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terça-feira, 26 de agosto de 2014

MEMÓRIAS DE 2013

Páginas  do Meu Diário ( 1º Semestre)

Terça-feira, 8 de Janeiro de 2013 (Miratejo, 09/01 02:25h)

“À espera do milagre”

As sombras da noite, as insónias que me invadem o espírito, o silêncio que me percorre o sangue. Deito-me, apago a luz, mas falta-me fazer algo. A meu lado não tenho ninguém. Comigo só mesmo este livro. Escrevo, escrevo sobre ele as memórias do que sou. A morte aguarda-me no escuro e, por isso, fico acordado, à espreita. A mágoa, o amor perdido. Choro, mas porquê? Por quem? Rasgo-me por dentro. Estou farto de ser vítima. Acorda homem! No entanto, não durmo. Olho em volta e apenas sombras, espíritos que me envolvem e me acusam de ser inerte, sem vida, sem paixão. Sonhos e mais sonhos de vida, sem vida. Projectos de amor, de paz, de família; e uma ponte ruiu mesmo por debaixo dos meus pés. Iludi-me no caminho. Errei na estrada. Sofro então por meus filhos, mas levanto-me para lhes dizer que estou bem, que estou feliz, que continuo a ser um homem de sorte, com o mundo todo à minha volta para viver. Não se preocupem. “À espera do milagre” é um filme estranho, de formas estranhas: os crimes que não cometemos, as penas por que passamos e pagamos. A luz, a vida, a paixão, o amor. Quero dormir, mesmo sobre a cama, apenas com um cobertor por cima, como uma mortalha. Quero viver em paz para morrer em paz com todos. Sim, o amor traiu-me e deu-me uma lição. Choro com ela, sofro muito com ela, mas não há mais nada a fazer. Estou no corredor verde e parece que nunca mais chega ao fim. Deus, estás a ouvir-me?
 
Carlos Alberto

Terça, 15 de Janeiro de 2013 (Miratejo, 23:00h)
“A raiz ao pensamento”

Parece que nada acontece e a vida se aborrece. Acordamos com alegria para que o dia nos sorria. Cantamos uma canção mesmo que só cantarolando para animar as hostes dançando e sambando. E na cozinha com tachos e panelas, à farinha, ovos e açúcar nos atiramos, um bolo tentamos fazer e nem que seja experiência ganhamos. E no ar ficou um cheiro a algo que no fogão se queimou, mas mesmo assim saboroso o bolo se foi e acabou. Portanto, meus amigos, há mais para além da vida e do facto de não ficar nada, experiencia-se a feitura de algo (um bolo) e no fim recebemos obrigada. Porque a felicidade nos transcende, tudo nos pode passar ao lado, portanto, mesmo que a mão emende, amanhã será outro fado. Tenho também o gosto de escrever, da escrita; no entanto, não consigo bem viver, mas com a força bendita invicta tudo pode acontecer. Sei que valho pouco, tenho pouca capacidade, mas o gosto de estar aqui ninguém me tira e por esta vontade e felicidade irei até ao fim da minha vida. É certo que é importante termos o eco do que escrevemos, mas mesmo com o pouco que sabemos temos a satisfação de nós mesmos. E aqui fica um resumo diferente, longe do que imaginei, mas significa o que se sente, mesmo que não seja nada do que pensei. As palavras são ditas com a alma e coração e ficam aqui para sempre gravadas com a força da minha paixão. E porque quero ser feliz é como se fossem a raiz.

Carlos Alberto  
 
Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2013 (Miratejo, 23:10h)

“Nos caminhos do sucesso”
Acreditamos que é possível. Pode não ser fácil, mas estamos no caminho certo. A força unida jamais perderá a esperança. E caminhamos, assim, juntos nessa batalha contra o mal. Somos uma equipa à procura de uma identidade e sabemos estar, como já estivemos em repastos de reis, sentados em mesas de nobreza. No entanto, o clima é agreste. Quase que apetece não sair de casa. Desafiar a intempérie é outra afronta. Mas saímos e ali chegados somos quase vinte mil. Vinte mil vozes em uníssono. Há um momento que quase caímos por terra. Como foi possível chegar-se tão baixo? E sofremos. Quando devíamos estar a glorificar-nos, eis que o diabo nos bate à porta. Atónitos, nem acreditamos. Não tivéssemos nós do nosso lado um santo Patrício e estaríamos a carpir mágoas e a desejarmos não sermos de quem somos, desta estirpe sofredora que parece que gosta de ser chicoteada, masoquista, que gosta de sofrer. A chuva cai impiedosa. Parece que o mundo vai desabar. Mas o milagre acontece. Sorrimos à sorte e vaiamos o diabo que se tinha posto à espreita. Um Cosme de camisola amarela que entortava aquilo, como que manietado, que nós queríamos direito. Não, não nos molhámos No aconchego das bancadas varridas a vento e salpicos de chuva pudemos sorrir do milagre e saborear uma vitória arrancada a ferros. E demos graças a Jesualdos e a Patrícios por termos saído mesmo que só com o pecúlio mínimo no bornal. Mas foi o quanto baste, depois de um sofrimento quase atroz. Saímos felizes da contenda e regressámos a casa, mesmo que não seja à beira-mar. Obrigado, rapazes, apesar de pequenos. E viva o Sporting.

Carlos Alberto

Quarta-feira, 06 de Fevereiro de 2013 (Miratejo, 20:25h)
“Tantas, tantas voltas”

As férias já lá vão, mas continuamos a sentir a nostalgia desses dias que ainda perduram no nosso imaginário, a despeito da distância. E seguem-se os reflexos desses tempos, as emoções, os sentimentos, as palavras que se exprimem, os desejos subjacentes que se incorporam, as mensagens que se transcrevem. E estamos no meio de um desabar de sentidos, com emoções ao rubro. Escrevemos poesia e dizemos o que sentimos: agradecemos o amor, enaltecemos a solidariedade, louvamos a amizade levada ao extremo. E ficámos lá. Agora é a vida real, aquela que nos paga, aquela que nos faz viver todos os dias do ano. Esquecemos o passado, acordamos e saímos para a rua. Há trabalho à nossa espera. Aprendemos. Criamos espaço para aceitarmos o conhecimento que se atravessa no nosso horizonte. Passam os dias, as semanas, os meses e nós já nem nos apercebemos da velocidade com tudo passa. Foi no outro dia e já lá vai um ano. O tempo, esse tempo infinito que se esgota para todos. E não vale a pena esperar porque ele nos rouba tudo, a começar pela juventude. Temos tantas ilusões e, num instante, já não estamos aqui. E já estou até a ver alguém a ler esta página e eu já no outro lado do mundo, na zona dos espíritos e a rir-me da ilusão que tinha quando escrevi estas linhas. Construímos tanta coisa e afinal tudo se resume a um leve sopro que tudo sacode a atira abaixo. Mas é bom ter ilusões. Acreditarmos no amor, que nada é fruto do acaso e para estarmos aqui o mundo deu tantas, tantas voltas. E aqui estamos a sorrir...
Carlos Alberto


Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2013 (Miratejo, 14/02 01:40h)
“A escrever”

Escrevo à noite, escrevo ao tempo, escrevo à solidão. Só sei que escrevo, não a quem ao certo, se a todos, não sei, não. Escrevo nem sequer sei o quê, para quê, que. Que raio de conjunção. Eu quero, mas não sei. Só sei que escrevo. Sim, à noite, noite adentro, com a noite como companhia. Triste, sim, muito triste de estar só e cada vez mais só, que até mete dó. Prometi, no entanto, a mim mesmo escrever só alegrias, falar de sorrisos, de pombas brancas a esvoaçar, sem me lamentar. Escrever como coisas boas, mesmo as que sejam más para que pareçam lindas e que a todos satisfaz. A noite é escura, mas posso sempre acender a luz. Lá fora os homens do lixo recolhem os caixotes, mas agora é tudo feito à base de automatismos, sem archotes. E eu estou aqui a ouvi-los, deitado, de luz acesa para ver o que escrevo. Sim já com óculos novos. Estou feliz por ter óculos novos. Mesmo que tenha passado o dia a “gritar” com toda a gente porque os queria muito. Não consegui controlar-me. Peço desculpa agora, nesta hora. Parei para fazer sopa. Comi três tigelas logo de seguida, de vento em popa. Até estou mal disposto, com um nó no estômago. Mas se calhar não foi da sopa, mas do bolo de iogurte que estive a fazer e que comecei a comer sem o deixar arrefecer... Pois, aí esqueci a raiva. Sozinho, sozinho em tudo para tudo, coitadinho. Um feliz infeliz que escreve à noite para o tempo, o sonho, a ilusão que espreita e o sono que se esquece e nem arrefece. Quero sorrir à noite, ao vento, às sombras que aqui estão. Não queria estar sozinho, não. Mas estou. Estou no lugar que mereço, enfiado entre cobertores. Mas não estou a recolher o lixo, lá fora, nem sob a intempérie. Estou aqui a escrever sem tremer.
Carlos Alberto


Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2013 (Miratejo, 19/02 00:40h)

“Na hora dos aflitos”
Nada para fazer, nada para dizer, tudo para acrescentar. A vida, a hora, o sentido, a luz. Palavras que se escrevem apenas para se honrarem compromissos. Como uma espécie de interlúdio antes que cheguem as grandes decisões. A escrita, esse mundo estranho de letras que se juntam e que formam palavras. E estas até podem ser de ódio ou de amor. E a propósito: neste momento estou numa fase em que não sinto amor especial por alguém, além, claro, dos meus filhos e irmãos. Os tios estão longe, nunca me ligaram nenhuma. Os primos estão todos bem na vida e também se afastaram, cada um na sua. Mas quem ao certo se afastou de quem? Pois, restam as palavras. Sonhos que tornamos realidade nua e crua, como na vida. Há montanhas, ratos, Natais, meninos e meninas e há palavras por dizer: ovos, sopa, bolos para comer. Há a cozinha, o tempo que sobra das palavras e nos dispõe. Que bom que é ter na mesa a sopa que confeccionámos: as batatas, as ovas, ovos e cenoura, tudo cozido e regado com um bom azeite e que preparámos. No fim, como sobremesa, ainda há um bolo de iogurte, cada vez mais perfeito. Fome? Já não passaria fome. As conversas com as palavras estão assim a ficar para trás. Só os traumas não. Tenho ainda raiva e acho que vou tê-la até ao último suspiro da minha vida: alguém me roubou a felicidade que tinha e deitou-me para o lixo. Alguém me abandonou achando que tinha muito melhor ali mesmo ao lado, à mão de semear. Deixou-me na lama, a apodrecer. E da lama estou ainda a tentar sair, mas às vezes atolo-me e sofro angustiado pelas palavras que gostava de escrever e que não sou capaz. Sinto-me frustrado pelo que sou e pelo que me tornei. Até quando?
 
