui simultaneamente como uma província e uma comunidade autónoma de Espanha teve o seu reconhecimento durante o século VIII.

Como sempre acontece, com o aproximar das cidades surgem na paisagem as zonas industriais. Típico, de um lado e de outro.

19:10h e entrámos em Oviedo. IKEA à esquerda e a Porcelanosa. Temos a segunda circular e o viaduto do Espírito Santo. Oviedo está à direita. Parece uma cidade velha, baixa, avermelhada, como se se tratasse de uma zona industrializada, não muito apelativa para ficar. Ainda mais um túnel e agora uns prédios castanhos. E as minhas suspeitas confirmam-se: Oviedo é uma cidade velha, suja e usada. Estamos a chegar ao hotel quando são 19:30h e o jantar será às 08:30h da noite.

Também este hotel não é nada de especial. É até o pior daqueles em que já fiquei nas minhas diversas viagens por Espanha. Julgo que este quarto onde estou, de tão pequeno, é um daqueles que fazem pandã com outros, do tipo familiar. Há pelo menos uma porta aqui ao lado que dará para esse outro quarto. Eu estarei no quarto dos filhos… ou consideraram-me um hóspede de segunda, ou um excursionista subalterno nesta comitiva...

De facto, este é um quarto extremamente pequeno, muito pequeno mesmo, com a cabeceira da cama, imagine-se, encostada à parede da porta da entrada. Se uma pessoa ressonar, quem for a passar no corredor, ouve-a. O quarto é, no entanto, acolhedor, está limpo e tem bom aspecto. Tem um quadro da Roma antiga com um militar sobre uma quadriga de dois cavalos. As paredes são rugosas, tipo antigo Karapas, pintadas de branco sujo. A mobília em mogno favorece o estilo antigo, século XIX, com linhas direitas numa cabeceira com os cantos recortados. A janela dá para umas traseiras fechadas por uns prédios altos que se erguem em frente, mesmo diante do nariz.

Não sei quanto se paga neste hotel comparativamente ao Gran Bilbao, mas o Ayre Hotel Ramiro I fica a léguas, diria mesmo que não tem categoria para as quatro estrelas que ostenta. Definitivamente, o Ayre Hotel Ramiro I foi mesmo um “ar” viciado que me deram. O mais grave é que vão ser, não uma, mas duas noites as que aqui vou passar.

Todavia, a única vantagem que tenho é que, mesmo assim, com todas estas pouco abonatórias considerações, se comparar este quarto com aquele onde eu durmo todos os dias, todo o ano, o melhor é ficar calado. Esta cama é de casal, é bastante grande, desproporcional até ao tamanho do quarto, e parece-me também muito confortável; no meu quarto, em casa, as condições que tenho não são melhores.

Para o jantar foi preparada uma sala particular para o nosso grupo. Entrei e fui escolher um lugar na ponta mais longínqua de uma das duas mesas que, perpendicularmente à entrada e paralelas entre si, estavam preparadas para o efeito. Quando entrei reparei que já estavam pessoas sentadas às mesas, mas algumas, confesso, era como se as estivesse a ver pela primeira vez. Em outro grupo – talvez constituído por pessoas que estão no autocarro mais próximas do meu lugar – reconheci-as melhor. Sentei-me. Logo a seguir chegaram as restantes pessoas do grupo que se foram sentando nos lugares disponíveis, tendo o casal Abreu privilegiado os dois lugares vagos à minha frente na mesa. Foi muito amável da parte deles e agradável a presença. A refeição acompanhou o clima descontraído ali estabelecido. Para mim nem tudo era mau.

Se este quarto que me atribuíram é pouco mais que um cubículo de 14 ou 15m² e tem uma casa de banho que faz um “ele” com uma área de uns 3m², tudo em pequeno, em contraste com a suite de ontem, o jantar foi em grande, simplesmente excelente e divinal.

A refeição começou com uns enchidos que chegaram à mesa e para os quais ficámos todos a olhar sem perceber se eram apenas entradas ou parte da refeição propriamente dita. E o meu olhar de destaque foi logo para um chouriço de cebolada – de que sou fã incondicional – de muito boa qualidade. Atirámo-nos a eles (aos enchidos) com o pãozinho que tínhamos à mão. Depois veio sopa de cozido – cinco estrelas –, e o segundo prato é que já não valeu nada. Eram uns croquetes de batata com salada de alface e tomate, mas como já estávamos empanturrados de sopa e enchidos, já ninguém se importou. Ficámos a saber depois que os enchidos eram para juntar na sopa. Misturámos tudo no estômago.

Para remoer um jantar daqueles nada melhor que um salto ao centro da cidade. Mas foi mais uma decepcão. Nenhum movimento e tudo apagado. Oviedo é uma cidade às escuras, a meio gás, triste e sem vida.

Resta-me este quartito. Em contraste gritante com a sumptuosidade do quarto de ontem, em que me senti o Xá da Pérsia ou a celebridade mais importante da nossa caravana, hoje chego apenas à exiguidade do meu próprio pensamento, em que, encaixotado aqui neste pedaço de mundo, serei, tão-somente, um hóspede solitário do Terceiro Mundo. E é interessante verificar como pode mudar a forma de sentirmos as coisas: num dia, grandes, no seguinte, pequenos e, num instante, passamos de bestial a bestas…

Boa noite, espero.

domingo, 14 de outubro de 2012

PÍNCAROS DA EUROPA - CAP II

Meus amigos, lá fora está um tempo a cheirar a outono e decidi aproveitar para fazer-me ao trabalho. Assim, aqui está, como prometido, o Capítulo II dessa saga que foi a minha viagem a terras do norte de Espanha.

Resta ainda dizer que esta descrição corresponde apenas ao segundo dia, de seis, mas posso acrescentar que nos dias seguintes escrevi muito menos pelo que, o que me falta corresponderá apenas a metade daquilo que já escrevi... (boas notícias hem?)

Carlos Alberto

CAPÍTULO II

Burgos, 5 de Agosto de 2012

08:00h Estou em Burgos, sim, é verdade, mas não sei exactamente onde, em termos geográficos, em relação a outras cidades espanholas. Sei que estou no norte de Espanha, a caminho dos píncaros da europa, mas sem referências de correlação. Ontem à mesa com tanta gente formada, tantos doutores, até me senti mal e deslocado pela minha ignorância. Portanto, não admira que também não me consiga situar mentalmente no mapa...

Hoje a alvorada foi às sete da manhã. Higiene pessoal, pequeno-almoço e arrumar a mala. A roupa para vestir já estava preparada da véspera com uma t-shirt castanha da Lacoste, depois da amarela de ontem. Trago uns calções beges e uns sapatos práticos azulados.

A noite foi muito boa, tranquila, mas muito curta. Quando o despertador tocou achei que o despertador se teria enganado. Mas não. Nada, no entanto, que um bom banho não resolvesse, para acordar.

A manhã está fresca e o céu nublado. Já estou dentro do autocarro da Lusanova, bem adiantado na hora da partida. À mesa do pequeno-almoço também fui o primeiro a chegar. Adivinhe-se o que comi: melão com presunto. Não resisto.

Agora o pessoal já começou a chegar e imaginem-se as conversas. “Então, dormiu bem?” Pergunta um. Outro refere “A minha cama era dura”. Acrescenta o primeiro “Olhe, eu ontem tomei um rico banho e já não saí à noite”.

Entretanto, depois da longa viagem de ontem, a de hoje vai ser mais calma e diversificada. É isso que todos esperamos, além das novas sensações da descoberta que esperamos sentir.

Mudei de lugar no autocarro. Não há necessidade de me sentir enclausurado ao lado de uma pessoa que não conheço. É um tipo de uns cinquenta anos, meio inchado, de óculos redondos e cabelo comprido ondulado em farripas sobre o pescoço.

São 08:20h, começa a música. Vamos para o País Basco. Passámos ao lado da antiga porta da entrada da cidade, aquele arco que dá acesso ao Largo da Catedral de Burgos, e Bilbao é o nosso destino.

São 08:30h de uma manhã bem cinzenta de 15ºC. Entrámos na E70 e vamos em direcção a Guernica, uma pequena cidade (villa) situada numa serra nos picos de Espanha. Esta cidade celebrizou-se pela destruição que sofreu em 26 de Abril de 1937, bombardeada pelos nazis durante a guerra civil espanhola e pelo quadro que Picasso pintou em memória desta tragédia. Quando um nazi lhe perguntou se fora ele que fizera aquilo, Picasso terá respondido “não, foram vocês que fizeram”.

Ontem ainda percorremos centenas de quilómetros a partir de Vilar Formoso e não passámos por nenhuma portagem. Agora é a primeira aqui em Espanha, quando são 8:35h e rumamos no sentido de Bilbao.

As nuvens no céu são altas e estão 14ºC lá fora. Aqui dentro está-se muito bem, situado à vontade, agora sozinho nas traseiras do autocarro. A paisagem é amarela, cerealífera, vazia e plana. O olhar perde-se na contínua imensidão de cores que me ofuscam o sentido e me transportam apenas para um nada mais à frente que bruscamente será decerto interrompido por outras imagens e palavras que não estas. É o tempo dos sonhos, da viagem que nos embala sem percebermos sequer, e de propósito, por onde andamos, por onde nos levam.

Hoje é domingo, mas para nós isso é irrelevante. Quando se anda a passear tanto faz. O trânsito é grande, mas no sentido contrário ao nosso. Talvez o pessoal vá na direcção de Madrid.

Saindo de Castela muda a paisagem e haverá floresta. No País Basco esta será muito industrializada.

A estrada que percorremos é conhecida como a “estrada dos portugueses” porque morrem por aqui muitos em acidentes de viação. Espero que isto não se aplique a nós. Ah!Ah!Ah!

09:00h Estamos a 106 km de Bilbao, na estrada AP1/E80. O trânsito é muito intenso no sentido contrário ao que vamos. Vi um autocarro que dizia no seu destino PORTUGAL (interessante a sensação de vermos o nome do nosso país; aqui faz toda a diferença). Os carros que vejo passar são todos de matrícula estrangeira, nomeadamente, suíços. Já começo a ver ao longe as montanhas e há muitas nuvens sobre elas, uma espécie de chapéu.

Quando entrarmos no País Basco vamos notar grandes diferenças, nomeadamente na sinalização com o nome das localidades, adverte-nos o guia. Têm dois nomes, um em basco e outro em catalão.

Um túnel e eis a serra e toda a sua agressividade rochosa com diversos picos. Passámos por uma espécie de estreito, uma garganta onde afluem várias estradas e até linhas de comboio. Fez-me lembrar as paisagens de “far west”, mas com estradas.

Aqui em Espanha tenho notado que as gasolineiras são predominantemente da CEPSA, algumas AVIA e poucas da portuguesa.

A estrada que estamos a percorrer trás a indicação de E5 além de E80 e AP1. Não sei porquê. Está agora a chuviscar, o que nestas paragens, apesar de agosto, é normal. Estou um pouco à fresca, quando sair acho que vou ter frio.

São 09:20h e estão 16ºC. Estamos na “auto pista do norte”, informa-nos a tabuleta na estrada. O céu aqui está mais carregado, totalmente cinzento. Entrámos na região da cidade de Vitória. Já se vêem os dois nomes nas tabuletas indicativas das localidades. Esta Espanha é um país dividido. Nesse aspecto Portugal, independentemente das rivalidades regionais norte/sul, é um paraíso.

Saímos já da auto pista Vasco-Aragonesa e estamos agora noutra via, “Ongi Etorri”, dizia a placa da estrada com outros nomes por baixo que já não consegui ler. É uma estrada secundária tipo IP. Igay, saída à direita, mas vamos em frente. A paisagem mudou, agora é floresta. Há ursos nesta zona, como lobos, raposas e javalis, diz-nos o guia. É Parque natural, área protegida, acrescenta. Mas trata-se de uma área ampla, aberta; não se pode dizer que vamos pelo meio das árvores. Faz-me lembrar o nosso norte, no Minho, muito verde.

Bilbao 76km, numa placa lilás. É para lá que vamos pelo meio deste clima meio cinzento a cheirar a outono. Chuvisca, os carros trazem as luzes acesas. Lá à frente a paisagem não é melhor e mostra-nos imensas nuvens que cobrem e fazem desaparecer a serra que vamos atravessar. Mas não estou triste por isso; acho até desafiante. Estou a passear, sem compromissos, nem medos. Todavia levo o cinto do assento do autocarro apertado, não vá o diabo tecê-las. A estrada dos portugueses também pode ser esta.

“Pobes Nanclares”, à direita. Nomes estranhos estes, como “A-dos-cunhados” para outros, digo eu. Vamos subir até aos 850 metros pela tal serra que não sei o nome. Faz-se por aqui caça ao veado. Assusta um pouco, não pela caça, mas face ao clima nublado.

Está muito cinzento o tempo. O trânsito é agora quase nulo, como se toda a gente se estivesse a refugiar da adversidade climatérica. Parece que vai chover a potes, bátegas de água que começam a inundar-nos o subconsciente. Não é nada apelativo para quem se desloca por estradas tão longínquas. Estamos na AP-68.

Na paisagem recortam-se agora construções, aqui diferentes, com vivendas tipo casa de bonecas, baixas de telhados de duas águas muito acentuadas. Já se viu uma bandeira basca hasteada numa primeira villa por onde passámos que, ao longe, parece ter um X traçado em toda ela em tons de verde e branco. Ao perto percebemos que a bandeira tem fundo vermelho com uma cruz branca e um X verde. Não sei qual a interpretação que é dada a estes símbolos e cores, mas a minha é que o vermelho pode ser o sangue derramado na luta pela paz simbolizada na cruz branca, sendo o verde do X o objetivo na esperança na vitória final.

Aquilo que acho comum aqui com toda a Espanha é o tom vermelho ou ocre que predomina nas casas, edifícios e em quase todas as construções. Muitas delas têm o próprio tijolo à vista, o que lhes confere muita sobriedade, é verdade. Mas o alto grau de intensidade na combinação destes tons, do meu ponto de vista, imprime à paisagem urbana um aspecto muito austero. A rigidez física que transmite, embora a torne nobre, realça, no entanto, um carácter de antiguidade, como se cansada estivesse da exposição prolongada do tempo. São cores e tons com características do ferro, muito fortes e pesadas que intimidam ao olhar, e que lhes dá um aspecto que me parece robusto, sim, mas carregado e pouco alegre, sobretudo em ambientes outonais como o de hoje.

São 09:42h, agora está a chover e estamos a passar por um banco de nevoeiro. Não se vê nada. Bem-vindos ao inverno. Apesar do intenso nevoeiro, o autocarro não refreou a marcha e vêem-se os cem metros adiante. Bilbao está a 38km e vamos a descer. É o País Basco em todo o seu esplendor. Enquanto isso, aqui dentro o silêncio é absoluto. Nem música. Há quem durma. Da paisagem só se vê o nevoeiro que cobre uma floresta de alto arvoredo. Nada mais para além disso, enquanto se espera que o nevoeiro se dissipe o que começa a acontecer. Mas há ainda muita nebulosidade, céu carregado e a chuva parece iminente.

“Bizkaia” em verde. São quase dez horas e vamos a descer por entre cedros que nos fazem lembrar as paisagens suíças. É o País Basco, mais uma vez com toda a sua força intrínseca de região autónoma e fechada. Pelo meio umas fotos em movimento. Trago duas máquinas fotográficas: a antiga compacta e a Olympus Pen Digital E-PL2 adquirida recentemente e da qual pouco sei ainda tirar o máximo partido. Já tirei uma larga centena de fotos, mas por nenhuma sinto especial interesse. São fotos aleatórias, iguais às que toda a gente tira, sem cunho artístico ou que se realcem.

Chegámos a mais uma portagem. Estamos ainda na AP-68 com Bilbao a 16 km. Mas antes, segundo o programa, vamos fazer um desvio a Guernica para visitarmos o museu local.

As placas de sinalização, aqui azuis, parecem estar escritas em grego com nomes impronunciáveis: Ordezko…, Francia, Basauri. Nem consigo ler as placas porque há também muita informação nelas inscrita. Passámos numa localidade com uma ribeira que segue aqui à nossa esquerda. Há muita indústria pesada. Estamos em Arriaga, diz-nos o guia que é o dormitório de Bilbao. Vamos aqui numa encruzilhada de estradas em que entramos e saímos, contornamos rotundas, viramos e reviramos, é um emaranhando de vias que é difícil de perceber, sobretudo se não vamos na frente do autocarro e pela rapidez com que o percurso é feito. Nota-se que o motorista sabe exactamente para aonde quer ir porque, provavelmente, já fez este percurso imensas vezes.Passamos por Galdakao, Iurreta e estamos sobre a E-70 a 159km de Burgos.

São 10:11h e deixámos Bilbao para trás sem ter ido lá agora. Só iremos no final do dia, além de que o hotel ainda não está preparado para nos receber. Percorremos agora de novo uma zona isolada, de floresta. Deixámos os subúrbios de Bilbao e mais uma portagem, esta pequena em Donastia-San Sebastián na N-634 no sentido de Guernica. Amorebieta surge numa tabuleta. €1.407 é o preço da gasolina 95 nesta estrada. Em Portugal está quase nos €1.70 e os espanhóis ganham quase o dobro do que nós …

Estamos em pleno campo entre árvores que ladeiam a estrada de três faixas, duas ascendentes, quando subimos e ao contrário quando descemos.

O clima é que continua cinzento, como a evocação do lugar que vamos visitar. Curvas e contra curvas, a subir e a descer até Guernica. É uma espécie de embalo para um lugar de pesadelo por entre energias que nos envolvem numa misteriosa carícia mórbida.
O museu de Guernica, chamado Museu da Paz, homenageia os cerca de dois mil mortos do bombardeamento alemão durante a guerra civil espanhola.

12:30h, hora de saída. Foi pena a chuva, mas o tempo que aqui estivemos foi também pouco para explorar esta pequena cidade interior de Gernika, Guernika ou Guernica. Não se entende nada. A grafia muda, os nomes aparecem escritos em várias línguas.

Mas valeu a pena esta visita e esta passagem pelo Museu da Paz. Picasso, como já disse, está ligado a esta terra pelo seu quadro com o mesmo nome e que traduz o horror que aqui se viveu nessa fatídica segunda-feira 26 de Abril de 1937. Há imagens que ilustram a réplica do quadro em tons de cinzento com pessoas e animais esquartejados.

O edifício do museu está dividido por vários pisos e um deles recorda-nos os estilhaços dos bombardeamentos. No chão, sob os nossos pés, através de um piso envidraçado, caminhamos, indirectamente, sobre os escombros dessa tragédia. Há sons e imagens que ilustram esses momentos e, por instantes, sentimo-nos também atingidos, como se levássemos com uma pedra. São imagens violentas, de dor e angústia sufocante que até magoa só de olhar. Noutro piso há cartazes, frases e depoimentos que nos transportam não só para aquela realidade, mas que depois nos trazem para os dias de hoje e para o preço da liberdade.

Para mim, serão estas palavras que aqui transcrevo, que ilustrarão a minha breve passagem por aqui, como as fotos que testemunham aqueles tão cruéis momentos. Outros houve, no entanto, que guardarão no armário os guarda-chuvas que compraram nesta passagem por aqui, algo que, por sinal, muito útil hoje porque o clima continua chuvoso e cinzento. Eu estou vestido à verão, e também houve quem se tivesse precavido com para-ventos ou agasalhos para o clima das terras altas e não tenha sucumbido à intempérie.

Mesmo assim, não deixei de dar uma volta por aí. Visitei uma igreja lateral ao museu, subindo uma escadaria que nos encaminha para um largo. Estamos aí diante de uma outra escadaria de uma enorme igreja de estilo gótico basco, que é a igreja de Santa Maria. Entrei, admirei o seu amplo interior um pouco diferente das igrejas tradicionais e saí com duas ou três fotos tiradas, mas apenas do exterior. A chuva caía agora com mais intensidade. Não desisti e dei comigo diante da estação de comboios de Gernika, na Geltoki Plaza, onde uma escultura em bronze de corpo inteiro e tamanho natural me despertou a atenção. Trata-se da figura Lehendakari José António Aguirre, político basco, o primeiro presidente Euzkadi em terras bascas. Há outras esculturas do género nesta cidade, nomeadamente, um tocador de viola, mesmo no centro e que nos chamam a atenção. Aqui, pelos vistos, investe-se na arte e na cultura. É uma cidade pequena, mas muito interessante pela sua história.

Mas o separatismo nota-se e sente-se muito por aqui. É como se fosse uma energia latente nas pessoas com que nos cruzamos. O Basco ou Euskara é um idioma ancestral que se fala nesta zona, e que é anterior à introdução do latim pelos romanos. É uma língua diferente de quaisquer outras em que “askaricasco” significa “obrigado”. Ninguém os entende e só eles falam esta língua estranha e difícil. Parece um povo à parte.
É domingo e está tudo fechado, excepto os cafés e as doçarias com montras de bolinhos com aspecto muito apelativo e saboroso.