Carlos Alberto

Segunda-feira, 11 de Março de 2013 (Miratejo, 19:00h)
“No silêncio das palavras”

Acordo para um novo dia, mas sem esperança de que ele me possa trazer algo de novo. Não tenho nada para fazer e o meu espírito esvazia-se nesse mesmo momento. Todavia, levanto-me, visto-me e saio de casa. Levo uma revista debaixo do braço para ler. Na rua, o clima está péssimo. Chove a potes e empunho na mão um guarda-chuva. No entanto, a manhã já quase passou. Aliás, o tempo esgota-se a um ritmo impressionante. Não damos conta e até ao que nos rodeia ficamos absortos. Chega assim depressa a hora do almoço e na mesa “redon”, além da célebre sopinha que já foi a melhor do mundo. Depois, computador e porcarias. Porcarias e computador. Enquanto isso, a tarde avança, intrépida, fria e chuvosa também. Um pouco de leitura para encher o tempo cinzento. Meia dúzia de minutos com a minha filha mais velha, de manhã e depois do almoço. Ela ainda trabalha. É das poucas pessoas que ainda tem trabalho neste país cada vez mais miserável. Foge-me a tarde. Passo pela padaria e trago pão quase quente para o lanche/jantar. Há mais sopa para comer onde incluo um naco de chouriço de cebolada que a minha irmã me vai oferecendo. (a razão porque gosto cada vez mais dela). Delicio-me. Sabe-me muito bem. E cai a noite, impiedosa. O meu sossego quebra-se com a porta da rua a abrir-se. Já não estou só aqui em casa, mas preferia. A companhia não me trás alegria. Há momentos em que estar só vale mais que mil pessoas juntas. O ruido instala-se e eu preferia o silêncio dos meus ecos, a cor da minha sombra, as luzes do meu torpe pensamento. Sobram-me as fotos de viagens de ontem e de sempre: o meu tempo, o meu espaço. Estar comigo mesmo.
Carlos Alberto

 
Quinta-feira, 25 de Abril de 2013 (Miratejo, 26/4 01:10h)
“Pelo meu país”

Os foguetes ecoaram noite dentro, meia-noite, madrugada da libertação. As vozes do povo ergueram-se e cantaram a liberdade numa canção. As pessoas saíram à rua e os cravos espigaram na ponta das espingardas. Foi uma festa, a alegria, a vitória dos oprimidos sobre os opressores, contra os horrores. Acabaram os presos políticos. Os contestatários foram todos libertados, uma nova canção nasceu, seja em Grândola, seja em Lisboa, nada aconteceu à toa. A minha pátria voltou a sorrir, a minha voz voltou a ouvir-se e já não fui para a guerra e vi-a sumir-se. Aqui e na minha terra, Santarém ou no Terreiro do Paço, a fera sucumbiu ao cansaço. Estive no Camões que se encheu de poetas e esvaziou de ladrões. Lembro-me das fardas da GNR, militares perfilados, em parada, armados até aos dentes, e eu imberbe, de arma na mão, mal sabia o que fazia, não. Não sabia. Acabar com a guerra colonial, salvar o meu país, Portugal, e na fúria de vencer, vi o povo a meu lado erguer, e o medo, o terror de morrer se perdeu, o povo saiu à rua e venceu. Pela noite dentro e durante o dia fui soldado, numa História que nunca se viveria, não fossem homens como Salgueiro Maia, idolatrado. Ainda me lembro naquela noite, acordado, da parada para o anfiteatro em que nos disse ”amigos, vamos salvar Portugal, acabar com a guerra colonial”. Uma noite fantástica e memorável aquela, em cima de uma camioneta, rumo a Lisboa pela madrugada fora soando aquela canção de vitória, ouvida no silêncio, com paixão e alegria contida no medo do que estaria por vir. E de manhã, na aurora de uma novo dia, nascia um país novo que pela pátria morreria. Foi há trinta e nove anos, parece que foi ontem.

Carlos Alberto

Sexta-feira, 21 de Junho de 2013 (Torre da Marinha, 22/6 01:45h)
“E deixa-nos a noite”

Escrevo à noite, ao que resta dela, ao silêncio deste quarto, na penumbra da luz que me inspira. São os sentidos da alma, a nostalgia da escrita, o momento imediatamente antes de me deitar para baixo, de deixar cair a cabeça sobre a almofada, deixar-me ir na onda dos sonhos e descansar. É a hora de dizer até amanhã. Hora, no entanto, de deixar primeiro o testemunho, a mensagem de que houve vida, há vida e também paz. Sim, há tudo isso, mas falta algo: falta o amor; e esse só existe aqui nas palavras que transcrevo. Na minha alma há, no entanto, essa frustração. Não fui capaz de cativar, de guardar para mim algo que eu merecesse, esse carinho essencial à vida dos seres. Mas não foi só aí que falhei. Não fui capaz de muita coisa, não fui suficientemente competente. Por outro lado, achei sempre que o tinha sido, que procurava ser melhor em tudo o que fazia, mas afinal estive enganado o tempo todo e errei nos meus critérios de avaliação. Todavia, “o bem não está perdido”. Encontro então, na esquina, a gratidão de outra gente que me apoia e ajuda e me dá um pouco do ânimo de que preciso. Pode até ser um encontro de trabalho, mas até isso é bom e reconfortante nos tempos que correm, tão difíceis estão os dias de hoje para a maioria das pessoas. E afinal não somos o centro de nada, como pensávamos, a não ser de nós mesmos.  Sim, é bom ter trabalho. É bom sair de casa e cinco minutos depois estarmos sentados num escritório à secretária, diante de um computador. Como seria bom para mim que o trabalho fosse permanente, que tivesse a ajuda que preciso. Mas infelizmente, não é assim, tudo é temporário. E resta-me aqui nesta noite silenciosa escrever e o sentir da minha respiração que agora se acalma e preparar-me, enfim, para mais uma deliciosa noite de sonhos...

Carlos Alberto

 PS: Fiz, como habitualmente, ligeiríssimas alterações muito pontuais nalguns textos. Por outro lado dizer que estes resumos são páginas manuscritas que estão lá para trás no tempo e valem o que valem. “Não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe”.

terça-feira, 18 de março de 2014

ENERGIAS

Esta podia se a página do Meu Diário de hoje.


"As palavras cruzam-se no infinito do seu paralelismo e colidem numa luz que as desperta na razão da energia que transportam. É o inexplicável no presente físico explicável. Dirão uns: acaso, destino; outros, obrigação, sentido da vida. E cada um parte seguindo o seu caminho sem perceber bem o porquê. Atraídos ou não, escolhidos ou não. Razões indefinidas pelo tempo que as descobre e envolve numa manta de retalhos que somos cada um de nós.
 
Não há cansaços, não há angústia, apenas uma direcção para seguir e partilhar na esperança de que chegaremos ao fim incólumes. Uma jornada de virtudes, com medos e receios que se vão ultrapassando em cada dia da viagem. E que nos espera lá à frente?
Paramos, observamos, avaliamos: absorvemos o que nos rodeia e inalamos os odores que se espalham. Serão verdades? Serão mentiras? Que futuro? Perguntas com respostas já dadas ontem, no passado. Mas não as conhecemos intrinsecamente. Experimentamos ouvi-las nos ecos que nos chegam e desafiamo-las, ou não. Valerá a pena?
É a busca da felicidade que está em causa, afinal. É isso e só isso que nos move, que procuramos nas palavras, nas sensações. Mas o que haverá para além da força que exala de mim? Que energias me puxam para seguir este caminho e não aqueloutro? Sei, não sei.
Mas eu vou. Vou sempre atrás daquilo que me apaixona. Mesmo o desconhecido e quanto mais desconhecido melhor. É o fascínio da descoberta do que é novo.
E caio. E caio outra vez. Levanto-me, tento erguer-me da catacumba, mas já só consigo cambalear. Tropeço em tudo. A vida terá sentido, mas mal distingo os sorrisos. É isso que busco, o caminho da felicidade que talvez só exista nesse infinito longínquo onde o paralelismo das palavras se encontra. Nesse instante, provavelmente, talvez a energia que carrego faça acender uma luz que iluminará minhas trevas. Sim, hei-de chegar lá, a esse interruptor."   
 Carlos Alberto

PS: O texto seguinte foi o resultado de um documento que li e que uma colega me deu sobre "REIKI" e cuja palavra significa:
 Rei: Universal. Representa a sabedoria que vem de Deus, ou do Cosmos, a essência Divina, Sabedoria Universal.
Ki: Representa a força vital cuja energia está presente em todos os seres vivos, ou seja é a força da vida.
 

 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

MEMÓRIAS 2012


Páginas  do Meu Diário ( 2º Semestre)


Desta vez deixo aqui os meus melhores resumos do 2º semestre de 2012, de acordo, obviamente, com o critério que defini.


Quinta-feira, 5 de Julho de 2012 (Miratejo, 23:40h)
“Um amor à sombra”

Encontrei-me numa esplanada da praia. Um livro sobre a mesa e uma bebida que incluía gelo e limão. À minha frente gente que circulava em fato de banho, ora num ora noutro sentido, pelo paredão que me separava dos areais brancos até à água do Oceano, lá ao fundo. Na linha do horizonte há um navio de carga, um petroleiro, daqueles que transportam toneladas de combustível. Há muito sol, mas eu estou à sombra de um enorme chapéu colectivo preto que cobre uma grande parte daquele local aprazível. Não está ali mais ninguém sentado; só eu e o meu livro por desfolhar, poisado sobre a mesa, com o Ginger Ale vertido no copo alto. É apenas um momento de observação. Dali a pouco dou um trago na bebida adocicada e abro uma página marcada, já quase a meio do grande volume que me acompanha. Está um pouco de vento. Na praia adiante há gente espalhada pelo areal, mas não aquela multidão dos grandes dias de calor. Para trás havia deixado já um almoço também consumido à beira da praia com o mar em fundo. Só que aqui não estava sozinho. À minha frente um homem que me chama pai. É boa a sensação. Trocamos pratos que dividimos para saborearmos o que ambos comemos. Aqui é com água que empurramos a comida para o esófago. São ainda dois dedos de conversa sobre assuntos judiciais pendentes. Dou-lhe o meu apoio, atiro-lhe conselhos, ajudo-o como posso. Recebo em troca a refeição que aquele rapaz faz questão de pagar-me. Não quero, mas ele insiste. Tenho pena do meu filho. É um puto que se nota que não está seguro na vida e que não tem certezas de nada. Sinto que lhe faço falta, apesar de ele já ser um homem de 26 anos. Mas os pais fazem sempre falta aos filhos. E os filhos farão sempre falta aos pais. Amo-os a todos e também sinto que gostam de mim. Mas se os filhos não gostarem dos pais quem é que vai gostar?
Carlos Alberto

 
Domingo, 29 de Julho de 2012 (Miratejo, 30/07 08:30h)
“Faça você mesmo”

Domingo, fim-de-semana, tempo de descanso, praia, passeio, convívio, amizades, saídas, oportunidades. Tudo isto e muito mais a preço de saldo. Basta um telefonema com valor não acrescentado e toda a família tem direito ao seu pecúlio. Tão simples. Mas se está sozinho, não esteja! Temos para si a solução com imensas alternativas. Pegue no seu automóvel e dirija-se a uma qualquer avenida marginal. Estacione o carro em zona visível, abra os vidros, ligue o rádio com o som bem alto - não se esqueça dos óculos de sol - coloque o braço esquerdo sobre a janela aberta da porta do veículo e desfrute de quem passa, olhe o mar ou o rio, e goze o momento de pulmões abertos em perfeita harmonia com a natureza humana. Se por outro lado é dos que aprecia mais a calma do campo, vá então até uma qualquer mata próxima de si e estenda uma toalha debaixo de um pinheiro que não tenha ainda ardido e aproveite o sossego e a tranquilidade desse espaço ouvindo o chilrear dos passarinhos que de galho em galho o vão divertindo, esvoaçando e cantando com toda a sua liberdade. Como vê, a baixo custo pode ter tudo, toda a natureza ao seu alcance. Se mesmo assim é dos que prefere ficar em casa a ver a televisão, sempre haverá um bom filme de desenhos animados tipo “Madagáscar”, ou um qualquer jogo de futebol da Ásia entre clubes de que ninguém ouviu falar, ou então imagens dos Jogos Olímpicos. Pois, aproveite a vida, não fique deprimido porque há sempre quem esteja pior: na maca de um hospital, em lista de espera, na sala de observações traumáticas o que é muito mau. Mexa-se.
Carlos Alberto  

 
Quinta-feira, 2 de Agosto de 2012 (Miratejo, 22:10h)
“Tarde de Lisboa”

Nada é ao acaso. A vida faz todo o sentido. E não é em vão que agimos, que realizamos as nossas tarefas, que sentimos frio ou o calor. Lisboa. Uma tarde quente. Gente e mais gente. E eu com tempo. Passeei-me pela baixa. A máquina fotográfica ficara propositadamente em casa. O objectivo era outro. O carro ficou estacionado quase ao pé do Castelo de São Jorge. Que belas imagens se conseguem do Miradouro de Santa Luzia com o Tejo em fundo! Contudo, um rio quase deserto. Para um estrangeiro que contemplasse aquele espelho de água deve ter achado algo de estranho: um braço de rio despojado de barcos, movimento, qualquer faina; estariam de greve? Um cais imenso vazio, sem ninguém, como se o tempo tivesse parado. Restam os telhados vermelhos do casario recortado na paisagem mais próxima, a Igreja de Santa Clara e um olhar transversal por uma cidade de mil encantos. Os eléctricos são também atracção turística, e uma rapariga vê um a aproximar-se, aponta a sua máquina fotográfica e acontece algo inesperado: o eléctrico pára, o guarda-freio levanta o braço, sorri e acena um adeus com a mão enquanto a moça, surpreendida, dispara e fica a rir-se pelo inusitado. É assim a cidade de Lisboa a vibrar e com tempo para tudo. Há uma paz e acalmia nas pessoas que desfrutam da paisagem, e com tempo ainda para ver as inúmeras lojas espalhadas pelos edifícios, muito velhos, daquela encosta do Castelo e que vendem de tudo. O Martim Moniz ficara para trás com um sabor azedo de quem se frustra pelas expectativas goradas de quem espera ser feliz e acaba afinal por se encontrar só com um copo vazio na mão. Salva-se o passeio, o sentir a cidade neste Agosto pleno de Verão, o beijo da minha irmã que me adverte de que devo ter muito mau feitio por ainda estar sozinho, ou então algum defeito tenho. E ela tem razão das duas maneiras. Tenho não só mau feitio como defeito de ser pouco homem.
Carlos Alberto
 

Domingo, 12 de Agosto de 2012 (Miratejo, 13/8 01:10h)
“Parabéns Fernando”

A nossa história é a nossa história. Coisas boas e coisas más, tempos de alegria e glória, tempos de lágrimas e derrotas. Mas estamos vivos. Não somos super heróis, vedetas no mundo, mas temos alma, paixão, sentimos o sol, amamos aquilo que temos. Aquilo que não temos não é nosso. O meu irmão dizia que nós não temos nada, apenas usufruímos as coisas. Pois, é verdade, mas melhor que usufruir é partilhar e é aí que as pessoas pecam: não partilham nada do que têm, nem a sua felicidade. Quando estava nos Açores e via algo maravilhoso, uma paisagem sublime, lembrava-me logo da minha irmã e telefonava-lhe para partilhar com ela aquele momento.  De facto, de pouco nos vale sermos felizes sozinhos e se não partilharmos com alguém a felicidade que sentimos. Eu gosto muito de partilhar aquilo que sinto e sempre partilhei, mesmo aquilo que é difícil. Mas ninguém aprecia o acto de sofrer e vivemos todos na esperança de que teremos amanhã uma vida boa, cheia, barriguinha bem aviada e o resto, à volta, não interessará muito. Se ao nosso lado alguém chora, isso não é connosco. Partilho assim hoje aqui a felicidade de ter um irmão mais velho que virou uma página importante. Chegarmos aos 65 anos é uma meta notável, pode ser o princípio de uma nova etapa, a derradeira, mas não deixa de ser um marco que todos desejamos atingir, com paz, felicidade e saúde. Se tivermos estas possibilidades concretizáveis seremos as pessoas mais felizes e realizadas ao cimo da terra. Se somos capazes de cumprir esse nosso papel, logo se verá se somos.   
Carlos Alberto
 

Domingo, 19 de Agosto de 2012 (Miratejo, 20/8 00:25h)
“Vinte anos é tanto tempo”