E aqui vamos nós já, estrada fora, contemplando a paisagem fria, triste, escura e avermelhada dos edifícios. Gernika é igualmente uma cidade cinzenta, talvez carregada pelo simbolismo e também pela chuva, embora hajam canteiros de flores que predominam em janelas e varandas de vários edifícios e que salpicam de cores alegres os vasos dependurados. São 12:40h e deixámo-la para trás com um clima invernal.

São 13:10h chegámos a Bilbao, junto ao hotel, mas os quartos não estão prontos, soubemos agora. Entretanto a viagem até aqui foi feita debaixo de chuva impiedosa. Agora só está tudo muito cinzento a cheirar a inverno. Deixámos em Lisboa o verão para virmos aqui inalar a estação oposta. Vamos até ao Centro da cidade.

São 13:30h, estamos na Gran Via, junto à Praça do Sagrado Coração de Jesus onde está um monumento com uma estátua alusiva a Jesus no cimo de um plinto. Vamos sair do autocarro para voltarmos daqui a duas horas. É tempo de cada um por si, em regime livre, ir almoçar.

Antes disso resolvi “girondar” (girar sondando) por aí, apesar de saber que depois vamos percorrer a cidade, no autocarro, com um guia local. E depois de ter estado no Parque da Cidade Doña Casilda, descido a Gran Via até à famosa Praça Elíptica e palmilhado junto ao rio o passeio Uribitarte com a Torre Iberdrola a expiar toda a cidade, percebi que estava na rota não só do porto mais importante de Espanha, como já perto do museu ex-libris desta cidade de Bilbao que visitaremos logo à tarde.

Entretanto, pelo caminho encontrei um fast food da Burger King na estação de comboios de Abando e refastelei-me com um menu tipo, com bacon (adoro bacon), enquanto dividi umas migalhas com uma pomba destemida que por ali adentro se atrevia.

São 15:30h e saímos com o guia local. Grandes e interessantes as histórias: de Nicolau ao Bacalhau passando pela guerra e pelas Chiquitas; descrições entusiásticas e intensivas com o separatismo sempre à flor da pele, pronto a explodir. Há vários dialectos, explica, porque os bascos viviam muito isolados e refere que é mais antigo que o latim. Leva-nos da igreja de São Nicolau à Praça Central e, à saída, faz questão de nos mostrar, acima das nossas cabeças, numa varanda, a bandeira do Athletic Club Bilbao.

São 18:50h, estão 20ºC e não chove. O mau tempo já lá vai. Regressámos da visita que fizemos, também com este guia local, ao Museu Guggenheim. Simplesmente extraordinário.

Entramos num mundo novo e diferente de tudo o que já vimos em que o edifício se constitui, em si mesmo, uma obra de arte integrante do museu. Grande espaço onde se misturam grandes superfícies brancas de paredes sem geometria aos amplos painéis de vidro que nos atiram para a paisagem exterior como se também ela fosse parte do museu. Várias exposições em três pisos que ficam incompletas numa visita de duas horas e picos.

Em suma, este parece ter sido, de facto, um dia muito divertido e cultural, que valeu a pena, mas que me soube a pouco. Faltou ou não houve tempo para irmos debaixo da “mamã”, nome dado pela autora Louise Bourgeois à aranha que, também no exterior, faz parte do património das peças do museu. E a visita consumou-se a apreciarmos com detalhe o gato florido existente na saída do museu, escultura revestida de milhares flores de várias cores e que compõem uma figura de índole controversa.

São 19:00h, cheguei ao quarto 712 do Hotel Gran Bilbao. Perdão, isto não é um quarto, é uma suite!!! Bom, mas numa suite??? Sim!, eu explico.

Quando entrei no hotel gracejei dizendo que ia dormir na garagem… Na recepção deram-me o quarto nº 215. Peguei no cartão e dirigi-me ao 2º andar à procura do mesmo. Ali chegado deparei-me com uma inusitada situação: o quarto estava desarrumado. Irritado, voltei à recepção (o quarto nem tinha vista para a frente rio/cidade, mas para as traseiras) e, apesar da minha irascibilidade, amavelmente, a recepcionista prontificou-se imediatamente a resolver-me a situação e deu-me um novo quarto, este onde me encontro. Simplesmente deslumbrante. Enquanto o outro ficava lá em baixo, atarracado, sem vista, este é uma espaçosa e acolhedora suite no 7º piso com duas grandes janelas com vistas para o rio, com a ponte que nos trás a Bilbao e para uma panorâmica, bastante aberta, da entrada desta cidade. Diria que há males que vêm por bem e jamais vou esquecer este episódio que aqui nestas memórias deixo imortalizado.

Antes do jantar que será às 20:30 tenho ainda tempo para reflectir sobre esta tarde em Bilbao de que destaco, obviamente, a imponência e o vanguardismo do museu de Guggenheim e das suas obras.

Alguns exemplos serão discutíveis, mas como disse o guia, cada um interpreta o que vê à sua maneira. Devemos olhar para as obras de arte com a sensibilidade do coração e não com a sustentabilidade da razão, acrescentou. Tudo é susceptível de interpretações várias e o museu tem tudo. Há inclusive peças no interior e no exterior. Aqui até a Ponte que chega e dá acesso ao museu é obra integrada no espólio do museu, tal como o enorme gato florido já referido.

Há peças no interior de tal dimensão que para as colocarem tiveram que demolir (e reconstruir depois) parte da cobertura de um dos pavilhões. É, de facto, uma visita obrigatória e extraordinariamente enriquecedora e tenho consciência que muitas palavras ficam por escrever e dizer sobre a riqueza e o património que vi e que estão aqui disponíveis. Há muita informação, muitas sensações, muita emoção nesta visita.
Tenho pena que a minha capacidade de absorver e descrever tudo o que aqui ouvi e o que se explicou já não a tenha e, por isso, se perca um pouco da magia que esta viagem ao Guggenheim pode transmitir. A mim resta-me a satisfação das sensações vividas e este pequeno depoimento constituirá tão-somente um apelo, transformando-se num convite, para vir aqui de novo, e redescobrir este fabuloso espaço/museu.

Não me canso de referir, estou na suite 712 deste magnífico hotel situado à entrada da cidade de Bilbao. Era para sair, mas face à qualidade do conforto aqui oferecido, seria um desperdício não usufruir e aproveitar esta comodidade. Só falta aqui uma pessoa. Podia lembrar-me de várias, mas lembrei-me da minha filha mais nova. No entanto, qualquer um dos meus três filhos mereceria estar aqui. É, de facto, um quarto destinado só a “big-people” que deve pagar muito bem para ter este conforto, mas aqui estou eu gozando-o sozinho, que nem um lorde, por causa de um descuido de alguém.

E hoje foi realmente um dia de emoções fortes em que há dois momentos que tenho de destacar. Um foi a dúvida surgida sobre a escultura ternurenta e animalesca do bicho florido em posição sentada em que se discute se é cão ou gato. Eu opinei que se trata apenas de uma “obra de arte, coberta de flores que mudam de acordo com a estação do ano”. É, de facto, um monumento controverso, mas muito bonito e apreciado e quero lá saber se é gato ou cão…

O outro momento interessante e que destaco foi o que aconteceu na visita guiada que fizemos de autocarro pela cidade. Ao passarmos pelo largo oposto ao Sagrado Coração, na Gran Via, a Plaza Elíptica, o guia pediu para repararmos que a praça, no centro, estava ligeiramente rebaixada relativamente ao nível da rua. E a razão era simples: aquele local tinha sido ponto de encontro da alta burguesia da cidade em outros tempos, onde a “grand finesse” se reunia ali para estar e conversar. Com a zona rebaixada ficavam assim os senhores mais protegidos dos ventos e menos sujeitos às corretes de ar… Um detalhe curioso e engraçado e que me passara despercebido a mim quando antes de almoço estivera ali, a pé, exactamente naquele sítio a tirar fotografias.

Além destes dois episódios há ainda mais duas histórias que o guia nos relatou e que vou tentar transcreve-las com o rigor que me foi possível captar no “portugalês” do basco. Uma tem a ver com a Praça Nova e a outra com o Bacalhau, alimento muito apreciado e reconhecido na gastronomia de Bilbao.

E das histórias que se contam daquela “Plaza Nueva”, uma tem a ver com o facto de na construção inicial, esta praça tinha quatro entradas, quatro arcadas que se abriam na construção quadrangular e que davam acesso ao interior do largo. Era assim uma praça completamente rodeada de edifícios de três pisos elevados sobre umas arcadas que, transpostas, era como se penetrássemos num claustro.

Hoje, no entanto, em vez das quatro “portas de entrada”, situadas uma em cada canto do quadrilátero, encontramos uma quinta porta, esta localizada num topo, a meio de uma das alas. Esta nova entrada surge em resultado das bombas, de um ataque aéreo, que caíram sobre Bilbao e que destruíram uma das alas destes edifícios. Na reconstrução decidiram fazer esta entrada porque seria mais fácil e menos dispendiosa a obra.

A outra história, também relacionada com estes trágicos acontecimentos de guerra e com os constantes e sucessivos bombardeamentos, leva-nos até à gastronomia basca e ao famoso bacalhau, aqui cozinhado de mil e uma maneiras diferentes.

O bacalhau é nesta zona o alimento mais cozinhado e consumido pela sua excelente especialidade. E isto porque, conta a história, nos tempos idos das guerras, alguém mandou comprar, para cozinhar, vinte e uma postas de bacalhau e quem recebeu a comunicação percebeu vinte e uma mil… Como estavam em tempo de guerra, a ser cercados pelos inimigos, quem comprou julgou que aquela quantidade era para fazer face a um eventual cerco e teriam que ter comida quanto bastasse.

Assim, aconteceu que durante a dita guerra havia excesso de bacalhau, tudo por causa deste equívoco e então tiveram que reinventar os processos de o cozinhar, cozinhando-o de diversas formas, tipos e maneiras pelo que, durante semanas, só se comeu bacalhau, bacalhau, bacalhau.

Uma das especialidades mais características, apetecíveis e elogiadas nesta região é o “bacalhau mexido” em que, na sua confeção, o bacalhau é movido na caçarola com um movimento de vaivém circular. Este movimento é aludido ao facto de que como caíam muitas bombas, o chão estava sempre a tremer e então com a tremedeira o bacalhau ficava mais saboroso.