Tempo para tudo, tempo para nada. Acordar de manhã depois de uma noite de pesadelos onde fantasmas me sobressaltaram o descanso. Acordei a gritar para dentro, com medo desses ventos frios e estranhos que espreitavam pelas frestas e percorriam deambulantes o quarto e depois se escondiam na noite negra em recantos de fumos cinzentos. Até sinto arrepios agora só de pensar nesses medos gélidos que me envolveram na negritude da noite. Mas não foi apenas uma noite mal dormida; foi uma noite pouco dormida. Vivo hoje muito preocupado com o nada que faço. Não há horas, não há tempo, não há dias nem ninguém à espera. E vivo sem tempo onde o tempo não conta, apesar de nos ultrapassar a todo o instante. Tento, no entanto, acordar, sair, sorrir, sentir. Parece-me que assim algo me espera, embora saiba também que sou eu que tenho algo para fazer. E, no entanto, nada acontece. Não me sinto surdo, nem cego. Não me sinto à espera do nada. Sei, todavia, que tenho algo para cumprir, mas pelo qual não vou atrás. Não me sinto doente, mas medo de que amanhã seja tarde demais. Tenho raiva também, sim, recalcada. Perdi todo o amor que me enchia por dentro. Já não luto pelo amor. Deixei de acreditar nele. Já não quero sequer envolver-me, ir à procura. Sinto-me completamente desiludido e acho que na vida o amor é uma estupidez, porque nos magoa. Tenho também pena, muita pena mesmo, de não ter ido mais longe na minha formação. E hoje não me sinto sequer, por via disso, com capacidade, coragem e ou ousadia de tentar o que quer que seja para ir por aí. Infelizmente, sem amor e sem vontade de lutar, vivo hoje muito mais virado para morrer, mesmo acreditando que posso ter ainda vinte anos de vida à minha frente.
Carlos Alberto


Quarta-feira, 22 de Agosto de 2012 (Miratejo, 24:00h)
“Cheio de nada”

Mais um dia “em branco”. Um dia onde nada acontece e em que somos meros protagonistas da inércia. Não, não estou a dizer que me limitei a respirar ou que para sair da cama, de manhã, tive que pedir licença ao outro pé. Não, nada disso. Na verdade o espaço estava aberto a todo o tipo de encenação. Só tive mesmo de abrir os olhos, reparar que o tempo estava delicioso, tragar um pouco do aroma da manhã e perscrutar o som das gaivotas que me chegava do Sapal. Nesse momento decidi pôr em prática o sentido da oportunidade e saltando da cama, vesti-me a rigor e saí como quem parte para uma batalha. Não, não era apenas uma batalha, mas uma guerra, uma guerra de areia e muito, muito mato que tinha pela frente. Mas sobrevivi: ao calor, à distância, ao lixo que pejava a costa pela beira do rio. Lixo de todo o tipo: natural e de plástico. Cansado, resolvi então sentar-me. Sentar-me diante de mim e reescrever aquilo que é a minha história. A história de um passeio de autocarro onde vou “só”, mas à procura do “lá”, “si” houver. Nada encontro. Não esmoreço, nem me perco. Limito-me então a inventar, pesquisar, sentir como se ainda estivesse lá, embora agora esteja sentado diante de uma página, e mais outra, e já são muitas. É afinal apenas mais uma história, a história de uma viagem, entre outras que certamente surgirão. E assim, o dia que era de nada, encheu-se. Encheu-se também de amigos, de amor, com o amor de filhos e afins, até este momento. Já só me resta agradecer o nada que foi muito e o sentir, o poder ouvir, o poder estar aqui, agora que também não estou só, mas ainda na melhor companhia do mundo, neste mundo.
Carlos Alberto
 

Segunda-feira, 3 de Setembro de 2012 (Miratejo, 20:40h)
“E tudo acaba”

Acabaram-se as férias no Montado. Acordámos, abrimos aquelas enormes cortinas para os primeiros raios da manhã e uma luz brilhante entrou-nos pelo quarto adentro. Uma paisagem maravilhosa de verdes e azul a perder de vista percorreu-nos o olhar matinal. A manhã já acordara há bastante tempo. As cores já não eram tão frescas, mas mesmo assim absorvemos com prazer aquelas imagens e sensações que percorriam em êxtase o nosso corpo, até à alma. Prontos e arranjados, à nossa espera um farto e apelativo pequeno-almoço comido na tranquilidade que o tempo nos permitia. Deliciámo-nos pela última vez deglutindo a gostosa combinação entre o sumo de laranja natural e os croissants com doce. Depois é o passeio habitual entre os greens, tentando sempre fugir às bolas que por ali esvoaçam, como pombas errantes, vindas, não sabemos, de onde. Entre muita conversa que parecia que nunca mais acabava, soltámos algumas gargalhadas de histórias antigas passadas e vividas noutros tempos difíceis, mas não forçosamente infelizes. E a manhã esgotava-se. Passámos, mais uma vez, o olhar pelo lago espelhado recortado pelos patos que em fila indiana por ali se banhavam e sentimos a nostalgia de quem sabia que tudo aquilo ia ficar para trás. Despedimo-nos do Montado e regressámos fazendo um desvio por Setúbal onde pensávamos fazer uma ligeira paragem para uma bebida à beira rio. No entanto, a paisagem da praia improvisada era magnífica e a água límpida atirava-nos, sem nos molharmos, para dentro dela. Conversas e mais conversas que pareciam não ter fim: inesgotável e infindável diálogo que não acabava nunca: histórias e mais histórias percorridas num corrupio de sensações que nos percorrem ainda as veias. Vidas que o passado nos infligiu e nos marcou, mas que não se apagaram com o presente. Finalmente Alfarim. Aqui deixei a minha companheira desta aventura e também o enredo de um filme que ambos jamais vamos esquecer. Obrigado mana Fátima.
Carlos Alberto
 

Segunda-feira, 10 de Setembro de 2012 (Miratejo, 11/9 01:10h)
“Na penumbra de um tempo”

Eis-me no regresso às origens, inventando um pouco da história possível, recriando aquilo que no inconsciente ainda é consciente, acreditando que nada é por acaso e que este tempo é necessário vivê-lo. E assim se nasce e acorda para mais um dia admitindo que somos poetas, fingidores e que tudo nos é permitido dizer ou sentir, criar ou fingir, como um artista que atira a sua tinta para a tela e, conforme o seu nome, assim o quadro valerá muito ou nada. Erguemo-nos então da cama sobre o édredon, tapados apenas por um cobertor com uma alma cheia de esperança – sendo que as manhãs ainda são frescas – e partimos para um futuro certo e tão incerto quanto a nossa vontade de sorrir. Pois é, não consigo pôr no rosto outra expressão que não seja esta de espoliado, enganado, traído, traumatizado. Mas também não é de agora, fui sempre assim, mesmo nas horas felizes. Eu bem tento escrever outra história, como me pede uma amiga que, ao telefone, se despede com “meu querido”, como se eu fosse um seu bem, alguém que ela amasse sem eu saber. Mas a minha história é esta, enquanto vou sentindo a saudade de ser eu mesmo, com a capacidade de ser homem, ter vontade de vencer e convencer, ter a energia e a força que têm os vencedores e destemidos. Mas fico-me por aqui, em casa, com medo de sair, de ser preso por estar a invadir propriedade privada. Sonho, sim, mas não acredito. Perdi a fé, a coragem, a virtude de achar que era capaz. Destruíram-me e sinto que já não valho nada, mesmo quando alguém ao fundo me diz coisas que um homem gosta de ouvir de uma mulher. Mas já estou longe de tudo, perdido, sem alma para renascer de novo.
Carlos Alberto
 

Terça-feira, 25 de Setembro de 2012 (Miratejo, 26/9 01:45h)
“Pela noite dentro”

A noite avança intrépida e silenciosa. Lá fora está a chover. Chegou o inverno impiedoso e triste que nos arranca da mordomia que nos é dada pelo bom tempo. Já não há espaço para sonhos de sol e céu azul ou até cor-de-rosa quando a vida nos sorri. Agora só nos resta a noite fria e ventosa – que leva os sonhos da gente que não dorme – com a chuva a salpicar-nos as vidraças das janelas que temos agora de fechar. É um sentimento de tristeza, aquele que sinto, como se carregasse o peso da infelicidade do mundo. Não quero pensar no prazer que alguns podem estar a sentir e no que eu perdi com o passar deste tempo recente. Porque apenas sinto dor e sofrimento que não se apagam, bem pelo contrário, e que até me despertam e me atormentam quando me deito para adormecer. É uma mágoa latente, que não se explica por palavras, um pesadelo real e constante, embora aqui construído por mim. Sim, têm-se passado pela minha cabeça pensamentos irreais. Posso querer estar no centro do mundo, mas não estou. Estarei apenas na franja de um naperon algures colocado numa mesa de um pobre, sob uma terrina de vida, frágil, também sem brilho e sem futuro. Vivo como que numa barraca com telhado de zinco e paredes de madeira carcomida pelo tempo. Sinto-me talvez comparável a uma pobre formiga, perdida nessa margem descaída à espera de um qualquer abanão, encontrão ou até de ser esmagada antes de descobrir o caminho de casa. Vivo ou sobrevivo, não sei bem, na esperança de ser feliz. Mas nada acontece. Tenho que fazer algo por mim, mas desorientado não sou capaz de fazer. Queria que o mundo olhasse para mim, mas sinto que nem mesmo que me imolasse à porta da igreja, ou da Assembleia ou me atirasse da janela do meu terceiro andar, isso seria relevante para quem quer que fosse. Estou só, dramaticamente só e abandonado nesta intempérie por alguém que eu amei mais do que a mim mesmo. E esse foi o meu maior erro. E quanto sofro, meu Deus, por tudo isso.
Carlos Alberto

 
Segunda-feira, 8 de Outubro de 2012 (Miratejo, 23:10h)
“O meu hiato”