E outras e mais histórias o nosso guia local nos foi contando, mas ou eu não percebi, ou não me foi audível, ou não consegui mesmo fixar, o que foi pena, porque, quem sabe, sabe e muito teria ainda para relatar. Mesmo assim posso concluir que foi um excelente dia bastante diversificado, cultural e muito divertido.

São agora 20:05h e estou à espera da hora do jantar para descer. Estou um pouco cansado e, por isso, não sei mesmo se vou ainda regressar a Bilbao e sentir a pulsação da noite nesta cidade. Nós não estamos no centro e, pelo que me apercebi, as zonas com algum interesse estão bem longe daqui. O hotel Gran Bilbao fica situado numa colina, um pouco afastado do centro (dez minutos a descer e quinze para subir) e a zona mais interessante demasiada afastada para confrontar com o meu cansaço e para calcorrear a pé.

Mas andei e fui, não tão longe quanto queria, mas pesquisei um pouco.

São 23:30h, já tomei banho e queria usufruir ao máximo este espaço. Só que como “não há bela sem senão”, aqui chegado, inexplicavelmente, tive uma hemorragia intestinal e lá se foi “o gozo” pleno da suite…

Estou um pouco destroçado, constrangido mesmo, deixei vestígios da “luta sangrenta”, mas só espero que amanhã a situação esteja regularizada e possa prosseguir normalmente o meu passeio, sem resquícios do sucedido.

E é assim desta forma estranha e inusitada que termino o meu segundo dia de viagem por terras dos píncaros da europa, embora ciente que o mundo não vai acabar aqui. Vou tentar dormir.

O TEMPO


Sei que os tempos não estão para a brincadeiras, mas mesmo assim não resisto de transcrever o que deu na real gana num e-mail para uma amiga minha.

TEMPO

O tempo, sempre o tempo, com ou sem tempo.
O tempo que tudo apaga e tudo revela, na querela.
Um tempo que dá para tudo, como no entrudo.
Fingirmos o que somos, querermos o que não temos,
esperamos que o tempo nos dê tempo do que tememos.
E sorrimos por um tempo, com alento,
na esperança que o tempo que nos lança
na cruzada que esperamos seja boa a jornada.

Tempo, sempre o tempo que as pessoas procuram,
para justificar as amarguras de um tempo de agruras.
Palavras que o tempo leva e nos eleva, até cairmos
na desgraça do que somos e desistirmos,
de lutar pelo tempo, contra o tempo, sem tempo
para sorrirmos antes que a morte nos faça perder o alento.

E prontos, é ixto. ásbezes dáme axim extes xeliques de intlegencia desmejurada e na me aguento nas canetas e comexo a iscriber a iscriber e prontos, xou eu mexmo em toda a minha pelenitude de um xer errante, xim, mas um xer ornesto no berdadeiro chentido da palabra.

Nota: os erros xão da pressa de iscreber deprexa e do nerbojo miudin-ho.Pecho per-dão.

Carlos Alberto (o nome já o iscrebo ámuito tempo e natem erros dexerteja)

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

FOTOLOG e OLHARES (imagens que falam)


Só para dizer que, além de escrever, também gosto muito de fotografia. Assim decidi alargar as minhas intervenções e tenho duas páginas para fotografias tiradas por mim que podem ser vista em:

http://www.fotolog.com/cpontoal/

e também em:

http://olhares.sapo.pt/utilizadores/?chave=cpontoal


Aproveitem para ver, divirtam-se e critiquem... se valer a pena. Obrigado.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

IMAGENS QUE MARCAM

As imagens seguintes foram recolhidas ontem na estação do metro do Saldanha em Lisboa. São do artista plástico Luis Filipe de Abreu que muito passei a admirar e que com muito orgulho quero partilhar aqui. Não são fotos muito boas, mas penso que traduzirão a excelente qualidade do trabalho que, no entanto, não precisa de qualquer publicidade.

A obra de Luis Filipe de Abreu fala por si mesma. Esta é apenas a minha pequena homenagem pela simpatia e humildade que caracterizou a sua personalidade quando o conheci e que me deixaram extremamente sensibilizado.

Vale a pena conhecer, por exemplo no seguinte blog

http://santa-nostalgia.blogspot.pt/2012/06/luis-filipe-de-abreu-artista-plastico.html

que revela muito do seu trabalho (clique numa foto)














E estas são apenas algumas fotos dos vários painéis existentes. Há catorze nos cais de embarque do metro, sete de cada lado, e uns outros nas escadarias de acesso.

Excelente trabalho só ao alcance de pessoas que ao lado delas percebemos o quanto insignificante somos. No entanto, a seu lado sentimo-nos crescer e que elas nos ensinam o quanto a vida tem sentido e bela ela pode ser. De facto, ao longo de quarenta anos, deve ter sido um previlégio para muitos o ter sido aluno nas Belas Artes deste enorme vulto da cultura portuguesa.

Sei que vale o que vale, mas não resisto em acrescentar, parabéns Luis Filipe Abreu.

Carlos Alberto

domingo, 9 de setembro de 2012

PÍNCAROS DA EUROPA - CAP I

Introdução

Meus amigos, sinto-me obrigado a passar para aqui a versão inicial da minha viagem a Espanha, aos Píncaros da Europa. Mas será apenas o Cap. I que corresponde ao 1º dia dos seis que foram a viagem.

Ainda não consegui avançar muito mais porque estive pelos Algarves na companhia das minhas filhas, em períodos diferentes com cada uma delas e, por isso, sem tempo para continuar esta "viagem".

Mas o prometido é devido e, aqui publicado, aceito críticas e sugestões para esta "versão base" deste Cap I.

De notar ainda que nesta transcrição fiz obviamente algumas alterações e acrescentei alguns aspectos de que me fui lembrando. Omiti, naturalmente, da versão manuscrita alguns detalhes pessoais, mas procurei ser fiel ao que vivi e senti.

Finalmente dizer que esta foi a minha primeira experiência no campo da narração de viagens, que fiz como se se tratasse de um Diário de Bordo.

Certamente conterá aspectos que podem ser melhorados, mas obviamente só traduzem aquilo que foi para mim possível dizer no momento em que a viagem se realizou, sem introduzir demasiados detalhes, hoje possíveis acrescentar com recurso à Internet.

“PICOS DE ESPANHA”

CAPÍTULO I

Lisboa, 4 de Agosto de 2012

07:40h. Sinto-me um pouco como uma criança excitada. A noite mal a dormi, mas porque estava preocupado em não acordar a horas. Pus dois despertadores, não fosse algum falhar-me, antes de ter adormecido já depois das duas da madrugada. Mas antes que os despertadores tocassem já estava acordado. Agora já estou em Lisboa, num café aqui ao lado da agência de viagens, onde vou apanhar o autocarro.

E chegar aqui também não foi fácil porque foi-me complicado estacionar o carro. Acabei por deixá-lo numa zona de estacionamento pago, sem perceber bem a que consequências me sujeito, nomeadamente, as multas, além do eventual reboque. Mas não vou pensar nisso agora; quando chegar logo vejo.

Por aqui já há muita gente com malas a deslizarem pela calçada num barulho característico dos rodados no empedrado e outros já à espera junto da agência. Eu bebi um café e tento assentar ideias.

A primeira, como se vê, foi utilizar este livro para descrever a viagem que vou fazer. Se vou conseguir ou como vou fazê-lo, não sei. Vou tentar fazer algo que nunca experimentei antes. Será apenas mais uma viagem, e desta vez ao norte de Espanha, até Oviedo. Estou só, irei no lugar 28 do autocarro. É só tempo de acabar esta página, esperar mais uns instantes e… “ there we go”.

Estamos na auto-estrada A1. Partimos da Avenida de Roma cerca das oito e trinta. Vamos, segundo o nosso guia, o Rui, rumo à A23.

O autocarro tem excelentes condições e não vai completo. Ao meu lado vai sentado um sujeito cuja mulher vai no lugar da frente… Há mais lugares vagos atrás, mas a falta de expediente das pessoas não as leva a agir, para fazerem a viagem juntos. Eu faria.
O Rui, que já conheço de outra viagem, é um excelente guia. O tempo está magnífico e vamos percorrer cerca de 650 km com saída de Portugal por Vilar Formoso.

São 09:20h, entrámos na A23 que foi uma antiga SCUT e agora paga-se portagem. A temperatura lá fora, segundo a indicação digital do autocarro é de 22ºC. Há gente a dormir e na rádio ouve-se, quase imperceptível na M80, “esta vida de marinheiro dá cabo de mim”. Por acaso esta vida não é de marinheiro, mas de turista e não está a dar cabo de mim, bem pelo contrário.

Entretanto, com um telefonema, já resolvi o problema do estacionamento indevido do meu carro: o meu filho Pedro vai buscá-lo e depois, quando eu regressar virá ele ter comigo. E aqui vamos nós rolando a cem à hora, como mandam as normas.

São 09:45h e estamos parados na área de serviço de Abrantes. É a nossa primeira paragem técnica entre várias que faremos. Lá fora imensos escuteiros que vão chegando em vários outros autocarros. Ao longe avista-se a Central termo eléctrica do Pego.

Duas enormes torres cinzentas a fumegarem e que fazem lembrar dois funis invertidos. O Tejo não está longe, a poluição também não.

Saí para explorar a área de serviço e o que vi foram as largas centenas de escuteiros de vários agrupamentos e regiões. Muito jovens, chegaram em vários autocarros e espalham-se por aí em grupos, ora sentados, ora em filas, ora conversando uns com os outros, sempre a fazerem-se ouvir. Vão, segundo soube, para um encontro nacional, algures.

Ao sair, um outro passageiro abordou-me dizendo-me que “lhe vou a fazer muita inveja por ser capaz de escrever tanto…” Respondi-lhe, sem modéstia, que “são muitos anos de escrita… mais de quarenta…”. Por acaso, havia reparado que ele em determinada altura da viagem ia também a escrevinhar num pequeno bloco que levava na mão e pensei que afinal não estava sozinho na ideia de escrever. Mas terá ficado por aí.

Fui à procura do café, ainda tentei tomar um, mas desisti, face à confusão instalada. Dei meia volta, tirei duas fotos e regressei ao meu lugar do autocarro, mas não sem que antes tenha aproveitado para exercitar as pernas o que nestas viagens é essencial.