Quero sorrir na contemplação do teu rosto, beijar tua face no desejo de te sentir, conhecer-te aos poucos no gesto da minha mão, calcorreando tuas distâncias. És sombra, és pecado, és música, és passado. És tudo o que não tenho na vida: meu suor que não transpiro, minha camisa rasgada de trabalho árduo e que afinal apenas me conduz à melancolia do silêncio. És meu sopro que expiro no ar que respiro, minha alma infinita que palpita num cansaço que não tenho. Caminho então apressado na pressa de te ver; tropeço na magia de um grito que não ouço, distraio-me depois na ilusão de que te tenho sem te ter e adormeço sobre o sonho ou o desejo de que o sol volte a nascer, amanhã. E o amanhã chega, com um outro nascer-do-sol lindo e radioso, com os pássaros a chilrearem nos jardins, e galos, lá ao longe, anunciando, cada um, a gloriosa manhã que surge. E eu continuo deitado numa cama de palha, ouvindo na solidão de meus lençóis imaginários a canção que me faz de novo chorar. E são estas mágoas que me rasgam por dentro, me cravam de cicatrizes que não fecham – onde o sangue ainda brota – e que transformam, na raiva do que não sou, um passado brilhante num futuro obscuro que me mata aos poucos. Mas acordo, mais uma vez. Mais um dia para viver sem saber o que fazer, que caminho seguir. Dói deitar assim, acordar assim, olhar em volta e não descortinarmos nada além das tábuas verticais que nos fazem de parede e nos protegem do frio, do vento, da noite agreste que nos corrói o espírito. Não, não estou a morrer ainda; é só o tempo de adormecer e acreditar que amanhã será de novo um novo dia e feliz.
Carlos Alberto

 
Terça-feira, 9 de Outubro de 2012 (Miratejo, 22:25h)

“Palavras muitas”

Chego a sonhar com as palavras que me voam na ilusão de que chegam ao destino. E ouço o eco do estrondo que elas produzem no fim de um poço onde se precipitaram em catadupa. Sinto o tempo que passa sobre mim e me vai avisando que devo ter outra atitude: devo cobrir-me com um capuz, agasalhar-me sob um capote, calçar umas botas cardadas porque se avizinham tempos difíceis. Será tempestade? Será fogo? Será vento? Mas deve ser gente. Gente que se ri de mim, da minha fraqueza que é mais do que pobreza. Não, não ando apenas a ler, mas estou tão-só a sofrer com as palavras que tento dizer e que chocam comigo como devolvidas pelo amigo. Falta-me tudo, falta-me amor, sinto apenas dor e daí estas linhas que falam apenas do estertor que sinto em absinto. Mas ainda, tolo, acredito. Tenho que acreditar que um dia ainda vou amar. Os meus sonhos não podem ser em vão. Acredito que tenho de fazer algo pela arte, pela sorte, agarrar pela minha mão, à parte, a vontade, o querer, a força de um poder, nem que seja sobrenatural, de outro mundo, mesmo que não se transcreva num jornal e não me deixe moribundo. Quero viver mais, sorrir e ser feliz, embora não saiba como, nem onde, nem com quem, mesmo que sem vintém. A vida não se pode esgotar assim, neste vazio e sofrimento em fim. Tenho que ganhar alento, voltar à vida, crescer e florir de novo com um sorriso rasgado, amor desfolhado, cantando canções de alegrias, fantasias e paixões. Sim, a vida é muito mais que meras palavras cheias de boas intenções, palavras que serão somente palavrões, ditas com carinho para não chorar.
Carlos Alberto
 

Quinta-feira, 11 de Outubro de 2012 (Miratejo, 23:00h)
“Resumo de palavras”

Gosto das palavras, mas sei pouco sobre elas. Conheço algumas com as quais me dou muito bem, mas há outras que, como têm a mania, nem me chego a elas. Tenho umas que me são mais próximas e que até as trato por tu; por outro lado também há por aí outras que são umas esquisitas e que nem se dão bem comigo. Mas eu também não as procuro. Sinto-me confortável com aquelas com as quais me cruzo no dia-a-dia e sou feliz com elas, e adoro-as. Evidentemente que os meus horizontes com as palavras também são curtos e eu não as conheço todas nem domino as suas áreas de influência. Por isso há palavras que escolho, porque gosto muito delas e que prefiro tê-las do meu lado. Palavras que uso todos os dias, sem constrangimentos, que me preenchem a alma, me trespassam os tecidos e se me alojam tranquilamente no coração. Gosto daquelas simples, que se juntam a outras simples, que toda a gente entende; que falam – mesmo com uma pronúncia qualquer – mas que nos pertencem, com as quais nos identificamos. E é bom adormecermos com elas, mesmo ao nosso lado, em cima ou debaixo de nós, mesmo que encadernadas num amontoado de livros. E admiro-as, conversando com elas todos os dias, vendo-as juntinhas, todas certinhas e alinhadas, apelando ao amor, à ternura, ao carinho. Sim, também há palavras más, feias, que nos agridem, mas essas eu tento contorná-las; finjo que não as conheço, embora às vezes me atropelem os pensamentos e me atormentem a cabeça. E há muitas por aí. As melhores são mesmo as mais doces. Também gosto das que falam de justiça, de paz, de amor. Obviamente que também há umas que são mais atrevidas e que nos falam de sexo. Essas são, provavelmente, as melhores, as mais apelativas; mas coro só de pensar nelas e evito-as porque me excitam e esqueço-me de quem sou e transformo-me nelas e passo a ser as próprias palavras que engulo ou regurgito no prazer delas.
Carlos Alberto


Terça-feira, 23 de Outubro de 2012 (Miratejo, 22:05h)
“Fuga para a frente”

Colocamos a mesa para comermos o prato. Lavamos as mãos, penteamo-nos e vestimo-nos a rigor, de acordo com a solenidade do momento. Está tudo a postos para recebermos os convidados. Não há velas acesas nem odores honoríficos no ar, mas é como se houvessem. O vinho está na mesa a respirar pronto a ser absorvido e o ambiente propício para gozarmos o prazer daquilo que seria uma boa refeição. Só que à última da hora, perante a relação prato confeccionado/convidados, perco a vontade de comer e finjo que não estou e desisto da refeição. Gostamos de um bom prato, de uma boa febra na brasa e o que se nos depara é um “redon” ou “redondon” que não nos apetece partilhar. E tudo acaba como (não) começou. Desfazem-se os cenários, fecham-se as cortinas, apagam-se as luzes e deixamos cair a parede que nos segura enquanto se instala a desilusão. O sonho, a fantasia, a loucura termina ali naquele olhar que nem chega a ser trocado. Não vale a pena, basta-me de velharias. Gosto muito da carne fresca da juventude e de um espaço claro e aberto onde podemos sorrir num ambiente de pleno e garantido prazer; e não ter na frente um cabelo grisalho, dos anos quarenta, quando o vinho era tão caro, colheita topo de gama, das melhores castas que se produzem e que certamente não seria bem degustado. E assim tudo acabou caindo no silêncio absoluto. Estávamos numa manhã cedo, no princípio e no fim de um dia em que tive de ir à procura de um outro produtor, este também antigo, mas que já conhecia e que prometera uma festa particular por estes dias. E temos que aproveitar enquanto há adrenalina a subir e a descer. A felicidade pode não estar aí, mas é uma forma de me sentir vivo. Se é esta felicidade que procuro? Não. Mas é a forma como me escapo, a minha fuga.
Carlos Alberto
 

Quinta-feira, 15 de Novembro de 2012 (Miratejo, 16/11 01:35h)
“Dia da véspera”

Cá vou eu noite adentro usurpando a madrugada do meu dia, fugindo também às vésperas do tempo que já vivi. E cá estou eu iludindo as palavras ou o sentimento que elas produzem, tentando inventar memórias de um tempo que já não tenho. Dia de véspera, interessante princípio para uma conversa aqui entre linhas, monólogo sem regras na esperança de que as palavras façam sentido. E não entendo nada, não há racionalidade nos actos. Penso uma coisa, faço outra. Apregoo o amor, a paz e depois digo que não há perdão para o mal que umas pessoas fazem às outras. Grito, blasfemo, digo uns impropérios e zumba, sou apanhado. Crescer custa e paga-se caro. Eu mostro uma cara de pau, olhar hirto e sisudo, expressão íntima de crueldade atroz e, depois, choro pelos cantos, encolhido e desesperado como uma criança cheia de medo, embrulhado num invólucro que me esconde da vergonha do que sou. Sim, ainda estou em dia de véspera, no tempo em que aguardo apenas pelo tempo, onde as horas se consomem e se evaporam como álcool à intempérie. Sim, ainda vou sonhando com a ilusão de que tenho a felicidade à minha espera, sentada; enquanto eu, sentado, espero que a felicidade chegue. É este o sentimento, a esperança que me move o espírito, a ilusão que alimenta o meu ego, mas que aos poucos vai sentindo que a véspera se esgotou. E chega pois o grande dia, aquele em que acordamos para a realidade e reparamos que estamos sozinhos. Cresce então uma mágoa que nos rasga por dentro e gritamos no vazio de um tempo por preencher: ai, dói-me aqui! E ninguém me escuta, na véspera.
Carlos Alberto
 

Quarta-feira, 21 de Novembro de 2012 (Miratejo, 22/11 01:00h)
“Palavras ao deitar”