Aqui neste autocarro é só gente de meia-idade, gente reformada, muito tranquila, em contraste gritante com os outros autocarros aqui estacionados ao lado, pejados de juventude, risos e brincadeira. Que saudades…

Nós aqui aproveitamos para dar largas à vida ou o que ainda nos resta dela. São na maioria casais os que aqui vão, ou famílias, mas ainda não identifiquei nem padronizei ninguém. Neste momento estou ainda na fase em que me limito a observar, sem pretensões de analisar ou fazer juízos de valor muito elaborados sobre quem quer que seja e que integra comigo esta viagem. Mas também não o tenciono fazer. Não é esse o meu papel.

Cada um tem o seu espaço e direito a não ser devassado por ninguém. Eu, em particular, quero e procuro apenas ser feliz, sentir-me bem, tranquilo e usufruir este momento. É o que procuro, para já, nesta viagem.

Preferia ir aqui sentado sozinho (e não com alguém estranho ao lado), mas não tive essa sorte. Hei de, todavia, mudar de lugar, lá para trás, lá mais para a frente… Há uma dúzia de lugares vagos e mudar-me-ei numa próxima oportunidade.

São 10:30h e vamos sair daqui. Vilar Formoso está a quase 200 km de distância, ou seja, mais duas horas de caminho. Os escuteiros vão, afinal, para um encontro nacional, este fim-de-semana em Idanha-a-Nova. Serão cerca de dezassete mil. Neste autopullman, Burgos será o nosso destino, em Espanha.

Somos 31 passageiros no autocarro e a cordilheira Montejunto Estrela vai aqui ao nosso lado esquerdo. Tomamos conhecimento do programa para hoje e para amanhã e em Bilbao, diz o guia, o museu Guggenheim é o ex-libris da cidade. Mas o Rui não se fica pelas meras intenções e começa a sua locução com uma demonstração inequívoca de bastante conhecimento da história quer espanhola quer portuguesa e das respectivas etnografias. É um gosto ouvi-lo; difícil é acompanhá-lo e captar tudo o que ele, com requintado detalhe, descreve.

São 10:45h e ao meu lado o passageiro lê o jornal enquanto a rádio deixou de se ouvir. O guia vai à conversa com o pessoal da frente e aqui o silêncio é total. Na estrada não há muito trânsito e a paisagem reparte-se por eucaliptos e pinheiros que vamos deixando para trás. Sentimos apenas a monotonia de uma auto-estrada e ainda não as emoções que verdadeiramente buscamos nesta aventura. Sabemos que os hotéis onde vamos ficar ficam nos centros das respectivas cidades e isso, obviamente, é bom. Haverá tempo para passear a pé e conhecer as redondezas. E aqui vou eu Espanha…

São 11:30h e estamos em plena A23, auto estrada da Beira Interior, com a Serra da Estrela como pano de fundo do lado esquerdo. Uma placa a dizer que a próxima povoação é Fundão está do lado direito, depois de termos passado ao lado de Castelo Branco. Guarda e Covilhã também estão no nosso caminho.

E aqui vou eu a pensar na minha vida e no que já passei. Há quase dois anos também viajava sozinho. Depois conheci a Cristina numa viagem parecida com esta e… já passou. Pensava que a minha vida mudara aí. E mudou. Só que a ilusão durou menos de ano e meio. Podia, com ela, ter uma vida muito boa, desafogada, mas não seria feliz. Agora posso ainda não sê-lo, mas vou criar condições para alterar isso e encarar esta situação como mais uma oportunidade. Viajo só, é verdade, mas não pode ser um drama.

11:34h “Serra da Gardunha”, avisa-nos o guia, e queixa-se das sucessivas portagens que pagamos e já vão nos vinte euros. Um silêncio abateu-se de novo sobre o autocarro. Ouve-se a música, volume muito baixinho, em jeito de adormecermos todos. A paisagem vê-se aqui e ali ardida. A serra está despida e mostra o seu lado inóspito. Há muitos carros estrangeiros na estrada, alguns, talvez a maioria são de emigrantes. Agora um túnel: entrámos e saímos. E outro de mil seiscentos e vinte metros de comprimento.
Quase meio-dia. A Covilhã vimo-la ao nosso lado esquerdo e já ficou para trás. Lá fora a temperatura aquece e está nos 27ºC. Aqui dentro uns vinte. Está agradável. O autocarro como é novo está em excelentes condições. Na rádio ouve-se agora a RR e as noticias onde se incluem os resultados dos Jogos Olímpicos que estão a decorrer em Londres. De medalhas para portugueses não se ouve falar, a não ser da desilusão que têm sido as nossas prestações. Mas vai haver remo e estamos nas finais.

Por aqui a paisagem é agreste. Entrámos na Beira Alta e vamos subir a mais de mil metros de altitude. Daqui a meia hora estaremos a entrar na fronteira com Espanha. O ritmo do autocarro é constante e o motorista só pode conduzir determinados quilómetros por hora, obedecendo a regras muito rígidas de segurança rodoviária. Guarda está ao lado, a cidade mais alta do nosso país a cerca mil e cem metros de altitude.

São 12:40h e passámos para 13:40h. Vilar Formoso está à nossa frente, “nuestros hermanos” esperam-nos do outro lado da rotunda que fizemos antes da fronteira. Há imenso trânsito no sentido inverso, policia a controlar o movimento. Entrámos na região de Castela/Leão. Gasolina mais barata e bandeirinhas a reclamar, em território espanhol, “A23 NO PAGO”. E já ouvimos a rádio espanhola.

A Espanha tem 17 regiões autónomas, é o país das Tapas. Vem a propósito, parámos para comer na estação da área de serviço espanhola, junto à fronteira, em Fuentes de Oñoro. O movimento é imenso: gente nas compras, outros a comer no bar ou no restaurante. Antes daquelas decidi comer aqui aquilo que mais adoro: o famoso “jamón”.
E foi mais uma paragem técnica, rápida, mas em que não resisti também a comprar esses famigerados “caramelos con piñones”.

Depois de quarenta e cinco minutos, voltei ao autocarro e sentei-me no mesmo lugar, ainda acompanhado pelo mesmo sujeito. Não compreendo como é que um casal não se importa ou incomoda por não ir sentado, numa viagem destas, ao lado um do outro. Comigo seria impensável. Talvez por isso eu seja diferente ou eu faça a diferença. As pessoas viajam juntas, mas até parece que não querem partilhá-la. Não compreendo, sendo que para mim, ir ao lado de alguém de quem se goste, poder dar-lhe a mão, fazer uma carícia, oferecer um sorriso, partilhar uma paisagem, um sentimento, é fundamental, indispensável e único. Se a vida não for vivida assim, para mim ela não faz sentido. Mas enfim, são os meus meros pontos de vista que para outros podem não ser relevantes. E sinto-me apertado neste lugar, parece que sufoco.

São 14:35h saímos de Fuentes de Oñoro, na região de Castela. Castela porque, segundo a crença popular, o nome de Castela provem da grande quantidade de castelos ou fortalezas que existiam nestas terras, mas admite-se que possa ter outra origem o seu nome. É, no entanto, a maior região de Espanha desde a reconquista de todo o território peninsular que se concluiu em 1492 com a tomada do reino muçulmano de Granada pelos Reis Católicos. O título de Reis Católicos é o nome pelo qual ficou conhecido o casal composto pela rainha Isabel I de Castela e o rei Fernando II de Aragão, que unificaram os reinos ibéricos deste país que se tornou a Espanha de hoje. E o Rui está a dar espectáculo com a descrição da História espanhola. Acrescenta que há crise em Espanha, mas nós não notamos porque somos portugueses, turistas, estamos de passagem. A crise, sentimo-la quando se vive no país, tal como nós sentimos a nossa, vivendo em Portugal.

Olho através das amplas janelas fixas do autocarro e a paisagem é muito plana e as montanhas estão lá longe. Aqui também há desertificação e as pessoas fixam-se no litoral. Esta é uma das principais regiões de gado com a melhor carne em que se destaca a vitela.

A “Sierra de Gredos”, que vislumbro agora à direita, além de ser muito disputada em termos turísticos é também conhecida pela cultura do porco preto, aqui muito famosa, sendo o “jamón” uma especialidade. Com uma alimentação exclusiva à base de bolota, o “pata negra”, com um sabor especial e diferente, chega a ser comercializado a cem euros o quilo.

O guia diz-nos que a paisagem, até Salamanca, não terá atrativos nenhuns e que a rega nesta zona é feita a partir das águas de um canal vindo do Rio Douro. Lá fora estão agora 26ºC., mas no Inverno há neve e gelo por estas paragens. Amanhã, no entanto, quando entrarmos no País Basco já usufruiremos de um clima diferente, mais Atlântico. Para complementar a sua dissertação explica-nos a ainda a origem das “tapas”. Diz ele que o uso vem dos tempos medievais. Não sendo unânime a origem, alguns defendem que "tapa" deriva do verbo “tapar” e que teria origem no costume da Idade Média, em que os copos de vinho eram servidos (tapados) com uma fatia de presunto, queijo ou morcela para evitar que as insuportáveis moscas que apareciam no verão caíssem dentro dos copos ou dos jarros.

E o “show” do Rui continua: Cidade Rodrigo está à nossa esquerda. A cidade deve o seu nome a Rodrigo Diaz de Vivar, conhecido como “El Cid” que foi um nobre guerreiro castelhano que viveu no século XI, época em que a Hispânia estava dividida entre reinos rivais de cristãos e mouros (muçulmanos). Ele era conhecido entre os mouros por “sidi " que significa senhor em árabe.

Fala agora da queda que o Rei Juan Carlos deu há dias num degrau e que o Rei fala melhor português do que espanhol porque viveu muitos anos em Portugal… Entretanto o desemprego que em Espanha está nos 24 %, nomeadamente na Andaluzia, pelo contrário no País Basco há menos desemprego. Acrescenta ainda que na Catalunha se fala outra língua e que a Espanha tem quatro línguas oficiais, a saber: Castelhano, Basco, Catalão e Galego. Em Portugal falam-se duas: o português e o mirandês. Esta questão espanhola das quatro línguas oficiais levanta muita polémica, sendo que a ETA, Euskadi Ta Askatasuna no País Basco é (ou era) um dos problemas. É, por isto um país muito dividido.