Vou escrever ao amor, aos anjos, ao meu amigo, à saudade, à canção, à paz, ao cansaço, à cama, ao abrigo, aos sem-abrigo, à luz, à amizade, a todos aqueles que não me ouvem, ao vazio, à ternura, à solidão, à brancura, aos leões, às águias, aos amigos do norte e do sul, ao sol, às nuvens, aos poetas e artistas, aos músicos e trapezistas. Vou escrever ao mundo, a Deus, às minhas mulheres e ateus. Vou escrever para todas as coisas, ou gente, porque lhes quero dizer muitas loisas, sempre a correr. Vou dizer-lhes que os amo a todos e até aos inimigos – de quem não me esqueci – e quero fazer as pazes com os bandidos. Vou escrever também à lua, coitadinha, que merece uma palavra lindinha. Vou escrever também ao Papa, ao Presidente, à mãe do Presidente e a toda a sua gente. Vou escrever, claro, se eu lhes puder chegar, mas não acredito que esta mensagem chegue sequer a ecoar... Vou escrever apenas, apenas palavras escritas, sem gritar. Vou falar baixinho porque não é a ralhar que nós fazemos amor. E por isso quero também que me ouçam, que me escrevam, que saibam que existo, aqui neste cantinho do mundo, neste vazio imenso onde a solidão tem uma voz tão profunda que inunda apenas o meu sono e me enche só a mim: de lágrimas, de sorrisos que não tenho, palhaços que não vejo, e de crianças a brincar que não me deixam ver. Vou escrever que gostava muito que me deixassem ser feliz. Vou escrever ainda que gostava muito de ser alguém importante, nem que fosse apenas para uma criança. Sim, sei que sou pai de três belas crianças que eu amo e para quem vou escrever estas palavras: vocês são os melhores filhos do mundo, Cláudia, Pedro e Celina; amo-vos muito; eu é que não serei o melhor Pai que vocês poderiam sonhar ter.
Carlos Alberto
 

Sexta-feira, 23 de Novembro de 2012 (Miratejo, 22:05h)
“Pai e filha”

Estou no centro do mundo. Tenho tudo o que preciso à minha volta e nas proporções necessárias e adequadas à minha homeostasia. Não há chuva nem frio. Está quentinho o suficiente para me sentir confortável. Há luz em quantidade quanto basta para conseguir ler e escrever o que sinto na maior paz que me é possível ter. Há música, vozes de crianças que dizem já não ser, palavras que me aquecem e protegem os sentimentos. Há amor. Pode ser até distante, à distância de um metro, mas é o suficiente para aquecer minha alma e nos sentirmos nos braços e no regaço de alguém a quem queremos muito. E rimo-nos, brincamos, sentimos o pulsar do coração. Nossas mãos estão limpas e acariciam aquela que nós fizemos num leito de amor, algures. Está tudo aqui. Este é o melhor lugar do mundo para estar neste momento. Não me falta nada. As palavras sobrepõem-se. A voz aquece. Não interessa se estamos sentados no chão e se há apenas uma almofada a apoiar-nos. É o amor que aqui prevalece e se enaltece. Pode ser apenas um quarto, um quarto pequeno onde até há algum desalinho, mas é o espaço suficiente onde se constroem carinhos, ternuras, e se substituem os choros ou as lágrimas por sonhos e desilusões assumidas. E há palavras que se escrevem que têm um sentido tão profundo que até os erros nelas contidos têm um sabor de autenticidade pura que as valoriza ainda mais. Uma carta ao Pai Natal aos oito anos afigura-se-me como a melhor dádiva que Deus me deu por ter concebido uma filha que pensa e escreve assim. E nesta simbiose de pai e filha, atrevo-me então a escrever que, com certeza, o Amor terá sempre que vencer e prevalecer.
Carlos Alberto
 

Sábado, 24 de Novembro de 2012 (Miratejo, 25/11 00:55h)
“Um drama antes da comédia”

Os anos passam e, quer queiramos, quer não, vamos ser velhos. E vamos ser chatos, vamos ser casmurros, vamos ter todos os problemas que os velhos têm. E agora que penso nisso, apesar de ser um bom “princípio”, sinto um certo constrangimento. É que nós achamos que temos sempre saúde, que somos sempre jovens e que temos energia para dar e vender, ou que seremos sempre autónomos. O que acontece, no entanto, é que os anos passam e, quando damos por isso, estamos surdos, mal vemos, somos insuportáveis e até cheiramos a velho. Pois é, esta é a crua realidade do que somos e para quem se atreve a desafiar os anos. É este o nosso “inexorável” fim. E foi com estes pensamentos que me confrontei dentro desta noite fria e bastante chuvosa. Atravessámos a estrada e, com o vento, as folhas das árvores entornavam engrossando os pingos de chuva que caíam e nos regelavam a calvície. Junto aos modernos e luxuosos edifícios da larga avenida, lojas de marcas internacionais, de protuberantes fachadas, reluziam para a noite a luz deslumbrante das suas montras. Nas sombras, contudo, vultos informes, de alguns sem abrigo, disfarçavam-se, aconchegando-se debaixo de uns reles cobertores e sobre umas placas de cartão, estendidas sobre o gélido chão de mármore. Uma mulher arrumava no seu canto as almofadas, as garrafas de água e uns pertences muito dobradinhos. Congelei. A minha peça de Teatro era mais à frente e tratava-se de uma comédia, mas estava ali já diante do primeiro contacto com o drama. O drama da vida real. Gente nova, gente velha, descalços, a garrafa de vinho ao lado, os pés enegrecidos, os gorros enfiados nas cabeças. E nós ainda nos queixamos do exíguo e caótico espaço que temos neste quarto, que a cama range e faz barulho, que é curta e os pés ficam de fora. Quase velhos, esquecidos, chatos e para rir, assim foi a comédia, depois de chorar pela realidade que nos colhe e apanha desprevenidos. Avenida da Liberdade, barriga cheia de jantar no bucho, uma comédia e um drama em dois actos. O drama foi verdadeiro. A noite acabou aqui.  
Carlos Alberto

PS: Voltei a fazer ligeiras alterações nos originais, muito pontuais nalguns textos, para lhes fazer alguma correcção gramatical ou dar mais ênfase ao assunto em questão.

terça-feira, 16 de julho de 2013

MEMÓRIAS DE 2012

Páginas  do Meu Diário ( 1º Semestre)


Desta vez deixo aqui os meus melhores resumos do 1º semestre de 2012, de acordo, obviamente, com o critério que defini.
Reitero que é uma transcrição integral do que senti no momento em que escrevi os resumos e que não vou aqui fazer qualquer alteração no sentido de subverter o que disse. Mais uma vez reforço que o que escrevi é apenas o meu ponto de vista e é da minha total responsabilidade.

Carlos Alberto

 
Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012 (Miratejo, 4/1 00:55h)
“Um sonho na viagem”

O amor, sempre o amor, esse cruel sentimento que ou nos faz feliz ou nos mata por estrangulamento. E basta um filme, uma história e as lágrimas enchem-nos estupidamente a vista. Sim, porque chorar só mesmo por alguém que nos faça feliz. Mas aí não achamos que valha a pena. Contudo, quero viver.  O amor é demasiado frio, mas servir-se-á à mesa. O tempo acusa-nos de sermos brandos. A fome come-se com garfo ou com as mãos se não houver guardanapos de pano. Somos seres demasiados espertos para estarmos acordados e adormecemos acreditando que a lua nos transmite em canal aberto. Sim, é verdade, sempre há um oceano para atravessar, mas desta vez rumo ao sul. Já não há nada a oeste. Vibra a noite para os lados do equador, onde as sombras se apagam em fumos de dança. Somos carne, sensação, alegria quando choramos. Poetas à noite fingindo de dia que a escrita é o ocaso da vida. Vamos a correr para os braços da outra, ilha dos sonhos de todos, com a luz da noite a salpicar-nos a vista. Rimos às estrelas que cintilam e pulam, cantamos ao rio que se esvai em alegres rumores de que São Tomé é Príncipe. É a viagem do sonho descoberta de um sopro, como se os mares nunca antes navegados nos sacudissem da letargia de sermos velhos. Não queremos morrer, mas saborear a vida, sorrir para as crianças, dançar ao som de “vai, vai” dentro de mim, ao som brasileiro ou de outra língua qualquer. Quero lá saber; a vida pode acabar depois de amanhã, quero viver intensamente o amanhã com quem quer estar comigo.

Carlos Alberto


Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012 (Miratejo, 6/01 00:30h)

“Livres como os passarinhos”
Escondidos pela sombra da noite inventamos a vida que nos afoga. Somos o que não somos, gememos no silêncio dos murmúrios e explodimos em raiva pela razão que nos acorda. Homens e mulheres num grito de prazer escondidos enquanto um manto de fantasia nos cobre o rosto de vergonha. Humanos, apenas humanos, mas como animais com cio desbravamos caminhos que nos conduzem à luz. Que mal há naquilo a que se convencionou chamar pecado? Sim, não fiz amor à luz das velas, nem acordado nem de forma nenhuma. Essa é outra vertente da paixão que se aguarda, que se vai adiando de hoje para amanhã, como de ontem para hoje. Não há sinais de glória, nem de loucura que valha a pena. Apenas homens, um pau enquanto uma mulher se masturba. Delicia de sonho que nos faz esconder a cara da vergonha de estarmos ali prostrados a sentir o quanto quente o pau duro de um esgoto qualquer. Não, a rua não é o nosso lugar. A cama abre-se em lençóis de flanela. Os joelhos estão no chão que nos sacodem em movimentos repetitivos e cadenciados... Que mulher, meu Deus, que nos abre o apetite mesmo que por detrás as entranhas nos rasguem por dentro. Loucos, loucos até que o cansaço nos atire ao chão e clarividentes possamos voltar a respirar normalmente, sem estarmos ofegantes. É assim a noite da solidão desmedida, do pássaro que quer fugir da gaiola, mas as grades impedem-no. Ainda bem que as grades existem para sermos homens, mas como pássaros, livres de vento.  