As diferenças de riqueza e poderio económico das regiões autónomas, os seus recursos e valências causam também perturbações e, por exemplo, os Bancos Santander e Bilbao Biscaia, que temos em Portugal, têm origem nesta zona rica do país.
E depois de meia hora de dissertação a contar histórias sobre a vida e cultura espanholas e as comparações com Portugal, agora ouve-se a rádio com música de fundo. Na paisagem não há nada senão uma via rápida que percorremos ladeada de árvores que serão carvalhos e azinheiros. Estamos na E80 com Salamanca a 76 km de distância. Há nuvens dispersas no céu e a temperatura está nos 26ºC.

15:30h e ainda estamos a vinte e cinco quilómetros de Salamanca. Atravessamos campos de girassol. Nesta região, tal como nós portugueses juntamos os tremoços à cerveja, eles comem a semente de girassol, sendo que esta planta também é utilizado para a produção de óleo. Mas nesta paisagem a perder de vista, são as planícies que predominam. Salpicadas de casas ou casarios que aqui e ali pontilham o imenso e interminável castanho e que nos sacodem o olhar, a alternância dos altivos caules dos girassóis relegam-nos para uma interminável harmonia, como um exército em parada monumental.

Reparo agora que há muito trânsito nos dois sentidos sendo que há muitos carros com matrículas estrangeiras. Alguns vêm completamente cobertos de lama e sujos só com o desenho do limpa para brisas marcado nos vidros da frente e de trás. A maioria, no entanto, reluz à claridade do sol que se faz sentir com muita intensidade. A temperatura aqui dentro é amena e não reflete os 27º graus exteriores. Já vejo publicidade ao Corte Inglês o que quer dizer que nos aproximamos da “civilização”. Estou a tentar perceber a sinalização, mas está tudo em espanhol (…) e eu “no entiendo”. Salamanca 7 diz uma placa azul. Mas não vamos passar por lá hoje, só no regresso, na quinta-feira. Agora surgem placas a dizer “Valladolid” e “Tordesillas”.
Mais estrada, mais campos de girassol.

16:00h e “Tordesillas” está a 67 km. Na paisagem, fenos de palha espalham-se do outro lado da estrada enquanto passamos pelo km 214 da Autovia. Na rádio, a música com letra em inglês é boa e chega-nos de uma estação de Salamanca cujo programa é TOP 40.

16:35h e acabámos de passar o Rio Douro que aqui se chama “Duero” na pequena localidade de “Tordesillas”. Foi aqui que se realizou em 7 de Junho de 1494 o célebre Tratado entre os reinos de Portugal e de Espanha que dividia, por ambos, as terras descobertas e por descobrir fora da Europa.

Estamos agora na E80 com “Valladolid” a menos de trinta quilómetros. A paisagem é constituída por pasto rasteiro de um lado e pinheiros do nosso lado direito. Não há nada que justifique ou valha a pena descrever, a não ser dizer que passámos agora por um pequeno edifício rasteiro que pertence ao aeródromo de “La Matilla”. A viagem vai levar-nos até Burgos onde vamos dormir, mas não sei nem quanto tempo nem quantos quilómetros nos faltam. Só sei que ainda vamos fazer uma paragem técnica para aliviar… as pernas e comer qualquer coisa. Por aqui encontramos à beira da estrada muitas indicações de “hostals”, que não são mais do que hospedarias, muito procuradas para encontros casuais. Têm imagens muito apelativas nas entradas. Muito curioso.

Para Burgos faltam 130 km e temos “Simancas” à direita, local onde há documentação sobre Colombo, esse controverso navegador quanto à sua nacionalidade. Nós dizemos que é português, outros defendem que é genovês. Colombo, segundo o historiador Salvador Madariaga, era judeu, razão que pela qual ele ocultou suas origens.

São 16:50h e vamos para a área de serviço de “Valladolid” onde estão 28ºC.

São 17:10h e estou aliviado… Para Burgos falta hora e meia de viagem e vai ser a nossa última etapa de hoje. O guia já nos falou sobre os pontos de interesse da cidade, e sugeriu, nomeadamente, a visita à Catedral que, segundo ele, é a segunda mais importante de Espanha, depois de Sevilha. De estilo gótico com as suas duas cúpulas em forma de agulha na fachada, é hoje património da humanidade, estatuto conferido em 1984. Na Catedral de Burgos destaca-se uma capela de culto onde a obra de “Cristo de Burgos”, um trabalho do século XIV, de origem flamenga, em madeira, é totalmente coberta com pele de bezerro.

Entretanto, a paisagem que desfrutamos é estilo rural sem nada de relevante e profundidade. Há casas velhas, indústrias com aspecto degradado, sendo esta zona uma zona tipicamente industrial. No céu há agora nuvens, mas as temperaturas continuam elevadas. A música na rádio é tipo flamenco com letra espanhola. Se me sinto fora de Portugal, diria que sim, a sensação é essa. Mesmo pela paisagem que voltou agora à planície amarelada e as indústrias ficaram para trás ou estão mais dispersas.

18:25h e estamos quase a chegar a Burgos. Esta cidade terá cerca de 200 mil habitantes e o guia dá-nos as últimas indicações sobre a cidade e instruções sobre o programa de amanhã. O jantar hoje será às 20:30h.

O hotel Corona de Castilla de quatro estrelas não é um hotel de encher o olho. É simples. Chegámos às 18:30h, recebemos os cartões que nos darão o acesso aos quartos e eu fiquei no 1º piso, como de resto toda a gente do grupo, embora o hotel tenha sete ou oito andares.

Aproveitei a luz do dia e fui tentar inteirar-me das redondezas. E a impressão é de que se trata de uma cidade pobre. Pobre no sentido no sentido em que se sente que é uma cidade pequena, modesta, de província. Há, no entanto, as características esplanadas que se enchem de gente, também o rio “Arlanzon” que atravessa a cidade e que segundo consta já a alagou duas vezes, sendo que, na última, a água terá quase chegado aos dois metros, conforme se atesta nas marcas traçadas a vermelho nos pilares de um edifício de arcadas que atravessamos da praça central.

A cidade tem um arco à entrada, o arco de Santa Maria, que funciona como porta de entrada da cidade antiga e dá também acesso à Catedral. Mais à frente e continuando a subir deambulando pelas casas que ladeiam uma rua empedrada, encontramos umas pequenas muralhas de um castelo dissimulado na paisagem. A estrutura acidentada leva-nos por umas escadas a um pequeno miradouro com um largo onde existe uma roda dos ventos no chão. Daqui pode vislumbrar-se grande parte da cidade de Burgos, com referências em bronze, ao longo do parapeito deste miradouro, às igrejas, edifícios e monumentos que, em destaque, dali se avistam.

A catedral, tal como o castelo, só os visitei pelo exterior. Para visitar o interior da Catedral pagava-se sete euros e achei que era muito dinheiro, apesar de provavelmente, ter sido uma oportunidade única. Não sabemos. Só conheci a parte possível visitar pela entrada principal. Para o acesso ao castelo também se pagava e fiquei pela entrada, regressando ao miradouro. Aqui a estrela com os pontos cardeais indica-nos, cada um deles, as diversas distâncias a quatro pontos diferentes do globo, sendo que Lisboa a SO (Sueste) está a 620 km.

Outra particularidade desta cidade é ver os noivos a circularem pela cidade (e vi três ou quatro casamentos distintos) e a serem fotografados aqui e ali nas poses menos convencionais possível, procurando os fotógrafos captarem espontaneamente e ao acaso a atitude dos recém casados, ora descendo uma escadaria, ora debaixo de uma arcada e, na medida do possível, à distância dos nubentes.

De regresso ao hotel, jantámos numa sala interior onde três mesas compridas que se dispunham num U aberto. As pessoas do grupo foram-se sentando indiscriminadamente nos lugares encontrados vagos. Na minha mesa, constatei, só estavam doutorados, catedráticos e professores. Tudo gente de meia-idade, entrados ou a entrar. E não há aqui ninguém que me chame a atenção a fim de estabelecer uma amizade especial. Trinta hipóteses falhadas…

Achei o jantar de qualidade inferior, embora talvez que pelo preço pago não se possa exigir mais. Oito e meia até quase às dez da noite.

Pela mesa muitos diálogos trocados e animados entre pessoas que se descobriam ou desencriptavam, mas onde me senti pequeno face aos conteúdos tão académicos dos discursos que se cruzavam entre uma garfada ou um trago de vinho. Por fim, educadamente, pedi licença para me levantar e fui para a rua absorver um pouco do ar da noite, mas percebi que fui logo seguido por todos os meus comensais.

Fui então descontrair e espreitar vida nocturna de Burgos. E apercebi-me que há alguma movimentação, muitos bares, mas tudo numa escala muito moderada, face àquilo que é a vida nocturna espanhola, noutras cidades. Como começara a chuviscar, as esplanadas estavam agora desertas. Os bares, alguns pareceram-me deliberadamente de “engate”.
A determinada altura, na rua, cruzei-me com um tipo que se despedia, com um prolongado beijo, de uma fulana que era “uma bomba”. Não pude deixar de reparar, num flagrante olhar, na elegantíssima mulher, de saia curta a mostrar umas voluptuosas pernas, cabelo curto, loira, de rosto pintado e com um olhar de atractiva sensualidade. Ela afastou-se por uma rua caminhando como se pisasse uma passerelle. Ele, um tipo também novo, de calções e ténis, a meu lado, olhou para o relógio enquanto seguiu por outra rua, descontraído, pensando talvez que a noite lhe ia ser rentável. Ele ainda olhou de soslaio para mim e terá visto a quanta inveja eu deveria estar a sentir e dito mentalmente “cota” (em espanhol, claro…). Dei meia volta por outra rua, perdi a noção de onde estava e desorientei-me. Procurei a Catedral, como sentido de orientação, porque fica perto do hotel e já cá estou de banhinho tomado e exausto de tanta emoção.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Luis Filipe de Abreu



Conheci o Artista Plástico Luís Filipe de Abreu numa viagem que acabei de fazer pelo norte de Espanha, até aos Picos da Europa.

Homem alto, hirto, de barba e cabelos completamente brancos, de tez vincada e olhar sorridente, pareceu-me uma pessoa simples, uma figura normal e anónima para mim até àquele momento.

Logo depois de perceber quem era através da sua esposa, reconheci logo ali um sentido proeminente de humildade e carácter, muito raros em pessoas com tão elevado nível intelectual e de posição social.

Dirigiu-se-me então, de uma forma extremamente simpática, e elogiou-me pelo facto de eu estar a escrever durante a nossa viagem e lamentando-se de ele não ser capaz de fazê-lo…

Agora que a viagem terminou vim conhecer e saber quem é, de facto, este Homem fantástico que conheci e fico simplesmente deslumbrado, privilegiado e honrado por ter partilhado com ele e sua esposa - igualmente fascinante pela simpatia - alguns agradáveis momentos que jamais vou esquecer.