Carlos Alberto  
 

Sábado, 7 de Janeiro de 2012 (Lisboa, 23:50h)
“Sporting-Porto”

É uma febre que nos ataca e nos enerva um dia inteiro. Pensamos nisso o tempo todo e a hora derradeira finalmente chega. Os nervos estão à flor da pele. Tentamos abstrair-nos, mas o nosso coração palpita mais depressa. Somos alma e coração, alegria e angústia. Esperamos o momento de saltarmos do maple e gritarmos a pulmões abertos aquilo que a alma nos reprime. Os minutos passam e tentamos perceber de que lado está a força. Sentimos que há alguma diferença, que ela está do outro lado e que a todo o momento o mundo pode desabar. Mas não será o fim. Haverá sobreviventes e não estaremos sozinhos. É a hora de gritar, está na hora de explodirmos. Trememos, trememos, sentimos que vamos desfalecer a qualquer momento. Batemos com os pés no chão, as mãos magoam-se entre si em estalos de falhanços de bolas no poste e gritamos contra nós próprios enquanto alguém se ri atrás de nós. É uma sorte que não chega, um prazer que não temos. Sofremos, sofremos, mas acreditamos que ainda somos capazes. Há ali homens a correr com toda a força e com fé e, portanto, ainda é possível saltarmos de alegria. A lua está cheia, linda lá no alto, a observar-nos. O estádio está a abarrotar, quase todo ele verde da esperança que não conseguimos senão alimentar. Mas o grito, o salto, a expressão máxima do golo, esse não acontece. Vamo-nos contorcendo tentando daqui dar um chuto certeiro na bola e enfiá-la na baliza do nosso adversário. E não há meio de desempatarmos aquilo. E o tempo passa, passa, e quando o minuto noventa chega todos têm razões de queixa e ninguém foi capaz de dar um chuto de jeito. Tudo igual, tudo pior, digo eu, sem ter podido gritar: golo do Sporting!

Carlos Alberto

 
Domingo, 22 de Janeiro de 2012 (Lisboa, 23:30h)
“Sofrimento oculto”

Acordar na Costa, deitar em Lisboa, adormecer no sonho, despertar de um pesadelo. É a vida confusa e difusa de um tempo amargo doce onde tentamos buscar a paz num inferno de emoções. Não sei que fazer, não sei que me espera o dia de amanhã, não sei o que é bom ou mau para mim. É uma mistura de sentimentos entre o querer e o não querer, o ser capaz e o de não ter capacidade, o de sorrir e ser infeliz. Quero que a minha vida seja um projecto real de vida, mas sinto-me amordaçado por um jogo de interesses. Gostava de não me sentir um intruso, mas é o que sinto e às vezes pressinto que não pertenço ao clã, que há reservas. Por outro lado insurjo-me com facilidade contra aquilo que eu acho que é “a miséria de espírito”. Vejo um roto com um saco de dinheiro debaixo do colchão. Sinto-me mal por ver tanta estupidez, ganância, instabilidade emocional. Não sou capaz de diluir o azeite em água nem tornar a água em álcool. Cresço e esmoreço. Tento e não me sinto com capacidade. Dizem para eu ter força, mas há forças ocultas que me empurram para fora. Eu serei apenas uma peça que não pertence à engrenagem e que se vai tentando ajustar: como uma roldana que devia ser de chumbo e é de pau. Vai-se encaixando, sim, até roda, mas um dia vai-se desgastar e vai acabar por partir. Mas por agora serve, gira, acredita-se até que resiste ao tempo, mas eu sinto a minha fraqueza, a minha impotência e sei que não. Porque é que as pessoas não vêem aquilo que é óbvio e que está diante dos seus olhos?

Carlos Alberto
 

Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012 (Miratejo, 24:00h)
“Aquilo que mereço”

E continua o mesmo desabafo, a mesma conversa, a mesma insatisfação. E apetece-me dizer que estou a atravessar um dos piores períodos da minha vida, mas certamente não o pior. E tudo porque não me considero um homem feliz e realizado. Todavia, já o disse, a culpa é só minha. Eu sou o homem que sou porque não fiz mais por mim, não investi em mim, fui passando sempre ao lado daquilo que me desse mais trabalho. Diria que procurei sempre o caminho mais fácil e, por isso, estou onde estou. Podia e devia ter tirado o curso de engenharia, mas também tenho a consciência de que não seria um grande engenheiro. As obras, por muito estranho que isso possa parecer, não são o meu forte. Se gosto do que faço e se faço o que gostava de fazer digo, redondamente, não!!! Mas não sou capaz de dizer que me daria bem nesta ou naquela área. Direi que sou um falhado geral, um projecto adiado, sem uma competência numa qualquer área que seja. Sou assim um homem que falha em toda a linha e que apesar de ter trabalhado sempre e até ter ganho muito bem, não me especializei em nada, não tenho nada, não construí nada, não sou ninguém. E este é o meu drama. O que é preciso fazer para termos estatuto? Eu olho para o meu irmão e ele tem onde se agarrar; e eu? Sim, tenho três filhos, que serão eles “a minha riqueza”, o fruto dos meus amores. Há quem colecione bens, terrenos, casas, poder; eu tenho o amor, filhos, carinho e muita compreensão de todos face ao homem limitado que me tornei e sou. Enfim, termino como sempre com o que costumo dizer: tenho aquilo que mereço.

Carlos Alberto

 
Domingo, 12 de Fevereiro de 2012 (Lisboa, 23:45h)
“Sair ou ficar”

E o tempo passa, vai-nos consumindo, sem sermos capazes de fazer melhor, sermos outro, sentirmos o quanto vale a vida para além do que somos. E é bom quando acordamos e sentimos o calor e o aconchego de um abraço e um beijo que chega na vontade. Sentimos por instantes o ofegar do outro e gozamos o que é possível num esgar de circunstância. É a manhã que nos acorda assim. Lá fora um frio de rachar. Os gatos espreitam pela janela através dos baços vidros. Levantamo-nos e acabamos por sair de casa desafiando ainda o sol tímido que, no entanto, com a sua pujança vai aquecendo talvez as folhas amarelecidas pelo tempo. Não há mais nada além da luz. O amor já se foi, a paixão, a loucura. Apenas um abraço do sol com a lua que ainda se atreve do outro lado do céu. É uma canção, talvez, o riso pelas palavras, o gesto e a forma. Sinto-me bem no momento em que me cobres as pernas arregaçadas do curto pijama que se me encolhe. Ouço-te dizer que gostas de mim, enquanto desaparece uma fatia de pizza. É a encomenda para o jantar que se pediu ainda a noite mal chegou. Gelado o entardecer. Um filme na televisão que vejo e de que gosto sem apreciar. Durmo pelo meio e acordo com a história quase no fim onde se descobrem os criminosos. É mais um dia, ou menos; com a sensação de que há tanto para viver, para fazer, para amar e nós nos perdemos ali em séries e mais séries e também nas histórias de “era uma vez” a que se juntam a crimes imperfeitos. Perfeitas perdas de tempo que só servem para estarmos juntos em frente da TV.
Carlos Alberto

 
Sábado, 25 de Fevereiro de 2012 (Miratejo, 23:30h)
“Solidão”

A solidão, as lágrimas, o rio, a brisa da tarde, as gaivotas, os veleiros, os pássaros sobre o sapal, a nostalgia do tempo, a areia, as conchas, os barcos, o céu azul, os namorados, as árvores, as palmeiras, o caminho de terra batida, o sonho, a luz, a vida, as fotografias, o tempo, o passado, o presente, a música, o outro lado da margem, a cidade primeiro, a vila do outro lado do sapal. Os pardais, as árvores caducas sem folhas, outra vez aqui as palmeiras, o pneu pendurado atado numa corda grosa de sisal - com que se amarram as grandes embarcações - a um ramo de um velho pinheiro. Os armazéns velhos e meio destruídos recortados na paisagem maravilhosa do entardecer na baía, o tempo... A maré a encher, as gaivotas a perderem os bancos de areia nas suas temporárias ilhotas que emergem das águas do rio. Os velhos cacilheiros, os catamarãs, o meu tempo num livro, numa revista que se desfolha sem ler, o meu automóvel. Apenas eu e o meu mundo iluminado pela literatura. Turvam-se os olhos por instantes na areia enquanto as ondas vão trazendo o rio margem acima. Sobra o lixo, os paus, as canas, garrafas de plástico e os milhares e milhares de conchas de todos os tamanhos e feitios. Sonhamos, acordamos, temos pesadelos. É a tarde na solidão da vida, o que nos sobra quando não temos ninguém. E esperamos. Espero pela minha filha Celina que vai chegar: é tudo quanto me resta, para a ouvir falar, falar, falar dos seus amores, salvadores, do gostar e amar na versão mais poética e sincera de que um ser humano consegue, sem hipocrisia. Resta-me agora este tempo com ela, enquanto o sono já me embala, a noite que já nos abraça e, mesmo que a cama seja pequena, para o amor há sempre espaço.
Carlos Alberto

 
Terça-feira, 24 de Abril de 2012 (Miratejo, 25/4  12:50h)
“A frustração de uma vida”