Vejam quem é este notável pintor, os trabalhos maravilhosos que fez e que faz e o quanto honroso foi e é para mim ter merecido a sua simpatia.

Muito obrigado!

domingo, 15 de julho de 2012

O' MAN IN RED


Um pouco da minha imagem, para subir minha auto estima...


Sim, não tenho das melhores imagens que há por aí; não sou nenhum galã


mas é o que se pode arranjar. Se eu fosse rico tinha alguém para tratar destes assuntos; como não sou dou o que tenho.

aqui há mérito da fotógrafa: a Celina


e vamos terminar por hoje.Beijinhos e abraços para todos.


já agora uma foto da produtora... em baixo

Na minha vida há duas mulheres que eu amo. Esta é uma, a outra vem a seguir que, por acaso, é a primeira.

Sou um homem de sorte, não sou?

mas como já sei como estas coisas funcionam, vou acrescentar aqui uma outra pessoa muito especial para mim: o meu terceiro filho que por acaso é o segundo... e de quem também gosto buééééé.




Tá bem assim?





terça-feira, 3 de julho de 2012

MEMÓRIAS Páginas Diário 2011 (1º semestre)

Para não defraudar os meus inúmeros seguidores (...) anónimos que vêm aqui à procura de inspiração (...), vou transcrever algumas daquelas que eu considero as minhas melhores páginas do meu Diário de 2011. É num período em que ainda buscava a felicidade e que agora recordo com nostalgia. Motivei-me com a frase que ouvi a alguém e que diz "o talento dá muito trabalho". Pois é, não basta querermos ter projecção e sermos reconhecidos, é preciso trabalhar para isso. Sem trabalho não se vai a lado nenhum. 

21 de Janeiro 2011 (Miratejo, 22/1 02:10h)

"Desafios"

A noite avança intrépida desafiando o meu sono que me abandona em pensamentos que me castigam e magoam. Não, não sou vítima, mas intérprete de um sonho que já não existe e que me flagela em cada piscar de olhos. Tento adormecer, amordaçar-me para sentir se é verdade ou mentira que alguma vez fui feliz. É um passado que me rasga por dentro, me amaldiçoa, me faz ainda chorar a espaços sem querer voltar atrás. Já nada faz sentido, perderam-se os caminhos, as luzes, as ilusões, tudo se apagou. A realidade agora é outra e é essa vida que eu tenho para viver. Sim, perdi minha vida, estou no lado obscuro, deixei o jardim florido, o céu, para cair não num inferno porque seria injusto, mas desci à terra, ainda que aos trambolhões e estou aqui ainda meio atónito por isto me ter acontecido. Pensava que tinha um amor para toda a vida e entreguei-me a ele de corpo de alma. Afinal, ninguém me avisou de que estava enganado e iludido porque afinal era apenas um amor emprestado. Perdi tudo o que tinha, vivia num paraíso, no sonho de que era feliz. Acordei agora e dói esta realidade que me mata todos os dias um bocadinho, mas é com esta dor que eu tenho que viver o resto dos meus dias.Só a morte é irreversível, mas como um copo de cristal partido, não há forma de voltar a beber por ele, nem que fosse possível juntar todos os cacos. A vida vista assim parece-nos injusta e por isso minha mãe dizia que a sua vida não tinha valido a pena. Perdoa-me minha mãe e meu pai.
(alusão ao facto de não ter sentido um "aviso" dos meus pais falecidos à minha entrega total a um amor que me traiu).
Carlos Alberto

7 de Março 2011 (Miratejo, 20:15h)

"Mau para ser eu"

Tentamos remar contra amaré, sorrir quando temos vontade de chorar. E desafiamos a vida. Não valemos nada e atiramo-nos contra os outros. Somos maus. A vida tem que ser mais do que palavras cruéis que nos ferem os tímpanos. Não podemos descarregar nos outros as nossas incompetências. Estou zangado comigo mesmo. Quero ser melhor, quero ser feliz, quero ser competente. Gostava que a minha incapacidade não ferisse  ninguém. Gostava que as lembranças de mim pudessem ser apenas lembranças boas e não daquele homem agressivo que atira pedras a telhados de vidro. Canso-me, estou cansado. Esgotado de não ter aquilo que quero, de não ser aquilo que devia ser. A minha impotência acaba por não ser não apenas física, mas psicológica, reflectida nos comportamentos que também lesam terceiros. Gostava de ser um melhor homem, melhor colega, melhor amante, melhor amigo, melhor em tudo. Porque não sou bom em nada, senão em ser um fraco. Sim também gostava de ter sido um bom pai, um bom marido, um bom chefe de família. Limito-me a ser uma pessoa que usa estratagemas para sair ileso das lutas que trava. Lutas que não são apenas contra os outros, mas também contra si mesmo. É este homem derreado que aqui podemos encontrar hoje. Não sou uma boa companhia, mesmo assim vou até a casa da Cristina para passar a noite e o dia de amanhã com ela. Na alma levo a mágoa de mim mesmo, a desilusão do que sou, do que fui, do que sou capaz. Ninguém merece um homem como eu, cheio de problemas interiores por resolver e que se atira aos outros como um cão raivoso. Desculpem-me.
Carlos Alberto

8 de Março 2011 (Miratejo, 21:05h)

"Máscaras"

O carnaval foi uma festa. Vestimo-nos a rigor e fomos para a rua. As nossas máscaras destacavam-se das demais, tão diferentes e originais elas eram. As pessoas olhavam para nós e admiravam-se deslumbrando-se com a nossa originalidade e criatividade. Os rostos, os cabelos ao vento, de cores a lembrar o azul do céu e os raios de sol, as roupas da mais fina seda de lantejoulas e berloques a lembrar os reis e princesas de outrora. Fatos de outras épocas relembrando-nos o passado que cortejava a vida. Os sonhos, os bailes, a música valsante com sabor a falsete. Sim, os sapatos nos pés altivam o andar, passo fino e compassado sobre calçadas de flores lançadas ao vento. A alegria agitava-se no ar, crianças por ali ora correndo, ora gritando que vêm lá os doutores. E passávamos em passo lento de quem se sente admirado por todos, prestando-nos vassalagem à nossa passagem. Sim, como foi bom vestir a pele de reis e "condessas" de cima e de baixo, rua acima, rua abaixo na esperança de que um príncipe nos levaria para o castelo encantado da nossa fantasia. Acabei por bater com o braço no candeeiro que se estatelou no chão e acordei. Era quase meio dia, hora de almoçar (...) alguém à mistura, mas que faz bem estar longe porque nos possibilita mais "libertinagem". E valeu a pena ter sido apenas um sonho. Um dia de nada, mas muito bom de paz, amor, bem estar e união. Abre-se um armário e tenho o meu espaço guardado no coração da Cristina.
Carlos Alberto

9 de Março 2011 (Miratejo, 22:30h)

"Para um abraço"

Fui a correr para os teus braços como um amante apaixonado que vai em busca do amor. Vi teu sorriso aberto de quem vê seu apaixonado na esperança de ser retribuído nessa paixão. São momentos que se cruzam no nosso destino por escrever enquanto as raízes crescem e se desenvolvem em ramificações resistentes. É o tempo que nos é dado para descobrirmos do que gostamos, para sorrir do que nos é dado  ou chorarmos pelo que não temos. Sim, eu sei o quanto há por dizer, o quanto fica por sentir, as mágoas que nos rasgam por dentro de passados que nos marcam. E resta o  amor. É bom ver-te, ouvir-te, sentir-te e saber o quanto gostamos. Sei que não estamos no céu, mas o inferno está mais longe. Sei que o verde não é tão verde, mas os morangos são vermelhos e também gosto deles e muito. Pois, é verdade, a beleza! Onde está a beleza das pessoas? Dentro ou fora delas? Já percebi e já escrevi que na maioria dos casos é inversamente proporcional à qualidade humana. Mas Deus não erra. Encontrei-te Cristina navegando rio acima, pelo Douro a fora. Deus nos juntou para nos mostrar algo e é por esse algo que temos que lutar. Não somos talvez o encaixe perfeito, julgamos nós, mas sabe Deus o que é que Ele nos quer mostrar a ambos. Peço-te desculpa de ser quem sou, um homem sem jeito para as cordas da roupa, para os aspiradores, tratar tartarugas ou limpar os simples có-cós dos cães. Mas sou eu, eu sou mesmo assim, um desajeitado, aquele que tu ainda vais gostando aos poucos.
Carlos Alberto

10 de Março 2011 (Miratejo, 23:00h)

"Amor e Raiva"

Palavras enchias na boca com a raiva de quem tem a ânsia de chegar. Cruéis facadas nas costas de quem peca. Sonhos desfeitos em pesadelos de cordas que nos amarram e nos sacodem de frio. São correntes que nos magoam os pulsos, a alma , o coração. Sangue que corre e fervilha pelos poros em queimaduras de sentido ferido. Choram as canções, os gritos, as palmas; os sorrisos rasgam-se em esgares de dor; as vozes soam-nos a murmúrios de espíritos. Vou estar morto e ainda a sofrer das feridas que nunca irão sarar. São espadas de lâminas aguçadas que se atravessam na nossa vida. E nem os sinos a tocar na torre da igreja, as crianças a correrem no jardim, os sorrisos daquelas mulheres lindas que nos olham com ternura e nos fazem mudar de sentido de humor. Sofremos, choramos, sentimos a insensatez que a vida nos reserva. E afinal até acabamos por ser bafejados pela sorte que vem atrás de nós, nos persegue e ajuda a subir os degraus que temos de subir. Somos gente que chora de medo como se a escuridão nos abafasse e sufocasse até à morte. Não, não estamos  a morrer, mas bem vivos. Há no ar a esperança de que o amanhã vai ser mais feliz porque tenho em cima da mesa as flores de que preciso para respirar, para alegrar a minha vida. Obrigado Cristina, dás-me muito.
Carlos Alberto

11 de Março 2011 (Lisboa, 13/3 12:20h)

"És linda"

É o momento sublime. Saio a correr e tento chegar o mais rápido possível. Não me importo do que fica para trás e só quero mesmo é chegar e sentir o momento em que te vejo e te abraço. Olhas para mim a sorrir e teus olhos espalham todo o amor e saudade que sentes. Até podemos estar bem, mas naquele instante tudo o resto se apaga e mais nada interessa. Disparas-me logo as últimas peripécias enquanto eu te pergunto outras coisas mais relevantes, como se tudo aquilo que tens para me contar não fosse mesmo o mais importante. Beijo-te com o amor mais puro que existe sobre a qualidade humana e sorrio para ti como se fosse o meu último gesto. És a razão da minha existência, a força que carrego de quinze em quinze dias quando te vejo e te trago da escola. És o amor perdido, mas que posso ter de vez em quando e apenas em permanência nos meus sonhos. Gosto de ti com a paixão que só um pai pode sentir e abraço-te com a força de uma carícia que se dá sem apertar. É a felicidade espelhada nos nossos rostos, a brincadeira que logo ali começa em trapalhadas onde chego a ser mais criança que tu. E vamos os dois em busca de mais um fim de semana juntos na esperança de nos reencontrarmos de novo. Felizmente que hoje posso partilhar-te com alguém que também gosta muito de ti e que te oferece o mesmo carinho que eu, e que te faz pertencer à família que todos queremos ter. Há um quarto à tua espera, um pijama debaixo da almofada, amor, como se também fosses filha dela (da Cristina). E aos poucos também já lhe pertences um bocadinho. Amo-te Celina.
Carlos Alberto
PS: Li este resumo na altura à Celina e ela escreveu com o seu punho na página "Concordo!"


19 de Abril 2011

"Sentimentos"

(Este resumo já foi transcrito neste blogue, ver Sentimentos)


16 de Maio 2011 (Miratejo, 24:00h)

"Criar uma história diferente"

A paixão é algo maravilhoso que cresce dentro de nós e nos transporta para um universo de sonho. Sentimos. Não sabemos onde está a razão, nem sequer o que é correcto. Só sabemos que amamos. E entregamo-nos de corpo e alma àquilo que é o arco-iris da nossa vida. Mas esta é feita de círculos que começam e acabam num imaginário de pontos que não somos capazes de determinar. Perdemo-nos então num elaborado discurso de amor onde as palavras se confundem e os desejos crescem. Até que há um momento em que, completamente perdidos, nos sacodem e acordamos. Não estamos na cama, nem deitados, não estamos a olhar o céu, nem sequer à beira-mar. Não é o pôr do sol, nem um crepúsculo qualquer. Não há frio nem calor, não há nada senão palavras. E como uma pedra lançada à água de um lago de um jardim plantado no nosso mundo, um círculo e outro e outro se formam, partindo de um nada e crescem, assim as sensações se transformam... E "se criar uma história diferente?" E se o significado é mudar? E se colocarmos uma flor no monitor do computador e pudéssemos reescrever a paixão? Sei o que é amarmos, sou um homem feliz por isso. Os meus sonhos estão na outra margem. Outra história se irá contar, uma história diferente, mais bela entre o acordar de uma manhã  e o deitar sobre um passado que se vive dia-à-dia com o prazer de ter ao lado alguém que compreendemos e queremos que seja feliz.
Carlos Alberto

19 de Maio 2011 (Miratejo 20/5 01:10h)

"Olhar em nada"

As palavras escapam-nos sem sermos capazes de as agarrar. Quantas vezes estes resumos não seriam tão diferentes se pudéssemos  recomeçar de novo (a escrevê-los). Temo que não seja capaz de escrever. Há momentos em que acho que perdi o talento. Falta-me inspiração, aquele olhar que me desperta  a sensação do sol a bater-nos no rosto. Não sei que dizer da vida, das coisas, da paixão que manca rua acima, rua abaixo. Vamos atrás do que não devemos, inspiramo-nos na fonte seca e de onde não brota senão o fel que me queima a boca. Não sei onde está o amor; só sei onde está a razão. Olho à minha volta e vejo as flores murchas. Deito-as no lixo. Já não fazem sentido. Até parece que há no ar uma cumplicidade obrigada. Brinco e já não me apetece. Vou com gosto para o trabalho, sento-me na secretária e sinto o cheiro a perfume que exala da vela acesa. Não há mais nada. Recordo-me dos tempos da juventude em que a paixão se misturava com a razão e não queríamos saber de nada. Os tempos mudaram muito. Convidaram-me para ir para o Brasil. O amigo Mauro telefonou-me. O meu amor não está tão longe. O Atlântico é enorme, basta-me um rio, um corredor minúsculo entre duas secretárias. É o vazio, a Cristina a melhorar o seu aspecto e a querer ir ao encontro de mim correndo atrás de si mesma. E as palavras fogem-nos. Foge-nos o sentimento que nos derrapa das mãos. Somos felizes, queremos ser felizes. Tento ver o que está para além do teu olhar, mas não vejo nada, nem vou ver.
Carlos Alberto 

29 de Maio 2011 (Lisboa, 30/5 23:20h)

"O custo das palavras"

Era uma vez uma manhã. Já era. Quando demos por ela já tinha sido. Acabou. O tempo passara. Não importa como quando as palavras se sobrepõem aos actos. Atos, segundo o novo acordo (ortográfico). Mas eu não quero saber. Acordos, sociedades, só com a mulher e na cama. Foi o que fiz enquanto há tempo, há paixão, há vontade ou talento. Há quem lhe chame também capacidade, como escrever um resumo como se se inventasse a vida. O tempo passa, consome-nos e não resta nada senão a vida que está para a frente. Escrevo o passado, mas ele já não existe, mesmo que o reinvente aqui nestas parcas palavras. Somos nada. Poesia de quadros que rimam para dizer o quanto gosto de ti, mesmo que sejam de uma criança para outra criança.. É bom ver como tudo começa, sentir o que um pequeno coração de dez anos já sofre por amor. Agora imagine-se (um homem) cinco vezes e  meia mais (velho)... Bom, falta a tarde que chega e sobra para o tempo que ficamos em casa. Vivo onde? Sei o que quero. Reparto-me pelo tempo, pelo passado, presente e o futuro que já está aí. É só o tempo de acabar este e já o próximo espreita e diz que estou atrasado. Sim, sim, o prazer de escrever soa mais alto, mas já não é o que era. E só um louco continua a pôr no papel aquilo faz ou lhe vai na alma. Amanhã vai ser chacinado pelo que disse ou escreveu e a memória boa já se foi. Patife! Malandro! Comedor de crianças! Morreu um homem mau. Já se foi.
Carlos Alberto

21 de Junho 2011 (Miratejo 24:00h)

"Estar onde?"

Vivo aqui ou ali? Sou daqui ou de onde? Homem do mundo e de nenhures, caminho errante sabendo que terrenos piso. Cansado ou a correr, feliz ou tranquilo sou uma pessoa que sabe para aonde vai. Ora terra batida, ora asfalto, o sol brilha e a sombra projecta-se sobre os meus passos. Não interessa se é hoje ou amanhã, se o passado custa ou dá para rir. Interessa mesmo é o que nos faz feliz, nos conta uma história, nos aplaude pelos sorrisos, nos beija pelo olhar, nos admira pela franqueza. Que importa se chove ou faz calor. Que vale o tempo se é tão pouco aquele que estamos com a gente que nos ama. E vamos, vamos à pressa em busca desse amor perdido, escondido, na esperança de que não seja tarde e o possamos ver acordado de um dia de cansaço. Que bom que é sentir o amor, ter alguém com quem partilhar o prazer. Lamento, sim, lamento pela Teresa. Como eu gostava de a ver feliz! Ela é uma mulher que não nasceu do lado melhor da lua. Tem sofrido muito e continua a sofrer enquanto luta para ser feliz. Já eu sou um homem de sorte, e quando pensava que a vida tinha terminado para mim e que lutar já não valia a pena, eis que surge uma mulher que não me chamou a atenção, mas que acabei por descobrir por baixo daquela capa de "santa" Teresa de Calcutá, uma "serpente  venenosa" que dá mordidelas que enibriam e nos conduzem a um estado letal de amor profundo. Adoro sentir a sua mudança de pele, suas dentadas que marcam e me injectam um sabor doce de um prazer escondido.
Carlos Alberto

27 de Junho 2011 (Miratejo, 23:55h)

"Dia de cão"

Era uma vez um cão que ladrava, ladrava, mas parece que ninguém o ouvia. Ele uivava, esperneava, fazia-se sentir, mas ninguém lhe ligava nenhuma. Se abanava a cauda todos vinham fazer-lhe festas, se rosnava ninguém se interessava por ele. Coitado do pobre cão que nem se passando por gato conseguia saltar sobre as secretárias, enfiar-se dentro dos armários, esfregar-se nas pernas das mulheres. E, de repente, tudo parece ir abaixo. Cães, gatos, ratos, baratas, aranhas e pintassilgos anda tudo desvairado. Rua acima, rua abaixo, não há sombra que chegue, nem papéis suficientes. Letras de música, digo eu, para quem não conhece uma letra do tamanho de um palácio. De ignorância em ignorância, fuga para os lados, empurra, mais uma forcinha e eis que o sol se vai pondo, o ar vai se amenizando, as folhs já não caem, os cães já não ladram, os gatos espreitam desconfiados  por detrás das janelas e eis que chegamos lá. Restam os homens sentados nas suas poltronas a darem ordens de comando. Somos meros peões, animais de brega, foram-se os botões, os casacos, transpira-se com o calor que aperta. Não temos gravata, nem fato, apenas a humildade de reconhecer que fazemos o melhor possível e que somos poucos para tanto (que fazer). Melhor, melhor, só mesmo na farmácia. O trabalho rouba-nos o sono e parecemos cães a comer aquilo que nos atiram: ossos sem carne que comemos até ao tutano e depois sofremos com as maselas das cáries dentárias...
Carlos Alberto


Terminei aqui este trabalho de compilação. De notar que transcrevi os resumos tal como estão no Diário original e apenas com um ou outro acrescento (entre parenteses) para se perceber o contexto. Naturalmente que a esta distância poderia acrescentar aqui ou ali algo mais, mas preferi não o fazer. Também saliento algo importante que é a forma como escrevo os Diários, isto é, sem recorrer a rede, ou seja, os resumos são manuscritos e se o "português" estiver gramaticalmente incorrecto, não posso fazer nada. Inúmeras vezes me acontece que começo a escrever e, se pudesse volar atrás já não escrevia como escrevi, mas de outra forma. É aquilo a que eu chamo escrever "sem rede", como um trapezista: se falha estatela-se no chão, sem apelo nem agravo. É o risco de continuar, ao longo de mais de 40 anos, a manuscrever as páginas do meu Diário.
Carlos Alberto