A sensação que tenho é que há um país perdido para aquilo que são os direitos fundamentais de um povo. Eu não sou ninguém, nunca fui ninguém, mas sinto-me sobretudo “injustiçado” por aquilo que é a minha actual situação neste país. E sou um homem frustrado. Um homem que apesar da sorte que sempre tive em sair incólume das pequenas lutas que travei, sinto-me agora, quase no fim da minha vida, como aquele homem que teve nas suas mãos a possibilidade de ganhar a taça e ser o verdadeiro campeão e, no momento decisivo, falhou o penalti que lhe daria não só a consagração da sua vida, mas da vida de todos aqueles que o rodeiam. Sou por isso hoje um homem fragilizado pelas consequências, quer das minhas atitudes quer dos actos daqueles que nos governam. E talvez por isso e de uma forma inexplicável, chego à noite e não consigo dormir. Passam a uma, as duas, três e quatro da manhã e de televisão acesa debato-me contra o sono que me desperta. Provavelmente não estou bem e a minha instabilidade reflete-se neste estado de espírito estranho que não me beneficia. Primeiro tento ou durmo na sala deitado no maple e, por fim ou depois, numa pequena cama de corpo e meio, sem a abrir, num pequeno quarto, por cima da roupa e apenas tapado com um cobertor que improviso. Olho à minha volta e vejo-me então no quarto que foi da minha filha mais velha. Mas a sensação não é boa, e sinto-me num espaço com o qual não me identifico porque não tem a ver nem com os meus ideais e padrões de vida, nem com aquilo que eu sonhei para mim e que até já tive no passado. Sou, por isso, um homem desgastado e frustrado para quem a vida se perde nestes labirintos de sentimentos e também de alguma inglória. Irei, no entanto, sobreviver, não sei é até quando.
Carlos Alberto



Terça-feira, 8 de Maio de 2012 (Miratejo, 9/5 00:45h)
“Vales zero”

Sempre me achei um homem especial e diferente dos outros homens, é verdade. Essa diferença comecei a senti-la na tropa quando reparei que os meus gostos e interesses eram diferentes dos outros rapazes da minha idade. Todavia, integrei-me e daí a pouco acabei por tornar-me pior que eles. Até lá, no entanto, eu era mesmo um tipo demasiado certinho e organizado. Eles jogavam à batota e bebiam; eu lia os jornais e escrevia. Eles gritavam, berravam, digladiavam-se; eu no meu canto, não chateava ninguém. Cresci, então assim com este sentimento de alguma distância e diferença da maioria. Também achava que era um tipo muito honesto, trabalhador, amigo do seu amigo e de toda a gente. Extremamente tímido, houve um momento que achei que nunca seria capaz de ter uma namorada. Apareceu então aquela que seria a mãe dos meus primeiros dois filhos e casei-me com ela, não fosse ainda ficar para tio. Já tarde, a chegar quase à terceira idade, eis que me apaixono verdadeiramente por uma mulher que eu achava que era a minha cara-metade. Era, mas foi o meu lado podre dela. Mas, mesmo assim, valorizei-me como homem. Com ela tornei-me muito mais poderoso e seguro de mim. Achava-me o homem mais feliz do mundo. Até ao momento em que me empurrou do comboio em andamento em cima da ponte. Caí ao rio, vim parar à água e lá se foram as peneiras e a mania das grandezas. Qual melhor, qual diferente dos outros, qual carapuça: um parvo, um estúpido foi como me senti. Mais tarde tentei uma segunda hipótese, que seria a terceira, pois achava que seria bom fazer uma reciclagem. Consegui ser feliz por instantes: entendia até que voltava a ser especial para alguém, diferente dos anteriores, insubstituível, mas, catrapumba, lá vou eu de novo ao charco. Qual especial, qual quê: um banana, alguém que não vale um caco. E, de facto, não fiz nada para evoluir. Acordo e deito-me sem construir nada de relevante. Ou será que este pouco justifica algum mérito e valeu a pena?
Carlos Alberto

 
 
Segunda-feira, 18 de Junho de 2012 (Miratejo, 21:40h)
“À procura da ilusão”

Começa uma semana, mas nada muda. Os dias como que se repetem. A diferença pode estar na nossa atitude, na diferença de sermos diferentes, onde os limites se tocam e se projectam num infindável eco de emoções que nos farão vibrar. Mas estamos ainda no campo das hipóteses. A nossa vida enche-se e esvazia-se quase no mesmo ritmo. Se procuramos uma identidade ela aí está. Não sei o que é que vai na alma daqueles que buscam um outro sentido para as coisas que os rodeiam. Eu quero viver, gozar a vida, mas sem fazer mal a ninguém. Eu nem sou vítima nem caçador. Nós escolhemos o nosso caminho em função das encruzilhadas que encontramos. E basta apenas um momento, um descargo de consciência e tudo muda com um gesto nosso. Mas não há nada de novo que se inclua aqui, para já, senão um projecto novo de vida. Uma hipotética relação que nasce ou morrerá na ilusão do acontecer. E hoje é até dia de festa, mas não para mim. E fico-me por aqui entregue à ilusão do que pode mudar amanhã na minha vida. E lá vamos nós para mais uma semana na esperança que nos dê algo de novo e diferente, mesmo que o novo não seja na verdadeira acepção da palavra. Mas o que quero é apenas gozar a vida, mesmo que seja em sentido contrário, dando em vez de receber, num jogo maléfico de que o proibido é o fruto apetecido e o sonho é apenas o período de um momento que se usufrui gostando. Mas nada é garantido e a ilusão pode dar lugar à frustração e à desilusão. Quando as expectativas são muito grandes, normalmente o cesto sai furado...
Carlos Alberto

 
 
Terça-feira, 26 de Junho de 2012 (Miratejo, 27/6 09:40h)
“Qual lenda da mitologia”

O cansaço invadiu-me o corpo, e a alma, repleta de sensações partiu para um descanso prometido e desejado. De facto, ainda me sinto anestesiado. Escrevo, mas a mão treme-me como se eu tivesse acabado de cometer um homicídio. Estou nervoso e inseguro. Se esta página servisse para me incriminar de um acto ilícito, seria absolutamente possível encontrar nela indícios de que algo de muito anormal se passou. Estou ainda transtornado depois do longo sono que fiz. Mas estou seguro de mim. Os meus alibis são perfeitos. Não há nada que me impeça de ser quem sou, aja como ajo e seja aquilo que sou e penso. Eu parto em busca de mim, como um guerreiro em busca da vitória, ao encontro daquilo que pode ser apenas mais uma batalha que se trava com prazer. Não o prazer do sangue, mas do físico das entranhas que se penetram em esgares de gozo assumido. No deleite de um sofá ou no chão sobre um tapete e ao fundo imagens do Oriente, África, mesmo que o mar esteja longe, pode ouvir-se na nossa imaginação o turbilhão que se enrola e nos degola até mais não. Percorremos quilómetros na esperança de irmos ao encontro daquilo que não as nossas convicções sobre os homens e as suas paixões. Sem medos, traumas ou tabus, sem danos colaterais, partimos, para chegarmos exaustos de uma contenda, como num diálogo de titãs, aqui retratado e que neste momento já nada é mais do que pura história. Recordo-me das lendas, dos mitos, qual Rei Artur do século VI de conquista em conquista em que não se sabe onde começa a verdade e acaba a lenda. Até lá vamos tentando ser felizes, acreditando, e encontrar nos momentos as razões do que somos e porque lutamos sendo assim. Amanhã será futuro, o passado já foi.  
Carlos Alberto

 
 
Sexta-feira, 29 de Julho de 2012 (Miratejo, 21:55h)

“Lágrimas efémeras”
Não sei que dizer, a não ser que as lágrimas voltaram por instantes. Efémeras também como aquele momento em que pensei e agi de acordo com o passado. E não vou acrescentar detalhes. Sei que quando voltar até esta página até já não perceberei, à primeira, do que estou a falar. Mas ficará assim mesmo. O passado, mesmo o recente, magoa-me e não quero chafurdar nele. Quero ser feliz, preciso ser feliz, não sou, mas hei-de tentar sê-lo. Continuo a dizer que não sei como, nem quando, nem onde, nem com quem, mas hei-de ser, mesmo que a minha fé esteja hoje muito abalada. Acredito, mas, infelizmente, não piamente. Todavia, acho que tudo tem uma razão de ser e que nada acontece por acaso. Acho que tenho o que mereço e se mais não tenho é porque não fiz o suficiente por isso. Sou, é verdade, o resultado dos meus actos e da sorte que tive. Fui muito feliz, um dos homens mais felizes do mundo; considerava-me até abençoado, mas, de repente, perdi tudo o que tinha e de que gostava muito. Estamos todos sujeitos a isso e ninguém pense que tudo o que é adquirido pode considerar-se como um facto consumado. Aprendi isto, da pior maneira, com o que a vida me deu e tirou. Eu achava que dominava, que tinha tudo sob o meu controle, que Deus me abençoara para ter o que tinha. Enganei-me. Deus mostrou-me também o outro lado da medalha: castigou-me severamente e ainda me castiga. Mesmo assim ainda me considero um privilegiado dentro da minha “desgraça”. Estou num quarto que é o espelho daquilo que tenho: um cubículo que apesar de ser o ex-quarto da minha filha mais velha é o retrato exacto do caos que é a minha vida hoje sob diversos aspectos. Sem amigos, afastado de todos, sinto-me muito infeliz.

Carlos Alberto

 PS: Para dizer que fiz ligeiríssimas alterações muito pontuais nalguns textos, ou para lhes fazer alguma correcção gramatical ou dar mais ênfase ao assunto.
Por outro lado dizer que são páginas de sentimentos que estão lá muito para trás no tempo, que valem o que valem, e que hoje seriam escritas com contornos mais positivos. “Não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe”... não é?

"Façam o favor de ser felizes" (Raúl Solnado).